domingo, 15 de março de 2009

Dois Ensaios sobre Literatura

Matéria Poética de Maria João Reynaud e Considerações Incertas de Filomena Vasconcelos são mais dois magníficos Ensaios que a Campo das Letras fez chegar às livrarias. Sendo do domínio público que a editora está em processo de insolvência, é pois de ter muita atenção a estes – e a todos os livros que aqui tenho destacado da Campo das Letras – antes que desapareçam.

Matéria Poética de Maria João Reynaud apresenta-nos três ensaios e quatro estudos. Os ensaios reflectem sobre «a dificuldade do ensino da poesia», num tempo que, segundo a ensaísta, é de «crise generalizada de valores – culturais, sociais, éticos, políticos». O desafio que aqui se lança é, pois, abrir o acesso à linguagem poetológica, quebrar a resistência do leitor àquela que é a «mais condensada forma de expressão verbal»”. A lição apresentada nos três ensaios radica-se na obra poética de Fernando Guimarães, por convocar, refere-se, de forma insistente a figura do leitor, sendo, por isso, um «lugar de doação». Neste último sentido, o caminho ensaístico detém-se nas condições da elaboração da poesia, essa «”cidade inexpugnável” na caleidoscópia miragem da própria poesia.».

Na relação da palavra com “o ser”, aborda-se a dimensão filosófica do homem em Fernando Guimarães, de cariz heideggeriano, e o mito de Narciso (como alteridade poética) no dialogismo interior da sua poesia, mito que assiste a tensão entre um “eu” e um “tu”, este convocado para «ceder o lugar à figura de um Leitor virtual, que se sobrepõe à imagem de Narciso.». Surpreendentemente minudentes, os ensaios detêm-se na linguagem esquiva envolta na espessura do silêncio e no sentido secreto e infinito da poesia, dito assim por Fernando Guimarães: «o anel débil. Deixa que a tua mão se feche. Hás-de /receber apenas um segredo que para ti se torna circular».

Dos estudos, que se seguem aos Ensaios, três focalizam autores - Sophia: Na luz Branca da Escrita, Miguel Torga Poeta / Profeta e Albano Martins: Três breves Estudos sobre os livros Rodomel Rododentro, de 1989, Uma Colina para os Lábios, escrito em 1993 e O Mesmo Nome, datado de 1996. Lança-se ainda um «olhar transversal» sobre o programa da revista Árvore que teve na sua direcção, durante os anos cinquenta António Ramos Rosa e Egito Gonçalves, entre outros.


Considerações Incertas de Filomena Vasconcelos é, fazendo jus ao título, uma viagem de “natureza indeterminada” a conteúdos sobre linguagem, literatura e pintura. No eixo das leituras apresentadas estão a poesia, retórica e da estética ocidentais, ao longo de mais de vinte e cinco séculos de história. Uma «homenagem simbólica a Einstein, que em 1905 publica o revolucionário estudo sobre a relatividade restrita, e a Heisenberg, no célebre "Uncertainty Paper" de 1927», diz a ensaísta. O carácter dúctil e ecletismo da abordagem são avassaladores e raros nos ensaios que por cá se apresentam. Uma surpresa, portanto, imperdível.

São 256 páginas que dão conta do fascínio pelas letras, que vem dos primórdios da Cultura e Civilização humanas, o enigma das palavras por representarem as linguagens do mundo em complexos «jogos de transparência e opacidade». Detendo-se desde os pré-socratáticos, os Ensaios passam por textos fundadores da poética ocidental, como a Poética de Aristóteles, numa viagem até à actualidade. Uma ousadia apresentada assim:

«Na linha de continuidades fragmentárias que une os pré-socráticos a Platão e a Aristóteles, que perpassa por Ramon Llull e, num salto abissal, remete para José Marinho, Derrida e De Man, e ainda para as eternas cumplicidades da literatura, do teatro e da pintura, vemos como a incerteza, essa indefinível negatividade alojada nas entrelinhas do devir, que assola o corpo e a alma dos poetas e dos artistas, que rói o espírito do estudioso na procura e definição do seu objecto, na escolha criteriosa da metalinguagem, é essencialmente afim à que se vai fiando e tecendo ao longo das páginas deste livro, e será também afim à que Heisenberg, a despeito do determinismo de alguma ciência vigente, descobriu como inevitável princípio do mundo.».

© Teresa Sá Couto

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