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quinta-feira, 25 de setembro de 2008

As Uvas e o Vento de Pablo Neruda

Quando passam 35 anos da morte de Pablo Neruda, convoco um dos seus títulos imperdíveis, editado no ano passado em Portugal: As Uvas e o Vento, um compêndio poético de resistência, um documento político e ideológico contra a opressão dos povos, a apologia da luta como razão primordial da existência humana e, por isso, um canto ao amor.

Traduzido pelo nosso imparável Albano Martins, os textos revelam o poeta andarilho que, no vento das palavras, celebra a vindima dos homens. Escritos entre 1950-1953, durante o exílio, em viagem pela Europa e Ásia onde procurou «o melhor dos homens», os poemas são um hino à grande casa humana, à liberdade, sem, todavia, esquecer os que morreram por ela: «Ergamos a taça / pela musa, /pelos que não esquecemos /e pelos que reconstroem, /pelos que caíram /e continuam a viver /em toda a parte, /porque vasto é o mundo /e sempre em toda a parte /caiu o sangue, /o mesmo: /o nosso sangue.». Numa era em que o sentido da globalização cresce em igual proporção ao do individualismo, estes poemas de Neruda mostram que a luta pela fraternidade é a eterna luta do ser humano.

Prémio Nobel da Literatura, em 1971, o escritor chileno Pablo Neruda (1904-1973) – pseudónimo de Ricardo Eliézer Neftali Reyes – escreveu As Uvas e o Vento como crónicas de um viajante que, sequioso, procura o «melhor dos homens», para o cantar. O seu canto é, porém, «uma voz multiplicada que vai cantando», porquanto é constituída pela voz de todos os homens com quem aprende: «pois de que me serviam /a terra, para que se fizeram /o mar e os caminhos, /senão para ir olhando e aprendendo /um pouco de todos os seres.»

Sempre com a alma ancorada na pátria, o poeta fundador do Partido Comunista do Chile escreve a grande e emocionada caminhada pela China, Vietname, Checoslováquia, Polónia, Albânia, Espanha, Rússia, Grécia, Itália, Inglaterra, Hungria, França, e até Portugal. De todos os locais regista paisagens, ambientes, cheiros, cores, sons, faz quadros humanos plenos de densidade engajados numa poesia épica pela intenção com que projecta e medita a condição humana. Se o canto celebra a vitória dos oprimidos, recorda que há que erguer-se a taça também para guardar o sangue dos que na luta se esvaíram:

«A luta não é a água /é o sangue. /Vem de longe. / Há mortos: /os nossos irmãos caídos. /O caminho está cheio de mortos /que não esqueceremos. /E a aldeia /não é simples, /o ar não é simples, /traz palavras, /traz canções, /traz rostos, /traz dias passados, /traz cárceres, / traz muros /salpicados de sangue /e agora /doce é a aldeia, /doce é a vitória.».

Assim, fazer vinho é uma arte que requer boas uvas, e transformar as uvas em vinho não é uma arte divina, mas sim humana. Antes do bom vinho há todo o tempo das leveduras, da respiração, de dádivas, de sacrifícios, de amor. Desfazendo estas com outras metáforas, escreve Neruda:

«Como é fácil quando se alcançou /a felicidade, como tudo/ é simples. /Quando tu e eu, meu amor, nos beijamos, /como é simples ser feliz. /Tu esqueces, porém, /quanto tempo estiveste /sem me encontrar /e quantas vezes /te desviaste /até cair de cansaço. /E certamente /tu não sabias /que eu andava à tua procura /e que o meu coração se ia desviando /para a amargura /ou para o vazio. /Não sabíamos /que se seguíssemos em frente, em frente, /a direito, a direito, /sempre, sempre, /tu me encontrarias /e eu te encontraria. /Vês, assim acontece /aos povos: /não sabem, /não compreendem, /podem enganar-se, /mas seguem sempre /e encontram-se, /encontram-se a si mesmos, /como tu me encontraste, /e então /tudo parece simples, /mas não foi simples /andar às cegas.».

Portugal, «a cítara esquecida»

Testemunha que visita todas as moradas, o errante Neruda olha o Portugal oprimido atrás das janelas dos lares silenciosos, o país que se espraia na ignomínia no Tarrafal, a terra do «tempestuoso cheiro de vinhedos», da «cítara esquecida» que Camões deixou, e lança o apelo da luz:

«Mostra-nos o teu tesouro /os teus homens, as tuas mulheres. /Não escondas mais o rosto /de ousada embarcação /posta nas guardas avançadas do Oceano. /Portugal, navegante, /descobridor de ilhas, /inventor de pimentas, /descobre o homem novo, /as ilhas assombradas, /descobre o arquipélago no tempo. /…/Rompe, /as teias de aranha /que cobrem o teu fragrante arvoredo, /e, e mostra-nos então, /a nós, os filhos de teus filhos, /aqueles para os quais /descobriste a areia /até então obscura /da geografia deslumbrante, /mostra-nos que tu podes /atravessar outra vez /o mar escuro /e descobrir o homem que nasceu /mas maiores ilhas da terra. /Navega, Portugal, chegou /a hora, levanta /a tua estatura de proa /e entre as ilhas e os homens volta /a ser caminho. /Reúne hoje /a tua luz, volta a ser lâmpada: /aprenderás de novo a ser estrela.».

As Uvas e o Vento, Pablo Neruda, Campo das Letras, Porto, Abril 2007

Nota: As Uvas e o Vento é o sexto título de Pablo Neruda traduzido pelo poeta Albano Martins para a Campo das Letras. A editora do Porto lançou, ainda no ano passado, Terceira Residência, pouco depois deste As Uvas e o Vento, e tem a chancela de Os Versos do Capitão (1996), Canto Geral (1998), Cem Sonetos de Amor (2004) e Cadernos de Temuco (2004).

© Teresa Sá Couto

domingo, 14 de setembro de 2008

«Poemas de Deus e do Diabo» nos 107 anos do nascimento de José Régio

José Régio, pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, nasceu a 17 de Setembro de 1901, em Vila do Conde. Sobre o seu nascimento, diria: «Quando eu nasci, / ficou tudo como estava, / Nem homens cortaram veias, / nem o Sol escureceu, / nem houve Estrelas a mais... /Somente, / esquecida das dores, / a minha Mãe sorriu e agradeceu.».
Em 1925, ano em que Kafka publica «O Processo», e um ano antes de ser instaurada a censura em Portugal, Régio tinha concluído o seu primeiro livro: «Poemas de Deus e do Diabo». Começava o seu processo de luta singular com Deus, fazendo da palavra a arma estrídula, com que negou o silêncio da resignação. Enganou-se, porém, quando falou do seu nascimento. Não se enganou a sua mãe: com ele nasceu uma estrela imperecível que continua a iluminar a Literatura – Cultura e alma portuguesas.
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Dialogar com Deus através de Lúcifer
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David Mourão-Ferreira diz que «Régio recorre a Deus quando “incompreendido e escorraçado”. Recorre, portanto, por orgulho – e, sendo como é o orgulho uma característica eminentemente diabólica, Régio dialoga com Deus através de Lúcifer. Esta será, talvez, uma das maiores originalidades da sua poesia, a mais inquietante e a mais fecunda.».
Eduardo Lourenço defende que o verdadeiro interlocutor de Régio é o seu duplo, um sósia real: o diálogo com Deus e o Diabo é «um monólogo transparente entre Régio e Régio».
Por outro lado, o próprio José Régio, em «O Jogo da Cabra Cega», dá-nos razões do seu processo e da sua clarividência: «Vi que, ao longo dos meandros da minha corrupção e fraqueza de homem, transportava intacta a minha até então mal conhecida, mas nunca ausente, necessidade de qualquer coisa que me ultrapassasse… Assim, através do conhecimento de mim, se me revelava a humanidade. E assim se me revelou Deus!».
Com efeito, a poesia de Régio, um dos fundadores da revista Presença (1927) e o seu principal animador, desenrola-se criticamente na relação do Eu com a existência e com a existência de Deus no Eu. A relação com os outros, os que lhe volvem a cara, «Uma só cara uníssona de todas – / Com sua simples expressão ignara» é de desencanto e lastimosa constatação. A tristeza que daí advém não é, no entanto, um sentimento mole, antes vibrante porque enraivecido.
Sobre a Amizade, o sujeito assume-se desenganado. Isso deixa-o triste e despeitado, com os outros e consigo. Defende que os amigos não se perdem, todavia perdem-se. Logo, se assim é, há que aceitar que não havia amizade. Os que acreditam nela, são «patetas felizes» que «Ainda podem ter enganos, / E tristes desenganos». Conclui-se que o ser humano é débil gente que, por medo da solidão se enreda no embuste: «Nós julgamos perder / Mal se nos abre a mão; Mal a fechamos que julgamos ter. / Somos bem débil gente! / Dificilmente / Podemos encarar a nossa solidão; ou ver que só perdemos / O que jamais tivemos.».
No poema explana-se o cansaço e a frustração existencial, porém com a energia do inconformismo. Ser com nenhuns abrigos, apenas com a imensidão que Deus lhe abriu no seio, o poeta exangue, lança a tudo e a todos um longo e veemente Adeus: «Pois bem, adeus! – respondo, enfim cansado – / Tu, que até para negar-me, / Me pedes emprestado / O teu sinal de alarme, /Tu, cuja boca bruta / Nem acusar-me saberia, / Mas que eu fui descobrir, e abrir, como uma gruta / Que, tapada por terra, oculta havia, / Tu nem mereces que eu procure a mão / Que apertarei, mas só a sós comigo, / Sob o mantéu real daquela solidão / a que me condenou teu vesgo olho antigo…// Adeus, adeus, velhos amigos! / Adeus, jovens amigos! Velhos, jovens, todos…Creio / Que o poeta não tem nenhuns abrigos / Senão a imensidão que Deus lhe abriu no seio.».
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Numa Poesia pungentemente humana, é frequente o apelo de Régio ao afago da fraternidade: «Às vezes, quando o ar parece que me foge, / Me falta Deus, ou espanta a nossa condição, / Como os fiéis de outrora, a seus pés, hoje / Dobro o joelho trémulo no chão. / Nem restos de orações lhe rezo. /Espero no silêncio e na opressão, curvado, / Que Jesus Cristo ao seu madeiro preso / Tenha dó de mais um crucificado
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As palavras feitas asas da denúncia
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A expressão escrita veicula o combate pela vida feito pelo Eu poético, é reserva de ar certa que se busca quando a vida o rarefaz. O mal da sua vida surge ditado, derramado no papel, «a pena tinta em fel», atirado de novo para o mundo, «Em que entro imundo, e me levanto puro!».
As palavras são o grito que atesta a angústia, a revolva, a procura do conhecimento de si, o voo da razão da sua existência: «E as minhas asas, – deu-mas / a minha falta de ar / naquela insustentável posição / De inutilmente mendigar / o meu direito ao meu quinhão: / Vinho para me embriagar! / Para me sustentar, frutos e pão. / As minhas asas, – deu-mas / o sinistro clarão que em mim se fez / (Mal eu passava de menino…) / E a cuja luz li todo o meu feroz destino / Pela primeira vez. / (…) / As minhas asas, – deu-mas / A incompreensão inconsciente / De que me vi murado; O amor incompetente / Frustradamente dado (…) E o meu desejo insatisfeito, / De insatisfeito, inchou até aos céus. / Já Tu, meu Deus, / Cravaste o Teu pendão na terra do meu peito.».
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Na complexidade trágica do ser humano há ainda que contar com uma existência que tem que ser talhada única e exclusivamente pelo próprio. Seguir e não seguir ninguém é uma assunção de liberdade, mas também uma solidão na caminhada.
A um jovem poeta ou a outra qualquer forma de vida, diz Régio:
«Que pode, a ti, servir-te o que aprendi por mim? / Que darei eu do que ninguém me deu? / Chegar, nunca se chega! Mas, se há fim, / Cada qual ganhe o seu. // Porque tu é que és tudo! A terra a cultivar, / A mão cultivadora, o arado da cultura, / O grão a semear, / O próprio fruto, – grão da mão futura. / Pois lavra-te, és o chão! Emprega-te, és o braço! / Semeia-te, és o grão! / Floresce, frutifica, extingue-te! E, no espaço, / Pode, amanhã, nascer mais uma ideal constelação…».
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Bibliografia consultada: José Régio, Obra Completa – Poesia I e Poesia II, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa
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nota: texto originalmente editado no site Triplov

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O corpo e o chão em Eduardo White

«Lembro-te: alguém no amor precisa de estar nu para mostrar ao outro que está demasiado vestido.». Assim abre e fecha o pequeno, mas irascível novo livro de poesia do moçambicano Eduardo White. Com o título sonoro e desconcertante «Dos Limões Amarelos do Falo às Laranjas Vermelhas da Vulva», o autor executa uma odisseia pelas pulsões primárias do corpo e do desejo: em rajadas de linguagem, em alucinações verbais despidas de qualquer pudor, penetra o corpo da mulher africana de cheiro forte, chão da África real e utópica.

São ácidos estes limões, que se acoitam e desamparam nas dulcíssimas laranjas sanguinolentas; é, sobretudo, uma poética de extrema solidão tecida com um método dramático, repleta de raiva e desespero, ou não fosse o amor matéria incerta e fugidia, pleno de exaltação e de dúvidas, de sonho, ilusão e perda. É, realmente, de nudez que aqui se fala: a nudez das intrigas que o desejo tece contra si próprio; a nudez de todas as sensações e todos os frémitos; a nudez dos sonhos e das realidades; a nudez que nos faz sentir, incomodamente, demasiado vestidos.

Nascido em Quelimane (Moçambique) a 21 de Novembro de 1963, Eduardo Costley White tem colaboração na imprensa lusófona e tem publicados, entre outros títulos, "Amar sobre o Índico" (1984), "País de Mim" (1990), "Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave" (1992), "Dormir com Deus e um Navio na Língua" (2001), "As Falas do Escorpião" (2002), "O Manual das Mãos" (2004). Já arrecadou vários prémios literários e foi considerado em 2001, em Moçambique, a Figura Literária do Ano.

Com uma poética atada ao chão do seu país, configurada com densidade amorosa e pujante erotismo que dão conta da «humana meteorologia», White foi classificado por Mia Couto como um poeta que «vive com o coração», que sempre «escreveu para dar a ver.». Trata-se de um compromisso entre o amor e a escrita explicado assim por White: «faço amor contigo como escrevo e só escrevo em plena liberdade e ouvindo os rumores, os arfares, os gritos, os rumores que implicam profundamente essa palavra».

Com efeito, se em White, «cada palavra, cada metáfora e cada imagem criam tremores de sentidos», como diz Carmen Lucia Secco, em «Dos Limões Amarelos do Falo às Laranjas Vermelhas da Vulva» apresenta-se o gesto vertiginoso do corpo do amante, em idas e vindas, que se agita, encontra e esgota no corpo da amada. E a palavra – que nos faz «voyeurs, escondidos nas páginas», como bem refere Reinaldo Ribeiro, no Prefácio – lá está a dizer as «causas profundas da sede», crua, terna, incómoda e, provavelmente para muitos, chocante.

Atesta-se a impulsão do desejo, o beijo, «anel linguisticamente molhado, regado por dentro do macio apaladado das papilas, da dormência dos lábios», o beijo com o qual «pode o falo levantar-se, devagarmente arguto como um embrião a espreguiçar-se» e a «missão de suborno pelas ruas» do corpo da amada, que é também uma incursão pela Pátria; neste sentido, White cria um objecto verbal pleno de elasticidade que atende às tensões, angústias e cicatrizes de um povo, e que lhe serve de grito:

Estou louco, mascarado no nu doido que sou aqui, lambendo-te, poro a poro, pêlo a pêlo, como um faminto indigente;

Cheirar-te desde as vísceras, o cheiro forte da mulher que és quanto mais te entro, alongado, viscoso como um molusco, a apalpar-te metro a metro, tecido a tecido, e a chamar-te nomes que são feios mas que aqui levam o milagre de serem belos e acariciantes;

Este país é tão parecido contigo, (…) E as badjicas, meu amor, as badjicas amarelecidas de tempero naquele pão fortíssimo para cimentar o vácuo do estômago, a fome que de nós se não afasta, se mantém viva, nefastamente teimosa no partilhar o já pouco que cobre as nossas mesas. Meu país suburbano e só urbanizável no amor.

Para Reinaldo Ribeiro, este livro impressiona pela «crueza do desespero a que o poeta se abandona, e da sua impotência perante a imprevisibilidade do Amor.». Cartografando o amor, depois do êxtase no corpo amado há o frio da cicuta, a perda, que não é mais do que a perda primitiva, a que já estava no momento do êxtase: «Pergunto-me: que batalha foi esta tão esmagadora, arrasante de calafrios»; «Chega-me um certo cansaço, um Inverno aberto à insónia e ao crime. Amor, talvez não sintas esse cheiro a medo, este suor peganhento agarrado aos lençóis, este odor a enxofre.».

No combate contra essa morte, está, pois, a escrita, câmara de ecos universais, projecto assumido claramente pelo autor:

O amor, reparo, sangra como um aparo lento nas palavras, apagadas, tolhidas, incertas, ruídas, cercadas e assustadas. Custa-me tanto acreditar no que vejo, nestes escombros ácidos, nestes estilhaços tatuados nas paredes. O ar é pesado e envelhecido, é como um cais mórbido e paralisado, é como se babasse mapas rasgados, bússolas vomitadas, cadáveres enlouquecidos;
(...)
Então, por essa razão, te escrevo não com o fim de que morras mas que vivas eterna para mim, e escrevo-te em esperanto, mandarim, árabe, grego e em outras línguas que não sei desenhar pelo papiro delicado do teu corpo e faço-te tecido e sedas caras com os cabelos que sinto trespassarem-me a carne com maciez e alguidares de barro com argila perfumada e incensos de acácia e madressilvas e cidras que vou espremendo para a minha língua como um peregrino perdido que encontrou a fonte e a frescura da água e o repouso da sombra.

Dos Limões Amarelos do Falo às Laranjas Vermelhas da Vulva, Eduardo White; Editorial Campo das Letras, Porto, Junho 2008

© Teresa Sá Couto

domingo, 20 de julho de 2008

Idades eternas de Mia Couto

Livro de poesia do escritor moçambicano

A poesia capta o instante e solta-o na eternidade. Isso ensina-nos Mia Couto, o escritor e sempre poeta moçambicano, o que reparte o «doce milagre da refeição» da palavra. «A diferença /entre o poeta e a cigarra /é apenas a sinceridade», escreve. A diferença entre os outros homens e o poeta é que este conhece a pele da palavra, despe-a e ama-a, sabe-lhe o cheiro e a respiração, a luz e a treva, e solta-a porque sabe que ela não lhe pertence, que ela é livre e que o seu desígnio é o voo da eternidade. Depois de «Raiz de Orvalho e outros poemas», editado em 1999, e de vários poemas em prosa, que são todos os seus romances, Mia brinda-nos com o livro de poesia «Idades, Cidades, Divindades». E nele encontramos a palavra sem idade, a cidade universal, mestiça e inteira, o esplendor do voo vocabular que, místico e iniciático, transporta tudo o que somos.

Conjugando como ninguém as palavras que todos conhecemos, Mia Couto atinge-nos na liquidez primordial que nos corre nas veias, numa precisão que o próprio Mia desvenda: «fazer da palavra um embalo /é o mais puro e apurado senso da poesia». Talvez o destino de ser poeta nunca tenha estado tão depurado: «Meu vício /é vitalício: comer a Vida /deitando-a entontecida /sobre o linho do idioma. /Nesse leito transverso /dispo-a com um só verso. /Até chegar ao fim da voz. /Até ser um corpo sem foz.». Um vício assim radicado no chão: «Tenho a sede /do embondeiro: /ao invés de beber, /eu engulo o chão inteiro.».

Palavras de duas águas

Duas águas, duas culturas, Portugal e África: por diversas vezes Mia Couto tem abordado esta questão da identidade, dando-lhe forma nos seus romances, defendendo-a como filosofia da sua vida. Trata-se de um património que se transporta e que evidencia um sentido mais lato: não há identidades singulares, o ser humano tem identidades múltiplas, que constrói e reconstrói constantemente. Aliando-se o poeta ao contador de estórias, aquela filosofia é reiterada neste livro, como nos surpreendentes «O idioma» e «O outro idioma. Confira-se:

Silvestre quer saber /porque razão eu estrago o português /escrevendo palavras que nem há. /Não é a pessoa que escolhe a palavra. / É o inverso. /Isso eu podia ter respondido. /Mas não. /O tudo que disse foi: /é um crime passional, Silvestre. /É que eu amo tanto a Vida /que ela não tem /cabimento em nenhum idioma. /Silvestre sorriu. /Afinal, também ele já cometera /o idêntico crime: /todas as mulheres que amara /ele as rebaptizara, vezes sem fim. /Amor se parece com a Vida: /ambos nascem na sede da palavra, /ambos morrem na palavra bebida.

***

Inquirido / sobre a sua fluência /em português, respondeu: /- Tenho duas línguas: /uma para mentir,/ outra para ser enganado./ A professora /ainda perguntou: / - E qual delas é o português? /- Já não me lembro, respondeu.

Na curva do rio…

A água é um dos elementos omnipresentes na escrita do autor de Mar me Quer. Ela esculpe a dor, o amor e o sonho; ela é o princípio, o caminho, o fim; ela é a Espera. Talvez por isto, haja a metafísica de que «temos a raiz num rio /e é por isso que o mar /nos dá a tristeza de um destino»; será também essa a aclaração do segredo do poeta: «todas as noites /me deito num livro /para em outra vida desaguar. /Rio escapando da margem, /margem escarpando um rio.»; e é por aquela mesma razão que escorrem poemas como este:

(…)
Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera

Mas eu deito-me no teu leito
quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.



Idades, Cidades, Divindades, Mia Couto; Editorial Caminho, Lisboa, Setembro 2007
© Teresa Sá Couto