Mostrar mensagens com a etiqueta Campo da Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Campo da Poesia. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

"En la vía del Maestro – Un viaje con Laozi", Casimiro de Brito

(Texto editado dia 01 de Fevereiro no sítio da Orgia Literária)

Pagar a portagem «para o outro lado» com um poema: assim nos chega o poeta Casimiro de Brito no recente En la vía del maestro – Un viaje con Laozi (Na via do mestre – Uma viagem com Laozi), uma via de «escalada interior, / alpinismo puro», vertida no mais puro e depurado silêncio vocabular. É um caminho de despojamento e incerteza, pois só este é válido; são respostas aos 81 versículos do Tao te-King de Lao Zi que o poeta fez ao longo de vinte anos.

Edição bilingue, a presente obra tem tradução espanhola de Montserrat Gibert, chancela da editora espanhola Olifante e patrocínio do Instituto Camões, Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e do Ministério da Cultura. Com 72 anos cumpridos no passado dia 14 de Janeiro, e mais de meia centena de títulos publicados e espalhados pelo mundo, o poeta fala-nos da «água transitória» que somos, de envelhecimento, de experiência de vida, de morte e negação da morte pela palavra, já que a morte não existe no silêncio da poesia.

A partir da nascente antiquíssima do Taoísmo, Casimiro de Brito desenvolve um programa de identificação cósmica do poeta com a natureza para cantar a «baga frágil que vai de viagem», a «árvore ardida», faz o balanço de todo o caminho passado, desvenda «a cal intensa de que é feito um homem», prepara-se para o fim do caminho com o espírito do vale, como Tao o enuncia: recebe todas as águas que nele afluem.

Água, ar, terra e fogo são os quatro elementos genesíacos que consubstanciam um vastíssimo, plástico e rítmico sistema de metáforas da caminhada humana, concomitantemente metáforas da criação artística, a teia do «doloroso prazer da escrita». E se, também na sua teia, «a morte que se aproxima devagar / e não sabe fazer outra coisa», o mesmo faz a palavra contra a morte, transubstanciação da aranha a segregar o seu fio e a tecer a sua teia:

Flexíveis são as aranhas
Que tecem a partitura
Do enigma inicial. Arte
Antiquíssima – tal a do vento
Esculpindo a pedra; arte efémera
Como os terraços da espuma;
Tão próximos do nada. (p. 98)

Ciente de que o caminho acaba, pois é «frágil a madeira / que nos ossos do homem apodrece», o sujeito poético caminheiro desta via reconhece que o «sal do desejo» o cegou e só o «branco mais vazio», o branco da luz do «não-desejo» lhe anunciará o segredo. Cabe-lhe decifrar o enigma, buscar o princípio desconhecido cujo «segredo está na combinação / do barro e do ar»; o objectivo é a harmonia que só começa quando cessar o medo e o desejo, «quando o sangue reconhece a paz das árvores»; o método é a destruição de todo o conhecimento adquirido, o retorno à «mãe das coisas», devolver-se às «águas que passam», render-se «à doce / vigília da chuva»: «a pouco e pouco aprendo a desprender-me / do corpo e da sua ilusão», diz, para atingir o «Doce desconhecimento da grandeza de quem nada recebe / nem conserva», ou, ainda:

(…) assim fossem vazios os meus dias –
vazios e sem retorno como as sandálias
que vagueiam no verão sem saber
se caminham para o norte ou para o sul. (p. 92)

Na conjugação com o Todo para alcançar o Absoluto, o «pescador de palavras», o coleccionador do «rumor da cal», o que ouve a «flauta rouca», funde-se no feminino vocabular de «águas», «loucura», «mãe», «matéria», «seda», «morte», «terra», «dor», «carne», «flores», «bocas», «gota», «maré», dando sentido aos masculinos «o fruto», «o sábio», «o mar», «o corpo», para concluir: «nesse dia deixei de ser osso / separado das dez mil coisas».

Aprender com a Natureza é a divisa: o homem é um rio, e na natureza os rios continuam o caminho indiferente aos homens que «deslizam insaciáveis com o desejo / virado para o céu» e «a boca na terra / de quem vive apenas / este momento»; as águas «ignoram / a dialéctica do caminho: bebem o chão / e basta»; há que louvar as águas que não fazem ruído, e imitar o Mestre que se recolhe «nas folhas discretas / do seu palácio», no silêncio da sua mente, e o poeta no silêncio da sua escrita. Aprender com a Natureza é libertar-se da casca, cantar «o pó», «a semente mínima / do animal humilde que lentamente / envelhece tão lentamente como a sua / escrita esta breve passagem / pelo vasto vazio do ar azul / em volta». Esta será a Lei do Mestre e a lei do poeta: «quanto mais leve / mais densa a sua lei». Uma lei que gera poemas belíssimos, como este:

(…) Invocado o espírito do solo
e dos cereais regresso como parti, sem
bagagem. A árvore dos meus ossos
Inclina-se vagarosa sobre a terra
onde sempre mantive o pé jamais o reino;
onde fui um filho pródigo, um braço
nómada. Alimento-me dos últimos figos,
das emoções derradeiras. Em breve o pó
será pão bastante – uma folha de água
se tiver sorte. A mais não aspiro.
Deito-me em repouso como se fosse enfim
o chão trémulo que nunca deixei de ser. (p. 170)

Na «cerimónia vagarosa do pó», com a aproximação da boca do silêncio, a morte, há que beber na boca secreta doutro silêncio, esse sim imperecível: a palavra. Parece clara a perspectiva heideggeriana da palavra enquanto morada do Ser: ao longo de toda a obra, ela surge como essencial à travessia, o «ovo perfeito», a urgência de «loucas abelhas laboriosas», como no poema a seguir transcrito, pois «Não há outro fogo outra via / nas hastes cansadas do entardecer»:

A teia essencial não é um mapa,
um cenário de luz onde eu possa
desenhar-me como se o pó da viagem
em ouro se pudesse converter; essencial
é ver o que vai nascendo, o rumor do chão
como se ele fosse uma nuvem fugidia
que se ajoelha dentro de mim; ou a sombra
dela, a doce respiração que ilumina
as loucas abelhas laboriosas
que são as coisas e os seus nomes. (p. 54)

Casimiro de Brito que escreve – em A Arte de Bem Morrer (Roma Editora, 2007) – que «Quando a natureza do homem se dilui na morte / há um saber mais vasto, uma matéria que aspira / à dispersão dos seus componentes», que a «obra permanece, jamais a alma», e que pede ajuda ao poema para «encontrar um sentido neste segredo / que todos bebemos / e não se esgota», continua a libertar, em direcção aos seus leitores, a concha da palavra perpétua: «Uma concha que me preserve», para «morrer-me», «uma nave / onde eu possa viajar / todos os dias em distante embriaguez».

Casimiro de Brito, En la vía del Maestro – Un viaje con Laozi, Olifante, 2009

© Teresa Sá Couto

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Miguel Torga, poeta da terra e da esperança


Partiu há 15 anos. Deixou-nos este chão repleto de palavras que lemos e relemos. Sempre e uma vez mais. Porquê? Porque também somos torga, urze, raiz que ainda depois de queimada dá alento pelo carvão que produz. Se não somos, ele, Miguel Torga, a urze, o mosto, a casta nobilíssima de uvas do Douro, ensina-nos a sê-lo.

Nascido em 12 de Agosto de 1907, em São Martinho da Anta, Trás-os-Montes, e falecido em 17 de Janeiro de 1995, em Coimbra, Adolfo Correia da Rocha, seu nome verdadeiro, é uma leitura premente e necessária para todos os que procuram uma consciência pura, a esperança, a teimosia em romper caminho.
As suas palavras são vigorosas, lúcidas, prenhes de sentimento telúrico, o amor à terra que lhe avassala a alma:

“Sempre que, prestes a sucumbir ao mórbido do desalento, toco estas fragas, todas as energias perdidas começam de novo a correr-me nas veias. É como se recebesse instantaneamente uma transfusão de seiva. Sei, contudo, que o prodígio não aconteceria sem a força amorosa do meu apelo, que as virtudes terapêuticas da fonte estão também na certeza da sede de quem bebe. (…) E quando chegar o dia em que a debilidade do ânimo seja tanta que já não consiga sequer confiar no valor do condão? Finos, os antigos, entenderam logo de entrada que o fabuloso não é mais do que a realidade aureolada. Que basta um homem ficar com a vontade tolhida para que Héracles – um dos muitos disfarces da morte – o vença irremediavelmente.” (Diário XI, 1943).

As razões do corpo

A sua inspiração genesíaca, das origens, da terra, das fragas, dos penedos, da água, transporta-nos, num vocabulário vibrante de “seiva”, “sémen”, “sexo”, “cio”, “fecundar”, “parir", para as nossas próprias origens. Falamos de um corpo humano que se cumpre nas paixões, no desejo, nos frémitos, mas também na desilusão, na tristeza, na renúncia:

Molhada pelo mar salgado e frio,
Sai da concha e passeia
A regar de frescura, amor e cio,
O deserto vazio
Desta areia!

ou,

Mulher e aparição num corpo só!

Seios, umbigo, coxas e cabelos
Que são fios abertos de novelos
Onde se aperta a seiva

Como um nó.

Porém, se em Torga o corpo se cumpre no percurso da vida que lhe dá a força, a fraqueza, a liberdade, a prisão à condição humana, a consciência lúcida dessa grandeza trágica fazem-no rebelar-se e lutar. A vertente Humanista torguiana explana-se ao longo da sua obra, quer poética, quer em prosa onde a saída para os revezes da vida é sempre iluminada de esperança e liberdade:

Meu irmão na distância, homem
Que nesta mesma cama hás-de sofrer
Que nem a terra nem o céu te domem;
Nenhuma dor te impeça de viver!

A palavra como arma

Senhor de uma arte literária portentosa, as suas palavras são, no entanto, cavadas com sacrifício. Um sacrifício que enalteceu a Literatura Portuguesa, inscrevendo-a entre as de excepção a nível mundial. Com o drama da criação, a que chama, em  O Quinto dia da criação, o «suplício de escrever», Torga mostra que todo o empenho é sofrimento:

Mas todo o semeador
Semeia contra o presente.
Semeia como vidente
A seara do futuro,
Sem saber se o chão é duro

E lhe recebe a semente.

A continuidade só é possível com o amor aliado à palavra:

“De quantos ofícios há no mundo, o mais belo e o mais trágico é o de criar arte. É ele o único onde um dia não pode ser igual ao que passou. O artista tem a condenação e o dom de nunca poder autonomizar a mão, o gosto, os olhos, a enxada. Quando deixa de descobrir, de sofrer a dúvida, de caminhar na incerteza e no desespero – está perdido.”, escreve em Diário I, 1941. Ou ainda:

Novamente o teu pranto.
Mais uma vez a força dos teus dias
Na brancura dum manto
E a quebrar-se de encontro às penedias.
Mas as gaivotas acompanham
A tua dor, irmão.
Elas que são aves e se banham
Na espuma que te sai do coração.

Preocupado com a continuidade da sua esperança, emite um apelo dirigido a um secreto, hipotético, leitor:

Sem saber o teu nome e sem te ver
– Juiz que ninguém pode corromper –,
Murmuro-te os meus versos, os pecados
Penitente e seguro
De que serás um búzio do futuro,
Se os poemas me forem perdoados.

Cumprir este apelo é uma forma de nos mostrarmos gratos.


*bibliografia consultada: Miguel Torga, Poesia Completa, Publicações Dom Quixote, 2.ª edição 2002

© Teresa Sá Couto

domingo, 17 de janeiro de 2010

O esplendor de Luísa Freire

O tempo é de celebração. Luísa Freire está agora ainda mais perto de nós. A sua poesia clara, feita de palavras «redondas», «coloridas» e «suculentas» tocadas pelo vento e esmeriladas na água do tempo, surge em 335 páginas da antologia O Tempo de Perfil; com a exposição de pintura da autora, a Assírio & Alvim dá-nos dois testemunhos do esplendor de Luísa Freire.

A antologia abarca poesia de 1980 a 2005, compreende 11 títulos inéditos e 5 já publicados, sendo estes: Verde-Nunca, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985; Searas de Tempo, Digo Tu e Memórias da Cal, reunidos em Ciclo da Cal, Porto, Campo das Letras, 2003; Imagens Acidentais (juntamente com Imagens Orientais), Lisboa, Assírio & Alvim, 2003.

Vê como a boca é triste
quando sorri a distância;

quando o inverno das asas
já atravessa os espaços e
cava na terra a sombra de uma
ausência.

Prova difícil é crermos no azul.

In O Tempo de Perfil, p.186


Nomear Luísa Freire é também chamarmos o seu trabalho de apresentação e tradução dos dois volumes de O Japão no Feminino: Tanka – séculos IX a XI e Haiku – séculos XVII a XX, editados pela Assírio & Alvim em 2007 e que estão disponíveis no mercado. É esta também uma poesia mágica, porquanto desagua na língua portuguesa pela tradução que só poderia ser de uma poeta.

Pergunto se o vento
irá abrir algum trilho
na erva do meu jardim
para que alguém possa vir
ainda hoje visitar-me.

in Tanka, p.51

**
Como uma mulher
que desmaia, o lótus branco
caiu por inteiro.

in Haiku, p.97

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Poesia reunida de António Osório

Já está nas livrarias o majestoso A Luz Fraterna, que reúne a poesia de António Osório dos últimos 44 anos. São 653 páginas imperdíveis, num belo livro de capa dura, que a Assírio & Alvim dá agora à estampa. Ver aqui.
Além de prefaciado por Eugénio Lisboa, o compêndio compreende também uma entrevista de Ana Marques Gastão - que «revela o homem, na aproximação ao mistério, de uma escrita avessa à retórica» - feita a António Osório em 24 de Março de 2001.

.


Deixo 4 textos:

DESPOJOS

Amarras que se lançam ao fluxo das águas,
despojos, limos espraiados,
cabedelos que chegam e partem com o mar,
surgem os versos.

E tudo de roldão, angústia,
vida e morte, oculto movimento de plantas,
o equinócio do amor, que torna a noite igual ao dia,
a confiança, a luta, a respiração dos homens. (p.23)

***
ENTRAR contigo
dentro das searas
e depois
trigo
sairmos da terra. (p.139)

***
VEJO teus olhos,
queria me convertesses
nesta perseverança de cego
esmoler, à porta do Metro,
dedilhando o seu livro
de bilros, e que não explica
nem vislumbra
a pertinácia irredutível da vida. (p. 143)

***
As Lavadoras

Quase todas são negras, fugidas de Angola. Mulheres novas e raparigas, com fatos de oleado e botas de borracha. De dia e de noite, por turnos, lavam os carros na garagem. Contemplo-as: na sua cor e no seu exílio. Entregam-se àquele duro trabalho, e eu admiro o contacto feminino com a água, o apuro, um rigor efectivo – os carros ficam luminosos como crianças saídas do banho. Ou como versos perfeitamente limpos de toda a dor. (p. 420)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Os males humanos e a verdade de Brecht

Aqui jaz B.B., limpo, objectivo, mau. Esta era a missiva tumular que Bertolt Brecht confessou gostar de ter na sua sepultura. Mas é também a marca da reflexão dialéctica entre o Bem e o Mal do ser humano, indagado com «verdade concreta» impulsionada por um ideal: desalojar a maldade apesar do apelo – ou devido exactamente a ele – de que só sendo-se mau se domina o mundo; e lutar nessa missão, estreme e intrépido, apesar das desilusões, mesmo que o Epitáfio venha a ser este:Escapei aos tigres /Nutri os percevejos /Fui devorado /Pela mediocridade.

Como sempre com autores estrangeiros, há que ter atenção às traduções. Sugiro as Peças de Teatro, que têm vindo a ser coligidas em vários volumes pelas Edições Cotovia; na poesia, destaco a pequena Antologia Poemas, com tradução, selecção, estudos e notas de Arnaldo Saraiva, com a chancela da Campo das Letras e, para uma leitura mais integral da obra do alemão, a grande Antologia Poemas, da Asa, com versão portuguesa de Paulo Quintela, organização e prefácio de António Sousa Ribeiro.

Várias obras de Brecht têm subido aos palcos portugueses. Destaque-se Um homem é um homem, escrito pelo dramaturgo alemão em1953, encenado pelo magistral Luís Miguel Cintra para o Teatro da Cornucópia, espectáculo que foi galardoado com o Prémio da Crítica 2005.

Arauto das injustiças sociais, Brecht fez da palavra a arma contra a indiferença, promoveu a interrogação e a reflexão sobre a identidade individual, a alienação, a violência da guerra, a desumanização. Presenciou as duas Grandes Guerras, a Revolução na Alemanha com o massacre dos seus líderes e milhares de operários, a fome dos anos 20, a ascensão do nazismo e, com ele, Hitler. Anteviu perseguições políticas, soube-se alvo delas e escreveu-o:

As ruas do meu tempo conduziam ao pântano. A linguagem denunciou-me ao carrasco. Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima estariam melhor sem mim, disso tive esperança.

Mais do que sentimentos, Brecht pede actuações. Quem é teu inimigo? pergunta, para logo responder, num jogo subtil e didáctico com o leitor:

O que tem fome e te rouba /o último pedaço de pão chama-lo teu inimigo. /Mas não saltas ao pescoço /do teu ladrão que nunca teve fome.

Assim, a ordem é abrir os olhos e agir para haver equilíbrio na luta contra a injustiça que age de olhos bem abertos:

A injustiça avança hoje a passo firme. /Os tiranos fazem planos para dez mil anos. /O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são. /Nenhuma voz além da dos que mandam. /E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo. /Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem: /Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos. /Quem ainda está vivo nunca diga: nunca. /O que é seguro não é seguro. /As coisas não continuarão a ser como são. /Depois de falarem os dominantes /Falarão os dominados. /Quem pois ousa dizer: nunca?

Também a sátira brechtiana é desenrolada até ao cinismo, apesar do exílio do autor, quiçá por isso mesmo, e assume-se sem esconderijos para servir a pedagogia. Próprio de um homem de Teatro, a verosimilhança da mensagem - os comportamentos, situações, pessoas concretas - atinge certeira o leitor ou o espectador, no caso da dramaturgia, porque é a eles que se dirige e é deles que se fala. E os poemas ora olham acutilantes o poder político, ora detêm-se denunciadores na insanidade da guerra:

Todos os dias os ministros dizem ao povo /Como é difícil governar. Sem os ministros /O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima. / Nem um pedaço de carvão sairia das minas /Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda /Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra /Nunca mais haveria guerra. E atrever-se-ia a nascer o sol /Sem a autorização do Führer? /Não é nada provável e se o fosse /Ele nasceria por certo fora do lugar(…)

**
(…)De pé à sua volta à hora de morrer / – Nós todos. /E /Lá estava também a mulher que o dera à luz /E que não disse uma palavra quando o levámos. /Que essa mulher seja estripada! /Amem. /Mas quando o matámos tratámos /De transformar o seu rosto /com as marcas dos nossos punhos. /Assim o tornámos irreconhecível /para não o darem como filho de algum homem. /Fizemo-lo sair do aço. /Trouxemo-lo para a cidade. /Enterrámo-lo sob uma pedra e sob um arco chamado /Arco do Triunfo /que pesa 1.000 quintais para que /O soldado Desconhecido /Não se levante no dia do Juízo Final /E irreconhecível /Mas de novo e para sempre na luz /Não vá diante de Deus /Apontar-nos a nós, os reconhecíveis, /À Justiça.

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

David Mourão-Ferreira ou a inscrição da memória

(texto publicado hoje no site Orgia Literária)


O tempo é reversível. Pela memória exuma-se um passado tido como perdido. Se a memória é acção, a palavra é a criação que lhe confere sentido: juntas executam o eterno retorno, transfiguram, legitimam o tempo branco, perpetuam-se e perpetuam o seu criador.
A memória é o tema irradiante da escrita de David Mourão-Ferreira (1927-1996), com fulgor máximo na Obra Poética editada entre nós pela Presença. Fulgor máximo porque, como defendia Calvino, uma obra não se explica por parcelas, mas sim na sua totalidade, e esta Antologia – que colige a poesia do autor de 1948 até 1988 – tem todas as parcelas da grande urdidura do esplendor.
.
A memória persiste amolecendo-a: assim a representava Salvador Dalí nos relógios moles pendurados de ramos secos, numa alusão ao carácter maleável do tempo quando sobre ele age a criação artística. Na mesma esteira, David Mourão-Ferreira usa outra metáfora singular: a memória como mármore mole, a memória sustentada por dois excessos, «o da fixidez e o da diluição» – assim referido por Eduardo Prado Coelho que prefacia a Antologia –, o que permite ao poeta modular a sua enunciação, confirmado pelo próprio: «mármore, sim…mole porém, como a casca da árvore, como o vento no sono escutando…». Na mesma metáfora, é evidente a luta e a dor da criação:
.
Luta de corpo a corpo no interior do corpo.
Monólogo do tempo no interior da alma.
Monólogo monótono com saltos inesperados!
Monólogo no mármore mais mole de que há memoria…
Mármore, e mar, e vento sobre o mar…
Memória!
.
Poética da «Apoteose do Nada» – na demanda daquilo que na memória se pode e deixa construir, uma «matéria obscura que obstina para além da vida ou da morte» –, a obra poética de David Mourão-Ferreira tem, segundo Eduardo Prado Coelho, uma «estrutura de tríptico» – «és retina, és rotina, és renovo», enuncia o próprio David –, com os últimos livros organizados em «incursões nos ciclos anteriores». Comprova-se o carácter circular da memória com a própria criação poética configurada no Eterno Retorno:
.
todo o dia senti,
bem funda, em mim,
a tortura do beijo que não demos:
lago sereno, preso num jardim,
saudoso dum nenhum sulcar de remos.
.
Corpo, mármore fugidio

À procura «daquela ribeira que reabilita a pedra», ou a subjectividade artística capaz de recriar a memória, o Corpo surge como centro de todo o processo, donde partem todas as buscas, onde convergem todas as emoções, «corpo de mármore fugidio», «memória por onde desliza a sensualidade e o erotismo». Afinal, diz o poeta, «o mundo só é mundo enquanto houver o corpo», e o poema, também corpo, exprime o «Voto» que sintetiza o empenho de David:

Que o fosso da memória se transponha,
que seja a solidão atravessada!
Da cálida crisálida renasça
de novo o corpo o corpo todo!
Venham as roucas sílabas da posse
no búzio dos ouvidos enroladas!
sobre a teia das veias impalpáveis,
reconstrua-se a cúpula dos olhos!
Que tudo, tudo, súbito se emprenhe
da realidade que a lembrança apenas
em folha de álbum, ressequida, guarda!
Que eu vá de novo decorar-te a seiva,
como um poema líquido que seja
urgente recitar na eternidade.

Enfrentar a voragem do tempo, descobrir os ângulos pelos quais o tempo nos devora, desafiar-lhe os quatro cantos com o canto poético é a grande tarefa de David Mourão-Ferreira. Para isso, escuta o «grito dos ventos», «pólen transformado», e constrói uma poética musical ímpar: «Além de amor, o meu amor quer melodia», diz o texto ao mesmo tempo que define a memória do amor: «O amor é um vidro sob um diamante: pois tudo foi vibrante e foi cruel». Em «Epitáfio», pode ler-se:
..
Cada sorriso teu agora só desperta
esse remorso vil que a minha vida tem:
– A tua alma estava à minha espera, aberta…
Repousei no teu corpo e não fui mais além.

Com os tempos conjugados – o da memória e o da recriação, «biliões de cordas um só nó» –, pergunta e responde, no «canto secular do pensamento»:
.
as pedras são pedras ou são vento?
(E são ombros, são espadas, são gladíolos.)
Mas os cantos são meus ou são do tempo?

Responda-se que os cantos, estes cantos, são do tempo futuro pois é lá que em cada leitor se recriarão.
.
© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Poesia Cubana Contemporânea

(Texto editado hoje no site Orgia Literária)

Dois poetas laboram sobre outros dez, num encontro apadrinhado por uma editora que há muito nos mostra a dedicação que põe nos livros que faz. Refiro-me à Antologia bilingue Poesia Cubana Contemporânea – Dez Poetas com a chancela da Antígona. Pedro Marqués de Armas selecciona, apresenta e critica as vozes, faz o extraordinário Prefácio e as Notas do documento. Jorge Milícias assina a exímia tradução.

Em 237 páginas compendiam-se desenraizamento, dor, desdém, denúncia e raiva de dez ânsias de liberdade: José Kozer (1940), Reinaldo Arenas (1943- 1990), Reina Maria Rodríguez (1952), Ángel Escobar Varela (1957-1997), Rolando Sánchez Mejías (1959), Ismael González Castañer (1961), António José Ponte (1964), Omar Pérez (1964), Damaris Calderón (1966) e Alessandra Molina (1968).

No prefácio, Pedro Marqués de Armas dá-nos, de forma precisa e sintética, a contextualização histórica da produção literária cubana, define-lhe as características desde o início – por volta de 1825, tendo em José Martí, o poeta soldado, «ao mesmo tempo o último romântico e o primeiro modernista da América Latina» –, para desembocar nos anos 80, com recolha de textos de autores que começam a escrever nesta altura ou nela se consolidam, época a partir da qual, defende Armas, a poesia começa a libertar-se do «lastro da ideologia».

A selecção dos textos da mostra poética entronca no percurso de uma poesia em constante tensão com a História, refere Armas, com esta a ter de ser redimida pela primeira: a identidade, a insularidade, a procura de vanguardas, a institucionalização da literatura devido à «imposição do realismo socialista como único modelo estético» que servia a Revolução castrista, a fragmentação, os exílios constituem uma herança fortíssima que os poetas cubanos da geração de 80 carregam e transpõem para a palavra com grito subversivo. Com esta necessária Antologia, ficamos a perceber «em que travessias, em que estranhas / paragens / em que trocas», palavras de Omar Pérez, as letras cubanas contraíram o engenho, e como essas travessias se encontram e se enredam no século XX com a nova palavra.

Continuar a ler no site Orgia Literária

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

123 anos com Cesário Verde

(Texto editado hoje no sitio da Orgia Literária)
.
Cesário Verde arranca facilmente paixões a quem o lê e, sobretudo, a sensação persistente do muito que há por descobrir no olhar do poeta que assim clamava: «Ah! Ninguém entender que ao meu olhar / Tudo tem certo espírito secreto!». Trata-se de um olhar cheio de realidade que apreende uma Lisboa antropomórfica, dos sentidos apurados, da luz e da transfiguração que esculpem a poesia, da contundente crítica social, do pungente retrato da condição humana, que ele nos deixou, a título póstumo, num diamante poético magistralmente lapidado: O Livro de Cesário Verde.

Criticado e desprezado no seu tempo – pelo «sentimento dum ocidental» de estilo novo, à maneira de Baudelaire e dos parnasianos, que chocou a enquistada elite cultural do Portugal oitocentista –, Cesário disse: «Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso, / Os pegos abismais da minha vida. (…) E eu hei-de, então, soltar uma risada…». E nós ouvimo-la, real, intensa e sonora através de uma poesia onde o prosaico e a reportagem artística se convertem em grande literatura.

José Joaquim Cesário Verde nasceu a 25 de Fevereiro de 1855, em Lisboa, e morreu precocemente a 19 de Julho de 1886. A tuberculose, vulgo tísica, que o vitimou, aparecia como o epílogo de uma geração que, assim, se esvaía: «E que fazer se a geração decai! / Se a seiva genealógica se gasta! / Tudo empobrece! Extingue-se uma casta! / Morre o filho primeiro do que o pai!».
.
Neste contexto de morte que assolava o Portugal de oitocentos – a juntar epidemias de febre-amarela e Cólera –, a poesia de Cesário aparece como baluarte de resistência às trevas, um grito de sobrevivência num projecto intemporal: «Se eu não morresse, nunca! E eternamente / Buscasse e conseguisse a perfeição das coisas…». Iria encontrar a perfeição na poesia de palavras «salubres e sinceras», com que transfigurou a realidade imperfeita. Poeta Realista, Cesário deambulou no real urbano, na cidade de Lisboa, captando-lhe retalhos de vida; Impressionista, fez do cosmopolitismo doentio quadros pintados «com letras e sinais», luz e sombra, cheiros e sons: «Eu tudo encontro alegremente exacto, / Lavo, refresco, limpo os meus sentidos / E tangem-me, excitados, sacudidos, / O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto.».

Considerado o representante do Realismo Poético português, por retirar “toda a palha” à observação fiel, o seu exercício sobre o concreto é, no entanto, apimentado pela ironia e pela crítica sagaz e acutilante de quem tinha «riquezas químicas no sangue» e se revoltava com o que olhava. O «aconchego», a «vida fácil» dos burgueses e a «nódoa negra e fúnebre do clero» foram alvos da sua repulsa e, portanto, sujeitos à aclaração ou caso de «Manias!» de um poeta atento e crítico para quem «O mundo é velha cena ensanguentada, / Coberta de remendos, picaresca; / A vida é chula farsa assobiada, / Ou selvagem tragédia romanesca.». Em vivas «Horas mortas», denuncia um presente de vida falida, de frustração, de decadência colectiva, de um Portugal morto-vivo: «Mas se vivemos, os emparedados, / Sem árvores, no vale escuro das muralhas!… / Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas / E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.». São os «nebulosos corredores» da sua magistral poesia que capta, como nenhuma, a desagregação existencial: «E, enorme, nesta massa irregular / De prédios sepulcrais, com dimensões de montes, / A Dor humana busca os amplos horizontes, / E tem marés, de fel, como um sinistro mar!».

Nascido em berço burguês, via, no entanto, nas classes mais desfavorecidas a razão de Portugal, a vida da cidade, a energia portentosa dos seus versos. O trabalho dedicado dos humildes é recriado poeticamente em «Cheiro salutar e honesto ao pão no forno», e as mulheres irrompem com um poder quase místico: «Vêm sacudindo as ancas opulentas! / Seus troncos varonis recordam-me pilastras; / E algumas, à cabeça, embalam nas canastras / Os filhos que depois naufragam nas tormentas.»

No poema «Cristalizações», Cesário denuncia a opressão das classes trabalhadoras: «Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas! / Que vida tão custosa! Que diabo!». Segundo o poeta, esta é uma realidade imutável, um desígnio delatado assim: «Povo! No pano cru rasgado das camisas / Uma bandeira penso que transluz! / Com ela sofres, bebes, agonizas. / Listrões de vinho lançam-lhe divisas / E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!».

A mulher e a sexualidade

Figura central na poesia de Cesário, a mulher é muito mais do que a catalogada em “Mulher Anjo” e “Mulher Demónio”, como é ensinado na Escola portuguesa. O autor de «Ó áridas Messalinas» apresenta a mulher numa negociação da masculinidade como uma posição sexual, ela vem preencher o lugar do Outro, o lugar de inscrição da sexualidade do poeta. Por outro lado, a existência de mulheres de traços masculinos (como as hercúleas varinas de «O sentimento dum Ocidental» ou a vendeira de «Num Bairro Moderno») surgem com poder mítico a sublinhar o drama da identificação do corpo com um género sexual.

Abordando as temáticas da sexualidade e do papel da mulher na poesia cesárica – a cândida e virginal, mas também a lúbrica, a sensual, a libidinosa, as mulheres desprezíveis, mas atraentes –, Hélder Macedo (num artigo de 16 páginas, editado no livro Cesário Verde – Visões de Artista, da Campo das Letras, que reuniu as comunicações do colóquio dos 150 anos do nascimento do poeta) apresenta-nos leituras, desvela-nos significações metafóricas, surpreende-nos com o arroubo secreto dos textos.

Por exemplo, enquadrando as metáforas de “barco” ou barca – que significam a fálica sexualidade masculina – e “mar” – que transporta a «húmida sexualidade feminina», o ensaísta apresenta-nos uma leitura do soneto «Heroísmos», título «algo irónico» que «revela as ambivalências do jovem Cesário em relação às mulheres sexualmente vorazes que simultaneamente temia, desejava e desprezava, num encadeamento de emoções mal resolvidas e de comportamentos contraditórios que culmina na horrenda imagem de uma ejaculação profanadora no último verso». Transcrevemos um excerto desse poema:
.
Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento,
O mar sublime, o mar que nunca dorme
(…)
Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n’água quase assente,


E ouvindo muito perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!

O Livro de Cesário Verde foi editado meses após a sua morte, em Abril de 1887, pelo amigo Silva Pinto, que incluiu na antologia apenas vinte e dois poemas, quando são conhecidos mais de quarenta. Cesário é o nosso eterno poeta; revisitá-lo não é uma obrigatoriedade, é uma necessidade que nos tange os sentidos.
.
© Teresa Sá Couto

Antologia da Poesia Grega


Na azáfama dos dias em que o kitsch é rei, regressar à poesia helénica e a sua indemne sabedoria de pensar o ser humano, é motivo de júbilo. Por isso, é de saudar a edição do Antologia Da Poesia Grega Clássica, com tradução e notas complementares do poeta e tradutor Albano Martins, com a chancela da Portugália Editora.

Como informa na introdução Albano Martins, a «antologia tem como matriz de referência duas obras publicadas em França na segunda metade do século passado: Anthologie de la Poésie Grecque, de Robert Brasillac e La Couronne et la Lyre, de Marguerite Yourcenar.».
E são 547 páginas com estes nomes: Homero, Hesíodo, Arquíloco, Calino, Mimnermo, Tirteu, Álcman, Aríon, Sólon, Estesícoro, Íbico, Alceu, Safo, Anacreonte, Erina, Aristeu de Proconeso, Teógnis, Pitágoras, Simónides de Ceos, Calístrato, Xenófanes, Parménides, Píndaro, Ésquilo, Baquílides, Empédocles, Sófocles, Eurípides, Crítias, Aristófanes, Querémon, Cleanto, Filóxeno, Crates de Tebas, Menandro, Calímaco, Apolónio de Rodes, Teócrito, Herondas, Bíon, Mosco, Arato, Pseudo-Focílides, Anacreônticas, Meléagro, Esopo, Opiano, Bábrio, São Gregório de Nazianzo, Quinto de Esmirna, Sinésio, Apolinário, Nono, Proclo, Coluto, Museu, Paulo Silenciário.


O êxito

Granjear miséria e com abundância é fácil.
A estrada é plana e fica muito próxima.
À frente do mérito, porém,
puseram os deuses o suor: o caminho
para lá é longo e corre a pique;
é árduo ao princípio, mas,
quando se chega ao cimo,
embora difícil, depois parece fácil.

Hesíodo, p.p. 71, 72
**
Eu penso, logo existo

Pois bem, eu vou falar, e tu escuta e retém as minhas palavras,
que te ensinarão as duas únicas vias do conhecimento que é possível conceber.
A primeira é o que é e que não pode deixar de ser.
É a via da persuasão, companheira da Verdade.
A segunda é o que não é e como é forçoso que não exista.
Digo-te: esta via é uma senda que não se pode percorrer.
Pois não poderás conhecer o que não é
nem exprimi-lo por palavras.

…Pois pensar é o mesmo que existir.


Parménides, p.175

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

As perguntas de Neruda

Não deixa de ser curiosamente pertinente que a obra póstuma de Pablo Neruda se intitule O Livro das Perguntas, ele que passou a vida a interpelar o mundo com a palavra de pendor épico. «Como tiveram as uvas conhecimento / da propaganda do cacho?», questiona o poeta chileno numa metáfora que já deu o titulo ao As Uvas e o Vento, esse canto de propagação da esperança, editado entre nós há dois anos, e que ressurge, profícuo, em perguntas orvalhadas: «É verdade que as esperanças / devem ser regadas com orvalho?».

É um livro pequeno, editado há alguns meses, com 74 poemas curtos, e como todos os livros pequenos de grandes autores demora muito tempo a ler. Na nossa sensibilidade e na experiência dos dias, encontramos a resposta para algumas perguntas; outras são questões de retórica; outras, ainda, têm o peso do aforismo; todas têm a capacidade de nos deixar suspensos no seu eco. A tradução deste pequeno desassossego está entregue ao poeta e tradutor Albano Martins, que há muito traduz para a Campo das Letras as obras de Neruda, incluindo o incontornável Canto Geral.

«Há loucura maior na vida / que ter nome de Pablo Neruda?», «O que dirão da minha poesia / os que não tocaram o meu sangue?», «Posso perguntar ao meu livro / se fui eu que o escrevi?», pergunta Neruda sobre ele próprio, neste livro que já foi por muitos enunciado como o seu “testamento”, nomeação que considero ser exagerada já que temos de nos deter na valia da sua obra que, aliás, deu ao autor o Prémio Nobel da Literatura em 1971; o «Livro das Perguntas» é, indubitavelmente, uma síntese originalíssima e feita com mestria do seu programa literário. Humor e acidez crítica, companheirismo e cumplicidade, perda e fé são os trajectos centrais das inquirições.

Tingidos de misticismo, os elementos da natureza apoiam a reflexão sobre a condição existencial:

«Onde há-de viver um cego / a quem as abelhas perseguem?»
«Já contaram o ouro que há / no território do milho?»
«Se o amarelo acabar / com que havemos de fazer o pão?»
«As lágrimas que não se choram /esperam em pequenos lagos? / Ou serão rios invisíveis / que correm para a tristeza?»
«Porque se suicidam as folhas/ quando se tornam amarelas?»
«Sabes que reflexões / rumina a terra no Outono?»
«Porque é que a agricultura se ri / do pálido pranto do céu?»

Fortíssima, como Neruda nos habitou, a sua missão de denúncia política corre com raiva, ironia, solidariedade e desafio de tomada de consciência, semente da actuação:

«E sentar o triste Nixon / com o rabo sobre a braseira? / Queimando-o com fogo lento / de napalm norte-americano?
«Porque é que na Bolívia não amanhece / desde a noite de Guevara? / E o seu coração assassinado / procura ali os assassinos?»
«É verdade que sobre a minha pátria / voa de noite um condor negro?»
«É mau viver sem inferno: / não podemos reconstruí-lo?»
«Como conseguiu a liberdade / a bicicleta abandonada?»
«De que se ri a melancia / quando estão a assassiná-la?»
«Quando o preso pensa na luz /ela é a mesma que te ilumina?»
«Porque é tão dura a doçura / do coração da cereja? / É porque tem que morrer / ou porque tem de continuar?»
«Onde encontrar um sino / que soe dentro dos teus sonhos?»
«As lembranças dos pobres/ das aldeias juntam-se todas?»


Por consequência, o artífice da palavra feita arma questiona o seu próprio ofício e o preço a pagar por ele:

«Porque é que me picam as pulgas / e os sargentos literários?»
«Porque rolo sem ter rodas / e voo sem asas nem penas, / e o que me deu para emigrar / se os meus ossos vivem no Chile?»
«Foi onde me perderam que por fim / consegui encontrar-me?»
«Porque é que nos tempos sombrios / se escreve com tinta invisível?»


Livro das Perguntas, Pablo Neruda; tradução de Albano Martins; Campo das Letras, 2008

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Pintar a imensidão humana

O Deserto pintado existe de facto no mapa-múndi: é uma pequena zona do Sudoeste Americano, a 36º de latitude norte e 111º de longitude oeste, refere a escritora e pintora Isabel Cristina Pires na badana do seu livro de poesia «Deserto Pintado». Todavia, esta poética pintura tem, noutra combinação da longitude com a latitude, um outro lugar mais perto de cada um de nós e mais vasto: a imensidão interior do ser humano.

Recorrente na poética da autora, na exacta latitude surge o azul, cor que sintetiza a condição humana e o mistério original da criação: Porque deus é azul, /a Terra é uma esfera comovente. /Porque deus é azul, /a alma dos bichos voa em arco-íris. /Porque deus é azul /as árvores abraçam o olhar. /Porque deus é azul /há azuis que nunca entenderemos. /Porque deus é azul /existe o mar.
.
Nascida em Pampilhosa, a 20 de Agosto de 1953, Isabel Cristina Pires é licenciada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Coimbra e Chefe de Serviço de Psiquiatria do Hospital Psiquiátrico do Lorvão. Desde 1987 que edita prosa e poesia com a chancela da Editorial Caminho. Interessada pela pintura, e autodidacta, faz trabalhos em acrílico sobre tela. Também na poesia, palavras e tintas carregadas de enigmas confundem-se, numa dança e convergência, e «Tela a tela se vai o corpo abrindo /à descoberta da cor.».
.
O chamamento primordial
.
Num exercício místico, a Natureza e a Alma seguem juntas, uma adquirindo propriedades da outra, revelando-se mutuamente. Feitas cordas umbilicais que nos ligam ao nosso início, as palavras declaram esse mistério:
.
A túlipa do mundo desabrocha /feita de todas as palavras, do plasma macio /dos sentidos, da carne imediata de saber /que há nas coisas um coração radiante: esse algo /que nos avisa do abismo e emite /o azul do céu na exacta latitude. E queima /com as incertas incertezas que há no meio das árvores. / As palavras gelam o mistério, retiram-no /do musgo sombrio onde vegeta e vestem-no /de sons e de quase música.
.
Desta forma surge o espaço, a textura, a cor e o som do Arizona – o silêncio das pedras, «um urro de absoluto ser» –, Canyon de Wild River, a montanha de Shiprock, Canyon de Chelly, o céu laranja de Monument Valley, o castanho-violeta da manhã, o ocre da terra, «a terra aberta pelo calor», a Lua na noite de Albuquerque, o infinito do planalto, a altura do céu e a entrega primordial: O tempo condensou-se /à minha volta, parei de respirar: /o antigo mar quer-me para si.
.
Fecundidade e aridez, vida e morte
.
A palavra é apresentada ora como matéria bruta ora lapidada em literatura, como que a mostrar que há paisagens áridas, mas também fecundas, que há vida e morte: se nalguns poemas a palavra surge emaranhada num exercício cultista – a palavra pela palavra em detrimento da significação do corpus do poema – noutros há que ela invade a brancura do papel para explodir no máximo do conceito criando imagens arrebatadoras. É, evidentemente, destes poemas que bebemos um lirismo quase místico que, também, espreita o segredo que poderá haver para lá da morte, ficando claro que o caminho se processa no retorno ou devolução à natureza:
.
(...)O que se esconde atrás da lua? Quanta /ausência de amor é necessária /para que a vida desista e vá embora? /Pode-se morrer com uma corda, /com o futuro que se solta do veneno; /eu escondo-me debaixo do viver. /Há pouco andava pela cidade /sem entender um único sentido. /Eu estava morta? Viva? O que era isso? /Eu respirava e tudo era perdido.

*****
Estou neste lodo de amar quem me não ama /Como se passa para o outro lado da armadilha? /Como morre o amor a sua morte? /Quem pára a fábrica de oiro das estrelas?

****
(…)A noite virá feita de escuro, /e rápida por dentro. Não sei /se é mundo o que está para além do mundo, /e o que se esconde na poalha das estrelas. /Quero ver azul quando morrer /no silêncio que há-de ser o meu. /Enquanto escrevo, morro assim feita de areia: /grão a grão, o tempo esculpe a estátua /de um corpo sem caminho.


Deserto Pintado, Isabel cristina Pires; editorial Caminho, Lisboa, Junho 2007

© Teresa Sá Couto

sábado, 18 de julho de 2009

Grande Prémio de Poesia para Armando Silva Carvalho

O poeta e ficcionista Armando Silva Carvalho venceu por unanimidade o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores/CTT- 2008, com a colectânea poética O Amante Japonês, editado pela Assírio & Alvim.

O prémio, que foi anunciado no passado dia 7 de Julho, é um merecido galardão para o autor, um dos nomes mais originais e carismáticos da poesia portuguesa, à qual se dedica há mais de quarenta anos.

Partindo duma referência prosaica – o amante japonês é um carro de «origem japonesa» -, Armando Silva Carvalho produz um discurso metafórico sobre a escrita, celebrando-a como triunfo da máquina, exaltando-lhe a energia, a velocidade e a força mecânica até ao paroxismo, num excesso violento de sensações construído com recurso à ironia e sarcasmo, a fazer lembrar-nos Álvaro de Campos.

Além deste O Amante Japonês, a Assírio & Alvim tem editados outros títulos individuais do autor, em poesia e prosa, além do magnífico «O que foi passado a Limpo», título que reúne poesia de 1965 a 2005, editado no ano 2007.
.
Dois Poemas:
.
Já não vejo o som mas só a lama
E acelero.

Quero atravessar este país depressa
Antes da morte.

Já não oiço a luz mas só o sono
E travo

Contigo, com os teus freios cansados
E as tuas jantes tortas.

Sigo esta pista de silêncio
E arrabalde de velhos.

Arrastamos connosco a história cega
E acrobata deste tempo.

Chamo a tudo isto uma gincana
Nas traseiras da Europa

Já não viajamos, vamos em ponto morto
E a meta é ali

Desperta
.
.
in O Amante Japonês, p.36
***

Soneto panorâmico

Do alto deste hotel de cinco estrelas
Lisboa não morreu. Nesta revista
até se fala em novas caravelas
e pra tamanho ardor tão curta a vista.

Dum lado o rio do outro o cimenteiro
nas suas sete quintas da marinha
em cima o céu de barro do barbeiro
em baixo o sol a fazer farinha.

Nos silos da mais sábia segurança
boémia estouvanada e bem ligeira
os anjos dão as mãos na contradança

da seringa mais nobre e derradeira
que existe a refulgir na lua mansa
à esquina onde se dorme a noite inteira.

in O Que Foi Passado a Limpo, Assirio & Alvim, 2007, p.451

sábado, 11 de julho de 2009

Antiquíssima tristeza peninsular - Bernardim Ribeiro renascido por Teresa Tudela

«T a Bernardim» é o título dum livro de poemas de Teresa Tudela, um «prodígio de asas» que nos regozija e surpreende. Deve ler-se e ouvir-se devagar – traz um CD com declamações de 36 dos 83 poemas – e deixar que a pele da alma absorva os nutrientes da emoção, só possível pela alquimia da grande poesia. E a emoção advém do encontro com Bernardim Ribeiro, o poeta renascentista que tão alto ergueu a «dor artística», o enleio interior, a tristeza que escorre de todas as coisas e que desagua na eternidade.

Com Bernardim «ainda presente em diáspora e no exílio da tristeza», a autora estabelece diálogo da e com a «Menina e Moça» – novela do poeta de seiscentos, também conhecida pelo nome «Saudades», na edição de Évora. São ecos dessas saudades tão antigas quanto o tempo da nação portuguesa que Teresa faz soar neste livro: «de longe /mando-te um búzio /recolhe bem /esse murmúrio /ao ouvido».

A espiritualidade superior da mulher

O sentimento de tristeza literário associado à mulher e expresso pela própria remonta às nossas cantigas de amigo – escritas por homens, sendo o sujeito poético feminino e executadas pela mulheres –, atinge pujança na novela sentimental de Bernardim, que por sua vez inspira o romantismo do séc. XIX; Almeida Garrett, em Frei luís de Sousa, faz referência ao autor de Menina e Moça. Sendo a tristeza o sinal de uma espiritualidade e revelador de uma verdade oculta, ser expressa por mulheres confere-lhes um poder divino.

Seguindo essa sabedoria feminina, de «dimensão inacabada» e secreta, escreve Teresa Tudela: «Nem saberás /do pacto entre mim e o meu peito». Nesse contrato com a alma, está a procura do entendimento pelo amor – Aceita um pouco /também /os meus contrários em mim /temores fraquezas /trespasses de frio neblinas – ainda que vão, pois enamoramento e tristeza conjuram-se no destino da mulher: o amor não é crime antes dever /mistério maior da vida /a que se há-de a braço /a pulso /todos os dias viver.
Também a ausência do amado é transmitida de forma quase pungente e veicula uma alma desterrada no e pelo mundo : E sem ti /não há a quem dar todo o mundo.

Todavia, o maior exílio é a impossibilidade da tristeza não encontrar a escrita: Maior a crescer é o medo /de ver a vida não caber /por entre as sílabas maiores /do texto gravado a negro na memória branca do papel.

O papel das águas

O mar tem presença fortíssima em Bernardim, como aliás se verifica desde as primeiras composições medievais peninsulares. Marcando a fronteira entre o peso do terrestre e o apelo da espiritualidade, o mar surge, também, como espelho e reflexo do tormento das gentes. Teresa, apostada no «derramar da vela», liberta do limbo a psicologia antiga, num «grito que ganhou a idade da espera», do povo de coração agrilhoado:

«sou de peso sou de terra /trago o horizonte curvo /marejado nas pupilas /vidrado a chumbo no olhar», diz o texto descarnando uma «infinita dor» que «bombeia sístoles com pressa inusitada /no músculo pequeno e vermelho /em caixa fechada»

E surgem os pescadores, o mar, água de dor e morte, e o diálogo com o divino impregnados no ser português:

onde bóiam gaivotas /distantes poucas braças da orla /negra dos sargaços arrancados pela recente /fúria das marés /ninguém os vem já buscar à praia /mulheres possantes já não /enterradas de saias negras /infladas nas ondas /horas de forças rijas /gélidas salgadas /gadanhos moscas e bois /anacronias antigas /sem protectores solares /para pôr riquezas na terra /que as há-de em dobro tornar /caldo e pão /vinho nas pipas /e em sendo tempo /algumas dálias senhora /pró altar /anacronia maior este verão a acabar

Noutro passo, efectiva-se a osmose pungente com as mulheres das sete saias desditosas, conluio só possível no feminino:
Vou hoje deitar-me com a saia sobre a cabeça /como as mulheres da Nazaré sobre a desgraça /não sei a que me leva o sonho ou se é destino /qual a desdita da noite /a não ser /depositar-me aqui à margem.
Enigmas de Bernardim

No final, um poema que sintetiza o mistério de Bernardim que tem levado a polémicas sobre significados políticos e religiosos escondidos no texto Menina e Moça, no se diz respeito à sua relação com os judeus na época em que a Península Ibérica está marcada pela conversão – forçada ou deliberada. Refira-se a este propósito a obra crítica de Hélder Macedo, O Significado Oculto da Menina e Moça, editada em 1977 pela Morais Editores, onde o autor, numa análise fulgurante, apresenta a vertente cabalística do texto de Bernardim Ribeiro. Teresa Tudela consegue num poema curto desfraldar todas essas questões, com uma imagem vibrante: coloca a estrela, símbolo do povo judeu – em que os 12 lados demonstraram a disposição das 12 tribos de Israel durante sua jornada de 40 anos no deserto, após sua saída do Egipto em direcção à Terra de Israel – nas mãos de Bernardim, com as seis pontas orientadas para a dor do exílio:

Essa tristeza /esse exílio /da vida ampla em faixa estreita /obstinada /se calhar abriste a tua estrela de David /e desdobrou-se em ziguezague na mão /que a tinha /viste a tristeza inscrita numa ponta /e quando olhaste para a mão esquerda em simetria /abriste os dedos em estrela /tua /e julgaste /ver nela em espelho o exílio replicado /das outras cinco pontas /de David /Bernardim /é ainda certo o teu nome.

Sobressai na declamação o jogo de palavras no último verso, com o «é ainda certo» – ligando-se à característica oralizante da escrita de Bernardim –, que resvala para «é ainda (in)certo» com o que se reforça o saber incompleto que se tem do genial escritor do século XVI, ainda que se lhe seja mais desconhecida a vida do que a obra.

Nota: Bernardim Ribeiro (1481? 1545?) colaborou com Sá de Miranda no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, destacando-se pela genialidade das éclogas e da novela sentimental Menina e Moça, narrativa feminina de solidão e saudade onde se analisa minuciosamente o mundo interior, à luz do desengano, pessimismo e fatalismo. É sobretudo esta narrativa a geratriz da presente obra de Teresa Tudela.

T a Bernardim, Teresa Tudela; (livro e CD) Editorial Campo das Letras, Porto, Maio 2006

© Teresa Sá Couto

(to Artur)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O movimento da escrita de Vergílio Alberto Vieira

Testar as potencialidades da palavra. Fazer com as palavras o que se faz com encontros, tantas vezes inusitados, que se estabelecem na vida: acolhê-los para nos desvendarmos. Assim acontece em Papéis de Fumar, livro de poesia de Vergílio Alberto Vieira. O papel branco, como uma máquina fotográfica, prende instantes do real para o interpelar.

Por 311 páginas, ressuma um «sopro de origens», o diálogo primordial das descobertas e surpreende-se o eterno movimento da escrita que é, também, o eterno movimento da alma à procura de si mesma. Viajante «em torno de si mesmo», Vergilio Alberto Vieira incita-nos à caminhada do auto-conhecimento. Fica claro que a alma, como um livro, nunca está escrita: «Por dentro escrito, e por fora, é um, o Livro, todos os livros, e nenhum».

No prefácio, Ivan Junqueira (Presidente da Academia Brasileira de Letras) passa em revista o trabalho poético de Vergílio Alberto Vieira e encontra nele a «busca incessante de uma identidade ontológica que se diria, não propriamente perdida , mas ainda por conquistar». É como se o poeta, refere, «procurasse insistentemente dentro de si mesmo, não o que perdeu, mas o que ainda não encontrou.»

«Périplo rumo ao interior» de si mesmo

Na «arte de achar, de descobrir-se a si mesmo», Vergilio Alberto Vieira «tornou a dor o anseio da viagem»: «eu tinha pressa ainda de chegar, /Onde, não sei, no aperto de vencer /A distância que vai de mim a mim.». Essa distância é percorrida com o remover contínuo de terra, braços que agarram o instante, num jogo perpétuo de «floração do sangue», uma clara alusão ao sacrifício da criação poética. Munindo-se de uma plêiade de elementos simbólicos, o poeta procura explicações, cônscio da efemeridade do instante da descoberta: «Entre dois espelhos /corre, o escasso dia, e ninguém /com ele corre»; «Na mão ausente, /outro cigarro vago de /tudo se fumou».

O perpétuo movimento da caminhada em direcção ao conhecimento é expresso em versos ora curtos ora longos, com a própria disposição a marcar a cadência do movimento, vibrantes, sonoros, demonstrando que «A paixão por dentro prende /O demoníaco galope dos cavalos». Fortíssimo, pujante, o símbolo dos cavalos percorre todo o livro: «deslumbramento de asas / o trote imoderado /dos cavalos»; o agitado das crinas, «a Espora»; o bramido das rédeas; «tribulações de terra /mudavam /os cavalos»; «desde as origens de medo /cobrem a passagem /provam /nos músculos a sentença /do pão /Pelo relincho decretam /a paz onde a terra levanta o lume /à altura das arcas /Nada os detém /entre o limite doméstico /da casa /Como pode o corpo cercar /a cor entre os cavalos»; «como se outra fora a luz /Com que os cavalos apuram no vento /as fisiologias da visão /…/uma só cor explica o coração».

A branco e azul

No movimento contínuo de «deflagração dos dedos» e «fósforo do olhar», o poeta, cujo «destino é fitar /Degrau a degrau, a solidão, /E perder tempo, esperar /Dias negros, só, em vão», sujeita-se totalmente à escrita: «Persegue a mão que o conduz /À brancura do papel». A cor branca surge como símbolo da revelação, associada à luz do conhecimento, e, também, ligada a outros símbolos femininos: a Lua ou a cal. A Lua, símbolo da fertilidade, renovação e crescimento e, porque reflecte a luz do Sol, está ligada ao conhecimento. Por outro lado, porque ligada à noite, associa-se à noite interna do poeta, à zona escura da alma que quer ser iluminada, e ao mistério da criação: «Liberto da condição /de existir encarcerado /Escuta em sonho o coração /A si mesmo aconchegado». E o coração inquieto grita o azul, o sonho: «solta o azul /ó asa».

Respondendo ao chamamento interno «Permanece/ó ser», «As aves bebem /na fonte /essa loucura», procura incessante de revelações no infinito: «montam cavalos / brancos, /Já não lhes resta o leito /acolhedor. Precisam /de falar com Deus /para morrer».
O poema «O Livro» sintetiza todo o investimento artístico do poeta:

São breves, e invisíveis, como os ritmos da terra.
Pelos livros, sei o que não vêem os olhos; o que
não colhem as mãos, quando, de sombra, a boca se ilumina.
Com seu poder diurno, um livro demora a ser.
Por isso, celebra o espaço: por cada instante,
sustém, na pedra, a fuga clara.
Uma vez aberto, um livro jamais poderá fechar-se;
abre-se onde, de resto, o fim começa.
Inaugural, ergue da terra novo fulgor divino.
Umas vezes, perpassa, como um tráfego secreto;
outras, esquece: ao primitivo ardor dos caracteres regressa como um deus.
Leio o que escrevo e sei, agora, o azul helénico do
mar. O livro é ainda a procurada luz dos barcos. A
água assina cruelmente essa suspeita.

Papéis de Fumar, Vergílio Alberto Vieira; Editorial Campo das Letras, Porto, Março 2006

© Teresa Sá Couto

sábado, 4 de julho de 2009

Novo poema de José Agostinho Baptista

José Agostinho Baptista lança hoje, na sua ilha, na Madeira, o novíssimo livro O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos, um longo poema em prosa poética, com a chancela da Assírio&Alvím que tem editados os títulos do poeta.

Na capa, uma pintura de Ilda David'; no interior, um compêndio de desmesurada beleza, onde se reconhece o percurso poético de José Agostinho Baptista, que tenho vindo a acompanhar, desde há muitos anos.

Sem mais ruídos, deixem-se extractos da pureza vocabular e insular de língua portuguesa:
.
«(…) Quando me ofereceste a cria do cisne, compreendi. Sem uma palavra, a olhar para o chão, timidamente, estendeste para mim a sua pequena forma, macia e quente. Na concha das minhas mãos, senti bater um minúsculo coração. Soube, de imediato, que o lugar do medo se ocultava debaixo daquela penugem onde despontavam as primeiras penas. (…)
Levaste a flauta aos lábios e sopraste longamente. Não era uma canção. Talvez o uivo do lobo, talvez o vento, numa harmonia despedaçada. Voltei a sentir outro calafrio e, silenciosas, duas lágrimas desceram, de cada lado, dos dois cantos que há em cada lado de duas ínfimas salinas. Parei, voltei-me para o horizonte e aí procurei, na face cobreada do poente, uma resposta, um sinal comovido da sua lonjura. Mas nada encontrei. Era apenas a tarde descendo algures, para o mar, para a linha que o céu faz com o mar. Era o tempo que passava.
Afastei-me, com a cria do cisne palpitando no peito, e durante horas procurei a sua morada. Perto do anoitecer, junto aos arbustos, descobri um ninho, e percebi, com uma alegria que desconhecia, que era a sua primeira casa. Aconcheguei-o, suavemente, como aconchego as lãs no Inverno da minha enxerga. Nunca mais saberia dele mas, um dia, ao ouvir o seu canto, não teria dúvidas. (…)» (p.44)
***
«Esquecerei tudo o que ouvi. Recusarei oferendas. Deitar-me-ei, nesta enxerga fria. Usarei, dia após dia, até ao fim dos meus dias, estes cubos vermelhos, pendentes, porque têm a cor do sangue do meu amado. Ao tocar-lhes, é como se tocasse uma chama e um incêndio, como se os meus lábios unissem as margens de uma ferida mortal.

Somos prisioneiros, pertencemos a um lugar. Não há outro. Como o caule à raiz, o fruto à árvore, pertencemos àquilo que tocamos, sem saber porquê. E andamos à volta, porque somos isso, uma nave que se move sobre um eixo indiferente e acelera a sua marcha à medida que os anos passam e as lápides se aproximam. Acendem-se as lâmpadas, nesse terraço que imagino, mas um labirinto selvagem permanece no coração, nas suas passagens secretas, cujos portões encerram, num estranho castelo de nuvens e vapor, a nossa inamovível solidão. Se quisermos, podemos partir para as estrelas fabulosas de uma noite austral. Se quisermos, podemos plantar ao amanhecer um jardim de plantas luminosas e muito brancas, podemos vaguear perdidamente, lembrar, esquecer, recomeçar tudo o que interrompemos da última vez.

Podemos tudo e não podemos nada. Somos tudo e não somos nada, marinheiros sem porto, cais sem navios, no litoral das casas. E as casas, como ganchos de um cabo de aço, longo e inquebrável, atam-nos, de pés e mãos, a um quarto, a um degrau, a uma cancela que abrimos e trancamos, noite após noite, ano após ano, distraidamente, numa inércia ancestral e cega. (...)
».
pp. 183, 184, 185

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 22 de junho de 2009

«Palinódias, Palimpsestos» de Albano Martins

São infinitos os caminhos da palavra, mas também são inextinguíveis o poder criativo e depuração de Albano Martins. Palinódias, Palimpsestos comprova-nos que é precisamente o carácter inesgotável da palavra que nos permite agasalho e apaziguamento, porque quando tudo nos falta e nos sentimos murados, resta-nos ainda a palavra com a sua garupa.

«Não ponhas o dedo /na ferida. Deixa /a dor respirar /em segredo», diz-nos o poeta, num poema minimalista, de quem aprendeu com o silêncio a faísca certeira da luz. E é por essa torrente luminosa de paz interior que nos atinge, que Albano Martins é um dos maiores poetas vivos de Língua Portuguesa.

Como o título indica, o livro propõe a reflexão sobre a poesia enquanto arte que labora com o material mais esquivo, mas por isso mesmo desejável: a palavra que abre caminhos que se desmultiplicam (palinódias), sempre inquieta, ora escondendo-se, ora deixando-se transparecer, em proximidade com Palimpsestos: Nem sempre as palavras /dizem o que diz /o seu sentido. São /às vezes máscaras /perfeitas, outras /como sudários, rostos /esculpidos no mármore /das lágrimas. São /umas vezes /parábolas; outras, /palinódias, /Palimpsestos.

Num exercício íntimo, intenso, os poemas procuram lugares onde o poeta e a palavra se interceptem, se reconheçam e se fundam: vim /para saber /se eras tu /a quem dei /o meu nome. São caminhos de identidade que Albano percorre há mais de meio século dando-nos dele regularmente notícias e, agora, neste seu “relatório”, mais depurado do que nunca.
Com jovialidade e energia raras, enfrenta-se a rasura, para que a escrita se perpetue e com ela os ecos do silêncio, tessitura da palavra, mistério e razão da criação:

Que não. Que não sabes,
dizes. Também
a água não sabe, e nunca
diz não, e nunca
se desdiz.

Rigoroso, no conteúdo e na forma, o poeta revela o trabalho árduo que o relacionamento com a criação exige. A disposição dos versos nos poemas obedece a uma perfeição geométrica, contribuindo para o desafio da multiplicidade de leituras. E assim se atesta que o amor, todo o amor, tem de ser vivido de olhos bem abertos:

Dormir, sim,
quando o silêncio
dói. Mas nunca
se dorme quando
o amor
é uma insónia. Ninguém
ama de olhos
fechados.

Cumprir-se a missão para se cumprir o ser, sempre com persistência, apesar dos escolhos, é uma das grandes lições que o poeta nos dá e com ela robustece-nos a existência:

Lembra-te: ainda há pouco
havia à beira
do caminho
algumas pétalas. Agora
há lama e nela
afundas os sapatos. E outro
caminho não conheces. E outro
também não há.

Poro a poro, a pele das palavras

Maestro das sensações, Albano acompanha o ardil da palavra, corteja-a para lhe saber o sentido, o seu próprio sentido, o seu /sentido próprio, conhece-lhe os movimentos, os segredos, despe-a, ama-a e, cúmplices, poeta e palavra, que dizer uma é dizer outra, constroem a história da paixão:

Se a mão
desliza
sobre o papel,
se a pele
reconhece
a pele, o dedo
encontrou
o seu anel.

Na urdidura da conquista, cabe ao poeta o papel de encontrar sempre uma forma para jogar o jogo da sedução com o Tu, a palavra. Mas a sedução de Albano, com ímpar sentido de partilha, atinge, também, outro Tu: o leitor que, enredado na dádiva, passa a deter o poema moldando-o ao seu "tu" interior".

«Como a palavra, Só o dardo /conhece o alvo. Só o dardo /sabe o nome /da ferida. /O seu lugar». E o lugar das palavras de Albano, sabe-o o poeta, é aquele em que a pele das palavras, das que ele libertou, encontra outra pele que passa a ser a sua casa. Deixem-se outros poemas:

À maçã
não lhe perguntes
quem é.
Outra forma
não há
de lhe reconhecer
o sabor
***
Arrefece,
dizias. É o frio,
disse eu,
que te acaricia
a pele. Que nela se aquece. Que nela
se esquece.

***
Sim, dizias tu, mas em seguida
corrigiste: talvez. Esta
é a única palavra
que não tem casa. Que mora
no intervalo
entre o som e o silêncio

***
Não digas
beijo, diz a boca. Não
digas rio, diz a fonte. Diz
apenas.


Palinódias e Palimpsestos, Albano Martins; Editorial Campo das Letras, Porto 2006


© Teresa Sá Couto

(to Artur)

domingo, 14 de junho de 2009

Palavras de música e silêncio - poemas de Fernando Tordo

Não são cantigas que ele nos traz, mas é, e ainda, a música das palavras. «Quando não souberes copia» é o título do livro de estreia na poesia de Fernando Tordo.

Mas o que tem para nos dizer este homem de 60 anos e músico há mais de quarenta? O que registam as suas letras, agora cinzeladas no intimismo e no silêncio do poema? A sua poesia regista olhares e interpretações do mundo, marca do sentido global do homem. E, nas 86 páginas, poema após poema, o autor mostra que, se não se sabe contar o mundo, basta prestar atenção às próprias veias onde correm sentimentos e sensações, o medo e a esperança, o sonho e a perda: o rio interior de cada um é cópia do de todos, porque todo o homem é feito do mesmo barro.

Com o sentido da sua própria incompletude, o poeta parte no encalço de todos os homens para se construir a si, homem: «Aquele barco longe de mim/ e eu ainda mais longe de mim /por isso não sei da distância do barco até mim, a qual de mim. /Vejo-lhe o mastro, imagino-lhe o rasto, mas desconheço-lhe / o rumo. Ponho-lhe um dos de mim ao leme e com voz de bússola ordeno-lhe/ que procure outro. /Mas não me respondo /nem um nem outro /não nos conheço /e ao agarrar o leme que nos dei /afundo o barco /onde sem saber /estava o meu outro que só agora sei.».

Na procura humana, o poeta detém-se no mercado de Coyoane para lhe apreender as pessoas, a ambiência e os sentidos, como antes no mercado de Alvalade, porque «com sentidos, recordamos os /distintos rumos que atribuímos / à vida»; visita o café “El Pêndulo”, da Cidade do México, cheio de olhares de Frida Kahlo; observa a morte de Arafat e constata o mesmo silêncio: «Na Mukata ou no cemitério do Lumiar»; procura o sentido do medo em Ossétia, «no olhar daquele menino /que nunca mais encontrará o sentido /dos sentidos»; entra no comboio da sua condição, não sentado de frente para o destino, como lhe disseram, mas de costas: «teimo em dizer que vou acordado e quero saber /por qual diapasão afino /se bato de costas quando chegar /ou se esbarro de caras com o destino».

Numa escrita que se liberta do grilhão da rima, «até porque acordes não rima com liberta», assim segue a palavra solta pelos vários pontos do mundo, no rasto longínquo dos homens, ajustando contas com Deus, pedindo-lhe responsabilidades, mas, sobretudo, pedindo responsabilidades aos homens que banalizam a dor com que se constrói a indiferença. Neste sentido, esta poesia de Fernando Tordo envereda pela denúncia que desafia a uma mudança de comportamento, lembrando a que ele durante tantos anos interpretou nas suas cantigas. Correm, completos, dois desses poemas:

A linha do horizonte faz uma curva perigosa e está fora de
mão
A linha do horizonte, afinal, é um embuste linear e um
veículo mal conduzido
Quem lhe deu toda esta grandeza esqueceu-se de que lhe
estava a dar todo o poder. Ouviste, Deus?, é contigo.
Ou será que te enganaste e não percebeste que o horizonte
não é para ver de cima? Já não é a primeira vez que te
apanho em falso.
Repara nos homens.
Nas guerras.
Na fome.
Nos incêndios e nas cheias.
Queres pior?
Repara na mentira.
Queres um resumo? Repara em ti.
Já sei, já sei. Para estes casos, tu não és nenhuma entidade
superior, tu és dentro de cada um de nós.
Mas a multa do horizonte fora de mão, essa pagas tu.

****
Quantos achas que morreram no atentado desta manhã?
oito, 23?
e feridos graves?
71, quarenta e quatro? Nenhum?
Ao pequeno almoço, Manuel e Maria apostam via rádio.
Não jogam a dinheiro são pobres como a morte
apostam na morte a feijões para o jantar
à hora do pequeno almoço.
Amanhã, ligam a telefonia outra vez.
Quantos para hoje?
onze mortos e vinte e sete feridos, 18 graves, ou
cinco mortos e 39 feridos, nove graves?
O Iraque, a batota, a aposta. A sorte. O azar.
O mundo todo em jogo, Las Vegas todas as manhãs
da vida da Maria e do Manuel, surdos com as ondas
das bombas e da rádio.
Quando nos habituamos, apostamos a morte a feijões.
Quantos achas que são hoje?, quem perder faz o jantar.
Feijoada.



Quando não souberes copia, Fernando Tordo; editorial Campo das Letras; Porto, Maio 2007

© Teresa Sá Couto