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domingo, 23 de novembro de 2008

«Encornados, encornadores e pássaros avisadores»

Na aldeia de Campoamor, os habitantes vivem ao ritmo das pulsões do corpo e voos de espírito. Como em qualquer outra aldeia. A diferença entre esta e as outras é que Campoamor tem um escriba com marcas de jornalista, cronista, romancista e poeta, que se move entre todos e regista não o que se ouviu, mas o que se ouviu contar, mais exactamente, não o que se ouvia «mas o que se julgava ter ouvido»; e remexe tudo ou são as palavras que remexem, porque elas também têm asas.

Assim surge «Campoamor – Uma história de encornados, encornadores e pássaros avisadores» pela pena de um ilusionista: Hugo Santos, alentejano, nado em Campo Maior e mestre na arte das «palavras que se apegam ao tutano dos sentires e que os chupam de tal modo que apenas quedam os ossos». Este é um «Romance mágico, na concepção e na escrita», escreve Urbano Tavares Rodrigues, no Prefácio. Necessária, luminosa e inolvidável, esta narrativa vem resgatar a tradição literária de quadros rurais tradicionais onde ressumam Aquilino, Fernando Namora e o ardiloso, subtil e satírico humor vicentino tão arredado da moderna Literatura Portuguesa, tudo impresso com elegância e harmonia artística incomensuráveis.

Amassar o barro do mundo

«Cada um sabe de si e Deus de todos»; Deus e o escriba que o vai registando ao longo das 153 páginas intensas e alígeras, com muitos enredos, muitas vozes, muitos espantos e estremecimentos soltos pela pureza e pitoresco com que se descreve o barro humano. Narrativa de observação que assenta o seu método na deambulação, cria-se um puzzle, que vai para diante e para trás, ao ritmo das histórias alheias que cada um diz saber – criando-se, assim, um prodigioso laboratório de observação social – e dos ajustamentos que vai fazendo o narrador, que colige todas, fazendo da própria escrita um festim deambulatório. A acção centra-se na fronteira espanhola, numa vila enquadrada por dois rios, alegoria do processo que subjaz à feitura duma narrativa, a realidade e a ficção, mas também das dualidades com se cose e descose a vida.

Na trama estão bandos de pássaros que assaltam o coração da vila, questionando-se «se os mais esvoaçantes são os de cima ou os de baixo, os pássaros ou os homens.». Centrando-se no voejar dos terrenos, apresenta-se uma prodigiosa galeria de personagens, homens e mulheres em cenas eróticas, em «Cavalgamentos e descavalgamentos clandestinos», «afogueamentos e desafogueamentos» no «sobe-e-desce que nos varia o sentido e nos faz crer que o infinito é já ali», mostrando, afinal, que «o concavo e o convexo eram coisas para se ajustarem, sempre que fosse preciso»; mostra-se, sobretudo, a exortação à Primavera ou a necessidade dela, naquele mês de Abril em que «o número de encornados e encornadores sobe a olhos vistos», não interessa de que ano, pois em todos os tempos e para lá de qualquer geografia é sempre tempo e lugar para o encontro de duas solidões. Nesta tese da sobrevivência humana, a narrativa entra no fantástico: um morto que escrevia cartas de amor à sua viúva e um morto-vivo que visita a sua viúva dia-sim dia-não para lhe mostrar o prodígio dos dotes que não mostrou em vida. É o mundo do avesso, entenda-se, da insurreição perante as limitações da existência, onde há ainda cegos que vêem, surdos ouvidores, um vedor falhado cuja vara de vime anuncia os mortos, uma mulher nua que enlouquecida vagueia pelas ruas com uma luz a acompanhá-la.

E percebe-se o que foram os pássaros fazer à vila: «as esperanças de muitos sempre se assemelharam a asas de pássaros, um dia confronta-se cada um com os sentires que tem e começa a voar com eles, os pensamentos têm destas coisas, juntam as pedrinhas do passado, do presente e do futuro e misturam-nas de tal modo que, a dada altura, o acontecido está para acontecer e o que se considerou feito está por fazer».

O escritor e a liberdade da escrita

«Oficiante da pena e de penas e por elas oficiado», ao escriba cabe o papel de «desatar os nós górdios dos escrevinhados e pôr pássaros onde deviam estar bichos doutro rastejo», como já anteriormente se viu. E Hugo Santos, tal como o narrador da história que «se habituou a manusear as pedras-pomes das palavras e a afiar com elas as utopias» mostra-nos de forma cristalina a relação fascinante do escritor com o processo de escrita: escrever «é um pouco como caçar mosquitos com uma espingarda de calibre 12, socorre-se o pensamento do narrador com as letrinhas necessárias ao seu enforcamento e, a dada altura, disparam umas para um lado e outras para o outro, quer expressar-se um “sim” de assentimento e sai-lhe o “não” da catequista Fernandinha Raposo quando posta sob as investidas do prior Alcino do Rosário, quando se chega ao fim da história até parece que foi outro que por nós a debitou».

Outrossim, discorre-se sobre a relação entre a realidade e a ficção, a verdade e a mentira enquanto construtoras do processo de escrita. A realidade «é mais susceptível de dúvidas que o contrabando da ficção», refere-se, e «a verdade e a mentira andam por linhas paralelas como os carris de dois comboios que vindo um do norte para sul e outro tomando trilho contrário, se encontram no mesmo apeadeiro e parecem traçados ambos pelo mesmo destino». São dois rios que se juntam em águas que galgam as margens. É como os fenómenos que ocorrem em Campoamor: «no fundo, isto é como tudo; quem acredita, vê mesmo com os olhos fechados, e quem descrê não o aceitará nunca nem com eles todos abertos».

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

«O Lavagante» de José Cardoso Pires - Pura filigrana literária

Dez anos depois da sua morte, a completarem-se no dia 26 de Outubro, José Cardoso Pires regressou às livrarias para nos mostrar o quanto nos faz falta. Lavagante - encontro desabitado é um texto inédito do nosso escritor de sempre e é com ele que Nelson de Matos, que foi editor de Cardoso Pires durante quase 30 anos, iniciou a actividade da sua nova editora. Uma homenagem ao amigo, disse o editor; uma homenagem à saudade dos leitores, acrescento eu.

A surpresa deste texto póstumo, lançado no início do ano, valeu-lhe esgotar, num ápice, a sua primeira edição de 3000 exemplares. A surpresa continua no interior, pois foi a ela que Cardoso Pires nos habituou: o ardil narrativo, o desenho das personagens, o carácter impressivo dos ambientes e a prosa de pura filigrana avassalam o leitor enredando-o nas breves, mas imortais páginas desta preciosa fábula que retrata o Portugal medroso, censurado e asfixiado dos anos sessenta. Sem dúvida, o acontecimento editorial do ano.

José Augusto Neves Cardoso Pires nasceu no dia 2 de Outubro de 1925 em São João do Peso, Vila de Rei, Castelo Branco. No dia 26 de Outubro de 1998, em Lisboa, o escritor de O Delfim e de De Profundis, Valsa Lenta, não conseguiu vencer a senhora da gadanha e, após um acidente vascular cerebral era-lhe decretada a morte cerebral. Considerado um dos maiores escritores portugueses do século XX, Cardoso Pires deixou-nos uma obra extraordinária em romances, contos e dramaturgia.

Segundo as Edições Nélson de Matos, o texto foi editado, numa versão reduzida, em 1963 na revista O Tempo e o Modo com o título "Um lavagante e outros exemplares", com a menção de que se tratava de um capítulo do próximo romance de Cardoso Pires, e terá sido concluído antes da edição de O Delfim (1968). O texto agora publicado será a mais completa das três versões dactilografadas.

Lavagante, Safio e «outros bichos»

A acção inicia-se no Lanterna, «o melhor bar de praia» onde estão o narrador, um barman e um jornalista «em destroços agarrado ao balcão do bar, da geração reformada que não conheceu a paz nem a guerra», a geração 44-45, «atormentado» e de «sonhos frustrados», sentindo a culpa da mão viciada que «escreve com medo»:
«Viciámo-nos. Agora temos a Censura a escrever por nós. E amanhã? Quem sabe escrever amanhã, quando a Censura acabar?».

A chegada de um casal, saído de um Mercedes 190 – a «mulher cabra» e um fascista, o «engenheiro-sapo» – introduz a história de Daniel – jovem médico oposicionista do regime – e Cecília – jovem estudante de Arquitectura que o traiu entregando-o à PIDE, o que valeu ao jovem 52 dias de prisão no Aljube, sem perguntas, simplesmente para «dar-lhe um golpe no orgulho». É também este o ensejo para a metáfora do Lavagante, que desata a reflexão sobre a autofagia:
«o lavagante é principalmente um animal de tenebrosa memória, paciente e obstinado, e terrível nos seus desígnios. Contei-lhe como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. “‘Nesse momento, fica sabendo, o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.”».

Extraordinariamente construída, Cecília é o lavagante, calculista, «fria e soberana», de «corpo vivaz», «cabra mil vezes cabra», diz o jornalista «em desespero», amigo de Daniel.Mas se o lavagante é Cecília, também Daniel «executara as diversas fases dum jogo perigoso»: «o teu amigo quis catequizar a rapariga e o tiro saiu-lhe pela culatra. No fim de contas, é a velha costela de Pigmaleao que todos nós temos… (…) Talvez fosse uma espécie superior de lavagante…Quem sabe?Se formos a ver bem, talvez o Pigmaleão tenha qualquer coisa de lavagante. Ele também aperfeiçoava a presa, não é verdade? Também a acomodava aos seus desejos. ».

Por outro lado, a Cecília arrependida origina uma troca de papéis: o mesmo Sapo que o terá prendido, pela mão de Galos Velhos, operacionais da PIDE, o terá libertado por interferência de Cecília: «”O Safio”, digo de mim para mim. “Neste caso foi o safio que se libertou pela mão do lavagante. Questão de táctica, pura questão de táctica. Para ganhar uma presa é necessário às vezes soltar outra. Todos os bichos sabem isso, e o lavagante também. Se sabe!”».

Nota:

O CCB assinala, no dia 26 de Outubro, os dez anos da morte do escritor, com o programa titulado José Cardoso Pires, de Mão Pensada, com entrada livre. Nas actividades contam-se leituras de excertos da sua obra, entre as 14:30 e as 16:15, na sala Almada Negreiros, com abertura de António Mega Ferreira, presidente do conselho de administração do CCB, e as participações de Inês Pedrosa, José Eduardo Agualusa, Mário de Carvalho e Lídia Jorge; uma conferência intitulada Memória e Auto-Ficção, às 17:15, proferida por João Lobo Antunes, e às 18:30 a projecção do filme "O Delfim", realizado por Fernando Lopes em 2002, com argumento de Vasco Pulido Valente e interpretação de Rogério Samora e Alexandra Lencastre.
No átrio da sala Almada Negreiros, estará ainda patente uma exposição com as ilustrações que João Abel Manta fez para a sátira de José Cardoso Pires "O Dinossauro Excelentíssimo" (1972).

© Teresa Sá Couto

domingo, 5 de outubro de 2008

Em Lisboa com «Absinto»

Interpretar a grande cidade absorvendo-lhe o pulsar é a proposta do livro «Absinto – A Inútil Deambulação da Escrita» de Rui Herbon, editado em 2005 pela Parceria A. M. Pereira, Lisboa, e galardoado com o Prémio Literário António Paulouro 2004 da Cidade do Fundão.

Galvanizado por um narrador que deambula, o leitor recebe as palavras, como bolhas translúcidas, verdes da cor do absinto, com as quais constrói a sua própria sensação da urbanidade. Escritor e leitor seguem a par por 173 páginas ou ruas com muitos enigmas, imersos «em pensamentos como os mendigos abismados», atentos à cor, ao som, à luz, às sombras, às gentes, antes fechadas nos actos costumeiros de quem por tanto passar já não vê. E não há indiferença nesta Lisboa de Rui Herbon, desnudada por alguém que tem o amor no olhar, e a crítica no humor. Quem conhece Lisboa, com as palavras de Rui, redescobre-a. Quem não a conhece cria-a. Lisboa total, inteira, que amanhece e anoitece. Assim se faz a cidade que perdura. Assim se faz uma escrita de leitura indispensável.

A deambulação é feita por um narrador/escritor que não tem nome, nem é preciso tê-lo: pelas cumplicidades criadas, o leitor conhece-o desde sempre. O ponto de partida é um apartamento no Chiado, de dois pisos, ao qual o Eu «chegava por uma íngreme escadaria de degraus curtos», no topo de um prédio de esquina, junto das Escadinhas do Duque que «quase todos os dias subia ou descia, ou subia e descia». A dificuldade com que se «palmilha» a cidade, e a vertigem dos espaços onde se processa a deambulação, incorpora a alegoria da criação literária, e numa espantosa coesão, espraia-se ao longo de todo o romance nos mais diversos sinais: a história «O Fim» apresenta o imortal Al Gahel, o sobrevivente da Atlântida, o sangue comum a todos nós, que regressa a Lisboa para se suicidar. Para chegar ao seu quarto de sempre, no “Hotel Cervantes”, tem de subir «vinte e quatro degraus a direito, vinte e quatro multiplicados pela meia dúzia de vezes que ali se hospedara». Atestando a sua passagem pela vida, deixa um livro precioso, um Diário.

Deambulando, o Eu observa a cidade em cada instante munindo-se da técnica impressionista, com recurso às sinestesias, que permitem transmitir impressões e sugestões da realidade, e conferem ao todo grande plasticidade estética e prazer na leitura. Por este processo surgem os vagabundos, as estátuas, a gente buliçosa, os de olhar turvo e sem brilho, a massa de figuras e rostos, táxis alinhados, a velha taberna de esquina, suja e sebosa, o buzinar forte, etc. Deste manancial efémero destacam-se fios que ao irem ficando na percepção do sujeito, logo, na narrativa, vão-se fortalecendo: o caso de uma rapariga com quem se cruzou, no Castelo, com a qual «trocou por breves segundos um olhar frontal e cúmplice, que recordo até hoje»; a «misteriosa, insondável e desejada» que percorre toda a história, mas da qual se sabem apenas traços físicos e que usava sandálias de tiras.

Sendo Lisboa «uma cidade duplicada» – com duas placas para o mesmo local, uma com nome pomposo outra com o nome que todos conhecem –, também a noite mostra a outra face de Lisboa ou a duplicação de uma mesma parte: os noctívagos que na noite deambulam num processo de evasão da sua própria noite. É a noite que traz ao Eu o insólito Emílio Montalbán, que o “apresenta” à Sociedade internacional do Absinto. Um espanhol que andava sempre com uma pasta e que caminhava com um cão a seu lado, «nem atrás nem adiante», coxo da pata direita, um rafeiro «reles, surrado a fomes e abandonos, de pêlo caído, gasto e da cor das coisas que envelheceram, vestido com uma farpela preta e surrada, como a do dono».

O primeiro contacto táctil do Eu com Emílio é feito com uma vibrante imagem impressionista, mas também surrealista: «apertei-lhe a mão estendida, era engelhada e fria, as gelhas escorregavam entre os meus dedos». A noite é o lugar também das sombras humanas, do apelo sexual como procura de salvação, mas que encontra o “não ser”; é exemplo disso o “engate”com Sofia ou com Rosário. Outrossim, o olhar crítico sobre o “burguesismo fácil” está evidente em Sofia, a «Infanta da lavoura», com o seu carro vermelho descapotável. Ele observa-a, no quarto dela, deitado numa «cama com um colchão ortopédico com campos magnéticos e um edredão de penas às riscas, o papel de parede condizia, os tapetes condiziam, as cortinas condiziam e até o estofo de uma cadeira condizia». Mais do que o corpo dela, são estas observações que lhe ficam.

Construído de episódios ou quadros do real quotidiano, o enredo é vertiginoso com um caos que a escrita disciplina. O autor dispensa o ponto final e outras marcas da pontuação, mas não se pense que a desobediência às regras da prosódia faz com que esta escrita seja rúptil. Ao mesmo tempo que Lisboa se vai construindo, palavra a palavra, e a frase invadida pela vertigem sensorial, surge uma entidade inusitada: o leitor. A artimanha está na alternância entre a objectividade, verosímil para o leitor, e o recurso subtil à emoção, com que enreda o leitor que segue, quase hipnotizado, ao encontro do Eu que, por isso, passa a ser cada vez menos anónimo, pois passa a ser muitos, tantos quantos os leitores e os momentos de leitura. No momento perfeito, o leitor surge na intimidade da casa onde se escreve, através da vizinha da frente: «Ela chegou e invadiu tudo(…) apoderou-se de mim a ideia de que a palavra que estou a escrever é exactamente a mesma que ela lê nesse instante».

O leitor partilha a escrita, observando o momento em que o narrador, na sua secretária, preenche a página em branco, dá forma à sua escrita interior: «os olhos escorrendo desde a parede ou desde a janela para a folha, prolongando pensamentos e imagens.». Escritor e leitora permanecem naquele local, «a escrever e a ler em simultâneo, a horas certas, todos os dias». O livro termina com a voz da rapariga das sandálias pedindo um shot de absinto com groselha. Não sabemos mais nada. Um final aberto num livro de deambulação, onde é evidente “A inútil deambulação da escrita”: deambular não é chegar. É sempre partir.

Este livro é um contrato do autor com o leitor. Porque a imaginação é um movimento, e as palavras o impulso, este pacto é prolongável no tempo: será difícil ao leitor esquecer-se deste «Absinto».

ver aqui Entrevista a Rui Herbon

© Teresa Sá Couto

nota: texto elaborado em 2005

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

MORREU DINIS MACHADO

Definitivamente, há coisas do Diabo: no dia em que a Orgia Literária edita o meu texto sobre o magnífico e reeditado policial «Mão Direita do Diabo» de Dennis McShade (pseudónimo do nosso Dinis Machado) tenho de dizer que o autor, de 78 anos, acabou de falecer.

Os amigos já se preparavam para a despedida, mas ele, insurrecto por natureza, resolveu antecipar-se-lhes. "Pois!", diria Maynard. Morreu Dinis Machado, ele que, pela mão da sua escrita, tantos momentos de vida me deu a viver. Muito obrigada, Dinis. E acredito que tu saibas a desmesurada gratidão que os teus leitores têm para contigo.
Continuaremos a encontrar-nos sempre que eu te ler, e ler-te-ei enquanto viver!

nota: a fotografia de Dinis Machado, aqui reproduzida, foi colhida no site do escritor e jornalista Viriato Teles, onde se encontra uma magnífica entrevista ao Dinis, realizada em 2006.

Texto editado hoje, dia 03.10.2008 na Orgia Literária :

Mão Direita do Diabo, Dennis McShade

À necessidade de pôr o pão na mesa, junte-se o amargo e o doce da vida, uma mão cheia de livros lidos e a linguagem da rua. Envolva-se tudo com perícia e lance-se na eternidade, em três doses. A fome dos leitores será a levedura.

Após 40 anos e 1199 edições, o Mão Direita do Diabo de Dennis McShade, pseudónimo do nosso Dinis Machado, regressou às livrarias para nos relembrar que a genialidade é imperecível e mostrar a fome que temos destas leituras. E o primeiro título da saga policial McShade não vem só: projecto de reedição abraçado pela Assírio&Alvim, aquele título faz-se acompanhar pelos desejados, e há muito esgotados, Requiem para D. Quixote, a editar no final deste mês de Outubro, seguindo-se, nos primeiros meses de 2009, o Mulher e Arma com Guitarra Espanhola. Escritos por encomenda, num período de dificuldades económicas do autor, os três policiais, publicados entre 1967 e 1968, seriam o afinar da mão para o mítico e inigualável O Que diz Molero, editado dez anos depois, refere José Xavier Ezequiel no excelso posfácio de lavra dúctil, expedita, colorida e envolvente, onde se apresenta Dinis Machado – o homem, o seu tempo e a sua escrita – e com que bem se finaliza este Mão Direita do Diabo.

«Nado, criado e aculturado em filmes negros americanos no Bairro Alto», Dinis Machado «e o policial negro são unha e carne, quase como se tivessem andado na mesma escola, ou assentado praça juntos», diz José Xavier Ezequiel. E se a tríade policial McShade bebe o ensejo e o incentivo nos policiais negros de Dashiell Hammett e Raymond Chandler, escritores americanos dos anos 30, Mão Direita do Diabo surpreende de imediato pela narrativa que, assente na personagem principal, cria um método e é fortalecida por ele: o disparo certo, no momento certo, sem desperdício de munições; que faz grande um género considerado menor; de uma leitura que, não permitindo paragens, nos sacode, a um mesmo tempo, com o espanto, a reflexão, o sorriso e até a gargalhada; com estreita ligação ao cinema e, fortíssima, à Banda Desenhada; com linguagem depurada, voluptuosa e desconcertantemente simples, capaz de chegar a todo o tipo de leitores com o mesmo arrebatamento inaudito, a revelar o carácter democrático da literatura, só possível por um escriba raro, tão raro que encobre o nome em Dennis McShade.

Por outro lado, se Dashiell Hammett criou a personagem Sam Spade, e Raymond Chandler criou Philip Marlowe, Dennis McShade surge com o admirável Peter Maynard, o assassino profissional de «obra limpa, completa, em profundidade e extensão», com nervos de aço e uma úlcera no estômago que é «uma broca», que cita Camus, lê Steinbeck, Dos Passos, Celine, e se apraz com o Kama Sutra, que ouve Bach, Beethoven e Mozart, e encontra serenidade nos braços de Olga.
É este «Califa» que se move em Nova Iorque, Las Vegas e Chicago, com a Beretta sempre oleada pronta para matar, de insuspeito sangue português, insuspeito para os censores da PIDE, pois o leitor atento não só suspeita, como o reconhece: na nostalgia de uma vida onde somos títeres, no olhar sobre as almas errantes nas ruas esconsas ou num bar sórdido de uma cidade da América, mas onde ressuma a nossa Lisboa e os bares onde se bebe a solidão.

Mão esquerda de Deus

«Matar pessoas é uma tarefa esgotante, principalmente pela longa espera e o ritual que envolve. É uma tarefa de perito, uma coisa que exige especialização nervosa», diz Maynard, incumbido de matar quatro homens. Escrupuloso e eticamente irrepreensível, Maynard traça científica e pormenorizadamente o plano, que a urdidura revela aos poucos, como manda a regra do género policial. Ao mesmo tempo, Maynard tem de traçar outro plano, com mais improviso, para escapar aos «assassinos confederados» do Sindicato, instituição de crime organizado que lhe emite uma ordem de execução por não lhe agradar a independência de Maynard que, transgressor, teima em trabalhar sozinho. É, aliás, este carácter solitário que estrutura a personagem e, por ela, se estrutura a narrativa, confirmando-se que a solidão medita e a meditação cria; de poucas falas, Maynard é reconhecível pelo «Pois», o seu cartão de visita, e nunca um «Pois» disse tanto na história da literatura: ele é cicio e clamor, assentimento, inevitabilidade, sarcasmo, sátira, desafio, ironia, sinceridade e simulação; ele responde, comenta e exerce o direito a não comentar.

Surpreendentemente, é a dificuldade de Maynard em construir uma conversa que origina diálogos magníficos; é, também, essa espécie de desprendimento, que lhe granjeia junto das mulheres um interesse inaudito, com a narrativa a apresentar quadros de sedução hilariantes; é, ainda, devido a esse carácter solitário, que se explora, brilhantemente, a psicologia das personagens, mas também a psicologia do leitor, enredado num jogo sensorial e intelectual, e hipnotizado pelo balancear das palavras.

Se o solitário Maynard fala pouco, todavia pensa muito, mesmo que pense «só na dose certa». Se a narração na primeira pessoa lhe permite revelar pensamentos, a narrativa segue, a par da urdidura policial, noutra grande frente: a dos monólogos maynardianos, em itálico, conversas de Maynard com Maynard, mergulhos de intimidade, onde ele se recrimina, sorri para si próprio, admoesta, invoca a lucidez, revê os planos e os métodos, faz conjecturas e fala com o leitor. É Maynard, «lobo acossado, que até foge de si próprio», a mostrar o seu barro, a sua desdita, a razão da úlcera no estômago que vai acalmando com copos de leite.
É, finalmente, a solidão deste «bicho nocturno, velha toupeira kafkiana», que lhe permite olhar para o ser humano com solidariedade, a solidariedade dos entravados, mesmo para aquele que cairá, pela força do dever, com a sua mão: «Olhámos um para o outro, quase com simpatia. Meu caro Eddie Piano, formiga humana, pobre diabo.».

Concluindo, alerte-se que é impossível não se venerar este homem do «dedo no gatilho», que com os sapatos de borracha se sente um gato e «com o silenciador na arma, um homem». Afinal, como o próprio texto aventa, Maynard é a «mão direita do Diabo» ou – e mais correctamente – a «mão esquerda de Deus», um seu filho preterido a quem coube ser o «emissário dos ódios intactos»?

Seja como for, «se os crimes de Maynard não são obras de arte, a arte é que fica a perder»; e fica o leitor que não tiver a felicidade imensa de se encontrar com estas leituras.

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Novo grito azul de Ondjaki

O «antigamente é um lugar» que habita no peito aberto da escrita de Ondjaki. Depois de «Os da Minha Rua», Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco 2007, livro com 22 contos assumidamente autobiográficos, que recriam a infância colorida em Angola, o escritor angolano surge com o romance AvóDezanove e o Segredo do Soviético, também editado pela Caminho, para nos mostrar que «as lembranças são cócegas invisíveis que ficam dentro das pessoas».
Fez bem, Ondjaki, autor também do documentário «Oxalá cresçam pitangas», sobre a vida em Luanda, em retomar o tema da infância passada naquela cidade, pois confirma-se que os gritos azuis das crianças irmãs dos pássaros cabiam em mais um tomo. É a memória e os seus afectos, transformada em tópico irradiante de sentido, e os seus efeitos no escritor e na criação literária que AvóDezanove e o Segredo do Soviético transporta. «O inchaço do coração /facilita o despalavrear. /a liberdade pode advir /de uma veia», escreveu Ondjaki no seu livro de poesia «Há Prendisajens com o Xão», em versos que ressoam fortíssimos nesta nova narrativa.

«Convoco memórias distorcidas para inventar estórias, exerço o direito de atribuir falas aos sonhos», diz o autor, na correspondência trocada com a poeta angolana Ana Paula Tavares, incluída no final do livro. Com engenhosos processos de operacionalização da memória, Ondjaki liga a vivência à palavra, funde a realidade na ficção, reconstrói o passado no presente, e trata a memória com linguagem política, porquanto resgata o «tempo dos tugas», em memórias transmitidas pelos mais velhos às crianças, detém-se na Angola livre que procura o seu caminho, promete levá-la para o futuro.

Assim surgem as figuras reais de familiares, amigos e vizinhos, encenadas na linguagem literária, em interacção com figuras inventadas. Os mesmos processos erigem lugares, soltam situações, descrevem atmosferas e contaminam os fios mais ínfimos, conferindo uma admirável coesão à narrativa; é o caso dos nomes das personagens, reelaborados no significado e significante: porque em Angola não se gosta de nomes feios, surge a AvóAgnette, mulher terna e decidida, mais conhecida por AvóDezanove por lhe ter sido amputado um dedo do pé; a AvóCatarina, para quem «o futuro está cheio de coisas difíceis a acontecerem de modo cada vez diferente» e que, por isso, gostava mais de «adivinhar o passado»; o EspumaDoMar, «camarada maluco» que teria ou não um jacaré no quintal, na casota do cão; a prestável vizinha DonaLibânia; o camarada VendedorDeGasolina; o VelhoPescador com a sua canoa BarcoÍris e «mãos antigas» que «desfaziam, com toda a paciência do mundo, os nós bem difíceis que as redes tinham». Também a predominância do tempo verbal no Pretérito Imperfeito marca o relato de um passado que se quer contínuo.

A palavra onde os sonhos acontecem

Na acção central está o sonho das crianças fazerem explodir – ou «desplodir», palavra que inventam por ser «mais uma palavra de rebentar mesmo, explodir parece uma chama devagarinho» – as obras do Mausoléu do «camarada presidente» Agostinho Neto, levadas a cabo pelos soviéticos. É a revolução dos miúdos da PraiaDoBispo com o direito de participarem na euforia da jovem nação liberta do colonialismo português, mas “ocupada” por novos estrangeiros; é a rebelião pela defesa do que é seu, das suas casas e espaços de brincadeira no poeirento Bairro Azul. É um sonho concretizado na literatura, já que o Mausoléu está lá, e as casas nem foram demolidas, esclarece Ondjaki na já referida correspondência.

O movimento narrativo é veloz, na peugada do movimento das crianças da PraiaDoBispo, com os nomes que já encontrámos no livro Os da Minha Rua – o Pi, chamado de 3,14, a Charlita com os óculos grossos que dividia com as irmãs na hora da telenovela para todas verem bem, o Gadinho, o Paulinho, o Ndalu, que é o narrador – de Ndalu de Almeida, nome verdadeiro de Ondjaki. Todos, sempre «a correr, cada um na direcção dos pontos cardeais da sua missão», com pausas para a festa do matabicho ou matabichar a correr para voltar à sua missão: ouvir o som bonito que o vento fazia «a passar de voo com curva nas árvores do quintal da AvóDezanove, figueira antiga, goiabeira, mangueira, árvore de sape-sape, arbustos, mamoeiro, pintangueira»; apanhar goiabas e mangas pelos caminhos; rir «gargalhadas redondas que quase se viam desenhadas no ar»; correr «sem os fios dos papagaios a prenderem uns nos outros – como os nós malucos na rede do camarada VelhoPescador»; bater «forte com os pés na areia para levantar a poeira»; «adivinhar barulhos»; «ficar muito quieto, tentar respirar devagarinho e de olhos bem fechados, para escutar, do outro lado dos buraquinhos do pequeno muro, o barulho das lesmas nas pedras do jardim ou a subir as folhas largas que pareciam estradas enormes para as lesmas treparem»; viver ao ritmo das grandes coboiadas com «bangue-bangue», como no «A Grande Desforra», filme mítico para estas crianças e já referido em «Os da Minha Rua».

Como no anterior título de Ondjaki, também nesta narrativa a missão das crianças tem outra grande desforra: a escrita contra o tempo, executada por um adulto que ao espelho se vê criança a retratar um jovem país repleto de soviéticos e cubanos, estes com presença importante na educação e medicina, com os consequentes choques culturais; e as crianças observam os soldados soviéticos conhecidos em Luanda como «formigas azuis», baptizados na PraiaDoBispo de «lagostas azuis», com «fatos azuis feitos de um tecido grosso que dá para fazer bons panos do chão», divertem-se a imaginar se alguém mandasse esses soldados cantarem o hino, «o sotaque e a letra que eles iam cantar», registam as reguadas da professora que não entende porque se faz uma redacção com estórias “esquisitas” e lamentam-se por não entenderem as estórias em kimbundu da AvóMaria, porque na escola nunca os ensinaram a falar nem escrever kimbundu.

«Para se ser de um lugar e de uma infância, é preciso escrevê-la», diz Ana Paula Tavares em resposta à carta de Ondjaki. Encontramos a resposta de Ondjaki, dentro da narrativa, em cada palavra, em cada metáfora, em cada silêncio, e dada directamente pelo narrador, quando promete à avó nunca se esquecer das «estórias do tempo de antigamente», de se lembrar de todas as conversas «mesmo aquelas em que às vezes não conseguiam dizer nada». Pela palavra, Ondjaki cumpre a missão de dar brilho às suas estrelas, pois, como diria o EspumaDoMar, «se não fossem as estrelas a brilhar, o céu não ia se mexer nem nada, ia ser um lugar sem graça nenhuma de olharmos para ele.».


* Texto editado no sítio da Orgia Literária em 26.09.2008

© Teresa Sá Couto

sábado, 9 de agosto de 2008

O Reino de Gonçalo M. Tavares

Fim da tetralogia sobre a decadência do Reino humano
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Numa era em que os indivíduos são mais reconhecidos pelas capacidades técnicas do que pelos valores humanos, haverá lugar para a espiritualidade? Na engrenagem mecânica do homem que, com movimento incessante e controlado, avança na conquista do poder sobre os outros, haverá lugar para o aperfeiçoamento moral? Numa sociedade que exige a destreza técnica, qual o lugar dos inaptos? Que dor e que morte são permitidas?

Fortíssimo, no centro do seu Reino, Gonçalo M. Tavares levanta-nos todas aquelas questões em Aprender a Rezar na Era da Técnica, título que fecha a tetralogia dos seus Livros Pretos sobre os subterrâneos da alma. Corolário da dissecação humana, o romance plasma a posição de Lenz Buchmann no mundo, reputado cirurgião de mão direita exímia no bisturi e que, por isso, não precisa de ser «um homem bom». São 375 páginas de desassossego, divididas tematicamente em três grandes partes – «A Força», «Doença» e «Morte» –, cada uma com subdivisões minudentes; uma execução da narrativa em fragmentos, característica da escrita de Gonçalo M. Tavares, que faz de cada subdivisão um golpe cirúrgico na alma de quem lê. (Ver entrevista da Orgia Literária a Gonçalo M. Tavares)

Aprender a Rezar na Era da Técnica vem juntar-se aos veementes Um homem: Klaus Klump, A máquina de Joseph Walser e Jerusalém. Na sequência destes títulos - onde se inclui, também, o Água, Cão, Cavalo, Cabeça -, o autor executa a narrativa a partir de centros de irradiação que configuram a decadência do Reino humano, pelo que cada livro é um capítulo de uma tese maior sobre o homem: a relação entre o pensamento e o corpo, a vontade e a mão que a executa, a ideia e a cabeça que lhe dá forma, e a incapacidade do acto quando o corpo entra em falência.

O poder alimenta-se do medo
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Perturbante, o texto desperta-nos para a técnica das mãos que nos manipulam e para as ideias que exploram as nossas fragilidades. Habituado a dominar, Lenz Buchmann vê na actividade política uma nova escala da sua técnica, outra ciência que não a médica, com a vantagem do «número de pessoas que conseguia agora influenciar – ou mesmo tocar, no sentido físico, no sentido do bisturi que interfere no tecido». Fascina-o a forma reverente e subserviente com que os cidadãos cumprimentam o Presidente da câmara da cidade, «um fenómeno mágico que o levou à decisão de entrar para o Partido «e lutar por conquistar os lugares mais altos», «operar a doença de uma cidade inteira», «sentir o prazer de dar aquela comida estranha que o poder dava aos seus soldados e funcionários, aquela comida de energia quase mágica, comida que saciava os estômagos da população de um modo não material, mas igualmente eficaz».

Dar-lhes «algum pão e algum medo», numa engrenagem que se quer com movimento contínuo, defende Lenz nas suas estratégias discutidas com Kestner, o presidente do Partido: «seremos tanto mais fortes quanto mais conseguirmos infiltrar na população esta mistura: movimento rápido e temor. Não os deixar parar para que não deixem de ter medo. Não deixar de os amedrontar para que não parem»; «Havia, portanto, dois medos, e não apenas um. O primeiro medo arrancava as coisas da sua imobilidade e o segundo, o mais poderoso, mantinha as coisas em movimento».

Lenz conhecia as divisões do medo, pois preparou-se contra ele em miúdo, tendo por mestre o pai, que idolatra e cujos ensinamentos aprimora. Militar, o pai fechava os dois filhos à chave num compartimento da casa vazio e escuro por cometerem «a ilegalidade de mostrar medo»: «perder tudo: perder a razão, perder o domínio». Lenz «aprendeu a existir assim. Preparou-se, cresceu, tornou-se forte»

A técnica na vertigem do domínio

Brutal, o texto dá-nos a técnica calculista de um indivíduo de inteligência e cultura raras, mostrando-nos que a natureza racional do homem é a sua grandeza e o seu drama. Se a dialéctica mão-utensílio favorece o desenvolvimento cerebral, Lenz vê na caça e na lei do bosque as premissas de execução do Reino a que «jurou lealdade, o Reino de quem ataca e de quem sabe que há elementos que se preparam para o atacar»: «existências eram, afinal, peças de caça, num resumo extraordinariamente sintético também das relações humanas». Mais: segundo Lenz, «o lutador não abdica à vontade do outro; isso é fraqueza, e fraqueza é doença. A justiça não é um conceito humano mas numérico.».

Segundo Edgar Morin, a caça fez o hominídeo «hábil e habilitado», espevita a inteligência porque faz o homem «lutar com aquilo que há de mais hábil e de mais manhoso na natureza, o animal presa e o homem predador, pois ambos eles se dissimulam, esquivam, enganam. Leva-o ainda a encontrar e a entrar em concorrência com tudo o que há de mais perigoso: o grande carnívoro. A caça estimula as aptidões estratégicas: a atenção, a tenacidade, a combatividade, a audácia, a manha, o logro, a armadilha, a emboscada.».

Com o mapa de combate estendido na «mesa do seu mundo», sua razão de existir, Lenz define a sua posição perante o adversário, procura a presa grande, enforma a ambição, impulsiona-a com o desprezo pelo outro, com «Vingança e ódio, esses afectos recônditos de combustão lenta», como disse Nietzsche, mas também a inquietar-nos com outra verdade humana, dita assim por B. Russel: «a vida perderia o seu sabor se não houvesse ninguém para odiar».

Lenz, para quem «a competência não se define com o coração», está no centro, pois «o centro tem tudo», é no centro que está «o início da explosão». Para isso, «contabiliza os pontos decisivos do próprio corpo»: «em primeiro lugar a cabeça», o «crânio, aquele conjunto de ossos que protege o instrumento de percepção do mundo» e onde abundam «capacidades e desvios surpreendentes». Porém, «o importante é o caminho central: o cérebro serve para não nos deixarmos matar. Exige habilitações máximas aos nossos inimigos. (…) O cérebro, visto de perto, e entendido profundamente, tem a forma e a função de uma arma, nada mais», defende Lenz. Foi a ordem dessa arma interna que o levou a pegar na arma de caça e disparar sobre a própria mulher e sobre um louco, desfazendo-lhes as cabeças.

Duas forças em dessincronização

Verdadeiro tratado sobre a reflexão humana, este romance de Gonçalo M. Tavares instiga-nos à meditação profunda que escasseia nesta era da vertigem técnica, alerta-nos para a falência do projecto da imortalidade e para o facto do valor do homem ser «igual ao de qualquer produto insignificante». Será que só o achamento desta verdade garante a paz interior?

O pai de Lenz ensinara aos filhos que a natureza parecia também «depender de alavancas com a forma da mão humana» e alertara-os para «o momento em que a natureza se torna guerreira», cabendo ao homem, com raciocínio técnico, dominá-la. Lenz tem a vontade, a técnica e o domínio, mas um «mecanismo de degradação», um tumor na cabeça, tira-lhe peso à mão direita que, amolecida, não consegue executar a vontade; a vontade de Lenz de matar o presidente do Partido para o substituir, depois a vontade de se suicidar, como fez o pai que deu um tiro na cabeça quando se sentiu em decadência física: a homens da sua estirpe só uma morte violenta seria permitida; só um fraco morre de forma fraca e morrer de doença é um humilhante sinal de fraqueza.

Assim, «o centro mudava de posição», deslocava-se: Lenz perde, primeiro, as capacidades físicas, depois, mentais, e até o sarcasmo que usava sobre os outros passa a ser usado sobre ele. Há, então, que se contar com dois tempos, que raramente se encontram: o tempo planeado, previsto e o outro tempo, o tempo real, em que acontecem as coisas, o «tempo visível» que não obedece a qualquer mecanismo que o homem controle. A situação de Lenz assemelhava-se à do pequeno rato cinzento, caçado por uma ratoeira, que aparece com a cabeça quase separada do corpo: «duas forças pareciam ter agido sobre ele» e o corpo não conseguiu suportar os seus efeitos simultâneos: «uma força que queria encurtar – talvez a vontade do rato (ou seria a intenção da ratoeira, encurtar?) – e outra força que queria esticar ao máximo.».

«Nos pântanos os motores não funcionam», diz o texto. E Lenz, que «pretendeu a matar os vestígios do Espírito Santo que existem no corpo de cada um», por serem sinal de fraqueza, deixa-se ir na tranquilidade da luz que o chama para o descanso derradeiro.

Aprender a Rezar na era da Técnica, Gonçalo M. Tavares, Editorial Caminho, Lisboa 2007

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O Vendedor de Passados

Respondendo a muitos pedidos, deixo a sugestão de leitura de «O Vendedor de Passados», um romance singular de José Eduardo Agualusa, editado em 2004, e exactamente o penúltimo romance do autor angolano, que editou em 2007 o «As Mulheres do Meu Pai». Aplaudido internacionalmente, este «O Vendedor de Passados» continua a ser muito procurado e é já um livro de culto da Literatura de Expressão Portuguesa. (Ver página da internet de José Eduardo Agualusa na listagem Lugares de Autores deste blogue).

Dando forma à asserção de Montaigne: "Nada parece verdadeiro que não possa parecer falso”, o romance apresenta uma urdidura de criatividade notável. A acção decorre na Luanda contemporânea, numa casa de "madeira sempre fresca", repleta de livros que falam, no seio da "floresta imensa" envolvida pela noite, como um mar.

À entrada, os espanta-espíritos agitam-se pela brisa emitindo um rumor de água o que a faz parecer " um velho navio a vapor" ou "um barco cheio de vozes cortando a custo a lama pesada de um rio". A lama, a "alta" sociedade angolana, procura neste barco " espelhos capazes de iluminar" as suas vidas opacas. A casa pertence ao albino Félix Ventura, "o vendedor de passados", o que trafica secretamente memórias, “como outros contrabandeiam cocaína”. Foi adoptado por um alfarrabista que o encontrou, menino, dentro de uma caixa com exemplares de “A Relíquia” de Eça de Queirós. O velho criou-o, crendo-lhe num desígnio superior. Tem uma namorada, Ângela Lúcia, que adora paradoxos, e de quem fala como quem se esforça por dar “substância a um milagre”.

Os seus clientes são prósperos empresários, políticos, generais, e toda uma burguesia angolana, emergente, sequiosa de distintos passados, mesmo que os tenha de comprar falsos. A sátira é feroz, apimentada pelo humor inteligente: " Temos um presidente de fantasia. Um governo de fantasia. Um sistema judicial de fantasia. Temos, em resumo, um país de fantasia" e uma cidade que "é uma feira de loucos" com patologias ainda por catalogar.
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Com Félix vive a outra personagem central: Eulálio. É uma osga-tigre, que impressiona e perturba pelo riso quase humano. É a companhia de Félix com quem mantém uma estranha telepatia. Cumpre a função de narrador participante, omnipresente e, quase sempre, omnisciente - deixando que o leitor conclua a psicologia das personagens. Dá-nos a conhecer "o albino", reproduzindo-nos os seus longos solilóquios, descreve-nos os espaços físicos e psicológicos, dá-nos conta de todas as "figuras" que entram na casa para comprar sonhos – só no último capítulo a narração é feita por Félix Ventura, que persiste na ilusão que alguém o escute, uma vez que o seu fiel ouvinte Eulálio, morre. É, também, ele que nos mostra a verdade da mentira de todo o enredo, e a sua linha ténue, pois só é possível ser revelada através dos seus 6 sonhos, em 6 capítulos.
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Cabe, ainda, a esta personagem a reflexão filosófica, que o texto nos propõe, sobre a memória, sobre a verdade e a mentira, a verosimilhança e a inverosimilhança: « A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento", todos efabulamos e "todos temos recordações falsas, embora alguns sejam totalmente falsos». Por outro lado, "a verdade é improvável" porque a mentira está por toda a parte:
"A própria natureza mente. O camaleão disfarça-se de folha para iludir a própria borboleta"; "Abomino a mentira, porque é uma inexactidão. Também a verdade costuma ser ambígua. Se fosse exacta não seria humana".
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José Buchmann é a personagem que irrompe pela casa para comprar, não um passado, mas um presente que lhe elimine o passado, o que faz subverter a natureza da ocupação, até aí "inocente" de Félix Ventura. Os acontecimentos precipitam-se, numa vertigem de surpresa, e as explicações são-nos dadas, sempre "mais à frente", em Analepses que nos deixam atónitos. Parece ser um jogo que o autor nos propõe, o Xadrez da vida, espelhado num Xadrez ficcionado, composto num Xadrez narrativo em que o Xeque-mate surge num golpe de imprevisibilidade.
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Maravilhado com a metamorfose da sua nova identidade, Buchmann passa a frequentar assiduamente a casa de Félix, até que um dia leva consigo um mendigo louco, com um cheiro nauseabundo, ex-agente do Ministério da Segurança do Estado, que o "desmascara" e o passado irrompe-lhe pelo presente: Buchmann é Pedro Gouveia, português, pai de Ângela, a namorada de Félix. Acontece o amor e um crime e um corpo escondido, sepultado debaixo de uma buganvília que grita denunciadoramente, mas que ninguém ouve.
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Com o presente enterrado, tudo pode voltar ao normal, mas não é isso que acontece. Os equívocos da memória têm inúmeros matizes e eis que aparece na casa um "Mascarado" que quer comprar um passado que o liberte de todas as máscaras; quer trocar a verdade impossível da sua vida por uma mentira simples e vulgar, não um passado glorioso, mas humilde, sem brilho, para atingir a liberdade.
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Indubitavelmente, com este "Vendedor de Passados", Agualusa mostrou-nos um fazedor de sonhos. Afinal, "Deus deu-nos os sonhos para que possamos espreitar o outro lado". Inesquecível.

Agualusa, José Eduardo ;«O Vendedor de Passados»; Ed Dom Quixote

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Os Peregrinos Sem Fé, Sérgio Luís de Carvalho

A travessia da consciência, em tempo de romarias

O que fica do homem depois de deixar de acreditar? O que resta ao sonho depois de saber que a realidade não permite ilusões por muito tempo? Como prosseguir depois de perdida a esperança? Qual o valor da fé na errância humana? Estas são algumas questões suscitadas pela narrativa «Os Peregrinos Sem Fé», livro de Sérgio Luís de Carvalho, Director do magnífico Museu do Pão de Seia e escritor de cunho inconfundível, tanto no manuseio da palavra como nas temáticas.

Lançado no ano passado, este Os Peregrinos Sem Fé foi editado ao mesmo tempo em Portugal e na Galiza onde é acolhido sempre com o máximo entusiasmo ou não fossem os romeiros de Santiago a partilha de portugueses e galegos, como se refere no presente livro: «dizem que por aqui existem caminhos muito antigos, por onde desde sempre passaram portugueses ou galegos exibindo as raízes tão comuns.». Esta é, pois, uma leitura maior para este tempo de romarias e férias, esperando-se o próximo romance do autor a editar ainda este ano.

Neste, como no romance anterior a este - o magnífico Retrato de S. Jerónimo no seu Estúdio - Sérgio Luís de Carvalho mostra-nos que é possível narrar-se o tempo com recurso à memória, suporte da vida dos homens, mesmo sendo ela infiel e enganadora, pois é essa a «infeliz condição do homem». Com as histórias de dois homens que, separados por cinco séculos, narram as suas viagens de Lisboa a Santiago de Compostela, sempre acompanhados por outras memórias ainda mais antigas, as de Eneias, da Eneida de Virgílio, mostra-se que, independentemente dos tempos, a busca da consciência foi sempre um imperativo da existência, e o conhecimento alcançado na travessia é tão diverso quanto os homens que as fizerem.

Dois textos em alternância preenchem as 425 páginas da aprendizagem de dois homens, sem nome, pois podem ser qualquer um de nós. O primeiro é um médico e professor humanista, preso nos Estaus, sede em Lisboa do Santo Ofício, corre o ano de 1563. Acabou de assinar a carta de abjuração – pelo que aguarda a libertação – e, impulsionado pela leitura da Eneida de Virgílio, acaba de escrever a viagem que fez no meio de peregrinos a Santiago de Compostela. O segundo é o intérprete de Eneias na ópera «Dido e Eneias» de Henry Purcell, e regressa a Santiago, local donde fugiu por lhe ser insuportável o amor de Irina, a mulher que interpretou Dido, e que, também ela, se suicida depois da partida do seu Eneias.

Histórias de desamparo e solidão

A travessia dos dois homens é de desamparo, solidão e de expiação das culpas. Ainda que com finais diferentes, ambos os homens fazem a viagem a Santiago de Compostela com descrença: o médico fá-la pela descrença religiosa da peregrinação – disfarça-se de peregrino para fugir à perseguição da Inquisição –, mas animado pela crença nas suas ideias humanistas; o cantor fá-la, vazio de qualquer esperança – vai ao encontro do final que esperava e a confirmação do dano humano:
«para quase tudo é sempre demasiado tarde; passamos a fronteira e não notamos e fica para trás a estrada ou o atalho que eram os ideais para regressar»; «Também nós, cegos e surdos a todas as evidências assim somos, crentes sempre em algo de melhor, algo superior a nós. Corremos e insistimos e agimos sempre, e sempre, até a realidade enfim tombar sobre nós, nos cobrir com o seu negro manto e zombar das nossas esperanças. Mas tanta vez – ai de nós – nem assim abandonamos a nossa estúpida esperança. Não há pior coisa nem melhor coisa que a esperança. Somos fortes em a ter, somos fracos em a ter.».

Sem fé, prossegue, mas arrastando-se, com a inércia em vez do fulgor que a caminhada deveria ter. É com o olhar tragicamente ímpio que se detém nos peregrinos:

«Talvez os inveje. Talvez agora inveje a sua força, a sua crença que os leva tão ligeiros aonde um santo terá chegado há muito tempo. A fé os faz recusar as evidências, e isso é bom. A fé lhes diz que continuem, e isso é bom também. E se a realidade que os cerca contraria tudo aquilo em que acreditam, eles prosseguem, porque estarão certos ser a realidade que se engana. E são felizes, pois a realidade não lhes destrói as ilusões. Talvez…»

Também o médico detém-se nos peregrinos, seus companheiros de viagem, e a quem aprendeu a respeitar: «por vezes invejei a fé tão chã que eles tinham, e eu não. Livre, eu ia forçado em romaria, por dever que a mim mesmo assim me impus; eles todos, todavia, iam mais livres, mesmo se obrigados por promessas ou sentenças.».
Também ele se esquecera como «era perigoso ter esperança», pois, passados uns anos em Santiago, regressou a Portugal, onde a Inquisição não se tinha esquecido dele.

Agora, no seu cárcere, apesar de esperar a liberdade, maldiz-se traidor por ter assinado a carta onde, para se salvar, renegava os amigos e as ideias. Tal como o cantor que expia as culpas da sua fuga, o médico expia o seu acto. Medo ou cobardia? «Se calhar, cada um é cobarde como pode». Afinal, cada homem transporta consigo a sua sombra, consciência funda, a maestrina das suas acções, que pode ter a forma de um cão que uiva incessantemente, branco ou negro, como os que acompanham sempre os protagonistas desta narrativa de Sérgio Luís de Carvalho.

Os Peregrinos Sem Fé, Sérgio Luís de Carvalho; Campo das Letras, Porto, 2007


© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 7 de julho de 2008

«Venenos de Deus, Remédios do Diabo»

O novíssimo romance de Mia Couto

Aos 10 anos todos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias. Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias. Aos 30 anos pensamos que mais ninguém tem ideias. Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas. Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias. Aos 60 ainda temos ideias mas esquecemos do que estávamos a pensar. Aos 70 só pensar já nos faz dormir. Aos 80 só pensamos quando dormimos.

Estas são palavras de Bartolomeu Sozinho, um septuagenário da Vila de Cacimba, ex-mecânico no colonial transatlântico Infante D. Henrique, magnífica personagem do novíssimo romance «Venenos de Deus, Remédios do Diabo» de Mia Couto. Na idade da sabedoria, o escritor moçambicano semeia mais uma narrativa com a torrente e o exotismo do chão africano e almas que nele voam carregando a espessura dos segredos e das lembranças. Uma leitura de um fôlego por 188 páginas imperdíveis para estas férias.

Sidónio Rosa é o jovem médico português que vai para Moçambique para sossegar «um bater de pilão no peito», para encontrar Deolinda, uma mulata que ele conheceu em Lisboa durante um congresso. Mas Deolinda morreu, e o facto é-lhe inicialmente ocultado, e ela não era quem ele pensava. É ao embrenhar-se na África profunda – mesmo conhecendo apenas a rua de areia que liga a pensão ao posto de saúde e à casa de Bartolomeu e Dona Muda, pais de Deolinda – que este europeu descobre a sua missão naquele continente: a de acordar segredos e salvar as lembranças, já que a âncora é a lembrança ou, como diz Bartolomeu, «é o esquecimento e não a morte que nos faz ficar fora da vida».

Com um narrador omnisciente que completa a fala e os pensamentos das personagens, e exímio a remexer nas emoções mais fundas, segue o leitor na vertigem narrativa para descobrir que «os segredos, em Vila Cacimba, não se enterram nunca em cova. Ficam em buraco aberto como ferida que nunca ganha cicatriz». Enquanto espera Deolinda, Sidónio Rosa, rebaptizado de Sidonho pelo povo, ocupa-se a tratar de uma epidemia de meningite, com rumores de obra encomendada, coisa de maus espíritos, doença que faz os homens vagabundearem enlouquecidos pelas ruas – os tresandarilhos – agitando os braços como se quisessem voar, e gasta os passos a caminho de casa dos Sozinhos.

Desde o início, o médico – que afinal não é médico porque ainda lhe faltam umas cadeiras do curso – é enredado numa teia de mentiras: «poucos e desamparados, partilhando secretas cumplicidades e sofrendo de um mesmo sentimento de orfandade. A cultura que os criou está longe, noutro tempo, noutro universo. A mentira é o único remédio que lhes resta contra essa solitária lonjura.». Deolinda fora amante de Alfredo Suacelência, o vitalício administrador da Vila e amigo de infância de Bartolomeu ou fora amante do próprio pai? Ou de nenhum dos dois? Morreu de aborto ou doutra doença? Era mesmo filha do casal Sozinho ou irmã de Muda e, assim, cunhada de Bartolomeu?

«A vida é um rio: a água junta e separa»

Bartolomeu e Muda são as duas personagens centrais, soberanamente desenhadas nos diálogos e nos silêncios que os diálogos ostentam, como, aliás, Mia Couto já nos habituou. À semelhança doutros títulos do autor, é aqui retomada, misticamente, a figura de um casal feito de duas águas do mesmo rio, duas vidas ondulantes distintas, mas partes do mesmo destino: «os passos dele são pequenos: de um chão de prisão. Os passos dela são redondos: de quem anda em ilha».
Viviam «como o dedo e o anel: não nos fazemos falta, mas não vivemos longe um do outro», diz a mulher, que «partilhava a condição das demais mulheres da Vila: envergonhada de ter nascido, temente de viver e triste por não saber morrer». «A vida é um rio, Doutor: a água junta e separa», diz ela, caracterizando a vivência da sua dor: «O meu chorar é feito à medida do lenço».

Moribundo, «sombra esvoaçando no escuro» de uma casa onde se mantinha fechado, com os pés cheios de escamas, o septuagenário padece de uma misteriosa doença que dizia ser de família: dizia estar a lagartar-se, pois já o avô tinha morrido lagarto. Ao médico, faz pedidos insistentes: para «alvoroçar o coração, solavancar o corpo», pede uma das novas «pretas loiras, de olhos azuis» ou uma catorzinha ou até a sua mulher, disfarçada de puta, pois foi sempre ela que ele quis; mas, sobretudo, ele que sonhou ser mecânico «para consertar o mundo», pedia ao médico que o curasse de sonhar, pois «sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança contra um destino que é sempre tardio e pouco»: «Todos elogiam o sonho, que é o compensar da vida. Mas é ao contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos».

«O tempo é o lenço de toda a lágrima»

«O sofrimento é sempre a nossa escola maior», diz Bartolomeu enquanto se deixava «existir, com a mesma inércia que o crescimento das unhas». A sua doença era a saudade, essa doença do tempo que semeia perdas e desata a vontade de nos unirmos a elas ou ressuscitá-las pelas lembranças: «O Homem entende a vida. Mas só os bichos entendem a Morte.». Também Muda padecia da mesma doença que a fazia, todos os finais de tarde, ir ao rio chorar ou derramar a sua tristeza junto da campa de Deolinda.

O jovem médico resolve cortar as amarras com aquela terra e regressar a Lisboa. Mas a ponte entre culturas fora erigida e ela é indestrutível, mostra-nos soberanamente, e uma vez mais, Mia Couto: o médico carregava com ele um novo possível encontro, com Isadora, verdadeira filha de Bartolomeu, fruto de uma das suas viagens de marinheiro a Portugal e que viveria perto de Lisboa. Por outro lado, o tempo da memória, lugar habitado pelas almas agarradas à terra, passa a ter outro representante; uma mulher misteriosa, vestida de cinzento, sentada à beira da estrada, por onde passa a camioneta que leva Sidónio, acabada de chegar com uma missão: semear por toda a Vila as flores brancas do esquecimento, flores que se plantam junto dos cemitérios «para que os mortos se esqueçam de que, em algum momento foram viventes».

Numa narrativa cristalina, que nos arranca sorrisos e estremecimentos, Mia Couto mostra-nos mais esta verdade existencial: todos somos feitos de tempo e na nossa alma vivente vivem também todas as almas que tocámos e que já partiram, mas que, desobedientes, recusamos deixar ir… Para «venenos de Deus, remédios do Diabo»...


Venenos de Deus, Remédios do Diabo, Mia Couto; Editorial Caminho, Lisboa 2008


Outros artigos meus sobre Mia Couto, editados há 3 anos:

http://www.triplov.com/letras/teresa_sa_couto/mia_couto.htm


© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O DOMADOR DE VENTOS

«Aonde o Vento me Levar» é um título de Manuel Jorge Marmelo. Título ardiloso que indicia o grande jogo que se joga entre a palavra na deriva do vento e o único que os pode dominar: o escritor. E este é o grande e misterioso jogo entre o criador e a criação que o autor cumpre com engenho, também no desafio com o leitor.

«O número de rios não é infinito; um viajante imortal que percorra o mundo acabará, algum dia, por ter bebido de todos», escreveu Jorge Luís Borges. Também Manuel Jorge Marmelo se propõe, e nos propõe, «descobrir esse rio» onde se mata a sede de quem somos e onde, mirando-nos nas suas águas, nos podemos redescobrir. O livro que agora sugiro dá conta dessa demanda, é um espaço cósmico, espelho e mapa do universo, o Aleph, lugar onde confluem «sem se confundirem, todos os lugares» da terra, todos os livros e todos os homens. E cumpre-se uma leitura de alquimias.

Todos temos algo de fixo e de movediço. Também nesta ficção, o narrador, o Eu, propõe-se escrever um livro de viagens sem sair do seu lugar. Assim, envia a personagem «M.» para que lhe envie notas que ele converterá em literatura. Mas o que acontece ao projecto literário quando a personagem tem ganas de autonomia e subverte os papéis tornando-se ela no escritor, deixando o primeiro escritor à deriva? Podem as personagens escrever um livro relegando o escritor para o papel de observador? E pode esta peleja ser substantiva ao ponto de com ela se urdir uma narrativa? Manuel Jorge Marmelo responde-nos em 158 páginas de reboliço, como sempre o são as da melhor literatura.

O escritor e a criação

«Começa aqui o meu desespero de escritor. Toda a linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que a minha tímida memória mal abarca?», escreveu Jorge luís Borges em «O Aleph» (1949). Também Manuel Jorge Marmelo, detendo-se nessa tensão entre ficção e realidade, e como elas se contaminam, apresenta-nos a quimera literária através de um narrador céptico que maldiz o método utilizado para escrever, lamentando-se por «ter deixado entrar tanta realidade no casulo de livro» que construiu dentro de si, concluindo: «eis, pois, o que me falta: copiar, inventar e mentir.

A isto se resume a literatura.». Este princípio de ocultação da realidade como motor da obra literária é veiculado por Enrique Vila-Matas no seu último romance Doutor Pasavento, com a personagem que, de um quarto e cidade reais, passeia «por alamedas mentais nesse fim do mundo onde se colocou» o seu cérebro: «desaparecer é ceder lugar ao outro» e, «quem quiser ir mais além terá de desaparecer».

Em «Aonde o vento me levar» mostra-se como a ficção é um caminho de introspecção e, por isso, gerador de realidade: «M. talvez nem sequer exista. Tê-lo-ei arrancado de dentro de mim, como um pedaço inútil das minhas entranhas, e, ao fazê-lo, dei-lhe uma vida que jamais terei. Mesmo se não devo excluir completamente a possibilidade, nada remota, de me ter ele inventado a mim, enche-me de um peculiar orgulho saber que essa porção daquilo que sou (ou julgo ser) foi já tão longe.»

Homenagem a África

Com o narrador, anda o leitor de cá para lá, entre páginas de outros livros que ele lhe abre, a sorrir pela consentida sujeição à leitura – ou deslumbrado com o Aleph de Manuel Jorge Marmelo, que o envolve em sons, cheiros e texturas de África –, pouco se importando com os seus lamentos por não conseguir uma história que dê corpo ao seu livro.Escreveu, ainda, o escritor argentino: «Vi milhões de actos agradáveis ou atrozes; nenhum me assombrou mais que o facto de todos ocuparem o mesmo ponto, sem sobreposição e sem transparência. O que os meus olhos viram foi simultâneo; o que escreverei será sucessivo, pois a linguagem o é. Algo, no entanto, registarei.».

De incertos e longínquos locais da África profunda, descalço para se fundir com a terra, “M.”, que não está quieto, «escreve e escreve e escreve» e vai enviando aerogramas que o narrador reproduz, não sem se questionar sobre a inutilidade da viagem e sobre o espaçamento com que lhe chegam alguns dos bilhetes de M. que, «Se está num sitio e, depois, aparece escrevendo em outro bastante distante, algum caminho há-de ter feito». Metáfora da inventiva literária, que pode atravessar fronteiras onde bem entende: «Não tenho passaporte e sou quase incorpóreo (…) Afago a casca grossa dos embondeiros e neles sinto a muda palpitação da terra. Faço amor com as árvores e acaricio a pele dos rios. Mergulho os dedos na terra para fecundá-la de mim.».

«Aonde o vento me levar» é a «síntese imperfeita de um livro sobre coisa nenhuma e no qual nada acontece»: “M.” viaja «sem rumo predefinido», como tantas vezes qualquer um de nós o faz; a viagem de “M.” é «destrambelhada, temerária e estéril» como sempre o é, nalgum ponto, a existência humana; “M.” tem um «segredo, uma contra-senha, um abracadabra», como todos nós. Cabe-nos, pois, usar a chave que nos coube para acedermos à nossa outra porção. E há que partir e ir até aonde o vento nos levar.

Aonde o Vento me levar, Manuel Jorge Marmelo; Editorial Campo das Letras, Porto

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Vidas que a literatura dá

Romance galardoado de Carlos Machado

João Hermínio teve a oportunidade de viver duas vezes. Por causa dele, Alcina, a sua namorada de sempre, «tomou consciência de que a sua individualidade encerrava outros seres» e também ela viveu duas existências. Por causa deles, pode o leitor viver muitas existências incentivado pelas páginas de uma narrativa exímia.

«O Homem que viveu duas vezes» é o título do romance a que nos referimos, e Carlos Machado é o contador habilíssimo de histórias que constroem vidas. Primeiro livro do autor, e logo galardoado com o «Prémio Alves Redol 2006», atribuído pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, este romance de prosa musculada, coloquial e imprevista, que ata o leitor às suas páginas e o mantém inquieto até ao final, entra na literatura portuguesa pela porta a que tem direito: a porta grande. A edição é da Presença, editora que tem a chancela de três títulos de David Machado, filho de Carlos Machado.

No interior deste «O Homem que viveu duas vezes» o leitor encontra dois livros – «O livro de Alcina», primeiro, e «O livro de Livro de João Hermínio», depois, cada um com 7 capítulos, o mesmo número da Criação, porque é criação, nas suas múltiplas aparições, que jorra das 289 páginas. Os livros, como dois capítulos ou dois caminhos de construção da identidade, apresentam as mesmas personagens, no mesmo espaço e tempo narrativo, porém com enredos divergentes e finais distintos, que, evidentemente, aqui não revelamos, tanto mais que ambos os livros têm espaço para o leitor tecer o seu enredo imaginativo e definir o final.

A acção decorre entre 1940 e 1975, na aldeia de Covelo, um lugarejo encravado entre o Gerês e Montalegre, vila esta onde o autor nasceu, em 1954, e onde escutou, desta a infância, “historietas” ancestrais, que agora esculpe na história maior do seu romance. Em Covelo a vida poderia parecer «constante e eterna», mas quem lá vivia sufocava dores e tentações que só um padre em corrupio tentava acalmar para que as almas não se perdessem, pois «locais como aqueles eram os preferidos do Diabo para atormentar gentes deste mundo».

É neste universo pejado de mistério humano, que Carlos Machado alimenta soberanamente parágrafo a parágrafo, que o leitor se embrenha, comandado por duas personagens: Alcina, professora de 45 anos, estimada por todos e João Hermínio que volta ao lugar 25 anos depois e após uma suposta ida para o Brasil para fazer fortuna.

O amor não consumado entre os dois antes dele partir deixou Alcina entregue à nostalgia, e a um «sentimento de fidelidade» que alimentou com um misto de amor e raiva por ele nunca ter dado notícias. João Hermínio, que tinha nas veias «o sangue do contrabando», herança do seu pai, regressa parecendo ele, mas parecendo diferente. Os ziguezagues da vida mudarão assim tanto as pessoas? E por que voltou João? Seria por essa coisa indefinida «das raízes, da terra», a crescer na alma com nome Saudade? Afinal, ele nunca esqueceu Alcina, revelam as cartas que ele lhe foi escrevendo durante a ausência, e que agora lhas entrega.

Mas por que razão lhas entrega ele se na última carta escreveu que elas chegarão às mãos de Alcina através de um mensageiro? «Só se deve buscar aquilo que tem a resposta que sabemos que nos agrada», ou devem enfrentar-se os medos mesmo que no ar paire o «cheiro de enxofre», ou a ameaça de trovoada? Será certamente cada um dos leitores a dar a resposta e a decidir a actuação. Este é um ardil de Carlos Machado com uma consequência clara: projectando-se nesta narrativa pela escolhas que faz, o leitor dificilmente a esquecerá. Não é esse o atributo da melhor literatura?

Extracto:

Desejou possuir Alcina numa vez derradeira e partir para sempre levando consigo apenas o perfume das flores do vestido e aquele cheiro a alfazema que desde o dia em que a encontrara no cemitério não mais o largara. Pensou como era injusta a vida que lhe trocava todas as voltas sem saber porquê. Repetidas vezes teve um arranco de contar tudo a Alcina, confessar-lhe quem era. Que João Hermínio não queria ser quem era, mas quem era abria-lhe de par em par o coração daquela mulher.

O Homem que viveu duas vezes, Carlos Machado; Editorial Presença, Lisboa 2007

© Teresa Sá Couto

sábado, 17 de maio de 2008

O novíssimo «Os Girassóis» de Rui Herbon

O Escritor Rui Herbon, Prémio António Paulouro 2004, da cidade Fundão, lançou novo livro, dia 7 de Maio, em Lisboa: Os Girassóis, com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues que tive a honra de apresentar. É o texto da Apresentação que aqui edito.

«Quem leu os anteriores romances de Rui Herbon já sabe três coisas: sabe que não encontra uma leitura recreativa que se extingue com o fechar do livro; sabe que é convocado para a viagem do texto, para nela se empossar, enquanto personagem; sabe que não faz a menor ideia de quais os caminhos do romance seguinte. Depois da reinvenção do espanto em «Voar como os Pássaros, Chorar como as Nuvens (Um Filme Português)» e do deambulador e notável «Absinto – a inútil deambulação da escrita», o título que se segue é Os Girassóis.

Inspirado nas famosas telas de Van Gogh, este «Os Girassóis» de Rui Herbon traz-nos um homem de meia-idade à procura da sua imagem, que perscruta o passado para entender as trevas da sua vida, para compreender donde lhe surgiu a agonia que lhe paralisa a existência, outrossim para achar a esperança, como bússola para o resto da caminhada, como o girassol que, agrilhoado à terra, procura, rebelde e irreverente, a luz.

Nada é ocasional neste novo livro de Rui Herbon, como, aliás, é seu timbre. A abrir, numa página, o Atrium, um pequeno texto com um grande ardil, como uma pequena sala de entrada forrada a espelhos que recebe o leitor, para o preparar para as 186 páginas onde ele se pode ver, multiplicado, redescobrir e reinventar.

Para isso, concorre o narrador omnisciente e engenhoso, que se confunde com a voz de Ricardo, a personagem principal, que imprime o tom confessional e intimista, e com lugar para a voz do leitor que se enreda no mal-estar e na espera do homem de 50 anos, pintor fracassado, exaurido na indiferença e tédio do casamento de quase 30 anos, com Sílvia, passando a viver, depois do adultério da mulher, «num quartinho dos fundos, com os seus desenhos e quadros» e um segredo terrível do passado: a atracção incestuosa, mas sublimada, pela irmã Ana, falecida abruptamente há 25 anos, mais declarada por ela em relação a ele.

Mas esta não é a história, ou não fosse do indisciplinado Rui Herbon; esta é apenas a base da história.

Narrativa de encruzilhadas
Este Os Girassóis é uma narrativa sobre uma grande viagem interior com encruzilhadas que se configuram, fortíssimas, na unidade espácio-temporal. É na varanda altaneira, onde Ricardo passa as noites de insónia, que se dá a grande viagem. É dessa varanda, ponto fixo sobre a praça, com Ricardo imóvel, na imobilidade de quem perdeu a esperança, que ele sai e regressa modificado; é nela que ele luta com «aquele olho invisível» que parecia ver-lhe a alma e gritar-lhe a mentira da sua existência, que ele, com remorso, cala. Cabe à narrativa esclarecida dar voz ao silêncio de Ricardo (e voz às nossas varandas de inquietação) para mostrar a verdade, pois, como disse Miguel de Unamuno, «Há momentos em que silenciar é mentir». E o leitor sabe, porque o texto o faz encontrar em si, que o tédio de Ricardo é um tédio agitado que apenas espera o momento para se desamarrar.

Lê-se no Atrium que há pecados «que o homem esconde nos lugares mais ocultos do seu coração, e aí permanecem, aí aguardam» até que uma qualquer palavra casual os evoca e eles erguem-se, «em visão ou em sonho» para nos encararem, num ajuste de contas…

Ajustar as contas com o tempo – desafiá-lo, revolvê-lo, moldá-lo, desordená-lo para o ordenar – é uma marca insigne da escrita de Rui. Realizar o Tempo «em visão ou em sonho» é enchê-lo de construções impressionistas e surrealistas: luz, sombra e movimento, sinestesias que colhem o real, metáforas, hipálages que transferem para os objectos o drama da luta de Ricardo com a memória, isto é, a luta consigo mesmo, expressa no «sofá insano, estoirado e sem préstimo, braços gastos», no qual se senta, para olhar para o exterior, imagens inquietantes resgatadas nos subterrâneos do ser, tudo urdido numa escrita poética arrebatadora e repleta de símbolos, como o pequeno relógio de algibeira, que Ricardo consulta, e que se agiganta no grande relógio, o «farol da memória», que se recorta iluminado no fundo da praça, e que nos catapulta para outras telas, também dum outro pintor famoso: as dos relógios moles de Salvador Dali.
O Tempo é reversível e moldável, prova-nos Rui Herbon, e prova-nos que esse acto de moldar o Tempo exige sacrifício e dor...

O sacrifício da caminhada
Na linha do Romance – ensaio, este «Os Girassóis» traz-nos uma narrativa exploratória sobre a condição existencial. Sempre a contas consigo, Ricardo resgata o passado em registos que amplifica na medida da sua angústia e da necessidade da sua demanda, em fragmentos desordenados, porque a alma humana quando procura não reconhece metodologias, a ânsia não tem programa (também neste sentido, a escrita do Rui é de Verdade, e por isso fideliza leitores).

Na ânsia da viagem surgem: a infância e juventude passadas no Porto; a estada em Paris, para estudo inútil e vida boémia, julgada pelos olhos infinitamente tristes de um prostituta quando se fixam em Ricardo; a passagem por Londres com o eco do som triste de um realejo, e o entendimento de que por baixo dos jardins exuberantes e silenciosos existem outros jardins, as raízes subterrâneas, mais maravilhosas e terríveis; pela guerra colonial de Ricardo numa repartição técnica do exército, em Lourenço Marques, militar sem arma porque ele não era dado a heroísmos.

É também da varanda, com olhar viajante, que Ricardo interpreta o quotidiano: tenta penetrar a vida para lá dos vidros, para lá das cortinas, atenta nas sombras dentro das casas, ou fixa as pupilas na praça, nos homens e mulheres, jovens e velhos, nos que saem do autocarro, regista-lhes os olhos e os gestos, conjectura-lhes as vidas, os caminhos caídos e saqueados, regista os recortes das sombras que a luz desenha, o «odor húmido e vasto» que lhe chega do rio, o silvo potente dos barcos que lhe desata a emoção de um sonho que parte.

A fúria de um temporal permite a renovação do projecto interior de Ricardo, que inclui a visita ao Museu Van Gogh, em Amesterdão, para contemplar o seu quadro favorito: os girassóis; Uma ida em jeito de peregrinação celebradora do sacrifício da caminhada contra a renúncia, de homenagem à luz, tanto mais que só se reconhece plenamente a luz quando se experimentaram as trevas: Van Gogh foi a prova disso, e é-o, também, esta narrativa do Rui. Não se pense, todavia, que o final é fechado; o leitor reconhece a circularidade da procura, do nunca acabado e sempre retomado, o eterno retorno, sempiterna marca de Rui Herbon.

Urbano Tavares Rodrigues diz, no prefácio, que este «Os Girassóis» «poderá tornar-se em breve um livro de culto». Irá juntar-se aos outros livros de culto do Rui, acrescento eu, convicta de que são assim tidos pelos leitores que os souberam ler.»

© Teresa Sá Couto



Nota: Livros de Rui Herbon e os Prémios arrecadados:

«Voar como os Pássaros, Chorar como as Nuvens (Um Filme Português)», Prémio Eixo-Atlântico de Narrativa Galega e Portuguesa 2002;

«Absinto (A Inútil Deambulação da Escrita)», Prémio António Paulouro 2004, da cidade Fundão; «Eterno Retorno», (não editado), Prémio Afonso Lopes Vieira 2005, da cidade de Leiria, Prémio Orlando Gonçalves 2005, da Amadora e Menção Honrosa no Prémio Alves Redol 2005, de Vila Franca de Xira;
«A Preto e Branco», livro de contos (não editado), Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal 2007;
«Masoch» (não editado), Prémio Maria Matos 2007 de Dramaturgia; «Os Girassóis».