sexta-feira, 4 de julho de 2008

O DOMADOR DE VENTOS

«Aonde o Vento me Levar» é um título de Manuel Jorge Marmelo. Título ardiloso que indicia o grande jogo que se joga entre a palavra na deriva do vento e o único que os pode dominar: o escritor. E este é o grande e misterioso jogo entre o criador e a criação que o autor cumpre com engenho, também no desafio com o leitor.

«O número de rios não é infinito; um viajante imortal que percorra o mundo acabará, algum dia, por ter bebido de todos», escreveu Jorge Luís Borges. Também Manuel Jorge Marmelo se propõe, e nos propõe, «descobrir esse rio» onde se mata a sede de quem somos e onde, mirando-nos nas suas águas, nos podemos redescobrir. O livro que agora sugiro dá conta dessa demanda, é um espaço cósmico, espelho e mapa do universo, o Aleph, lugar onde confluem «sem se confundirem, todos os lugares» da terra, todos os livros e todos os homens. E cumpre-se uma leitura de alquimias.

Todos temos algo de fixo e de movediço. Também nesta ficção, o narrador, o Eu, propõe-se escrever um livro de viagens sem sair do seu lugar. Assim, envia a personagem «M.» para que lhe envie notas que ele converterá em literatura. Mas o que acontece ao projecto literário quando a personagem tem ganas de autonomia e subverte os papéis tornando-se ela no escritor, deixando o primeiro escritor à deriva? Podem as personagens escrever um livro relegando o escritor para o papel de observador? E pode esta peleja ser substantiva ao ponto de com ela se urdir uma narrativa? Manuel Jorge Marmelo responde-nos em 158 páginas de reboliço, como sempre o são as da melhor literatura.

O escritor e a criação

«Começa aqui o meu desespero de escritor. Toda a linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que a minha tímida memória mal abarca?», escreveu Jorge luís Borges em «O Aleph» (1949). Também Manuel Jorge Marmelo, detendo-se nessa tensão entre ficção e realidade, e como elas se contaminam, apresenta-nos a quimera literária através de um narrador céptico que maldiz o método utilizado para escrever, lamentando-se por «ter deixado entrar tanta realidade no casulo de livro» que construiu dentro de si, concluindo: «eis, pois, o que me falta: copiar, inventar e mentir.

A isto se resume a literatura.». Este princípio de ocultação da realidade como motor da obra literária é veiculado por Enrique Vila-Matas no seu último romance Doutor Pasavento, com a personagem que, de um quarto e cidade reais, passeia «por alamedas mentais nesse fim do mundo onde se colocou» o seu cérebro: «desaparecer é ceder lugar ao outro» e, «quem quiser ir mais além terá de desaparecer».

Em «Aonde o vento me levar» mostra-se como a ficção é um caminho de introspecção e, por isso, gerador de realidade: «M. talvez nem sequer exista. Tê-lo-ei arrancado de dentro de mim, como um pedaço inútil das minhas entranhas, e, ao fazê-lo, dei-lhe uma vida que jamais terei. Mesmo se não devo excluir completamente a possibilidade, nada remota, de me ter ele inventado a mim, enche-me de um peculiar orgulho saber que essa porção daquilo que sou (ou julgo ser) foi já tão longe.»

Homenagem a África

Com o narrador, anda o leitor de cá para lá, entre páginas de outros livros que ele lhe abre, a sorrir pela consentida sujeição à leitura – ou deslumbrado com o Aleph de Manuel Jorge Marmelo, que o envolve em sons, cheiros e texturas de África –, pouco se importando com os seus lamentos por não conseguir uma história que dê corpo ao seu livro.Escreveu, ainda, o escritor argentino: «Vi milhões de actos agradáveis ou atrozes; nenhum me assombrou mais que o facto de todos ocuparem o mesmo ponto, sem sobreposição e sem transparência. O que os meus olhos viram foi simultâneo; o que escreverei será sucessivo, pois a linguagem o é. Algo, no entanto, registarei.».

De incertos e longínquos locais da África profunda, descalço para se fundir com a terra, “M.”, que não está quieto, «escreve e escreve e escreve» e vai enviando aerogramas que o narrador reproduz, não sem se questionar sobre a inutilidade da viagem e sobre o espaçamento com que lhe chegam alguns dos bilhetes de M. que, «Se está num sitio e, depois, aparece escrevendo em outro bastante distante, algum caminho há-de ter feito». Metáfora da inventiva literária, que pode atravessar fronteiras onde bem entende: «Não tenho passaporte e sou quase incorpóreo (…) Afago a casca grossa dos embondeiros e neles sinto a muda palpitação da terra. Faço amor com as árvores e acaricio a pele dos rios. Mergulho os dedos na terra para fecundá-la de mim.».

«Aonde o vento me levar» é a «síntese imperfeita de um livro sobre coisa nenhuma e no qual nada acontece»: “M.” viaja «sem rumo predefinido», como tantas vezes qualquer um de nós o faz; a viagem de “M.” é «destrambelhada, temerária e estéril» como sempre o é, nalgum ponto, a existência humana; “M.” tem um «segredo, uma contra-senha, um abracadabra», como todos nós. Cabe-nos, pois, usar a chave que nos coube para acedermos à nossa outra porção. E há que partir e ir até aonde o vento nos levar.

Aonde o Vento me levar, Manuel Jorge Marmelo; Editorial Campo das Letras, Porto

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Vidas que a literatura dá

Romance galardoado de Carlos Machado

João Hermínio teve a oportunidade de viver duas vezes. Por causa dele, Alcina, a sua namorada de sempre, «tomou consciência de que a sua individualidade encerrava outros seres» e também ela viveu duas existências. Por causa deles, pode o leitor viver muitas existências incentivado pelas páginas de uma narrativa exímia.

«O Homem que viveu duas vezes» é o título do romance a que nos referimos, e Carlos Machado é o contador habilíssimo de histórias que constroem vidas. Primeiro livro do autor, e logo galardoado com o «Prémio Alves Redol 2006», atribuído pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, este romance de prosa musculada, coloquial e imprevista, que ata o leitor às suas páginas e o mantém inquieto até ao final, entra na literatura portuguesa pela porta a que tem direito: a porta grande. A edição é da Presença, editora que tem a chancela de três títulos de David Machado, filho de Carlos Machado.

No interior deste «O Homem que viveu duas vezes» o leitor encontra dois livros – «O livro de Alcina», primeiro, e «O livro de Livro de João Hermínio», depois, cada um com 7 capítulos, o mesmo número da Criação, porque é criação, nas suas múltiplas aparições, que jorra das 289 páginas. Os livros, como dois capítulos ou dois caminhos de construção da identidade, apresentam as mesmas personagens, no mesmo espaço e tempo narrativo, porém com enredos divergentes e finais distintos, que, evidentemente, aqui não revelamos, tanto mais que ambos os livros têm espaço para o leitor tecer o seu enredo imaginativo e definir o final.

A acção decorre entre 1940 e 1975, na aldeia de Covelo, um lugarejo encravado entre o Gerês e Montalegre, vila esta onde o autor nasceu, em 1954, e onde escutou, desta a infância, “historietas” ancestrais, que agora esculpe na história maior do seu romance. Em Covelo a vida poderia parecer «constante e eterna», mas quem lá vivia sufocava dores e tentações que só um padre em corrupio tentava acalmar para que as almas não se perdessem, pois «locais como aqueles eram os preferidos do Diabo para atormentar gentes deste mundo».

É neste universo pejado de mistério humano, que Carlos Machado alimenta soberanamente parágrafo a parágrafo, que o leitor se embrenha, comandado por duas personagens: Alcina, professora de 45 anos, estimada por todos e João Hermínio que volta ao lugar 25 anos depois e após uma suposta ida para o Brasil para fazer fortuna.

O amor não consumado entre os dois antes dele partir deixou Alcina entregue à nostalgia, e a um «sentimento de fidelidade» que alimentou com um misto de amor e raiva por ele nunca ter dado notícias. João Hermínio, que tinha nas veias «o sangue do contrabando», herança do seu pai, regressa parecendo ele, mas parecendo diferente. Os ziguezagues da vida mudarão assim tanto as pessoas? E por que voltou João? Seria por essa coisa indefinida «das raízes, da terra», a crescer na alma com nome Saudade? Afinal, ele nunca esqueceu Alcina, revelam as cartas que ele lhe foi escrevendo durante a ausência, e que agora lhas entrega.

Mas por que razão lhas entrega ele se na última carta escreveu que elas chegarão às mãos de Alcina através de um mensageiro? «Só se deve buscar aquilo que tem a resposta que sabemos que nos agrada», ou devem enfrentar-se os medos mesmo que no ar paire o «cheiro de enxofre», ou a ameaça de trovoada? Será certamente cada um dos leitores a dar a resposta e a decidir a actuação. Este é um ardil de Carlos Machado com uma consequência clara: projectando-se nesta narrativa pela escolhas que faz, o leitor dificilmente a esquecerá. Não é esse o atributo da melhor literatura?

Extracto:

Desejou possuir Alcina numa vez derradeira e partir para sempre levando consigo apenas o perfume das flores do vestido e aquele cheiro a alfazema que desde o dia em que a encontrara no cemitério não mais o largara. Pensou como era injusta a vida que lhe trocava todas as voltas sem saber porquê. Repetidas vezes teve um arranco de contar tudo a Alcina, confessar-lhe quem era. Que João Hermínio não queria ser quem era, mas quem era abria-lhe de par em par o coração daquela mulher.

O Homem que viveu duas vezes, Carlos Machado; Editorial Presença, Lisboa 2007

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Vinte e duas imagens da infância

Grande Prémio Camilo Castelo Branco para Ondjaki

Ondjaki, pseudónimo literário de Ndalu de Almeida, autor de uma vasta obra que se desdobra em contos, romances e poesia, autor da magnífica história infantil «Ynari – a menina das cinco tranças», acaba de ser galardoado com o Grande Prémio de Conto "Camilo Castelo Branco" 2007 da Associação Portuguesa de Escritores (APE), pelo livro "Os da Minha Rua", já editado no Brasil (segunda capa na fotomontagem).

Se é certo que as crianças crescem em segredo, como diz Ana Paula Tavares, de vez em quando comprova-se que esse segredo espera uns anos para se desvendar amadurecido em literatura. Assim é o livro de estórias do jovem poeta e ficcionista angolano Ondjaki. Em Os da minha rua o autor reedifica os da sua casa: da memória, do afecto, da identidade.

Ondjaki regressa às pequenas estórias com Angola no batimento narrativo, agora ainda mais mágica, pois olhada pelos olhos da idade da inocência. «Escrevo para compreender. Compreender o quê? Tudo», disse José Saramago. Respondendo ao grito das raízes e desafiando o pó do tempo, o jovem poeta de Há Prendisajens com o Xão recria os ramos e os laços da infância para os fixar e compreender ou, segundo Manoel Barros, «um livro o ensinou a não saber nada – agora já sabe».

Se Ondjaki tatua a sua biografia nas 22 pequenas histórias, também homenageia a infância de cada um de nós projectando-nos nesse pedaço longínquo de um tempo que não conhecia os dias: «A vida às vezes é como um jogo brincando na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um familiar a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente (…) nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade.».

Cinco miúdos, Ndalu, o narrador, Tibas, o mais velho, Bruno Ferraz e Jika, o mais novo, constituem a equipa do tang que sonhava com coca-cola a ponto de dos seus olhos sair um brilho «tipo fósforo quase a acender a escuridão da varanda e a assustar os mosquitos». Com eles constroem-se quadros narrativos belíssimos, emotivos, sinestésicos, mas também críticos sociológica e politicamente: deles emerge Angola com os resquícios da guerra e a psicologia da esperança, uma jovem nação que está a aprender a viver como as crianças que a contam. Neste sentido, esta estratégia narrativa é uma originalidade literária que Ondjaki desenvolve soberanamente.

A nova nação pelos olhos das crianças

Com escrita depurada casada com a oralidade, reconstrói-se o universo da infância e o correr da vida em Luanda: a escola e os professores cubanos, brincadeiras e descobertas, festas em casa dos amigos e dos amigos dos familiares, atesta-se o convívio social de uma terra que se queria unida. Sobressai a ternura familiar, a da tia Rosa, mulher do tio Chico que tinha na sua casa «talvez a cerveja mais deliciosa de Luanda», que adivinhava os convivas pelo toque da campainha e logo a mesa se enchia «de copos de cerveja, aperitivos e sobras, quitetas, kitaba, camarões, chouriço, a televisão sempre ligada e pessoas de todas as cores que vinham beber dos barris de cerveja do tio Chico.».

Este princípio subtil de construção social e psicológica da cidade é uma constante nas estórias como a que narra a primeira vez que Ndalu viu televisão a cores, e o primeiro cinema, «A Grande Desforra» na tela e na descoberta:

«Chamava-se "Cine Atlântico" e era a maior sala com a maior quantidade de cadeiras e uma tanta gente a fazer barulho que nunca mais o filme começava. Eu olhava aquele mundo todo novo: o cinema sem paredes de lado, as árvores e as andorinhas, umas poucas nuvens no céu bem escuro de quase-noite, e a tela toda branca se acendeu de luz brilhante antes mesmo de as luzes se apagarem e aquela toda gente fazer um silêncio de espera e logo depois assobiar forte para a fuga geral dos passarinhos quando todos começarem a gritar "Jerri Quan!, Jerri Quan!". Bateram palmas e eu também..».

Também o olhar político surge puro, e, talvez por isso mesmo, assertivo, ao narrar-se o dia do comício do 1º de Maio e o discurso do chefe da nova pátria dirigido aos «Pioneiros de Agostinho Neto, na construção do socialismo»: «Na tribuna, bem lá em cima, estava o camarada presidente, duma camisa azul-clara e um lenço branco a fazer adeus aos pioneiros que passavam. Às vezes penso que o camarada presidente, lá em cima e tão longe, não devia ver o povo muito bem.».

A par desses olhares ao largo surge, encantatória, a descoberta do amor num tempo em que «o vento voava devagar» e «as folhas da figueira faziam um ruído que era mais um segredo que barulho»:

«um dia, ao fim da tarde, o sol estava muito bonito assim todo amarelo quase bem torrado. O meu pai tinha ido à caça com o primo Beto e o primo Zequinha também. A mana Tchi estava a descansar e a minha mãe a ler. Eu perguntei à Micaela se ela queria dar uma volta comigo ali pela quinta. Ela disse que sim. Mas a volta foi muito rápida, e eu perguntei se ela queria dar outra volta. Ela riu e disse que sim. Como não queríamos dar outra volta, sentámo-nos numas pedras mais distantes da casa e eu tinha muita vergonha mas também, muita vontade de lhe perguntar se ela queria namorar comigo. E ela disse que sim. Então, talvez para comemorar, demos mais duas voltas à casa, mas já de mãos dadas.».

A perda e a luz

Diz-nos o texto:
(…)o abacateiro estremeceu como se fosse a última vez que eu ia olhar para ele e pensar que ele se mexia para me dizer certos segredos, não sei o que o abacateiro me disse, não soube mais entender e pode ter sido nesse momento que no corpo de criança um adulto começou a querer aparecer, não sei, há coisas que é preciso ir perguntar aos galhos de um abacateiro velho(…);

(…)na minha cabeça eu sempre escondia este pensamento: as despedidas têm cheiro. E não é cheiro bom tipo chá-de-caxinde, ou as plantas a darem ares duma primeira respiração na frescura da manhã, entre silêncios e cacimbos molhados. Não. Despedida tem cheiro de amizade cinzenta. Nem sei bem o que isso é, nem quero saber, não gosto mesmo de despedidas.

Com este livro, Ondjaki, com os seus 31 anos de idade, prova-nos que a infância nem sempre se perde, que é «um ponto cardeal eternamente possível», e que a escrita é um mapa da luz.


Os da Minha Rua, Ondjaki; Editorial Caminho, Lisboa, Março 2007
© Teresa Sá Couto

domingo, 8 de junho de 2008

Estado português condecora o poeta Albano Martins


O poeta e professor universitário Albano Martins, nascido na Aldeia do Telhado, Fundão, em 1930, será condecorado pelo Presidente da República, no próximo dia 10 de Junho, Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. O livro recente do autor, lançado dia 7 de Junho, na Feira do Livro do Porto, dirige-se às crianças. É esse livro que aqui sugiro num artigo, ressalvando a obrigatoriedade de nos determos na sua obra poética, a sua dedicação às letras de toda a vida. Albano Martins nasceu em 1930, na Aldeia do Telhado, Fundão. Foi agraciado pelo Governo da República do Chile com a Ordem de Mérito Docente e Cultural Gabriela Mistral no Grau de Grande Oficial, pela sua obra poética e pelo seu trabalho de tradução de Pablo Neruda. Foi distinguido com a Medalha de Ouro da Cidade do Fundão, em 2006. Esta condecoração do Dia de Portugal enche-nos de orgulho: pelo poeta e pelo país o reconhecer!

A imensa casa do poeta beirão

Palavras maiores para gente de palmo e meio

Decorridos cinquenta e sete anos a escutar o silêncio das palavras, para no-lo dar repleto de música, Albano Martins, o poeta nascido no chão beirão de vívidas cerejas, surpreende-nos com uma história dedicada aos miúdos.

Titulada «Uma casa à beira da floresta», a narrativa espraia-se num pequeno livro rectangular, com cerca de um palmo e meio, em mão pequena, a relembrar-nos que todos somos pequenos, mas com o poder de um grande abraço. São puras, as palavras, cristalinas, depuradas, luminosas e sanguíneas, como ele nos habituou. Tal como as ilustrações de Simona Traina, mais uma companheira na caminhada das palavras de Albano, nova cúmplice da imensa casa construída pelo nosso poeta, agora ainda mais inteira porque tem dentro dela todas as crianças reunidas em torno de uma lição: «que o bem-estar, o conforto e a felicidade não são uma conquista fácil, que os caminhos da vida estão armadilhados e que é necessário estar atento aos humores da fortuna.».

O livro traz-nos uma história de bichos na odisseia da sobrevivência. Uma fábula, em prosa poética ou, como a caracteriza Albano Martins: uma «fábula esopiana, se quiserem –, mas fábulas, se me permitem, são, no genuíno sentido do termo, todos os poemas que escrevi».

No centro da narrativa, a rã Margarida com a sua família harmoniosa que habita num «pequeno charco à beira da floresta», casa exígua, mas capaz de acolher outros amigos, «seres miudinhos» como os girinos, minhocas, «minúsculos peixes de água doce» ou salamandras, e reconfortar quem por lá passa na azáfama da jornada existencial, como a cobra Lucinda, libélulas, alfaiates ou joaninhas.

Repleta de vida, a narrativa convoca todos os sons, cores e movimentos, num apelo aos sentidos dos miúdos leitores, incentivando o imaginário de cada petiz. Assim: «Ao longe, as cigarras desfiavam o seu canto rouco. Os melros, cobertos de tinta preta, rasgavam, em voos rápidos, a atmosfera envolvente e perdiam-se, lá adiante, na folhagem dos salgueiros e amieiros das margens da ribeira. Mais para lá, um cuco dava sinal de si e percutia o ar com as suas vogais escuras».

Criado este mundo de afecto em íntimo diálogo com a imaginação e afectividade infantis, é hora para outras lições, também puras, mas em voo para o futuro; e, se as ilustrações da italiana Simona Traina, que vive actualmente na Sicília – que tem editados vários livros em Portugal –, ostentam maioritariamente as cores frias do charco, onde os animais vivem, em nota pictórica do carrego da vida custosa, também fazem sobressair o coração amarelo dos malmequeres, adornado pelos dedos brancos da paz a acolherem todos para o afago do seu interior.

Com notícias de outro espaço mais amplo, uma barragem a norte, a família de Margarida parte impelida pelo sonho de uma vida melhor. Mas o novo espaço, atingido com sacrifício, após uma viagem penosa feita debaixo de um sol abrasador, tem outro bicho: o predador homem, que, todo-poderoso, se apinha nas margens do grande lago, compartimenta o lugar, e que rapidamente descobre nas pernas de rã uma iguaria para o paladar. Assim, aquele novo espelho de água espelha uma grande verdade em grito de alerta: a necessidade de meditação dos pequenos e indefesos para se «protegerem contra as acções dos poderosos, sempre prontos a espezinhar os fracos e os humildes.».

Com este texto de leitura para todas as idades, e partilha geracional, Albano Martins escreve a torrente líquida primordial que constitui o ser humano, a qual, incautos, temos vindo a envenenar: a torrente do respeito ambiental, da estima por todos os seres vivos, da partilha e da solidariedade. Só assim se mantém a grande casa comum. Afinal, este é o imperativo de sobrevivência de todas as espécies, incluindo, a espécie humana.

Uma Casa à Beira da Floresta, Albano Martins (texto) e Simona Traina (ilustrações); Editorial Campo das Letras, Porto, Maio 2008


© Teresa Sá Couto

terça-feira, 27 de maio de 2008

Prémio para «O Padre António Vieira e as Mulheres»

O gáudio da leitura numa excelsa monografia

Em plenas comemorações dos 400 anos do nascimento do Padre António Vieira, surge-nos um livro soberbo que inquire, minudente, 47 sermões vieirinhos, no encalço do universo feminino dos séculos XVII/XVIII: «O Padre António Vieira e as mulheres» de José Eduardo Franco e Maria Isabel Morán Cabanas, que acaba de arrecadar o Prémio SHIP – Monografia 2008, instituído pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal, com o valor pecuniário de €1.250,00 e um troféu representativo da SHIP. Confiro que é um justíssimo prémio para um documento essencial da História das Mentalidades, acrescido de um incomensurável prazer de leitura.


Bem organizado, permitindo uma consulta eficaz, o livro explana o estudo sobre o mito barroco do universo feminino – mas também apresenta uma esplendorosa e vasta incursão pela psicologia do homem de Seiscentos – em 5 grandes capítulos que, por sua vez, se organizam em subcapítulos e estes em alíneas. Ao todo, são 233 páginas de investigação rigorosa e profusamente documentada, marcada pela paixão com que foi feita pelos autores, paixão que contamina o leitor a ponto de a eleger como uma das mais singulares obras, porquanto alia o saber ao infinito gáudio provocado a quem o recebe.


Não quis o Autor da natureza que a mulher se contasse entre os bens móveis. O edifício não se move do lugar onde o puseram; e assim deve ser a mulher; tão amiga de estar em casa, como se a mulher e a casa foram a mesma coisa. Assim ordenava sobre as mulheres, com postura misógina, o incansável Padre António Vieira, na sua rejubilante, teatral e moralista parenética, deixando-nos para a eternidade registos sobre a condição da mulher no seiscentismo, que nos instigam à reflexão sobre a psicologia machista, revelada em palavras, motejos e actos, que persiste neste século XXI.

Maria, a redentora e Eva, a pecadora

Dissecando o sermonário vieirense, a presente monografia mostra-nos que no mundo androcêntrico de Vieira, «a mulher é construída como um ser capaz do melhor e do pior». Por um lado, Maria, a redentora, por quem o jesuíta tem extrema devoção, a utopia, o exemplo espiritual para todas as mulheres; por outro, Eva, «a mãe de todos os viventes», a tentadora, a pecadora, a que desobedeceu a Deus e arrastou consigo o homem, a responsável por ter aberto a «porta do mal na história da humanidade». É nesta dicotomia mariana e eviana, o positivo e o negativo, que Vieira, munindo-se dum «rico e variado elenco de mulheres», aborda o universo feminino, empenhado na persuasão dos ouvintes/leitores, para salgar a terra, eliminando-lhes os vícios.

Na caracterização do universo feminino, anotando-se a segregação da mulher, Vieira aponta-lhes um rol interminável de vícios que, por serem observados nos costumes, mostram-nos a insurreição das mulheres que ousavam certas liberdades numa sociedade que as agrilhoava. Assim surge a acusação ao carácter movediço das mulheres, que Vieira aponta como a sua natureza itinerante que dá azo à tentação, «o gosto de sair», de «andar mais fora do lar do que dentro, encontrando-se aí a causa da sua perdição e da perdição dos homens, pois acerca da mulher cabe dizer que é “tão vagabunda nos olhos como nos passos”».

Defendendo o «recolhimento» ou a «domesticação» da mulher, Vieira apela a que elas sejam submetidas a intensa vigilância, mesmo nas suas idas à igreja por utilizarem o terço «como “terceiro” dos sacrilégios»; intenta-se contra a argúcia feminina que cria «pretextos para sair e enganar os maridos», pois as mulheres são «mestras no pecado da hipocrisia e na procura de artimanhas que sirvam para satisfazer os seus prazeres pessoais», dizendo-o Vieira desta maneira: «Quantas vezes a mulher faz um voto para cumprir na igreja e acaba por encontrar um devoto».
No retrato social da época aparecem mimos como este, tirados de Vieira:

«os juízes não admitem as mulheres quando acusam o seu marido de adultério, dizem os juízes que não as admitem porque (…) “vendem a suspeita por coisa certa”. Mas eu penso que não se admitem porque, sendo inúmeros os maridos adúlteros, todos os juízes estariam ocupados em dar sentença contra eles e quando são muitos os que cometem o delito costumam dissimular o castigo as leis humanas para não assolar os povos

Com a mesma agudeza retórica, o jesuíta mostra-nos possuir uma espantosa sabedoria da psicologia feminina ao apontar-lhes muitas comportamentos indecorosos, fruto de um carácter perverso, encontrados no viver quotidiano, como o «apetite desmedido», a ambição, a curiosidade, a vaidade, o egoísmo, entre outros, todos apetites para a leitura desta monografia.
Nota sobre os autores:

José Eduardo Franco é historiador, doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris em "História e Civilização". Tem uma vasta obra de investigação, e é considerado um dos maiores especialistas portugueses sobre a História dos Jesuítas. Actualmente é Presidente da Direcção do Instituto Europeu de Ciências da Cultura P. Manuel Antunes.

Maria Isabel Morán Cabanas é Professora Titular da Faculdade de Filologia da Universidade de Santiago de Compostela, onde lecciona na licenciatura e em cursos de doutoramento e tem inúmeros trabalhos publicados na área da história e crítica da literatura portuguesa e fez a sua tese de doutoramento sobre o "Cancioneiro Geral" de Garcia de Resende. É membro do Graall (Grupo de Análise de Aspectos Linguístico-literários na Lusofonia), da Universidade de Santiago de Compostela.

O Padre António Vieira e as Mulheres – O mito barroco do universo feminino, José Eduardo Franco e Maria Isabel Morán Cabanas; Editorial Campo das Letras, Porto, 2008

© Teresa Sá Couto

terça-feira, 20 de maio de 2008

O Apogeu das Crónicas de Fernão Lopes

Arte e História num livro portentoso

O majestoso álbum FERNÃO LOPES CRÓNICASANTOLOGIA ANTÓNIO BORGES COELHO e ILUSTRAÇÕES ROGÉRIO RIBEIRO é apresentado no dia 27 de Maio, em Almada, no FÓRUM MUNICIPAL ROMEU CORREIA - SALA PABLO NERUDA. A apresentação será feita por ANTÓNIO BORGES COELHO, CLÁUDIO TORRES e JOSÉ LUÍS PORFÍRIO. Estarão, também, patentes os originais das ilustrações e será prestada homenagem ao seu autor, o Professor e artista plástico Rogério Ribeiro que viria a falecer uns meses depois da edição deste álbum, a 10 de Março último, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, devido a complicações cardíacas.

Corria a época Medieval e Fernão Lopes deixava para a eternidade a palpitação do povo português, o sofrimento, a alegria, as pelejas, os escolhos, a exasperação, os amores, as intrigas e os ódios descritos com o pitoresco arrebatador e sensível de crónicas que seriam as percursoras da historiografia portuguesa. No final de 2007, a Campo das Letras impulsiona aquela herança extraordinária ao lançar o melhor livro do ano em Portugal, se não o melhor dos últimos anos, o majestoso álbum «FERNÃO LOPES – CRÓNICAS de D. Pedro I, D. Fernando e D. João I», antologia do incontornável historiador António Borges Coelho com desenhos e 25 pinturas poderosas de Rogério Ribeiro.

E ficamos a «esguardar como se fôssemos presentes» os quadros humanos de forte visualismo, mas também mistério, reportados por um dos mais geniais escritores da Literatura Portuguesa que «tanto mais se aprecia quanto mais se lê», como disse Rodrigues Lapa.

«Este homem fala para os seus contemporâneos, a eles dirige juízos de valor sobre os acontecimentos e a actuação das personagens. Dá relevo aos acontecimentos militares, à intriga política, ao quotidiano. Introduz os temas económicos e de política monetária. E quando os acontecimentos dramáticos escasseiam, é recorrente afirmar: “Pois não temos mais nada que contar…”», escreve António Borges Coelho na magnífica apresentação da Antologia, numa prosa viva como há muito já nos habituou. O historiador, que nasceu em 1928, nome maior da nossa cultura, continua a mostrar uma vitalidade assombrosa, para nosso gáudio. Também é magnífica a parceria com o ilustrador Rogério Ribeiro, nascido em Estremoz, em 1930, que revela um trabalho assombroso (exemplos nas fotografias das pinturas).

Ainda segundo Borges Coelho, o presente livro «visa alargar a um maior número de leitores a fruição destes tesouros da cultura medieval portuguesa.» Sendo a Antologia uma escolha, o historiador explica a inclusão das duas primeiras crónicas por fazerem parte do «“ primeiro princípio” que desembocaria nos acontecimentos de 1383/85» e o facto dos textos da Crónica de D. João I ocuparem o maior espaço devido ao tamanho e à «riqueza histórica e literária». Em relação à revisão da escrita, refere que se actualizaram a grafia e os sinais, e deu-se «nova veste» a algumas palavras antigas. A obra conta, ainda, com uma Cronologia e um Glossário.

O fresco global de uma época

Sobre a visão multifacetada de Fernão Lopes, que se deteve nos aspectos colectivos da vida nacional para os iluminar na prosa recitada, linguagem flexível, ardor, e ironia, onde se sente a voz do autor, escreve Borges Coelho:

"Na sua narrativa não faltam heróis com as suas fraquezas e façanhas, mas integrados na moldura colectiva: e posto que nós louvemos Fulano e Fulano, “não entendais vós porém que eles sós defendiam as galés sem outrem pelejar por as defender.” E na descrição dos feitos militares não assume o verbo grandiloquente. “Bradava o Mestre que fizessem algumas cousas”, mas o ruído das gentes e o som das armas era tanto, “que parecia que mandava em vão"
(...)
A História falava dos de cima (e ainda fala, mas Fernão Lopes abriu as janelas para os de baixo. Duarte , rei filósofo, encarregou-o “de pôr em crónica as estórias dos reis” e “isso mesmo os grandes feitos e altos do mui virtuoso e de grandes virtudes el-Rei meu senhor e padre”. Ora, ao narrar esses feitos de João, mestre de Avis, matador do Andeiro, Messias da arraia-miúda, Fernão Lopes fez entrar de roldão a cidade de Lisboa, os mesteirais, os ventres ao sol, os honrados, aqueles que não eram dos maiores nem dos mais pequenos, as mulheres, o cidadão Álvaro Pais, o Gil Fernandes de Elvas, libertado pela malta das vinhas, o “bom” do Rui Pereira, o guerreiro novo Nuno Álvares Pereira, sem esquecer Leonor Teles, a Rainha que ensinou as mulheres a ter novos jeitos com seus maridos.

Fernão Lopes está atento aos de cima, que retrata com a verdade das suas humanas mazelas, e aos de baixo, fantásticos ou temíveis, se enchem as ruas de alegria ou tumulto. No Paço a par de São Martinho, acompanha o conde João Fernandes à câmara onde vai receber a cutilada do Mestre e a estocada final de Rui Pereira, abre a janela para a rua onde ferve a multidão manipulada: - Oh Senhor! Como vos quiseram matar por traição!
Em geral o Poder desconfia dos de baixo. Assenta nos seus ombros e tem medo da queda. Gasta fortunas no ritual e na definição do protocolo. Como é que foi possível traçar retratos tão realistas dos de cima e deixar entrar com aquela força os de baixo?."


Obra que se sonha ter em casa, este álbum com 456 páginas de Arte e História é uma prenda especial para pessoas especiais.


FERNÃO LOPES – CRÓNICAS de D. Pedro I, D. Fernando e D. João I, António Borges Coelho (Antologia), Rogério Ribeiro (ilustrações); Editorial Campo das Letras, Porto 2007


nota da editora Campo das Letras:

Rogério Ribeiro (1930-2008)Nasceu em Estremoz, em 1930. Fez a sua formação académica em Pintura, na ESBAL. Expunha individualmente desde 1954, tendo participado, a partir de 1950, nas Exposições Gerais de Artes Plásticas e em várias mostras colectivas nacionais e internacionais. Está representado em importantes colecções públicas e privadas no país e no estrangeiro. Sócio fundador da Gravura - Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses (1958), desenvolveu intensa actividade como gravador, especialmente nos primeiros anos da sua carreira.

Trabalhou em cerâmica por encomendas de particulares, empresas e organismos oficiais. Em 1961 iniciou a sua actividade de Professor de Pintura e Tecnologia na Escola de Artes Decorativas António Arroio e realizou as primeiras experiências em tapeçaria. Professor na ESBAL desde 1970. Dirigiu, desde 1988, a Galeria Municipal de Arte de Almada e, a partir de 1993, a Casa da Cerca - Centro de Arte Contemporânea. Em 1996, a convite do Metropolitano de Lisboa, realiza uma intervenção artística de azulejos para a estação de metro de Santa Lucia, em Santiago do Chile. Em 1997 realiza um painel de Azulejos "Peregrinação" e uma tapeçaria, nas Manufacturas de Portalegre, para o Forúm Municipal Romeu Correia em Almada. Em 1998 realiza um painel para Uzuki, Japão, destinado ao arquivo histórico Nanbam. Realiza igualmente, uma intervenção na estação de Sete-Rios da Rede Ferroviária Nacional.

Em 2003 inicia a preparação de um painel de azulejos de grandes dimensões, intitulado "O Lugar da Água", a instalar numa parede exterior do futuro Museu do Sítio, em Beja, que incorpora estruturas de banhos romanos, encomendado no âmbito do "Viver Beja - Programa Polis".Militante do Partido Comunista Português, Rogério Ribeiro deu importante colaboração artística a um grande número das suas iniciativas, com destaque para a Exposição do 60.º aniversário do Partido e para sucessivas realizações da Festa do Avante.

© Teresa Sá Couto

sábado, 17 de maio de 2008

Viagem à Utopia de Che

(Texto editado nos 40 anos da morte de Che, a 9 de Outubro de 2007)
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Che. Este é talvez o monossílabo mais controverso de sempre e que nos quatro cantos do mundo não precisa de tradução. Volvidos quarenta anos da sua morte, Ernesto Guevara de la Serna ainda é repulsa e paixão, arrogância e fraternidade, morte e libertação, horror e esperança, frémitos sanguíneos opostos que, todavia, desaguam na mesma palavra: fascínio.

«Su nombre ardió como um pajar /Y la ceniza se esparció. /(Un viento fiero la tomó. /Por los caminos la llevó)», versa uma cantiga do cancioneiro guevariano em celebração do voo idealista de Che que continua a alimentar as sociedades com fome de sonhos. Na busca do El Comandante das cinzas fertilizadoras, encontrámos um livro singular escrito por um português raro: o jornalista Viriato Teles é o repórter que vai ao interior da utopia para dela nos dar conta no portentoso «A Utopia segundo Che Guevara», editado há dois anos pela Campo das Letras.

«Histórias De Um País Cercado», «A Utopia Segundo Che Guevara», «Discursos Directos» e «Vinte e Cinco Canções para o Che» são os quatro capítulos que em 251 páginas nos dão uma visão histórica de Cuba, esclarecendo-nos porque foi aquele território o palco propício para a odisseia épica do guerrilheiro argentino.

E Viriato Teles está em todo o lado, com o melhor que isso tem: em Havana, captando, para nos oferecer, as cores e os sons seculares; na Sierra Maestra, interpretando o berço e a mística da revolução mais romântica da História; junto dos que privaram com Che, ouvindo-os para nos dar a ouvir o que têm a dizer; na garupa de todos os ecos do guerrilheiro para nos convidar à reflexão; na investigação minudente que intercepta fotografias, cartas e outros escritos do próprio Che, e que acolhe cantigas escritas para ele; na revolução mental que nos proporciona ao dar-nos diversas visões recolhidas sobre a Revolução cubana; na elegância das palavras, a um mesmo tempo objectivas e apaixonadas, que enformam uma prosa ardente para fazerem deste livro um objecto de culto.

O sacrifício de um amor absoluto

«Vale a pena morrer por uma coisa sem a qual não vale a pena viver», escreveu o uruguaio Eduardo Galeano. Che «acabou por morrer como desejava: a combater», diz-nos Viriato Teles, acrescentando: «O sacrifício será, então, “a quota a pagar pela liberdade que construímos”. Para o che não existem, neste aspecto, quaisquer dúvidas: “Nós, os socialistas, somos mais livres porque somos mais completos e somos mais completos por ser mais livres”, garante. Será este o princípio que guiará toda a sua existência, até ao momento da redenção final em La Higuera», donde vieram imagens do seu cadáver, com os «olhos teimosamente abertos, como que recusando a morte, eram tudo menos a imagem de um homem vencido.»

Morto o homem, ficava uma lição de vida que o tornou uma lenda. «O amor em primeiro lugar. Um amor terrível, absoluto. E um espírito de despojamento capaz de proporcionar uma entrega sem limites à revolução», escreve Viriato Teles, completando a sua argumentação com palavras do próprio Che:
«Acredito que a luta é a única solução para os povos que combatem pela liberdade e sou coerente com os meus princípios, escreveu, em 1965, na carta de despedida aos pais, antes de partir para o Congo. Muitos chamar-me-ão aventureiro – e sou-o, mas doutro género, daqueles que arriscam a vida para provar aquilo que acreditam.».

Porquê revisitar Che?

Em Che havia «algo de divino porque era simplesmente um homem», escreve Baptista-Bastos no prólogo. Nas actuais sociedades que se esvaziam no individualismo e no défice de utopias colectivas, Che ainda é um exemplo e uma motivação para a aventura partilhada do Sonho; por outro lado, ao imprimir na cultura de resistência a luta como motivo primordial do acto de existir, convida-nos à meditação da vida em toda a sua dimensão. É assim que entendemos o que nos diz Viriato Teles:

«Dignidade. Eis a palavre-chave para definir a vida e a obra de Ernesto Guevara de la Serna, o Che. Aventureiro, sonhador, irrealista – antes e depois da sua morte foram vários os epítetos com que a direita clássica e a esquerda oficial tentaram, no final dos anos 60 e princípios dos 70, domar as multidões de jovens que, fascinados pelo exemplo do comandante guerrilheiro, exigiam “a imaginação no poder (…) Agora, que o mundo se normalizou e o salve-se quem puder dita a ordem e o progresso da comunidade global, que futuro pode haver para um projecto alternativo de organização social? Nestes tempos de incerteza, revisitar os lugares e as pessoas do universo guevariano não deve ser praticado nem como exercício de saudosismo, nem como um exorcismo inconsequente. O socialismo por que lutou Guevara não era o dos tanques de praga, Budapeste ou Tiannanmen. A cidade sem muros nem ameias que Zeca cantou e foi o propósito da luta do Che, mesmo dissimulada pelas incertezas quotidianas, permanece – ai de nós se assim não fosse! – como objectivo maior no horizonte da Humanidade.».

Nota:
Além deste «A Utopia segundo Che Guevara», a Editora Campo das Letras tem ainda disponíveis os títulos «Che Guevara – Cidadão do Mundo» de Adys Cupull e Froilán González (1998), «O Ano em que Estivemos em Parte Nenhuma» de Paco Ignacio Taibo, Fróilan Escobar e Félix Guerra (1995), e «10 Poemas para Che Guevara», uma colectânea de vários autores (1997). Porque constatámos ser difícil encontrá-los nas livrarias, sugerimos que se faça o pedido aos livreiros ou que se adquiram os títulos na loja online da editora, com acesso pelos links que colocámos nos títulos.
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Aqui, página de Viriato Teles
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© Teresa Sá Couto

O novíssimo «Os Girassóis» de Rui Herbon

O Escritor Rui Herbon, Prémio António Paulouro 2004, da cidade Fundão, lançou novo livro, dia 7 de Maio, em Lisboa: Os Girassóis, com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues que tive a honra de apresentar. É o texto da Apresentação que aqui edito.

«Quem leu os anteriores romances de Rui Herbon já sabe três coisas: sabe que não encontra uma leitura recreativa que se extingue com o fechar do livro; sabe que é convocado para a viagem do texto, para nela se empossar, enquanto personagem; sabe que não faz a menor ideia de quais os caminhos do romance seguinte. Depois da reinvenção do espanto em «Voar como os Pássaros, Chorar como as Nuvens (Um Filme Português)» e do deambulador e notável «Absinto – a inútil deambulação da escrita», o título que se segue é Os Girassóis.

Inspirado nas famosas telas de Van Gogh, este «Os Girassóis» de Rui Herbon traz-nos um homem de meia-idade à procura da sua imagem, que perscruta o passado para entender as trevas da sua vida, para compreender donde lhe surgiu a agonia que lhe paralisa a existência, outrossim para achar a esperança, como bússola para o resto da caminhada, como o girassol que, agrilhoado à terra, procura, rebelde e irreverente, a luz.

Nada é ocasional neste novo livro de Rui Herbon, como, aliás, é seu timbre. A abrir, numa página, o Atrium, um pequeno texto com um grande ardil, como uma pequena sala de entrada forrada a espelhos que recebe o leitor, para o preparar para as 186 páginas onde ele se pode ver, multiplicado, redescobrir e reinventar.

Para isso, concorre o narrador omnisciente e engenhoso, que se confunde com a voz de Ricardo, a personagem principal, que imprime o tom confessional e intimista, e com lugar para a voz do leitor que se enreda no mal-estar e na espera do homem de 50 anos, pintor fracassado, exaurido na indiferença e tédio do casamento de quase 30 anos, com Sílvia, passando a viver, depois do adultério da mulher, «num quartinho dos fundos, com os seus desenhos e quadros» e um segredo terrível do passado: a atracção incestuosa, mas sublimada, pela irmã Ana, falecida abruptamente há 25 anos, mais declarada por ela em relação a ele.

Mas esta não é a história, ou não fosse do indisciplinado Rui Herbon; esta é apenas a base da história.

Narrativa de encruzilhadas
Este Os Girassóis é uma narrativa sobre uma grande viagem interior com encruzilhadas que se configuram, fortíssimas, na unidade espácio-temporal. É na varanda altaneira, onde Ricardo passa as noites de insónia, que se dá a grande viagem. É dessa varanda, ponto fixo sobre a praça, com Ricardo imóvel, na imobilidade de quem perdeu a esperança, que ele sai e regressa modificado; é nela que ele luta com «aquele olho invisível» que parecia ver-lhe a alma e gritar-lhe a mentira da sua existência, que ele, com remorso, cala. Cabe à narrativa esclarecida dar voz ao silêncio de Ricardo (e voz às nossas varandas de inquietação) para mostrar a verdade, pois, como disse Miguel de Unamuno, «Há momentos em que silenciar é mentir». E o leitor sabe, porque o texto o faz encontrar em si, que o tédio de Ricardo é um tédio agitado que apenas espera o momento para se desamarrar.

Lê-se no Atrium que há pecados «que o homem esconde nos lugares mais ocultos do seu coração, e aí permanecem, aí aguardam» até que uma qualquer palavra casual os evoca e eles erguem-se, «em visão ou em sonho» para nos encararem, num ajuste de contas…

Ajustar as contas com o tempo – desafiá-lo, revolvê-lo, moldá-lo, desordená-lo para o ordenar – é uma marca insigne da escrita de Rui. Realizar o Tempo «em visão ou em sonho» é enchê-lo de construções impressionistas e surrealistas: luz, sombra e movimento, sinestesias que colhem o real, metáforas, hipálages que transferem para os objectos o drama da luta de Ricardo com a memória, isto é, a luta consigo mesmo, expressa no «sofá insano, estoirado e sem préstimo, braços gastos», no qual se senta, para olhar para o exterior, imagens inquietantes resgatadas nos subterrâneos do ser, tudo urdido numa escrita poética arrebatadora e repleta de símbolos, como o pequeno relógio de algibeira, que Ricardo consulta, e que se agiganta no grande relógio, o «farol da memória», que se recorta iluminado no fundo da praça, e que nos catapulta para outras telas, também dum outro pintor famoso: as dos relógios moles de Salvador Dali.
O Tempo é reversível e moldável, prova-nos Rui Herbon, e prova-nos que esse acto de moldar o Tempo exige sacrifício e dor...

O sacrifício da caminhada
Na linha do Romance – ensaio, este «Os Girassóis» traz-nos uma narrativa exploratória sobre a condição existencial. Sempre a contas consigo, Ricardo resgata o passado em registos que amplifica na medida da sua angústia e da necessidade da sua demanda, em fragmentos desordenados, porque a alma humana quando procura não reconhece metodologias, a ânsia não tem programa (também neste sentido, a escrita do Rui é de Verdade, e por isso fideliza leitores).

Na ânsia da viagem surgem: a infância e juventude passadas no Porto; a estada em Paris, para estudo inútil e vida boémia, julgada pelos olhos infinitamente tristes de um prostituta quando se fixam em Ricardo; a passagem por Londres com o eco do som triste de um realejo, e o entendimento de que por baixo dos jardins exuberantes e silenciosos existem outros jardins, as raízes subterrâneas, mais maravilhosas e terríveis; pela guerra colonial de Ricardo numa repartição técnica do exército, em Lourenço Marques, militar sem arma porque ele não era dado a heroísmos.

É também da varanda, com olhar viajante, que Ricardo interpreta o quotidiano: tenta penetrar a vida para lá dos vidros, para lá das cortinas, atenta nas sombras dentro das casas, ou fixa as pupilas na praça, nos homens e mulheres, jovens e velhos, nos que saem do autocarro, regista-lhes os olhos e os gestos, conjectura-lhes as vidas, os caminhos caídos e saqueados, regista os recortes das sombras que a luz desenha, o «odor húmido e vasto» que lhe chega do rio, o silvo potente dos barcos que lhe desata a emoção de um sonho que parte.

A fúria de um temporal permite a renovação do projecto interior de Ricardo, que inclui a visita ao Museu Van Gogh, em Amesterdão, para contemplar o seu quadro favorito: os girassóis; Uma ida em jeito de peregrinação celebradora do sacrifício da caminhada contra a renúncia, de homenagem à luz, tanto mais que só se reconhece plenamente a luz quando se experimentaram as trevas: Van Gogh foi a prova disso, e é-o, também, esta narrativa do Rui. Não se pense, todavia, que o final é fechado; o leitor reconhece a circularidade da procura, do nunca acabado e sempre retomado, o eterno retorno, sempiterna marca de Rui Herbon.

Urbano Tavares Rodrigues diz, no prefácio, que este «Os Girassóis» «poderá tornar-se em breve um livro de culto». Irá juntar-se aos outros livros de culto do Rui, acrescento eu, convicta de que são assim tidos pelos leitores que os souberam ler.»

© Teresa Sá Couto



Nota: Livros de Rui Herbon e os Prémios arrecadados:

«Voar como os Pássaros, Chorar como as Nuvens (Um Filme Português)», Prémio Eixo-Atlântico de Narrativa Galega e Portuguesa 2002;

«Absinto (A Inútil Deambulação da Escrita)», Prémio António Paulouro 2004, da cidade Fundão; «Eterno Retorno», (não editado), Prémio Afonso Lopes Vieira 2005, da cidade de Leiria, Prémio Orlando Gonçalves 2005, da Amadora e Menção Honrosa no Prémio Alves Redol 2005, de Vila Franca de Xira;
«A Preto e Branco», livro de contos (não editado), Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal 2007;
«Masoch» (não editado), Prémio Maria Matos 2007 de Dramaturgia; «Os Girassóis».