segunda-feira, 25 de agosto de 2008
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
As mudanças do Acordo Ortográfico
Editado Guia sobre a nova ortografiaA Editorial Caminho acaba de lançar um utilíssimo Guia que colige as mais significativas mudanças ortográficas do português europeu, consequência da recente rectificação do Acordo Ortográfico de 1990, que continua a gerar celeuma em Portugal, mas também no Brasil, cá e lá contestado por uma grande facção de editores, escritores e outros praticantes atentos da língua. Questiona-se, sobretudo, onde está a unificação da língua, bandeira dos promotores para legitimarem as novas mudanças ortográficas, unificação que também eu, após análise atenta deste guia, não consigo vislumbrar. Todavia, abstenho-me, tanto quanto possível, de comentários – sobre a forma e a decisão política que engendrou a rectificação do Acordo – para que não estorvem as conclusões que cada um pode tirar dos exemplos que aqui selecciono.
Com participação da linguista Maria Helena Mira Mateus – que tem, entre outros títulos da especialidade, editada na Editorial Caminho a magnífica Gramática da Língua Portuguesa, de 2004 –, o livro compreende três grandes partes, de fácil consulta e inequivocamente esclarecedoras: as «Regras que mudam», «Lista alfabética das palavras cuja grafia muda» e «Formas verbais cuja grafia muda». O alfabeto passa a ter as letras k, w e y.
A abrir, nas «Regras que mudam», apresenta-se e explica-se a nova restrição do hífen em palavras com os prefixos anti- e co-, pelo que passar-se-á a escrever copiloto, antirreflexo e cooperação. Mantêm-se hifenizados os prefixos ex-, pré-, pró-, bem- e não-: ex-diretor, pré-seleção, pró-ativo, bem-vindo, não-católico.
As formas monossilábicas do verbo haver perdem o hífen, como há muito se pratica no português do Brasil: há de e não há-de. Também neste princípio de identidade brasileira que dita a regra e justifica as excepções, surgem as polémicas subtracções dos acentos tónicos, consoantes mudas, maiúsculas e a letra h em início de palavra:
–como no Brasil se escreve tônico e no resto dos países de língua oficial portuguesa se escreve tónico, as duas formas passam a ser oficiais;
Com participação da linguista Maria Helena Mira Mateus – que tem, entre outros títulos da especialidade, editada na Editorial Caminho a magnífica Gramática da Língua Portuguesa, de 2004 –, o livro compreende três grandes partes, de fácil consulta e inequivocamente esclarecedoras: as «Regras que mudam», «Lista alfabética das palavras cuja grafia muda» e «Formas verbais cuja grafia muda». O alfabeto passa a ter as letras k, w e y.
A abrir, nas «Regras que mudam», apresenta-se e explica-se a nova restrição do hífen em palavras com os prefixos anti- e co-, pelo que passar-se-á a escrever copiloto, antirreflexo e cooperação. Mantêm-se hifenizados os prefixos ex-, pré-, pró-, bem- e não-: ex-diretor, pré-seleção, pró-ativo, bem-vindo, não-católico.
As formas monossilábicas do verbo haver perdem o hífen, como há muito se pratica no português do Brasil: há de e não há-de. Também neste princípio de identidade brasileira que dita a regra e justifica as excepções, surgem as polémicas subtracções dos acentos tónicos, consoantes mudas, maiúsculas e a letra h em início de palavra:
–como no Brasil se escreve tônico e no resto dos países de língua oficial portuguesa se escreve tónico, as duas formas passam a ser oficiais;
– o acento que distingue palavras homógrafas é suprimido, passando a escrever-se pelo (pêlo, substantivo), indistintamente da proposição pelo (por+o); por (verbo pôr), indistintamente da proposição por; para (em vez de pára, verbo parar). Excepções para o verbo pôr, que mantém o acento para se diferenciar da preposição por e a forma dêmos, do verbo dar que se escreverá opcionalmente como dêmos ou demos. Acrescento que a polémica desta medida prende-se, sobretudo, com a confusão dos tempos no presente e no pretérito perfeito dos verbos terminados em –ar que, no português de Portugal, ao contrário do Brasil, é bem distinto: "nós andámos na cidade", distinto de "nós andamos na cidade"; "gostámos das férias", distinto de "gostamos das férias", etc., o que obriga a um estudo do contexto para se decifrar a correcta mensagem e, consequentemente, a compreensão de enunciados. Acresce que a eliminação do acento nalgumas palavras de português de Portugal faz com que a palavra passe a ter um sentido oposto para o qual ela existe: não se entenderá para-fogo (em vez de pára-fogo) um auxiliar do fogo e não o oposto? Ver entre os exemplos, no final.
– na queda das consoantes mudas, passa a escrever-se ação, atual, ótimo, adoção, assunção, etc. quando a pronúncia no Brasil executa as consoantes, as palavras passam a ter duas grafias, como por exemplo, recepção no Brasil, mas receção em Portugal, e, onde a pronúncia é variável, mantém-se essa variação, sendo aceite, por exemplo, amígdala e amídala;
– passam a escrever-se com minúsculas os nomes dos meses, estações do ano, pontos cardeais, com opcionalidade maiúscula ou minúscula para formas de tratamento, lugares, e títulos de obras: janeiro, verão, norte, professor ou Professor, avenida da Liberdade ou Avenida da Liberdade. Há a ressalva para a grafia dos nomes próprios de pessoa que pode ser mantida….
– como no Brasil se escreve úmido e em Portugal e nos restantes países de língua oficial portuguesa se escreve húmido, as formas mantêm-se; explica-se que se emprega h inicial quando é «etimologicamente válido, excepto quando a grafia sem h se encontra já inteiramente consagrada pelo uso. Para esclarecimentos adicionais, os autores deste guia remetem para o portal da Língua portuguesa que fornece toda a informação relativa à Língua: http://www.portaldalinguaportuguesa.org
Da extensa «Lista alfabética das palavras cuja grafia muda», seguem outros exemplos, com a grafia antiga e a palavra ou palavras (aceitando-se variantes e excepções – com palavras em itálico da variante brasileira) regulamentadas:
Abdómen – abdómen, abdômen
Abjecto – abjeto, abjecto
Actividade – atividade
Agro-alimentar – agroalimentar
Anti-salazarista – antissalazarista
Director – diretor
Ejectar – ejetar, ejectar
Fracturar – fraturar, fracturar
Gastronómico – gastronómico, gastronômico
Pára-lamas – para-lamas
Pára-vento – para-vento
Pára-raios – para-raios
Pára-fogo – para-fogo
Pêra – pera
Reacção – reação
Recta – reta
Rectilínio – retilínio, rectilínio
Sub-raça – subraça
Sub-reino – subreino
Tecto – teto, tecto
Tramóia – tramoia
Vêem – veem
Voca Bulá Rio - As palavras que mudam com o Acordo Ortográfico, ILTEC - Instituto de linguística Teórica e Computacional; Editorial Caminho, Lisboa, Junho 2008
© Teresa Sá Couto
sábado, 9 de agosto de 2008
Magia a Preto e Branco
Chama-se Milton, é um gato preto e branco e determina duas obras de arte arrebatadoras. «Eu Milton» e «Mas onde se Meteu o Milton?» são os dois álbuns narrativos da consagrada da autora suíça, mas de origem iraniana, Haydé Ardalan, que escreve e faz as ilustrações. Editados pelas Editions La Joie de Lire, e com Prémio no concurso «Os mais belos livros suíços» de 1997, estes portentos acabam de ser editados em Portugal pela Editorial Caminho.São dedicados aos leitores iniciais, dos 6 aos 9 anos, mas tiraram o fôlego aos graúdos. Se o fascínio se solta logo com a observação exterior dos dois pequenos objectos rectangulares, à medida da fome das mãos pequenas, esteticamente poderosos, com capa rija cartonada e lombadas forradas a tecido negro, o interior confirma e dilata o espanto: com talento desmedido, executam-se arrebatadoras ilustrações a negro e branco que dão forma à matizada personalidade do herói felino. E comprova-se que o mundo feito com estas duas cores é um arco-íris.
Em «Eu Milton», a personagem apresenta-se na primeira pessoa a estabelecer o diálogo directo e cúmplice com os novos amigos leitores. O felino apresenta a sua fisionomia, as suas competências – os cheiros e o dote para a caça – e a sua psicologia: os esgares, as fúrias, os amuos, a curiosidade e a preguiça, entre outros. A linguagem é simples e vibrante, como se quer para os iniciados na leitura; as mensagens são curtas e acompanhadas das ilustrações enérgicas, num conjunto que concorre para os sorrisos que se desprendem a cada folhear.
Em «Mas onde é que se meteu o Milton?» surge uma narrativa na perspectiva do leitor detective. Ao longo de trinta páginas vão-se apresentando respostas à pergunta inicial, ao mesmo tempo que se acompanham os hábitos, as travessuras, os gostos e os medos do gato preto e branco. As ilustrações, novamente da cor do felino, traçam a cartografia do júbilo dos leitores, de qualquer idade, observadores e descobridores de um universo estético singular. A mesma linguagem simples soma aos substantivos, adjectivos e advérbios, expressivos advérbios de modo: simplesmente, discretamente, totalmente, confortavelmente, exactamente, visivelmente, evidentemente, entre outros. E é caso para se dizer que esta é uma colecção para ser seguida apaixonadamente, pelos miúdos, pais e educadores.
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Eu, Milton e Mas onde se meteu o Milton?, Haydé, Editorial Caminho, Lisboa, 2008
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© Teresa Sá Couto
O Reino de Gonçalo M. Tavares
Fim da tetralogia sobre a decadência do Reino humano.
Numa era em que os indivíduos são mais reconhecidos pelas capacidades técnicas do que pelos valores humanos, haverá lugar para a espiritualidade? Na engrenagem mecânica do homem que, com movimento incessante e controlado, avança na conquista do poder sobre os outros, haverá lugar para o aperfeiçoamento moral? Numa sociedade que exige a destreza técnica, qual o lugar dos inaptos? Que dor e que morte são permitidas?
Fortíssimo, no centro do seu Reino, Gonçalo M. Tavares levanta-nos todas aquelas questões em Aprender a Rezar na Era da Técnica, título que fecha a tetralogia dos seus Livros Pretos sobre os subterrâneos da alma. Corolário da dissecação humana, o romance plasma a posição de Lenz Buchmann no mundo, reputado cirurgião de mão direita exímia no bisturi e que, por isso, não precisa de ser «um homem bom». São 375 páginas de desassossego, divididas tematicamente em três grandes partes – «A Força», «Doença» e «Morte» –, cada uma com subdivisões minudentes; uma execução da narrativa em fragmentos, característica da escrita de Gonçalo M. Tavares, que faz de cada subdivisão um golpe cirúrgico na alma de quem lê. (Ver entrevista da Orgia Literária a Gonçalo M. Tavares)
Aprender a Rezar na Era da Técnica vem juntar-se aos veementes Um homem: Klaus Klump, A máquina de Joseph Walser e Jerusalém. Na sequência destes títulos - onde se inclui, também, o Água, Cão, Cavalo, Cabeça -, o autor executa a narrativa a partir de centros de irradiação que configuram a decadência do Reino humano, pelo que cada livro é um capítulo de uma tese maior sobre o homem: a relação entre o pensamento e o corpo, a vontade e a mão que a executa, a ideia e a cabeça que lhe dá forma, e a incapacidade do acto quando o corpo entra em falência.
O poder alimenta-se do medo
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Perturbante, o texto desperta-nos para a técnica das mãos que nos manipulam e para as ideias que exploram as nossas fragilidades. Habituado a dominar, Lenz Buchmann vê na actividade política uma nova escala da sua técnica, outra ciência que não a médica, com a vantagem do «número de pessoas que conseguia agora influenciar – ou mesmo tocar, no sentido físico, no sentido do bisturi que interfere no tecido». Fascina-o a forma reverente e subserviente com que os cidadãos cumprimentam o Presidente da câmara da cidade, «um fenómeno mágico que o levou à decisão de entrar para o Partido «e lutar por conquistar os lugares mais altos», «operar a doença de uma cidade inteira», «sentir o prazer de dar aquela comida estranha que o poder dava aos seus soldados e funcionários, aquela comida de energia quase mágica, comida que saciava os estômagos da população de um modo não material, mas igualmente eficaz».
Dar-lhes «algum pão e algum medo», numa engrenagem que se quer com movimento contínuo, defende Lenz nas suas estratégias discutidas com Kestner, o presidente do Partido: «seremos tanto mais fortes quanto mais conseguirmos infiltrar na população esta mistura: movimento rápido e temor. Não os deixar parar para que não deixem de ter medo. Não deixar de os amedrontar para que não parem»; «Havia, portanto, dois medos, e não apenas um. O primeiro medo arrancava as coisas da sua imobilidade e o segundo, o mais poderoso, mantinha as coisas em movimento».
Lenz conhecia as divisões do medo, pois preparou-se contra ele em miúdo, tendo por mestre o pai, que idolatra e cujos ensinamentos aprimora. Militar, o pai fechava os dois filhos à chave num compartimento da casa vazio e escuro por cometerem «a ilegalidade de mostrar medo»: «perder tudo: perder a razão, perder o domínio». Lenz «aprendeu a existir assim. Preparou-se, cresceu, tornou-se forte»
A técnica na vertigem do domínio
Brutal, o texto dá-nos a técnica calculista de um indivíduo de inteligência e cultura raras, mostrando-nos que a natureza racional do homem é a sua grandeza e o seu drama. Se a dialéctica mão-utensílio favorece o desenvolvimento cerebral, Lenz vê na caça e na lei do bosque as premissas de execução do Reino a que «jurou lealdade, o Reino de quem ataca e de quem sabe que há elementos que se preparam para o atacar»: «existências eram, afinal, peças de caça, num resumo extraordinariamente sintético também das relações humanas». Mais: segundo Lenz, «o lutador não abdica à vontade do outro; isso é fraqueza, e fraqueza é doença. A justiça não é um conceito humano mas numérico.».
Segundo Edgar Morin, a caça fez o hominídeo «hábil e habilitado», espevita a inteligência porque faz o homem «lutar com aquilo que há de mais hábil e de mais manhoso na natureza, o animal presa e o homem predador, pois ambos eles se dissimulam, esquivam, enganam. Leva-o ainda a encontrar e a entrar em concorrência com tudo o que há de mais perigoso: o grande carnívoro. A caça estimula as aptidões estratégicas: a atenção, a tenacidade, a combatividade, a audácia, a manha, o logro, a armadilha, a emboscada.».
Com o mapa de combate estendido na «mesa do seu mundo», sua razão de existir, Lenz define a sua posição perante o adversário, procura a presa grande, enforma a ambição, impulsiona-a com o desprezo pelo outro, com «Vingança e ódio, esses afectos recônditos de combustão lenta», como disse Nietzsche, mas também a inquietar-nos com outra verdade humana, dita assim por B. Russel: «a vida perderia o seu sabor se não houvesse ninguém para odiar».
Lenz, para quem «a competência não se define com o coração», está no centro, pois «o centro tem tudo», é no centro que está «o início da explosão». Para isso, «contabiliza os pontos decisivos do próprio corpo»: «em primeiro lugar a cabeça», o «crânio, aquele conjunto de ossos que protege o instrumento de percepção do mundo» e onde abundam «capacidades e desvios surpreendentes». Porém, «o importante é o caminho central: o cérebro serve para não nos deixarmos matar. Exige habilitações máximas aos nossos inimigos. (…) O cérebro, visto de perto, e entendido profundamente, tem a forma e a função de uma arma, nada mais», defende Lenz. Foi a ordem dessa arma interna que o levou a pegar na arma de caça e disparar sobre a própria mulher e sobre um louco, desfazendo-lhes as cabeças.
Duas forças em dessincronização
Verdadeiro tratado sobre a reflexão humana, este romance de Gonçalo M. Tavares instiga-nos à meditação profunda que escasseia nesta era da vertigem técnica, alerta-nos para a falência do projecto da imortalidade e para o facto do valor do homem ser «igual ao de qualquer produto insignificante». Será que só o achamento desta verdade garante a paz interior?
O pai de Lenz ensinara aos filhos que a natureza parecia também «depender de alavancas com a forma da mão humana» e alertara-os para «o momento em que a natureza se torna guerreira», cabendo ao homem, com raciocínio técnico, dominá-la. Lenz tem a vontade, a técnica e o domínio, mas um «mecanismo de degradação», um tumor na cabeça, tira-lhe peso à mão direita que, amolecida, não consegue executar a vontade; a vontade de Lenz de matar o presidente do Partido para o substituir, depois a vontade de se suicidar, como fez o pai que deu um tiro na cabeça quando se sentiu em decadência física: a homens da sua estirpe só uma morte violenta seria permitida; só um fraco morre de forma fraca e morrer de doença é um humilhante sinal de fraqueza.
Assim, «o centro mudava de posição», deslocava-se: Lenz perde, primeiro, as capacidades físicas, depois, mentais, e até o sarcasmo que usava sobre os outros passa a ser usado sobre ele. Há, então, que se contar com dois tempos, que raramente se encontram: o tempo planeado, previsto e o outro tempo, o tempo real, em que acontecem as coisas, o «tempo visível» que não obedece a qualquer mecanismo que o homem controle. A situação de Lenz assemelhava-se à do pequeno rato cinzento, caçado por uma ratoeira, que aparece com a cabeça quase separada do corpo: «duas forças pareciam ter agido sobre ele» e o corpo não conseguiu suportar os seus efeitos simultâneos: «uma força que queria encurtar – talvez a vontade do rato (ou seria a intenção da ratoeira, encurtar?) – e outra força que queria esticar ao máximo.».
«Nos pântanos os motores não funcionam», diz o texto. E Lenz, que «pretendeu a matar os vestígios do Espírito Santo que existem no corpo de cada um», por serem sinal de fraqueza, deixa-se ir na tranquilidade da luz que o chama para o descanso derradeiro.
Aprender a Rezar na era da Técnica, Gonçalo M. Tavares, Editorial Caminho, Lisboa 2007
© Teresa Sá Couto
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
O Vendedor de Passados
Respondendo a muitos pedidos, deixo a sugestão de leitura de «O Vendedor de Passados», um romance singular de José Eduardo Agualusa, editado em 2004, e exactamente o penúltimo romance do autor angolano, que editou em 2007 o «As Mulheres do Meu Pai». Aplaudido internacionalmente, este «O Vendedor de Passados» continua a ser muito procurado e é já um livro de culto da Literatura de Expressão Portuguesa. (Ver página da internet de José Eduardo Agualusa na listagem Lugares de Autores deste blogue).Dando forma à asserção de Montaigne: "Nada parece verdadeiro que não possa parecer falso”, o romance apresenta uma urdidura de criatividade notável. A acção decorre na Luanda contemporânea, numa casa de "madeira sempre fresca", repleta de livros que falam, no seio da "floresta imensa" envolvida pela noite, como um mar.
À entrada, os espanta-espíritos agitam-se pela brisa emitindo um rumor de água o que a faz parecer " um velho navio a vapor" ou "um barco cheio de vozes cortando a custo a lama pesada de um rio". A lama, a "alta" sociedade angolana, procura neste barco " espelhos capazes de iluminar" as suas vidas opacas. A casa pertence ao albino Félix Ventura, "o vendedor de passados", o que trafica secretamente memórias, “como outros contrabandeiam cocaína”. Foi adoptado por um alfarrabista que o encontrou, menino, dentro de uma caixa com exemplares de “A Relíquia” de Eça de Queirós. O velho criou-o, crendo-lhe num desígnio superior. Tem uma namorada, Ângela Lúcia, que adora paradoxos, e de quem fala como quem se esforça por dar “substância a um milagre”.
Os seus clientes são prósperos empresários, políticos, generais, e toda uma burguesia angolana, emergente, sequiosa de distintos passados, mesmo que os tenha de comprar falsos. A sátira é feroz, apimentada pelo humor inteligente: " Temos um presidente de fantasia. Um governo de fantasia. Um sistema judicial de fantasia. Temos, em resumo, um país de fantasia" e uma cidade que "é uma feira de loucos" com patologias ainda por catalogar.
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Com Félix vive a outra personagem central: Eulálio. É uma osga-tigre, que impressiona e perturba pelo riso quase humano. É a companhia de Félix com quem mantém uma estranha telepatia. Cumpre a função de narrador participante, omnipresente e, quase sempre, omnisciente - deixando que o leitor conclua a psicologia das personagens. Dá-nos a conhecer "o albino", reproduzindo-nos os seus longos solilóquios, descreve-nos os espaços físicos e psicológicos, dá-nos conta de todas as "figuras" que entram na casa para comprar sonhos – só no último capítulo a narração é feita por Félix Ventura, que persiste na ilusão que alguém o escute, uma vez que o seu fiel ouvinte Eulálio, morre. É, também, ele que nos mostra a verdade da mentira de todo o enredo, e a sua linha ténue, pois só é possível ser revelada através dos seus 6 sonhos, em 6 capítulos.
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Cabe, ainda, a esta personagem a reflexão filosófica, que o texto nos propõe, sobre a memória, sobre a verdade e a mentira, a verosimilhança e a inverosimilhança: « A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento", todos efabulamos e "todos temos recordações falsas, embora alguns sejam totalmente falsos». Por outro lado, "a verdade é improvável" porque a mentira está por toda a parte:
"A própria natureza mente. O camaleão disfarça-se de folha para iludir a própria borboleta"; "Abomino a mentira, porque é uma inexactidão. Também a verdade costuma ser ambígua. Se fosse exacta não seria humana".
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José Buchmann é a personagem que irrompe pela casa para comprar, não um passado, mas um presente que lhe elimine o passado, o que faz subverter a natureza da ocupação, até aí "inocente" de Félix Ventura. Os acontecimentos precipitam-se, numa vertigem de surpresa, e as explicações são-nos dadas, sempre "mais à frente", em Analepses que nos deixam atónitos. Parece ser um jogo que o autor nos propõe, o Xadrez da vida, espelhado num Xadrez ficcionado, composto num Xadrez narrativo em que o Xeque-mate surge num golpe de imprevisibilidade.
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Maravilhado com a metamorfose da sua nova identidade, Buchmann passa a frequentar assiduamente a casa de Félix, até que um dia leva consigo um mendigo louco, com um cheiro nauseabundo, ex-agente do Ministério da Segurança do Estado, que o "desmascara" e o passado irrompe-lhe pelo presente: Buchmann é Pedro Gouveia, português, pai de Ângela, a namorada de Félix. Acontece o amor e um crime e um corpo escondido, sepultado debaixo de uma buganvília que grita denunciadoramente, mas que ninguém ouve.
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Com o presente enterrado, tudo pode voltar ao normal, mas não é isso que acontece. Os equívocos da memória têm inúmeros matizes e eis que aparece na casa um "Mascarado" que quer comprar um passado que o liberte de todas as máscaras; quer trocar a verdade impossível da sua vida por uma mentira simples e vulgar, não um passado glorioso, mas humilde, sem brilho, para atingir a liberdade.
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Indubitavelmente, com este "Vendedor de Passados", Agualusa mostrou-nos um fazedor de sonhos. Afinal, "Deus deu-nos os sonhos para que possamos espreitar o outro lado". Inesquecível.
Agualusa, José Eduardo ;«O Vendedor de Passados»; Ed Dom Quixote
© Teresa Sá Couto
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Os Peregrinos Sem Fé, Sérgio Luís de Carvalho
A travessia da consciência, em tempo de romariasO que fica do homem depois de deixar de acreditar? O que resta ao sonho depois de saber que a realidade não permite ilusões por muito tempo? Como prosseguir depois de perdida a esperança? Qual o valor da fé na errância humana? Estas são algumas questões suscitadas pela narrativa «Os Peregrinos Sem Fé», livro de Sérgio Luís de Carvalho, Director do magnífico Museu do Pão de Seia e escritor de cunho inconfundível, tanto no manuseio da palavra como nas temáticas.
Lançado no ano passado, este Os Peregrinos Sem Fé foi editado ao mesmo tempo em Portugal e na Galiza onde é acolhido sempre com o máximo entusiasmo ou não fossem os romeiros de Santiago a partilha de portugueses e galegos, como se refere no presente livro: «dizem que por aqui existem caminhos muito antigos, por onde desde sempre passaram portugueses ou galegos exibindo as raízes tão comuns.». Esta é, pois, uma leitura maior para este tempo de romarias e férias, esperando-se o próximo romance do autor a editar ainda este ano.
Neste, como no romance anterior a este - o magnífico Retrato de S. Jerónimo no seu Estúdio - Sérgio Luís de Carvalho mostra-nos que é possível narrar-se o tempo com recurso à memória, suporte da vida dos homens, mesmo sendo ela infiel e enganadora, pois é essa a «infeliz condição do homem». Com as histórias de dois homens que, separados por cinco séculos, narram as suas viagens de Lisboa a Santiago de Compostela, sempre acompanhados por outras memórias ainda mais antigas, as de Eneias, da Eneida de Virgílio, mostra-se que, independentemente dos tempos, a busca da consciência foi sempre um imperativo da existência, e o conhecimento alcançado na travessia é tão diverso quanto os homens que as fizerem.
Dois textos em alternância preenchem as 425 páginas da aprendizagem de dois homens, sem nome, pois podem ser qualquer um de nós. O primeiro é um médico e professor humanista, preso nos Estaus, sede em Lisboa do Santo Ofício, corre o ano de 1563. Acabou de assinar a carta de abjuração – pelo que aguarda a libertação – e, impulsionado pela leitura da Eneida de Virgílio, acaba de escrever a viagem que fez no meio de peregrinos a Santiago de Compostela. O segundo é o intérprete de Eneias na ópera «Dido e Eneias» de Henry Purcell, e regressa a Santiago, local donde fugiu por lhe ser insuportável o amor de Irina, a mulher que interpretou Dido, e que, também ela, se suicida depois da partida do seu Eneias.
Histórias de desamparo e solidão
A travessia dos dois homens é de desamparo, solidão e de expiação das culpas. Ainda que com finais diferentes, ambos os homens fazem a viagem a Santiago de Compostela com descrença: o médico fá-la pela descrença religiosa da peregrinação – disfarça-se de peregrino para fugir à perseguição da Inquisição –, mas animado pela crença nas suas ideias humanistas; o cantor fá-la, vazio de qualquer esperança – vai ao encontro do final que esperava e a confirmação do dano humano:
«para quase tudo é sempre demasiado tarde; passamos a fronteira e não notamos e fica para trás a estrada ou o atalho que eram os ideais para regressar»; «Também nós, cegos e surdos a todas as evidências assim somos, crentes sempre em algo de melhor, algo superior a nós. Corremos e insistimos e agimos sempre, e sempre, até a realidade enfim tombar sobre nós, nos cobrir com o seu negro manto e zombar das nossas esperanças. Mas tanta vez – ai de nós – nem assim abandonamos a nossa estúpida esperança. Não há pior coisa nem melhor coisa que a esperança. Somos fortes em a ter, somos fracos em a ter.».
Sem fé, prossegue, mas arrastando-se, com a inércia em vez do fulgor que a caminhada deveria ter. É com o olhar tragicamente ímpio que se detém nos peregrinos:
«Talvez os inveje. Talvez agora inveje a sua força, a sua crença que os leva tão ligeiros aonde um santo terá chegado há muito tempo. A fé os faz recusar as evidências, e isso é bom. A fé lhes diz que continuem, e isso é bom também. E se a realidade que os cerca contraria tudo aquilo em que acreditam, eles prosseguem, porque estarão certos ser a realidade que se engana. E são felizes, pois a realidade não lhes destrói as ilusões. Talvez…»
Também o médico detém-se nos peregrinos, seus companheiros de viagem, e a quem aprendeu a respeitar: «por vezes invejei a fé tão chã que eles tinham, e eu não. Livre, eu ia forçado em romaria, por dever que a mim mesmo assim me impus; eles todos, todavia, iam mais livres, mesmo se obrigados por promessas ou sentenças.».
Também ele se esquecera como «era perigoso ter esperança», pois, passados uns anos em Santiago, regressou a Portugal, onde a Inquisição não se tinha esquecido dele.
Agora, no seu cárcere, apesar de esperar a liberdade, maldiz-se traidor por ter assinado a carta onde, para se salvar, renegava os amigos e as ideias. Tal como o cantor que expia as culpas da sua fuga, o médico expia o seu acto. Medo ou cobardia? «Se calhar, cada um é cobarde como pode». Afinal, cada homem transporta consigo a sua sombra, consciência funda, a maestrina das suas acções, que pode ter a forma de um cão que uiva incessantemente, branco ou negro, como os que acompanham sempre os protagonistas desta narrativa de Sérgio Luís de Carvalho.
Os Peregrinos Sem Fé, Sérgio Luís de Carvalho; Campo das Letras, Porto, 2007
© Teresa Sá Couto
domingo, 27 de julho de 2008
Cinco anos a celebrar o Teatro
Já está disponível ao público o número 9 da magnífica revista semestral Sinais de Cena, da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, em colaboração com o Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Lisboa, e editada pela Campo das Letras. A publicação entra, plena e já há muito imprescindível, nos cinco anos de construção laboriosa de «um espaço de documentação, debate, análise e avaliação do que no campo do teatro – e de outras artes performativas – se vem praticando em Portugal e no resto do mundo».Para além das rubricas habituais, o número aborda os Prémios da Crítica 2007 com que se celebram espectáculos, autores, actores e projectos portugueses; uns meros “diplomas”, «artefacto modesto», diz Maria Helena Serôdio, que dirige a revista, sobre estes incentivos, mas que são um tributo ao Teatro, que nos enriquece, orgulha e alimenta a esperança nesta arte maior erigida num país que devia fazer mais por ela; como o esplêndido e inefável tributo ao Teatro que é dado por esta revista.
Na capa, os actores Cecília Henriques e Pedro Carracal, em Disco Pigs, dos Artistas Unidos, espectáculo de 2007; no interior, sucedem-se olhares com o rigor e a excelência de sempre nas abordagens do que por cá se leva à cena – nos grandes centros, mas também no interior do país, de lugares «descentrados», donde se distingue o espectáculo «Pax Romana», que tem dramaturgia e encenação de Nuno Pino Custódio, da ESTE - Estação Teatral da Beira Interior, estreado em 2006 no Auditório da Escola Secundária do Fundão, e ainda em exibição.
Na rubrica PASSOS EM VOLTA, titulado «Paz e guerra com humor crítico», o artigo de Maria Helena Serôdio traça as andanças do «Pax Romana» durante estes dois anos, descreve o espectáculo, intercepta-lhe elogiosamente as singularidades, num texto em que a crítica se revela contaminada pela excelência do espectáculo: é «por muitas razões, um trabalho exemplar: de rigor na composição do gesto, movimento e expressão facial; de imaginação delirante na linguagem inventada; de “reconstrução” criativa do vestuário romano (desenho brilhante de Marta Carreiras); de inventiva criação de sonoridades vocais e musicais; de acertadíssimo compasso na ridicularização da guerra e dos “treinos” militares; no jogo magnífico que empreende com os espectadores.».
Noto que, estando tecnicamente ligado à Commedia dell’Arte, o espectáculo esteve, em 2006, em Lisboa, no largo do Castelo de S. Jorge, no ensejo do Festival de Máscaras organizado por Filipe Crawford, e em 2007 no Chapitô, sessões que infelizmente perdi, pelo que aguardo, eu, mas sei que falo por muitos mais, nova “visita” à capital.
Os Prémios e a crítica
Logo na primeira rubrica, DOSSIÊ TEMÁTICO, encontram-se artigos sobre os galardoados com o Prémio da Crítica do ano 2007, atribuído ex-aequo ao espectáculo «A Tragédia de Júlio César», co-produção do Teatro da Cornocópia e Teatro São Luís, com encenação de Luís Miguel Cintra, e ao espectáculo «Foder e ir às Compras», co-produção da companhia Primeiros Sintomas e Centro Cultural de Belém, com encenação de Gonçalo Amorim. Seguem-se os artigos sobre os galardoados com Menções Especiais atribuídas à actriz Emília Silvestre, ao Projecto PANOS (Palcos novos / Palavras novas) e à Editora Cotovia, pelo magnífico trabalho de edição de dramaturgia.
Das habituais dez rubricas, destaque-se ainda: PORTEFÓLIO, com um olhar sobre «A dramaturgia irlandesa no teatro português: Entre renovações e actualizações», complementada por registos visuais; NA PRIMEIRA PESSOA, com uma extensa entrevista a João Perry, titulada «Viver para poder contar»; EM REDE - UbuWeb (em três movimentos);
ESTUDOS APLICADOS, com magníficos artigos sobre o incontornável dramaturgo Harold Pinter (Humanismo e vitalidade nas peças de Harold Pinter, A "igreja masculina" de Pinter e Realismo e palavra brutal: Harold Pinter no Brasil); NOTÍCIAS DE FORA, com um estudo sobre a marginalidade (O teatro dos Forced Entertainment); LEITURAS, com várias resenhas críticas e uma lista de publicações de Teatro no ano de 2007; ARQUIVO SOLTO, com a nostalgia a encontrar «Uma fábrica de gargalhadas», o antigo Teatro do Ginásio, no Chiado, desde a sua edificação em 1852, passando pelo apogeu no início do século XX, momentos conturbados, o incêndio de 1921 e o fim da vida, nos anos 50, restando-lhe agora a fachada do que é o «Espaço Chiado – Centro Comercial e Cultural Theatro do Gymnasio», que compreende 67 lojas, 28 escritórios e …um Cine Teatro….
© Teresa Sá Couto
Logo na primeira rubrica, DOSSIÊ TEMÁTICO, encontram-se artigos sobre os galardoados com o Prémio da Crítica do ano 2007, atribuído ex-aequo ao espectáculo «A Tragédia de Júlio César», co-produção do Teatro da Cornocópia e Teatro São Luís, com encenação de Luís Miguel Cintra, e ao espectáculo «Foder e ir às Compras», co-produção da companhia Primeiros Sintomas e Centro Cultural de Belém, com encenação de Gonçalo Amorim. Seguem-se os artigos sobre os galardoados com Menções Especiais atribuídas à actriz Emília Silvestre, ao Projecto PANOS (Palcos novos / Palavras novas) e à Editora Cotovia, pelo magnífico trabalho de edição de dramaturgia.
Das habituais dez rubricas, destaque-se ainda: PORTEFÓLIO, com um olhar sobre «A dramaturgia irlandesa no teatro português: Entre renovações e actualizações», complementada por registos visuais; NA PRIMEIRA PESSOA, com uma extensa entrevista a João Perry, titulada «Viver para poder contar»; EM REDE - UbuWeb (em três movimentos);
ESTUDOS APLICADOS, com magníficos artigos sobre o incontornável dramaturgo Harold Pinter (Humanismo e vitalidade nas peças de Harold Pinter, A "igreja masculina" de Pinter e Realismo e palavra brutal: Harold Pinter no Brasil); NOTÍCIAS DE FORA, com um estudo sobre a marginalidade (O teatro dos Forced Entertainment); LEITURAS, com várias resenhas críticas e uma lista de publicações de Teatro no ano de 2007; ARQUIVO SOLTO, com a nostalgia a encontrar «Uma fábrica de gargalhadas», o antigo Teatro do Ginásio, no Chiado, desde a sua edificação em 1852, passando pelo apogeu no início do século XX, momentos conturbados, o incêndio de 1921 e o fim da vida, nos anos 50, restando-lhe agora a fachada do que é o «Espaço Chiado – Centro Comercial e Cultural Theatro do Gymnasio», que compreende 67 lojas, 28 escritórios e …um Cine Teatro….
© Teresa Sá Couto
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Três leituras que desvendam o ser português
Com ficção, Filosofia e História se faz uma magnífica selecção de três livros que lançam a reflexão sobre nós. A saber: «Fados & Desgarrados», romance de José Xavier Ezequiel, editado no ano passado e que continua em apresentações pelo país; «A Morte de Portugal» é um ensaio de Miguel Real, editado no final do ano passado e que acabou de conhecer a 2º edição; «O Nosso Século é Fascista – O mundo visto por Salazar e Franco» é um magnífico ensaio de Manuel Loff, e acabou de ser editado.
Já que os textos que elaborei estão editados noutros lugares, sugiro, pois, o reencaminhamento, através dos links nos títulos destas brevíssimas apresentações:
Já que os textos que elaborei estão editados noutros lugares, sugiro, pois, o reencaminhamento, através dos links nos títulos destas brevíssimas apresentações:
Torrencial, vertiginoso, inteligente, indiscreto, provocador, boémio, burlesco, irónico e sarcástico são adjectivos obrigatórios para se anunciar o livro Fados & Desgarrados de José Xavier Ezequiel.Esta é «uma história revitalizada de 'tristes, solitários e finais'», diz Dennis McShade, pseudónimo de Dinis Machado, no Prefácio; este é um vibrante manifesto daqueles seres desgarrados, acrescento eu, e uma história de descaminhos que encontra o caminho certo em 219 páginas.
Da colecção O Voo do Morcego, da Campo das Letras, a narrativa é um voo pela Lisboa noctívaga, pela nostalgia com travo de vodka dos bares do Bairro Alto das ressacas e dos engates, tudo enredos para uma vigorosa crónica de costumes que despe, literal e metaforicamente, e disseca, até ao risível, uma certa sociedade lisboeta, com extensões críticas ao país cultural, político, económico, social e moral, como há muito não o fazia a literatura portuguesa.
«Que os ratos se devorem uns aos outros», escreveu Jorge de Sena, asserção escolhida por José Xavier Ezequiel para abrir o seu romance. E está lançado o mote que se desenvolve em muitas e inusitadas voltas com o compromisso de fazerem da narrativa um laboratório de observação crítica da sociedade actual. Os «exercícios de voyeur» depois libertados numa «desnorteada associação de pensamentos» definem o método: o «velho hábito de observar as pessoas, tentando traçar-lhes o perfil a partir dos pequenos detalhes, da roupa que trazem vestida, do cheiro que escolherem usar», pegar numa «ponta solta de conversa, do que têm à frente para beber». A narração na primeira pessoa, espontânea, coloquial, em tom de confissão, estabelece um diálogo contínuo com o leitor que se lhe rende de bom grado.
Na roleta do quotidiano
Do protagonista fica o leitor a saber tudo o que ele quer contar e o que parece deixar escapar. Tem 43 anos, é bancário até às cinco horas, boémio depois disso. Descobriu o vodka, passando a dedicar-se-lhe de «alma e coração», depois de uma monumental «dor de corno» por uma namorada de classe baixa dos subúrbios, com «uma imensa vontade de subir na vida, um cu e umas pernas superiormente capazes de servir de moeda de troca», que o trocou por um «gajo» dono de um «MG coupé de 73».
Amante de «geografias» e de «excessos», a sede nunca lhe faltou, enquanto que «dinheiro no bolso, sempre foi inversamente proporcional à puta da sede». A vida sempre foi para ele uma roleta: «russa, espanhola ou a puta que o pariu. Sempre vivi cada momento com a paixão do dedo no gatilho. A rotação aleatória do tambor. No sítio fatal.».
Com este anti-herói surge uma galeria infinita de personagens, todas filtradas pelo seu olhar, com valor de tipos sociais que facilmente todos reconhecemos no nosso quotidiano, aqui construídas caricaturalmente pela palavra, enquadradas e prolongadas nos espaços – os bares e as labirínticas artérias da Lisboa noctívaga – que, por sua vez, pela sua engenhosa construção narrativa têm também eles o estatuto de personagens. Assim surgem: o «discurso entaramelado comum a todos os bêbados da aldeia global»; os «rituais de acasalamento», sexo, «putas», «putinhas», droga, paneleiros travestis, pelintras «com nome e novos-ricos sem background que se desunham para aparecer nas fotografias das revistas do pindérico jet set nacional»; e até um Tio, fiel representante dos sinistros endinheirados, um mafioso com contactos e negócios no mundo todo, nascido em Chaves, «criado com os porcos as cabras as ovelhas e as vacas», que aprendera as artes do «contrabando lucrativo» nos tempos de Salazar, e que era agora um gordo Paxá com o «estereotipado hábito de se vestir de branco», «com chapéu pingalim Mercedes branco à prova de bala e todo o resto do figurino».
É esta figura que vai dar ensejo a uma história policial, um thriler à portuguesa a fazer lembrar-nos Eça de Queirós quando nos sugeria, no final de Os Maias, num desabafo de Ega, que os portugueses não se podem dar ao luxo de ter princípios, pois são feitos de Romantismo, «isto é: indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão». Será, pois, um Fado ser-se português desgarrado?
Cumprindo o seu fado, o protagonista lá se vai resignando: «Mas enfim, podia ser muito pior, morar numa casa em Chelas oferecida pelo senhor Presidente da Câmara em ano de eleições autárquicas, auferir o Rendimento Mínimo Garantido gentilmente cedido pelo senhor Ministro da Solidariedade, bonito nome, andar no paipelaine do cavalo e das lamelas de haxixe, arrumar carros nos poucos sítios onde ainda não puseram parquímetros da EMEL, e dormir nas sórdidas arcadas do Martim Moniz dentro de uma singela assoalhada de cartão que já tinha servido de agasalho a um espaçoso frigorífico alemão da classe energética A.».
Sendo esta narrativa insurrecta, reserva para o protagonista desgarrado um final feliz: o Tio mafioso, «mau como as cobras», é, afinal, seu tio, morre com sida – um brinde de uma das suas lolitas – e cancro da próstata, e, sem herdeiros, deixa-lhe a prolixa herança. «Por muito sujo que seja, é dinheiro. Bué dinheiro. E agora digam-me lá, seus invejosos, haverá dinheiro limpo?», atira ao leitor, numa pergunta de retórica, mas muito bem decifrada por nós, portugueses…
© Teresa Sá Couto
«Que os ratos se devorem uns aos outros», escreveu Jorge de Sena, asserção escolhida por José Xavier Ezequiel para abrir o seu romance. E está lançado o mote que se desenvolve em muitas e inusitadas voltas com o compromisso de fazerem da narrativa um laboratório de observação crítica da sociedade actual. Os «exercícios de voyeur» depois libertados numa «desnorteada associação de pensamentos» definem o método: o «velho hábito de observar as pessoas, tentando traçar-lhes o perfil a partir dos pequenos detalhes, da roupa que trazem vestida, do cheiro que escolherem usar», pegar numa «ponta solta de conversa, do que têm à frente para beber». A narração na primeira pessoa, espontânea, coloquial, em tom de confissão, estabelece um diálogo contínuo com o leitor que se lhe rende de bom grado.
Na roleta do quotidiano
Do protagonista fica o leitor a saber tudo o que ele quer contar e o que parece deixar escapar. Tem 43 anos, é bancário até às cinco horas, boémio depois disso. Descobriu o vodka, passando a dedicar-se-lhe de «alma e coração», depois de uma monumental «dor de corno» por uma namorada de classe baixa dos subúrbios, com «uma imensa vontade de subir na vida, um cu e umas pernas superiormente capazes de servir de moeda de troca», que o trocou por um «gajo» dono de um «MG coupé de 73».
Amante de «geografias» e de «excessos», a sede nunca lhe faltou, enquanto que «dinheiro no bolso, sempre foi inversamente proporcional à puta da sede». A vida sempre foi para ele uma roleta: «russa, espanhola ou a puta que o pariu. Sempre vivi cada momento com a paixão do dedo no gatilho. A rotação aleatória do tambor. No sítio fatal.».
Com este anti-herói surge uma galeria infinita de personagens, todas filtradas pelo seu olhar, com valor de tipos sociais que facilmente todos reconhecemos no nosso quotidiano, aqui construídas caricaturalmente pela palavra, enquadradas e prolongadas nos espaços – os bares e as labirínticas artérias da Lisboa noctívaga – que, por sua vez, pela sua engenhosa construção narrativa têm também eles o estatuto de personagens. Assim surgem: o «discurso entaramelado comum a todos os bêbados da aldeia global»; os «rituais de acasalamento», sexo, «putas», «putinhas», droga, paneleiros travestis, pelintras «com nome e novos-ricos sem background que se desunham para aparecer nas fotografias das revistas do pindérico jet set nacional»; e até um Tio, fiel representante dos sinistros endinheirados, um mafioso com contactos e negócios no mundo todo, nascido em Chaves, «criado com os porcos as cabras as ovelhas e as vacas», que aprendera as artes do «contrabando lucrativo» nos tempos de Salazar, e que era agora um gordo Paxá com o «estereotipado hábito de se vestir de branco», «com chapéu pingalim Mercedes branco à prova de bala e todo o resto do figurino».
É esta figura que vai dar ensejo a uma história policial, um thriler à portuguesa a fazer lembrar-nos Eça de Queirós quando nos sugeria, no final de Os Maias, num desabafo de Ega, que os portugueses não se podem dar ao luxo de ter princípios, pois são feitos de Romantismo, «isto é: indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão». Será, pois, um Fado ser-se português desgarrado?
Cumprindo o seu fado, o protagonista lá se vai resignando: «Mas enfim, podia ser muito pior, morar numa casa em Chelas oferecida pelo senhor Presidente da Câmara em ano de eleições autárquicas, auferir o Rendimento Mínimo Garantido gentilmente cedido pelo senhor Ministro da Solidariedade, bonito nome, andar no paipelaine do cavalo e das lamelas de haxixe, arrumar carros nos poucos sítios onde ainda não puseram parquímetros da EMEL, e dormir nas sórdidas arcadas do Martim Moniz dentro de uma singela assoalhada de cartão que já tinha servido de agasalho a um espaçoso frigorífico alemão da classe energética A.».
Sendo esta narrativa insurrecta, reserva para o protagonista desgarrado um final feliz: o Tio mafioso, «mau como as cobras», é, afinal, seu tio, morre com sida – um brinde de uma das suas lolitas – e cancro da próstata, e, sem herdeiros, deixa-lhe a prolixa herança. «Por muito sujo que seja, é dinheiro. Bué dinheiro. E agora digam-me lá, seus invejosos, haverá dinheiro limpo?», atira ao leitor, numa pergunta de retórica, mas muito bem decifrada por nós, portugueses…
© Teresa Sá Couto
A «”morte de Portugal” não significa que Portugal desapareça (Portugal “dura”, escrevia Eça de Queirós durante a crise do Ultimatum; é, aliás, a sua grande virtude, não dar felicidade ao seu povo, mas durar, sobreviver, existir por existir, criando contínuas mitologias que justifiquem a sua existência)», diz Miguel Real no novíssimo Ensaio «A Morte de Portugal». .A morte de Portugal residirá, então, no desaparecimento de toda a originalidade portuguesa substituída pela vertigem estrangeira por uma «ditadura tecnocrática» instituída por «técnicos medíocres» para quem só conta «primeiro, a contabilidade das estatísticas, e, segundo, o sentido europeu das estatísticas». (In blogue Leituras)«O Nosso Século é Fascista!»
Salazar e Franco nasceram com 3 anos de diferença (1889 e 1892, respectivamente) e viriam a dar o nome às duas ditaduras ibéricas. O primeiro, com o programa Deus, Pátria, Família, com a força do Manda quem pode, obedece quem deve e numa «linha geral europeia»; o segundo, autoproclamando-se o Caudillo de Espanha pela graça de Deus e voz do movimiento general de rebeldia en las masas civilizadas del mundo; ambos, crendo-se portadores de uma nova ideia, que impuseram de forma totalizadora – no Estado Novo e Nuevo Estado –, a ideia de uma Nova Ordem, regeneradora e saneadora, integrante de uma nova Europa com fórmulas hitleriana e mussoliniana. Conhecer o pensamento político daqueles dois homens filhos de um tempo complexo e vário é a proposta do soberbo e urgente Ensaio «O NOSSO SÉCULO É FASCISTA! – O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945)» do historiador Manuel Loff. São quase mil páginas de fascínio, que, sedento, segue a profusa e rara documentação histórica, interpelada, interpretada e contextualizada pelo historiador. (In blogue Leituras)
Ver neste blogue outros textos sobre livros no campo da História:
O Padre António Vieira e as mulheres
FERNÃO LOPES -CRÓNICAS
© Teresa Sá Couto
Ver neste blogue outros textos sobre livros no campo da História:
O Padre António Vieira e as mulheres
FERNÃO LOPES -CRÓNICAS
© Teresa Sá Couto
domingo, 20 de julho de 2008
Idades eternas de Mia Couto
Livro de poesia do escritor moçambicanoA poesia capta o instante e solta-o na eternidade. Isso ensina-nos Mia Couto, o escritor e sempre poeta moçambicano, o que reparte o «doce milagre da refeição» da palavra. «A diferença /entre o poeta e a cigarra /é apenas a sinceridade», escreve. A diferença entre os outros homens e o poeta é que este conhece a pele da palavra, despe-a e ama-a, sabe-lhe o cheiro e a respiração, a luz e a treva, e solta-a porque sabe que ela não lhe pertence, que ela é livre e que o seu desígnio é o voo da eternidade. Depois de «Raiz de Orvalho e outros poemas», editado em 1999, e de vários poemas em prosa, que são todos os seus romances, Mia brinda-nos com o livro de poesia «Idades, Cidades, Divindades». E nele encontramos a palavra sem idade, a cidade universal, mestiça e inteira, o esplendor do voo vocabular que, místico e iniciático, transporta tudo o que somos.
Conjugando como ninguém as palavras que todos conhecemos, Mia Couto atinge-nos na liquidez primordial que nos corre nas veias, numa precisão que o próprio Mia desvenda: «fazer da palavra um embalo /é o mais puro e apurado senso da poesia». Talvez o destino de ser poeta nunca tenha estado tão depurado: «Meu vício /é vitalício: comer a Vida /deitando-a entontecida /sobre o linho do idioma. /Nesse leito transverso /dispo-a com um só verso. /Até chegar ao fim da voz. /Até ser um corpo sem foz.». Um vício assim radicado no chão: «Tenho a sede /do embondeiro: /ao invés de beber, /eu engulo o chão inteiro.».
Palavras de duas águas
Duas águas, duas culturas, Portugal e África: por diversas vezes Mia Couto tem abordado esta questão da identidade, dando-lhe forma nos seus romances, defendendo-a como filosofia da sua vida. Trata-se de um património que se transporta e que evidencia um sentido mais lato: não há identidades singulares, o ser humano tem identidades múltiplas, que constrói e reconstrói constantemente. Aliando-se o poeta ao contador de estórias, aquela filosofia é reiterada neste livro, como nos surpreendentes «O idioma» e «O outro idioma. Confira-se:
Silvestre quer saber /porque razão eu estrago o português /escrevendo palavras que nem há. /Não é a pessoa que escolhe a palavra. / É o inverso. /Isso eu podia ter respondido. /Mas não. /O tudo que disse foi: /é um crime passional, Silvestre. /É que eu amo tanto a Vida /que ela não tem /cabimento em nenhum idioma. /Silvestre sorriu. /Afinal, também ele já cometera /o idêntico crime: /todas as mulheres que amara /ele as rebaptizara, vezes sem fim. /Amor se parece com a Vida: /ambos nascem na sede da palavra, /ambos morrem na palavra bebida.
***
Inquirido / sobre a sua fluência /em português, respondeu: /- Tenho duas línguas: /uma para mentir,/ outra para ser enganado./ A professora /ainda perguntou: / - E qual delas é o português? /- Já não me lembro, respondeu.
Na curva do rio…
A água é um dos elementos omnipresentes na escrita do autor de Mar me Quer. Ela esculpe a dor, o amor e o sonho; ela é o princípio, o caminho, o fim; ela é a Espera. Talvez por isto, haja a metafísica de que «temos a raiz num rio /e é por isso que o mar /nos dá a tristeza de um destino»; será também essa a aclaração do segredo do poeta: «todas as noites /me deito num livro /para em outra vida desaguar. /Rio escapando da margem, /margem escarpando um rio.»; e é por aquela mesma razão que escorrem poemas como este:
(…)
Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera
Mas eu deito-me no teu leito
quando apenas queria dormir em ti.
E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.
E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.
Idades, Cidades, Divindades, Mia Couto; Editorial Caminho, Lisboa, Setembro 2007
Palavras de duas águas
Duas águas, duas culturas, Portugal e África: por diversas vezes Mia Couto tem abordado esta questão da identidade, dando-lhe forma nos seus romances, defendendo-a como filosofia da sua vida. Trata-se de um património que se transporta e que evidencia um sentido mais lato: não há identidades singulares, o ser humano tem identidades múltiplas, que constrói e reconstrói constantemente. Aliando-se o poeta ao contador de estórias, aquela filosofia é reiterada neste livro, como nos surpreendentes «O idioma» e «O outro idioma. Confira-se:
Silvestre quer saber /porque razão eu estrago o português /escrevendo palavras que nem há. /Não é a pessoa que escolhe a palavra. / É o inverso. /Isso eu podia ter respondido. /Mas não. /O tudo que disse foi: /é um crime passional, Silvestre. /É que eu amo tanto a Vida /que ela não tem /cabimento em nenhum idioma. /Silvestre sorriu. /Afinal, também ele já cometera /o idêntico crime: /todas as mulheres que amara /ele as rebaptizara, vezes sem fim. /Amor se parece com a Vida: /ambos nascem na sede da palavra, /ambos morrem na palavra bebida.
***
Inquirido / sobre a sua fluência /em português, respondeu: /- Tenho duas línguas: /uma para mentir,/ outra para ser enganado./ A professora /ainda perguntou: / - E qual delas é o português? /- Já não me lembro, respondeu.
Na curva do rio…
A água é um dos elementos omnipresentes na escrita do autor de Mar me Quer. Ela esculpe a dor, o amor e o sonho; ela é o princípio, o caminho, o fim; ela é a Espera. Talvez por isto, haja a metafísica de que «temos a raiz num rio /e é por isso que o mar /nos dá a tristeza de um destino»; será também essa a aclaração do segredo do poeta: «todas as noites /me deito num livro /para em outra vida desaguar. /Rio escapando da margem, /margem escarpando um rio.»; e é por aquela mesma razão que escorrem poemas como este:
(…)
Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera
Mas eu deito-me no teu leito
quando apenas queria dormir em ti.
E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.
E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.
Idades, Cidades, Divindades, Mia Couto; Editorial Caminho, Lisboa, Setembro 2007
© Teresa Sá Couto
segunda-feira, 7 de julho de 2008
«Venenos de Deus, Remédios do Diabo»
O novíssimo romance de Mia CoutoAos 10 anos todos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias. Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias. Aos 30 anos pensamos que mais ninguém tem ideias. Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas. Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias. Aos 60 ainda temos ideias mas esquecemos do que estávamos a pensar. Aos 70 só pensar já nos faz dormir. Aos 80 só pensamos quando dormimos.
Estas são palavras de Bartolomeu Sozinho, um septuagenário da Vila de Cacimba, ex-mecânico no colonial transatlântico Infante D. Henrique, magnífica personagem do novíssimo romance «Venenos de Deus, Remédios do Diabo» de Mia Couto. Na idade da sabedoria, o escritor moçambicano semeia mais uma narrativa com a torrente e o exotismo do chão africano e almas que nele voam carregando a espessura dos segredos e das lembranças. Uma leitura de um fôlego por 188 páginas imperdíveis para estas férias.
Sidónio Rosa é o jovem médico português que vai para Moçambique para sossegar «um bater de pilão no peito», para encontrar Deolinda, uma mulata que ele conheceu em Lisboa durante um congresso. Mas Deolinda morreu, e o facto é-lhe inicialmente ocultado, e ela não era quem ele pensava. É ao embrenhar-se na África profunda – mesmo conhecendo apenas a rua de areia que liga a pensão ao posto de saúde e à casa de Bartolomeu e Dona Muda, pais de Deolinda – que este europeu descobre a sua missão naquele continente: a de acordar segredos e salvar as lembranças, já que a âncora é a lembrança ou, como diz Bartolomeu, «é o esquecimento e não a morte que nos faz ficar fora da vida».
Com um narrador omnisciente que completa a fala e os pensamentos das personagens, e exímio a remexer nas emoções mais fundas, segue o leitor na vertigem narrativa para descobrir que «os segredos, em Vila Cacimba, não se enterram nunca em cova. Ficam em buraco aberto como ferida que nunca ganha cicatriz». Enquanto espera Deolinda, Sidónio Rosa, rebaptizado de Sidonho pelo povo, ocupa-se a tratar de uma epidemia de meningite, com rumores de obra encomendada, coisa de maus espíritos, doença que faz os homens vagabundearem enlouquecidos pelas ruas – os tresandarilhos – agitando os braços como se quisessem voar, e gasta os passos a caminho de casa dos Sozinhos.
Desde o início, o médico – que afinal não é médico porque ainda lhe faltam umas cadeiras do curso – é enredado numa teia de mentiras: «poucos e desamparados, partilhando secretas cumplicidades e sofrendo de um mesmo sentimento de orfandade. A cultura que os criou está longe, noutro tempo, noutro universo. A mentira é o único remédio que lhes resta contra essa solitária lonjura.». Deolinda fora amante de Alfredo Suacelência, o vitalício administrador da Vila e amigo de infância de Bartolomeu ou fora amante do próprio pai? Ou de nenhum dos dois? Morreu de aborto ou doutra doença? Era mesmo filha do casal Sozinho ou irmã de Muda e, assim, cunhada de Bartolomeu?
«A vida é um rio: a água junta e separa»
Bartolomeu e Muda são as duas personagens centrais, soberanamente desenhadas nos diálogos e nos silêncios que os diálogos ostentam, como, aliás, Mia Couto já nos habituou. À semelhança doutros títulos do autor, é aqui retomada, misticamente, a figura de um casal feito de duas águas do mesmo rio, duas vidas ondulantes distintas, mas partes do mesmo destino: «os passos dele são pequenos: de um chão de prisão. Os passos dela são redondos: de quem anda em ilha».
Viviam «como o dedo e o anel: não nos fazemos falta, mas não vivemos longe um do outro», diz a mulher, que «partilhava a condição das demais mulheres da Vila: envergonhada de ter nascido, temente de viver e triste por não saber morrer». «A vida é um rio, Doutor: a água junta e separa», diz ela, caracterizando a vivência da sua dor: «O meu chorar é feito à medida do lenço».
Moribundo, «sombra esvoaçando no escuro» de uma casa onde se mantinha fechado, com os pés cheios de escamas, o septuagenário padece de uma misteriosa doença que dizia ser de família: dizia estar a lagartar-se, pois já o avô tinha morrido lagarto. Ao médico, faz pedidos insistentes: para «alvoroçar o coração, solavancar o corpo», pede uma das novas «pretas loiras, de olhos azuis» ou uma catorzinha ou até a sua mulher, disfarçada de puta, pois foi sempre ela que ele quis; mas, sobretudo, ele que sonhou ser mecânico «para consertar o mundo», pedia ao médico que o curasse de sonhar, pois «sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança contra um destino que é sempre tardio e pouco»: «Todos elogiam o sonho, que é o compensar da vida. Mas é ao contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos».
«O tempo é o lenço de toda a lágrima»
«O sofrimento é sempre a nossa escola maior», diz Bartolomeu enquanto se deixava «existir, com a mesma inércia que o crescimento das unhas». A sua doença era a saudade, essa doença do tempo que semeia perdas e desata a vontade de nos unirmos a elas ou ressuscitá-las pelas lembranças: «O Homem entende a vida. Mas só os bichos entendem a Morte.». Também Muda padecia da mesma doença que a fazia, todos os finais de tarde, ir ao rio chorar ou derramar a sua tristeza junto da campa de Deolinda.
O jovem médico resolve cortar as amarras com aquela terra e regressar a Lisboa. Mas a ponte entre culturas fora erigida e ela é indestrutível, mostra-nos soberanamente, e uma vez mais, Mia Couto: o médico carregava com ele um novo possível encontro, com Isadora, verdadeira filha de Bartolomeu, fruto de uma das suas viagens de marinheiro a Portugal e que viveria perto de Lisboa. Por outro lado, o tempo da memória, lugar habitado pelas almas agarradas à terra, passa a ter outro representante; uma mulher misteriosa, vestida de cinzento, sentada à beira da estrada, por onde passa a camioneta que leva Sidónio, acabada de chegar com uma missão: semear por toda a Vila as flores brancas do esquecimento, flores que se plantam junto dos cemitérios «para que os mortos se esqueçam de que, em algum momento foram viventes».
Numa narrativa cristalina, que nos arranca sorrisos e estremecimentos, Mia Couto mostra-nos mais esta verdade existencial: todos somos feitos de tempo e na nossa alma vivente vivem também todas as almas que tocámos e que já partiram, mas que, desobedientes, recusamos deixar ir… Para «venenos de Deus, remédios do Diabo»...
Venenos de Deus, Remédios do Diabo, Mia Couto; Editorial Caminho, Lisboa 2008
Outros artigos meus sobre Mia Couto, editados há 3 anos:
http://www.triplov.com/letras/teresa_sa_couto/mia_couto.htm
© Teresa Sá Couto
sexta-feira, 4 de julho de 2008
O DOMADOR DE VENTOS
«Aonde o Vento me Levar» é um título de Manuel Jorge Marmelo. Título ardiloso que indicia o grande jogo que se joga entre a palavra na deriva do vento e o único que os pode dominar: o escritor. E este é o grande e misterioso jogo entre o criador e a criação que o autor cumpre com engenho, também no desafio com o leitor.«O número de rios não é infinito; um viajante imortal que percorra o mundo acabará, algum dia, por ter bebido de todos», escreveu Jorge Luís Borges. Também Manuel Jorge Marmelo se propõe, e nos propõe, «descobrir esse rio» onde se mata a sede de quem somos e onde, mirando-nos nas suas águas, nos podemos redescobrir. O livro que agora sugiro dá conta dessa demanda, é um espaço cósmico, espelho e mapa do universo, o Aleph, lugar onde confluem «sem se confundirem, todos os lugares» da terra, todos os livros e todos os homens. E cumpre-se uma leitura de alquimias.
Todos temos algo de fixo e de movediço. Também nesta ficção, o narrador, o Eu, propõe-se escrever um livro de viagens sem sair do seu lugar. Assim, envia a personagem «M.» para que lhe envie notas que ele converterá em literatura. Mas o que acontece ao projecto literário quando a personagem tem ganas de autonomia e subverte os papéis tornando-se ela no escritor, deixando o primeiro escritor à deriva? Podem as personagens escrever um livro relegando o escritor para o papel de observador? E pode esta peleja ser substantiva ao ponto de com ela se urdir uma narrativa? Manuel Jorge Marmelo responde-nos em 158 páginas de reboliço, como sempre o são as da melhor literatura.
O escritor e a criação
«Começa aqui o meu desespero de escritor. Toda a linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que a minha tímida memória mal abarca?», escreveu Jorge luís Borges em «O Aleph» (1949). Também Manuel Jorge Marmelo, detendo-se nessa tensão entre ficção e realidade, e como elas se contaminam, apresenta-nos a quimera literária através de um narrador céptico que maldiz o método utilizado para escrever, lamentando-se por «ter deixado entrar tanta realidade no casulo de livro» que construiu dentro de si, concluindo: «eis, pois, o que me falta: copiar, inventar e mentir.
A isto se resume a literatura.». Este princípio de ocultação da realidade como motor da obra literária é veiculado por Enrique Vila-Matas no seu último romance Doutor Pasavento, com a personagem que, de um quarto e cidade reais, passeia «por alamedas mentais nesse fim do mundo onde se colocou» o seu cérebro: «desaparecer é ceder lugar ao outro» e, «quem quiser ir mais além terá de desaparecer».
Em «Aonde o vento me levar» mostra-se como a ficção é um caminho de introspecção e, por isso, gerador de realidade: «M. talvez nem sequer exista. Tê-lo-ei arrancado de dentro de mim, como um pedaço inútil das minhas entranhas, e, ao fazê-lo, dei-lhe uma vida que jamais terei. Mesmo se não devo excluir completamente a possibilidade, nada remota, de me ter ele inventado a mim, enche-me de um peculiar orgulho saber que essa porção daquilo que sou (ou julgo ser) foi já tão longe.»
Homenagem a África
Com o narrador, anda o leitor de cá para lá, entre páginas de outros livros que ele lhe abre, a sorrir pela consentida sujeição à leitura – ou deslumbrado com o Aleph de Manuel Jorge Marmelo, que o envolve em sons, cheiros e texturas de África –, pouco se importando com os seus lamentos por não conseguir uma história que dê corpo ao seu livro.Escreveu, ainda, o escritor argentino: «Vi milhões de actos agradáveis ou atrozes; nenhum me assombrou mais que o facto de todos ocuparem o mesmo ponto, sem sobreposição e sem transparência. O que os meus olhos viram foi simultâneo; o que escreverei será sucessivo, pois a linguagem o é. Algo, no entanto, registarei.».
De incertos e longínquos locais da África profunda, descalço para se fundir com a terra, “M.”, que não está quieto, «escreve e escreve e escreve» e vai enviando aerogramas que o narrador reproduz, não sem se questionar sobre a inutilidade da viagem e sobre o espaçamento com que lhe chegam alguns dos bilhetes de M. que, «Se está num sitio e, depois, aparece escrevendo em outro bastante distante, algum caminho há-de ter feito». Metáfora da inventiva literária, que pode atravessar fronteiras onde bem entende: «Não tenho passaporte e sou quase incorpóreo (…) Afago a casca grossa dos embondeiros e neles sinto a muda palpitação da terra. Faço amor com as árvores e acaricio a pele dos rios. Mergulho os dedos na terra para fecundá-la de mim.».
«Aonde o vento me levar» é a «síntese imperfeita de um livro sobre coisa nenhuma e no qual nada acontece»: “M.” viaja «sem rumo predefinido», como tantas vezes qualquer um de nós o faz; a viagem de “M.” é «destrambelhada, temerária e estéril» como sempre o é, nalgum ponto, a existência humana; “M.” tem um «segredo, uma contra-senha, um abracadabra», como todos nós. Cabe-nos, pois, usar a chave que nos coube para acedermos à nossa outra porção. E há que partir e ir até aonde o vento nos levar.
Aonde o Vento me levar, Manuel Jorge Marmelo; Editorial Campo das Letras, Porto
© Teresa Sá Couto
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Vidas que a literatura dá
Romance galardoado de Carlos MachadoJoão Hermínio teve a oportunidade de viver duas vezes. Por causa dele, Alcina, a sua namorada de sempre, «tomou consciência de que a sua individualidade encerrava outros seres» e também ela viveu duas existências. Por causa deles, pode o leitor viver muitas existências incentivado pelas páginas de uma narrativa exímia.
«O Homem que viveu duas vezes» é o título do romance a que nos referimos, e Carlos Machado é o contador habilíssimo de histórias que constroem vidas. Primeiro livro do autor, e logo galardoado com o «Prémio Alves Redol 2006», atribuído pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, este romance de prosa musculada, coloquial e imprevista, que ata o leitor às suas páginas e o mantém inquieto até ao final, entra na literatura portuguesa pela porta a que tem direito: a porta grande. A edição é da Presença, editora que tem a chancela de três títulos de David Machado, filho de Carlos Machado.
No interior deste «O Homem que viveu duas vezes» o leitor encontra dois livros – «O livro de Alcina», primeiro, e «O livro de Livro de João Hermínio», depois, cada um com 7 capítulos, o mesmo número da Criação, porque é criação, nas suas múltiplas aparições, que jorra das 289 páginas. Os livros, como dois capítulos ou dois caminhos de construção da identidade, apresentam as mesmas personagens, no mesmo espaço e tempo narrativo, porém com enredos divergentes e finais distintos, que, evidentemente, aqui não revelamos, tanto mais que ambos os livros têm espaço para o leitor tecer o seu enredo imaginativo e definir o final.
A acção decorre entre 1940 e 1975, na aldeia de Covelo, um lugarejo encravado entre o Gerês e Montalegre, vila esta onde o autor nasceu, em 1954, e onde escutou, desta a infância, “historietas” ancestrais, que agora esculpe na história maior do seu romance. Em Covelo a vida poderia parecer «constante e eterna», mas quem lá vivia sufocava dores e tentações que só um padre em corrupio tentava acalmar para que as almas não se perdessem, pois «locais como aqueles eram os preferidos do Diabo para atormentar gentes deste mundo».
É neste universo pejado de mistério humano, que Carlos Machado alimenta soberanamente parágrafo a parágrafo, que o leitor se embrenha, comandado por duas personagens: Alcina, professora de 45 anos, estimada por todos e João Hermínio que volta ao lugar 25 anos depois e após uma suposta ida para o Brasil para fazer fortuna.
O amor não consumado entre os dois antes dele partir deixou Alcina entregue à nostalgia, e a um «sentimento de fidelidade» que alimentou com um misto de amor e raiva por ele nunca ter dado notícias. João Hermínio, que tinha nas veias «o sangue do contrabando», herança do seu pai, regressa parecendo ele, mas parecendo diferente. Os ziguezagues da vida mudarão assim tanto as pessoas? E por que voltou João? Seria por essa coisa indefinida «das raízes, da terra», a crescer na alma com nome Saudade? Afinal, ele nunca esqueceu Alcina, revelam as cartas que ele lhe foi escrevendo durante a ausência, e que agora lhas entrega.
Mas por que razão lhas entrega ele se na última carta escreveu que elas chegarão às mãos de Alcina através de um mensageiro? «Só se deve buscar aquilo que tem a resposta que sabemos que nos agrada», ou devem enfrentar-se os medos mesmo que no ar paire o «cheiro de enxofre», ou a ameaça de trovoada? Será certamente cada um dos leitores a dar a resposta e a decidir a actuação. Este é um ardil de Carlos Machado com uma consequência clara: projectando-se nesta narrativa pela escolhas que faz, o leitor dificilmente a esquecerá. Não é esse o atributo da melhor literatura?
Extracto:
Desejou possuir Alcina numa vez derradeira e partir para sempre levando consigo apenas o perfume das flores do vestido e aquele cheiro a alfazema que desde o dia em que a encontrara no cemitério não mais o largara. Pensou como era injusta a vida que lhe trocava todas as voltas sem saber porquê. Repetidas vezes teve um arranco de contar tudo a Alcina, confessar-lhe quem era. Que João Hermínio não queria ser quem era, mas quem era abria-lhe de par em par o coração daquela mulher.
O Homem que viveu duas vezes, Carlos Machado; Editorial Presença, Lisboa 2007
A acção decorre entre 1940 e 1975, na aldeia de Covelo, um lugarejo encravado entre o Gerês e Montalegre, vila esta onde o autor nasceu, em 1954, e onde escutou, desta a infância, “historietas” ancestrais, que agora esculpe na história maior do seu romance. Em Covelo a vida poderia parecer «constante e eterna», mas quem lá vivia sufocava dores e tentações que só um padre em corrupio tentava acalmar para que as almas não se perdessem, pois «locais como aqueles eram os preferidos do Diabo para atormentar gentes deste mundo».
É neste universo pejado de mistério humano, que Carlos Machado alimenta soberanamente parágrafo a parágrafo, que o leitor se embrenha, comandado por duas personagens: Alcina, professora de 45 anos, estimada por todos e João Hermínio que volta ao lugar 25 anos depois e após uma suposta ida para o Brasil para fazer fortuna.
O amor não consumado entre os dois antes dele partir deixou Alcina entregue à nostalgia, e a um «sentimento de fidelidade» que alimentou com um misto de amor e raiva por ele nunca ter dado notícias. João Hermínio, que tinha nas veias «o sangue do contrabando», herança do seu pai, regressa parecendo ele, mas parecendo diferente. Os ziguezagues da vida mudarão assim tanto as pessoas? E por que voltou João? Seria por essa coisa indefinida «das raízes, da terra», a crescer na alma com nome Saudade? Afinal, ele nunca esqueceu Alcina, revelam as cartas que ele lhe foi escrevendo durante a ausência, e que agora lhas entrega.
Mas por que razão lhas entrega ele se na última carta escreveu que elas chegarão às mãos de Alcina através de um mensageiro? «Só se deve buscar aquilo que tem a resposta que sabemos que nos agrada», ou devem enfrentar-se os medos mesmo que no ar paire o «cheiro de enxofre», ou a ameaça de trovoada? Será certamente cada um dos leitores a dar a resposta e a decidir a actuação. Este é um ardil de Carlos Machado com uma consequência clara: projectando-se nesta narrativa pela escolhas que faz, o leitor dificilmente a esquecerá. Não é esse o atributo da melhor literatura?
Extracto:
Desejou possuir Alcina numa vez derradeira e partir para sempre levando consigo apenas o perfume das flores do vestido e aquele cheiro a alfazema que desde o dia em que a encontrara no cemitério não mais o largara. Pensou como era injusta a vida que lhe trocava todas as voltas sem saber porquê. Repetidas vezes teve um arranco de contar tudo a Alcina, confessar-lhe quem era. Que João Hermínio não queria ser quem era, mas quem era abria-lhe de par em par o coração daquela mulher.
O Homem que viveu duas vezes, Carlos Machado; Editorial Presença, Lisboa 2007
© Teresa Sá Couto
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Vinte e duas imagens da infância
Grande Prémio Camilo Castelo Branco para OndjakiOndjaki, pseudónimo literário de Ndalu de Almeida, autor de uma vasta obra que se desdobra em contos, romances e poesia, autor da magnífica história infantil «Ynari – a menina das cinco tranças», acaba de ser galardoado com o Grande Prémio de Conto "Camilo Castelo Branco" 2007 da Associação Portuguesa de Escritores (APE), pelo livro "Os da Minha Rua", já editado no Brasil (segunda capa na fotomontagem).
Se é certo que as crianças crescem em segredo, como diz Ana Paula Tavares, de vez em quando comprova-se que esse segredo espera uns anos para se desvendar amadurecido em literatura. Assim é o livro de estórias do jovem poeta e ficcionista angolano Ondjaki. Em Os da minha rua o autor reedifica os da sua casa: da memória, do afecto, da identidade.
Ondjaki regressa às pequenas estórias com Angola no batimento narrativo, agora ainda mais mágica, pois olhada pelos olhos da idade da inocência. «Escrevo para compreender. Compreender o quê? Tudo», disse José Saramago. Respondendo ao grito das raízes e desafiando o pó do tempo, o jovem poeta de Há Prendisajens com o Xão recria os ramos e os laços da infância para os fixar e compreender ou, segundo Manoel Barros, «um livro o ensinou a não saber nada – agora já sabe».
Se Ondjaki tatua a sua biografia nas 22 pequenas histórias, também homenageia a infância de cada um de nós projectando-nos nesse pedaço longínquo de um tempo que não conhecia os dias: «A vida às vezes é como um jogo brincando na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um familiar a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente (…) nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade.».
Cinco miúdos, Ndalu, o narrador, Tibas, o mais velho, Bruno Ferraz e Jika, o mais novo, constituem a equipa do tang que sonhava com coca-cola a ponto de dos seus olhos sair um brilho «tipo fósforo quase a acender a escuridão da varanda e a assustar os mosquitos». Com eles constroem-se quadros narrativos belíssimos, emotivos, sinestésicos, mas também críticos sociológica e politicamente: deles emerge Angola com os resquícios da guerra e a psicologia da esperança, uma jovem nação que está a aprender a viver como as crianças que a contam. Neste sentido, esta estratégia narrativa é uma originalidade literária que Ondjaki desenvolve soberanamente.
A nova nação pelos olhos das crianças
Com escrita depurada casada com a oralidade, reconstrói-se o universo da infância e o correr da vida em Luanda: a escola e os professores cubanos, brincadeiras e descobertas, festas em casa dos amigos e dos amigos dos familiares, atesta-se o convívio social de uma terra que se queria unida. Sobressai a ternura familiar, a da tia Rosa, mulher do tio Chico que tinha na sua casa «talvez a cerveja mais deliciosa de Luanda», que adivinhava os convivas pelo toque da campainha e logo a mesa se enchia «de copos de cerveja, aperitivos e sobras, quitetas, kitaba, camarões, chouriço, a televisão sempre ligada e pessoas de todas as cores que vinham beber dos barris de cerveja do tio Chico.».
Este princípio subtil de construção social e psicológica da cidade é uma constante nas estórias como a que narra a primeira vez que Ndalu viu televisão a cores, e o primeiro cinema, «A Grande Desforra» na tela e na descoberta:
A nova nação pelos olhos das crianças
Com escrita depurada casada com a oralidade, reconstrói-se o universo da infância e o correr da vida em Luanda: a escola e os professores cubanos, brincadeiras e descobertas, festas em casa dos amigos e dos amigos dos familiares, atesta-se o convívio social de uma terra que se queria unida. Sobressai a ternura familiar, a da tia Rosa, mulher do tio Chico que tinha na sua casa «talvez a cerveja mais deliciosa de Luanda», que adivinhava os convivas pelo toque da campainha e logo a mesa se enchia «de copos de cerveja, aperitivos e sobras, quitetas, kitaba, camarões, chouriço, a televisão sempre ligada e pessoas de todas as cores que vinham beber dos barris de cerveja do tio Chico.».
Este princípio subtil de construção social e psicológica da cidade é uma constante nas estórias como a que narra a primeira vez que Ndalu viu televisão a cores, e o primeiro cinema, «A Grande Desforra» na tela e na descoberta:
«Chamava-se "Cine Atlântico" e era a maior sala com a maior quantidade de cadeiras e uma tanta gente a fazer barulho que nunca mais o filme começava. Eu olhava aquele mundo todo novo: o cinema sem paredes de lado, as árvores e as andorinhas, umas poucas nuvens no céu bem escuro de quase-noite, e a tela toda branca se acendeu de luz brilhante antes mesmo de as luzes se apagarem e aquela toda gente fazer um silêncio de espera e logo depois assobiar forte para a fuga geral dos passarinhos quando todos começarem a gritar "Jerri Quan!, Jerri Quan!". Bateram palmas e eu também..».
Também o olhar político surge puro, e, talvez por isso mesmo, assertivo, ao narrar-se o dia do comício do 1º de Maio e o discurso do chefe da nova pátria dirigido aos «Pioneiros de Agostinho Neto, na construção do socialismo»: «Na tribuna, bem lá em cima, estava o camarada presidente, duma camisa azul-clara e um lenço branco a fazer adeus aos pioneiros que passavam. Às vezes penso que o camarada presidente, lá em cima e tão longe, não devia ver o povo muito bem.».
A par desses olhares ao largo surge, encantatória, a descoberta do amor num tempo em que «o vento voava devagar» e «as folhas da figueira faziam um ruído que era mais um segredo que barulho»:
Também o olhar político surge puro, e, talvez por isso mesmo, assertivo, ao narrar-se o dia do comício do 1º de Maio e o discurso do chefe da nova pátria dirigido aos «Pioneiros de Agostinho Neto, na construção do socialismo»: «Na tribuna, bem lá em cima, estava o camarada presidente, duma camisa azul-clara e um lenço branco a fazer adeus aos pioneiros que passavam. Às vezes penso que o camarada presidente, lá em cima e tão longe, não devia ver o povo muito bem.».
A par desses olhares ao largo surge, encantatória, a descoberta do amor num tempo em que «o vento voava devagar» e «as folhas da figueira faziam um ruído que era mais um segredo que barulho»:
«um dia, ao fim da tarde, o sol estava muito bonito assim todo amarelo quase bem torrado. O meu pai tinha ido à caça com o primo Beto e o primo Zequinha também. A mana Tchi estava a descansar e a minha mãe a ler. Eu perguntei à Micaela se ela queria dar uma volta comigo ali pela quinta. Ela disse que sim. Mas a volta foi muito rápida, e eu perguntei se ela queria dar outra volta. Ela riu e disse que sim. Como não queríamos dar outra volta, sentámo-nos numas pedras mais distantes da casa e eu tinha muita vergonha mas também, muita vontade de lhe perguntar se ela queria namorar comigo. E ela disse que sim. Então, talvez para comemorar, demos mais duas voltas à casa, mas já de mãos dadas.».
A perda e a luz
Diz-nos o texto:
A perda e a luz
Diz-nos o texto:
(…)o abacateiro estremeceu como se fosse a última vez que eu ia olhar para ele e pensar que ele se mexia para me dizer certos segredos, não sei o que o abacateiro me disse, não soube mais entender e pode ter sido nesse momento que no corpo de criança um adulto começou a querer aparecer, não sei, há coisas que é preciso ir perguntar aos galhos de um abacateiro velho(…);
(…)na minha cabeça eu sempre escondia este pensamento: as despedidas têm cheiro. E não é cheiro bom tipo chá-de-caxinde, ou as plantas a darem ares duma primeira respiração na frescura da manhã, entre silêncios e cacimbos molhados. Não. Despedida tem cheiro de amizade cinzenta. Nem sei bem o que isso é, nem quero saber, não gosto mesmo de despedidas.
Com este livro, Ondjaki, com os seus 31 anos de idade, prova-nos que a infância nem sempre se perde, que é «um ponto cardeal eternamente possível», e que a escrita é um mapa da luz.
Os da Minha Rua, Ondjaki; Editorial Caminho, Lisboa, Março 2007
(…)na minha cabeça eu sempre escondia este pensamento: as despedidas têm cheiro. E não é cheiro bom tipo chá-de-caxinde, ou as plantas a darem ares duma primeira respiração na frescura da manhã, entre silêncios e cacimbos molhados. Não. Despedida tem cheiro de amizade cinzenta. Nem sei bem o que isso é, nem quero saber, não gosto mesmo de despedidas.
Com este livro, Ondjaki, com os seus 31 anos de idade, prova-nos que a infância nem sempre se perde, que é «um ponto cardeal eternamente possível», e que a escrita é um mapa da luz.
Os da Minha Rua, Ondjaki; Editorial Caminho, Lisboa, Março 2007
© Teresa Sá Couto
domingo, 8 de junho de 2008
Estado português condecora o poeta Albano Martins

O poeta e professor universitário Albano Martins, nascido na Aldeia do Telhado, Fundão, em 1930, será condecorado pelo Presidente da República, no próximo dia 10 de Junho, Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. O livro recente do autor, lançado dia 7 de Junho, na Feira do Livro do Porto, dirige-se às crianças. É esse livro que aqui sugiro num artigo, ressalvando a obrigatoriedade de nos determos na sua obra poética, a sua dedicação às letras de toda a vida. Albano Martins nasceu em 1930, na Aldeia do Telhado, Fundão. Foi agraciado pelo Governo da República do Chile com a Ordem de Mérito Docente e Cultural Gabriela Mistral no Grau de Grande Oficial, pela sua obra poética e pelo seu trabalho de tradução de Pablo Neruda. Foi distinguido com a Medalha de Ouro da Cidade do Fundão, em 2006. Esta condecoração do Dia de Portugal enche-nos de orgulho: pelo poeta e pelo país o reconhecer!
Palavras maiores para gente de palmo e meio
Decorridos cinquenta e sete anos a escutar o silêncio das palavras, para no-lo dar repleto de música, Albano Martins, o poeta nascido no chão beirão de vívidas cerejas, surpreende-nos com uma história dedicada aos miúdos.
Titulada «Uma casa à beira da floresta», a narrativa espraia-se num pequeno livro rectangular, com cerca de um palmo e meio, em mão pequena, a relembrar-nos que todos somos pequenos, mas com o poder de um grande abraço. São puras, as palavras, cristalinas, depuradas, luminosas e sanguíneas, como ele nos habituou. Tal como as ilustrações de Simona Traina, mais uma companheira na caminhada das palavras de Albano, nova cúmplice da imensa casa construída pelo nosso poeta, agora ainda mais inteira porque tem dentro dela todas as crianças reunidas em torno de uma lição: «que o bem-estar, o conforto e a felicidade não são uma conquista fácil, que os caminhos da vida estão armadilhados e que é necessário estar atento aos humores da fortuna.».
O livro traz-nos uma história de bichos na odisseia da sobrevivência. Uma fábula, em prosa poética ou, como a caracteriza Albano Martins: uma «fábula esopiana, se quiserem –, mas fábulas, se me permitem, são, no genuíno sentido do termo, todos os poemas que escrevi».
No centro da narrativa, a rã Margarida com a sua família harmoniosa que habita num «pequeno charco à beira da floresta», casa exígua, mas capaz de acolher outros amigos, «seres miudinhos» como os girinos, minhocas, «minúsculos peixes de água doce» ou salamandras, e reconfortar quem por lá passa na azáfama da jornada existencial, como a cobra Lucinda, libélulas, alfaiates ou joaninhas.
Repleta de vida, a narrativa convoca todos os sons, cores e movimentos, num apelo aos sentidos dos miúdos leitores, incentivando o imaginário de cada petiz. Assim: «Ao longe, as cigarras desfiavam o seu canto rouco. Os melros, cobertos de tinta preta, rasgavam, em voos rápidos, a atmosfera envolvente e perdiam-se, lá adiante, na folhagem dos salgueiros e amieiros das margens da ribeira. Mais para lá, um cuco dava sinal de si e percutia o ar com as suas vogais escuras».
Criado este mundo de afecto em íntimo diálogo com a imaginação e afectividade infantis, é hora para outras lições, também puras, mas em voo para o futuro; e, se as ilustrações da italiana Simona Traina, que vive actualmente na Sicília – que tem editados vários livros em Portugal –, ostentam maioritariamente as cores frias do charco, onde os animais vivem, em nota pictórica do carrego da vida custosa, também fazem sobressair o coração amarelo dos malmequeres, adornado pelos dedos brancos da paz a acolherem todos para o afago do seu interior.
Com notícias de outro espaço mais amplo, uma barragem a norte, a família de Margarida parte impelida pelo sonho de uma vida melhor. Mas o novo espaço, atingido com sacrifício, após uma viagem penosa feita debaixo de um sol abrasador, tem outro bicho: o predador homem, que, todo-poderoso, se apinha nas margens do grande lago, compartimenta o lugar, e que rapidamente descobre nas pernas de rã uma iguaria para o paladar. Assim, aquele novo espelho de água espelha uma grande verdade em grito de alerta: a necessidade de meditação dos pequenos e indefesos para se «protegerem contra as acções dos poderosos, sempre prontos a espezinhar os fracos e os humildes.».
Com este texto de leitura para todas as idades, e partilha geracional, Albano Martins escreve a torrente líquida primordial que constitui o ser humano, a qual, incautos, temos vindo a envenenar: a torrente do respeito ambiental, da estima por todos os seres vivos, da partilha e da solidariedade. Só assim se mantém a grande casa comum. Afinal, este é o imperativo de sobrevivência de todas as espécies, incluindo, a espécie humana.
Uma Casa à Beira da Floresta, Albano Martins (texto) e Simona Traina (ilustrações); Editorial Campo das Letras, Porto, Maio 2008
© Teresa Sá Couto
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Albano Martins,
Literatura infantil
terça-feira, 27 de maio de 2008
Prémio para «O Padre António Vieira e as Mulheres»
O gáudio da leitura numa excelsa monografiaEm plenas comemorações dos 400 anos do nascimento do Padre António Vieira, surge-nos um livro soberbo que inquire, minudente, 47 sermões vieirinhos, no encalço do universo feminino dos séculos XVII/XVIII: «O Padre António Vieira e as mulheres» de José Eduardo Franco e Maria Isabel Morán Cabanas, que acaba de arrecadar o Prémio SHIP – Monografia 2008, instituído pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal, com o valor pecuniário de €1.250,00 e um troféu representativo da SHIP. Confiro que é um justíssimo prémio para um documento essencial da História das Mentalidades, acrescido de um incomensurável prazer de leitura.
Bem organizado, permitindo uma consulta eficaz, o livro explana o estudo sobre o mito barroco do universo feminino – mas também apresenta uma esplendorosa e vasta incursão pela psicologia do homem de Seiscentos – em 5 grandes capítulos que, por sua vez, se organizam em subcapítulos e estes em alíneas. Ao todo, são 233 páginas de investigação rigorosa e profusamente documentada, marcada pela paixão com que foi feita pelos autores, paixão que contamina o leitor a ponto de a eleger como uma das mais singulares obras, porquanto alia o saber ao infinito gáudio provocado a quem o recebe.
Não quis o Autor da natureza que a mulher se contasse entre os bens móveis. O edifício não se move do lugar onde o puseram; e assim deve ser a mulher; tão amiga de estar em casa, como se a mulher e a casa foram a mesma coisa. Assim ordenava sobre as mulheres, com postura misógina, o incansável Padre António Vieira, na sua rejubilante, teatral e moralista parenética, deixando-nos para a eternidade registos sobre a condição da mulher no seiscentismo, que nos instigam à reflexão sobre a psicologia machista, revelada em palavras, motejos e actos, que persiste neste século XXI.
Maria, a redentora e Eva, a pecadora
Dissecando o sermonário vieirense, a presente monografia mostra-nos que no mundo androcêntrico de Vieira, «a mulher é construída como um ser capaz do melhor e do pior». Por um lado, Maria, a redentora, por quem o jesuíta tem extrema devoção, a utopia, o exemplo espiritual para todas as mulheres; por outro, Eva, «a mãe de todos os viventes», a tentadora, a pecadora, a que desobedeceu a Deus e arrastou consigo o homem, a responsável por ter aberto a «porta do mal na história da humanidade». É nesta dicotomia mariana e eviana, o positivo e o negativo, que Vieira, munindo-se dum «rico e variado elenco de mulheres», aborda o universo feminino, empenhado na persuasão dos ouvintes/leitores, para salgar a terra, eliminando-lhes os vícios.
Na caracterização do universo feminino, anotando-se a segregação da mulher, Vieira aponta-lhes um rol interminável de vícios que, por serem observados nos costumes, mostram-nos a insurreição das mulheres que ousavam certas liberdades numa sociedade que as agrilhoava. Assim surge a acusação ao carácter movediço das mulheres, que Vieira aponta como a sua natureza itinerante que dá azo à tentação, «o gosto de sair», de «andar mais fora do lar do que dentro, encontrando-se aí a causa da sua perdição e da perdição dos homens, pois acerca da mulher cabe dizer que é “tão vagabunda nos olhos como nos passos”».
Defendendo o «recolhimento» ou a «domesticação» da mulher, Vieira apela a que elas sejam submetidas a intensa vigilância, mesmo nas suas idas à igreja por utilizarem o terço «como “terceiro” dos sacrilégios»; intenta-se contra a argúcia feminina que cria «pretextos para sair e enganar os maridos», pois as mulheres são «mestras no pecado da hipocrisia e na procura de artimanhas que sirvam para satisfazer os seus prazeres pessoais», dizendo-o Vieira desta maneira: «Quantas vezes a mulher faz um voto para cumprir na igreja e acaba por encontrar um devoto».
Dissecando o sermonário vieirense, a presente monografia mostra-nos que no mundo androcêntrico de Vieira, «a mulher é construída como um ser capaz do melhor e do pior». Por um lado, Maria, a redentora, por quem o jesuíta tem extrema devoção, a utopia, o exemplo espiritual para todas as mulheres; por outro, Eva, «a mãe de todos os viventes», a tentadora, a pecadora, a que desobedeceu a Deus e arrastou consigo o homem, a responsável por ter aberto a «porta do mal na história da humanidade». É nesta dicotomia mariana e eviana, o positivo e o negativo, que Vieira, munindo-se dum «rico e variado elenco de mulheres», aborda o universo feminino, empenhado na persuasão dos ouvintes/leitores, para salgar a terra, eliminando-lhes os vícios.
Na caracterização do universo feminino, anotando-se a segregação da mulher, Vieira aponta-lhes um rol interminável de vícios que, por serem observados nos costumes, mostram-nos a insurreição das mulheres que ousavam certas liberdades numa sociedade que as agrilhoava. Assim surge a acusação ao carácter movediço das mulheres, que Vieira aponta como a sua natureza itinerante que dá azo à tentação, «o gosto de sair», de «andar mais fora do lar do que dentro, encontrando-se aí a causa da sua perdição e da perdição dos homens, pois acerca da mulher cabe dizer que é “tão vagabunda nos olhos como nos passos”».
Defendendo o «recolhimento» ou a «domesticação» da mulher, Vieira apela a que elas sejam submetidas a intensa vigilância, mesmo nas suas idas à igreja por utilizarem o terço «como “terceiro” dos sacrilégios»; intenta-se contra a argúcia feminina que cria «pretextos para sair e enganar os maridos», pois as mulheres são «mestras no pecado da hipocrisia e na procura de artimanhas que sirvam para satisfazer os seus prazeres pessoais», dizendo-o Vieira desta maneira: «Quantas vezes a mulher faz um voto para cumprir na igreja e acaba por encontrar um devoto».
No retrato social da época aparecem mimos como este, tirados de Vieira:
«os juízes não admitem as mulheres quando acusam o seu marido de adultério, dizem os juízes que não as admitem porque (…) “vendem a suspeita por coisa certa”. Mas eu penso que não se admitem porque, sendo inúmeros os maridos adúlteros, todos os juízes estariam ocupados em dar sentença contra eles e quando são muitos os que cometem o delito costumam dissimular o castigo as leis humanas para não assolar os povos.»
Com a mesma agudeza retórica, o jesuíta mostra-nos possuir uma espantosa sabedoria da psicologia feminina ao apontar-lhes muitas comportamentos indecorosos, fruto de um carácter perverso, encontrados no viver quotidiano, como o «apetite desmedido», a ambição, a curiosidade, a vaidade, o egoísmo, entre outros, todos apetites para a leitura desta monografia.
«os juízes não admitem as mulheres quando acusam o seu marido de adultério, dizem os juízes que não as admitem porque (…) “vendem a suspeita por coisa certa”. Mas eu penso que não se admitem porque, sendo inúmeros os maridos adúlteros, todos os juízes estariam ocupados em dar sentença contra eles e quando são muitos os que cometem o delito costumam dissimular o castigo as leis humanas para não assolar os povos.»
Com a mesma agudeza retórica, o jesuíta mostra-nos possuir uma espantosa sabedoria da psicologia feminina ao apontar-lhes muitas comportamentos indecorosos, fruto de um carácter perverso, encontrados no viver quotidiano, como o «apetite desmedido», a ambição, a curiosidade, a vaidade, o egoísmo, entre outros, todos apetites para a leitura desta monografia.
Nota sobre os autores:
José Eduardo Franco é historiador, doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris em "História e Civilização". Tem uma vasta obra de investigação, e é considerado um dos maiores especialistas portugueses sobre a História dos Jesuítas. Actualmente é Presidente da Direcção do Instituto Europeu de Ciências da Cultura P. Manuel Antunes.
Maria Isabel Morán Cabanas é Professora Titular da Faculdade de Filologia da Universidade de Santiago de Compostela, onde lecciona na licenciatura e em cursos de doutoramento e tem inúmeros trabalhos publicados na área da história e crítica da literatura portuguesa e fez a sua tese de doutoramento sobre o "Cancioneiro Geral" de Garcia de Resende. É membro do Graall (Grupo de Análise de Aspectos Linguístico-literários na Lusofonia), da Universidade de Santiago de Compostela.
O Padre António Vieira e as Mulheres – O mito barroco do universo feminino, José Eduardo Franco e Maria Isabel Morán Cabanas; Editorial Campo das Letras, Porto, 2008
© Teresa Sá Couto
José Eduardo Franco é historiador, doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris em "História e Civilização". Tem uma vasta obra de investigação, e é considerado um dos maiores especialistas portugueses sobre a História dos Jesuítas. Actualmente é Presidente da Direcção do Instituto Europeu de Ciências da Cultura P. Manuel Antunes.
Maria Isabel Morán Cabanas é Professora Titular da Faculdade de Filologia da Universidade de Santiago de Compostela, onde lecciona na licenciatura e em cursos de doutoramento e tem inúmeros trabalhos publicados na área da história e crítica da literatura portuguesa e fez a sua tese de doutoramento sobre o "Cancioneiro Geral" de Garcia de Resende. É membro do Graall (Grupo de Análise de Aspectos Linguístico-literários na Lusofonia), da Universidade de Santiago de Compostela.
O Padre António Vieira e as Mulheres – O mito barroco do universo feminino, José Eduardo Franco e Maria Isabel Morán Cabanas; Editorial Campo das Letras, Porto, 2008
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