sábado, 20 de setembro de 2008

A blasfémia de Leninegrado

Corria o ano de 1941 e o füher decidia que Leninegrado seria varrida da face da Terra. Com os finlandeses a norte e os alemães a oeste e sul, a cidade morria de fome e frio, lenta e lancinante. De 3,5 milhões de habitantes, sobreviveram 600 mil.

Em «O Cerco», Helen Dunmore pega na frieza da História, enche-a com o sangue, a miséria, o medo, o ódio, o amor e a solidariedade de quem a viveu, e solta a reflexão sobre a condição humana. Cavada no interior da segunda Guerra Mundial, a narrativa erige o tormento humano na luta contra a própria desintegração e o mistério da sobrevivência, durante os três terríficos anos do Cerco a Leninegrado.É também uma história sobre a abnegação e coragem das mulheres que, guardiãs da vida, lutam contra a blasfémia e o aviltamento humanos. Que as palavras sejam, pois, um monumento à memória, a juntarem-se ao Memorial erguido na cidade mártir e à «Sinfonia de Leninegrado» do compositor Chostakovitch.

Anna tem 23 anos e é a heroína desta narrativa, representando a força feminina em tempos de todos os limites. É ela que leva o leitor – primeiro na azáfama com que pedala na sua bicicleta, entre o trabalho num infantário da cidade, o cultivo das leiras, o apoio ao pai e ao irmão Kolya, de cinco anos, depois nas filas de racionamento, faminta e exangue, para sustentar a família – a testemunhar inquietantemente a desdita de um povo subjugado às mãos no nazismo. A palavra é a um mesmo tempo crua e emotiva deixando-nos envergonhados pela barbárie de que o ser humano é capaz. Em quadros literariamente fortíssimos, escorre o estertor psicológico das populações em fuga:

- a debandada, «como as formigas quando se esgravata com um pau no formigueiro»: «Por que motivo alguém revolve o formigueiro com o pau, não sabemos, mas as nossas vidas e as nossas casas ficam viradas do avesso na mesma. É esse o significado da guerra: caos e enganos, e fazer coisas sem compreender porque as fazemos»;

- a devastação: «em toda a parte sente-se o cheiro a queimado; um fumo espesso, acre, sebento, desliza perto do chão, engolindo as pessoas. Casas de madeira estão a arder, ou porque foram bombardeadas, ou porque os donos lhes deitaram fogo quando fugiram. De alguma forma, lá no fundo, eles lembraram-se de que é isso que tem de fazer. Bate em retirada se tiver de ser, mas não deixes mais do que cinzas ao inimigo. Não lhes deixes comida, nem tecto.»;

- a destruição, também, dos campos, com Anna,munida da mesma decisão com que plantou a arrancar todas as plantas: «torce-as até soltar as raízes e atira-as para o caminho. Cebolas boas, cheias de vitaminas», «tira-os da terra. Tudo, todos aqueles alimentos, arrancados da terra revolvida. Seja qual for o invasor, não encontrará nada. A terra não o alimentará»; «quem alguma vez haveria de pensar que as pessoas teriam medo da lua? Agora chamam-lhe a lua dos bombardeamentos, porque é para isso que serve. Mas sempre foi uma lua de colheitas. Numa noite como esta podes trabalhar no campo como se fosse de dia».

Irrompem, ainda, quadros de mulheres onde se pode sentir-lhes «o suor do trabalho e o cheiro acre e forte do medo», juntas a dezenas de milhar a cavar as trincheiras do Luga, «cavam para escapar à morte». Depois, o colapso das trincheiras e o horror em Leninegrado, com ruas e parques apinhados de mortos pela fome e frio, sem que ninguém os recolha. Nesta luta desigual, a família de Anna ferve tudo o que possa ter nutrientes, como pedaços de couro ou cartão, para fazer sopa.

A explicação do Inferno
Com Anna, a única ainda com forças para ir à padaria buscar a ração da qual depende a família, a narrativa mostra o heroísmo da sobrevivência, o milagre de se estar vivo mais um dia. Diz-nos o texto:

«Anna prepara-se para a caminhada diária até à padaria com o mesmo cuidado que uma maratonista. Come o quarto de fatia de pão que guardou da ração e enfia no bolso outro quarto para comer no caso de se sentir tonta. Bebe um copo de água quente com uma pitada de sal. (…) Nem o pão nem as senhas de racionamento são visíveis quando ela regressa a casa pelas ruas geladas. A luz já está a desaparecer. A geada endurece e a ponta da bengala escorrega no gelo. Anna endireita-se, respirando com dificuldade. O suor escorre-lhe pelo corpo, e a ração de pão anda aos encontrões por baixo do sobretudo. Não pode deixar-se cair. Eles estão à espera dela contando os minutos que faltam para o seu regresso.» ;

«Hoje de manhã, no caminho para a padaria, deu consigo encostada a um muro, apoiando-se com a testa. O frio da pedra começava já a entrar-lhe no cérebro, acomodando-se e dizendo descansa, descansa até o frio se tornar quente e te adormecer. O silêncio da cidade envolveu-a, camada após camada. A cidade põe-lhe a mão nos lábios. Escuta. Não vês que estamos todos a dormir? Para quê esfalfares-te nesta luta, se tu também podes repousar? Vem cá. Deita-te.
Mas ela esmagou uma mão-cheia de neve, esfregando-a nos pulsos até deixar de ouvir a voz. Enganou-se a si mesma dizendo que andaria apenas dez passos e depois descansaria. Contou os passos como costumava dizer a Kolya. Um, dois, três, quatro…Quando chegou aos dez, não parou; contou mais dez passos, depois outros tantos, até chegar à padaria
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«Casa. É assim que ambos a chamam agora. A casa não é o apartamento, ou a sala aquecida pelo burzhuika. É o colchão onde de noite se enroscam, com Kolya respirando ao lado deles. Não se beijam. Ela não suspira nem pressiona o seu corpo contra o dele. Já não se desejam. (..) Ficam encostados um ao outro, encolhidos, quietos. A formação de Andrei, (médico) diz-lhe que isto acontece porque os seus corpos esfomeados se fecharam para sobreviver. Os corpos sabem mais do que eles. Se ela não estivesse ali, será que ele conseguiria dormir?».

O Cerco, Helen Dunmore, Editorial Campo das Letras, Porto, 2007

© Teresa Sá Couto

domingo, 14 de setembro de 2008

«Poemas de Deus e do Diabo» nos 107 anos do nascimento de José Régio

José Régio, pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, nasceu a 17 de Setembro de 1901, em Vila do Conde. Sobre o seu nascimento, diria: «Quando eu nasci, / ficou tudo como estava, / Nem homens cortaram veias, / nem o Sol escureceu, / nem houve Estrelas a mais... /Somente, / esquecida das dores, / a minha Mãe sorriu e agradeceu.».
Em 1925, ano em que Kafka publica «O Processo», e um ano antes de ser instaurada a censura em Portugal, Régio tinha concluído o seu primeiro livro: «Poemas de Deus e do Diabo». Começava o seu processo de luta singular com Deus, fazendo da palavra a arma estrídula, com que negou o silêncio da resignação. Enganou-se, porém, quando falou do seu nascimento. Não se enganou a sua mãe: com ele nasceu uma estrela imperecível que continua a iluminar a Literatura – Cultura e alma portuguesas.
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Dialogar com Deus através de Lúcifer
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David Mourão-Ferreira diz que «Régio recorre a Deus quando “incompreendido e escorraçado”. Recorre, portanto, por orgulho – e, sendo como é o orgulho uma característica eminentemente diabólica, Régio dialoga com Deus através de Lúcifer. Esta será, talvez, uma das maiores originalidades da sua poesia, a mais inquietante e a mais fecunda.».
Eduardo Lourenço defende que o verdadeiro interlocutor de Régio é o seu duplo, um sósia real: o diálogo com Deus e o Diabo é «um monólogo transparente entre Régio e Régio».
Por outro lado, o próprio José Régio, em «O Jogo da Cabra Cega», dá-nos razões do seu processo e da sua clarividência: «Vi que, ao longo dos meandros da minha corrupção e fraqueza de homem, transportava intacta a minha até então mal conhecida, mas nunca ausente, necessidade de qualquer coisa que me ultrapassasse… Assim, através do conhecimento de mim, se me revelava a humanidade. E assim se me revelou Deus!».
Com efeito, a poesia de Régio, um dos fundadores da revista Presença (1927) e o seu principal animador, desenrola-se criticamente na relação do Eu com a existência e com a existência de Deus no Eu. A relação com os outros, os que lhe volvem a cara, «Uma só cara uníssona de todas – / Com sua simples expressão ignara» é de desencanto e lastimosa constatação. A tristeza que daí advém não é, no entanto, um sentimento mole, antes vibrante porque enraivecido.
Sobre a Amizade, o sujeito assume-se desenganado. Isso deixa-o triste e despeitado, com os outros e consigo. Defende que os amigos não se perdem, todavia perdem-se. Logo, se assim é, há que aceitar que não havia amizade. Os que acreditam nela, são «patetas felizes» que «Ainda podem ter enganos, / E tristes desenganos». Conclui-se que o ser humano é débil gente que, por medo da solidão se enreda no embuste: «Nós julgamos perder / Mal se nos abre a mão; Mal a fechamos que julgamos ter. / Somos bem débil gente! / Dificilmente / Podemos encarar a nossa solidão; ou ver que só perdemos / O que jamais tivemos.».
No poema explana-se o cansaço e a frustração existencial, porém com a energia do inconformismo. Ser com nenhuns abrigos, apenas com a imensidão que Deus lhe abriu no seio, o poeta exangue, lança a tudo e a todos um longo e veemente Adeus: «Pois bem, adeus! – respondo, enfim cansado – / Tu, que até para negar-me, / Me pedes emprestado / O teu sinal de alarme, /Tu, cuja boca bruta / Nem acusar-me saberia, / Mas que eu fui descobrir, e abrir, como uma gruta / Que, tapada por terra, oculta havia, / Tu nem mereces que eu procure a mão / Que apertarei, mas só a sós comigo, / Sob o mantéu real daquela solidão / a que me condenou teu vesgo olho antigo…// Adeus, adeus, velhos amigos! / Adeus, jovens amigos! Velhos, jovens, todos…Creio / Que o poeta não tem nenhuns abrigos / Senão a imensidão que Deus lhe abriu no seio.».
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Numa Poesia pungentemente humana, é frequente o apelo de Régio ao afago da fraternidade: «Às vezes, quando o ar parece que me foge, / Me falta Deus, ou espanta a nossa condição, / Como os fiéis de outrora, a seus pés, hoje / Dobro o joelho trémulo no chão. / Nem restos de orações lhe rezo. /Espero no silêncio e na opressão, curvado, / Que Jesus Cristo ao seu madeiro preso / Tenha dó de mais um crucificado
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As palavras feitas asas da denúncia
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A expressão escrita veicula o combate pela vida feito pelo Eu poético, é reserva de ar certa que se busca quando a vida o rarefaz. O mal da sua vida surge ditado, derramado no papel, «a pena tinta em fel», atirado de novo para o mundo, «Em que entro imundo, e me levanto puro!».
As palavras são o grito que atesta a angústia, a revolva, a procura do conhecimento de si, o voo da razão da sua existência: «E as minhas asas, – deu-mas / a minha falta de ar / naquela insustentável posição / De inutilmente mendigar / o meu direito ao meu quinhão: / Vinho para me embriagar! / Para me sustentar, frutos e pão. / As minhas asas, – deu-mas / o sinistro clarão que em mim se fez / (Mal eu passava de menino…) / E a cuja luz li todo o meu feroz destino / Pela primeira vez. / (…) / As minhas asas, – deu-mas / A incompreensão inconsciente / De que me vi murado; O amor incompetente / Frustradamente dado (…) E o meu desejo insatisfeito, / De insatisfeito, inchou até aos céus. / Já Tu, meu Deus, / Cravaste o Teu pendão na terra do meu peito.».
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Na complexidade trágica do ser humano há ainda que contar com uma existência que tem que ser talhada única e exclusivamente pelo próprio. Seguir e não seguir ninguém é uma assunção de liberdade, mas também uma solidão na caminhada.
A um jovem poeta ou a outra qualquer forma de vida, diz Régio:
«Que pode, a ti, servir-te o que aprendi por mim? / Que darei eu do que ninguém me deu? / Chegar, nunca se chega! Mas, se há fim, / Cada qual ganhe o seu. // Porque tu é que és tudo! A terra a cultivar, / A mão cultivadora, o arado da cultura, / O grão a semear, / O próprio fruto, – grão da mão futura. / Pois lavra-te, és o chão! Emprega-te, és o braço! / Semeia-te, és o grão! / Floresce, frutifica, extingue-te! E, no espaço, / Pode, amanhã, nascer mais uma ideal constelação…».
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Bibliografia consultada: José Régio, Obra Completa – Poesia I e Poesia II, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa
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nota: texto originalmente editado no site Triplov

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Novo grito azul de Ondjaki

O «antigamente é um lugar» que habita no peito aberto da escrita de Ondjaki. Depois de «Os da Minha Rua», Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco 2007, livro com 22 contos assumidamente autobiográficos, que recriam a infância colorida em Angola, o escritor angolano surge com o romance AvóDezanove e o Segredo do Soviético, também editado pela Caminho, para nos mostrar que «as lembranças são cócegas invisíveis que ficam dentro das pessoas».
Fez bem, Ondjaki, autor também do documentário «Oxalá cresçam pitangas», sobre a vida em Luanda, em retomar o tema da infância passada naquela cidade, pois confirma-se que os gritos azuis das crianças irmãs dos pássaros cabiam em mais um tomo. É a memória e os seus afectos, transformada em tópico irradiante de sentido, e os seus efeitos no escritor e na criação literária que AvóDezanove e o Segredo do Soviético transporta. «O inchaço do coração /facilita o despalavrear. /a liberdade pode advir /de uma veia», escreveu Ondjaki no seu livro de poesia «Há Prendisajens com o Xão», em versos que ressoam fortíssimos nesta nova narrativa.

«Convoco memórias distorcidas para inventar estórias, exerço o direito de atribuir falas aos sonhos», diz o autor, na correspondência trocada com a poeta angolana Ana Paula Tavares, incluída no final do livro. Com engenhosos processos de operacionalização da memória, Ondjaki liga a vivência à palavra, funde a realidade na ficção, reconstrói o passado no presente, e trata a memória com linguagem política, porquanto resgata o «tempo dos tugas», em memórias transmitidas pelos mais velhos às crianças, detém-se na Angola livre que procura o seu caminho, promete levá-la para o futuro.

Assim surgem as figuras reais de familiares, amigos e vizinhos, encenadas na linguagem literária, em interacção com figuras inventadas. Os mesmos processos erigem lugares, soltam situações, descrevem atmosferas e contaminam os fios mais ínfimos, conferindo uma admirável coesão à narrativa; é o caso dos nomes das personagens, reelaborados no significado e significante: porque em Angola não se gosta de nomes feios, surge a AvóAgnette, mulher terna e decidida, mais conhecida por AvóDezanove por lhe ter sido amputado um dedo do pé; a AvóCatarina, para quem «o futuro está cheio de coisas difíceis a acontecerem de modo cada vez diferente» e que, por isso, gostava mais de «adivinhar o passado»; o EspumaDoMar, «camarada maluco» que teria ou não um jacaré no quintal, na casota do cão; a prestável vizinha DonaLibânia; o camarada VendedorDeGasolina; o VelhoPescador com a sua canoa BarcoÍris e «mãos antigas» que «desfaziam, com toda a paciência do mundo, os nós bem difíceis que as redes tinham». Também a predominância do tempo verbal no Pretérito Imperfeito marca o relato de um passado que se quer contínuo.

A palavra onde os sonhos acontecem

Na acção central está o sonho das crianças fazerem explodir – ou «desplodir», palavra que inventam por ser «mais uma palavra de rebentar mesmo, explodir parece uma chama devagarinho» – as obras do Mausoléu do «camarada presidente» Agostinho Neto, levadas a cabo pelos soviéticos. É a revolução dos miúdos da PraiaDoBispo com o direito de participarem na euforia da jovem nação liberta do colonialismo português, mas “ocupada” por novos estrangeiros; é a rebelião pela defesa do que é seu, das suas casas e espaços de brincadeira no poeirento Bairro Azul. É um sonho concretizado na literatura, já que o Mausoléu está lá, e as casas nem foram demolidas, esclarece Ondjaki na já referida correspondência.

O movimento narrativo é veloz, na peugada do movimento das crianças da PraiaDoBispo, com os nomes que já encontrámos no livro Os da Minha Rua – o Pi, chamado de 3,14, a Charlita com os óculos grossos que dividia com as irmãs na hora da telenovela para todas verem bem, o Gadinho, o Paulinho, o Ndalu, que é o narrador – de Ndalu de Almeida, nome verdadeiro de Ondjaki. Todos, sempre «a correr, cada um na direcção dos pontos cardeais da sua missão», com pausas para a festa do matabicho ou matabichar a correr para voltar à sua missão: ouvir o som bonito que o vento fazia «a passar de voo com curva nas árvores do quintal da AvóDezanove, figueira antiga, goiabeira, mangueira, árvore de sape-sape, arbustos, mamoeiro, pintangueira»; apanhar goiabas e mangas pelos caminhos; rir «gargalhadas redondas que quase se viam desenhadas no ar»; correr «sem os fios dos papagaios a prenderem uns nos outros – como os nós malucos na rede do camarada VelhoPescador»; bater «forte com os pés na areia para levantar a poeira»; «adivinhar barulhos»; «ficar muito quieto, tentar respirar devagarinho e de olhos bem fechados, para escutar, do outro lado dos buraquinhos do pequeno muro, o barulho das lesmas nas pedras do jardim ou a subir as folhas largas que pareciam estradas enormes para as lesmas treparem»; viver ao ritmo das grandes coboiadas com «bangue-bangue», como no «A Grande Desforra», filme mítico para estas crianças e já referido em «Os da Minha Rua».

Como no anterior título de Ondjaki, também nesta narrativa a missão das crianças tem outra grande desforra: a escrita contra o tempo, executada por um adulto que ao espelho se vê criança a retratar um jovem país repleto de soviéticos e cubanos, estes com presença importante na educação e medicina, com os consequentes choques culturais; e as crianças observam os soldados soviéticos conhecidos em Luanda como «formigas azuis», baptizados na PraiaDoBispo de «lagostas azuis», com «fatos azuis feitos de um tecido grosso que dá para fazer bons panos do chão», divertem-se a imaginar se alguém mandasse esses soldados cantarem o hino, «o sotaque e a letra que eles iam cantar», registam as reguadas da professora que não entende porque se faz uma redacção com estórias “esquisitas” e lamentam-se por não entenderem as estórias em kimbundu da AvóMaria, porque na escola nunca os ensinaram a falar nem escrever kimbundu.

«Para se ser de um lugar e de uma infância, é preciso escrevê-la», diz Ana Paula Tavares em resposta à carta de Ondjaki. Encontramos a resposta de Ondjaki, dentro da narrativa, em cada palavra, em cada metáfora, em cada silêncio, e dada directamente pelo narrador, quando promete à avó nunca se esquecer das «estórias do tempo de antigamente», de se lembrar de todas as conversas «mesmo aquelas em que às vezes não conseguiam dizer nada». Pela palavra, Ondjaki cumpre a missão de dar brilho às suas estrelas, pois, como diria o EspumaDoMar, «se não fossem as estrelas a brilhar, o céu não ia se mexer nem nada, ia ser um lugar sem graça nenhuma de olharmos para ele.».


* Texto editado no sítio da Orgia Literária em 26.09.2008

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O corpo e o chão em Eduardo White

«Lembro-te: alguém no amor precisa de estar nu para mostrar ao outro que está demasiado vestido.». Assim abre e fecha o pequeno, mas irascível novo livro de poesia do moçambicano Eduardo White. Com o título sonoro e desconcertante «Dos Limões Amarelos do Falo às Laranjas Vermelhas da Vulva», o autor executa uma odisseia pelas pulsões primárias do corpo e do desejo: em rajadas de linguagem, em alucinações verbais despidas de qualquer pudor, penetra o corpo da mulher africana de cheiro forte, chão da África real e utópica.

São ácidos estes limões, que se acoitam e desamparam nas dulcíssimas laranjas sanguinolentas; é, sobretudo, uma poética de extrema solidão tecida com um método dramático, repleta de raiva e desespero, ou não fosse o amor matéria incerta e fugidia, pleno de exaltação e de dúvidas, de sonho, ilusão e perda. É, realmente, de nudez que aqui se fala: a nudez das intrigas que o desejo tece contra si próprio; a nudez de todas as sensações e todos os frémitos; a nudez dos sonhos e das realidades; a nudez que nos faz sentir, incomodamente, demasiado vestidos.

Nascido em Quelimane (Moçambique) a 21 de Novembro de 1963, Eduardo Costley White tem colaboração na imprensa lusófona e tem publicados, entre outros títulos, "Amar sobre o Índico" (1984), "País de Mim" (1990), "Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave" (1992), "Dormir com Deus e um Navio na Língua" (2001), "As Falas do Escorpião" (2002), "O Manual das Mãos" (2004). Já arrecadou vários prémios literários e foi considerado em 2001, em Moçambique, a Figura Literária do Ano.

Com uma poética atada ao chão do seu país, configurada com densidade amorosa e pujante erotismo que dão conta da «humana meteorologia», White foi classificado por Mia Couto como um poeta que «vive com o coração», que sempre «escreveu para dar a ver.». Trata-se de um compromisso entre o amor e a escrita explicado assim por White: «faço amor contigo como escrevo e só escrevo em plena liberdade e ouvindo os rumores, os arfares, os gritos, os rumores que implicam profundamente essa palavra».

Com efeito, se em White, «cada palavra, cada metáfora e cada imagem criam tremores de sentidos», como diz Carmen Lucia Secco, em «Dos Limões Amarelos do Falo às Laranjas Vermelhas da Vulva» apresenta-se o gesto vertiginoso do corpo do amante, em idas e vindas, que se agita, encontra e esgota no corpo da amada. E a palavra – que nos faz «voyeurs, escondidos nas páginas», como bem refere Reinaldo Ribeiro, no Prefácio – lá está a dizer as «causas profundas da sede», crua, terna, incómoda e, provavelmente para muitos, chocante.

Atesta-se a impulsão do desejo, o beijo, «anel linguisticamente molhado, regado por dentro do macio apaladado das papilas, da dormência dos lábios», o beijo com o qual «pode o falo levantar-se, devagarmente arguto como um embrião a espreguiçar-se» e a «missão de suborno pelas ruas» do corpo da amada, que é também uma incursão pela Pátria; neste sentido, White cria um objecto verbal pleno de elasticidade que atende às tensões, angústias e cicatrizes de um povo, e que lhe serve de grito:

Estou louco, mascarado no nu doido que sou aqui, lambendo-te, poro a poro, pêlo a pêlo, como um faminto indigente;

Cheirar-te desde as vísceras, o cheiro forte da mulher que és quanto mais te entro, alongado, viscoso como um molusco, a apalpar-te metro a metro, tecido a tecido, e a chamar-te nomes que são feios mas que aqui levam o milagre de serem belos e acariciantes;

Este país é tão parecido contigo, (…) E as badjicas, meu amor, as badjicas amarelecidas de tempero naquele pão fortíssimo para cimentar o vácuo do estômago, a fome que de nós se não afasta, se mantém viva, nefastamente teimosa no partilhar o já pouco que cobre as nossas mesas. Meu país suburbano e só urbanizável no amor.

Para Reinaldo Ribeiro, este livro impressiona pela «crueza do desespero a que o poeta se abandona, e da sua impotência perante a imprevisibilidade do Amor.». Cartografando o amor, depois do êxtase no corpo amado há o frio da cicuta, a perda, que não é mais do que a perda primitiva, a que já estava no momento do êxtase: «Pergunto-me: que batalha foi esta tão esmagadora, arrasante de calafrios»; «Chega-me um certo cansaço, um Inverno aberto à insónia e ao crime. Amor, talvez não sintas esse cheiro a medo, este suor peganhento agarrado aos lençóis, este odor a enxofre.».

No combate contra essa morte, está, pois, a escrita, câmara de ecos universais, projecto assumido claramente pelo autor:

O amor, reparo, sangra como um aparo lento nas palavras, apagadas, tolhidas, incertas, ruídas, cercadas e assustadas. Custa-me tanto acreditar no que vejo, nestes escombros ácidos, nestes estilhaços tatuados nas paredes. O ar é pesado e envelhecido, é como um cais mórbido e paralisado, é como se babasse mapas rasgados, bússolas vomitadas, cadáveres enlouquecidos;
(...)
Então, por essa razão, te escrevo não com o fim de que morras mas que vivas eterna para mim, e escrevo-te em esperanto, mandarim, árabe, grego e em outras línguas que não sei desenhar pelo papiro delicado do teu corpo e faço-te tecido e sedas caras com os cabelos que sinto trespassarem-me a carne com maciez e alguidares de barro com argila perfumada e incensos de acácia e madressilvas e cidras que vou espremendo para a minha língua como um peregrino perdido que encontrou a fonte e a frescura da água e o repouso da sombra.

Dos Limões Amarelos do Falo às Laranjas Vermelhas da Vulva, Eduardo White; Editorial Campo das Letras, Porto, Junho 2008

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Duas novidades de Literatura infantil

Enquanto as aulas não começam, há que ocupar com qualidade o lazer das crianças. Das muitas actividades ao dispor dos pais, os livros proporcionam sempre momentos de brincadeira mágica, desenvoltura psicossocial e gáudio sempre novo, com a mais-valia de fundarem cumplicidades geracionais, devido à experiência partilhada entre crianças e adultos.

Os que têm a seu cargo crianças – e que seguem há alguns anos as minhas propostas de Literatura infantil, com comprovada atenção – sabem ao que me refiro; aos que estão mais distantes do convívio com miúdos e, por isso, menos alentos à literatura infantil, lanço o desafio: detenham-se, mesmo que de vez em quando, nestes livros e reencontram formas inauditas de afecto, aventura, surpresa e encantamento há muito perdidos.

O livro «A Minha Mãe» de Anthony Browne e «Elmer e o Passarão» de David McKee são duas novidades de Literatura infantil traduzida, editadas pela Caminho. Vocacionados para leitores iniciais, são dois projectos estéticos e narrativos bem distintos que em comum carregam o zelo e a alegria na transmissão de lições de vida.

O livro «A Minha Mãe» contém grandes Ilustrações – na dimensão, e na força pictórica – acompanhadas de frases curtas, tipo legenda. Página a página, imagens e texto vão dando forma a uma narrativa sobre a mulher e mãe da sociedade actual: o carácter multifacetado da mulher empresária e dona de casa, uma «Malabarista brilhante» do dia-a-dia que não se esquece do tempo do afecto aos filhos.

Inventivas, as ilustrações apresentam esta mãe na intimidade do lar, com um roupão florido donde sobressaem corações rubros, pois é desse espaço, alicerce da união, que surge a narração pelo filho ou filha, que a retrata com olhar atento, reconhecimento e admiração desmedidos: ela é a «cozinheira fantástica», «a mulher MAIS FORTE do mundo», «rija como um rinoceronte», a «jardineira mágica» que «consegue fazer crescer TUDO», uma «SUPERMÃE» que podia ser bailarina, astronauta ou estrela de cinema. Omnipresente, o padrão florido e festivo do roupão fortalece a dádiva maternal – o roupão transforma-se numa confortável poltrona – e fortalece jubilosamente a mensagem do amor correspondido, mesmo quando a mãe ruge «como um leão».
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«Elmer e o Passarão» é uma fábula e marca o regresso do famoso elefante dos quadrados coloridos e dos seus amigos – uma saga de sucesso que já vai em cerca de uma dezena de títulos. No movimento narrativo, uma vez mais, as aventuras e o ardil ao serviço da resolução de problemas. Há que enfrentar um passarão, que surge na comunidade dos animais disposto a ditar regras e a apoucar os pequenos pássaros, um fiel representante dos indivíduos narcísicos e arrogantes que os miúdos irão, seguramente, encontrar ao longo da vida. Elmer tem, então, a ideia da qual nasce um plano que se põe em prática: chamar um «pássaro mesmo grande a sério» para se aferir do ego despótico do passarão. O pássaro de respeitosas dimensões que surge no céu e que faz zarpar o passarão é, afinal, um pássaro desenhado com todos os passarinhos. Temos, assim, uma história diferente ao serviço de uma máxima antiga e infalível: A união faz a força.
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As ilustrações, como em toda a série do Elmer, são de cores fortes, vibrantes e alegres, repletas de animais expressivos, incentivam a imaginação das crianças que, seguramente, tecerá muitas outras narrativas… Para comprovar.
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© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

As mudanças do Acordo Ortográfico

Editado Guia sobre a nova ortografia

A Editorial Caminho acaba de lançar um utilíssimo Guia que colige as mais significativas mudanças ortográficas do português europeu, consequência da recente rectificação do Acordo Ortográfico de 1990, que continua a gerar celeuma em Portugal, mas também no Brasil, cá e lá contestado por uma grande facção de editores, escritores e outros praticantes atentos da língua. Questiona-se, sobretudo, onde está a unificação da língua, bandeira dos promotores para legitimarem as novas mudanças ortográficas, unificação que também eu, após análise atenta deste guia, não consigo vislumbrar. Todavia, abstenho-me, tanto quanto possível, de comentários – sobre a forma e a decisão política que engendrou a rectificação do Acordo – para que não estorvem as conclusões que cada um pode tirar dos exemplos que aqui selecciono.

Com participação da linguista Maria Helena Mira Mateus – que tem, entre outros títulos da especialidade, editada na Editorial Caminho a magnífica Gramática da Língua Portuguesa, de 2004 –, o livro compreende três grandes partes, de fácil consulta e inequivocamente esclarecedoras: as «Regras que mudam», «Lista alfabética das palavras cuja grafia muda» e «Formas verbais cuja grafia muda». O alfabeto passa a ter as letras k, w e y.

A abrir, nas «Regras que mudam», apresenta-se e explica-se a nova restrição do hífen em palavras com os prefixos anti- e co-, pelo que passar-se-á a escrever copiloto, antirreflexo e cooperação. Mantêm-se hifenizados os prefixos ex-, pré-, pró-, bem- e não-: ex-diretor, pré-seleção, pró-ativo, bem-vindo, não-católico.

As formas monossilábicas do verbo haver perdem o hífen, como há muito se pratica no português do Brasil: há de e não há-de. Também neste princípio de identidade brasileira que dita a regra e justifica as excepções, surgem as polémicas subtracções dos acentos tónicos, consoantes mudas, maiúsculas e a letra h em início de palavra:

–como no Brasil se escreve tônico e no resto dos países de língua oficial portuguesa se escreve tónico, as duas formas passam a ser oficiais;

– o acento que distingue palavras homógrafas é suprimido, passando a escrever-se pelo (pêlo, substantivo), indistintamente da proposição pelo (por+o); por (verbo pôr), indistintamente da proposição por; para (em vez de pára, verbo parar). Excepções para o verbo pôr, que mantém o acento para se diferenciar da preposição por e a forma dêmos, do verbo dar que se escreverá opcionalmente como dêmos ou demos. Acrescento que a polémica desta medida prende-se, sobretudo, com a confusão dos tempos no presente e no pretérito perfeito dos verbos terminados em –ar que, no português de Portugal, ao contrário do Brasil, é bem distinto: "nós andámos na cidade", distinto de "nós andamos na cidade"; "gostámos das férias", distinto de "gostamos das férias", etc., o que obriga a um estudo do contexto para se decifrar a correcta mensagem e, consequentemente, a compreensão de enunciados. Acresce que a eliminação do acento nalgumas palavras de português de Portugal faz com que a palavra passe a ter um sentido oposto para o qual ela existe: não se entenderá para-fogo (em vez de pára-fogo) um auxiliar do fogo e não o oposto? Ver entre os exemplos, no final.

– na queda das consoantes mudas, passa a escrever-se ação, atual, ótimo, adoção, assunção, etc. quando a pronúncia no Brasil executa as consoantes, as palavras passam a ter duas grafias, como por exemplo, recepção no Brasil, mas receção em Portugal, e, onde a pronúncia é variável, mantém-se essa variação, sendo aceite, por exemplo, amígdala e amídala;

– passam a escrever-se com minúsculas os nomes dos meses, estações do ano, pontos cardeais, com opcionalidade maiúscula ou minúscula para formas de tratamento, lugares, e títulos de obras: janeiro, verão, norte, professor ou Professor, avenida da Liberdade ou Avenida da Liberdade. Há a ressalva para a grafia dos nomes próprios de pessoa que pode ser mantida….

– como no Brasil se escreve úmido e em Portugal e nos restantes países de língua oficial portuguesa se escreve húmido, as formas mantêm-se; explica-se que se emprega h inicial quando é «etimologicamente válido, excepto quando a grafia sem h se encontra já inteiramente consagrada pelo uso. Para esclarecimentos adicionais, os autores deste guia remetem para o portal da Língua portuguesa que fornece toda a informação relativa à Língua: http://www.portaldalinguaportuguesa.org

Da extensa «Lista alfabética das palavras cuja grafia muda», seguem outros exemplos, com a grafia antiga e a palavra ou palavras (aceitando-se variantes e excepções – com palavras em itálico da variante brasileira) regulamentadas:

Abdómen – abdómen, abdômen
Abjecto – abjeto, abjecto
Actividade – atividade
Agro-alimentar – agroalimentar
Anti-salazarista – antissalazarista
Director – diretor
Ejectar – ejetar, ejectar
Fracturar – fraturar, fracturar
Gastronómico – gastronómico, gastronômico
Pára-lamas – para-lamas
Pára-vento – para-vento
Pára-raios – para-raios
Pára-fogo – para-fogo
Pêra – pera
Reacção – reação
Recta – reta
Rectilínio – retilínio, rectilínio
Sub-raça – subraça
Sub-reino – subreino
Tecto – teto, tecto
Tramóia – tramoia
Vêem – veem

Voca Bulá Rio - As palavras que mudam com o Acordo Ortográfico, ILTEC - Instituto de linguística Teórica e Computacional; Editorial Caminho, Lisboa, Junho 2008

© Teresa Sá Couto

sábado, 9 de agosto de 2008

Magia a Preto e Branco

Chama-se Milton, é um gato preto e branco e determina duas obras de arte arrebatadoras. «Eu Milton» e «Mas onde se Meteu o Milton?» são os dois álbuns narrativos da consagrada da autora suíça, mas de origem iraniana, Haydé Ardalan, que escreve e faz as ilustrações. Editados pelas Editions La Joie de Lire, e com Prémio no concurso «Os mais belos livros suíços» de 1997, estes portentos acabam de ser editados em Portugal pela Editorial Caminho.

São dedicados aos leitores iniciais, dos 6 aos 9 anos, mas tiraram o fôlego aos graúdos. Se o fascínio se solta logo com a observação exterior dos dois pequenos objectos rectangulares, à medida da fome das mãos pequenas, esteticamente poderosos, com capa rija cartonada e lombadas forradas a tecido negro, o interior confirma e dilata o espanto: com talento desmedido, executam-se arrebatadoras ilustrações a negro e branco que dão forma à matizada personalidade do herói felino. E comprova-se que o mundo feito com estas duas cores é um arco-íris.

Em «Eu Milton», a personagem apresenta-se na primeira pessoa a estabelecer o diálogo directo e cúmplice com os novos amigos leitores. O felino apresenta a sua fisionomia, as suas competências – os cheiros e o dote para a caça – e a sua psicologia: os esgares, as fúrias, os amuos, a curiosidade e a preguiça, entre outros. A linguagem é simples e vibrante, como se quer para os iniciados na leitura; as mensagens são curtas e acompanhadas das ilustrações enérgicas, num conjunto que concorre para os sorrisos que se desprendem a cada folhear.

Em «Mas onde é que se meteu o Milton?» surge uma narrativa na perspectiva do leitor detective. Ao longo de trinta páginas vão-se apresentando respostas à pergunta inicial, ao mesmo tempo que se acompanham os hábitos, as travessuras, os gostos e os medos do gato preto e branco. As ilustrações, novamente da cor do felino, traçam a cartografia do júbilo dos leitores, de qualquer idade, observadores e descobridores de um universo estético singular. A mesma linguagem simples soma aos substantivos, adjectivos e advérbios, expressivos advérbios de modo: simplesmente, discretamente, totalmente, confortavelmente, exactamente, visivelmente, evidentemente, entre outros. E é caso para se dizer que esta é uma colecção para ser seguida apaixonadamente, pelos miúdos, pais e educadores.
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Eu, Milton e Mas onde se meteu o Milton?, Haydé, Editorial Caminho, Lisboa, 2008
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© Teresa Sá Couto

O Reino de Gonçalo M. Tavares

Fim da tetralogia sobre a decadência do Reino humano
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Numa era em que os indivíduos são mais reconhecidos pelas capacidades técnicas do que pelos valores humanos, haverá lugar para a espiritualidade? Na engrenagem mecânica do homem que, com movimento incessante e controlado, avança na conquista do poder sobre os outros, haverá lugar para o aperfeiçoamento moral? Numa sociedade que exige a destreza técnica, qual o lugar dos inaptos? Que dor e que morte são permitidas?

Fortíssimo, no centro do seu Reino, Gonçalo M. Tavares levanta-nos todas aquelas questões em Aprender a Rezar na Era da Técnica, título que fecha a tetralogia dos seus Livros Pretos sobre os subterrâneos da alma. Corolário da dissecação humana, o romance plasma a posição de Lenz Buchmann no mundo, reputado cirurgião de mão direita exímia no bisturi e que, por isso, não precisa de ser «um homem bom». São 375 páginas de desassossego, divididas tematicamente em três grandes partes – «A Força», «Doença» e «Morte» –, cada uma com subdivisões minudentes; uma execução da narrativa em fragmentos, característica da escrita de Gonçalo M. Tavares, que faz de cada subdivisão um golpe cirúrgico na alma de quem lê. (Ver entrevista da Orgia Literária a Gonçalo M. Tavares)

Aprender a Rezar na Era da Técnica vem juntar-se aos veementes Um homem: Klaus Klump, A máquina de Joseph Walser e Jerusalém. Na sequência destes títulos - onde se inclui, também, o Água, Cão, Cavalo, Cabeça -, o autor executa a narrativa a partir de centros de irradiação que configuram a decadência do Reino humano, pelo que cada livro é um capítulo de uma tese maior sobre o homem: a relação entre o pensamento e o corpo, a vontade e a mão que a executa, a ideia e a cabeça que lhe dá forma, e a incapacidade do acto quando o corpo entra em falência.

O poder alimenta-se do medo
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Perturbante, o texto desperta-nos para a técnica das mãos que nos manipulam e para as ideias que exploram as nossas fragilidades. Habituado a dominar, Lenz Buchmann vê na actividade política uma nova escala da sua técnica, outra ciência que não a médica, com a vantagem do «número de pessoas que conseguia agora influenciar – ou mesmo tocar, no sentido físico, no sentido do bisturi que interfere no tecido». Fascina-o a forma reverente e subserviente com que os cidadãos cumprimentam o Presidente da câmara da cidade, «um fenómeno mágico que o levou à decisão de entrar para o Partido «e lutar por conquistar os lugares mais altos», «operar a doença de uma cidade inteira», «sentir o prazer de dar aquela comida estranha que o poder dava aos seus soldados e funcionários, aquela comida de energia quase mágica, comida que saciava os estômagos da população de um modo não material, mas igualmente eficaz».

Dar-lhes «algum pão e algum medo», numa engrenagem que se quer com movimento contínuo, defende Lenz nas suas estratégias discutidas com Kestner, o presidente do Partido: «seremos tanto mais fortes quanto mais conseguirmos infiltrar na população esta mistura: movimento rápido e temor. Não os deixar parar para que não deixem de ter medo. Não deixar de os amedrontar para que não parem»; «Havia, portanto, dois medos, e não apenas um. O primeiro medo arrancava as coisas da sua imobilidade e o segundo, o mais poderoso, mantinha as coisas em movimento».

Lenz conhecia as divisões do medo, pois preparou-se contra ele em miúdo, tendo por mestre o pai, que idolatra e cujos ensinamentos aprimora. Militar, o pai fechava os dois filhos à chave num compartimento da casa vazio e escuro por cometerem «a ilegalidade de mostrar medo»: «perder tudo: perder a razão, perder o domínio». Lenz «aprendeu a existir assim. Preparou-se, cresceu, tornou-se forte»

A técnica na vertigem do domínio

Brutal, o texto dá-nos a técnica calculista de um indivíduo de inteligência e cultura raras, mostrando-nos que a natureza racional do homem é a sua grandeza e o seu drama. Se a dialéctica mão-utensílio favorece o desenvolvimento cerebral, Lenz vê na caça e na lei do bosque as premissas de execução do Reino a que «jurou lealdade, o Reino de quem ataca e de quem sabe que há elementos que se preparam para o atacar»: «existências eram, afinal, peças de caça, num resumo extraordinariamente sintético também das relações humanas». Mais: segundo Lenz, «o lutador não abdica à vontade do outro; isso é fraqueza, e fraqueza é doença. A justiça não é um conceito humano mas numérico.».

Segundo Edgar Morin, a caça fez o hominídeo «hábil e habilitado», espevita a inteligência porque faz o homem «lutar com aquilo que há de mais hábil e de mais manhoso na natureza, o animal presa e o homem predador, pois ambos eles se dissimulam, esquivam, enganam. Leva-o ainda a encontrar e a entrar em concorrência com tudo o que há de mais perigoso: o grande carnívoro. A caça estimula as aptidões estratégicas: a atenção, a tenacidade, a combatividade, a audácia, a manha, o logro, a armadilha, a emboscada.».

Com o mapa de combate estendido na «mesa do seu mundo», sua razão de existir, Lenz define a sua posição perante o adversário, procura a presa grande, enforma a ambição, impulsiona-a com o desprezo pelo outro, com «Vingança e ódio, esses afectos recônditos de combustão lenta», como disse Nietzsche, mas também a inquietar-nos com outra verdade humana, dita assim por B. Russel: «a vida perderia o seu sabor se não houvesse ninguém para odiar».

Lenz, para quem «a competência não se define com o coração», está no centro, pois «o centro tem tudo», é no centro que está «o início da explosão». Para isso, «contabiliza os pontos decisivos do próprio corpo»: «em primeiro lugar a cabeça», o «crânio, aquele conjunto de ossos que protege o instrumento de percepção do mundo» e onde abundam «capacidades e desvios surpreendentes». Porém, «o importante é o caminho central: o cérebro serve para não nos deixarmos matar. Exige habilitações máximas aos nossos inimigos. (…) O cérebro, visto de perto, e entendido profundamente, tem a forma e a função de uma arma, nada mais», defende Lenz. Foi a ordem dessa arma interna que o levou a pegar na arma de caça e disparar sobre a própria mulher e sobre um louco, desfazendo-lhes as cabeças.

Duas forças em dessincronização

Verdadeiro tratado sobre a reflexão humana, este romance de Gonçalo M. Tavares instiga-nos à meditação profunda que escasseia nesta era da vertigem técnica, alerta-nos para a falência do projecto da imortalidade e para o facto do valor do homem ser «igual ao de qualquer produto insignificante». Será que só o achamento desta verdade garante a paz interior?

O pai de Lenz ensinara aos filhos que a natureza parecia também «depender de alavancas com a forma da mão humana» e alertara-os para «o momento em que a natureza se torna guerreira», cabendo ao homem, com raciocínio técnico, dominá-la. Lenz tem a vontade, a técnica e o domínio, mas um «mecanismo de degradação», um tumor na cabeça, tira-lhe peso à mão direita que, amolecida, não consegue executar a vontade; a vontade de Lenz de matar o presidente do Partido para o substituir, depois a vontade de se suicidar, como fez o pai que deu um tiro na cabeça quando se sentiu em decadência física: a homens da sua estirpe só uma morte violenta seria permitida; só um fraco morre de forma fraca e morrer de doença é um humilhante sinal de fraqueza.

Assim, «o centro mudava de posição», deslocava-se: Lenz perde, primeiro, as capacidades físicas, depois, mentais, e até o sarcasmo que usava sobre os outros passa a ser usado sobre ele. Há, então, que se contar com dois tempos, que raramente se encontram: o tempo planeado, previsto e o outro tempo, o tempo real, em que acontecem as coisas, o «tempo visível» que não obedece a qualquer mecanismo que o homem controle. A situação de Lenz assemelhava-se à do pequeno rato cinzento, caçado por uma ratoeira, que aparece com a cabeça quase separada do corpo: «duas forças pareciam ter agido sobre ele» e o corpo não conseguiu suportar os seus efeitos simultâneos: «uma força que queria encurtar – talvez a vontade do rato (ou seria a intenção da ratoeira, encurtar?) – e outra força que queria esticar ao máximo.».

«Nos pântanos os motores não funcionam», diz o texto. E Lenz, que «pretendeu a matar os vestígios do Espírito Santo que existem no corpo de cada um», por serem sinal de fraqueza, deixa-se ir na tranquilidade da luz que o chama para o descanso derradeiro.

Aprender a Rezar na era da Técnica, Gonçalo M. Tavares, Editorial Caminho, Lisboa 2007

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O Vendedor de Passados

Respondendo a muitos pedidos, deixo a sugestão de leitura de «O Vendedor de Passados», um romance singular de José Eduardo Agualusa, editado em 2004, e exactamente o penúltimo romance do autor angolano, que editou em 2007 o «As Mulheres do Meu Pai». Aplaudido internacionalmente, este «O Vendedor de Passados» continua a ser muito procurado e é já um livro de culto da Literatura de Expressão Portuguesa. (Ver página da internet de José Eduardo Agualusa na listagem Lugares de Autores deste blogue).

Dando forma à asserção de Montaigne: "Nada parece verdadeiro que não possa parecer falso”, o romance apresenta uma urdidura de criatividade notável. A acção decorre na Luanda contemporânea, numa casa de "madeira sempre fresca", repleta de livros que falam, no seio da "floresta imensa" envolvida pela noite, como um mar.

À entrada, os espanta-espíritos agitam-se pela brisa emitindo um rumor de água o que a faz parecer " um velho navio a vapor" ou "um barco cheio de vozes cortando a custo a lama pesada de um rio". A lama, a "alta" sociedade angolana, procura neste barco " espelhos capazes de iluminar" as suas vidas opacas. A casa pertence ao albino Félix Ventura, "o vendedor de passados", o que trafica secretamente memórias, “como outros contrabandeiam cocaína”. Foi adoptado por um alfarrabista que o encontrou, menino, dentro de uma caixa com exemplares de “A Relíquia” de Eça de Queirós. O velho criou-o, crendo-lhe num desígnio superior. Tem uma namorada, Ângela Lúcia, que adora paradoxos, e de quem fala como quem se esforça por dar “substância a um milagre”.

Os seus clientes são prósperos empresários, políticos, generais, e toda uma burguesia angolana, emergente, sequiosa de distintos passados, mesmo que os tenha de comprar falsos. A sátira é feroz, apimentada pelo humor inteligente: " Temos um presidente de fantasia. Um governo de fantasia. Um sistema judicial de fantasia. Temos, em resumo, um país de fantasia" e uma cidade que "é uma feira de loucos" com patologias ainda por catalogar.
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Com Félix vive a outra personagem central: Eulálio. É uma osga-tigre, que impressiona e perturba pelo riso quase humano. É a companhia de Félix com quem mantém uma estranha telepatia. Cumpre a função de narrador participante, omnipresente e, quase sempre, omnisciente - deixando que o leitor conclua a psicologia das personagens. Dá-nos a conhecer "o albino", reproduzindo-nos os seus longos solilóquios, descreve-nos os espaços físicos e psicológicos, dá-nos conta de todas as "figuras" que entram na casa para comprar sonhos – só no último capítulo a narração é feita por Félix Ventura, que persiste na ilusão que alguém o escute, uma vez que o seu fiel ouvinte Eulálio, morre. É, também, ele que nos mostra a verdade da mentira de todo o enredo, e a sua linha ténue, pois só é possível ser revelada através dos seus 6 sonhos, em 6 capítulos.
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Cabe, ainda, a esta personagem a reflexão filosófica, que o texto nos propõe, sobre a memória, sobre a verdade e a mentira, a verosimilhança e a inverosimilhança: « A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento", todos efabulamos e "todos temos recordações falsas, embora alguns sejam totalmente falsos». Por outro lado, "a verdade é improvável" porque a mentira está por toda a parte:
"A própria natureza mente. O camaleão disfarça-se de folha para iludir a própria borboleta"; "Abomino a mentira, porque é uma inexactidão. Também a verdade costuma ser ambígua. Se fosse exacta não seria humana".
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José Buchmann é a personagem que irrompe pela casa para comprar, não um passado, mas um presente que lhe elimine o passado, o que faz subverter a natureza da ocupação, até aí "inocente" de Félix Ventura. Os acontecimentos precipitam-se, numa vertigem de surpresa, e as explicações são-nos dadas, sempre "mais à frente", em Analepses que nos deixam atónitos. Parece ser um jogo que o autor nos propõe, o Xadrez da vida, espelhado num Xadrez ficcionado, composto num Xadrez narrativo em que o Xeque-mate surge num golpe de imprevisibilidade.
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Maravilhado com a metamorfose da sua nova identidade, Buchmann passa a frequentar assiduamente a casa de Félix, até que um dia leva consigo um mendigo louco, com um cheiro nauseabundo, ex-agente do Ministério da Segurança do Estado, que o "desmascara" e o passado irrompe-lhe pelo presente: Buchmann é Pedro Gouveia, português, pai de Ângela, a namorada de Félix. Acontece o amor e um crime e um corpo escondido, sepultado debaixo de uma buganvília que grita denunciadoramente, mas que ninguém ouve.
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Com o presente enterrado, tudo pode voltar ao normal, mas não é isso que acontece. Os equívocos da memória têm inúmeros matizes e eis que aparece na casa um "Mascarado" que quer comprar um passado que o liberte de todas as máscaras; quer trocar a verdade impossível da sua vida por uma mentira simples e vulgar, não um passado glorioso, mas humilde, sem brilho, para atingir a liberdade.
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Indubitavelmente, com este "Vendedor de Passados", Agualusa mostrou-nos um fazedor de sonhos. Afinal, "Deus deu-nos os sonhos para que possamos espreitar o outro lado". Inesquecível.

Agualusa, José Eduardo ;«O Vendedor de Passados»; Ed Dom Quixote

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Os Peregrinos Sem Fé, Sérgio Luís de Carvalho

A travessia da consciência, em tempo de romarias

O que fica do homem depois de deixar de acreditar? O que resta ao sonho depois de saber que a realidade não permite ilusões por muito tempo? Como prosseguir depois de perdida a esperança? Qual o valor da fé na errância humana? Estas são algumas questões suscitadas pela narrativa «Os Peregrinos Sem Fé», livro de Sérgio Luís de Carvalho, Director do magnífico Museu do Pão de Seia e escritor de cunho inconfundível, tanto no manuseio da palavra como nas temáticas.

Lançado no ano passado, este Os Peregrinos Sem Fé foi editado ao mesmo tempo em Portugal e na Galiza onde é acolhido sempre com o máximo entusiasmo ou não fossem os romeiros de Santiago a partilha de portugueses e galegos, como se refere no presente livro: «dizem que por aqui existem caminhos muito antigos, por onde desde sempre passaram portugueses ou galegos exibindo as raízes tão comuns.». Esta é, pois, uma leitura maior para este tempo de romarias e férias, esperando-se o próximo romance do autor a editar ainda este ano.

Neste, como no romance anterior a este - o magnífico Retrato de S. Jerónimo no seu Estúdio - Sérgio Luís de Carvalho mostra-nos que é possível narrar-se o tempo com recurso à memória, suporte da vida dos homens, mesmo sendo ela infiel e enganadora, pois é essa a «infeliz condição do homem». Com as histórias de dois homens que, separados por cinco séculos, narram as suas viagens de Lisboa a Santiago de Compostela, sempre acompanhados por outras memórias ainda mais antigas, as de Eneias, da Eneida de Virgílio, mostra-se que, independentemente dos tempos, a busca da consciência foi sempre um imperativo da existência, e o conhecimento alcançado na travessia é tão diverso quanto os homens que as fizerem.

Dois textos em alternância preenchem as 425 páginas da aprendizagem de dois homens, sem nome, pois podem ser qualquer um de nós. O primeiro é um médico e professor humanista, preso nos Estaus, sede em Lisboa do Santo Ofício, corre o ano de 1563. Acabou de assinar a carta de abjuração – pelo que aguarda a libertação – e, impulsionado pela leitura da Eneida de Virgílio, acaba de escrever a viagem que fez no meio de peregrinos a Santiago de Compostela. O segundo é o intérprete de Eneias na ópera «Dido e Eneias» de Henry Purcell, e regressa a Santiago, local donde fugiu por lhe ser insuportável o amor de Irina, a mulher que interpretou Dido, e que, também ela, se suicida depois da partida do seu Eneias.

Histórias de desamparo e solidão

A travessia dos dois homens é de desamparo, solidão e de expiação das culpas. Ainda que com finais diferentes, ambos os homens fazem a viagem a Santiago de Compostela com descrença: o médico fá-la pela descrença religiosa da peregrinação – disfarça-se de peregrino para fugir à perseguição da Inquisição –, mas animado pela crença nas suas ideias humanistas; o cantor fá-la, vazio de qualquer esperança – vai ao encontro do final que esperava e a confirmação do dano humano:
«para quase tudo é sempre demasiado tarde; passamos a fronteira e não notamos e fica para trás a estrada ou o atalho que eram os ideais para regressar»; «Também nós, cegos e surdos a todas as evidências assim somos, crentes sempre em algo de melhor, algo superior a nós. Corremos e insistimos e agimos sempre, e sempre, até a realidade enfim tombar sobre nós, nos cobrir com o seu negro manto e zombar das nossas esperanças. Mas tanta vez – ai de nós – nem assim abandonamos a nossa estúpida esperança. Não há pior coisa nem melhor coisa que a esperança. Somos fortes em a ter, somos fracos em a ter.».

Sem fé, prossegue, mas arrastando-se, com a inércia em vez do fulgor que a caminhada deveria ter. É com o olhar tragicamente ímpio que se detém nos peregrinos:

«Talvez os inveje. Talvez agora inveje a sua força, a sua crença que os leva tão ligeiros aonde um santo terá chegado há muito tempo. A fé os faz recusar as evidências, e isso é bom. A fé lhes diz que continuem, e isso é bom também. E se a realidade que os cerca contraria tudo aquilo em que acreditam, eles prosseguem, porque estarão certos ser a realidade que se engana. E são felizes, pois a realidade não lhes destrói as ilusões. Talvez…»

Também o médico detém-se nos peregrinos, seus companheiros de viagem, e a quem aprendeu a respeitar: «por vezes invejei a fé tão chã que eles tinham, e eu não. Livre, eu ia forçado em romaria, por dever que a mim mesmo assim me impus; eles todos, todavia, iam mais livres, mesmo se obrigados por promessas ou sentenças.».
Também ele se esquecera como «era perigoso ter esperança», pois, passados uns anos em Santiago, regressou a Portugal, onde a Inquisição não se tinha esquecido dele.

Agora, no seu cárcere, apesar de esperar a liberdade, maldiz-se traidor por ter assinado a carta onde, para se salvar, renegava os amigos e as ideias. Tal como o cantor que expia as culpas da sua fuga, o médico expia o seu acto. Medo ou cobardia? «Se calhar, cada um é cobarde como pode». Afinal, cada homem transporta consigo a sua sombra, consciência funda, a maestrina das suas acções, que pode ter a forma de um cão que uiva incessantemente, branco ou negro, como os que acompanham sempre os protagonistas desta narrativa de Sérgio Luís de Carvalho.

Os Peregrinos Sem Fé, Sérgio Luís de Carvalho; Campo das Letras, Porto, 2007


© Teresa Sá Couto

domingo, 27 de julho de 2008

Cinco anos a celebrar o Teatro

Já está disponível ao público o número 9 da magnífica revista semestral Sinais de Cena, da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, em colaboração com o Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Lisboa, e editada pela Campo das Letras. A publicação entra, plena e já há muito imprescindível, nos cinco anos de construção laboriosa de «um espaço de documentação, debate, análise e avaliação do que no campo do teatro – e de outras artes performativas – se vem praticando em Portugal e no resto do mundo».

Para além das rubricas habituais, o número aborda os Prémios da Crítica 2007 com que se celebram espectáculos, autores, actores e projectos portugueses; uns meros “diplomas”, «artefacto modesto», diz Maria Helena Serôdio, que dirige a revista, sobre estes incentivos, mas que são um tributo ao Teatro, que nos enriquece, orgulha e alimenta a esperança nesta arte maior erigida num país que devia fazer mais por ela; como o esplêndido e inefável tributo ao Teatro que é dado por esta revista.

Na capa, os actores Cecília Henriques e Pedro Carracal, em Disco Pigs, dos Artistas Unidos, espectáculo de 2007; no interior, sucedem-se olhares com o rigor e a excelência de sempre nas abordagens do que por cá se leva à cena – nos grandes centros, mas também no interior do país, de lugares «descentrados», donde se distingue o espectáculo «Pax Romana», que tem dramaturgia e encenação de Nuno Pino Custódio, da ESTE - Estação Teatral da Beira Interior, estreado em 2006 no Auditório da Escola Secundária do Fundão, e ainda em exibição.

Na rubrica PASSOS EM VOLTA, titulado «Paz e guerra com humor crítico», o artigo de Maria Helena Serôdio traça as andanças do «Pax Romana» durante estes dois anos, descreve o espectáculo, intercepta-lhe elogiosamente as singularidades, num texto em que a crítica se revela contaminada pela excelência do espectáculo: é «por muitas razões, um trabalho exemplar: de rigor na composição do gesto, movimento e expressão facial; de imaginação delirante na linguagem inventada; de “reconstrução” criativa do vestuário romano (desenho brilhante de Marta Carreiras); de inventiva criação de sonoridades vocais e musicais; de acertadíssimo compasso na ridicularização da guerra e dos “treinos” militares; no jogo magnífico que empreende com os espectadores.».

Noto que, estando tecnicamente ligado à Commedia dell’Arte, o espectáculo esteve, em 2006, em Lisboa, no largo do Castelo de S. Jorge, no ensejo do Festival de Máscaras organizado por Filipe Crawford, e em 2007 no Chapitô, sessões que infelizmente perdi, pelo que aguardo, eu, mas sei que falo por muitos mais, nova “visita” à capital.

Os Prémios e a crítica
Logo na primeira rubrica, DOSSIÊ TEMÁTICO, encontram-se artigos sobre os galardoados com o Prémio da Crítica do ano 2007, atribuído ex-aequo ao espectáculo «A Tragédia de Júlio César», co-produção do Teatro da Cornocópia e Teatro São Luís, com encenação de Luís Miguel Cintra, e ao espectáculo «Foder e ir às Compras», co-produção da companhia Primeiros Sintomas e Centro Cultural de Belém, com encenação de Gonçalo Amorim. Seguem-se os artigos sobre os galardoados com Menções Especiais atribuídas à actriz Emília Silvestre, ao Projecto PANOS (Palcos novos / Palavras novas) e à Editora Cotovia, pelo magnífico trabalho de edição de dramaturgia.

Das habituais dez rubricas, destaque-se ainda: PORTEFÓLIO, com um olhar sobre «A dramaturgia irlandesa no teatro português: Entre renovações e actualizações», complementada por registos visuais; NA PRIMEIRA PESSOA, com uma extensa entrevista a João Perry, titulada «Viver para poder contar»; EM REDE - UbuWeb (em três movimentos);
ESTUDOS APLICADOS, com magníficos artigos sobre o incontornável dramaturgo Harold Pinter (Humanismo e vitalidade nas peças de Harold Pinter, A "igreja masculina" de Pinter e Realismo e palavra brutal: Harold Pinter no Brasil); NOTÍCIAS DE FORA, com um estudo sobre a marginalidade (O teatro dos Forced Entertainment); LEITURAS, com várias resenhas críticas e uma lista de publicações de Teatro no ano de 2007; ARQUIVO SOLTO, com a nostalgia a encontrar «Uma fábrica de gargalhadas», o antigo Teatro do Ginásio, no Chiado, desde a sua edificação em 1852, passando pelo apogeu no início do século XX, momentos conturbados, o incêndio de 1921 e o fim da vida, nos anos 50, restando-lhe agora a fachada do que é o «Espaço Chiado – Centro Comercial e Cultural Theatro do Gymnasio», que compreende 67 lojas, 28 escritórios e …um Cine Teatro….

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Três leituras que desvendam o ser português

Com ficção, Filosofia e História se faz uma magnífica selecção de três livros que lançam a reflexão sobre nós. A saber: «Fados & Desgarrados», romance de José Xavier Ezequiel, editado no ano passado e que continua em apresentações pelo país; «A Morte de Portugal» é um ensaio de Miguel Real, editado no final do ano passado e que acabou de conhecer a 2º edição; «O Nosso Século é Fascista – O mundo visto por Salazar e Franco» é um magnífico ensaio de Manuel Loff, e acabou de ser editado.

Já que os textos que elaborei estão editados noutros lugares, sugiro, pois, o reencaminhamento, através dos links nos títulos destas brevíssimas apresentações:

Torrencial, vertiginoso, inteligente, indiscreto, provocador, boémio, burlesco, irónico e sarcástico são adjectivos obrigatórios para se anunciar o livro Fados & Desgarrados de José Xavier Ezequiel.
Esta é «uma história revitalizada de 'tristes, solitários e finais'», diz Dennis McShade, pseudónimo de Dinis Machado, no Prefácio; este é um vibrante manifesto daqueles seres desgarrados, acrescento eu, e uma história de descaminhos que encontra o caminho certo em 219 páginas.

Da colecção O Voo do Morcego, da Campo das Letras, a narrativa é um voo pela Lisboa noctívaga, pela nostalgia com travo de vodka dos bares do Bairro Alto das ressacas e dos engates, tudo enredos para uma vigorosa crónica de costumes que despe, literal e metaforicamente, e disseca, até ao risível, uma certa sociedade lisboeta, com extensões críticas ao país cultural, político, económico, social e moral, como há muito não o fazia a literatura portuguesa.

«Que os ratos se devorem uns aos outros», escreveu Jorge de Sena, asserção escolhida por José Xavier Ezequiel para abrir o seu romance. E está lançado o mote que se desenvolve em muitas e inusitadas voltas com o compromisso de fazerem da narrativa um laboratório de observação crítica da sociedade actual. Os «exercícios de voyeur» depois libertados numa «desnorteada associação de pensamentos» definem o método: o «velho hábito de observar as pessoas, tentando traçar-lhes o perfil a partir dos pequenos detalhes, da roupa que trazem vestida, do cheiro que escolherem usar», pegar numa «ponta solta de conversa, do que têm à frente para beber». A narração na primeira pessoa, espontânea, coloquial, em tom de confissão, estabelece um diálogo contínuo com o leitor que se lhe rende de bom grado.

Na roleta do quotidiano

Do protagonista fica o leitor a saber tudo o que ele quer contar e o que parece deixar escapar. Tem 43 anos, é bancário até às cinco horas, boémio depois disso. Descobriu o vodka, passando a dedicar-se-lhe de «alma e coração», depois de uma monumental «dor de corno» por uma namorada de classe baixa dos subúrbios, com «uma imensa vontade de subir na vida, um cu e umas pernas superiormente capazes de servir de moeda de troca», que o trocou por um «gajo» dono de um «MG coupé de 73».

Amante de «geografias» e de «excessos», a sede nunca lhe faltou, enquanto que «dinheiro no bolso, sempre foi inversamente proporcional à puta da sede». A vida sempre foi para ele uma roleta: «russa, espanhola ou a puta que o pariu. Sempre vivi cada momento com a paixão do dedo no gatilho. A rotação aleatória do tambor. No sítio fatal.».

Com este anti-herói surge uma galeria infinita de personagens, todas filtradas pelo seu olhar, com valor de tipos sociais que facilmente todos reconhecemos no nosso quotidiano, aqui construídas caricaturalmente pela palavra, enquadradas e prolongadas nos espaços – os bares e as labirínticas artérias da Lisboa noctívaga – que, por sua vez, pela sua engenhosa construção narrativa têm também eles o estatuto de personagens. Assim surgem: o «discurso entaramelado comum a todos os bêbados da aldeia global»; os «rituais de acasalamento», sexo, «putas», «putinhas», droga, paneleiros travestis, pelintras «com nome e novos-ricos sem background que se desunham para aparecer nas fotografias das revistas do pindérico jet set nacional»; e até um Tio, fiel representante dos sinistros endinheirados, um mafioso com contactos e negócios no mundo todo, nascido em Chaves, «criado com os porcos as cabras as ovelhas e as vacas», que aprendera as artes do «contrabando lucrativo» nos tempos de Salazar, e que era agora um gordo Paxá com o «estereotipado hábito de se vestir de branco», «com chapéu pingalim Mercedes branco à prova de bala e todo o resto do figurino».

É esta figura que vai dar ensejo a uma história policial, um thriler à portuguesa a fazer lembrar-nos Eça de Queirós quando nos sugeria, no final de Os Maias, num desabafo de Ega, que os portugueses não se podem dar ao luxo de ter princípios, pois são feitos de Romantismo, «isto é: indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão». Será, pois, um Fado ser-se português desgarrado?

Cumprindo o seu fado, o protagonista lá se vai resignando: «Mas enfim, podia ser muito pior, morar numa casa em Chelas oferecida pelo senhor Presidente da Câmara em ano de eleições autárquicas, auferir o Rendimento Mínimo Garantido gentilmente cedido pelo senhor Ministro da Solidariedade, bonito nome, andar no paipelaine do cavalo e das lamelas de haxixe, arrumar carros nos poucos sítios onde ainda não puseram parquímetros da EMEL, e dormir nas sórdidas arcadas do Martim Moniz dentro de uma singela assoalhada de cartão que já tinha servido de agasalho a um espaçoso frigorífico alemão da classe energética A.».

Sendo esta narrativa insurrecta, reserva para o protagonista desgarrado um final feliz: o Tio mafioso, «mau como as cobras», é, afinal, seu tio, morre com sida – um brinde de uma das suas lolitas – e cancro da próstata, e, sem herdeiros, deixa-lhe a prolixa herança. «Por muito sujo que seja, é dinheiro. Bué dinheiro. E agora digam-me lá, seus invejosos, haverá dinheiro limpo?», atira ao leitor, numa pergunta de retórica, mas muito bem decifrada por nós, portugueses…

© Teresa Sá Couto


A «”morte de Portugal” não significa que Portugal desapareça (Portugal “dura”, escrevia Eça de Queirós durante a crise do Ultimatum; é, aliás, a sua grande virtude, não dar felicidade ao seu povo, mas durar, sobreviver, existir por existir, criando contínuas mitologias que justifiquem a sua existência)», diz Miguel Real no novíssimo Ensaio «A Morte de Portugal». .A morte de Portugal residirá, então, no desaparecimento de toda a originalidade portuguesa substituída pela vertigem estrangeira por uma «ditadura tecnocrática» instituída por «técnicos medíocres» para quem só conta «primeiro, a contabilidade das estatísticas, e, segundo, o sentido europeu das estatísticas». (In blogue Leituras)

«O Nosso Século é Fascista!»

Salazar e Franco nasceram com 3 anos de diferença (1889 e 1892, respectivamente) e viriam a dar o nome às duas ditaduras ibéricas. O primeiro, com o programa Deus, Pátria, Família, com a força do Manda quem pode, obedece quem deve e numa «linha geral europeia»; o segundo, autoproclamando-se o Caudillo de Espanha pela graça de Deus e voz do movimiento general de rebeldia en las masas civilizadas del mundo; ambos, crendo-se portadores de uma nova ideia, que impuseram de forma totalizadora – no Estado Novo e Nuevo Estado –, a ideia de uma Nova Ordem, regeneradora e saneadora, integrante de uma nova Europa com fórmulas hitleriana e mussoliniana.
Conhecer o pensamento político daqueles dois homens filhos de um tempo complexo e vário é a proposta do soberbo e urgente Ensaio «O NOSSO SÉCULO É FASCISTA! – O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945)» do historiador Manuel Loff. São quase mil páginas de fascínio, que, sedento, segue a profusa e rara documentação histórica, interpelada, interpretada e contextualizada pelo historiador. (In blogue Leituras)


Ver neste blogue outros textos sobre livros no campo da História:

O Padre António Vieira e as mulheres

FERNÃO LOPES -CRÓNICAS

© Teresa Sá Couto

domingo, 20 de julho de 2008

Idades eternas de Mia Couto

Livro de poesia do escritor moçambicano

A poesia capta o instante e solta-o na eternidade. Isso ensina-nos Mia Couto, o escritor e sempre poeta moçambicano, o que reparte o «doce milagre da refeição» da palavra. «A diferença /entre o poeta e a cigarra /é apenas a sinceridade», escreve. A diferença entre os outros homens e o poeta é que este conhece a pele da palavra, despe-a e ama-a, sabe-lhe o cheiro e a respiração, a luz e a treva, e solta-a porque sabe que ela não lhe pertence, que ela é livre e que o seu desígnio é o voo da eternidade. Depois de «Raiz de Orvalho e outros poemas», editado em 1999, e de vários poemas em prosa, que são todos os seus romances, Mia brinda-nos com o livro de poesia «Idades, Cidades, Divindades». E nele encontramos a palavra sem idade, a cidade universal, mestiça e inteira, o esplendor do voo vocabular que, místico e iniciático, transporta tudo o que somos.

Conjugando como ninguém as palavras que todos conhecemos, Mia Couto atinge-nos na liquidez primordial que nos corre nas veias, numa precisão que o próprio Mia desvenda: «fazer da palavra um embalo /é o mais puro e apurado senso da poesia». Talvez o destino de ser poeta nunca tenha estado tão depurado: «Meu vício /é vitalício: comer a Vida /deitando-a entontecida /sobre o linho do idioma. /Nesse leito transverso /dispo-a com um só verso. /Até chegar ao fim da voz. /Até ser um corpo sem foz.». Um vício assim radicado no chão: «Tenho a sede /do embondeiro: /ao invés de beber, /eu engulo o chão inteiro.».

Palavras de duas águas

Duas águas, duas culturas, Portugal e África: por diversas vezes Mia Couto tem abordado esta questão da identidade, dando-lhe forma nos seus romances, defendendo-a como filosofia da sua vida. Trata-se de um património que se transporta e que evidencia um sentido mais lato: não há identidades singulares, o ser humano tem identidades múltiplas, que constrói e reconstrói constantemente. Aliando-se o poeta ao contador de estórias, aquela filosofia é reiterada neste livro, como nos surpreendentes «O idioma» e «O outro idioma. Confira-se:

Silvestre quer saber /porque razão eu estrago o português /escrevendo palavras que nem há. /Não é a pessoa que escolhe a palavra. / É o inverso. /Isso eu podia ter respondido. /Mas não. /O tudo que disse foi: /é um crime passional, Silvestre. /É que eu amo tanto a Vida /que ela não tem /cabimento em nenhum idioma. /Silvestre sorriu. /Afinal, também ele já cometera /o idêntico crime: /todas as mulheres que amara /ele as rebaptizara, vezes sem fim. /Amor se parece com a Vida: /ambos nascem na sede da palavra, /ambos morrem na palavra bebida.

***

Inquirido / sobre a sua fluência /em português, respondeu: /- Tenho duas línguas: /uma para mentir,/ outra para ser enganado./ A professora /ainda perguntou: / - E qual delas é o português? /- Já não me lembro, respondeu.

Na curva do rio…

A água é um dos elementos omnipresentes na escrita do autor de Mar me Quer. Ela esculpe a dor, o amor e o sonho; ela é o princípio, o caminho, o fim; ela é a Espera. Talvez por isto, haja a metafísica de que «temos a raiz num rio /e é por isso que o mar /nos dá a tristeza de um destino»; será também essa a aclaração do segredo do poeta: «todas as noites /me deito num livro /para em outra vida desaguar. /Rio escapando da margem, /margem escarpando um rio.»; e é por aquela mesma razão que escorrem poemas como este:

(…)
Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera

Mas eu deito-me no teu leito
quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.



Idades, Cidades, Divindades, Mia Couto; Editorial Caminho, Lisboa, Setembro 2007
© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 7 de julho de 2008

«Venenos de Deus, Remédios do Diabo»

O novíssimo romance de Mia Couto

Aos 10 anos todos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias. Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias. Aos 30 anos pensamos que mais ninguém tem ideias. Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas. Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias. Aos 60 ainda temos ideias mas esquecemos do que estávamos a pensar. Aos 70 só pensar já nos faz dormir. Aos 80 só pensamos quando dormimos.

Estas são palavras de Bartolomeu Sozinho, um septuagenário da Vila de Cacimba, ex-mecânico no colonial transatlântico Infante D. Henrique, magnífica personagem do novíssimo romance «Venenos de Deus, Remédios do Diabo» de Mia Couto. Na idade da sabedoria, o escritor moçambicano semeia mais uma narrativa com a torrente e o exotismo do chão africano e almas que nele voam carregando a espessura dos segredos e das lembranças. Uma leitura de um fôlego por 188 páginas imperdíveis para estas férias.

Sidónio Rosa é o jovem médico português que vai para Moçambique para sossegar «um bater de pilão no peito», para encontrar Deolinda, uma mulata que ele conheceu em Lisboa durante um congresso. Mas Deolinda morreu, e o facto é-lhe inicialmente ocultado, e ela não era quem ele pensava. É ao embrenhar-se na África profunda – mesmo conhecendo apenas a rua de areia que liga a pensão ao posto de saúde e à casa de Bartolomeu e Dona Muda, pais de Deolinda – que este europeu descobre a sua missão naquele continente: a de acordar segredos e salvar as lembranças, já que a âncora é a lembrança ou, como diz Bartolomeu, «é o esquecimento e não a morte que nos faz ficar fora da vida».

Com um narrador omnisciente que completa a fala e os pensamentos das personagens, e exímio a remexer nas emoções mais fundas, segue o leitor na vertigem narrativa para descobrir que «os segredos, em Vila Cacimba, não se enterram nunca em cova. Ficam em buraco aberto como ferida que nunca ganha cicatriz». Enquanto espera Deolinda, Sidónio Rosa, rebaptizado de Sidonho pelo povo, ocupa-se a tratar de uma epidemia de meningite, com rumores de obra encomendada, coisa de maus espíritos, doença que faz os homens vagabundearem enlouquecidos pelas ruas – os tresandarilhos – agitando os braços como se quisessem voar, e gasta os passos a caminho de casa dos Sozinhos.

Desde o início, o médico – que afinal não é médico porque ainda lhe faltam umas cadeiras do curso – é enredado numa teia de mentiras: «poucos e desamparados, partilhando secretas cumplicidades e sofrendo de um mesmo sentimento de orfandade. A cultura que os criou está longe, noutro tempo, noutro universo. A mentira é o único remédio que lhes resta contra essa solitária lonjura.». Deolinda fora amante de Alfredo Suacelência, o vitalício administrador da Vila e amigo de infância de Bartolomeu ou fora amante do próprio pai? Ou de nenhum dos dois? Morreu de aborto ou doutra doença? Era mesmo filha do casal Sozinho ou irmã de Muda e, assim, cunhada de Bartolomeu?

«A vida é um rio: a água junta e separa»

Bartolomeu e Muda são as duas personagens centrais, soberanamente desenhadas nos diálogos e nos silêncios que os diálogos ostentam, como, aliás, Mia Couto já nos habituou. À semelhança doutros títulos do autor, é aqui retomada, misticamente, a figura de um casal feito de duas águas do mesmo rio, duas vidas ondulantes distintas, mas partes do mesmo destino: «os passos dele são pequenos: de um chão de prisão. Os passos dela são redondos: de quem anda em ilha».
Viviam «como o dedo e o anel: não nos fazemos falta, mas não vivemos longe um do outro», diz a mulher, que «partilhava a condição das demais mulheres da Vila: envergonhada de ter nascido, temente de viver e triste por não saber morrer». «A vida é um rio, Doutor: a água junta e separa», diz ela, caracterizando a vivência da sua dor: «O meu chorar é feito à medida do lenço».

Moribundo, «sombra esvoaçando no escuro» de uma casa onde se mantinha fechado, com os pés cheios de escamas, o septuagenário padece de uma misteriosa doença que dizia ser de família: dizia estar a lagartar-se, pois já o avô tinha morrido lagarto. Ao médico, faz pedidos insistentes: para «alvoroçar o coração, solavancar o corpo», pede uma das novas «pretas loiras, de olhos azuis» ou uma catorzinha ou até a sua mulher, disfarçada de puta, pois foi sempre ela que ele quis; mas, sobretudo, ele que sonhou ser mecânico «para consertar o mundo», pedia ao médico que o curasse de sonhar, pois «sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança contra um destino que é sempre tardio e pouco»: «Todos elogiam o sonho, que é o compensar da vida. Mas é ao contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos».

«O tempo é o lenço de toda a lágrima»

«O sofrimento é sempre a nossa escola maior», diz Bartolomeu enquanto se deixava «existir, com a mesma inércia que o crescimento das unhas». A sua doença era a saudade, essa doença do tempo que semeia perdas e desata a vontade de nos unirmos a elas ou ressuscitá-las pelas lembranças: «O Homem entende a vida. Mas só os bichos entendem a Morte.». Também Muda padecia da mesma doença que a fazia, todos os finais de tarde, ir ao rio chorar ou derramar a sua tristeza junto da campa de Deolinda.

O jovem médico resolve cortar as amarras com aquela terra e regressar a Lisboa. Mas a ponte entre culturas fora erigida e ela é indestrutível, mostra-nos soberanamente, e uma vez mais, Mia Couto: o médico carregava com ele um novo possível encontro, com Isadora, verdadeira filha de Bartolomeu, fruto de uma das suas viagens de marinheiro a Portugal e que viveria perto de Lisboa. Por outro lado, o tempo da memória, lugar habitado pelas almas agarradas à terra, passa a ter outro representante; uma mulher misteriosa, vestida de cinzento, sentada à beira da estrada, por onde passa a camioneta que leva Sidónio, acabada de chegar com uma missão: semear por toda a Vila as flores brancas do esquecimento, flores que se plantam junto dos cemitérios «para que os mortos se esqueçam de que, em algum momento foram viventes».

Numa narrativa cristalina, que nos arranca sorrisos e estremecimentos, Mia Couto mostra-nos mais esta verdade existencial: todos somos feitos de tempo e na nossa alma vivente vivem também todas as almas que tocámos e que já partiram, mas que, desobedientes, recusamos deixar ir… Para «venenos de Deus, remédios do Diabo»...


Venenos de Deus, Remédios do Diabo, Mia Couto; Editorial Caminho, Lisboa 2008


Outros artigos meus sobre Mia Couto, editados há 3 anos:

http://www.triplov.com/letras/teresa_sa_couto/mia_couto.htm


© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O DOMADOR DE VENTOS

«Aonde o Vento me Levar» é um título de Manuel Jorge Marmelo. Título ardiloso que indicia o grande jogo que se joga entre a palavra na deriva do vento e o único que os pode dominar: o escritor. E este é o grande e misterioso jogo entre o criador e a criação que o autor cumpre com engenho, também no desafio com o leitor.

«O número de rios não é infinito; um viajante imortal que percorra o mundo acabará, algum dia, por ter bebido de todos», escreveu Jorge Luís Borges. Também Manuel Jorge Marmelo se propõe, e nos propõe, «descobrir esse rio» onde se mata a sede de quem somos e onde, mirando-nos nas suas águas, nos podemos redescobrir. O livro que agora sugiro dá conta dessa demanda, é um espaço cósmico, espelho e mapa do universo, o Aleph, lugar onde confluem «sem se confundirem, todos os lugares» da terra, todos os livros e todos os homens. E cumpre-se uma leitura de alquimias.

Todos temos algo de fixo e de movediço. Também nesta ficção, o narrador, o Eu, propõe-se escrever um livro de viagens sem sair do seu lugar. Assim, envia a personagem «M.» para que lhe envie notas que ele converterá em literatura. Mas o que acontece ao projecto literário quando a personagem tem ganas de autonomia e subverte os papéis tornando-se ela no escritor, deixando o primeiro escritor à deriva? Podem as personagens escrever um livro relegando o escritor para o papel de observador? E pode esta peleja ser substantiva ao ponto de com ela se urdir uma narrativa? Manuel Jorge Marmelo responde-nos em 158 páginas de reboliço, como sempre o são as da melhor literatura.

O escritor e a criação

«Começa aqui o meu desespero de escritor. Toda a linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que a minha tímida memória mal abarca?», escreveu Jorge luís Borges em «O Aleph» (1949). Também Manuel Jorge Marmelo, detendo-se nessa tensão entre ficção e realidade, e como elas se contaminam, apresenta-nos a quimera literária através de um narrador céptico que maldiz o método utilizado para escrever, lamentando-se por «ter deixado entrar tanta realidade no casulo de livro» que construiu dentro de si, concluindo: «eis, pois, o que me falta: copiar, inventar e mentir.

A isto se resume a literatura.». Este princípio de ocultação da realidade como motor da obra literária é veiculado por Enrique Vila-Matas no seu último romance Doutor Pasavento, com a personagem que, de um quarto e cidade reais, passeia «por alamedas mentais nesse fim do mundo onde se colocou» o seu cérebro: «desaparecer é ceder lugar ao outro» e, «quem quiser ir mais além terá de desaparecer».

Em «Aonde o vento me levar» mostra-se como a ficção é um caminho de introspecção e, por isso, gerador de realidade: «M. talvez nem sequer exista. Tê-lo-ei arrancado de dentro de mim, como um pedaço inútil das minhas entranhas, e, ao fazê-lo, dei-lhe uma vida que jamais terei. Mesmo se não devo excluir completamente a possibilidade, nada remota, de me ter ele inventado a mim, enche-me de um peculiar orgulho saber que essa porção daquilo que sou (ou julgo ser) foi já tão longe.»

Homenagem a África

Com o narrador, anda o leitor de cá para lá, entre páginas de outros livros que ele lhe abre, a sorrir pela consentida sujeição à leitura – ou deslumbrado com o Aleph de Manuel Jorge Marmelo, que o envolve em sons, cheiros e texturas de África –, pouco se importando com os seus lamentos por não conseguir uma história que dê corpo ao seu livro.Escreveu, ainda, o escritor argentino: «Vi milhões de actos agradáveis ou atrozes; nenhum me assombrou mais que o facto de todos ocuparem o mesmo ponto, sem sobreposição e sem transparência. O que os meus olhos viram foi simultâneo; o que escreverei será sucessivo, pois a linguagem o é. Algo, no entanto, registarei.».

De incertos e longínquos locais da África profunda, descalço para se fundir com a terra, “M.”, que não está quieto, «escreve e escreve e escreve» e vai enviando aerogramas que o narrador reproduz, não sem se questionar sobre a inutilidade da viagem e sobre o espaçamento com que lhe chegam alguns dos bilhetes de M. que, «Se está num sitio e, depois, aparece escrevendo em outro bastante distante, algum caminho há-de ter feito». Metáfora da inventiva literária, que pode atravessar fronteiras onde bem entende: «Não tenho passaporte e sou quase incorpóreo (…) Afago a casca grossa dos embondeiros e neles sinto a muda palpitação da terra. Faço amor com as árvores e acaricio a pele dos rios. Mergulho os dedos na terra para fecundá-la de mim.».

«Aonde o vento me levar» é a «síntese imperfeita de um livro sobre coisa nenhuma e no qual nada acontece»: “M.” viaja «sem rumo predefinido», como tantas vezes qualquer um de nós o faz; a viagem de “M.” é «destrambelhada, temerária e estéril» como sempre o é, nalgum ponto, a existência humana; “M.” tem um «segredo, uma contra-senha, um abracadabra», como todos nós. Cabe-nos, pois, usar a chave que nos coube para acedermos à nossa outra porção. E há que partir e ir até aonde o vento nos levar.

Aonde o Vento me levar, Manuel Jorge Marmelo; Editorial Campo das Letras, Porto

© Teresa Sá Couto