segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Portugal inovador e retrógrado

Reedição de José Sebastião da Silva Dias

Editado pela primeira vez na revista Biblos, da Universidade de Lisboa, em 1933, o ensaio «Portugal e a Cultura Europeia (séculos XVI a XVIII)», de José Sebastião da Silva Dias, falecido em 1994, foi reeditado pela Campo das Letras, há dois anos.

Se é, em primeira instância, destinado aos estudiosos do tema, é impossível trilhar as suas páginas sem que bebamos delas o sentido crítico desta forma de ser português em constante tensão entre a magnificência de ideias novas e o enquistamento das ideias tradicionais e retrógradas que emperram aquelas e, por isso, o desenvolvimento cultural.
Com o rigor da academia, o excelso retrato de Portugal na sua relação com a cultura europeia na “primeira globalização” instigada pelos Descobrimentos, e o portento da reflexão que chega indemne à nossa psicologia, o ensaio de Silva Dias suscita-nos espanto, deslumbramento e alerta-nos para o seu carácter imprescindível.

No século XVI, assumindo uma «feição militante», o Humanismo, casado com as formas renascentistas, propunha o renovo de ideias, sentimentos e hábitos, colidindo com o legado da idade média, os «vícios didácticos da Escolástica», apontando, também, a «decadência religiosa da sociedade». As empreitadas ultramarinas dos portugueses lançam o país na efervescência inovadora, além de inscreverem Portugal no mundo. Numa primeira fase, o processo é apadrinhado e incentivado pela Coroa, exultante dos novos tempos.

No «zénite dos descobrimentos», lê-se, deu-se a convivência do país com os meios intelectuais de além-Pirinéus», e uma «afluência crescente de estrangeiros aos nossos centros comerciais e marítimos. Os primeiros a chegar foram os espiões, mareantes e homens de negócio, atraídos pela esperança de prémios e lucros fabulosos. Os turistas e letrados vieram logo a seguir.». Ao mesmo tempo, portugueses contactavam com as ideias de Erasmo, Budeo, Lefèvre d´Etaples, Luís de Vives, resplandeciam Galileu, Bacon, Kepler, Harvei, entre muitos outros chamados minuciosamente para as páginas deste Ensaio.
Porém, e concomitantemente, a reacção contra o espírito da renascença e da Reforma, anti-humanista e anti-luterana surgia célere. Se o régio Mecenas, D. João III, tinha nas universidades estrangeiras, sobretudo a de Salamanca, o modelo para a Reforma, a breve trecho foi vencido nos seus sonhos de renovo coagido pela força tentacular da igreja e seus processos inquisitórios que alarmavam para o “descambar dos comportamentos” e «progresso da heresia».

Se a introdução da Medicina na Universidade - com a criação das cadeiras de Anatomia e Cirurgia em Lisboa e Anatomia, Medicina e Cirurgia em Coimbra (1556-57) - reflecte a influência do espírito europeu, todavia a escolha errada dos professores, por mau aconselhamento do Rei, fez com que a Universidade entrasse em crise por não corresponder «ao espírito que animava os humanistas e homens de ciência mais esclarecidos». Também a entrada dos jesuítas em Portugal suscitou contradições de carácter ideológico. Em vez de constituir a antítese mental do Humanismo, o ensino jesuíta «aceitava-lhe os métodos e as reivindicações, ou seja, a reforma dos costumes e o renovo da cultura». De notar que a companhia de Jesus forneceu ao país teólogos, filósofos e humanistas de gabarito. Acusados pelos opositores de «místicos iluminados», pretendia-se, no fundo, «diminuir o seu império na formação da juventude e a sua insistência na purificação dos costumes».

Os portugueses «tinham de continuar cristãos e católicos», hasteavam as forças contrárias ao renovo. Surgia a censura inquisitorial – em 1540 surge o primeiro Rol de Livros Defesos, lista de obras suspeitas, para em 1624 surgir um índice expurgatório aumentado, com a regra nº 10 a proibir «quaisquer livros em língua inglesa, Flamenca ou Tudesca», além de advertências contra livros franceses e outros de «terras estranhas» –, e intensificava-se a hostilidade do Santo Ofício contra os pregadores favoráveis à reforma dos costumes e da piedade cristã. A sua actuação, refere-se, «radicava no temor que a sua capacidade pudesse perturbar almas, abrindo aos humanistas e luteranos uma passagem que a todo o custo se queria barrar. Foi isso que despertou os ânimos, empenhando a inquisição e a opinião pública dominante numa campanha de grande estilo contra o espírito da inovação.».

Aos poucos, os estrangeiros que cá leccionassem, abandonavam o país, talvez por receios de «desgraças ou incómodos, com que já Garcia da Horta se vira a braços e que talvez tenha influído na prudente indiferença de Pedro Nunes às ideias de Copérnico». Será nesta altura que se dará a primeira conhecida Fuga de Cérebros, enquanto que outros, enfrentavam em Portugal as perseguições do Santo Ofício, ou ainda outros, menos afoitos, ficavam por no país fechados no silêncio. Expoente máximo das letras portuguesas da época, D. Francisco Manuel de Melo, que «vegetou, anos e anos, em cadeias e degredos», apresentou os portugueses com as ideias castradas, recalcados e resignados às rotinas, «sempre receosos de toda a especulação, contentando-se de saberem o necessário para dirigirem condignamente suas acções de corpo e espírito, sem alguma mistura de supérfluas disciplinas». Também no século XVIII, Luís António Verney em «O Verdadeiro Método de Estudar», que caiu em Portugal «como uma bomba», apontava o nosso isolamento cultural e o erro de em Portugal se desprezarem «todos os estudos estrangeiros, e com tal empenho, como se fossem maus costumes ou coisas muito nocivas».

Todos constatamos que, em pleno século XXI, lá vão irrompendo das trevas forças ideologicamente retrógradas com o intuito de bloquear a dinâmica da evolução, quase sempre, e porque é a única metodologia que conhecem, com técnicas extremistas e hediondas. Se este Ensaio nos mostra os séculos de luta entre a luz e as trevas, para forte domínio destas últimas, também nos mostra que, por se conhecer aquele, o poder está na luz da nova sabedoria dos tempos.

Portugal e a Cultura Europeia (séculos XVI a XVIII), José Sebastião da Silva Dias; Editorial Campo das Letras, Porto 2006

© Teresa Sá Couto

sábado, 13 de dezembro de 2008

O mundo habitável de António Drumond

«O preto, o branco e alguma cor»

Diz-se que uma imagem vale por mil palavras. Preferimos dizer que uma imagem cria mil palavras: é pelas palavras que damos forma ao espanto e à inquietação que uma imagem nos provoca quando nela habitamos. Na minha conhecida paixão pela fotografia, descubro António Drumond, fotógrafo que nos dá imagens, moradas de deslumbramentos e arrepios.

Ligado à inovação da «fotografia portuense e portuguesa» da década de setenta, Drumond chega-nos no livro antológico «O preto, o branco e alguma cor», com a chancela da Campo das Letras. Capa dura, forrada a tecido, com o nome do autor embutido, negra total, a guardar o intimismo do interior, primordial, cósmico e vital. Com textos de Bernardo Pinto de Almeida, que diz que o trabalho de Drumond foi fabricado lentamente, «despreocupado do tempo, porque se sabe feito de tempo», e de Maria do Carmo Serén que lhe reconhece uma «atmosfera alquímica», este Álbum de fotografias é um presente singular para emoções fortes.

O texto de Bernardo Pinto de Almeida, com o título «Tão Longe e tão Perto», contextualiza e faz uma retrospectiva do fotógrafo nascido no Funchal em 1936, residente no Porto desde 1959. Antecede o primeiro conjunto de fotografias que revelam o carácter contemplativo do fotógrafo, tido não por «um contemplativo qualquer, impedido de acção», mas alguém que «escolheu a via da sageza que passa pelo ameno de contemplar as coisas.». Mestrias de um artista raro que, defende-se, «ao grande ruído do mundo que o rodeia, preferiu desde sempre mergulhar no espaço interrogativo da sua própria solidão, apetrechando-se da capacidade» de «considerar a contemplação como processo interior do acto criativo».

Contemplação criadora e questionamento enformam as fotografias logo dos primeiros tempos, imbuídas por uma estética neo-realista que desvela, arrebatadoramente, «rostos humildes e quase resignados», apreende «o pulsar discreto» do que é simples, e «guarda, se não na memória, na imagem que o perpetue». Nos anos de 80 e 90, o fotógrafo seguiria por um sentido de paisagem «mas não para um paisagismo», criando imagens «metafísicas de espaços semi-abandonados, de paredes ou árvores que secaram, quase só texturas de telhados e muros puídos pelo tempo, tanto, ao menos como roupas de criança que fotografou em campos abandonados», «ruas esquecidas pela história», «acessos a lugar nenhum», «silhuetas difusas no nevoeiro», refere Pinto de Almeida.

O programa existencial de Drumond

Surpreendente nas fotografias de Drumond é a sua relação com o real, uma verdadeira experiência instaurada pela poesia que constrói um mundo interior, que é sempre uma tentativa de libertar o real. Neste sentido, o seu trabalho é um programa existencial. Surgem-nos retalhos do real, com cenas coadas pela neblina de um pesadelo evidenciando o mistério do olhar do fotógrafo, fulgurações que se erguem ante nós.

Nesta peugada, Maria do Carmo Serén, que assina o segundo texto intitulado «Espaço do tempo», fala de «Rendilhado de um olhar pleno» e «metáforas de ocultamento», com o fotógrafo a acrescentar «a sua sombra à sombra das coisas». A encenação e o jogo de contrastes entre luz e sombra, o grão que esbate os contornos, revela-nos as imagens cada vez menos imagens e mais telas impressionistas. Surgem pormenores de curvatura de corpos femininos, subvertendo o estatismo da fotografia, que passa a ostentar o movimento sensual e ondulante de corpos que falam. E tudo ondula: o corpo, o tecido inquieto sobre a pele, a comunicação que atinge o espectador.

Figura integrante do Grupo IF, Drumond manteve o tecnicismo fotográfico, mas «superou-se, pela abstracção crítica». No fim da década de 90, enveredava por outras experiências de composição, com «sobre-impressões» e colagens, fruto de uma «arte espantada com as possibilidades da sua própria invenção técnica, mais do que com o real que a despertava», refere Pinto de Almeida , «juntando o paradoxal e o imprevisto, como um jogo de dados e um punhal. Os fundos dos ecrãs negros testemunhando a noite, o âmbito do sonho», interpretando numa densidade enigmática a morbidez do mundo, nos manequins, nos espelhos, «como se nele enfim encontrasse o seu olhar uma outra forma de repouso.». Caminhos trilhados de um projecto existencial, que deixam no leitor o sobressalto e a lenta urdidura de descobertas indizíveis.

O preto, o branco e alguma cor, Álbum de fotografias de António Drumond com textos de Maria do Carmo Serén e Bernardo Pinto de Almeida. Design gráfico de Armando Alves; Editora Campo das Letras, Fevereiro de 2006

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Livros para o Natal das crianças ( parte II)

As Grandes Histórias da Bíblia

A Bíblia ensina-nos a amar o próximo e também a amar os nossos inimigos provavelmente porque eles são, em geral, as mesmas pessoas”, escreveu o escritor americano Mark Twain (1835- 910).
Batamos à porta desse belíssimo jardim das Escrituras”, escreveu o monge e teólogo João Damasceno (675-749).

Jardim da imaginação que explica a formação do universo, da criação narrativa que desenha a psicologia humana e a relação entre os homens, jardim da História, a Bíblia é uma biblioteca inesgotável, e a sua multidisciplinaridade tem sido fonte copiosa de expressões artísticas e de pensamento. Levá-la às crianças é, pois, ir ao encontro de competências essenciais para a formação do intelecto: a libertação do pensamento e, consequentemente, a aquisição da atitude crítica, a qual é, aliás, um direito humano.

Não obstante a profusão de versões infantis, ficamos surpreendidos com o novíssimo «As Grandes Histórias da Bíblia», dirigida a crianças a partir dos oito anos. Com o selo Larousse e editada pela Campo das Letras, a obra vem comprovar o carácter inesgotável dos livros antigos e o invento artístico que incentivam. Espanta-nos a beleza e sofisticação do livro, enquanto objecto, outrossim a convergência do texto com a arte pictórica e erudita das ilustrações de Michelle Daufresne, que usa uma técnica mista com cor aquosa e delicada conjugada com pinceladas de lastro grosso, granulado, colagens, concorrendo para a sensação de relevo, num jogo visual profuso, envolvente e enigmático, predicados que também divisamos na mensagem escrita: na subtileza e sentido oculto das parábolas, na indagação dos segredos dos provérbios, na reflexão sobre o que há de bom e de mau no ser humano.

Alicerce dos cristãos, os textos evidenciam, todavia, a concepção universal do homem e é esse o leitmotiv que importa aqui destacar. Confira-se no extracto de «Jesus Prega na Montanha», Novo Testamento, página 146:
«Não julgueis para não serdes julgados, pois com o juízo com que julgais sereis julgados e com a medida com que medis medir-se-vos-á. Porque é que reparas no argueiro que está no olho do teu irmão? E a trave que está no teu próprio olho, não reparas nela! Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então verás com clareza para tirar o argueiro do olho do teu irmão

São 200 páginas para se lerem e contemplarem com as crianças, no aconchego de uma lareira, no laço da cumplicidade entre gerações. Narram-se 54 episódios do Antigo Testamento e 36 episódios do Novo Testamento seleccionados por Dominique Barrios-Auscher, cada um, que ocupa duas páginas em livro aberto, é antecedido por uma introdução que os contextualiza na narrativa bíblica e no autor. Para que nada falte à viagem da procura do mundo mítico, e da verdade humana.


Os gnomos, a guerra e os laços

«O Pai Natal Vai à Guerra» é um livro ilusionista, na história e nas ilustrações, que nos chega também pela mão da Campo das Letras. Destinado a crianças a partir dos cinco anos, contém todo o sabor do Natal, incluindo o efeito da surpresa tão caro ao argumento da festa natalícia: é que, se o Pai Natal anda, como sempre, ocupadíssimo na organização dos presentes, ele é ajudado na árdua tarefa, não pelos seus assistentes costumeiros, mas por umas amáveis figuras: elfos, que lavam a cara com orvalho e bebem «leite lunar,» e que saltam, inusitadamente, do paganismo da Mitologia Nórdica para o Natal cristão do século XXI.

Porém, a insurreição da talentosa dupla grega de autores (texto de Aryiro Kokoreli e ilustrações de Nicholas Andrikopoulos) não se fica por aqui: o Pai Natal tem presentes para todos, para «crianças inteligentes», para os «menos espertos», para os que têm «brincadeiras violentas» e para os calmos; tem presentes para cães e até «queijo para um rato de estimação»; além destas novidades, o Pai Natal confronta-se com uma situação para a qual tradicionalmente não está habilitado: no regresso das entregas, as renas perdem-se e acabam por ir parar a um local em guerra, onde encontra um menino a chorar que, de presente, lhe pede comida.

Sem ter com ele alimentos, não estando preparado para oferecer aquele presente fora do habitual, o velho amigo das crianças sugere-lhe outros pedidos que possa satisfazer. Com frio, o rapaz acaba por receber o casaco do Pai Natal e um convite para sair daquele lugar com o velho, convite que declina, por, apesar da destruição da guerra, ser ali o local da família e dos amigos, logo, a sua casa. Uma lição de amizade e abnegação, vinda de uma criança que se tatuará, seguramente, na sensibilidade e memória dos pequenos leitores. E não é este o espírito da quadra da fraternidade?

Grandes, expressivas e de cores quentes, com poucas variantes para não haver dispersão na mensagem pictórica, as ilustrações são o complemento do intimismo e o incentivo à viagem que cada um fará dentro de si mesmo.

© Teresa Sá Couto

Alberto Carneiro, o artesão da natureza

Lições do mestre «Prémio de Artes Casino da Póvoa»

Tem 71 anos e expõe a sua arte há mais de quarenta, em Portugal e no estrangeiro. Vive na terra onde nasceu, na aldeia do Coronado, Trofa, envolvido pela natureza original e vigorosa de um vale entre o Douro e o Minho.
«A Natureza sonha nos meus olhos desde a infância», diz Alberto Carneiro, o artista plástico que tem vivido com a natureza uma relação íntima, dialogante e de mútua revelação: olha a terra, os vimes, os troncos, as raízes e as pedras para descobrir-lhes o que ainda lá não está, e redescobrir-se, ser humano, mostrando-o ao mundo.

«Perante a obra o espectador completa-a na medida em que a re-faz sua», escreve Bernardo Pinto de Almeida no álbum Alberto Carneiro – Lição de Coisas. É uma magnífica monografia editada no âmbito do «Prémio de Artes Casino da Póvoa 2007», que distinguiu o artesão da natureza, cuja arte, em época de urgência pelo respeito ambiental, é uma lição maior. A chancela é da Campo das Letras, em parceria com o Casino da Póvoa.

Alberto Carneiro – Lição de Coisas é um álbum de luxo com 242 páginas, com oito capítulos temáticos e a Biografia de Alberto Carneiro, antecedidos de uma majestosa Introdução. Está repleto de fotografias de alta definição de desenhos, projectos de esculturas, exposições e instalações do artista, tudo enquadrado pela excelência do texto do Historiador de Arte e Professor Catedrático Bernardo Pinto de Almeida, incansável na interpretação e divulgação da arte que por cá se faz, e a quem, por tudo isto, a Cultura portuguesa deve muitíssimo.

A mandala do artista

Nas antigas filosofias orientais, Taoísmo, Zen e no pensamento de Lao-Tsé, Alberto Carneiro encontrou o processo de construção da sua mandala, o caminho da reflexão interior, a busca da sua consciência e iluminação que aplicou no acto criativo: uma prática filosófica «que requer profunda iniciação e que se liga com o conhecimento do corpo e da mente e da sua inter-relação, bem como a relação destes com o cosmos de que somos também nós manifestações a um nível microcósmico», escreve Bernardo Pinto de Almeida.

Designando a obra do artista como «política ou ecologia do sensível», que não investe «na transformação do mundo, mas na transformação da própria consciência», Pinto de Almeida aponta-lhe consequências maiores: «proporcionar ao espectador não um lugar passivo mas um lugar activo, em que a obra se lhe chegue a revelar como um caminho de iluminação da sua própria consciência, instrumento com que pode, por sua vez, actuar sobre a obra.».

Actuando sobre a paisagem numa intervenção estética, o artista transforma o objecto-natural numa segunda natureza; assim, refere o texto: «o artista (a arte)» é «um mediador entre natureza primeira, a natureza-natural, e a natureza segunda, artificial, que é a verdadeira natureza do ser humano».

Neste projecto de encontros do homem com naturezas, sempre em busca da sua identidade, estão as composições O Canavial: memória-metamorfose de um corpo ausente, 1968, Uma floresta para os teus sonhos, 1970, Um campo depois da colheita para deleite estático do nosso corpo, (1973-76), com palha de centeio ou trigo e de feno, Os sete rituais estéticos sobre um feixe de vimes na paisagem, 1975, entre muitas outras apresentadas, de forma minudente, neste álbum.

Trajectos do corpo

«O teu corpo reflectido nesta obra como imagem transforma-se em arte na percepção estética de ti mesmo», escreveu Alberto Carneiro no aforismo que acompanha a composição «Meu Corpo Árvore». Com efeito, os planos da consciência, o «vigor orgânico» das esculturas talhadas na madeira, a emoção estética do corpo, água, vento e fogo inscritos na madeira ou na pedra provocam no espectador estranheza e surpresa perante a originalidade e o mistério da luz experimentada.

Imprescindível, o presente álbum é um subsídio para a compreensão da obra do artista, esclarece as obras mais enigmáticas de um percurso criativo assim explicado pelo próprio artista: «Afinal saí pelo meu corpo. Corpo e mente. Unidades de corpo. Ela nele e ele por ela. Desenvolvimentos para o cosmos. (…) Pegar na montanha, na árvore, moldá-las em matéria arte e inscrever nela os gestos da memória do corpo sobre a terra – todos os caminhos, todas as viagens, todas as mudanças, todos os saberes, todas as inquietações…».

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A grande narração do mundo

Um Álbum fotográfico de Ricardo Fonseca

Nos passos da excelência editorial, os nossos caminhos alcançam o mundo todo pelo olhar de Ricardo Fonseca. São «Registos do Olhar» coligidos no indizível: um álbum de fotografias de papel brilhante, embutidas em grandes páginas branco baço. O olhar é nómada, tal como passa a ser a alma do espectador por ele aprisionada. Um Cosmorama, refere Mário Cláudio sobre o universo feito espectáculo, no texto de introdução que comprova que também o escritor ficou cativo do olhar do fotógrafo.

«Aparição do mundo: a terra escorre /Pelos olhos que a vêem revelada», dizem versos de Sophia e que Ricardo Fonseca enche de sentido. Por isso, a viagem é imperdível. É-o do Alentejo à muralha da China em silêncios comunicantes, do labor da ria de Ovar a Guangdong, do Porto a Praga. É-o nos rostos que o disparo mágico perpetua, de crianças do Foradouro a Chiang-Mai ou dos velhos de Barcelos a Goa. Parafraseando Goethe, «somente agora, pois, a Odisseia tornou-se para mim palavra viva».

Munido da máquina que capta o mundo, «de luzes e lentes, desvenda-nos ele o planeta que nos coube, e onde soa a música da charamela que acompanha a actuação das criaturas», escreve Mário Cláudio no texto de introdução. A realidade é decantada e fixada por um processo de encenação, e assim a arte fotográfica não copia, antes recria e questiona o real.

«O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz, os astros, as águas e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas. Aprendeu a nomear o mundo. Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada; sabe que o homem não foi feito para ficar quieto. A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue, mata-lhe a alma – estagna o pensamento. Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água. Vive ali, e canta – sabendo que a vida não terá sido um abismo, se conseguir que o seu canto, ou estilhaços dele, o una de novo ao Universo», escreveu Al Berto.

Ora, este álbum de Ricardo Fonseca nega o sedentarismo e o «fado de sermos sós», opera no espectador essa união com o universo, instigando-o a participar no enredo com o seu próprio olhar. «E aqui é que entramos em cena todos nós, espectadores que por fim acederam aos segredos da função. De facto não há quem sinta sem ser sentimento(…) a todos cabe o direito à indetível passagem pelo cosmorama de feira», escreve Mário Cláudio. Entramos e jamais saímos deste mapa-múndi narrativo onde acontece um grand tour pessoal.

Discursos infinitos do olhar

«Fascinados pelo rodopio de projecções do cosmorama», é no entanto impossível não se encetar o diálogo e fazer-se a consequente recriação do mundo dos fotogramas. Solta-se o discurso sobre a vida, a morte, os credos: Cristo crucificado em Macau ou a sua figuração humana, fatídica e sinistra, em Vilar de Perdizes, para, no passar da página surgirem figuras de Buda, em Bangkok, alheias aos conceitos da morte e do trágico, gozando e exalando o precioso Nirvana. Segue-se o exotismo de Katmandu, rituais de morte de Pashupatinath, e o silêncio de um cemitério relvado com cruzes brancas, em Manila, onde assoma, num audível encarnado, um sinal Stop. O carácter histriónico da morte surge, com o seu esqueleto, em Nova Iorque, em Pashupatinath, ou no Carnaval de Veneza; máscaras da vida são detidas em Vila Nova de Gaia, Patan, Goa e Banaué, e o exotismo figurativo é colhido em Singapura, Ilha de Lantau, Kathmandu e Amesterdão.

Metáforas da vida humana e da existência das coisas enformam, ainda, outros discursos sobre o efémero, o transitório, a espera. Eles estão nas casas de Cuenca em equilíbrio nas escarpas vermelhas, nos edifícios em flutuação nos planos líquidos de Veneza, nas gaiolas de aves de Hong kong – como as dos homens nos arranha-céus de Kuala Lumpur- para se seguirem outras asas, livres, mas imóveis, as de uma gaivota em são Francisco, e o da ave de Helsíquia, num interregno do voo para a entrega a uma espera. Idêntico estatismo num misto de espera intensa e abandono verifica-se no homem da loja de tecidos garridos de Goa, com uma fita métrica pendente do pescoço e na noiva de Hong-Kong, sentada no sopé de uma longa escadaria, no seu vestido branco plissado, e ramo de flores de viço efémero que, também ele aguarda numa reticência, entre a mão mole que o segura e o degrau de pedra…

Enquanto se espera, a câmara escura regista o indefinível e fixa quadros de labor: os dos barqueiros de Guangdong, os da Ria de Ovar, de Sesimbra a bordo do Pastora, ou detém-se em chapéus e espreguiçadeiras no oceano cristalino da Ilha do Coral, no Pó vermelho sequioso de água do Dubai, nas tintureiras de Fez, nas dobadeiras de Shanku, nas lavadeiras de S. Tomé com as roupas coloridas espalhadas na margem do rio que as lava.

Peregrinação infinita, esta, que nos dá Ricardo Fonseca, que «só no infinito atinge o cais de chegada», escreve Mário Cláudio. Tal como Ulisses na busca da sua Ítaca, o mais importante não é chegar, é partir e viver a grande travessia, como lembrou o poeta egípcio Constantine Cavafy: «Mas não te apresses nunca na viagem. / É melhor que ela dure muitos anos, /que sejas velho já ao ancorar na ilha, / rico do que foi teu pelo caminho, / e sem esperar que Ítaca te dê riquezas. / Ítaca deu-te essa viagem esplêndida. / Sem Ítaca, não terias partido. Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te. / Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu. / Sábio como és agora, senhor de tanta experiência, / terás compreendido o sentido de Ítaca

Nota: Ricardo Fonseca é autor dos livros "Imagens/Miragens", com texto de Cecília Jorge, "A Cidade do Levante e Oriente", ambos com texto de Mário Cláudio, "Taipa e Coloawe", com texto de João Carvalho, "As Cinco Portas de Macau", com texto de João Aguiar. É co-autor do livro comemorativo da chegada dos portugueses ao Japão, "450 Anos de Memórias", com texto de Michael Cooper.


Registos do Olhar, Ricardo Fonseca; Editorial Campo das Letras, Porto, Novembro 2006

© Teresa Sá Couto

domingo, 7 de dezembro de 2008

Morreu António Alçada Baptista

Há muito enfraquecido, o escritor António Alçada Baptista morreu hoje, aos 81 anos. Em sua homenagem, reproduzo aqui um texto que elaborei há dois anos sobre este nome grande da escrita e da cidadania portuguesas.

António Alçada Baptista: Laços de Tempo

António Alçada Baptista nasceu na Covilhã, em 29 de Janeiro de 1927. Começou a publicar depois dos quarenta anos. Da escrita fez um istmo onde confluem presente e passado, salvando a memória da voragem do tempo.

Recupera a infância passada na Beira (na fotografia), as mulheres com quem aprendeu o maior laço para a vida: o amor. É com a recordação, pão da sua alma, que se projecta no mundo: «Confesso que não desgosto nada de estar assim, a fazer de psicanalisado sem psicanalista, a tentar destrinçar a meada das herdadas construções do mundo que sinto enoveladas por dentro de mim.» Com uma escrita dialogante, leve e simples, desenovela a sua alma, e convoca-nos para seguirmos com ele em peregrinação à sua interioridade, à cor dos seus dias.

A escrita recuperadora da memória

A infância e adolescência são desveladas com portentosa carga emocional, porém com uma memória selectiva. Alçada não cultiva as situações de possíveis traumas, reservando-se guardar o que de positivo teve a sua infância: os afectos. Afinal, «No fundo, interessa-me a tarefa impossível dos poetas: tentar dizer o indizível.». Fala-nos da sua familia, da sua casa na Travessa da Barbacã, na Covilhã, nos amigos. (in A Cor dos Dias).

Fala-nos da tristeza e da solidão dos seus tempos de bibe como motores de aprendizagem, ou como um «jogo de infância já que fui criado a brincar com uma e com a outra e sou capaz de admitir que, se calhar, era uma brincadeira boa porque, detrás daquele jogo, talvez estivesse o melhor caminho que, nesse tempo, nos levava para dentro do peito, à procura do sentido da vida». Memoralista e reflexivo, romancista e novelista, a sua ficção é, no entanto, muito marcada pela sua experiência de vida. Pelas palavras o autor procura a paz, a serenidade a alegria, a vida que sem esta voz «ficaria sufocada e muda, dentro das entranhas do tempo».

As Mulheres e o Amor

As mulheres são os nós e os laços do afecto, a aprendizagem, a memória constante na reflexão da infância. São as tias, as criadas, amas, que “davam o carinho e a humidade que os homens não tinham para dar”. Em “Tia Suzana, meu Amor”, talvez a sua novela em que o tempo da memória vai mais fundo, pode ler-se:
«Não consigo zangar-me com a minha infância só porque ela estava cheia do carinho das mulheres, mas tudo o mais era uma vida de enganos. Os homens parece que queriam que eu fosse o que não eram, como se estivessem a redimir-se do poucochinho em que se tinham tornado.».

Um tempo em que não se falava do amor e do corpo, nem tampouco do desejo. Um tempo em que a mulher recebia pelas suas manifestações de carinho a frieza do preconceito masculino que aniquilava a exteriorização dos sentimentos. Diz a "Tia Suzana": «Um dia tive prazer e reparei que ele ficou surpreendido. Descobri que tinha que seguir umas certas regras: não podia mostrar-lhe o meu desejo porque ele não gostava e não podia fazer nada para lhe dar prazer(...)Como vês, a vida do meu corpo foi um bocado monótona...».

Foi com estas mulheres que experimentaram o amor sombrio e solitário que aprendeu o amor solar: amar deve ser «uma atitude de compreender e aceitar: é reconhecer os outros e respeitar a sua liberdade». Recusa o amor feito de sobejos, carregado com tudo o que não encontra outro lugar para se explanar: a solidão, as frustrações, a insegurança, o desejo de poder. Assim, defende que no amor ninguém pode ser dono de ninguém, negando a escravidão a que as mulheres da sua infância eram submetidas. A própria fidelidade deve ser exigida à compreensão e liberdade do outro: «a fidelidade ao respeito recíproco da livre singularidade do outro e do livre traçar do seu destino» (in O Riso de Deus). Não se entenda, no entanto, Liberdade por libertinagem, porquanto respeitar o outro é reconhecer que ele é livre e agir em conformidade com esse reconhecimento, esclarece-nos o autor.

Um homem Também Chora

Foi com as mulheres que aprendeu a renegar o preconceito sobre manifestações exteriores de enternecimento dos homens da sua infância. Em «Os nós e os laços» conta um episódio de um funeral onde era patente a divisão cultural entre o comportamento feminino e masculino: as mulheres choravam e os homens mantinham-se sérios. Na altura optou fazer de mulher, e chorou. Tinha escolhido a parte meiga e terna, a generosidade e a delicadeza, a ternura e o afecto, recalcados nos homens, pois assim lhe exigia a sua imagem pública.

Escolhendo a fragilidade, optava pelo poder maior: «As pessoas em geral, e especialmente os homens, não foram ensinadas a viver a radiosa epopeia da fragilidade. Ninguém nos disse que é nessa espécie de fragilidade que está a nossa marca e a nossa grandeza e que só ela nos desvenda o fantástico universo da ternura.». Ousamos acrescentar que "aprendeu a chorar" porque ousou ser feliz. Numa idade de Outono, num caminho sereno, o autor refere que quando lhe dizem ter muita sorte, responde «Nem imaginas o trabalho que me deu ter a sorte que tenho!».

Bibliografia consultada: António Alçada Baptista, in «Os Nós e os Laços»; «O Riso de Deus»; «Tia Suzana, meu Amor»; «O Tecido do Outono» e «A Cor Dos Dias». Todos os Títulos estão editados pela Editorial Presença.

© Teresa Sá Couto

sábado, 6 de dezembro de 2008

Livros para o Natal das crianças (Parte I )

Dos Lusitanos à União Europeia

«Mais que um pedaço de terra com uma História muito antiga, uma nação é a sua gente e o seu património. Portugal também és tu.». É desta forma irremovível, que corre a Introdução do «A minha primeira História de Portugal» de Sérgio Luís de Carvalho, dedicada à miudagem dos 7 aos 12 anos. Dedicada, digo, na ampla acepção do adjectivo, pois é carinho, devoção pelo conhecimento e missão de o transmitir a quem o leva para o futuro, que aqui encontramos.

Sérgio Luís de Carvalho, licenciado em História e mestre em História Medieval, que há muito nos brinda com romances magnificentes de componente histórica, surge neste livro acompanhado por Fedra Santos, licenciada em Design de Comunicação da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, que também já nos habituou à expressividade lúdica das ilustrações que executa. A parceria não podia ser melhor: escritor e ilustradora desenvolvem uma obra objectiva e lúdica, crítica e artística, com rigor histórico e sedução. Mencione-se, ainda, a chancela da Campo das Letras, editora incansável na edição de obras infanto-juvenis de altíssima qualidade, como uma vez mais se comprova.

De capa dura cartonada, «A minha primeira História de Portugal» compreende 20 capítulos, numa viagem que começa há mais de 2000 anos, no tempo dos Lusitanos, seguindo-se o tempo dos Romanos, Visigodos, Muçulmanos, Fundação da Nacionalidade, primeiros reis (do século XIII ao século XIV), consolidação da Independência (século XIV), primeiras viagens dos Descobrimentos (século XV), Grandes Viagens e Descobertas (séculos XV e XVI), o auge do Império, decadência do Império (século XVI), União Ibérica e da Restauração (Séculos XVI a XVII), Absolutismo Régio (século XVIII), novas ideias liberais e invasões francesas (século XIX), conflitos liberais e guerra civil de 1832-34, modernização de Portugal na Regeneração, Primeira República, Ditadura e Estado Novo, Democracia e, por fim, o «tempo da União Europeia». Para que nada falte nesta viagem pela História de Portugal, conta-se, ainda, uma utilíssima Cronologia de 1139 a 2002, uma «Breve biografia dos reis de Portugal nas respectivas Dinastias, a lista dos Presidentes da República» até ao presente eleito Cavaco Silva (com retratos em jeito de caricaturada dos três últimos Presidentes), terminando com um Glossário.

A par da descrição histórica, cada capítulo tem uma pequena moldura ao lado das imagens onde correm apontamentos sobre o pitoresco quotidiano, num registo de diálogo com os pequenos, e agora mais sábios, leitores (exemplo na imagem à direita - clicar na imagem, para aumentar).

Últimas palavras para o Glossário, que fecha a obra e que confirma até ao fim o rigor informativo, a sensibilidade e a desenvoltura de Sérgio Luís de Carvalho na transmissão do conceito que nsempre os parece simples, porém, muitas vezes, revestindo-se de grandes dificuldades ,quando temos de o explicar de forma sintética e clara aos miúdos. Confira-se: «Polícia Política – Corpo policial que reprime os cidadãos devido às suas opiniões ou acções políticas. Às pessoas detidas por esse alegado “delito” chamam-se “presos políticos”.»; «Condição feminina: Designação geral da situação da população feminina, seus direitos e eventuais restrições.».


A minha primeira História de Portugal, Sérgio Luís de Carvalho (texto) e Fedra Santos (ilustração), Editorial Campo das Letras, Porto, 2008

Conhecer para agir – «Atlas das Espécies em Perigo»

Se é sabido que neste momento 15 598 espécies de plantas e animais enfrentam a possível extinção, que 7266 são animais, que, destes, um em cada quatro são mamíferos, um em cada oito são aves e um em cada três são anfíbios, o que é preciso saber para agir?

«Atlas das Espécies em Perigo» é uma novidade editorial da Campo das Letras que vem, se não responder, incentivar à acção. Vocacionado para aqueles que irão tomar as rédeas do planeta – tendo por alvo as crianças acima dos oito anos – e sobre os quais recaem as consequências do presente, o Atlas reúne argumentos imbatíveis: excelso guia, percorre todo o planeta, pelas florestas, desertos, montanhas e oceanos registando a maravilha da Natureza e a inquietação da perda, fotografa e desenha minuciosamente os animais e os seus habitats, localiza-os, contextualiza-os, questiona-os e verte tudo em 96 páginas de grandes dimensões, esclarecedoras e incontestáveis.

A obra é assinada por Sally Morgan, bióloga com centena e meia de títulos publicados sobre história natural, ambiente, geografia e tecnologia, acompanhada por uma vasta equipa. A cuidada tradução portuguesa é de Jorge Pinho.
Ao todo são oito grandes capítulos por Zonas, Tipos de Florestas, Tipos de Pastagens, Desertos, Pólos e Montanhas, Oceanos e Ilhas, cada um organizado em subdivisões que identificam e caracterizam o assunto proposto, numa metodologia ao serviço de uma consulta eficaz, que lhe legitima a categoria de Guia. No final, encontra-se um Glossário, uma coluna a meia página que compila informação sobre quatro Organizações de Conservação da Natureza espalhadas pelo Planeta, com os respectivos endereços de Internet: é um piscar de olhos ao pequeno leitor para, das páginas deste Atlas, alcançar a realidade de quem trabalha no terreno a tentar, por exemplo, proteger o amável boto - golfinho de rio, cor-de-rosa - , o belo e elegante lechwe com os seus chifres em forma de lira; de quem procura a andorinha-de-lunetas, que só foi descoberta em 1968, na Tailândia, e deixou de ser vista em 1978; de quem pelos quatro cantos do mundo vai zelando pelo Património Natural, à espera que a massa humana da protecção ambiental seja em maior número do que aquela o destrói. No final da obra, encontra-se um Índice Remissivo.

Nota: Junto do Natal das preocupações com os verdadeiros reis da Festa – as crianças – podemos sempre contar com os livros, que, depois de bem escolhidos, são os presentes mais que perfeitos. Nesse sentido, esta é a parte I com sugestões de “pérolas de papel” que acabaram de chegar às nossas livrarias. Todavia, na etiqueta Literatura Infantil encontram-se outras sugestões, editadas ao longo do ano.

E ainda, em resposta a mensagens que tenho recebido: PARABÉNS aos que, inspirados pela fotomontagem que há dias editei na parte superior da coluna, à esquerda, se anteciparam aos meus textos e adquiriram algumas dessas propostas infanto-juvenis.

© Teresa Sá Couto

Genialidade intimidadora de William Blake

«O caminho do desmedido conduz ao palácio da sabedoria», disse o escritor, pintor e gravador inglês William Blake (1757-1827). Com talento inaudito, mas tido na sua época por loucura e bizarria, William Blake só alcançaria no futuro o acolhimento e o elogio da sua obra gravada em diversas, mas interdisciplinares, formas artísticas. Com sabedoria, anteviu a imortalidade quando disse: «Se o doido persistisse na sua loucura tornar-se-ia sensato».

No âmbito das comemorações dos 250 anos do nascimento do autor, a editora Antígona lançou o poderoso Songs of Innocence and of Experience, em português «Cantigas da Inocência e da Experiência». A edição bilingue, português e inglês, inclui todas as ilustrações do texto original, tudo precedido por um ensaio de Manuel Portela, responsável também pela tradução da obra. Um livro imprescindível.
Genial, intimidador, inquietante, libertário, humanista, crítico social – nomeadamente sobre a igreja inglesa, apontada com soberba pelo distanciamento que mantinha dos que mais precisavam do seu conforto –, Blake acabaria por ser reconhecido como a voz que propunha a mudança, inclusive pela Igreja Gnóstica Católica, que o santificou.

Manuel Portela fundamenta assim, brilhantemente, estas formas de ser expressas pela arte de William Blake:

«A um Deus zelador e acusador, cuja ira tem de ser aplacada através de sacrifícios, Blake contrapõe um Deus protector, sempre mais próximo das criaturas do que elas podem imaginar. Ao juízo castigador do primeiro contrapõe o amor solidário do segundo, com a sua mensagem de amor, misericórdia, justiça e paz. É no amor divino, de cujo acto gratuito brotaram todas as formas, que se encontra a condição de possibilidade do universo e da própria substancia humana. (…) Recusando o fetichismo da figura divina e as superstições eclesiásticas, reconhece na matéria humana a presença da transcendência, que ele próprio tenta hereticamente transubstanciar na gravura. Percebendo a dimensão política da revelação divina através de Jesus, afirma a necessidade de se quebrarem as leis – instrumentos da prisão do espírito e do corpo – para a afirmação da possibilidade de ser. Só deste modo está ao alcance do indivíduo a autodeterminação para uma vida livre da violência da dominação e livre do medo de si mesmo.».

E escreve assim o inconformado Blake, no poema «O pequeno vagabundo»:

Mãe, querida Mãe, a Igreja é fria,
Mas a Taberna é sã, alegre & quente;
Além disso, eu sei que me tratam bem,
Coisa que a gente lá no céu não tem.

Se na Igreja nos dessem cerveja,
E lume que nos consolasse a alma,
Era orações e hinos todo o dia:
Da Igreja ninguém se perderia.

Pregasse o Padre, bebesse & cantasse,
E nós como as aves na primavera;
A beata, que está sempre na Igreja,
Não vergastava as crianças traquinas.

E Deus, como pai contente por ver

Os filhos tão contente como ele:
Não falava em Diabo ou em Barril
Mas dava-lhe um beijo & roupa e bebida.

Sobre o carácter inesgotável das mensagens de Blake, adverte o tradutor sobre as limitações da tradução, pois «por baixo da forma impressa» continua a «ouvir latejar sons e sentidos que, com outro leque de escolhas, teriam levado o texto numa direcção diferente», e acescenta: «a ilusão de forma final dada pela palavra impressa na página contradiz o movimento sempre vivo e turbulento da linguagem».
É esse latejar inquietante, que mostra os dois lados da alma, que sentimos no magnífico poema «Uma árvore venenosa» (segunda imagem, à direita). Confira-se:

Com amigo me dasavim:
Disse-lho, à ira dei fim.
Desavim-me com inimigo:
Nada disse, cresceu comigo.

Com receios a fui regar,

Noite & dia sempre a chorar:
E o sol foram sorrisos,
E ardilosos avisos.

Foi crescendo noite e dia
Numa maçã luzidia,
Que inimigo cobiçou,
Sabendo quem a criou.

Veio roubar-ma ao pomar
Estando a noite a velar;
De manhã vejo-o bem morto
Junto à arvore do meu horto.


Cantigas da Inocência e da Experiência, William Blake, edições Antígona, Lisboa, Outubro 2007

© Teresa Sá Couto

Revelação de incêndios - poesia de Helena Carvalhão Buescu

«Ninguém fala de termos olhos capazes, / rectos sobre a terra, sem mentir. / Ninguém fala de dissolvermos os enigmas apenas /para desdobrarmos, no fundo deles, os poemas /que os fazem iluminar.». Iluminar lugares esconsos da alma é o ditame do livro de poesia Ardem as Trevas e Outros Lugares de Helena Carvalhão Buescu.

Intimista, subtil, carismática, esta poesia é para ser lida sem pressas, pois só nesse modo sábio ela se liberta, pujante e dialogante. Assim: «pouco a pouco, lentamente, / despimos as palavras e nelas nos despimos, /apresentando a caprichosa alma:/acordando, vestimos a pele/do que aprendemos a tocar,/ sabemos quão breve é este instante,/ e quão frágil a hora de voar

Os homens têm feridas que não se vêem: «Ruivo é o medo», «ruiva é a redonda angústia», lembra-nos Helena Carvalhão Buescu. Com palavras que nos levam de visita às «dobras do que chamamos destino», aos dias que habitamos, «quase de noite», aos dias que sangram, a autora abre as portas daquela casa subterrânea: «As palavras estão ali, e são feridas, quando é preciso; os silêncios também. Porque as mãos são feitas do tempo das nuvens que caíram, os gestos também: como as sementes, as noventa sementes plantadas na terra.».
Organizado em três grandes partes, este compêndio poético desafia a caminhar na «secreta raiz», pelos corredores da inquietação e do estremecimento, possibilitando-nos vestir a pele das coisas vividas e ter nesse gesto um apaziguamento inenarrável. Neste sentido – da mão estendida em direcção a nós, que nos pacifica – esta é uma poesia de revelação, de esperança, contra o esquecimento, contra a morte. Abençoadas mãos que nos devolvem assim as palavras, «o nome das coisas» agrilhoadas na alma.

Para conferir nas 121 páginas e nestes extractos:

Perante a morte estamos sempre sozinhos.
Umas vezes de pé, desassombrados.
Outras deitados em concha, no soalho.
Umas vezes dela falamos, outras não.
Nessas fingimos ter a fala neutra e esquiva,
Como se a tristeza não enchesse o horizonte.

Sozinhos perante ela certo é que estamos.
Dobramos o riso na curva dos caminhos,
Juntamos mãos a outros gestos já traçados,
Calcamos passos sobre a terra
E beijamos, nos nossos filhos,
A memória que, nossa, não teremos.

Traço as letras. Ao traçar as letras,
Sei de que falo.
Entretanto, nunca o saberei.

****
Talvez tenha sido esse o dia (foi seguramente)em que falaste de asas,como se a noite as fizesse crescerpor delas falarmos:e houvesse, ao nosso lado,o intermitente rufar das suas penas.

****
Só ontem disseste caminhamos sozinhos,
e por isso só ontem te entendi:
o silêncio do mundo está cheio de vozes.

Ardem as trevas e outros lugares, Helena Carvalhão Buescu; Editorial Campo das Letras, Porto, 2007

© Teresa Sá Couto


segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Escrita com sangue

Respondendo a vários pedidos, deixo aqui este texto sobre o «Terceira Residência» de Pablo Neruda, obra editada pela Campo das Letras e que se segue ao «As Uvas e o Vento». A tradução é, uma vez mais, do poeta beirão Albano Martins. São poemas escritos de 1935 a 1945, no contexto da Guerra Civil Espanhola, do assassinato do poeta Frederico Garcia Lorca e da Segunda Guerra Mundial.

Assim, «Terceira Residência» não colige o tempo da Primavera, do florescimento, da esperança, como o «As uvas e o Vento». Esta é a residência ferida pela violência da guerra, do sangue, das «pústulas,» da dor e da revolta, das «agulhas do Inverno com rajadas,» chuvas e rios de «águas iradas». É o tempo dos poemas estrídulos que, furiosos, «ferem os silêncios» da morte, do sofrimento, da destruição: «De tudo o que fiz, de tudo o que perdi, /de tudo o que ganhei sobressaltadamente, /em ferro amargo, em folhas, posso oferecer um pouco.».

Com uma missão definida, cumprida com a palavra crua e cirúrgica, o poeta chileno é o arauto da carne torturada e fria, espia «debaixo da terra», a «terra final», cava «mais longe que os olhos humanos, /mais longe que as unhas do tigre», para impedir o esquecimento dos mártires, para repartir a dor pelo futuro, para que o sangue continue a viver, «indelével como o amor»:

«Vidas reclinadas junto da minha roupa como pombas paralelas, /ou contidas na minha própria existência e no meu som desordenado, /para tornar a ser, para aprender o ar nu da folha /e o húmido nascimento da terra na grinalda: até quando /devo voltar e ser, até quando o cheiro /das flores mais enterradas, das ondas mais trituradas /sobre as altas pedras, guardam em mim a sua pátria /para tornar a ser a sua fúria e perfume?».

Escrito em 1936 -1937, o poema «Espanha no Coração – Hino às glórias do povo em guerra» inclui-se na IV parte deste «Terceira Residência», gritando a ignomínia da Espanha fuzilada, empapada em sangue, a «Mãe natal, punho /de aveia endurecida, /planeta/ seco e sangrento dos heróis!», com a cadência do espanto horrorizado, o ritmo dos tombos dos corpos no compasso do poema, o soluço dos acossados - que só encontra solidariedade na poesia -, a traição denunciada com palavras de raiva:

Bombardeamento

Quem?, pelos caminhos, quem
quem, quem? Em sombra, em sangue, quem?
em brilho, quem,
quem? Cai
cinza, cai
ferro
e pedra e morte e pranto e chamas,
quem, quem, ó minha mãe, quem, onde?


****
Espanha pobre por culpa dos ricos

Malditos os que um dia
não olharam, malditos cegos malditos,
os que à pátria solene não adiantaram
o pão mas as lágrimas, malditos
uniformes manchados e sotainas
de acres, hediondos cães de cova e sepultura.
A pobreza era em Espanha
como cavalos cheios de fumo,
como pedras caídas do
manancial da desventura,
terras cerealíferas por
abrir, adegas secretas
de azul e estanho, ovários, portas, arcos
fechados, profundezas
que queriam parir, tudo estava guardado
por guardas triangulares com espingarda,
por padres de cor de rata triste,
por lacaios do rei de rabo imenso.
Espanha dura, país de macieiras e pinheiros,
os teus vagos senhores proibiam-te:
a não semear, a não parir as minas,
a não montar as vacas, ao ensimesmamento
dos túmulos, a visitar todos os anos
o monumento de Cristóvão, o marinheiro, a relinchar
discursos com macacos vindos da América,
iguais em “posição social” e podridão.
Não levanteis escolas, não façais ranger a crosta
terrestre com arados, não enchais os celeiros
com abundância de trigo: rezai, bestas, rezai,
que um deus de rabo tão grande como o rabo do rei
vos espera: “Ali comereis a sopa, meus irmãos”.

Terceira Residência, Pablo Neruda; Editorial Campo das Letras, Porto, 2007

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Prémio Cervantes 2008 para Juan Marsé

O escritor catalão Juan Marsé foi distinguido ontem com o Prémio Cervantes, o Nobel das Letras espanholas.

Marsé, homem com cara de «pugilista marcado pela vida», como o caracteriza Arturo Pérez-Reverte, nasceu em Barcelona em 1933 e passou a infância e juventude no bairro popular de Gracia. Entre os 13 e os 26 anos trabalhou como operário numa oficina de joalharia. A sua carreira literária começou em 1959, ano em que começou a publicar crónicas em revistas literárias e em que obteve o Prémio Sésamo de contos. Das inúmeras obras publicadas, destaco dois romances editados em Portugal pela Campo das Letras.

Últimas Tardes com Teresa é o título que consagrou o escritor e, embora editado em 1966, chegou a Portugal em 2006, pleno de actualidade, para consagrar também a melhor leitura. Tatua-se no papel a palavra lúcida e poética que testemunha a aventura humana de Manolo e Teresa, dois jovens de mundos distintos, o proletário e o burguês. Atesta-se que a existência é feita de instantes esquinados, dobrados na «loucura dos relógios», num «mundo louco de estupor e desamparo». Personagem central, Manolo Reyes, alcunhado de Pijoaparte – «Há alcunhas que ilustram não só uma maneira de viver, mas também a natureza social do mundo em que se vive» – é um jovem pobre que vive nos subúrbios de Barcelona, que foge dessa condição miserável em busca da riqueza e prestígio social, sonhos projectados em Teresa, jovem universitária rica, por quem se apaixona, como num «derradeiro espasmo do sonho».

A acção decorre na Barcelona franquista, no Verão de 1956, no contexto dos exacerbados movimentos estudantis. Pijoaparte irrompe numa festa de gente fina, entre confetis festivos do arraial de São João, mestre da «grande máscara» que escondia «secretos desvarios», e que o narrador desmonta por inebriantes 371 páginas.

Repleto de «nervos secretos», o romance urde-se com sonhos e futilidades, encontros, desencontros e labirintos, numa vertigem narrativa que desagua no espanto da leitura. Sobretudo, é um romance sobre a fuga do indivíduo de si mesmo. Imperdível!

«Qualquer mulher sentada num bar de alterne à espera de clientes sabe que o comportamento de um homem que perdeu tudo menos a vida é um mistério.». Assim nos é apresentado o soberbo romance Canções de Amor em Lolita’s Club, o título mais recente do autor, editado também em 2006.

Mestre de um realismo inquietante e arrebatador, escrita de densidade psicológica e desenvoltura narrativa, o autor enleia o leitor em 271 páginas de descida às zonas mais recônditas que o ser humano tem e que nem a si confessa. Caminho de indagação e de luz, este, que confirma a asserção de Carlos Pujol: «A nada se pode regressar. Mas temos que regressar para o saber».

O que acontece nas almas ressacadas que se reúnem num bar de putas? Que mulheres são estas para lá da disponibilidade do corpo? Que homens são estes que chegam àquele tugúrio esvaziados de sentido? De que forma o encontro destes dois mundos interiores, igualmente áridos, de «fúria sexual, desamor e solidão», pode ser um conforto ou a confirmação da perda? Há lugar para o amor no meio deste paul, deste lodaçal? Ou a música caribe do Lolita’s Club Bar Musical é apenas um requiem da morte anunciada?

Este romance lembra-nos que a vida é um percurso de arestas angulosas e que a morte coexiste com a vida, antes daquele ponto derradeiro, o da finitude do corpo. Daí o seu carácter imprevisível: o da vida e o da morte. O homem escolhe e o resto acontece. Consoante o caminho que escolher terá de enfrentar as chagas que não previu. Há quem sucumba aos ferimentos dos gumes da vida e, numa qualquer noite sem lua, decida «partir-se em mil pedaços por dentro e por fora».
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Desirée, uma das prostitutas, escolheu e a vida fez o seu trabalho: numa noite, navegando no Alhambra II, na rota Barcelona – Palma, em alto mar, os «seus olhos azuis cravam-se obsessivamente nas negras águas», e atira-se para o abismo. O seu corpo é achado vinte e quatro horas depois, longe do ponto onde se atirou à água, «na espuma dos alcantilhados». Os seus olhos eram agora verdes e a borboleta vermelha e amarela que antes estivera estampada no ombro direito «estava no seu peito esquerdo e tinha as asas cinzentas.». O mar imprevisível tinha feito o seu trabalho. O mar imprevisível faz com que o comportamento dos seus afogados seja, também ele, imprevisível…

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Requiem para D. Quixote, Dennis McShade

Já disponível nas livrarias, Requiem para D.Quixote é o segundo andamento da magistral orquestração de Peter Maynard, o assassino profissional criado por Dennis McShade, autor sombra que escondeu e revelou Dinis Machado, o engenhoso estratega de tudo isto, já lá vão 40 anos. Depois da sua edição em 1967 e da reedição pelo Círculo de Leitores em 1987, Requiem para D.Quixote desapareceu do contacto com o público português, dito assim, pois o livro foi editado na Roménia em 1991, com o título Contractul Crimei.

Depois de Mão Direita do Diabo reeditado em Junho último, este Requiem para D.Quixote – título enigmático para um policial negro – é um hino à «vitória do espírito sobre a matéria», uma homenagem aos sonhadores mortos e aos impotentes na operacionalização dos seus sonhos, e vem consubstanciar o renascimento de Dinis Machado, quando passa cerca de um mês da sua morte (a três de Outubro). E, convenhamos, parece que Dinis continua a jogar connosco o jogo que criou: o jogo da ocultação e da revelação, da verdade e da máscara, da vida e da morte, o jogo da cabra-cega da existência humana.

Escreveu Dinis Machado, enquanto editor dos livros de McShade, em nota que acompanha esta reedição, que o assassino profissional Peter Maynard é a tese e a antítese do autor McShade, porquanto «elogia apenas o homem em acção e pela acção» e, por outro lado, imprime-lhe «os silêncios», «onde há a fala alta de um orador sagrado, o sussurro de uma prece e tudo aquilo que está para lá da franja do mar». Uma dialéctica que faiscou no título anterior e que atinge irradiação máxima neste segundo romance propenso a apurar a psicologia maynardiana. Esta mesma dialéctica configura-se no claro-escuro da ilustração – novamente uma magnífica capa de João Fazenda – que interpreta Maynard com a Beretta, com o perfil humano, o silenciador e a mão direita a negro, em contraste, mas em sinergia com o branco da Beretta e da mão esquerda que coloca o silenciador.

É, ainda, este movimento dialéctico que está na génese destes policiais, tornando-os únicos. A par das urdiduras frenéticas condensadas num tempo muito curto, industriosas, eximiamente construídas e matizadas de humor imbatível, surge o tempo largo da reflexão sobre a condição existencial; é Maynard que, enquanto prepara a sua Beretta olha pela janela e, como se se olhasse ao espelho, observa as pessoas com pressa «a construir as pirâmides»; é Maynard, numa pausa da sua pressa, a construir a sua pirâmide com o vértice bem firmado no «coração secreto da sensibilidade»; é, afinal, um escritor português que, através de um assassino profissional, procura um poema.

Munições para um poema
«A intuição dos curiosos é como a imaginação dos poetas: aparece uma ideia como aparece um verso. Depois, é preciso procurar o poema», diz Maynard dando-nos pistas sobre a construção narrativa, o metódico, não sagaz, mas intuitivo, como faz questão de corrigir, de uma intuição que é «como o bordão do cego: toca nos objectos e transmite-os». Depois, o processo até é simples, genialmente simples, e temos de concordar com Maynard quando diz que Ravel tem razão: «Fez o Bolero com uma repetição incessante de notas, só os andamentos é que mudam». Assim é a vida: «as notas são sempre as mesmas. Só os andamentos é que mudam. E o resto, é um problema de orquestração».

Nesta nova orquestração, Peter Maynard tem para resolver um caso de Caim e Abel. Para reconquistar a sua liberdade profissional – após acontecimentos relatados no «Mão Direita do Diabo» – aceita do Sindicato do crime organizado um contrato para executar Big Shelley, um poderoso chefe da Máfia. Se a tarefa lhe desagrada por ver nela uma imposição e «um ar político», torna-se-lhe ainda mais difícil porque o marcado para morrer tem nome de poeta; é que, se Maynard é um profissional que gosta de «salpicar a tarefa» com «um certo sentido de justiça», também é certo que honra todos os contratos. No momento em que se deveria dar a execução, Maynard – que foi escolhido pela sua eficiência – faz uma pausa e enceta com a sua vítima um diálogo de horas, motivado por um exemplar do El ingenioso hidalgo Don Quixote de La Mancha de Cervantes, que se encontra aberto sobre uma mesa. Trata-se da última conversa entre dois solitários que partilham a ideia da vanidade dos triunfos, da ilusão das conquistas e amor pela leitura dos clássicos.

Repondo-se a acção, o «mão direita do diabo» recebe um contrato enquanto «mão esquerda de Deus», já que, antes de ser executado, Shelley incumbe-o de vingar a sua morte. Definitivamente, Deus escreve direito por linhas tortas e Maynard tem neste novo contrato a justificação para a sua missão de assassino justo, que lê as «obras completas de Kafka» e que ao som de Beethoven entende «que é sempre a milésima vez de recomeçar». E recomeça sempre nos dois movimentos: o impaciente na acção profissional e o paciente, sem pressas, nas viagens da sua alma errante por campos dentro de si onde «pega numa flor e surge a arma, a arma já é a mão, os dedos são balas». Esta é a sua desdita. É fácil visualizar-se Maynard enrolado «como um caracol», em posição fetal, como num retorno à inocência, ao mesmo tempo que se debate com as suas vozes, campainhas e besouros, que o alertam para a trama à sua volta.

Por isso, com a maleta do silenciador, Maynard «passa por caixeiro-viajante», um cavaleiro andante de sonhos amarrados numa caixa onde estão Olga e «a nostalgia de um casamento», «uma vaga nostalgia de casa-mulher-filhos-prenda no dia do aniversário-andar a tarde inteira ao sol sem ter morrido». «Água, pão, amizade e amor. Procuramos outras coisas, mas estes são os quatro pontos cardeais», diz-nos o texto. E a Maynard ocorre-lhe que a verdade da vida até pode ser simples: «A verdade é capaz de ser só isto. Estou nu, deitado na cama, e Olga está nua, a meu lado».

Todavia, a Maynard não lhe basta tirar a máscara e pôr-se nu. Ele tem ainda o seu «inefável tribunal» onde é o acusado, o juiz, o advogado o júri e o público. Adivinha-se o desfecho do seu processo com a sua consciência relatado no monólogo maynardiano: «vais considerar-te culpado, mas tens a atenuante de tal angústia, e isso é até um bocado aristocrático, fica-te muito bem, Beethoven para a esquerda, Proust para a direita, e ainda assim uma grande margem de melancolia, e depois a certeza de que um homem só é verdadeiramente com a sua solidão. Deixem-no passar, diz o povo, deixem-no passar, porque ele sofre muito e é grande, olha o sofrimento bem nos olhos e tem a coragem de continuar a viver. És um narciso da merda, Maynard. As piruetas que tu fazes para demonstrares a ti próprio que não és pior do que os outros.».

Dinis Machado recebeu vinte contos de réis para dar corpo a três policiais. Porém, os pequenos livros de bolso surgiam empapados de mar onde navegava um herói de barro, prisioneiro das suas fraquezas, como qualquer um de nós. Terá sido este o segredo que levou os leitores a considerar mítica esta trilogia; o público de Maynard espera, agora, pelo último andamento, o Mulher e Arma com Guitarra Espanhola, a sair no próximo ano.

*Nota de agradecimento ao escritor José Xavier Ezequiel, mentor deste projecto de reedição da Assírio&Alvim, por me ter disponibilizado a capa da edição romena deste Requiem para D. Quixote
Nota: este texto foi editado na Orgia Literária, dia 21.11.08
© Teresa Sá Couto

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Contos, fábulas & outras ficções de Fernando Pessoa


Contos, fábulas & outras ficções é o novíssimo título de Fernando Pessoa a ser lançado dia 27 de Novembro, pelas 18 horas, na Hemeroteca Municipal de Lisboa, Rua de S. Pedro de Alcântara, n.º 3 (junto ao Largo da Misericórdia), em Lisboa. A obra será apresentada por Pinharanda Gomes.

O Título reúne a totalidade dos textos de ficção narrativa publicados em revistas e jornais pelo próprio Fernando Pessoa, acrescentados de um inédito, e de uma sequência de cinco narrativas ortónimas e completas. Tem organização, prefácio e notas de Zetho Cunha Gonçalves e chancela da Bonecos Rebeldes.

Irreverente e indisciplinador, Contos, fábulas & outras ficções é um hino à liberdade, e um libelo contra toda e qualquer forma de censura, de prepotência, de submissão e de conformismo. E um livro – nunca será de mais repeti-lo –, transbordante de humor e de ironia, de absurdo, e daquela superior inteligência do seu autor, cuja convivialidade, para os sentidos de quem lê, é sempre uma festa no avesso das catástrofes.

Nota: Agradecimentos a Zetho Cunha Gonçalves

Teresa Sá Couto

domingo, 23 de novembro de 2008

«Encornados, encornadores e pássaros avisadores»

Na aldeia de Campoamor, os habitantes vivem ao ritmo das pulsões do corpo e voos de espírito. Como em qualquer outra aldeia. A diferença entre esta e as outras é que Campoamor tem um escriba com marcas de jornalista, cronista, romancista e poeta, que se move entre todos e regista não o que se ouviu, mas o que se ouviu contar, mais exactamente, não o que se ouvia «mas o que se julgava ter ouvido»; e remexe tudo ou são as palavras que remexem, porque elas também têm asas.

Assim surge «Campoamor – Uma história de encornados, encornadores e pássaros avisadores» pela pena de um ilusionista: Hugo Santos, alentejano, nado em Campo Maior e mestre na arte das «palavras que se apegam ao tutano dos sentires e que os chupam de tal modo que apenas quedam os ossos». Este é um «Romance mágico, na concepção e na escrita», escreve Urbano Tavares Rodrigues, no Prefácio. Necessária, luminosa e inolvidável, esta narrativa vem resgatar a tradição literária de quadros rurais tradicionais onde ressumam Aquilino, Fernando Namora e o ardiloso, subtil e satírico humor vicentino tão arredado da moderna Literatura Portuguesa, tudo impresso com elegância e harmonia artística incomensuráveis.

Amassar o barro do mundo

«Cada um sabe de si e Deus de todos»; Deus e o escriba que o vai registando ao longo das 153 páginas intensas e alígeras, com muitos enredos, muitas vozes, muitos espantos e estremecimentos soltos pela pureza e pitoresco com que se descreve o barro humano. Narrativa de observação que assenta o seu método na deambulação, cria-se um puzzle, que vai para diante e para trás, ao ritmo das histórias alheias que cada um diz saber – criando-se, assim, um prodigioso laboratório de observação social – e dos ajustamentos que vai fazendo o narrador, que colige todas, fazendo da própria escrita um festim deambulatório. A acção centra-se na fronteira espanhola, numa vila enquadrada por dois rios, alegoria do processo que subjaz à feitura duma narrativa, a realidade e a ficção, mas também das dualidades com se cose e descose a vida.

Na trama estão bandos de pássaros que assaltam o coração da vila, questionando-se «se os mais esvoaçantes são os de cima ou os de baixo, os pássaros ou os homens.». Centrando-se no voejar dos terrenos, apresenta-se uma prodigiosa galeria de personagens, homens e mulheres em cenas eróticas, em «Cavalgamentos e descavalgamentos clandestinos», «afogueamentos e desafogueamentos» no «sobe-e-desce que nos varia o sentido e nos faz crer que o infinito é já ali», mostrando, afinal, que «o concavo e o convexo eram coisas para se ajustarem, sempre que fosse preciso»; mostra-se, sobretudo, a exortação à Primavera ou a necessidade dela, naquele mês de Abril em que «o número de encornados e encornadores sobe a olhos vistos», não interessa de que ano, pois em todos os tempos e para lá de qualquer geografia é sempre tempo e lugar para o encontro de duas solidões. Nesta tese da sobrevivência humana, a narrativa entra no fantástico: um morto que escrevia cartas de amor à sua viúva e um morto-vivo que visita a sua viúva dia-sim dia-não para lhe mostrar o prodígio dos dotes que não mostrou em vida. É o mundo do avesso, entenda-se, da insurreição perante as limitações da existência, onde há ainda cegos que vêem, surdos ouvidores, um vedor falhado cuja vara de vime anuncia os mortos, uma mulher nua que enlouquecida vagueia pelas ruas com uma luz a acompanhá-la.

E percebe-se o que foram os pássaros fazer à vila: «as esperanças de muitos sempre se assemelharam a asas de pássaros, um dia confronta-se cada um com os sentires que tem e começa a voar com eles, os pensamentos têm destas coisas, juntam as pedrinhas do passado, do presente e do futuro e misturam-nas de tal modo que, a dada altura, o acontecido está para acontecer e o que se considerou feito está por fazer».

O escritor e a liberdade da escrita

«Oficiante da pena e de penas e por elas oficiado», ao escriba cabe o papel de «desatar os nós górdios dos escrevinhados e pôr pássaros onde deviam estar bichos doutro rastejo», como já anteriormente se viu. E Hugo Santos, tal como o narrador da história que «se habituou a manusear as pedras-pomes das palavras e a afiar com elas as utopias» mostra-nos de forma cristalina a relação fascinante do escritor com o processo de escrita: escrever «é um pouco como caçar mosquitos com uma espingarda de calibre 12, socorre-se o pensamento do narrador com as letrinhas necessárias ao seu enforcamento e, a dada altura, disparam umas para um lado e outras para o outro, quer expressar-se um “sim” de assentimento e sai-lhe o “não” da catequista Fernandinha Raposo quando posta sob as investidas do prior Alcino do Rosário, quando se chega ao fim da história até parece que foi outro que por nós a debitou».

Outrossim, discorre-se sobre a relação entre a realidade e a ficção, a verdade e a mentira enquanto construtoras do processo de escrita. A realidade «é mais susceptível de dúvidas que o contrabando da ficção», refere-se, e «a verdade e a mentira andam por linhas paralelas como os carris de dois comboios que vindo um do norte para sul e outro tomando trilho contrário, se encontram no mesmo apeadeiro e parecem traçados ambos pelo mesmo destino». São dois rios que se juntam em águas que galgam as margens. É como os fenómenos que ocorrem em Campoamor: «no fundo, isto é como tudo; quem acredita, vê mesmo com os olhos fechados, e quem descrê não o aceitará nunca nem com eles todos abertos».

© Teresa Sá Couto

sábado, 22 de novembro de 2008

«Platónov», nome do vazio e do absurdo

«Platónov» de Anton Tchékhov é o texto inaugural do importante autor russo, agora disponível entre nós, e o terceiro título da soberba e necessária Colecção Teatro Nacional São João, resultado da parceria da Campo das Letras com aquele Teatro da cidade do Porto. A peça esteve em palco de 17 de Julho a 13 de Agosto últimos, com encenação de Nuno Cardoso. A tradução do russo cabe a António Pescada, que já traduzira soberanamente «O Cerejal» de Tchékhov, título, aliás, com que se abriu, gloriosa, a colecção.

A vileza, o parasitismo, a impostura, outrossim o vazio existencial, o défice de utopias e a falência humana compõem o olhar crítico, que disseca o absurdo, desenganado e dramático deste «Platonov», texto de juventude, extenso, caótico, vibrante, magnético e de uma modernidade avassaladora, que Anton Tchékhov (1860-1904), apesar das inúmeras tentativas, nunca conseguiu levar à cena. A sua edição só aconteceria em 1923 com o título «Peça Inédita de A.P. Tchékhov», já que ao original faltava a página do título, não obstante referências a «Безоцовщина» ("Bezotsóvschina", que quer dizer, "Órfão de Pai"). A orfandade do título seria resolvida com o nome da sua personagem central, um herói mutilado, «fora do tempo e do espaço, dos costumes e da lei», «o melhor exemplo da moderna indefinição» do que é um herói.

«O que é a vida?(..) Quando uma pessoa nasce, segue por um de três caminhos, para além dos quais não há outros: viras à direita, e és comido pelos lobos, viras à esquerda e comes os lobos; segues em frente e comeste-te a ti mesmo», diz-nos o texto, anunciando o percurso de Platónov, ele que acaba por morrer vítima dos seus actos. Mas os quatro Actos da peça apresentam outros tipos de morte, não menos dramáticos que morte física: é explanado um sistema de destruição moral, com personagens a contaminarem-se umas às outras num percurso de inferno existencial; assim se apresenta uma sociedade doente que, pungentemente, se aniquila.

A partir de um certo ponto, serão os nossos actos irresolúveis? Serão os homens que fazem os tempos ou os tempos que fazem os homens? A questão é complexa e circular; a circularidade viciosa que produz gritos exasperados, sendo este «Platonóv» um dos seus grandes testemunhos.

Um aplauso, pois, para esta edição, que vem ao encontro dos leitores de dramaturgia e de todos os que procuram o estilete crítico e o carácter inquiridor que este género literário tão bem cultiva.

Os outros textos da Colecção TNSJ

«O Café» de Carlo Goldoni

«O Café», peça de teatro do dramaturgo italiano Carlo Goldoni, surge-nos traduzida para língua portuguesa por Isabel Lopes e Fernando Mora Ramos. Escrita em 1750, a peça, no original, La bottega del caffè, estreou em 25 de Janeiro 2008 no Teatro de São João, no Porto, e esteve em exibição até 24 de Fevereiro, encenada por outro italiano, Giorgio Corsetti, que a ajudou a ler para lhe exibir os tipos sociais que se concentram no espaço de um Café com os seus conflitos interiores, vícios, virtudes, fraquezas e jogos humanos plenos de actualidade.

Peça em 3 Actos, com a trama a desenrolar-se num Café de uma rua de Veneza, junto a um Casino, a uma Barbearia e a uma Hospedaria, este é um teatro de exteriores também na construção das personagens, como refere Fernando Mora Ramos no magnífico Posfácio titulado «O Café sem Bodega»: «O Café é meio fora, posto de observação de toda a vida que ali se cruza, e tudo o que é interior se adivinha numa tensão que explora esse desejo de saber o que se passa na invisibilidade».

Com efeito, todos parecem saber tudo uns dos outros e querem saber ainda mais, e todos, de alguma forma, se comprometem com as outras existências, tomando partido, colocando pontos de vista, confrontando posições. Os dois «desajustados» da trama principal são Eugénio e D. Marcio. Eugénio é um jovem burgês, improdutivo, boémio, endividado pelo jogo e dependente daquele vício e do de mulheres : «dinheiro na mão significa jogo, burra de saias, assédio de amor charmoso»; é recém casado com Vitória, o seu contraponto nas virtudes e que faz tudo para o salvar; D. Márcio é o viciado na soberba da sua condição de aristocrata, «mentiroso compulsivo», «predador», o «que se alimenta rapinando a vida de terceiros». Como refere Fernando Mora Ramos, são estas duas personagens que «dão espessura psíquica a um teatro de caracteres que tudo e todos torna vizinhos», as outras personagens e o espectador que facilmente reconhece no seu quotidiano, apesar do texto ter mais de duzentos anos.

Neste Café desfila, imparável, uma «fenomenologia humana desabrida, como se de repente esta praça/café fosse também uma ágora, um parlamento, um lugar de polémica público», refere Fernando Mora Ramos, acrescentando mais uma nota sobre a avassaladora actualidade do texto: «É também um teatro que funda a democracia e continua a fazê-lo, agora que é claro que ela foge por caminhos que não são apenas os do regresso da velha senhora, mas outros, os da chegada de um totalitarismo insinuante de expressão mediática.».

«O Cerejal» de Tchékhov

«O Cerejal» de Anton Tchékhov (1860-1904) chega-nos editado num pequeno, mas precioso livro. Levada à cena no âmbito do XXX FITEI – Teatro Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, a 25 de Maio de 2007, no Teatro Carlos Alberto, no Porto, encenada por Rogério de Carvalho, é a última obra do autor russo, escrita já em dias de agonia e estreada no Teatro de Arte de Moscovo pouco antes de Tchékhov morrer. É considerada uma peça maior do universo tchekhoviano e da dramaturgia mundial.

No ensejo de caracterizar a decadência da aristocracia do séc. XIX, o texto apresenta-nos, através da alegoria de um antigo cerejal que vai ser destruído, os corredores humanos dos medos e inquietações, das incertezas e das contradições, da sobrevivência depois das perdas, do orgulho que não tem sustentação, da adaptação à mudança, conferindo-lhe uma notável actualidade.

O texto conta a história de uma família latifundiária que, apesar de endividada e com a propriedade hipotecada, parece recusar-se a aceitar a sua realidade, tal como o Cerejal extenso e frondoso da propriedade que se apresenta florido apesar dos três graus abaixo de zero. «O nosso clima não favorece as coisas como deve ser», diz, a propósito, uma das personagens numa denúncia subtil e irónica dos novos tempos sociais e económicos. O Cerejal é, aliás, o grande protagonista, omnipresente nos quatro actos, sendo que cada um representa um degrau em direccção à sua queda, bem como a evidência da queda da família que o possui há gerações.

Uma nota para o quarto Acto com o fecho do inevitável círculo: retoma-se o espaço do início, mas agora com a casa aristocrata vazia e as janelas sem cortinas o que faz com que o pomar pareça estar no interior da habitação onde a morte ressoa forte. Esta ideia da inevitabilidade de um fim e a assunção de não haver esperança estende-se ao velho criado de 87 anos, que fica esquecido na casa e nela resolve ficar, solitário, triste, exangue, até morrer, também numa união à morte do Cerejal que chega pelo som do «machado a golpear contra uma árvore»... Ou aqui também ressuma a despedida de Anton Tchékhov encarando a realidade da doença, da decadência física e da aproximação inevitável da sua morte.

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O futuro de Deus e da Humanidade

Nesta pequena aldeia global, onde Deus tem múltiplas figuras, parecendo que «Cada homem quer um Deus só para si», como disse Paul Holbach, qual vai ser o futuro de Deus e da Humanidade?
Envolto na nova cultura – a cibercultura – «Que novo tipo de Homem vai surgir desta “sociedade da rede”? E vai ser rede ou labirinto?», problematiza Anselmo Borges no urgente livro Deus no século XXI e o futuro do cristianismo.

«Deus é o existirmos e isto não ser tudo», escreveu, num arroubo visionário, Fernando Pessoa no Livro do Desassossego. O caminho para a partilha desta aldeia comum parece ser o diálogo inter-religioso, por mais compósitos que sejam os seus agentes, e que deve incluir os ateus, «pois são eles que permanentemente advertem os crentes para o perigo da idolatria e da desumanidade – e a idolatria é pior que o ateísmo», diz Anselmo Borges.

Contributo inestimável para o actual debate, o livro que referenciamos colige reflexões de nomes conceituados da sociologia, genética, neurobiologia, filosofia, teologia, psiquiatria, ciências da comunicação, história, ética e bioética e politologia.

Adriano Moreira, Alexandre Castro Caldas, Andrés Torres Queiruga, Frei Bento Domingues, Daniel Serrão, Edward Schilllebeeckx, Enrique Dussel, Fernando J. Regateiro, João Maria André, Joaquim Fernandes, Johann Baptist Metz, José María Mardones, Juan Martín Velasco, Juan Masiá Clavel, Manuel Pinto, Teresa M. Leal de A. Martinho Toldy são os autores que marcam presença neste livro organizado na sequência do Congresso comemorativo dos 75 anos da Sociedade Missionária. A coordenação coube a Anselmo Borges, Padre da Sociedade Missionária Portuguesa e docente de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e que abre o compêndio com o artigo «Desafios à Humanidade e ao Cristianismo»:
«Possivelmente, a revolução em curso neste início de século e milénio só tem comparação com as revoluções do neolítico e da modernidade, e tem múltiplos contornos e domínios.

São tais as perspectivas nos campos da genética e das neurociências e, consequentemente, das biotecnologias que se chega a pensar na possibilidade de uma bifurcação da Humanidade, a caminho do pós-humano. Pela primeira vez, a Humanidade tem nas suas mãos o seu segredo. O que pode e quer fazer com ele? É humano-ético tudo quanto é tecnicamente possível?
A globalização, que tem sido sobretudo tecnológica e económico-financeira no quadro do neoliberalismo, obriga a pensar uma governança mundial e coloca de modo novo a problemática do multiculturalismo.».

José Maria Mardones, investigador no Instituto de Filosofia de Madrid, e falecido em Junho do ano passado, defende que, pela emergência do encontro inter-religioso, está em curso uma revolução espiritual, que se quer «não sobre a superfície do cultural e ainda doutrinal, mas no fundo do aprofundamento místico-experimental de cada tradição», «um avanço para o centro do Mistério através de vias plurais e várias». Se assim não for, defende, o medo de se perder a identidade pode levar a religião a converter-se num «atiçador de rivalidades, ressentimentos e sede de vingança»: «O espectro do fundamentalismo ou das religiões fortes, nas suas mais variadas formas, ameaça-nos no futuro próximo e talvez seja o inimigo principal a superar».

Diálogo com as ciências biológicas

Se o diálogo inter-religioso surge como um desafio de árdua persistência, o diálogo entre as religiões e as ciências biológicas e biotecnológicas, cujas investigações científicas apresentam nova cosmovisão, não será menos desafiador.

Fernando Regateiro, professor de Genética da Universidade de Coimbra, lembra que têm de se combater manifestações de ignorância de religiões que apontam o determinismo absoluto atribuído ao DNA, com hereditariedade da ordem de apenas 0,4, sabendo-se que a religiosidade aumenta da adolescência para a idade adulta.

Por outro lado, Daniel Serrão, professor de Biopatologia da Universidade do Porto e Bioética da Universidade Católica Portuguesa, refere, em jeito de provocação, que o objectivo da biomedicina actual «é a imortalidade do corpo, neste mundo», uma «nova religião» sobre a saúde, com «peregrinações» e «santuários» onde, entre múltiplas actividades, é «legítimo tirar órgãos de pessoas mortas ou quase mortas e colocá-los noutras pessoas para que vivam mais tempo» ou «retirar células de embriões mortos ou quase mortos, para fazer tecidos que substituam os que foram perdidos pela senescência».

Outros conferencistas abordam os métodos de procriação medicamente assistida, a profilaxia na relação sexual – que tanta celeuma tem provocado no cristianismo – a manipulação genética aplicada à alimentação, a embriologia e quando começa a vida humana, entre muitos outros. Juan Masiá Clavel, professor de Bioética da Universidade Sophia, de Tóquio, proporciona-se uma magnífica conferência sobre os mal-entendidos e incongruências do cristianismo, lançando uma questão: «Os Papas do século XXI animar-nos-ão a pensar bem a vida humana, precisamente para protegê-la e responder ao desafio da era biotecnológica?».


Deus no século XXI e o futuro do cristianismo, vários autores, coordenação de Anselmo Borges; Editorial Campo das Letras, Porto, Outubro 2007

© Teresa Sá Couto