sábado, 17 de janeiro de 2009

A verdade e a máscara

Com as palavras podem escrever-se «palavras-ficção»: «Água, Cão, Cavalo, Cabeça»; quatro palavras, gatilhos para «os movimentos de ficção» de vinte e cinco pequenas narrativas sincopadas, na cadência do disparo. «O cão pode ser visto como música equilibrada (harmonia é a palavra) devido às suas quatro patas (como uma mesa orgânica). Mas se ao cão se cortar uma das patas a nossa vida altera-se, e sangra tudo, como quem é traído por uma mulher ou pela morte do pai.».

Assim corre a escrita que busca as desarmonias, os desequilíbrios, a loucura do ser humano ou a verdade por detrás da máscara. Assim é o mundo, e as palavras desnudam-no para o tomar. E assim reconhecemos a escrita original e inconfundível de Gonçalo M. Tavares.

Numa das estórias deste «água, cão, cavalo, cabeça», lê-se que a natureza do homem «não tem mapas, nem cores como os mapas». A natureza do homem é «uma aranha», melhor, «um aranhiço: é mais confuso do que uma aranha». E, acrescenta-se, os aranhiços «são como os pais que protegem o filho e o filho que se protege a si próprio, e ainda como todos os seres com sangue e até as plantas: é preciso sobreviver, eis o universo».

É neste “projecto de sobrevivência” que se insere a obra de Gonçalo: no universo largo e complexo, com a complexidade da natureza do homem, capturada nas faces mais sombrias. Como a bala, que é um «animal impaciente e rápido», a escrita do autor, viva e sem pudor, investe o impensado, abala a “ordem estabelecida”, revoluciona-nos a forma de olhar. A responsabilidade do discurso de Gonçalo está em mostrar a desordem para, pela palavra, encontrar uma ordem, o que pode corresponder à ideia de que é desintegrando-se que o cosmos se organiza ou na missiva de He Xiu: «Uma ordem surgira da decadência e da desordem».

Os quatro substantivos que fazem o título deste novo livro constituem novas investidas na análise desse universo, manipulada por um investigador de talento.
«água» remete-nos para vida, sangue, lágrimas, dor; «cabeça» remete-nos para loucura, o lugar onde nos escondemos; «cão» e «cavalo» surgem-nos como metáforas literárias para «os aranhiços» de «água» a «cabeça». Última na disposição é, todavia, a «cabeça» o “segredo” de tudo,:

a cabeça é o sitio para a fuga mais rápida que as outras, posso entrar na raiva e voltar, e um segundo depois entrar no tédio, e depois voltar.
Viaja-se: o ocupante da cabeça vai aqui, depois mais à frente (desejo, asco, angústia) e regressa.

Também o cansaço pode chegar à cabeça e, lê-se, é um momento mínimo, menos que um segundo, mas vem por vezes um pensamento de ódio, e é isto o cansaço, é aqui que ele pode chegar. É preciso ter medo dos homens e das mulheres cansadas. E a cidade é rápida de mais, empurra-nos para o nosso corpo pior (de entre os vários possíveis.).

O corpo “que revela”, sempre presente na obra do autor, é o produto da ditadura da cabeça. O texto mostra-nos isso, como quando conta a consequência de ter sido disparada uma arma só de fazer barulho, numa pata, e na cabeça de um cão:
A forma como o cão caminha não foi do tiro no pé, mas na cabeça: está louco, o cão, vê-se nas pernas.

Onde fica o amor e o coração?

No projecto de sobrevivência, o que se faz ao amor e ao coração? O texto responde:
E o único fenómeno estranho ao instinto de sobrevivência que manda em qualquer pessoa, animal ou anjo que exista, é o amor. Mas o amor é tão popular entre os vivos que se tornou num sentimento da multidão: há que receá-lo como se receia a palavra de ordem de qualquer ajuntamento exaltado.

Quanto ao coração, é arremessado como um projéctil pesado:
A catapulta tem um braço de lançamento que termina numa concha exactamente como uma colher. E é na colher que ponho o coração (…)para mandar para longe alguma coisa é necessário primeiro segurar com força nessa coisa, depois efectuar um movimento rápido com o braço, e por último travar subitamente e projectar o pulso para a frente (…)uma máquina de guerra. Atirar o coração para longe. A catapulta.

Carl Sagan disse: «Eis que, pela primeira vez, fazemos parte deste mundo, o nosso vasto e terrível universo.». É assim que sentimos a leitura de Gonçalo M. Tavares. Fique, sem mais comentários, um último exemplo:

(…)Tinha que pagar a um oculista. Levava o cheque já preenchido. Cheguei ao sitio e disseram-me: Morreu ontem, num desastre de carro. Tinha o cheque em nome dele, e agora estava morto. O primeiro pensamento foi: se eu tenho um cheque para lhe pagar, ele não pode estar morto. O segundo pensamento, passado uns segundos, foi: vou ficar com o dinheiro. O terceiro pensamento foi: como é que a tua cabeça foi capaz de ter aquele 2º pensamento? O quarto foi: toda a gente pensa todas as hipóteses numa situação, mesmo as hipóteses mais nojentas. Mas o senhor tinha um pai ainda vivo, e eu rasguei o cheque antigo e escrevi o nome do pai no cheque – era quase o mesmo, só mudava a primeira palavra. Estávamos os dois num restaurante de comidas rápidas, de pé. E o pai do meu oculista, que morrera num desastre de automóvel dois dias antes, estava vestido de preto e estava triste, falava pouco, e tinha os olhos baixos. Mas recebeu o cheque.

Água, Cão, Cavalo, Cabeça, Gonçalo M.Tavares; Editorial Caminho, Lisboa 2006

© Teresa Sá Couto

nota: outros textos sobre a obra de G.M.Tavares, em baixo, na etiqueta correspondente

«Histórias Falsas» encostadas à verdade

Há livros com sabedoria para saírem do presente levando-nos, leitores, em viagens donde retornamos mudados. «Histórias Falsas» de Gonçalo M. Tavares é um desses objectos de mudança: fora da sua esfera, e fora de si, o leitor pode regressar finalmente ao seu centro, numa espécie de «Conhece-te a ti mesmo».

Recuando três mil anos, ao tempo dos grandes filósofos, constroem-se nove pequenas estórias, com ficção encostada à verdade, com grandes revelações sobre a errância humana: o homem é um caminheiro numa vida de encruzilhadas e desvios de percurso, para melhor ou pior. O que interessa é mostrar os caminhos: «o homem que desce o caminho mais fácil deve também aprender o difícil, porque num qualquer momento, é certo, precisará dele.».

Pascal perguntava: «que quimera é o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que sujeito de contradição, que prodígio! Juiz de todas as coisas, verme imbecil; depositário da verdade, cloaca de incerteza e de erro; glória e nojo do universo. Quem deslindará esta embrulhada?». Ora, é neste deslindar do ser humano que enquadramos a escrita de Gonçalo M. Tavares. As suas histórias de personagens aliam a ficção à reflexão existencial, dissecando o homem até à verdade: o homem é um sujeito de contradições, é ordem e desordem, afecto e ódio, razão e loucura, porque é racionalidade e irracionalidade. Como defende Edgar Morin, «Verdade e erro são antagonistas e complementares na errância humana», e Gonçalo mostra-nos isso como nenhum outro escritor.

No dédalo dos caminhos, conta-se a «história de Listo Mercatore» e as suas duas vidas, antes e depois de conhecer o filósofo Diógenes. Na primeira, «Bebia de manhã para ter coragem para enganar, à noite para esquecer os efeitos dessa coragem e para adormecer. Para alimentar o estômago, os sentidos e o desejo, precisava de dinheiro. Os banquetes e as mulheres alimentavam as farsas». À noite tinha sonhos que o atormentavam: «por mais que se ande, o que se andou permanece no corpo: chama-se cansaço, fadiga; ou memória. Ele agia e as suas acções permaneciam nos ossos, pesavam. Como aquele homem que vive com um punhal espetado nas costas e não tem determinação para se livrar da lâmina ou, em último caso, para pedir ajuda.».

Um dia, conhece Diógenes, o filósofo que comia, sentado no chão um prato de lentilhas. Com a arrogância de quem tinha o estômago farto, Mercatore disse-lhe: «Se tivesses aprendido a bajular o rei, não precisavas de comer lentilhas.» Diógenes respondeu-lhe à letra: «E tu – disse o filósofo – se tivesses aprendido a comer lentilhas, não precisavas de bajular o rei.». Esta resposta foi epifania para Mercatore. Perturbado, caiu em si. Tornou-se um asceta. Purificou-se. Quando morreu, no seu quarto estavam apenas algumas garrafas de água; e lentilhas» E o seu corpo «transmitia uma calma incomum. Morrera no meio do sono, tranquilo.».

Na «história de Aurius Anaxos», assiste-se à destruição de Aurius, primo do filósofo Anaxágoras, e por ele influenciado. Durante a vida, Aurius «entusiasmava-se inteiramente com um caminho, uma acção e, logo a seguir –por vezes mesmo no meio da subida – aí mesmo, a metade, desistia, virando costas e recomeçando, agora por outro lado, indiferente ao esforço que fizera para chegar àquele ponto». Quis mostrar que não era inconstante como o criticavam, tornou-se obsessivo e, ouvinte com mau ouvido, pois deturpava os ensinamentos, a inveja do primo tomou conta dele.

Na «história de Elia de Mircea», testemunhamos a aprendizagem de Elia, que tentava ser sábio e ouvia o mestre, o sábio Lao Tse, que ensinava: «o verdadeiro mestre não é o que força a passagem, é o que a seduz. Quando o mestre passa os cães não ladram, admiram.»; fácil é vencer quando se é mais forte; difícil é utilizar a força para os outros não perderem; mas só isso é justo.». Até que uma noite a intensidade que ensina entra-lhe no sonho, «um sonho com tanta importância que atravessou a parede, tornou-se real e consequente». Assim se mostra que a aprendizagem dura a vida inteira.

O sacrifício e o fulgor das figuras femininas

É recorrência no autor aliar à mulher o Amor e a Morte, constitutivos do drama existencial – como constatámos noutras suas obras apresentadas. Também neste livro, a mulher é o «animal com o coração maior que o corpo», a que nunca desiste do amor, a luz que se mantém quando no homem só há sombras. «A história de Julieta, a santa da Baviera» é representativa de mulheres «com a força que só o coração e o desespero conseguem», carregando às costas filhos e maridos, livrando-os da morte. Romeu, o duque da Baviera, era «obcecado pela procura e excessivo na rapidez com que passava pelas coisas»: ele e Julieta amaram-se «e no dia seguinte acordaram. Ela embevecida. Ele, com tédio». Cruel, «matava como o agricultor semeia», até que encontrou um adversário maior, que o derrotou. «Abandonado por todas as mulheres que ao longo da vida abandonara, teve um instante em que se arrependeu como acontece a todos os que se vêem frente à morte». Mas eis que aparece Julieta, já velha, ainda apaixonada, para o carregar às costas. Sem milagres, são os dois queimados – «só se pode odiar a mulher que ama o inimigo». Num último sacrifício, Julieta oferece primeiro às chamas o seu corpo, que só depois consomem o do seu amado. Por isso, enaltecendo-a, o adversário, o imperador Conrado III mandou construir-lhe, no local, uma estátua, «quase um milénio depois de Cristo ter levantado a ingénua hipótese do amor».

A «história de Lianor» é a de uma mulher recusada por Tales de Mileto – não por sobranceria, mas por prudência. As mulheres guardam no corpo a serpente, sempre pensara.». Ela quis morrer e atirou-se ao mar fazendo com que Tales levasse uma vida virada para a água onde o corpo dela desaparecera.

A «história de Faustina» fala-nos da esposa do Imperador Marco Aurélio – que dava à mulher «o pouco que pode dar quem do mundo se defende não esbanjando emoções» – que se apaixonou por um centurião. Traição irremissível, todavia pediu clemência para o amante: «A paixão, por momentos, a falar mais alto do que a ambição»; nesse acto chegava até onde pode chegar o amor: à total imprudência. Pedia o impossível, acelerava o inevitável». Os silêncios do Imperador «vinham de quem tem o poder: assustavam». Crendo que só o asco faria com que ela esquecesse aquele amor, o sangue quente do amante foi vertido sobre o corpo de Faustina, o que a atormentaria até à morte.

Surpreender a realidade pelo seu lado mais inesperado é um exercício perturbador, mas prenhe de revelação. E é de conhecimento que se trata, quando apreendemos a singularidade da expressão literária de Gonçalo M. Tavares.

Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas; Editora Campo das Letras, Porto, 2005

© Teresa Sá Couto

nota: a edição deste texto surge na sequência de pedidos, que há algum tempo tenho vindo a receber, sobre "por onde começar a ler Gonçalo M. Tavares". O último, feito por Adélia Riès, veio despoletar em definitivo a minha acção. As sugestões podem ser várias. Opto, todavia, por este «Histórias Falsas» e pelo «Água, cão, Cavalo, Cabeça», com texto que passo também a editar. Votos de Boas Leituras.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Poesia de solidão e erotismo

«Guardas tudo de mim / – não sei se entendes /a ternura da dádiva – /também não te pergunto…/ para quê? /O meu amor é isto: /desejar-te em segredo /pouco esperar do que vier de ti /e nada te pedir.».

Afirmar o discurso amoroso na extrema solidão que o caracteriza é a proposta do belíssimo livro «Discurso amoroso» de Maria Aurora Carvalho Homem que assina vinte e um poemas com sabor, cheiro, segredos e erotismo; Francisco Simões faz os desenhos que delineiam o apelo dos corpos e a fusão dos incêndios. A Editora Campo das Letras dá guarida aos discursos num livro com formato A4, papel cartonado sépia clara – capa e páginas.

Adolfo Casais Monteiro escreveu que a poesia dá «aos homens um sentido que não há nos gestos nem nas coisas». Miguel Torga escreveu que a poesia «Desassossega o mundo sossegado» do poeta, e instiga-o a ensinar «a cada alma a sua rebeldia.». Finalmente, Teixeira de Pascoaes definia assim a poesia: «A ciência desenha a onda; a poesia enche-a de água». Indissociável da vida, a poesia é a mais pura, secreta e silenciosa fala do homem. O livro que aqui refiro é mais uma voz dessa linguagem primordial.

Disse Roland Barthes que «Dis-cursus é, originariamente, a acção de correr para aqui e para ali, são as idas e vindas, as “tarefas”, as “intrigas”, e que «o apaixonado não deixa, na verdade, de correr dentro da sua cabeça, de empreender novas tarefas e de fazer intriga contra si próprio. ». Tendo por guia o sentimento amoroso resgatado à criação da palavra, Maria Aurora Carvalho Homem oferece-nos um «Discurso Amoroso» tecido de frémito, de respiração e sufoco, de aridez que pede chuva, com fortíssimo erotismo que desvela o sabor do corpo, o cheiro e os segredos: «é um perfume raro /(Segurelha? Alecrim?) /não sei. /É o cheiro que tenho /quando tu sais de mim.».

O apelo táctil do papel, morno nestes dias frios, páginas sépia clara, longas e nuas, intercalando com páginas onde se imprimem os poemas, noutras os desenhos, como uma pele que se percorre e descobre, concorre para envolvência dos sentidos. Os desenhos, embora – ou talvez por isso mesmo – recriem os corpos com frágeis linhas a carvão, são de uma beleza e intensidade ímpares.

E diz o texto de um amor de exílio, de «convulsão do ventre», e «arrepio das veias», que mais não precisa do que «indícios breves» para o embalo e o murmúrio:
«Ardo sozinha /a mão convulsionada /a desenhar-te em mim»

«Nomeio-te em segredo /e não te digo /retenho-te nos olhos /e tudo acende»;

«Quero-te assim /longínquo e doce /terno e ausente /só posso desejar-te nas palavras»;

Ou, na íntegra:

Percorro-te
A língua de cetim
A prolongar o êxtase
As mãos de seda
No rio do teu corpo.
Afloro a nascente:
E num grito
Todo tu és torrente.


O coração está presente em todo o livro, fazendo jus ao que dele disse Roland Barthes: «o coração é o órgão do desejo (o coração incha, desfalece, etc., como o sexo), tal como este é retido, encantado, no campo do Imaginário. O que é o mundo, o que é que o outro vai fazer do meu desejo? Eis a inquietação onde se concentram todos os movimentos do coração, todos os “problemas” do coração.».

No belíssimo poema que a seguir transcrevo, o coração é, ainda, apanhado na armadilha do tempo indomável e destruidor. Confira-se:

É tarde, meu amor
É muito tarde.
O tempo implacável me consome
E destrói o vigor do corpo moço:
Apagou o fulgor do meu olhar
Roubou a altivez do seio cheio
Secou o rio manso do meu ventre
Cobriu de pergaminho a minha mão
É tarde, muito tarde
Mas… por dentro
Ainda bate, por ti, o coração.

Discurso Amoroso, Maria Aurora Carvalho Homem, desenhos de Francisco Simões, Editorial Campo das Letras, Porto 2006

© Teresa Sá Couto

(to Artur)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

«O Retábulo de Genebra»

Com escrita delicada e vigorosa, Sérgio Luís de Carvalho traz-nos O Retábulo de Genebra, o seu sexto romance, que se segue aos As Horas de Monsaraz (1997), El-Rei Pastor (2000), Os Rios da Babilónia (2003), Retrato de S. Jerónimo no Seu Estúdio (2006) e Os Peregrinos sem Fé (2007).

Com enfoque no retábulo «A Pesca Milagrosa» de Konrad Witz, tido como a primeira paisagem realista da História da Arte, pintado em 1444, em pleno «gótico flamejante», Sérgio Luís de Carvalho urde um Romance Histórico sobre os encadeamentos da memória e da arte. É que, se o campo da pintura é o espaço, o autor mostra-nos que o campo da Literatura é o tempo, onde tudo se conjuga, se resgata e actualiza o passado, se casam realidade e efabulação. Outrossim, nos trilhos do tempo, o autor revela-nos a Literatura como peregrinação – Leitmotiv da sua escrita –, feita com trabalho árduo, rigoroso, depurado, inquiridor da condição humana, em permanente busca interior. A metáfora da escrita como peregrinação, onde não falta a homenagem aos companheiros de caminhada, surge sintetizada na vieira dos romeiros de Santiago, que vão «pagar promessas, carpir pecados e cumprir penas», clara neste, mas já fortíssima no romance anterior.

Método e conteúdo contaminam-se, iluminando-se. A narrativa é circular, de acordo e ao sabor das erupções da memória. A trama inicia-se e termina em 1535, com a destruição de imagens em igrejas de Genebra, no ensejo das lutas entre papistas e protestantes, com vantagem para os iconoclastas adeptos de Lutero e de Calvino. Particularmente, está em causa o Retábulo de Konrad Witz, constituído por cinco painéis: o de S. Pedro, Apresentação de Metz perante a Virgem, Libertação de S. Pedro, Adoração dos Magos e A Pesca Milagrosa, este, o único a ser salvo, uma misteriosa salvação, que Sérgio Luís de Carvalho diligencia solucionar: ela deve-se ao olhar inovador e moderno do pintor que cria uma cena bíblica nas «margens galileias da Suiça», como se o Léman fosse o Tiberíades, com a paisagem e as gentes humildes de Genebra «figurantes de um enorme retábulo sacro», como se os Apóstolos fossem pescadores daquela cidade, dando ao espectador o sentido de pertença daquele lugar pictórico e real, que é proibido destruir.

De memória em memória, recua-se até 1400 – nascimento de Konrad Witz –, e no caminho de mais de um século, reconstrói-se o ambiente da Guerra dos Cem Anos, as façanhas, aprisionamento e execução de Joana d’Arc e os «tempos perturbados» do Consílio de Basileia. De memória em memória, mostra-se a tradição setentrional da pintura realista, a competência antiga da pintura flamenga na criação de fundos paisagísticos, bem como o espantoso passo com a ênfase sobre a actividade humana que a separa da ideia de paisagem pura.

E Sérgio Luís de Carvalho representa-nos a nova concepção de pintura com novos fundamentos literários: oferece-nos quadros narrativos belíssimos, pictóricos, prenhes de sinestesias e silêncios – os silêncios onde se conjuram memória e arte –, e na arte desta escrita os silêncios soltam os sons, as cores e todas as sensações: o som da turba ora orgulhosamente azafamada, ora inquieta, «o ruído cavo e fundo da cidade a mexer-se», a luz que «lava e limpa» o estúdio de Witz, o cheiro das maçãs viçosas que repousam no parapeito da janela, o cheiro a tinta, o «cheiro antigo» que envolve a oficina. «A memória é uma coisa muito estranha», conclui-se a cada assalto dela, «à qual basta apenas um vislumbre, um esgar desvendado na distância, uma cor, um sentimento, qualquer coisa à qual pouco baste para surgir. E será o bastante».
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A escrita como peregrinação interior

Exímio, Sérgio Luís de Carvalho mostra-nos a escrita como peregrinação interior num processo metafórico sedutor, que esconde e oculta: passa o espaço exterior, moldado pela memória, para os olhos do pintor – «talvez os olhos de um pintor sejam diferentes, ou talvez apenas busquem o que estão ensinados a descobrir» –, que o comunicam à mão que pinta. Porém, a memória é «feita de encadeamentos», encadeia tudo, até a escrita e a pintura, mas cabe à escrita o papel organizador. E «a memória confunde tudo, mescla tudo, com tintas misturadas numa paleta» ou numa vieira de Santiago, que «cabe na palma da mão aberta, o interior liso e suave» com uma «boa base para misturar tintas», que a escrita organiza, com paciência, dedicação e esforço. Um «quadro estranho e desacostumado» formava-se à frente do pintor que olha, fixa e compreende: «não é um raio fulminante disparado por qualquer musa que o atinge, não é uma coisa súbita e sonante, não é um momento isolado do seu mundo. Há uma ordem muito velha nestas coisas, um caminho de trabalho feito desde há muitos anos. Konrad sempre soube que encontraria se buscasse, sempre assim foi. As musas não são para aqui chamadas, o esforço, sim.» (p. 52).

A voz da peregrinação funda e antiga é, também, representada na personagem Gex, rapaz vagabundo, que o pintor recolhe na rua e que passa a ser o seu ajudante: «os dedos do miúdo seguram o carvão com força a mais, é um pouco desajeitado, pois claro, afinal o que é que se esperava? Contudo, naquele corpo torto por anos de pé boto e mau destino, reluz ainda um instinto muito antigo, um instinto que vem dos tempos mais arcaicos e que se não ensina. O mesmo instinto que leva os animais a temer o fogo, que leva os carrascos a chorar perante a imagem da Madona, que leva o vulgo a prostrar-se defronte de um belo quadro e que leva um pintor a perceber que um moço vadio de Genebra entende arte, ainda que não saiba sequer o que isso seja.» (p. 152).

Ao poder tocar no retábulo, o rapaz seria um «peregrino chegado finalmente ao seu destino», depois de «caminhar por tanta estrada». Ao transportar ao pescoço a vieira dos romeiros da Galiza dada pelo mestre Witz, que a recebeu do seu mestre Jan van Eyck, Gex garante a passagem do testemunho da corrente peregrina.

Se a Galiza ressurge em mais um romance de Sérgio Luís de Carvalho como marca duma dedicação antiga e correspondida com os leitores galegos, que recebem os livros do escritor ao mesmo tempo que nós, a homenagem aos companheiros de caminhada contempla também Sintra, no ensejo da comitiva flamenga de Filipe de Borgonha à corte de D. João I, vila com azulejos amouriscados e a serra em torno dela «mais saída de algum cantão suíço que das paragens ibéricas», com «gente oscilante entre entusiasmos pueris e melancolias fundas», patentes nos «versos lânguidos» dos velhos trovadores, «como se sofrer, partir e morrer estivesse gravado a fogo na alma desta gente». Uma alma Ibérica antiquíssima que tem na Literatura Portuguesa e em Sérgio Luís de Carvalho um seu ilustre representante.


Sérgio Luís de Carvalho, O Retábulo de Genebra, Campo das Letras, 2008

Nota: texto editado no sítio da Orgia Literária em 03.01.2009

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

José Régio em diálogos com o Amor

Depois do texto com o enfoque no programa existencial de José Régio (1901-1969) e na sua luta com Deus, volto ao autor, agora vendo-o no tema do amor. Poesia que espanta pelo carácter sincero, pelo fundo humano, eterno, que nos cativa, bastando tão só escutarmos o sangue que nos compõe, a poética torrencial de Régio atinge na temática do Amor a vibração do espírito e da carne, do êxtase do corpo e do arroubo místico, felicidade e abandono, encontro e desencontro, mas sempre «corpo de ânsia»:

«Boca sôfrega, /Rosa brava / Eu sonhei que te esfolhava/ Pétala a pétala!// Flor de volúpia sem lei! / Não te apagues, sonho! mata-me /Como eu sonhei.». O Amor é um instituto com a doutrina dos cinco sentidos: mirar o corpo, aprendê-lo e apreendê-lo táctil e odorificamente, degustá-lo e, o grito, que atesta tudo isso, esse, solta-se no silêncio dos versos.

Na temática do Amor, a poesia regiana constrói o corpo para, a partir dele, ficcionar a sensação do amor. Porém, é tal a naturalidade com que o executa, que se torna indistinto se é o poeta que cria a alma com palavras ou as palavras que dão forma à alma do poeta. Um arroubo que, aliado à mestria literária, cria o convencimento, e a rendição do leitor. E assim se faz a «União» entre corpo e espírito, com o primeiro a adejar com as asas do segundo:

Tenho, ainda, o teu corpo nos meus braços;
Sobre os meus ombros, teu cabelo.
Descansando dos meus e teus cansaços,
Tu dormes por nós ambos. Só eu velo.

Nos meus braços teu corpo estremeceu,
Desse tremor o meu foi percorrido.
Colados, curva a curva, onde começa o teu?
Onde acaba o meu? Teu e meu têm sentido?

Teu ligeiro suor penetra a minha pele:
Teu suor dos transportes de há momento
Que me atrevo a provar como quem lambe mel,
Em que refresco as mãos como num leve unguento.

Brandamente, por vezes, te desvio
De mim, para melhor, depois, sentir
Que és bem tu que eu agarro, acaricio,
Bem tu que eu pude em mim fundir.

Ai, anular-te em mim sem te perder!
Aniquilar-me em ti, – mas sendo nós!
Velo, e nem sinto a noite a discorrer.
Sonho, e que sonho de que amor feroz? (…)

Desnudar o corpo para uma vida sem disfarce

Numa poesia de ímpeto carnal, o corpo é revisitado, quase poro a poro , e o erotismo escorre de palavra a palavra. Porém, a noção de que, como dizia David Mourão-Ferreira, «um corpo não é só carne» está patente nesta temática de Régio. Explora-se o corpo como que querendo ver-se dentro dele a causa do desejo; depois da aventura do corpo os olhos surgem como agentes doutra hipnose, a vida sem disfarce, o Amor espiritual:

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., – unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.
Depois... – abre os teus olhos, minha amada!

Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

Corpo e alma: a transgressão total

A procura de uma identidade, a necessidade de se encontrar a alma do outro, surge como uma plenitude que alimenta o círculo vicioso do amor: primeiro o desejo que se cumpre no corpo, onde se descobre a alma e a cumplicidade do outro que despoleta de novo o desejo, o lado profano e transgressor do Amor:

«Tu conheceste a força dos meus pulsos, /A miséria do meu ser, / Os recantos da minha humanidade, / A grandeza do meu amor cruel, / Os veios de oiro que o meu barro trouxe.../ Eu, os teus nervos convulsos, / O teu poder, /A tua fragilidade, /Os sinais da tua pele, /O gosto do teu sangue doce... / Depois.../ Depois o quê, amor? Depois, mais nada, / – Que Jeová não sabe perdoar! » ou, ainda, no Monólogo a Dois: «De olhos fechados me abandono, ouvindo / Meu coração pulsar, meu sangue discorrer, / E, sob a tua mão, na asa do sonho, eis-me subindo / Àquele auge em que todo, em alma e corpo, vou morrer…»

A cisão entre a posse do corpo amado e a do corpo sem amor está patente no poema narrativo, como o são todos, que relata o encontro do sujeito com um “amor” de rua, com uma prostituta: «Ela vem, gingando, mole, as ancas. / Chega-se: “Boa noite, amor… Eu rio. / Amor!... Que amor pode ser? / Animada, ela agarra-se: “Está frio, /não se quer aquecer?...” / Sim, porque não? Aquecer-me-ei contigo. / (Gelado é o meu lençol, e nu, como um sudário…) /Terás, pobre mulher, por umas horas, um amigo, / Embora eu continue solitário.».

Concluo que qualquer discurso sobre o amor será sempre um discurso de solidão que na literatura encontra o lugar para a sua afirmação. José Régio mostra-nos o Amor total, ignescente: o Amor de transgressão.

Bibliografia consultada: José Régio, Obra Completa – Poesia I e Poesia II, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa

( to Artur)

© Teresa Sá Couto

A espiritualidade de Mário Castrim

«Se tenho mãos injustas. /Se traí meu amigo. /Se o opressor poupei /pagarei com a vida. /Mas julgai-me segundo o meu direito /segundo a inocência que possuo.». Assim, puro e cristalino, Mário Castrim desvelava-se no seu barro humano, na sua forma de vida.

Na madrugada de 15 Outubro de 2002, no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, sucumbia a uma pneumonia. Tinha 82 anos e todos o conhecíamos por Mário Castrim, porém pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca. Partia, deixava-nos a saudade e uma imensa obra manuscrita. Lançando mãos a esse espólio, a Campo das Letras editou «Do livro dos Salmos»: são 150 poemas inéditos de Mário Castrim, escritos nos últimos anos de vida, ilustrados com belos desenhos de Rogério Ribeiro, artista plástico que nos deixou recentemente, pelo que este texto é uma homenagem aos dois grandes nomes que contribuíram para o enriquecimento da cultura portuguesa.

Todos o conhecíamos pela sua dedicação enquanto escritor, jornalista e crítico televisivo. Também foi manifesta a sua preocupação pelas novas gerações. «Na boca das crianças /está a nossa fortaleza», escreve nestes salmos. Para o público jovem, trabalhou na revista Audácia, onde se ensinavam valores e atitudes de vida, editou livros infantis, fundou o suplemento «Diário de Lisboa Juvenil».

Com «particular significado literário e religioso», segundo a escritora Alice Vieira, viúva de Mário Castrim, este «O Livro dos Salmos» foi escrito quando Castrim colaborava nas revistas «Além-Mar e Audácia» dos Missionários Combonianos, e «é-lhes dedicado.». Castrim revela nestes salmos um compromisso religioso que se prende com a condição existencial – revelando os enredos, os becos e as escolhas que fez na vida – e a procura do aperfeiçoamento espiritual:

«Os bons de coração estão faltando /entre os filhos dos homens. /Sobra a mentira, o engano, a dupla palavra. /E os humildes que sofrem? /E os gemidos dos pobres? /Eis nos levantaremos. /Prata fina sete vezes depurada.»;
«Por minha perfeição vou caminhando. /Põe-me à prova, se queres. /Aqui estão os meus rins, meu coração. /Não estou com os homens falsos /com os que têm as mãos sujas /de infâmia e de suborno. /Sigam eles assim. Sigam, perversos. /Sigam. Pois eu /por minha perfeição vou caminhando.»

Outros poemas:
.
A erva secou no telhado.
Não dá pão.

As minhas costas estão em carne viva.

Encham agricultores
o celeiro!

***
Calquei as minhas culpas, meus pecados.
Fugi para o silêncio. E entretanto
de mim, calado, o pranto todo o dia
jorrava, e este corpo esmorecia
ossos roídos de suor e febre.

– Não sejas – me disseste –
como aqueles cavalos dominados
somente pelo freio e pela mordaça:
eles só se aproximam, se confiam.

Entendi. Este canto bem o mostra.

***
Prometo que só ficarei atento
os séculos que forem necessários.
Atento nas promessas
que fazem os amigos
atento na justiça
com a paz na pista dos seus passos.

Vejam só que de frutos se enche a Terra!

***
Porque és eterno é que criaste o dia.
Porque és eterno é que me criaste a mim.


Do Livro dos Salmos, Mário Castrim; Editorial Campo das letras, Porto, 2007

© Teresa Sá Couto

sábado, 3 de janeiro de 2009

«O Medo» de Al Berto

Se não tivesse morrido precocemente, em 1997, o poeta Al Berto completaria, no próximo dia 11 de Janeiro, 61 anos. Deixou-nos uma obra poética vasta, que a Assírio & Alvim tem editada com o título O Medo. Na capa, o retrato do poeta «encenado por Paulo Nozolino em homenagem a Caravaggio». No interior, um trabalho poético feito de frémito, alucinação, medo, delírio, transumância e, dito pelo próprio, «sempre com carácter de urgência». Talvez a urgência premonitória da luta que perderia para a morte.

Rainer Maria Rilke disse: «Fiz alguma coisa contra o medo. Fiquei toda a noite sentado a escrever.». Al Berto, Ilusionista da palavra, com a qual corporiza a realidade, o quotidiano e as sensações «mais marginais», procura a noite com o «Corpo coberto de dúvidas e medo», registado assim: «então a vida abater-se-á sobre a folha de papel / onde verso a verso/ me ilumino e me desgasto.».

O título O Medo foi utilizado pelo autor na primeira recolha dos seus poemas (1974/86), pela Contexto, assim como na nova edição aumentada, em 1991, mantendo-se até hoje. Foi com este título que, em 1998, foi distinguido com o Pen Club de Poesia. O volume que aqui referimos está dividido em 15 livros, e reúne toda a obra do poeta, desde «À Procura do vento num jardim d`Agosto» (1974/75) até «Poeira de Lume» (1997). No final, Notas, Bibliografia, Índices de títulos, primeiros versos e geral. A organização é de Luís Manuel Gaspar e Manuel de Freitas.

Os sulcos da memória – a infância diluída nas páginas


Al Berto, nome literário de Alberto Raposo Pidwell Tavares, viveu a sua infância em Sines, exilando-se, depois, em Bruxelas, em 1967. Aquela terra de infância é imortalizada nas suas palavras: «quando te escavaram o ventre encontraram traços adormecidos doutros povos /…/se te esfaquearem de novo, nada mais encontrarão que pequeníssimos cadáveres de saudade /…/ em ti pernoita a seiva cansada das palavras, o suco das ervas e o açúcar transparente das camarinhas / em ti cresce o precioso silêncio, ostras doentes e as pérolas dos mares sem rumo / em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este demorado lamento.».

Casa longínqua de todos os abandonos, é marcante o canto da adolescência perdida, uma traição do tempo que a desdenha, e que lhe deixa na boca «um gosto de salmoura e destruição» e mágoa no corpo: «procuro no fundo das algibeiras os bonecos da bola, e as cobras nos valados do Rio Moura / o sumo das amoras e o cheiro fresco do sabão… a memória envolve-se nos lençóis que secam estendidos ao sol»; «a infância permanece triste onde a abandonei / quase não vive / no entanto ouço-a respirar dentro de mim / agora tudo é diferente / recomeço a viver a partir do vazio / da treva dos dias em silêncio / por entre a pele e um feixe de magníficas veias / sinto o pássaro da velhice arrastando as asas».

A escrita, morada do silêncio, do corpo e da fragmentação

Ser nocturno, com o «corpo aberto às sementes e ao arado», a noite é para o poeta o quarto íntimo da alma, superfície onde se corporiza o desamparo, a fragilidade humana, revolta, infelicidade, pessimismo, o lugar da escrita: «e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão / deixas viver sobre a pele uma criança de lume / e na fria lava da noite ensinas ao corpo / a paciência o amor o abandono das palavras / o silêncio / e a difícil arte da melancolia». Sobremaneira autobiográfica, a sua produção escrita é diversificada, característica da fragmentação do sujeito. Atinge, também, com o olhar quadros quotidianos que nos surpreendem.

Transcreva-se uma das composições inesperadas: «depois do jantar / as mulheres falam muito /os homens estão quase sempre calados /atentos /perseguem-nas com olhares ternos /os dedos movendo-se hesitantes em redor dos copos / elas falam sem cessar riem / perdem o fôlego comem bolos / voltam a rir cada vez mais forte / bebem anis sabendo que os homens as observam / silenciosos amam-nas furtivamente no escuro das casas /importando-se pouco que elas se embriaguem / devagar / as mulheres falam muito / têm o riso arguto nos lábios acesos pelo anis / sempre que os homens as desejam / noite adiante… calados».

Na «imprevista meteorologia das paixões», fala-se do cio, da boca, da necessidade de fecundar o leitor, como uma urgência de existir, como uma negação da morte: «penso na morte / mas sei que continuarei vivo no epicentro das flores / no abdómen ensanguentado doutros-corpos-meus / na concha húmida da tua boca»; «penso voltar / e sei que mentira desperta já em mim / recosto-me /… / comboios barcos que vão para onde? / esperem por mim / eu vou».

texto editado em Orgia Literária a 02.01.09

 
© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O fascínio dos tempos de Orpheu

No ensejo do novíssimo Dicionário de Fernando Pessoa e Do Modernismo Português, recordo o romance histórico «José e os Outros, Almada e Pessoa – romance dos anos 20» de José Augusto França, onde o autor reconstrói a efervescência do primeiro Modernismo tendo como protagonista o ímpar José de Almada Negreiros, poeta d`Orpheu, Futurista e Tudo.

À pesquisa apurada, enformada num processo narrativo vivo e arrebatador, marcas de José Augusto França, este romance histórico surpreende, também, pela paixão com que reedifica a época cultural de todas as vertigens, patente na asserção «Morra o verbo parar e o verbo recuar». Um livro singular sobre a singularidade da cultura portuguesa com o autor a juntar-se àquele outro grupo que fez da transgressão a atitude de combate a todos os imobilismos. Inconformado com o seu tempo, Almada incentivava à criação: «O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades».

«Um Portugal mais pequenino e com as pessoas mais gordas»

O enredo da narrativa tece-se sobre os 7 anos que Almada Negreiros esteve em Portugal, vindo de Paris, a 7 de Abril de 1920, até à sua partida para Madrid, a 6 de Abril de 1927. Trazia na mala, para publicar, o poema-história dessa pátria perdida e achada e na alma um juramento para cumprir: «o seu povo era o mais pequeno mas não havia, ele, José, de lhe mostrar a grandeza? Ele ia querer ser o melhor de todos os Portugueses – mas só poderia sabê-lo quando desembarcasse na estação e chegasse ao meio do Rossio». Por isso, «José via no vidro da janela o seu reflexo e os grandes olhos com que o fitava eram os seus – que furavam por detrás de tudo!». E, na vidraça embaciada da carruagem que o trazia, filho pródigo, registava a equação 1+1=1, com o Um final a representar a soma de si próprio duas vezes – o homem uno na sua diversidade –, desenhava um coração que representava a equação, e escrevia Ecce Homo.

À chegada, sem ter avisado, como era seu timbre, contacta com o Portugal estagnado que atabalhoadamente tenta inserir-se nas novidades. Detém o olhar num «empregado triste», a caminho do seu hotel favorito, o Borges, regista cocheiros e carros disputando o mesmo espaço das ruas, os carros «ainda mal afeitos àquela promiscuidade com as bestas, passa pela Brasileira do Chiado, «Casa Especial do café paulista» e «a impressão dizia-lhe que tudo estava mais pequenino – e com as pessoas mais gordas! Era como se tivesse desembarcado em Beja.».

Recorde-se que o primeiro Modernismo nasceu e cresceu num contexto histórico nacional e europeu problemático: o Ultimato, a queda da Monarquia, a instauração da República, com a instabilidade que se lhe seguiu, e a Primeira Grande Guerra Mundial. A Revista luso-brasileira Orpheu (Março de 1915), fundada por Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros, surge na escala daquele tempo complexo, vário, ruidoso, assassino, acelerado, com textos agressivos e revolucionários, com a própria palavra a sofrer uma «revolução tipográfica» muito influenciada pela pintura, que lhe abria os horizontes. O grupo denunciava e reagia violentamente contra a vulgaridade, pretendendo criar um Portugal novo.

As novas ideias eram estimuladas por ecos vindos do estrangeiro, nomeadamente pela moda de Paris trazida por Mário de Sá-Carneiro e Santa Rita-Pintor. Fernando Pessoa, mestre da “poesia dramática”, foi um dos elementos mais importantes do grupo, e tem uma presença fortíssima nesta narrativa: sem ser o protagonista, ele está sempre lá, alimentando-nos a aura de mistério que o envolve. As teses de Almada eram discutidas com o amigo Fernando Pessoa: «Eles que eram individuais a dois».

Ainda que a revista tivesse apenas dois números, o grupo continuou a manifestar-se em jornais e outras publicações, com destaque para a revista A Águia e mais tarde a revista Presença, esta já no segundo modernismo, mas prova do diálogo incessante. A narrativa de Augusto França apresenta toda esta ambiência. Os anos 20 foram precisamente os mais agitados da história da Primeira República, ensombrados pela noite sangrenta de 10 de Outubro de 1921, com assassinatos políticos. Delineava-se o caminho para a ditadura militar, com opinião corrente, em 1924, que «só a ditadura nos podia salvar».

Com os olhos postos na eternidade

A narrativa abre com um «dia importante, um dia definitivo para os destinos da arte portuguesa!». Corria o ano de 1925 e inauguravam-se pinturas de vários artistas na Brasileira do Chiado, espaço de confluência de artistas e tertúlias, ambiente de modernidade – a par do Bristol-Club. Eram dois os quadros de Almada, e que permaneceram no café Brasileira até 1971: «As Banhistas» e «Auto-retrato com Grupo da Brasileira», ambos de 1925 – este a fazer a capa do livro. António Soares, Jorge Barradas, Eduardo Viana, Stuart Carvalhais, José Pacheco e Bernardo Marques foram os outros artistas representados. De todos nos fala a ficção de Augusto França, pelos nomes com que se tratavam uns aos outros, apresentados por um narrador que se move entre todos, cúmplice de todos e enredando por esta via o leitor nos espaços, nas azáfamas, e até na intimidade psicológica de cada um.

A narrativa constrói-se com paixão e admiração transbordantes pelo menino d´olhos de gigante. Dá-nos conta das naturezas que lhe nasciam e que ele fazia brotar em génio criador. Desenho, dança, pintura, teatro, romance, poesia, Ultimatos, conferências, todos manifestos de irreverência para demolir alvos, recados para o futuro. Tudo passa pela narrativa ao ritmo desenfreado em perfeito diálogo com a dinâmica da época de vertigem onde «tudo se move, tudo corre e se transforma rapidamente» (in Portugal Futurista 1917). Faz-se um close-up às obras de Almada proporcionando ao leitor o pulsar mágico da criação.

A obra «A Invenção do Dia Claro» surgia «na claridade do dia que assim se inventava», com conferência marcada para 1920, depois adiada um ano, mas ainda adiantada no tempo português não preparado para aquela nova forma de juntar letras como quem faz desenhos. E José, com as palavras arrumadas, alheado da assistência que indagava «onde queria chegar Almada?» – alheado porque o discurso que proferia já não lhe pertencia – dizia que se um homem tem uma dúvida deveria levá-la «até á loucura, sem medo», porque «se não o fizer, se a loucura puder mais do que ele, fará do homem o pior de todos» porque ele, José, deveria saber dominá-la, ou dominá-las. As palavras tinham-lhe servido para chegar a essa conclusão de paz e de luz». Assim se estrutura brilhantemente a ficção de Augusto França apoiando-se nas palavras do próprio Almada quando aludiria ao poder de agir e criar as coisas: «vê bem na tua mão, nas linhas da tua mão. Não duvides. São a tua loucura. Agarra-as bem, não as deixes sair da tua mão».

Pelo mesmo processo de reconstrução do indizível, aborda-se o conto O kágado, alegoria do processo de reencontro do indivíduo consigo mesmo, numa derivação socrática do «conhece-te a ti mesmo» ou, à maneira de Almada, «nunca chegará à obra quem não tiver chegado ao Kágado», o Nome de Guerra e revisitam-se todos os outros textos de Almada. Mas não só: a «facção plástica do Orpheu» tomou a peito o estudo sobre os painéis de São Vicente expostos no Museu das Janelas Verdes, atribuídos a Nuno Gonçalves, sobre qual seria a sua verdadeira posição, e, em 1918, Almada faz um pacto com Amadeo de Sousa-Cardoso e Santa-Rita Pintor. Augusto França recupera a estória do pacto: os três cortaram e raparam a cabeça e as sobrancelhas e assim ficariam até que o problema dos painéis fosse solucionado. Apesar do falecimento dos dois amigos, Almada, ainda que só, não abriu mãos da tarefa, e a ficção dá-nos conta do momento da revelação, em Março de 1926:

«mas foi José quem deu por um desacerto na perspectiva que a toda a gente tinha escapado, nos ladrilhos do pavimento (…) acertando a tal perspectiva no conjunto dos seis painéis, fazia dos dois trípticos um políptico único: lá estava: era só acertar os ladrilhos».

Esse «só» era a «descoberta do século
», com a notícia da proeza portuguesa a seguir célere pela Europa Culta. O menino dos olhos de Gigante resolvia o Ecce Homo e cumpria no futuro o pacto que fizera com os amigos.

José Sobral de Almada Negreiros morreu aos 77 anos, em 1970, no mesmo quarto do Hospital de São Luís onde morreu o seu grande amigo Fernando Pessoa. Este livro de José Augusto França é uma homenagem à imortalidade do homem que tinha as pupilas de «cristal de rocha» e ao perpétuo canto da geração de Orpheu.

José e os Outros, Almada e Pessoa – romance dos anos 20, José Augusto França; Editorial Presença; Abril 2006

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português

Apresentar «uma visão ampla e contextualizada» de Fernando Pessoa num dicionário que reúne «a soma dos conhecimentos actuais sobre a sua obra e sobre o Modernismo» é a proposta do extraordinário Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português», agora editado pela Caminho, com coordenação de Fernando Cabral Martins.

Cerca de oito dezenas de especialistas assinam mais de seiscentos textos sobre temas pessoanos, resgatados na vastíssima produção pessoana de poesia, ficção, teatro, filosofia e teoria, estudando a sua relação com grandes nomes da literatura universal e partindo de ângulos tão diversos como o político, o científico, o retórico ou o esotérico.

Fernando J.B. Martinho, Manuel Gusmão, Richard Zenith, Haquira Osakabe (professor e investigador brasileiro entretanto falecido, a cuja memória a obra é dedicada), Leyla Perrone-Moisés, Jerónimo Pizarro, Manuela Parreira da Silva e Teresa Rita Lopes, entre outros colaboradores, demoraram dois anos a elaborar este dicionário.

«Este dicionário é para pessoas interessadas em Pessoa, pessoas interessadas em poesia, pessoas interessadas em Arte - porque o Modernismo tem também uma zona que não é só literária. Por exemplo, há um longo artigo sobre o Amadeo de Souza-Cardoso, ou o Santa Rita Pintor, sobre vários artistas que são importantes e mesmo correntes estéticas, como o futurismo, o expressionismo ou o dadaísmo, etc.", referiu o professor universitário e investigador Fernando Cabral Martins, em declarações à Agência Lusa.

Um acontecimento editorial do ano que me chega exactamente neste último dia de 2008. Para já, deixo a referência. Brevemente trarei aqui a minha análise deste portento.
A todos, votos de Bom Ano, com os melhores livros.


Teresa Sá Couto

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Esperança num «céu cheio de terra»

«Basta a miséria dum desgraçado, para que todos nós sejamos miseráveis», escreveu Teixeira de Pascoaes. Max Tilmann mostra-nos isso, não com palavras, mas com o silêncio inquietante das suas pinturas. Por isso, interroga-nos no lugar fundo, onde rasteja o medo, a indiferença, a crueldade, o horror. Onde se esconde a verdade da nossa condição e de como nos relacionamos com a Humanidade.

Com a chegada do novo ano, e os costumeiros votos de paz, esta é a reflexão mais sólida que motiva o gesto. Um livro sobre a memória da barbárie humana, outrossim sobre a fé, com o mote e justificação do profeta Jeremias: «Lembrai-vos dos meus tormentos e misérias, que são para mim absinto e veneno. Ao pensar nisto sem cessar, a minha alma desfalece dentro de mim. Eis porém o que hei-de recordar para recuperar a esperança.».

Nascido na Alemanha em 1955, mas a viver em Londres desde 1985, o pintor e dramaturgo Max Tilmann apresenta-nos cinquenta e duas imagens que se sucedem em degraus de descida ao horror. Estão agrupadas por capítulos, correspondendo a cada um uma letra até se formar a palavra maldita: Auschwitz.

Todavia, se aquele campo de extermínio nazista está sempre presente, as figuras que representam corpos de um destino sem Deus projectam a mensagem para muitos outros cadafalsos, erguidos com o mesmo zelo sanguinário, que tão bem conhecemos e que teimamos, por incómodos, ocultar: o genocídio dos Arménios pelos Turcos, Hiroshima e Nagasaki, o Camboja de Pol Pot, os massacres étnicos no Ruanda, Srebrenica ou a barbárie no coração da Europa…; os buracos de caveira que procuram os nossos olhos, os ombros caídos rendidos à falta de céu, os rituais na espera do inferno, seres humanos estropiados, crianças com cotos no lugar dos braços (imagem em cima), como as crianças de Angola, como todas as crianças assim consequência da blasfémia dos adultos que deveriam protegê-las…

O dever de lembrar, a obrigação de agir

«Não pinto o que vejo mas o que vi; a câmara fotográfica não poderá rivalizar com a pintura enquanto não for possível servirmo-nos dela no céu e no inferno», disse Edward Munch. Também Tilmann pinta a memória, com carácter testemunhal, num grito de alarme contra o olvido e a indiferença do homem frente ao seu semelhante, pois a indiferença é a condição sine qua non para a violentação humana e que Fernando Pessoa escreveu assim:

«o que parece haver de desprezo entre homem e homem, de indiferente que permite que se mate gente sem que se sinta que se mata, como entre os assassinos, ou sem que se pense que se está matando, como entre os soldados, é que ninguém presta a devida atenção ao facto, parece que abstruso, de que os outros são almas também.».

O recurso a aguarelas, com o seu carácter a um mesmo tempo perene e fugidio, concorre para se fixar a ignomínia humana numa luta com a volatilidade da memória. Também a antinomia que se estabelece entre a delicadeza da aguarela e o horror que as tintas matizam contribui para a comunicabilidade inquietante das imagens. Torna-se evidente que todos os gestos do homem visam a Humanidade. Todos: os gestos dos carrascos sobre as suas vítimas, os que o testemunham, mas também os que não o testemunham, mas deveriam sabê-lo, pois o que ignora a humanidade avilta-a e avilta-se.

À procura das almas que ficam

Livro que folheia a alma com um baque, «Este céu cheio de terra» faz-se com uma narrativa de dor silenciosa, mas não silenciada. Acompanha-se o recolher de gente – sob a ameaça da espingarda usurpadora – que segue com as suas trouxas, e filhos pela mão, parcos haveres numa procissão maldita até camiões ou comboios. E surgem em movimento, esses túneis da morte que se apressam sobre carris para desembocarem no terminal de Auschwitz, onde ressumam todos os fins de linha de massacres humanos. Isso é-nos evidenciado pela geometria do abismo construída pela confluência de vários carris numa via única, na entrada daquele campo.

No espaço sepulcral é feita a divisão dos prisioneiros, mais corpos do que almas – porque estas parecem já estar mortas –, preparam-se os prisioneiros ao mesmo tempo que se aprontam os chuveiros onde serão gaseados, as forcas que ostentarão os espectros silenciosos, mas que nos chegam, entre a prece e o grito, aturdindo-nos.

Vertigem, angústia, violência, brutalidade, grotesco, blasfémia: eis o que nos dizem as sombras. Sombras das vitimas, sombras dos seus algozes brancos, sombras dos comboios, dos tanques, e até as sombras das nuvens que baixam à terra ou as sombras da terra que sobem ao céu…No interlúdio, imagens de paisagens onde irrompe a floresta, uma igreja ou a amálgama de cores, todas espaços da alma que observa e cisma nas suas sombras, mas também na metamorfose das árvores...

Este Céu Cheio de Terra, Max tilmann; Editorial Campo das Letras, Porto, 2006

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Retrato do ódio no Médio Oriente

«O homem é como uma libélula. Voa sobre o rio, sobe mais alto para ver o sol e num minuto desaparece», ia repetindo Salua, uma jovem mulher, personagem principal da narrativa «A Esposa de Assuão». A lição que ia repetindo foi-a aprendendo na cadência do ódio, da violência, das balas e das bombas em nome de um Deus que parecia descer ímpio para o interior dos homens. Na faixa de Gaza, na Palestina violentada pelos israelitas, onde antes imperara a harmonia entre as três religiões monoteístas, Salua aprendia outra lição: que o Deus ganhador é o que tem força militar e política conferidas pelo poder económico.

Numa surpresa narrativa, a «A esposa de Assuão» dá-nos a explicação do ódio, como nasceu e cresceu no interior dos homens e como daí deflagra, sequioso de sangue. Com as lições de Salua, aprende o leitor a tessitura da injustiça e da revolta; se os homens de poder assim se inquietassem, talvez Jerusalém, a cidade de David, pudesse ser efectivamente a Cidade da Paz.

Escrita por Rula Jebreal, uma jornalista palestiniana com passaporte israelita, e traduzida por Carlos Aboim de Brito, a narrativa é um retrato de cerca de um século da História do Médio Oriente desvelado na sua vertente mais perturbadora: original e inquietante é o olhar da autora sobre as vítimas que não estão envolvidas nas lutas armadas, gente anónima, trabalhadora, pacífica, tolerante e com valores humanos elevados, que é emaranhada no ódio religioso fratricida das três religiões (cristianismo, judaísmo e islamismo), e o enfoque dado à força das mulheres que, mortos os seus homens por obra da insanidade humana, têm de tomar as rédeas das suas vidas.

A acção central é a fuga da família de um comerciante, um casal com uma filha, cristãos coptas do Egipto, após o assassinato do primeiro-ministro copta com o consequente atear das tensões inter-religiosas. Casadoira, Salua, a rapariga, seria entregue ao noivo, na Palestina, local para onde a família se dirige à procura da tolerância, mas ao encontro dos equívocos e da destruição: Mazen, o patriarca, é assassinado, erradamente, por suspeitas de colaboracionismo com forças britânicas, um engano que leva, todavia, o noivo de Salua a repudiá-la. Sós, numa terra estrangeira, as mulheres recomeçam a sua vida. Salua acaba por casar, com amor correspondido, com um humilde pescador muçulmano, de quem tem quatro filhos.

A sua casa do Monte Carmelo é, todavia, o espaço da felicidade a prazo, porquanto proibida naquela faixa negra do Médio Oriente: o marido é atingido por uma bomba israelita quando se dirigia a casa para junto da família e Salua vê-se espoliada pelo governo de Israel. O diálogo que aqui reproduzimos surge no clímax de um processo gradativo de densidade psicológica a fazer-nos reflectir sobre o legado de humilhação e violência humanas e as consequentes motivações para a luta armada de uma nova geração, filha de inocentes, numa explicação do círculo vicioso do ódio.
Extracto:

«- Lamento, mas esta casa foi-nos atribuída – tinha dito gentil mas decididamente a mulher, mantendo aquela visita importuna de pé na soleira da porta. Salua só conseguia olhar para trás da mulher aquele ambiente tão familiar, os belos muros brancos sobre os quais restavam dos panos bordados que aí havia até há poucos dias.
- Mas não pode ter sido “atribuída”, a casa é minha! – gritou.
- Agora a casa é nossa. Estou certa que o governo israelita providenciará uma compensação, se era realmente a proprietária.
- Compensação? – o sentido do absurdo, de injustiça, foi forte como uma bofetada. Esta casa foi comprada pela minha mãe, foi reconstruída pelo meu marido, peça a peça, e o jardim foi tratado por mim, planta a planta. Vivemos aqui durante décadas, aqui nasceram e cresceram os nossos três filhos, como pode falar de “compensação”?
- Estou certa de que o seu marido pode dirigir-se ao governo israelita – disse a mulher. (…)
- O meu marido morreu – repetiu Salua, desta vez sem gritar mas fixando os olhos daquela mulher (…) – foi morto por uma bomba israelita. O meu filho mais pequeno e a minha mãe estão bloqueados em Damasco pelo exército israelita. E enquanto as minhas duas filhas dormem numa cozinha, eu passo os dias a fazer comida para o exército israelita. (…) já me esquecia: estou grávida. Que “compensação” crê que o seu governo pode oferecer-me?
A mulher olhava-a emudecida.
- O seu filho nascerá israelita – foi o que conseguiu dizer. – Em breve teremos a paz.
- O meu filho nascerá órfão!»

A Esposa de Assuão, Rula Jebreal; Editorial Campo das Letras, Porto, 2007

© Teresa Sá Couto

sábado, 27 de dezembro de 2008

«Exterminem Todas as Bestas»

Com o título extraído do romance «O coração das Trevas» de Joseph Conrad, o livro «Exterminem Todas as Bestas» de Sven Lindqvist requer toda a nossa atenção. Advertindo que este trabalho é «uma história e não um contributo para a investigação da história», o autor lembra que a palavra Europa deriva de uma palavra semítica que significa «escuridão» e coage-nos a enfrentar e a tirar conclusões do que há muito sabemos: o horror perpetrado pelos europeus ao longo da história, edificando palcos de Inferno em nome da vaidade antropomórfica e antropocêntrica.

O trajecto pelos 169 curtos capítulos é, necessariamente, uma viagem pelos matizes do terror, pela intemporalidade do medo, e a tentativa de compreender essa energia monstruosa: «Um homem pode destruir tudo dentro de si, amor, ódio e crença, e até mesmo a dúvida, mas, enquanto se agarrar à vida, não pode destruir o medo».

H. L. Mencken (1880-1956) disse que “A consciência é uma voz interior que nos adverte que alguém pode estar olhando”. É neste sentido que entendo o presente livro de Sven Lindqvist: ele é um olhar acutilante que se fixa, sem contemplações, na nossa consciência colectiva de europeus e a faz estremecer de alto a baixo, desde tempos remotos até à actualidade. Inscrito na Colecção «O nosso Tempo», da Editorial Caminho, o livro é ainda mais inquietante porque não nos traz nada de novo, mas mostra-nos o que jamais deveríamos ter esquecido. O próprio autor desfralda essa inquietação ao explicar o objectivo das páginas desassombradas: «Você já sabe quanto baste. Eu também. Não é de informação que carecemos. O que nos falta é coragem para compreender o que sabemos e tirarmos conclusões.».

Sven Lindqvist desenvolve a sua narrativa num misto de «livro de viagens, relato autobiográfico e história das ideias», enquanto percorre o deserto do Sara e o computador à procura do conceito de extermínio. Com o Livro de Conrad no motor da reflexão – esse «autor profético» que «previra os horrores vindouros», ou falava dos genocídios do seu tempo? -, apuram-se as responsabilidades da Europa para com os povos de outros continentes. Relembra a visão europeia sobre as “raças inferiores”: «a verdadeira compaixão das raças superiores consistia em facilitar-lhes o desaparecimento». Recorda que o Extermínio dos judeus pelo Terceiro Reich não foi original: «Hitler encontrou modelo nos britânicos e noutros povos do ocidente só que ele virou-se para Ocidente». Escreve que a «arte de matar à distância tornou-se desde muito cedo uma especialidade europeia». Defende que na Europa pré-industrial, «atrasada e com parcos recursos», a «principal exportação era a força, por todo o mundo éramos considerados guerreiros nómadas ao estilo dos mongóis e dos tártaros». Fala do aperfeiçoamento das armas ao longo da História, e da sua utilização: «A utilização de balas dum-dum entre Estados "civilizados" era proibida. Estavam reservadas para a caça de animais de grande porte e para as guerras coloniais».

Demonstra-nos que os europeus «tornaram-se os deuses dos canhões que matavam muito antes de as armas dos seus opositores os atingirem. Trezentos anos mais tarde, esses deuses tinham conquistado um terço do mundo.». Recorda-nos o tráfico de escravos, as chacinas, as matanças maciças, as humilhações infligidas pelo Homo Sapiens do continente civilizado. Depois do colonialismo, no início do séc. XIX surge o Imperialismo e uma nova forma de racismo, com um grande número de europeus a interpretar «a superioridade militar como superioridade intelectual e até biológica»: os barcos a vapor eram a nova maravilha – retratados como portadores de luz e rectidão moral – que possibilitavam o transporte da artilharia para o interior da Ásia e da Africa.

Apoiando-se em documentos de natureza diversa, escritos à época, o autor vai unindo as partículas da nossa memória e elaborando o mapa da nossa vergonha. Fala na força do colonialismo britânico contra os ashantis, em 1874, e no Egipto, em 1884. Analisa connosco o que foi escrito por um correspondente de guerra do The Morning Post sobre a batalha de Omdurman, em 1898: «Não voltará a ver-se nada que se assemelhe à batalha de Omdurman (…) Foi o último elo na longa cadeia daqueles espectaculares conflitos cujo esplendor vivo e majestoso tanto contribuiu para dar à guerra um carácter sedutor (…) um jogo esplêndido onde ninguém contava morrer». São muitos os documentos referidos, muitos os testemunhos, demasiadas as verdades, tantas quantas são as formas da nossa ignomínia.

Fica assente: depois do ser humano ter deixado de ser uno, depois que descobriu que existiam outras raças, outras formas de ser e estar, descobriu também como exercer o extermínio. «A longa lista da paleontologia encontra-se meio cheia com registos de extermínios; ordens inteiras, famílias, grupos e classes desapareceram sem deixar qualquer marca ou tradição na fauna viva do mundo. (…) Até mesmo no mundo dos nossos dias as forças da extinção encontram-se activas. Nos últimos cem anos, os seres humanos enxamearam todo o globo terrestre e empurram espécie após espécie da beira do precipício.».

Com o ano 2008 a chegar ao fim, e com todos a fazerem o "balanço de vida", eis um livro para nos fazer reflectir. E haja coragem para enfrentarmos as verdades de um mundo pejado de insanidade.

Exterminem Todas as Bestas, Sven Lindqvist; Editorial Caminho, Lisboa 2005

© Teresa Sá Couto

sábado, 20 de dezembro de 2008

Cem horas com Fidel Castro

Quer se queira ou não queira, Fidel Castro é uma lenda. O seu escritório pessoal está pejado de símbolos que fazem a narrativa do último rebelde mítico. Entre os objectos destacam-se três: uma estátua de Simão Bolívar, o libertador da América espanhola, um busto de Abraham Lincoln e, num recanto, abarcando tudo, uma escultura de bronze do Quixote montado no Rocinante, símbolo da quimera. No ar, a frase de Che: «uma grande revolução só pode nascer de um grande sentimento de amor».

Há meio século que é o líder carismático da ilha de Cuba, pequeno país rodeado por um muro desde 1962, quando o vizinho gigante americano lhe impôs o embargo, que reforçou nos anos noventa.

Lidou com dez presidentes norte-americanos: Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush pai, Clinton e Bush filho. Nenhum conseguiu derrubá-lo, tampouco vergá-lo nas convicções de talhar a Revolução Cubana, que mantém com mão e persistência férreas, ao jeito do lema de Santo Inácio de Loiola: «Numa fortaleza assediada, qualquer dissidência constitui uma traição».

Famoso também pelos longos discursos, deu, porém, apenas cinco entrevistas em toda a vida. É esta última, terminada há cerca de três anos, que surge publicada num livro imprescindível e arrebatador sobre Cuba e sobre a História mundial do século XX. Ou seja, sobre a história de Fidel. São cem horas com Fidel Castro, numa leitura sem cansaço!

Fácil de seguir, «Fidel Castro – Biografia a duas vozes» é uma grande entrevista feita por Ignacio Ramonet com mais de seiscentas páginas, organizada em 26 temas seguindo a ordem cronológica dos acontecimentos. Numa introdução contextualizadora, o autor explica que a «longa conversa» iniciou-se em Janeiro de 2003 para terminar em Dezembro de 2005. O palco da entrevista foi o escritório pessoal de Fidel, com o líder cubano vestido no seu sempre «impecável uniforme verde-azeitona» e a costumeira frescura, não obstante as longas horas de diálogo noite dentro.

A ordem dos acontecimentos relatados parece ser ditada por Fidel, que explana a Revolução Cubana desde o século dezanove, onde lhe encontra as forças embrionárias. Uma dessas fundações está no nome José Martí, o «apóstolo», o herói comemorado em Cuba em 2003 quando do 150º ano do nascimento, altura em que também se comemorou o 50º aniversário do assalto falhado ao quartel de Moncada, perpetrado por Fidel e alguns companheiros de ideais na tentativa de deposição de Batista.

Percurso de um homem só…

Além das conversas no gabinete, o entrevistador acompanhou Fidel em vários momentos da sua agenda e deixou-se magnetizar pelo carisma do dirigente com hábitos de «monge-soldado», vida modesta, quase espartana, noctívago, com a jornada de trabalho, sete dias por semana, a terminar quando nasce o dia, bastando-lhe dormir quatro horas. O retrato vai mais longe no deslumbramento: «quase tímido, educado e muito caloroso, que dá atenção a qualquer interlocutor, com sinceridade e sem vaidade. Com modos e gestos de uma cortesia de outros tempos, sempre atento aos outros, em particular aos seus colaboradores e seguranças, é uma pessoa que não altera o tom de voz. Nunca o ouvi dar uma ordem. Apesar de tudo isto, exerce uma autoridade absoluta em seu redor. A razão é a sua personalidade avassaladora. Onde quer que ele esteja, só uma voz se ouve: a sua. (…) Desde a morte de Che Guevara que não há ninguém, no círculo do poder em que se move, que tenha um calibre intelectual que se assemelhe ao seu. Neste aspecto, dá a impressão de ser um homem só. Sem amigos íntimos, nem parceiro intelectual ao seu nível».

Concorrendo para uma interiorização da luta, é significativa, refere o autor, a inexistência do culto da personalidade. Embora presente na Imprensa, a imagem de Fidel Castro não existe em mais lado nenhum, em fotografias oficiais ou estátuas ou moedas ou avenida.

«para que todos sejam como o Che»

É sabido que uma das bandeiras da Revolução Cubana é a luta contra o analfabetismo e o trabalho para uma Educação de excelência. Fortíssima, a imagem de Che surge surpreendentemente no discurso de Fidel como exemplo e inspiração do programa educacional, pela «força moral indestrutível», pela causa, pelas ideias: «é um dos homens mais nobres, mais extraordinários e mais interessantes que conheci, que não teria importância se acreditarmos que homens como ele existem aos milhões e milhões e milhões nas massas de pessoas. Os homens que se destacam de um modo tão singular não poderiam ter feito nada se não houvesse muitos milhões como eles, com o mesmo embrião ou a capacidade de adquirir essas qualidades. Por isso, a nossa Revolução se interessou tanto por lutar contra o analfabetismo e pelo desenvolvimento da educação, para que todos sejam como o Che.».

O terrorismo americano

Em resposta a questões sobre a emigração cubana, Fidel aponta em riste para o longo embargo com consequências trágicas para os habitantes do território com pouco mais de cem mil quilómetros quadrados e onze milhões de habitantes, que querem ter uma vida melhor, além da permanente guerra ideológica e mediática que a América faz contra Havana através das rádio e televisão Martí, instaladas na Florida para inundar a ilha de propaganda, «à semelhança dos piores tempos da guerra fria»: A tudo isto, acrescem organizações terroristas hostis a Cuba, instaladas em campos de treino de Miami – entre outras, as Alpha 66 e Omega7 –, donde saem comandos armados para a ilha, com conivência das autoridades americanas: contando com as vítimas nos acidentes que acontecem na travessia, lê-se, «Cuba é dos países que mais vítimas tem tido (mais de três mil) e que mais tem sofrido com o terrorismo nos últimos quarenta anos». Não obstante este quadro construído pelos americanos, refere-se, são conhecidas as declarações de Fidel sobre o 11 de Setembro: «Que me cortem uma mão, se alguém encontrar aqui uma só frase que seja que tenha por intuito amesquinhar o povo norte-americano. Seríamos uma espécie de fanáticos ignorantes, se culpássemos o povo norte-americano pelas divergências entre os governos dos nossos países.».

Diz o autor que Fidel «acredita apaixonadamente naquilo que faz. O seu entusiasmo move as vontades» e as «palavras tornam-se realidades. Esse deve ser o seu carisma.». Talvez esse carisma, fundeado num ideal inamovível, seja a bússola que o guia apesar de entrincheirado, e lhe aponte novas ideias para a sua sociedade menos desigual, sem privatizações, mais sã e melhor educada, e agora, a defesa da ecologia.

Talvez assim se explique porque não há registo de uma única sublevação popular, que os seus ideais se tenham mantido incólumes à queda do Muro de Berlim, ao «desaparecimento da União Soviética e ao fracasso histórico do socialismo autoritário». Fidel e a Revolução Cubana fragmentam opiniões, mas nenhuma consegue ser desapaixonada.

Fidel Castro - Biografia a duas vozes, Ignacio Ramonet; Editorial Campo das Letras; Porto, Dezembro 2006

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A morfologia da dor num romance de David Grossman

A dor é um lugar largo. Pelos sentidos, ela expande-se ao exterior do corpo, tomando, adicta, sempre novos territórios. Quando a dor encontra a palavra certa, esta passa a ser um instrumento ao seu serviço e um lugar onde passa a habitar. «Em Carne Viva» é um livro do israelita David Grossman, com a morfologia da dor no seu interior, desenhada nos seus nervos pujantes, no labirinto, na exaustão.

Raramente a literatura falou assim da dor. Muito raramente uma dor literária tem tido o poder de se comunicar com a dor sentida de cada leitor. «o amor é que tu sejas a faca com a qual eu escavo dentro de mim», escreve Miriam na sua embriaguês amorosa por Yair, o homem que iniciou o jogo perigoso entre os dois: uma fantasia assente apenas na correspondência trocada entre ambos, que, lesta, lhes desnuda as almas, abre cicatrizes, e a carne viva das palavras esmiúça os sentimentos até à loucura. Com a chancela da Campo das Letras, esta é uma estranha história de amor intenso, pungente e inquietante que o leitor dificilmente esquecerá.

Editado há pouco em Portugal, traduzido do hebraico por Lúcia Liba Mucznik, este «Em Carne Viva» foi escrito em 1998 e vem juntar-se a outras obras carismáticas de David Grossman publicadas pela Campo das Letras. Se a densidade psicológica e a escrita depurada são marcas do autor, este novo título acrescenta-lhes uma original construção narrativa em três partes: primeiro, as cartas de Yair, um vendedor de livros raros, com 33 anos, casado, pai de um menino de cinco anos, mestre de vida dupla, a Miriam, uma professora com 40 anos, casada e com um passado de dor, cujas cartas se coligem na segunda parte do romance; na terceira e última parte, Chuva, surge o frémito, a transgressão às regras que os dois tinham estabelecido, e o clímax trágico da água da realidade.

Yair repara em Miriam numa reunião da Escola, sem que ela repare nele. O homem põe então em prática o «jogo louco» enviando-lhe uma carta arrebatadora. As regras são definidas: encontrarem-se «não num lugar, mas num tempo», criarem uma «intimidade anónima», conhecerem-se apenas na pele das palavras, sem nunca se verem ou ouvirem, para não serem contaminados pelo real, «os dois na mesma água» de uma fantasia com prazo de uns meses, até se esgotar o encanto. Mas os «repuxos da água» são indómitos e, carta após carta, «as folhas abrem caminho umas às outras», com doações de alma, gestos do dia-a-dia, o diário de uma obsessão, a partilha de segredos inconfessados, as promessas de pele gritadas pelo desejo, deixando-os cada vez mais nus e dependentes das palavras um do outro:

- «Não pares de escrever, agarra-te à caneta com toda a força que te resta, tremes de tensão, mas escreves, cria raízes em mim, não tenhas medo»; «eu entreguei-te um verme e tu fizeste dele um homem. São as mesmas peças, mas melhoradas»; «ajuda-me a acalmar-me. Estende-me uma mão, um dedo basta-me, preciso que agora, neste preciso momento, sejas o meu pára-raios», escreve Yair.

- «Não quero que sejas o meu pára-raios. Porque havias de ser a prisão dos meus relâmpagos? Pelo contrário, estás a ouvir? Vem cá e diz, sê a luz!»; «Escrevi na tua testa com o dedo (mas ao contrário, para conseguires ler de dentro)»; «Antes de ti, era uma dor surda e obscura, à qual talvez nem soubesse dar um nome claro, depositar-se-ia no fundo misturando-se com as outras mágoas da vida, mas tu chegaste e deste-lhe um nome e um vocabulário»; «não acho que tu sejas a pessoa que me pode curar da minha dor, Yair, mas se calhar, nesta etapa da minha vida, o que eu preciso não é de um médico, mas de alguém com uma dor como a minha», escreve Miriam no seu «calendário do efémero».

Breve e apoteótica, Chuva, a terceira parte da narrativa, levanta a questão reflexiva: Em que lugar se vive realmente uma vida plena? Na realidade ou na fantasia?
Num momento de desespero em casa, Yair telefona a Miriam, que, em aflição, corre para o ajudar, na exacta altura em que o céu de Jerusalém se desfaz nas primeiras chuvas. Quebradas as regras do anonimato, com a realidade a entrar definitivamente na bolha da fantasia, desaba sobre eles a água crua com rajadas invernais. É a chuva das lágrimas e da despedida, da confusão e da angústia, a chuva que separaria as palavras misturadas dos oito meses de devaneio a dois, a chuva do enigma da alma humana no seu confronto dilacerante com o sofrimento. Para conferir, nas 301 páginas de uma leitura esmagadora que não permite paragens.

Em Carne Viva, David Grossman; Editorial Campo das Letras, Porto, Outubro 2007

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Portugal inovador e retrógrado

Reedição de José Sebastião da Silva Dias

Editado pela primeira vez na revista Biblos, da Universidade de Lisboa, em 1933, o ensaio «Portugal e a Cultura Europeia (séculos XVI a XVIII)», de José Sebastião da Silva Dias, falecido em 1994, foi reeditado pela Campo das Letras, há dois anos.

Se é, em primeira instância, destinado aos estudiosos do tema, é impossível trilhar as suas páginas sem que bebamos delas o sentido crítico desta forma de ser português em constante tensão entre a magnificência de ideias novas e o enquistamento das ideias tradicionais e retrógradas que emperram aquelas e, por isso, o desenvolvimento cultural.
Com o rigor da academia, o excelso retrato de Portugal na sua relação com a cultura europeia na “primeira globalização” instigada pelos Descobrimentos, e o portento da reflexão que chega indemne à nossa psicologia, o ensaio de Silva Dias suscita-nos espanto, deslumbramento e alerta-nos para o seu carácter imprescindível.

No século XVI, assumindo uma «feição militante», o Humanismo, casado com as formas renascentistas, propunha o renovo de ideias, sentimentos e hábitos, colidindo com o legado da idade média, os «vícios didácticos da Escolástica», apontando, também, a «decadência religiosa da sociedade». As empreitadas ultramarinas dos portugueses lançam o país na efervescência inovadora, além de inscreverem Portugal no mundo. Numa primeira fase, o processo é apadrinhado e incentivado pela Coroa, exultante dos novos tempos.

No «zénite dos descobrimentos», lê-se, deu-se a convivência do país com os meios intelectuais de além-Pirinéus», e uma «afluência crescente de estrangeiros aos nossos centros comerciais e marítimos. Os primeiros a chegar foram os espiões, mareantes e homens de negócio, atraídos pela esperança de prémios e lucros fabulosos. Os turistas e letrados vieram logo a seguir.». Ao mesmo tempo, portugueses contactavam com as ideias de Erasmo, Budeo, Lefèvre d´Etaples, Luís de Vives, resplandeciam Galileu, Bacon, Kepler, Harvei, entre muitos outros chamados minuciosamente para as páginas deste Ensaio.
Porém, e concomitantemente, a reacção contra o espírito da renascença e da Reforma, anti-humanista e anti-luterana surgia célere. Se o régio Mecenas, D. João III, tinha nas universidades estrangeiras, sobretudo a de Salamanca, o modelo para a Reforma, a breve trecho foi vencido nos seus sonhos de renovo coagido pela força tentacular da igreja e seus processos inquisitórios que alarmavam para o “descambar dos comportamentos” e «progresso da heresia».

Se a introdução da Medicina na Universidade - com a criação das cadeiras de Anatomia e Cirurgia em Lisboa e Anatomia, Medicina e Cirurgia em Coimbra (1556-57) - reflecte a influência do espírito europeu, todavia a escolha errada dos professores, por mau aconselhamento do Rei, fez com que a Universidade entrasse em crise por não corresponder «ao espírito que animava os humanistas e homens de ciência mais esclarecidos». Também a entrada dos jesuítas em Portugal suscitou contradições de carácter ideológico. Em vez de constituir a antítese mental do Humanismo, o ensino jesuíta «aceitava-lhe os métodos e as reivindicações, ou seja, a reforma dos costumes e o renovo da cultura». De notar que a companhia de Jesus forneceu ao país teólogos, filósofos e humanistas de gabarito. Acusados pelos opositores de «místicos iluminados», pretendia-se, no fundo, «diminuir o seu império na formação da juventude e a sua insistência na purificação dos costumes».

Os portugueses «tinham de continuar cristãos e católicos», hasteavam as forças contrárias ao renovo. Surgia a censura inquisitorial – em 1540 surge o primeiro Rol de Livros Defesos, lista de obras suspeitas, para em 1624 surgir um índice expurgatório aumentado, com a regra nº 10 a proibir «quaisquer livros em língua inglesa, Flamenca ou Tudesca», além de advertências contra livros franceses e outros de «terras estranhas» –, e intensificava-se a hostilidade do Santo Ofício contra os pregadores favoráveis à reforma dos costumes e da piedade cristã. A sua actuação, refere-se, «radicava no temor que a sua capacidade pudesse perturbar almas, abrindo aos humanistas e luteranos uma passagem que a todo o custo se queria barrar. Foi isso que despertou os ânimos, empenhando a inquisição e a opinião pública dominante numa campanha de grande estilo contra o espírito da inovação.».

Aos poucos, os estrangeiros que cá leccionassem, abandonavam o país, talvez por receios de «desgraças ou incómodos, com que já Garcia da Horta se vira a braços e que talvez tenha influído na prudente indiferença de Pedro Nunes às ideias de Copérnico». Será nesta altura que se dará a primeira conhecida Fuga de Cérebros, enquanto que outros, enfrentavam em Portugal as perseguições do Santo Ofício, ou ainda outros, menos afoitos, ficavam por no país fechados no silêncio. Expoente máximo das letras portuguesas da época, D. Francisco Manuel de Melo, que «vegetou, anos e anos, em cadeias e degredos», apresentou os portugueses com as ideias castradas, recalcados e resignados às rotinas, «sempre receosos de toda a especulação, contentando-se de saberem o necessário para dirigirem condignamente suas acções de corpo e espírito, sem alguma mistura de supérfluas disciplinas». Também no século XVIII, Luís António Verney em «O Verdadeiro Método de Estudar», que caiu em Portugal «como uma bomba», apontava o nosso isolamento cultural e o erro de em Portugal se desprezarem «todos os estudos estrangeiros, e com tal empenho, como se fossem maus costumes ou coisas muito nocivas».

Todos constatamos que, em pleno século XXI, lá vão irrompendo das trevas forças ideologicamente retrógradas com o intuito de bloquear a dinâmica da evolução, quase sempre, e porque é a única metodologia que conhecem, com técnicas extremistas e hediondas. Se este Ensaio nos mostra os séculos de luta entre a luz e as trevas, para forte domínio destas últimas, também nos mostra que, por se conhecer aquele, o poder está na luz da nova sabedoria dos tempos.

Portugal e a Cultura Europeia (séculos XVI a XVIII), José Sebastião da Silva Dias; Editorial Campo das Letras, Porto 2006

© Teresa Sá Couto