O Romper das Ondas é o novo romance de Rui Herbon, que será lançado no próximo dia 02 de Março, às 18 horas, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha, estando a apresentação pública a cargo da escritora Lídia Jorge.domingo, 1 de março de 2009
Rui Herbon lança novo Romance
O Romper das Ondas é o novo romance de Rui Herbon, que será lançado no próximo dia 02 de Março, às 18 horas, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha, estando a apresentação pública a cargo da escritora Lídia Jorge.sábado, 28 de fevereiro de 2009
A Arte maior de Nikias Skapinakis

pontuais, a tragédia veio depois e não terá ainda terminado. Mas eu tinha como ponto de honra não perder a alegria de viver, isto é, não consentir que ma roubassem.». José Gomes Ferreira resume talvez isso quando escreveu sobre mim: “amava os sabores do sistema e era anti-fascista”», disse Nikias em comentário a uma série de retratos da série melancólica, onde se inclui o «Tertúlia», de 1960 (na imagem à esquerda).Se o pintor soube retratar como poucos esses sinais sociológicos caracteristicamente portugueses, a sua pintura assinala-se pelo constante movimento, numa estimulante invenção e reinvenção que o levou à procura de «um cada vez mais nítido domínio da cor», a penetrar noutras dimensões da linguagem e exploração cromática. Uma pintura não abstracta, mas sim metafísica cujo diálogo se encontra neste livro de partilha e que é, também, uma homenagem à Cultura Portuguesa.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
As Mulheres na pintura de Isabel Botelho
«São altas essas roseiras de mulheres, / inclinadas como sinos, como violinos, dentro / do som», escreveu Herberto Hélder em versos que nos ecoam fortíssimos quando nos detemos nas novas pinturas de Isabel Contreras Botelho.
Para ver ao vivo e conferir o afago que nos chega pelo olhar, para se disseminar por todos os sentidos....
Jorge Pinheiro - Pintura de silêncio e luz
Não é esquecida, tampouco tardia, esta oferenda com nome Jorge Pinheiro! O deslumbramento não se olvida nem tem um tempo para acontecer. Sabe-o João Miguel Fernandes Jorge, autor dos textos que acompanham as fotografias de telas daquele pintor. Sabe-o a editora Campo das Letras que, em colaboração com a Galeria Palmira Suso, editou o esplendor em livro. É este, dos vários livros que nos trazem Jorge Pinheiro para nossas casas, que chamo à atenção. A capa dúctil e discreta guarda, convidativa, uma grande viagem: a dos sentidos desassossegados por dezasseis telas de pureza policroma, metaforização e teatralidade composicional. - Senhor, tenho dois filhos. Qual deles devo levar comigo?
- O teu único filho.
-Senhor, cada um é o filho único de sua mãe.
- Leva o filho que tu amas.
- Senhor, amo os dois.
-Leva o filho a que tens mais amor.
- Senhor, o que devo fazer na terra de Moriá?
-Oferece um holocausto no meu altar.
Nas telas, as personagens «movem-se entre um grito de terror e o sacrifício». Nem falta o holocausto no altar de pedra, nem o grito da mulher e mãe que ressoa num infinito sofrimento – à maneira de O Grito de Munch –, a evocar e a convocar toda a humanidade. E o silêncio está lá, denso na tragédia, estridente na denúncia da ruína humana, instigando à reflexão: «Qualquer morte é um sacrifício, um drama que desce sobre a pedra do sacrifício.».
Palcos onde se encena o grande jogo da vida construído alegoricamente: eis as telas de Jorge Pinheiro. Palcos onde se representa o ser humano, andarilho, Charlot, «The Tramp», o niilismo, mas também a esperança. «Jorge Pinheiro: um pintor, um signo. Na procura de uma verdade pictórica, o pintor deixa percorrer a sua obra de uma luz que ’incendeia’, com uma arqueologia nostálgica e com a fragilidade de uma existência longínqua, ícones, índices e símbolos», escreve João Miguel Fernandes Jorge sobre a pintura de Jorge Pinheiro.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
ZECA AFONSO - NOME DE LIBERDADE
Quando passam 22 anos da morte de Zeca Afonso, recupero um texto que elaborei sobre o magnífico livro infantil Zeca Afonso – O andarilho da voz de ouro de José Jorge Letria, com ilustrações de Evelina Oliveira. É esta a minha humilde homenagem. Se Zeca foi a voz de ouro, sinónimo de riqueza humana e trigo do futuro, este livro dedicado ao grão do trigo novo é o instrumento que faltava para se passar esse testemunho às nossas crianças. Por isso, e já, Que é já tempo /D’embalar a trouxa /E zarpar em direcção ao futuro, Venham mais cinco e tragam outros amigos também para que se obtenha uma seara robusta.
Surgia naturalmente a definição de Cantor político. «Os vampiros querem calar a voz que os desmascara e condena. Mas o cantor não se cala. E já não está só. Estão com ele Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire ou Francisco Fanhais, entre muitos outros. Na página 36 irrompe a narração contígua à ilustração do último concerto de Zeca em Lisboa, em 1983, no Coliseu dos Recreios, uma fremente catarse, ainda hoje sem explicação racional. quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Sociedade secreta de Vila-Matas, em Lisboa
O escritor catalão Enrique Vila-Matas vai estar em Lisboa, no Centro Cultural de Belém (CCB) no próximo fim-de-semana, no ensejo da estreia da peça de teatro “Sentido Portátil”, uma adaptação do seu magnífico "história abreviada da literatura portátil". O acontecimento é imperdível. Ver aqui informações, acedendo a "sentido portátil".
Viagem à insólita psicologia dos criadoresDesta vez “desmantela-se” a conspiração shandy ou sociedade secreta dos portáteis, fundada em 1924 onde conjuraram escritores de renome da literatura universal, como García Lorca ou Scott Fitzerald. Com todos, por acontecimentos bizarros e hilariantes, o leitor viaja à psicologia dos criadores, que jamais verá da mesma maneira: este portento de Vila-Matas, como o próprio diz, permite-nos conhecer «os que tornaram possível que hoje se possa desmascarar com mais facilidade do que nunca todos os que, como disse Hermann Broch, “não é que sejam maus escritores, mas sim delinquentes».
Esta "História Abreviada da Literatura Portátil" foi publicada pela primeira vez em 1985 e é uma obra emblemática de Enrique Vila-Matas, traduzida em inúmeras línguas e, «transpondo as páginas do livro, originou diversas conspirações na vida real» ou não fosse o seu conteúdo “abrasivo”. A conjura shandy – que significa alegre, volúvel e maluco –, cuja característica era a de conspirar por conspirar, foi o «elo de união dos que formaram uma sociedade secreta sem precedentes na história da arte». Fundada na foz do rio Níger, foi dissolvida três anos depois, na sequência de um escândalo em Sevilha.Dela fizeram parte, entre muitos outros, García Lorca, Scott Fitzerald, Marcel Duchamp, Walter Benjamin, César Vallejo, Rita Malú, Valery Larbaud, Berta Bocado, Alberto Savinio e Georgia O’Keefe.
Pela mão de um narrador-investigador daquela sociedade secreta, mergulha-se na «história abreviada ou avariada» de escritores com atracção pelo minimalismo e defensores da «apoteose dos pesos ligeiros na história da literatura» e segue-se-lhes o rumo por vários pontos do mundo, «peregrinos medievais para quem o essencial era a viagem» e terem histórias para contar.
Para se ser shandy, e assim ser-se admitido na sociedade secreta, havia requisitos a cumprir: exigia-se um alto grau de loucura, ter uma obra que não fosse pesada e coubesse numa caixa-mala – para se cumprir o gosto de viajar com uma maleta que continha toda a obra –, «ter espírito inovador, sexualidade extrema, ausência de grandes propósitos, nomadismo infatigável, tensa convivência com a figura do duplo, simpatia pela negritude, o culto da arte e da insolência». Todos requisitos para a concentração na criação artística e apologias do desconcerto, «como fonte inesgotável de novas e estimulantes sensações».
Loucura, criação, fraude e magnetismo
Porque a solidão é necessária para criar, todos odiavam crianças, elucidado na história de Walter de la Maré que, «na sangria da vontade, da independência, da liberdade de concentrar-se no trabalho», chegou a atirar o filho pela janela. Em busca do retiro amigo da actividade criadora, muitos shandys resolveram fazer uma viagem imóvel ao fundo do mar, refugiando-se durante algum tempo dentro dum submarino ancorado no fundo das águas do porto de Dinard, na Bretanha, uma antiguidade bélica da primeira guerra mundial. Uma Nave de loucos, onde se libertava a excitação, o fumo e o álcool, que «evocava a bíblica Arca de Noé, tão parecida com o submarino, pois nunca como nesta ocasião houve tanta variedade de feras portáteis reunidas».
O escrúpulo em relação ao pormenor era justificado por só as coisas mínimas permitirem viver intensamente. Por outro lado, «miniaturizar é tornar portátil, e esta é a forma ideal de possuir coisas para um vagabundo ou exilado». Mas miniaturizar é também ocultar, daí o fascínio dos shandys por tudo o que exigisse ser decifrado: emblemas, manuscritos, anagramas. E assim seguiam, com a sua caligrafia microscópica, enigmática, volúvel e maluca, «coleccionadores carregados de coisas, quer dizer, de paixões».
Na “simpatia pela negritude”, refere-se Blaise Cendrars com a sua Antologia Negra que, baseada numa «intensa biografia», coligia histórias populares africanas, e propunha-se reproduzir «pela primeira vez na Europa contos que missionários e exploradores foram transmitindo oralmente». Concluiu-se que as estórias de Cendrars eram uma fraude, fabricadas pelo próprio, «apanhadas no ar» e construídas a seu belo prazer.
Por breves 107 páginas, o leitor segue magnetizado pela escrita indomável do autor catalão, que apresenta e polemiza o impensável, e que, veloz, só admite pausas na leitura para a interjeição do espanto, o sorriso que reage à ironia ou a reflexão proposta pela singularidade. E segue os encontros dos portáteis nas sextas-feiras, numa livraria, a polémica dos suicídios reais e literários - com a moda de suicídios por barbitúricos, numa «grande orgia de pastilhas», em quartos elegantes de hotéis europeus -, o “extravio” de alguns membros dos portáteis, por desistência, incompatibilidade ou morte, até à extinção da sociedade secreta heróica, em 1927.
História Abreviada da Literatura Portátil, Enrique vila-Matas; editorial Campo das Letras, Porto, Junho 2006
Nota: texto meu sobre Da Cidade Nervosa
© Teresa Sá Couto
Crónicas de Enrique Vila-Matas
Portugal “deliciosamente atrasado”
© Teresa Sá Couto
nota: este texto foi publicado no sítio da Orgia Literária em 20.06.2008
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
O erotismo de David Mourão-Ferreira
Jóia da poesia erótica portuguesa, a antologia poética «Música de Cama» de David Mourão-Ferreira – também título do último livro de poemas do autor (1993) – colige 100 poemas escritos ao longo de quarenta e cinco anos, acompanhados por dois desenhos em grafite de Francisco Simões.Os mistérios da pele
Afinal, como diz o poeta, «Nós temos cinco sentidos: /são dois pares e meio de asas. /- Como quereis o equilíbrio?».
(to Artur)
© Teresa Sá Couto
«Emendar a Morte, Pactos em Literatura»
Como vive a literatura «a nossa forma de morrer»? Ela é capaz de “enganar” a morte pela sua emenda, oferecendo-nos a correcção de vida? Que pactos e emendas nos dá ela? Afinal, não é a literatura um lugar de relações que o indivíduo estabelece consigo mesmo, com os outros e com o mundo, um lugar de diálogo com as formas de viver, de morrer e como morrer, onde se criam pactos e emendas para os limites da condição humana?«se é certo que nele a intensidade de uma voz pessoal se faz sempre sentir, não é entretanto menos visível que essa voz não coincide com os estritos (e estreitos) limites daquilo que usualmente consideramos como “o indivíduo”. Este indivíduo é sobretudo, para Vergílio Ferreira (aqui uma vez mais com Dostoiévski), o lugar onde repercutem as várias vozes do mundo: passados e presentes; classes e pertenças diferenciadas; realidades vividas e outras tantas imaginadas, ou temidas; géneros de identidade sexual que se falam; memórias e futuros que se encontram nodularmente no momento intenso do presente; idades do homem para quem o passado nunca está encerrado e para quem o futuro faz parte do agora – todos estes discursos entretecem e em última análise produzem o discurso individual, nele fazendo cristalizar os múltiplos e mutáveis pactos pelos quais tecem a sua vida.».
nota: Helena Carvalhão Buescu editou em 2007 o livro de poesia Ardem as Trevas e Outros Lugares, que aconselho vivamente
© Teresa Sá Couto
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Os fios da poesia de Ana Luísa Amaral
Dar a voz ao poema. Deixar que ele encontre o papel. O verso molda-se «até onde se quer». Ele pode ser «tanto montanha como campo lavrado ou montra da cidade». Mas ele é sempre corpo, braços, cabeça, coração. O verso é isso tudo num amplexo humano ao mundo: «A agonia do espaço, a tortura do tempo,/ e assim, a luta: /longa necessidade, /em sobressalto: /a alma». Isto diz-nos Ana Luísa Amaral, nome grande da actual poesia portuguesa. O fundo do abismo
ou da muralha
saber até à precisão mais certa
as unhas de distância
para o céu
Horror é conhecer
O vento mais macio
a bandeira mais clara
a que anuncia
mas sem dentes nem
mãos
Horror é conhecer:
tudo o resto se cura
com a vida
«Podem ser do que forem
as pontes de que falo,
que nada lhes retira a alma mais oval
como a do espelho
que tive há muito tempo.
III
Tive um espelho em criança
que me lembrava um rio,
me fez lembrar um rio,
as suas pontes.
Falei. Que o coração possa Sonhar –
E o pastor-estatuário,
que guardara e gravara o que de mais ninguém,
viu como o aguardava tudo, ou quase:
os mais perfeitos prados,
o absoluto e recortado amor,
em sonho: o mais tangível.
E aquilo que os seus olhos contemplavam
não tinha jeito ou modo
em tempo algum
E desejar
era maior que tudo
– o mais vivo navio
para a viagem
À procura da «Génese do Amor»
Na Antiguidade Clássica, a mitologia fecundava a criação artística do Amor. Eros, o Amor, enleava Psique, a Alma, numa teia de deslumbramento e dor, de encontro e perdição, num jogo com regras para serem quebradas. Mostrava-se a génese de uma corrente que o poeta “fingidor, que finge tão completamente” tem vindo a cinzelar ao longo dos tempos. O grito inteiro de Camões
A Génese do Amor, Ana Luisa Amaral; Editora Campo das Letras, Porto, 2005
© Teresa Sá Couto
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
«A Verdadeira história dos voos da CIA»
Com os denominados «Voos da Cia» novamente na ordem do dia, agora a propósito dos pedidos do Parlamento Europeu aos Estados-membros da UE para ajudarem os EUA a resolver o problema de repatriamento e reinstalação dos detidos de Guantanamo, na sequência da decisão de Barack Obama em desmantelar aquele estabelecimento prisional em Cuba, volto a olhar para o livro «A Verdadeira história dos voos da CIA» ou, reformulo, «os táxis da tortura» de Bush que passaram por Portugal.
Uma das ironias das empresas de fachada, lê-se, «é que têm de desenvolver um esforço mínimo para se assemelharem a empresas normais, e isso significa deixarem atrás de si a longa lista de documentos» que os autores seguiram. «Estes registos das empresas não são secretos. Se se acrescentar um avião às operações de uma qualquer empresa, o seu rasto de documentos aumenta exponencialmente. Na medida em que a industria aeronáutica é tão regulamentada, a FAA guarda os registos em arquivo de todos os aviões sedeados nos EUA, assim como a história de todas as modificações efectuadas em aviões que sejam propriedade de um individuo. Todos estes registos, concebidos para tornarem os céus mais seguros, já que permitem garantir a segurança de voo dos aviões que os percorrem (e as identidades das pessoas que estão ao comando dos aviões) são acessíveis ao público em geral.». sábado, 31 de janeiro de 2009
Hipnotismos de Paulinho Assunção
Titula-se «O Hipnotizador», é escrito por Paulinho Assunção e vem do Brasil. Mesmo os resistentes à Literatura Brasileira, que não lhe divisam o «português açucarado», mas sim um ruído da língua de Camões, encontram na escrita deste autor uma expressão linguística espantosamente depurada a enformar uma prosa poética singular e hipnótica.«O coração de um homem que acredita em fábulas é um coração destinado aos sobressaltos, aos disparos incontroláveis.» Por mais viajado que fosse Flauta Mágica, esperava-o o inesperado. Por mais livros que um leitor tenha lido, é o sobressalto, o espanto da leitura que ele procura. E, claro, o hipnotismo. Tudo está neste livro de Paulinho Assunção: «Ah, os filósofos. E os poetas. E os loucos. E as crianças. As mulheres apaixonadas. E os sem eira nem beira pelo morro abaixo das fantasias.».
O Hipnotizador, Paulinho Assunção; Editorial Campo das Letras, Porto, Fevereiro 2008
Poesia da angolana Ana Paula Tavares
Segundo um dito umbundu, «Um cesto faz-se de muitos fios». Também uma teia. Teia é o poema fabricado pelos fios das palavras que lhe tecem, minuciosos, o corpo. Assim é a poesia de Ana Paula Tavares, voz depurada da Literatura Africana de Expressão Portuguesa. Manual para Amantes Desesperados, livro editado em 2007 e Ritos de Passagem, o título inaugural da autora, reeditado no ano passado, são duas urdiduras poéticas que motivam este texto.Do lado feminino surgem a areia, a duna, a sede, a tempestade, as tranças, a máscara, a árvore, a febre, a solidão; no outro lado, marcadamente masculino, o chão, o sonho, o navio, pássaros, vento, deserto, gritos, búzios. Todavia, entre os dois, há um rio poético que os separa e a articulação, em versos melódicos e de jorro espontâneo, revela-lhes a dicotomia, em quadros intimistas sobre a condição humana: «Deixa olhar o rei /Mas foi o escravo que chegou /Para me semear o corpo de erva rasteira /Devia sentar-me na cadeira ao lado do rei /Mas foi no chão que deixei a marca do meu corpo /Penteei-me para o rei /Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo».
Numa navegação solitária e desamparada, «Os sonhos são desertos /Com navios encalhados» e dão origem a gritos soterrados: «Os gritos em feixe /dentro de mim». Gritos soterrados sim, mas tornados estrídulos no silêncio da poesia: «Navego uma solidão de búzios /No mar verde de canela e açafrão// Meu coração é um lago /Por onde deslizou a vida /sem flores /Sem nenúfares». E «Ficam os sonhos a voar /Pássaros na boca do vento», e nesta poesia.
Com escrita ritualística, pejada de sonoplastias que agitam os sentidos, o pequeno livro solta os cantos do cuco, da cotovia, do bem-te-vi que articula, pungente, as três sílabas tradicionais do seu nome. Sem dúvida, um abraço lusófono de quem o explica assim:
De onde eu venho nascem os rios /nos nervos da terra /correm certos para o mar ou /perdem-se noutros lugares do tempo /sem que ninguém /os detenha /… /Venho de muitos rios e um só mar /o Atlântico /suas cores secretas /a música erudita da praia /a espuma lenta das redes /de onde eu venho há lá e cá.
Ouvem-se também os tambores da mãe África, nas cerimónias ancestrais de iniciação onde a mulher jovem recebia a máscara Pwo, com lágrimas entalhadas abaixo dos olhos numa expressão dolorosa de perda, também simbologia de morte e renascimento. A consagração desta mulher ancestral, no enredo doloroso da sociedade colonial, encontra na palavra poética de Ana Paula Tavares o seu templo de modernidade:
Debaixo da árvore da febre /perdi a máscara Pwo /as pulseiras pesadas /da família /… /Vesti o pano de noivar /os colares de missangas /e fiz de novo as tranças. /Preparada para o tempo /caminhei sobre as marcas de sangue /deitei-me /debaixo da árvore da febre/…/A mulher do mercado trouxe a pemba /traçou a minha testa e /as mãos /O velho soldado /entrançou-me as pernas de histórias e confusão /…/Debaixo da árvore da febre /ardo devagarinho /sem as palavras/ o silêncio /os óleos de protecção /os cantos de atravessar desertos /o fogo sagrado dos antepassados. / Viram a minha máscara Pwo?
Ritos de Passagem
«Dactilas-me o corpo / de A a Z / e reconstróis / asas / seda/ puro espanto /por debaixo das mãos /enquanto abertas /aparecem, pequenas/ as cicatrizes», escreveu a autora no poema Alfabeto, em Ritos de Passagem, o seu primeiro livro de poesia, editado em Angola, em 1985; nascia, então, a poeta e colonizava-se a literatura lusófona.
Ao todo, são vinte e quatro poemas dispostos em três partes («De cheiro macio ao tacto», «Navegação circular» e «Cerimónias de passagem»), ou três «andamentos», como diz Inocência Mata no Prefácio, aludindo às etapas do processo de aprendizagem do Eu poético nesta cerimónia vocabular iniciática.
Feminina, confundindo-se com a terra e a nação, nas quais se prolonga e se explica, a poesia de Ana Paula Tavares tece-se nos anseios primordiais. Nos frutos, quase todos de África, numa sequência de poemas, a autora desvela, com depuração, o mistério feminino. Assim surge a «abóbora menina», com as fases da preparação da mulher («folhinhas verdes/ flor amarela/ ventre redondo»), primeiro menina, «de segredos bem escondidos», depois adolescente, «procurando ser terra», e depois fêmea fecunda que espera que «nela desaguam todos os rapazes»; assim irrompe o erotismo do Mamão, que, cortado longitudinalmente, mostra a carne rosada e húmida, declara a metáfora do desejo e do prazer, a «Frágil vagina semeada /pronta, útil, semanal», onde se formam as ânsias, «se alargam as sedes» e «no meio cresce / insondável / o vazio…».
No poema «Colheitas», traça-se o percurso da mulher em paralelo com o da natureza, com os círculos que completam sobre si mesmas, a natureza por anos de sementeira, a mulher pelos vinte e oito dias do seu ciclo menstrual: «uma viagem /nasce-se, brota-se do chão /e dez anos depois o primeiro / forma-se espera e cai / por gravidade / ao vigésimo oitavo dia».
Noutro poema, a mulher surge fragmentada no seu ser e na sua condição, mas também reivindicando a sua unicidade, a sua utopia, o desejo de libertação; é a mulher confrontada com os seus limites, mas também confrontada com o apelo fundo para os ultrapassar e a vontade de dar conta disso a todas as mulheres:
Desossaste-me
cuidadosamente
inscrevendo-me
no teu universo
como uma ferida
uma prótese perfeita
maldita necessária
conduziste todas as minhas veias
para que desaguassem
nas tuas
sem remédio
meio pulmão respira em ti
o outro, que me lembre
mal existe
Hoje levantei-me cedo
pintei de tacula e água fria
o corpo aceso
não bato a manteiga
não ponho o cinto
VOU
para o sul saltar o cercado
Editados pela Editorial Caminho, que há muito dá voz às Literaturas de Expressão Portuguesa, os dois pequenos e preciosos livros estão disponíveis com capas belíssimas de Luandino Vieira. Em Ritos de Passagem – na reedição do ano passado –, surgem ilustrações impressivas de Luandino Vieira, também no interior; é uma leitura cromática, a manchas de café, tinta-da-china, sensualidade e erotismo, comprovando-se que o escritor angolano é um dos cativos dos ritos da autora de Manual para Amantes Desesperados.
Paula Tavares, Manual para Amantes Desesperados, Editorial Caminho, 2007 e Ritos de Passagem, Editorial Caminho, 2007
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Ímpetos de amor em «Os Versos do Capitão»
«Os Versos do Capitão» de Pablo Neruda é um livro pleno de «arrebatamentos de amor e fúria» que se manteve durante bastante tempo no anonimato. Finalmente reconhecido pelo autor e editado, o livro caminhou sozinho, reconhecendo o autor e reconhecendo talvez o único português que o poderia traduzir: o poeta Albano Martins. Lançado entre nós pela Campo das Letras, em 1996, a obra está já na sua 11ª edição.

