domingo, 1 de março de 2009

Rui Herbon lança novo Romance

O Romper das Ondas é o novo romance de Rui Herbon, que será lançado no próximo dia 02 de Março, às 18 horas, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha, estando a apresentação pública a cargo da escritora Lídia Jorge.

O Romper das Ondas recebeu o Prémio Literário da Cidade de Almada 2008, em Outubro último, e é o quarto romance editado de Rui Herbon, a seguir aos Voar como os Pássaros, Chorar como as Nuvens (Um Filme Português), Prémio Eixo-Atlântico de Narrativa Galega e Portuguesa 2002, Absinto (A Inútil Deambulação da Escrita), Prémio António Paulouro 2004, da cidade Fundão e Os Girassóis.

Como Pré-publicação, deixo aqui um extracto do novo romance, com agradecimentos ao Rui Herbon que mo disponibilizou antes de chegar às livrarias. Além deste extracto, pode ler-se um outro que editei no site Orgia Literária.


«(...) Para usar uma frase feita, dir-lhe-ei que então – situemos esse então nos primeiros anos do silêncio – o inconsciente denunciava-me. Eu continuava a ir ao psicanalista, apesar dos riscos que isto implicava e do meu decadente poder aquisitivo. Sonhava profusamente e em cinemascope: pequeno luxo nocturno. Anotava num diário as minhas imagens oníricas, com o propósito de tê-las bem presentes no momento de fazer o meu relatório, desde o divã. Um dos sonhos faz parte do romance e passo a transcrevê-lo:

Ninguém deixa de assombrar-se. O vento duplica o alvoroço. É gente que exclama aqui e ali. Estamos na planície, dispersos em pequenos grupos. Alguns contemplam os firmes torreões e o céu, propiciamente limpo para turistas indómitos. O Professor contempla um plano dedutivo do castelo, onde só falta colocar a capela. Desde a ameia mais alta pode ver-se o fosso e a muralha suja de cinzas, também as cercas e barbacãs que flanqueiam com teimosia o acesso à fortaleza. Agora dirigimo-nos para a ponte levadiça. Asius e o Professor ficaram para trás, ainda entretidos com o mapa e com a descoberta da atalaia desmoronada. Butch toma-me pela cintura e entramos juntos na torre de menagem. Algo ali pertencia-nos; cada coisa parece-nos familiar. Por um resquício do passado surge a recordação de uma caixa contendo três ratazanas. Butch evoca-as. Achá-las mortas, por nosso imperdoável descuido, enche-nos de angústia. Contudo, a possibilidade de encontrá-las ainda com vida inquieta-me. Butch volta-se de costas para mim, inquisidor; ainda sabe como procurar os vestígios da nossa anterior passagem entre as paredes desses habitáculos em ruína.

Debaixo de um colchão de escombros e pó, está a caixa. Butch abre lentamente a tampa. As ratazanas estão aí, como solas de sapatos postas ao sol. Uma, a mais pequena, engana-nos. Salta. Eu corro. Trepa, desce, vem para mim. Oh, não. Está enredada nos meus pés. Por meio de um estalido, transforma-se em múltiplos insectos voláteis que se perdem no meu olhar; o meu olhar que se vira magicamente para a meia-luz de um passadiço subterrâneo. Sobre tarimbas estamos os vivos: o Professor, a sua mulher – muito desgrenhada, com uma enorme gravidez –, Asius, outras pessoas, Butch e eu. Somos prisioneiros dos mortos. Os mortos formam um Tribunal. Têm corpos emprestados. Intuo-o: falam acerca de nós. O lugar é uma armadilha. Suspeito que resolveram provocar-nos um grande sofrimento. É mais que um pressentimento; estou certa de que esperam a nossa desintegração. Deixar-nos-ão morrer de fome?

Extenso e plano é o campo de concentração, ou a antecâmara, para a tortura e a morte. Sempre fui uma rebelde paciente na sala de espera. Vejo-me na porta de serviço, pobremente, com tanta ânsia, com tanto ódio. Isto queima, isto queima-me. Os mortos têm semblantes de um encantador nada; caras azuis, mal pintadas, cheias de hematomas; estão vestidos com retalhos. Usam coletes e jardineiras e olhos alucinados. Transportam-nos para um vestíbulo. Sentamo-nos em círculo, ombro com ombro. Na perna, uma mancha começa a picar-me. Coço-me. Os nervos dão-me mais comichão. Volto a coçar-me, coço freneticamente. Com as unhas provoco uma leve ferida. Os mortos, que nos vigiam de perto, vêm o fio de sangue. Por que se incomodam e me perguntam se vai sarar? Por que necessitam saber se ficará uma cicatriz? Agora sei: querem os nossos corpos bem sãos, inteiros, com uma boa superfície. Os nossos corpos serão a sua nova vestimenta. Portanto, não haverá actos de violência; utilizarão um gás venenoso que não deixe manchas nem marcas na pele. Que farão com Butch? Como não pensei nisso antes? Pela expressão do seu rosto, intuo que urde um plano para escapar. (...)». pp.25,26


nota: ver artigos sobre Rui Herbon na etiqueta correspondente

© Teresa Sá Couto

sábado, 28 de fevereiro de 2009

A Arte maior de Nikias Skapinakis


Nikias Skapinakis – Uma pintura desalinhada é o título do magnífico álbum de luxo dedicado àquele nome maior das artes plásticas portuguesas, de ascendência grega, mas nascido em Lisboa em 1931, cidade onde vive e trabalha. Galardoado com o 1º prémio de Artes Plásticas do Casino da Póvoa de Varzim, em 2006, Nikias tem neste livro mais uma grande homenagem.

Nikias, que em 2004 foi também galardoado com Prémio Amadeu de Sousa Cardoso, disse que «o papel do pintor termina no quadro. O que acontece depois é do domínio das circunstâncias.». Dita a genialidade do pintor que a sua pintura desalinhada esteja esculpida nesta jóia editorial com a chancela da Campo das Letras.

«A pintura, quanto a mim, basta-se a si própria e exige uma espécie de dedicação apaixonada – senão, é melhor fazer outra coisa», disse Nikias Skapinakis numa entrevista ao JL. O presente livro – consequência do carácter democrático da Arte, que a retira do elitismo das Galerias –, contribui para iluminar aquela dedicação apaixonada; a abordagem crítica de Bernardo Pinto de Almeida, especialista em Teoria e História da Arte, possibilita-nos o enquadramento da vasta obra do pintor, um empenho de toda a vida, distribuído em dez capítulos: «Nikias, 55 anos depois», «O lirismo expressionista e a consciência da Modernidade», «Figuração versus para-figuração», «A segunda série para-figurativa: das paisagens de “Vale dos Reis” à expressão do desenho», «O ponto metafísico», «A contenção monocromática», «A apologia da cor: A série dos cartazes», «Retratos verdadeiros e falsos retratos», «O desenho» e «A recuperação dos grafitti e as “Cortinas Mirabolantes”.

Segue-se um último capítulo dedicado à Biografia e Bibliografia do artista, coligem-se alguns textos de intervenção de Nikias veiculados por diversas fontes jornalísticas e que constam do Catálogo da Exposição “Prospectiva” realizada no Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves. Inclui-se, ainda, uma entrevista ao pintor, supra referenciada, editada no Jornal de Letras (JL), em Setembro de 2005, altura em que foi distinguido com o Prémio Amadeu de Sousa Cardoso.

Retratos, reinvenção e metafísica

«Se bem me lembro, o que caracterizava o Estado Novo era o tédio. À parte aspectos pontuais, a tragédia veio depois e não terá ainda terminado. Mas eu tinha como ponto de honra não perder a alegria de viver, isto é, não consentir que ma roubassem.». José Gomes Ferreira resume talvez isso quando escreveu sobre mim: “amava os sabores do sistema e era anti-fascista”», disse Nikias em comentário a uma série de retratos da série melancólica, onde se inclui o «Tertúlia», de 1960 (na imagem à esquerda).

Se o pintor soube retratar como poucos esses sinais sociológicos caracteristicamente portugueses, a sua pintura assinala-se pelo constante movimento, numa estimulante invenção e reinvenção que o levou à procura de «um cada vez mais nítido domínio da cor», a penetrar noutras dimensões da linguagem e exploração cromática. Uma pintura não abstracta, mas sim metafísica cujo diálogo se encontra neste livro de partilha e que é, também, uma homenagem à Cultura Portuguesa.
Nikias Skapinakis – Uma pintura desalinhada, Bernardo Pinto de Almeida; Editora Campo das Letras e Casino da Póvoa; Porto, 2006

© Teresa Sá Couto

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

As Mulheres na pintura de Isabel Botelho

«São altas essas roseiras de mulheres, / inclinadas como sinos, como violinos, dentro / do som», escreveu Herberto Hélder em versos que nos ecoam fortíssimos quando nos detemos nas novas pinturas de Isabel Contreras Botelho.

A pintora, que expõe desde 2003, tem patente no Palácio Galveias, só até dia 01 de Março, a exposição Beautiful Unknown, um conjunto de trabalhos com o tema da mulher. Melhor: um hino à mulher, não a mulher idealizada, mas a mulher real, que molda o seu quotidiano com a matéria opalescente da alma, tudo vertido numa matéria plástica a um mesmo tempo delicada e vigorosa.

«Dediquei esta minha exposição no Palácio Galveias, à figura da Mulher, onde quer que ela esteja, de onde venha e para onde quer que vá… ela com figuras, que mesmo inventadas, eu sei que existem no centro de qualquer realidade!», diz Isabel Botelho sobre estes seus novos trabalhos.


Para os que defendem que a pintura deve apaziguar quem a contempla, encontra nas telas de Isabel Botelho a fidelidade a esse propósito. São belas, estas mulheres, de uma serenidade redonda, misteriosa, sagrada e benigna.

Ou, como diz a pintora, são «Belas as mulheres de Toda a Esperança, no feminino, real e verdadeiro, sem recurso à sofisticação da intelectualidade, virada para qualquer reinvenção do sexo e do seu género. Bela a mulher que o sabe ser, forte, mesmo na aparência das suas fraquezas…»

Para ver ao vivo e conferir o afago que nos chega pelo olhar, para se disseminar por todos os sentidos....

© Teresa Sá Couto

Jorge Pinheiro - Pintura de silêncio e luz

Não é esquecida, tampouco tardia, esta oferenda com nome Jorge Pinheiro! O deslumbramento não se olvida nem tem um tempo para acontecer. Sabe-o João Miguel Fernandes Jorge, autor dos textos que acompanham as fotografias de telas daquele pintor. Sabe-o a editora Campo das Letras que, em colaboração com a Galeria Palmira Suso, editou o esplendor em livro. É este, dos vários livros que nos trazem Jorge Pinheiro para nossas casas, que chamo à atenção. A capa dúctil e discreta guarda, convidativa, uma grande viagem: a dos sentidos desassossegados por dezasseis telas de pureza policroma, metaforização e teatralidade composicional.

«O som aniquila a grande beleza do silêncio», disse Charles Chaplin. Daí o grito dos seus filmes mudos. Por isso, Chaplin surge nas telas de Jorge Pinheiro, pintor que pinta com singularidade o silêncio estrídulo da alma inconformada e intervencionista.

Jorge Pinheiro nasceu em Coimbra, em 1931. Em 1963, quando concluiu a sua formação académica na Escola de Belas-Artes do Porto, criou com os amigos Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Armando Alves o grupo artístico "Os Quatro Vintes", numa alusão às classificações obtidas na Academia. Foi com esse nome que o grupo expôs no Porto, em Lisboa e em Paris (1968-1971). Com vários galardões pela sua pintura, Jorge Pinheiro está representado em diversos museus, como o Soares dos Reis, Serralves ou o Museu Nacional de Arte Contemporânea. Vive e trabalha em São Pedro do Estoril, Lisboa.

Pintar a intensidade do silêncio

O silêncio metafísico está em todas as pinturas coligidas no livro «Jorge Pinheiro – Oferenda Tardia». A abrir, a tela «Porquê?» – com data de realização de Março de 1991 a 2 de Fevereiro de 1992 – e é com esta pergunta, em crescendo inquietante, que se percorrem, em catarse, todas as imagens até à última, «Stabat Mater», de 2006.

Deus apareceu a Abraão em Berseba e disse-lhe: ´Toma o teu filho e sobe com ele a uma montanha que eu te indicarei na terra de Moriá`. Abraão respondeu:
- Senhor, tenho dois filhos. Qual deles devo levar comigo?
- O teu único filho.
-Senhor, cada um é o filho único de sua mãe.
- Leva o filho que tu amas.
- Senhor, amo os dois.
-Leva o filho a que tens mais amor.
- Senhor, o que devo fazer na terra de Moriá?
-Oferece um holocausto no meu altar.

João Miguel Fernandes Jorge transcreve de Génesis XXII este diálogo terrível para ilustrar o seu comentário das pinturas O Sacrifício de Isaac, de 2002, e da série O Jogo da MacacaO Jogo da Macaca I de 2004, O Jogo da Macaca II e O Jogo da Macaca III, de 2004 – as quatro numa alusão ao conflito israelo-palestiniano.

Nas telas, as personagens «movem-se entre um grito de terror e o sacrifício». Nem falta o holocausto no altar de pedra, nem o grito da mulher e mãe que ressoa num infinito sofrimento – à maneira de O Grito de Munch –, a evocar e a convocar toda a humanidade. E o silêncio está lá, denso na tragédia, estridente na denúncia da ruína humana, instigando à reflexão: «Qualquer morte é um sacrifício, um drama que desce sobre a pedra do sacrifício.».

Palcos onde se encena o grande jogo da vida construído alegoricamente: eis as telas de Jorge Pinheiro. Palcos onde se representa o ser humano, andarilho, Charlot, «The Tramp», o niilismo, mas também a esperança.
Metáfora da vida é, também, o grande jogo da macaca que um rapaz percorre, em figura invertida (imagem), «pé-ante-pé, quadrado a quadrado, desenhados a azul, num azul de giz de quadro negro de escola. «Num cuidadoso equilíbrio jogado com todo o corpo, não vá o menino, duplo de si, despertar para a crueldade do mundo», diz o magnífico texto de João Jorge.

O movimento que «incendeia»

Não é só o silêncio que dá forma à inquietação do espectador. Ela advém também do movimento das pinturas com mensagens que nos atingem, espectadores, fazendo-nos interlocutores das narrativas. Para esse movimento concorre a Luz que incendeia as telas, e nos incendeia, que foca argumentativamente pontos ou personagens, como que projecções da consciência – da ficção, do autor, do espectador.

«Jorge Pinheiro: um pintor, um signo. Na procura de uma verdade pictórica, o pintor deixa percorrer a sua obra de uma luz que ’incendeia’, com uma arqueologia nostálgica e com a fragilidade de uma existência longínqua, ícones, índices e símbolos», escreve João Miguel Fernandes Jorge sobre a pintura de Jorge Pinheiro.

E ecos, acrescento eu. Ecos longínquos oriundos dos primórdios da existência da alma humana, ecos fundos da alma que aprendeu a observar e a não se conformar. São os ecos da insanidade da guerra que encontramos na série de pinturas «O jogo da Macaca», onde se representa esse jogo ignóbil dos homens, e que nos remetem para outros ecos de denúncia que nos chegam de António Gedeão: «Não há mas. /Todos temos culpa, e a nossa culpa é mortal. /Eles virão e eu morrerei sem lhes pedir socorro /e sem lhes perguntar porque maltratam. /Eu sei porque é que morro. /Eles é que não sabem porque matam.».

Jorge Pinheiro - Oferenda Tardia, textos de João Miguel Fernandes Jorge; Editorial Campo das Letras, Porto, Dezembro 2006

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

ZECA AFONSO - NOME DE LIBERDADE

Quando passam 22 anos da morte de Zeca Afonso, recupero um texto que elaborei sobre o magnífico livro infantil Zeca Afonso – O andarilho da voz de ouro de José Jorge Letria, com ilustrações de Evelina Oliveira. É esta a minha humilde homenagem. Se Zeca foi a voz de ouro, sinónimo de riqueza humana e trigo do futuro, este livro dedicado ao grão do trigo novo é o instrumento que faltava para se passar esse testemunho às nossas crianças. Por isso, e já, Que é já tempo /D’embalar a trouxa /E zarpar em direcção ao futuro, Venham mais cinco e tragam outros amigos também para que se obtenha uma seara robusta.

Assim, os miúdos de hoje poderão perceber mais tarde o que é ser-se maior que o pensamento, e porque as palavras e a voz de Zeca levam ao arrepio. Homenagem às crianças, a Zeca Afonso e à Liberdade, este livro da soberba colecção O Sol e a Lua, da Campo das Letras, veicula ensinamentos indizíveis de sonho, coragem, resistência às amarguras, mas também educa a sensibilidade e as emoções.

José Jorge Letria, munindo-se da pureza encantatória da linguagem infantil, reconstrói a história do menino ao homem, e Evelina Oliveira desenha a magia narrativa com cor e emoção. São propriedades de uma escrita com poética singular, a que José Jorge Letria há muito nos habituou, que provoca no leitor adulto uma inaudita comoção.Um desafio de intimidades para pais e filhos, descoberta para os miúdos, redescoberta para os graúdos, num crescimento conjunto.

Conta-se a história do menino Zeca, nascido em Aveiro, que desde muito cedo aprendeu o sentido da palavra longe. As grandes viagens de barco que fazia para estar junto dos pais em territórios que Portugal então dominava noutros continentes, davam-lhe tempo para sonhar, mas também para escutar as suas primeiras inquietações e medos.

Em África fazia amigos, meninos negros com quem brincava numa fraternidade que o acompanharia toda a vida. Por isso, o menino Zeca não percebia a razão dos adultos brancos, com a marca do poder e da autoridade, distinguirem as duas raças. Escolhia então ser rebelde, porque era essa a sua maneira de ser livre. Dividido entre África e Portugal, dois mundos onde tinha amigos, sempre com o coração a bater em dois lados ao mesmo tempo, o menino andarilho crescia nesse desassossego que lhe traçava o rumo futuro, e que seria a sua sina e o seu drama. Refere-se que desde menino Zeca aprendeu o valor que têm as ideias, coisas esquivas e imateriais que não se compram nem se vendem nas bancas do comércio, nos supermercados ou nas feiras.

Quando em Timor os pais foram feitos prisioneiros pelos japoneses e levados para um campo de concentração, o menino, contendo as lágrimas da tristeza e da indignação, aprendeu a não gostar da palavra “guerra”, a mesma que, mais tarde, o inquietaria e o levaria a fazer canções que falassem só de paz.

Por outro lado, se as ideias que ouvia aos tios de Aveiro eram de liberdade, outras ideias corriam em Belmonte, onde viveu, na casa do tio Filomeno que gostava de Salazar, pelo qual foi obrigado a vestir a farda da mocidade portuguesa. Foi também lá que aprendeu o outro nome para o Papão: Salazar.

Mas o papão tinha um grande ponto fraco: não conseguia lidar com a força da palavra e encarcerava o país entre as grades do medo que mandara erguer por todo o lado. Todavia, Zeca já tinha aprendido a rebeldia e, por isso, erradicado o desânimo e o medo. É em Coimbra, cidade que o formou e ouviu, que Zeca faz novas amizades e começa a usar a voz de ouro para cantar.É lá que encontra Humberto Delgado, general sem medo da sofreguidão dos vampiros, que acabou por perder as eleições que ganhou, ousadia que lhe tirou a vida.

É também lá que percebe que as grades piores até eram as que cada um deixava erguer no interior do que pensava e sonhava, tornando cada vez mais difícil a livre partilha de ideias. Por isso, estudava e cantava procurando actualizar as mensagens dos antigos fados de Coimbra, cultivando com palavras certeiras, preocupadas com a vida das pessoas e com os seus problemas, palavras de união, porque casadas com o sofrimento dos que menos tinham para acordar os que o ouviam do sono resignado em que se tinham deixado cair sem quase se aperceberem disso.

Surgia naturalmente a definição de Cantor político. «Os vampiros querem calar a voz que os desmascara e condena. Mas o cantor não se cala. E já não está só. Estão com ele Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire ou Francisco Fanhais, entre muitos outros. Na página 36 irrompe a narração contígua à ilustração do último concerto de Zeca em Lisboa, em 1983, no Coliseu dos Recreios, uma fremente catarse, ainda hoje sem explicação racional.

O homem de errâncias, criador do soberbo tema Era um redondo vocábulo – escrito na prisão de Caxias – via fechar-se-lhe o seu ciclo de vida. José Jorge Letria descreve esse momento, da forma que se segue:

Era uma madrugada de Fevereiro, fria e húmida, e o ar começava a minguar-lhe nos pulmões. Tinha chegado a hora de partir. Nessa madrugada, uma mulher de rosto luminoso e sorridente acercou-se dele e perguntou-lhe se queria a sua companhia. Respondeu-lhe que sim, reconhecendo nela a jovem que caminhara a seu lado em Coimbra, nos dias em que Humberto Delgado era nome da esperança portuguesa. Perguntou-lhe docemente: - És tu que me vens buscar? E ela respondeu, apertando-lhe a mão contra o peito: - Sim, é comigo que vais partir, mas não penses que sou a Morte.


Eu sou a Liberdade, aquela que sempre amaste e seguiste e que agora se erguerá contigo nos ares, perseguindo um sonho que só acabará quando o último ser humano desaparecer deste planeta.


Zeca Afonso – O andarilho da voz de ouro, texto de José Jorge Letria e ilustrações de Evelina Oliveira; Editorial Campo das Letras, 2007


© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Sociedade secreta de Vila-Matas, em Lisboa

O escritor catalão Enrique Vila-Matas vai estar em Lisboa, no Centro Cultural de Belém (CCB) no próximo fim-de-semana, no ensejo da estreia da peça de teatro “Sentido Portátil”, uma adaptação do seu magnífico "história abreviada da literatura portátil". O acontecimento é imperdível. Ver aqui informações, acedendo a "sentido portátil".

A obra que está na base da peça é genial, e está editada entre nós. Recupero o texto que elaborei em 2006, quando o livro foi editado pela Campo das Letras. Deixo votos de boa leitura, óptimo espectáculo e surpreendam-se com este encontro.

Viagem à insólita psicologia dos criadores

Dizia Paul Valéry que o infinito «é uma questão de escrita», que «o universo só existe no papel». Comprova-o quem já teve a felicidade de se encontrar com a escrita de Enrique Vila-Matas. O autor das magníficas crónicas «Da cidade Nervosa» deixa-nos atónitos com «História Abreviada da Literatura Portátil».

Desta vez “desmantela-se” a conspiração shandy ou sociedade secreta dos portáteis, fundada em 1924 onde conjuraram escritores de renome da literatura universal, como García Lorca ou Scott Fitzerald. Com todos, por acontecimentos bizarros e hilariantes, o leitor viaja à psicologia dos criadores, que jamais verá da mesma maneira: este portento de Vila-Matas, como o próprio diz, permite-nos conhecer «os que tornaram possível que hoje se possa desmascarar com mais facilidade do que nunca todos os que, como disse Hermann Broch, “não é que sejam maus escritores, mas sim delinquentes».

Esta "História Abreviada da Literatura Portátil" foi publicada pela primeira vez em 1985 e é uma obra emblemática de Enrique Vila-Matas, traduzida em inúmeras línguas e, «transpondo as páginas do livro, originou diversas conspirações na vida real» ou não fosse o seu conteúdo “abrasivo”. A conjura shandy – que significa alegre, volúvel e maluco –, cuja característica era a de conspirar por conspirar, foi o «elo de união dos que formaram uma sociedade secreta sem precedentes na história da arte». Fundada na foz do rio Níger, foi dissolvida três anos depois, na sequência de um escândalo em Sevilha.Dela fizeram parte, entre muitos outros, García Lorca, Scott Fitzerald, Marcel Duchamp, Walter Benjamin, César Vallejo, Rita Malú, Valery Larbaud, Berta Bocado, Alberto Savinio e Georgia O’Keefe.

Pela mão de um narrador-investigador daquela sociedade secreta, mergulha-se na «história abreviada ou avariada» de escritores com atracção pelo minimalismo e defensores da «apoteose dos pesos ligeiros na história da literatura» e segue-se-lhes o rumo por vários pontos do mundo, «peregrinos medievais para quem o essencial era a viagem» e terem histórias para contar.

Para se ser shandy, e assim ser-se admitido na sociedade secreta, havia requisitos a cumprir: exigia-se um alto grau de loucura, ter uma obra que não fosse pesada e coubesse numa caixa-mala – para se cumprir o gosto de viajar com uma maleta que continha toda a obra –, «ter espírito inovador, sexualidade extrema, ausência de grandes propósitos, nomadismo infatigável, tensa convivência com a figura do duplo, simpatia pela negritude, o culto da arte e da insolência». Todos requisitos para a concentração na criação artística e apologias do desconcerto, «como fonte inesgotável de novas e estimulantes sensações».

Loucura, criação, fraude e magnetismo

Porque a solidão é necessária para criar, todos odiavam crianças, elucidado na história de Walter de la Maré que, «na sangria da vontade, da independência, da liberdade de concentrar-se no trabalho», chegou a atirar o filho pela janela. Em busca do retiro amigo da actividade criadora, muitos shandys resolveram fazer uma viagem imóvel ao fundo do mar, refugiando-se durante algum tempo dentro dum submarino ancorado no fundo das águas do porto de Dinard, na Bretanha, uma antiguidade bélica da primeira guerra mundial. Uma Nave de loucos, onde se libertava a excitação, o fumo e o álcool, que «evocava a bíblica Arca de Noé, tão parecida com o submarino, pois nunca como nesta ocasião houve tanta variedade de feras portáteis reunidas».

O escrúpulo em relação ao pormenor era justificado por só as coisas mínimas permitirem viver intensamente. Por outro lado, «miniaturizar é tornar portátil, e esta é a forma ideal de possuir coisas para um vagabundo ou exilado». Mas miniaturizar é também ocultar, daí o fascínio dos shandys por tudo o que exigisse ser decifrado: emblemas, manuscritos, anagramas. E assim seguiam, com a sua caligrafia microscópica, enigmática, volúvel e maluca, «coleccionadores carregados de coisas, quer dizer, de paixões».

Na “simpatia pela negritude”, refere-se Blaise Cendrars com a sua Antologia Negra que, baseada numa «intensa biografia», coligia histórias populares africanas, e propunha-se reproduzir «pela primeira vez na Europa contos que missionários e exploradores foram transmitindo oralmente». Concluiu-se que as estórias de Cendrars eram uma fraude, fabricadas pelo próprio, «apanhadas no ar» e construídas a seu belo prazer.

Por breves 107 páginas, o leitor segue magnetizado pela escrita indomável do autor catalão, que apresenta e polemiza o impensável, e que, veloz, só admite pausas na leitura para a interjeição do espanto, o sorriso que reage à ironia ou a reflexão proposta pela singularidade. E segue os encontros dos portáteis nas sextas-feiras, numa livraria, a polémica dos suicídios reais e literários - com a moda de suicídios por barbitúricos, numa «grande orgia de pastilhas», em quartos elegantes de hotéis europeus -, o “extravio” de alguns membros dos portáteis, por desistência, incompatibilidade ou morte, até à extinção da sociedade secreta heróica, em 1927.

História Abreviada da Literatura Portátil, Enrique vila-Matas; editorial Campo das Letras, Porto, Junho 2006

Nota: texto meu sobre Da Cidade Nervosa

© Teresa Sá Couto

Crónicas de Enrique Vila-Matas

Da Cidade Nervosa é uma surpreendente compilação de crónicas urbanas do jornalista e escritor barcelonês Enrique Vila-Matas. Tendendo a fixar-se sempre «no mais estranho», como o próprio assume, o autor constrói verdadeiras narrativas com o mote da cidade de Barcelona, curtas e certeiras, onde o lugar comum é de todo banido.

Com especial comprazimento no «romance da rua», Vila-Matas define o método para atingir o objectivo: viajar «sem destino marcado», partir sem se «dirigir a parte nenhuma», na «intenção de espiar condutas humanas e apanhar dissimuladamente conversas de desconhecidos». Como diz António Tabucchi, e recordado e comprovado por Vila-Matas, «todos os escritores são um pouco voyeurs, todos espiam um pouco a vida pelo buraco da fechadura. A vida é demasiado breve para se viver o número suficiente de experiências: é preciso roubá-las».

Com o título sugestionado das cidades das “epilépticas civilizações”, de Robert Arlt, Vila-Matas, que assume ser o que a cidade fez dele, edifica com ironia, encanto, mas também azedume, o nervosismo de Barcelona, cidade dos «prodígios de tanto desenhador barato», «muito activa, muito dinâmica, mas enormemente mutante», «a Madame Bovary das cidades deste mundo (…) onde nada dura, nem o que é mais recente». E o verbo insaciável e indomável corre pelas 282 páginas, divididas por quatro secções: a abrir coligem-se crónicas que atestam o olhar arguto e o vigor intelectual do autor; segue-se o texto original, e mais extenso, «Mastroianni-sur-Mer» onde se entrelaçam literatura e cinema; a terceira parte desenrola «Um tapete que se espalha em muitas direcções» e, surpreendentemente, explanam-se as vicissitudes e a tessitura da construção literária; a fechar, em «Escritos Shandys», coligem-se alguns dos artigos e ensaios literários do autor publicados quer na imprensa nacional espanhola quer estrangeira.

Fiel ao apelo da escrita, que domina com mestria, Vila-Matas retrata lugares, pessoas, vozes e sensações, «com o objectivo descritivo que tende ao infinito e portanto a todas as luzes impossível». O grito criador não se detém, mesmo que falte assunto, porquanto há assunto no «que se passa quando não se passa nada, só tempo, as pessoas, os carros as nuvens». Assim, feito detective numa viagem ao centro da terra – «como no cinema ou teatro, é sempre de noite» – desce ao metro de Barcelona, «esse mundo congelado, sem céu, nem plantas, nem animais (excepto ratazanas), movido pelo chamariz do boato de que nem toda a gente que lá desce volta à superfície»; viaja nos transportes públicos, perseguindo vidas alheias para constatar que neles «só as mulheres lêem, os homens fazem palavras cruzadas ou esgravatam o nariz»; arremete contra o campo e contra a praia das férias de Agosto; fixa-se enérgico e hilariante no “drama escultórico” de Barcelona. Para todo o lado, praças, becos esconsos, memórias, linha a linha, página a página, o autor leva consigo o leitor, como um íman, exultante por se sentir prisioneiro no olhar singular do barcelonês.

Portugal “deliciosamente atrasado”

Surpreendente e inversamente aos nervos estrídulos da capital da Catalunha, o autor motiva-se em terras lusas revelando-lhes o pitoresco com deslumbramento ímpar: sonha com o farol de Cascais numa entrega arrebatadora; detém-se na estátua de Fernando Pessoa, em Lisboa, para, irónico, confirmar que «as crianças estimam-no muito dando-lhe pontapés»; contempla, não de forma estática, mas em redemoinho sensorial, o café Majestic do Porto «com as suas ninfas e anjos art nouveau»; embrenha-se nas ruas da “deliciosamente atrasada” cidade invicta; tudo coado pelo olhar estrangeiro que vê descobrindo o que os nossos olhos, por habituados ou inaptos não alcançam:

A vida no Porto tem o ritmo antigo dos pés descalços, como diria Pessoa. É uma cidade longínqua, de outro tempo e os seus habitantes vestem rigorosamente de cinzento e negro. (…)no próprio centro da cidade, chamou-me poderosamente a atenção uma loja gerida por um homem que é o vivo retrato do escritor Saramago e na qual, desde há anos e com escassa afluência de clientela, se vendem unicamente armadilhas para caçar ratos. A montra, onde se exibem os mais variados modelos de ratoeiras, é simplesmente sensacional.

Verifica-se com surpresa que, ao virar da esquina, há uma loja de queijos. É a minha mais estranha recordação desta cidade que me devolveu a memória fria da minha infância de menino do pós-guerra. Cidade rara entre as raras. Cidade triste e longínqua em que penso frequentemente enquanto recordo o que disse a mãe de Pessoa quando lhe perguntaram se estava ao corrente de que o seu filho começava a ser conhecido em todo o mundo: “Olhe que o Fernando é tão famoso que até já no Porto o conhecem.

Defendendo que «a realidade imita a literatura» e que «escrever é corrigir a vida», Enrique Vila-Matas, com os cinco sentidos engatilhados, comprova-nos que a relação entre a literatura e a vida é um jogo interminável com regras em constante mutação. Também é interminável a leitura deste livro que pede revisitações oferecendo sempre novas descobertas.

Enrique Vila-Matas, Da Cidade Nervosa, Campo das Letras, 2006

© Teresa Sá Couto
 
nota: este texto foi publicado no sítio da Orgia Literária em 20.06.2008

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O erotismo de David Mourão-Ferreira

Jóia da poesia erótica portuguesa, a antologia poética «Música de Cama» de David Mourão-Ferreira – também título do último livro de poemas do autor (1993) – colige 100 poemas escritos ao longo de quarenta e cinco anos, acompanhados por dois desenhos em grafite de Francisco Simões.

O livro, cuja primeira edição foi lançada em 1994, é um voo rasante de Eros pelos enredos e segredos indecifráveis da pele: «Nem o Tempo tem tempo /para sondar as trevas /deste rio correndo /entre a pele e a pele /Nem o Tempo tem tempo /nem as tréguas dão tréguas /Não descubro o segredo /que o teu corpo segrega». O segredo da intemporalidade desta poesia estará na matéria de que é feita – Água, Fogo e Música –, e na torrente que a declara: a dança intensa e sôfrega do jogo dos corpos com que se sugestiona e desafia a imaginação do leitor, que nela reconhece a matéria e o pulsar das próprias veias.

Os mistérios da pele

Desde «A Secreta Viagem» (1948-1950), a poesia davidiana procura «decifrar o mistério» do desejo e do corpo. Diz Eduardo Lourenço que a viagem de David é secreta, «não porque em si mesma se esconda aos outros, mas porque é a viagem que se faz em torno de um segredo, guiando-se às cegas pela rota do segredo». Em «Tempestade de Verão» (1950-1953), contrapõe-se a sensação à razão com esta a inviabilizar aquela: «O amor é só de quem os olhos cerra /no desalmado instante da entrega. /Cerrai-vos, olhos meus, antes que cega /vos cegue a lucidez que nos faz guerra.».

Por isso, o sujeito poético perscruta e mergulha no Caleidoscópio que é o «Tu e o Mundo», em jogos de fluidos – saliva, suor, lágrimas, esperma –, consequência do tumulto dos corpos incendiados dos amantes, como «Dois unidos archotes a galope». O corpo do desejo surge descrito sugestivamente: como uma tenacíssima tenaz; membros como arbustos; o bosque da púbis; cordas de nervos; teias de veias; o som do alaúde nos toques dos dedos; como vários conjuntos de dois hemisférios de um vasto império ingovernável: os seios, as pálpebras, os joelhos, as nádegas, e as duas metades da alma, «uma de tudo, outra de nada».

Em «Do Tempo ao Coração» (1962-1966), David apresenta o amor cativo do fogo – «sempre esse frio sórdido, a seguir /ao fogo em que nos qu´remos consumir» –, e do mistério indecifrável da pele: «Quem foi que à tua pele conferiu esse papel /de mais que tua pele ser pele da minha pele». Porém, se o amor aprisiona, ele só pode ser vivido em liberdade: «Quis a tua nudez Não quis que te despisses».

O Jogo do amor é, ainda, feito de fluxos e conluios – com a «Sede do desejo», «seda da pele», dos «pés ao ventre/das ancas à nuca /ouve-se a torrente /de um rio confuso» –, onde tudo se troca e «investe-se a perda e o ganho em futuras empresas de segredo» e onde se aprende que «o não-ser pelo ser se troca». Também Jogo de espelhos, entre os protagonistas do enredo poético e o leitor convocado para a apoteose sensorial. Em «O Corpo Iluminado» (1987), um considerável conjunto de poemas explana a apoteose do prazer, com o ritmo do acto sexual urdido na poesia é acompanhado pela cadência fónica das palavras escolhidas: «é nesse ponto /de tuas coxas /que o meu pescoço /implora a forca /…/agreste gosto /de húmida polpa /o que dissolvo /dentro da boca /Eis num renovo /mágica força /Rei me coroo /em tuas coxas»; «És quando estás de joelhos /que és toda bicho da terra /…/se de joelhos me entregas /sempre que estás de joelhos /todos os frutos da Terra».

Se o corpo é apoteose de Tudo, também é o arquitecto do Nada, é o sentido e o sem-sentido, é a luz e a sombra, é, em suma, a força de equilíbrios e desequilíbrios: «Nada garante que tu existas /Não acredito que tu existas /Só necessito que tu existas»; «É de ti que me escondo /Em ti é que me firmo /Antes de já se ontem /sentir que estamos vivos».

Afinal, como diz o poeta, «Nós temos cinco sentidos: /são dois pares e meio de asas. /- Como quereis o equilíbrio?».

Música de Cama, David Mourão-Ferreira; Editorial Presença; Lx, 2ªedição, Outubro de 1996



(to Artur)


© Teresa Sá Couto

«Emendar a Morte, Pactos em Literatura»

Como vive a literatura «a nossa forma de morrer»? Ela é capaz de “enganar” a morte pela sua emenda, oferecendo-nos a correcção de vida? Que pactos e emendas nos dá ela? Afinal, não é a literatura um lugar de relações que o indivíduo estabelece consigo mesmo, com os outros e com o mundo, um lugar de diálogo com as formas de viver, de morrer e como morrer, onde se criam pactos e emendas para os limites da condição humana?

Interceptar pactos, segui-los, questioná-los, inquirir-lhes os jogos, as premissas, as tensões e as metáforas é a proposta do Ensaio «Emendar a Morte – Pactos em literatura» assinado pela escritora e professora universitária Helena Carvalhão Buescu. Com o título emprestado de palavras de Luiza Neto Jorge, «Emendar a Morte» é um magnífico projecto de grande fôlego, que se ancora na diversidade dos pactos, «ensaiando olhar para o literário como um dos modos maiores da discursividade pelos quais a humanidade-enquanto-relação (e por isso pacto) é pensada», refere a ensaísta. São 308 páginas que compreendem três grandes partes, por sua vez organizadas de forma minudente em capítulos.

A proposta é irrecusável, e assim anunciada: «O que queremos dizer quando dizemos que "emendamos um vestido", ou que "emendamos um erro" (não morremos todos por engano, no fim de contas? Sempre pelo menos um pouco por engano?): "emendar a morte" significa que é precisamente através da múltipla plasticidade dos nossos gestos humanos que nos podemos pensar como dirigidos a uma morte que entretanto nunca deixamos que dissolva aquilo que em nós responde, aquilo que em nós a entende como intolerável.» Assim, acrescenta-se: «os pactos em literatura propostos neste volume representam alguns dos modos em que essa emenda ou correcção se pode verter: os pactos que estabelecemos são outras tantas formas de responder à morte, de a situar no terreno do pensável, ela que não pode ser pensada por dentro.».

Na primeira parte, detendo-se na problemática do cânone e no estatuto da literatura, a ensaísta convoca diversos autores, para argumentar que a literatura emenda a sua própria morte, enfrentando a era tecnológica, pós-industrial, com a capacidade de se transformar para poder sempre falar-nos, sendo as obras o resultado da «errância colectiva da imaginação humana criadora em permanência de novas configurações porque inventora», no dizer de Eduardo Lourenço. A negociação do literário será, pois, o pacto que a literatura estabelece com a sua própria morte ou, ainda, como escreveu Calvino: «a função da literatura varia de acordo com a situação. Durante longos períodos de tempo a literatura parece trabalhar no sentido da consagração, da confirmação de valores, da aceitação da autoridade. Mas em determinado momento, alguma coisa é despoletada no mecanismo, e a literatura faz nascer um movimento na direcção oposta, recusando ver coisas e dizer coisas da forma como tinham sido até aí vistas e ditas.».

Na segunda e terceira partes, a autora segue os pactos em literatura, inquirindo textos de autores tão diversos como Proust, Dostoiévski, Lobo Antunes, Saramago, Stendhal, Garrett, Lídia Jorge ou Coetzee, procura-lhes «rastos, ecos e sombras», intercepta «ligações perigosas» entre autores, como Stendhal e Garrett, Pessoa e Mallarmé, Dostoiévski e Vergílio Ferreira ou Saramago e Dostoiévski. Texto após texto, um tapete infinito e complexo que, soberano, este Ensaio desenrola. São papéis e encenações do humano na literatura, mostruário do que acontece e do que pode não ter acontecido, jogo jogado entre a consciência e a premência de atentar no real, a escrita enquanto engendramento antropológico, social e político. Um complexo engendramento que se encontra, fulgurantemente, no discurso vergiliano, assim apresentado por Helena Carvalhão Buescu:

«se é certo que nele a intensidade de uma voz pessoal se faz sempre sentir, não é entretanto menos visível que essa voz não coincide com os estritos (e estreitos) limites daquilo que usualmente consideramos como “o indivíduo”. Este indivíduo é sobretudo, para Vergílio Ferreira (aqui uma vez mais com Dostoiévski), o lugar onde repercutem as várias vozes do mundo: passados e presentes; classes e pertenças diferenciadas; realidades vividas e outras tantas imaginadas, ou temidas; géneros de identidade sexual que se falam; memórias e futuros que se encontram nodularmente no momento intenso do presente; idades do homem para quem o passado nunca está encerrado e para quem o futuro faz parte do agora – todos estes discursos entretecem e em última análise produzem o discurso individual, nele fazendo cristalizar os múltiplos e mutáveis pactos pelos quais tecem a sua vida.».


Emendar a Morte – Pactos em literatura, Helena Carvalhão Buescu; Editorial Campo das Letras, Porto 2008


nota: Helena Carvalhão Buescu editou em 2007 o livro de poesia Ardem as Trevas e Outros Lugares, que aconselho vivamente


© Teresa Sá Couto

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Os fios da poesia de Ana Luísa Amaral

Dar a voz ao poema. Deixar que ele encontre o papel. O verso molda-se «até onde se quer». Ele pode ser «tanto montanha como campo lavrado ou montra da cidade». Mas ele é sempre corpo, braços, cabeça, coração. O verso é isso tudo num amplexo humano ao mundo: «A agonia do espaço, a tortura do tempo,/ e assim, a luta: /longa necessidade, /em sobressalto: /a alma». Isto diz-nos Ana Luísa Amaral, nome grande da actual poesia portuguesa.

Depois de «A Génese do Amor», livro de 2005 com o qual venceu o Prémio Correntes d’Escritas 2007, a autora traz-nos «Entre dois rios e outras noites», Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE) 2008, para mostrar com que fios se tece a linguagem do silêncio, qual a matéria da poesia e que halo o liberta e lhe dá forma.

Radicada na memória, a poesia de Ana Luísa Amaral tem a originalidade de rasgar esse tempo, pois a poesia vive de «desconjunções» e do avesso, precisa de uma urgência, «o olhar que fala, fala de um ponto outro»: «As linhas todas tortas outra vez, /e a meia muito em seda e muito preta, / espreitando da gaveta, /enovelada e do avesso /em verso».
«Teia de espelhos», jogo entre «dois rios e outras noites», o poema é, então, o resultado do acaso: «Que mística haverá /neste colocar versos, uns sobre os /outros, peças de jogar, pirâmides / de plástico ou madeira, /os faraós ausentes? //Convoco o sol, que é meu, /mas não aquece / E sou quase completa nessa /imperfeição».

Nas «outras noites» para muitos encontros da alma com a palavra, surgem poemas como este «à distância do céu»:

Horror é conhecer

O fundo do abismo
ou da muralha
saber até à precisão mais certa
as unhas de distância
para o céu

Horror é conhecer

O vento mais macio
a bandeira mais clara
a que anuncia
mas sem dentes nem
mãos

Horror é conhecer:
tudo o resto se cura
com a vida

Fortíssimo ao longo de todo o livro, o jogo entre a memória e a urgência do novo olhar irrompe assim no poema sobre a alma oval das pontes:
(…)
«Podem ser do que forem
as pontes de que falo,
que nada lhes retira a alma mais oval
como a do espelho
que tive há muito tempo.

III
Tive um espelho em criança
que me lembrava um rio,
me fez lembrar um rio,
as suas pontes.

Falei. Que o coração possa Sonhar –

Também, a ideia do poema como lugar dos sonhos, urdidores de histórias de utopia, acompanha este livro e está bem patente no longo e belíssimo poema «de sonhos e além: o guardador», em três andamentos, sobre um pastor estatutário que desejou um dia «além de guardar sonhos, /gravar uma paisagem», e «gravou-a num sonho, /que, um dia, tresmalhado, /o encontrou». Veja-se um extracto do final do poema:

(...)
E o pastor-estatuário,
que guardara e gravara o que de mais ninguém,
viu como o aguardava tudo, ou quase:
os mais perfeitos prados,
o absoluto e recortado amor,
em sonho: o mais tangível.
E aquilo que os seus olhos contemplavam
não tinha jeito ou modo
em tempo algum

E desejar
era maior que tudo
– o mais vivo navio
para a viagem

Entre dois rios e outras noites, Ana Luísa Amaral; Editorial Campo das Letras, Porto, 2007

© Teresa Sá Couto

À procura da «Génese do Amor»

Na Antiguidade Clássica, a mitologia fecundava a criação artística do Amor. Eros, o Amor, enleava Psique, a Alma, numa teia de deslumbramento e dor, de encontro e perdição, num jogo com regras para serem quebradas. Mostrava-se a génese de uma corrente que o poeta “fingidor, que finge tão completamente” tem vindo a cinzelar ao longo dos tempos.

O livro de poesia «A Génese do Amor» de Ana Luísa Amaral atinge-nos de imediato por essa reflexão: o distanciamento entre o amor ficcionado pelo poeta, que o constrói como portentosa arte de contemplação, e o outro, o amor real. Verdade e imaginação ou a fusão de ambas; até que ponto o poeta “chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente?».

Seja como for, o poeta tem de cumprir o seu Destino: a sua Alma é encantada e o Amor tem de ser cantado. Disse-nos isso, Camões: «Vencido está de amor Meu pensamento / O mais que pode ser Vencida a vida, / Sujeita a vos servir e Instituída, / Oferecendo tudo A vosso intento» e com a pena do engenho vai transformando-se «o amador na coisa amada, / Por virtude do muito imaginar».

Versejar o amor – Topografias de pele e vento

O livro abre com «Topografias em quase dicionário», numa alusão à corporização do amor na escrita: «era bom ter no verso / as formas todas, essas palavras todas». Parece que já tudo se falou sobre o amor e, por isso, quer-se «Reaprender o mundo / em prisma novo», a «aprendizagem de um olhar» que falta, encontrar palavras que saibam «de paisagens de dentro: Que cores? Quantas molduras?».
Invoca-se a inspiração, pede-se ao vento a essência que traga o som do «alaúde azul» para que fiquem em verso todas as formas e sons. Falar de amor é ter um mapa de viagem com um abismo, um precipício. Tudo o que se sabe do amor é um enigma que a pele relembra: «os teus dedos traçaram / ligeiríssima rota no meu corpo / e a curva topográfica / sem tempo / aí ficou, como sorriso, ou foz / de um rio sem nome». É suave o dedilhar da autora; é doce o som que se desprende dos versos. Talvez por essa evidente limpidez, Ana Luisa Amaral leva-nos ao mergulho no indizível que é o amor.

À procura da Génese do Amor – Camões, o seu cultor

À procura de um sentido para a Génese do Amor, a autora recupera Camões ou não fosse ele a génese de tudo, a inspiração para todos os cultores do amor: «sabendo esta vida, / a vida em verso, / maior às vezes / do que a outra vida, / como depois de nós, /muito depois, / alguém, que será muitos / falará». Assim, com o mito “a escorrer na realidade”, estes olhos antigos dão-nos notícias da arte do grande sentimento.

Explanando-se o processo da criação literária do amor, a autora cria diálogos entre figuras reais e fantasiadas pelas reais, criadores e musas: Camões, Dante, Petrarca – poeta de quem Camões herdou «artes de amar» –, Natércia, Catarina, Beatriz e Laura. Diz Natércia a Camões, incitando-o ao canto: «Meu brando amor, / fala comigo antes, /não deixes que os meus olhos / assim fiquem, / vagos, ainda antigos, / sem saudades / Seduz-me novamente, /traz-me versos / em que queira sentir / que em ti navego». Ora, é sabido que o repto das musas sempre foi aceite pelo nosso Poeta cativo do Amor: «ou fui que sonhei / esse momento / e nunca houve mais / que supor crer: / por ele me perdi / no desejo de em ti / me desejar perder?».

A musa que é apenas verso, ou o poeta e a criação do amor literário, está patente, por exemplo, no diálogo entre Natércia e Laura: «E porque não existes, / minha amiga, / tal como eu sou a dúvida do sonho, / a matéria insensata / da palavra, / a coisa já cantada, / a unir-nos somente: / o destino comum / de sermos nada, / – sendo, no verso, /feminina gente».

Gravar «em palavra / o que nem foi / de tempo», imprimir «a fogo em verso» para além do infinito, é esclarecido por Camões: «mesmo que não houvera / disto nada / e tudo isto fosse só / de dentro / Mas pouco importa isso, / minha amada, / se o pensamento / engenha o que se passa»; «A tanto enfeite / na palavra dita / acrescenta-se o lume / da palavra / A tanto enfeite / no que é só palavra / acrescenta-se a dor / do que é em verso».

O grito inteiro de Camões

Acredito, porém, que foi a junção das duas metades – amor ficcionado e amor sentido – que revelou o grito «longo e inteiro: / inesperado: / o lume» de Camões, que hoje ainda nos serve de referência. Parece ser essa também a “visão” da autora, podendo ler-se, na última meditação de Camões sobre o amor, encontro e perdição, mas razão de viver: «Nasceste-me sem musa / e sem cuidado // Foste, palavra minha, / o mantimento / que trouxe a jornada, / e alimentaste a génese de tudo / nas visões / mais amargas / Ainda que em silêncio, / diz-me agora / de como pode ser / contentamento / este fogo de luz: / cruel morada // Dá-me outra vez, / em papel brando, / o mundo: / Eu: queimando por versos / um segundo, / tu, por um som, / ardendo eternidade».

A autora conclui que o amor talvez seja quase quasar, esse corpo celeste distante com energia assombrosa, mas com um buraco negro, o precipício no seu centro: «Talvez um intervalo cósmico / a povoar, sem querer a vida: / talvez quasar que a inundou de luz». Quase quasar, porque há ainda a pele, «E a pele também não chega: / pequeno meteoro em implosão.».

Assim se entroniza o amor; «Estátua em lume», sagrado e profano, vivido sempre em solidão, «visão na penumbra serena de algum claustro».

A Génese do Amor, Ana Luisa Amaral; Editora Campo das Letras, Porto, 2005

© Teresa Sá Couto

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

«A Verdadeira história dos voos da CIA»

Com os denominados «Voos da Cia» novamente na ordem do dia, agora a propósito dos pedidos do Parlamento Europeu aos Estados-membros da UE para ajudarem os EUA a resolver o problema de repatriamento e reinstalação dos detidos de Guantanamo, na sequência da decisão de Barack Obama em desmantelar aquele estabelecimento prisional em Cuba, volto a olhar para o livro «A Verdadeira história dos voos da CIA» ou, reformulo, «os táxis da tortura» de Bush que passaram por Portugal.

Editado entre nós em 2007, o explosivo «A Verdadeira História dos voos da Cia – os táxis da tortura», de Trevor Paglen e A. C. Thompson, com tradução de Jorge Almeida e Pinho, tem, na edição portuguesa, prefácio da euro deputada Ana Gomes.

Os autores, um perito em instalações militares clandestinas e um consagrado jornalista do S. F. Weekly, desmantelam as operações clandestinas da administração Bush conluiada com a CIA e outras agências, que consistem num «complexo e dissimulado programa de deslocalização da tortura, designado nos EUA por “entregas extraordinárias”, extraordinary renditions.». Envolve raptos pelo mundo e transporte em voos camuflados, propriedade de empresas fictícias, designados no livro por «táxis da tortura». E lá estão os aviões da polémica, nas rotas e estadias por Portugal, que incendiaram o Parlamento Europeu.

Os autores mostram, e Ana Gomes ressalva-o, que «5 anos após o 11 de Setembro, as detenções ilegais ainda não acabaram. (…) Alguns dos detidos foram levados para o Egipto e para Marrocos onde foram torturados e interrogados. Outros foram transportados secretamente – através dos corredores aéreos que são facilitados à CIA – para a Europa de Leste e para o Afeganistão, onde também foram torturados. Uns acabaram detidos em Guantánamo, mas outros desapareceram de todo.».

As prisões e os desaparecimentos forçados, refere-se, surgem logo após o 11 de Setembro em nome da guerra contra o terrorismo, inseridos num programa político de «entrega extraordinária de prisioneiros», através de aviões disfarçados para transporte civil que, assim, têm fácil acesso a todos os lugares, incluindo aqueles que jamais receberiam aviões militares americanos: Carachi, Tripoli, Líbia, Banjul e Gambia.

Com base em testemunhos – desde prisioneiros entretanto libertados, a controladores aéreos – e documentação que os aviões foram deixando – rotas, camuflagens, empresas fantasmas, assinaturas de gente que não existe –, os autores criam, em 5 capítulos, com muitas histórias que entram no domínio do rocambolesco, um «mosaico» de um grotesco processo.

Uma das ironias das empresas de fachada, lê-se, «é que têm de desenvolver um esforço mínimo para se assemelharem a empresas normais, e isso significa deixarem atrás de si a longa lista de documentos» que os autores seguiram. «Estes registos das empresas não são secretos. Se se acrescentar um avião às operações de uma qualquer empresa, o seu rasto de documentos aumenta exponencialmente. Na medida em que a industria aeronáutica é tão regulamentada, a FAA guarda os registos em arquivo de todos os aviões sedeados nos EUA, assim como a história de todas as modificações efectuadas em aviões que sejam propriedade de um individuo. Todos estes registos, concebidos para tornarem os céus mais seguros, já que permitem garantir a segurança de voo dos aviões que os percorrem (e as identidades das pessoas que estão ao comando dos aviões) são acessíveis ao público em geral.».

As rotas e estadias por Portugal

Preto no branco. Estão no livro as referências aos aviões que escalaram Portugal. Sintetiza assim Ana Gomes: «o Gulfstream V, chamado de “Guantánamo Bay Express”, com matrícula N379P, envolvido nas “entregas extraordinárias” de várias pessoas identificadas no Relatório do PE (Parlamento Europeu), algumas ainda vegetando em Guantánamo e noutras prisões – trata-se de um avião que escalou o Porto 13 vezes entre 25/5/02 e 9/6/05, incluindo no retorno da “entrega” a Marrocos de um cidadão italiano ainda ali detido, Abou Elkassim Britel. Também referencia o avião envolvido na “entrega extraordinária” de Khaled Al-Masri, um Boeing737 com a matrícula N313P, que passou por Portugal várias vezes, incluindo uma suspeita escala entre Argel e Baku no Aeroporto Sá Carneiro, a 24-25 de Agosto de 2003, durante a qual os tripulantes – sob nomes falsos e, entretanto, implicados no processo judicial de Milão relativo ao rapto de Abu Omar – se alojaram no Hotel Meridien do Porto. Também o Gulstream IV envolvido no rapto de Abu Omar (sob matrícula N85VM) vem repetidamente a Portugal, nas suas diversas “encarnações” – a última das quais em Maio de 2005, sob matrícula N227SV, segundo registo do “handler” português para “contactos no Minist. Defesa”… (que ainda ninguém explicou quem eram…).

Premier Executive Transport Services, Tepper Aviation, Stevens Express Leasing, Aero Contractors, Richmor Aviation (…) são apenas algumas das companhias fictícias, “de fachada” da CIA, referenciadas neste livro, e que frequentemente obtiveram (…) autorização das autoridades civis e militares/políticas portuguesas para operar aviões transitando (por horas ou dias) pelos aeroportos nacionais, segundo listas do Eurocontrol e da NAV», escreve Ana Gomes.

A Verdadeira História dos voos da Cia – os táxis da tortura, Trevor Paglen e A. C. Thompson, tradução de Jorge Almeida e Pinho; Editorial Campo das Letras; Porto, Março 2007

© Teresa Sá Couto

sábado, 31 de janeiro de 2009

Hipnotismos de Paulinho Assunção

Titula-se «O Hipnotizador», é escrito por Paulinho Assunção e vem do Brasil. Mesmo os resistentes à Literatura Brasileira, que não lhe divisam o «português açucarado», mas sim um ruído da língua de Camões, encontram na escrita deste autor uma expressão linguística espantosamente depurada a enformar uma prosa poética singular e hipnótica.

Repleta de personagens fantásticas, esta é uma narrativa sobre a demanda da escrita, a investigação do próprio caminho e da emoção da caminhada, por luz e trevas da cidade de Ouro Preto, aqui homenageada, para atingir o mundo todo. São mil e uma histórias inebriantes feitas de caminhada em caminhada, a bordo de letras andarilhas, com palavras que pedem palavras, «acasos dispersos que entram em convergência». «E não é saboroso esse exercício de pôr em andaimes as construções feitas de vento?», pergunta o narrador ao leitor sabendo que, rejubilante, este aplaudirá, aparelhado para a soberba viagem.

O narrador, Ferdinando Flauta Mágica, é um viajante que andou por muitos «mundos e caminhos em busca das chamadas coisas inacreditáveis. Ou improváveis. Ou duvidáveis.». Um nome misterioso de quem já teve «centenas de nomes» pela vida fora: nomes de «guerra» e de «paz», nomes «claros» e «escuros», nomes «oceânicos», esquisitos, ciciantes e murmurantes. O que viu «transborda de uma vida e vai preencher outras vidas mais», entenda-se, a de todos quantos lerem este excelso Diário de Viagem. O enredo desenvolve-se pela «dádiva de um chamado», refere o misterioso narrador, numa altura em que já é impossível abandonar a narrativa: um «convite para um encontro com o mistério do meu nome», eis o «tema desta história que, toscamente, e com a respiração desgovernada, eu conto a você, leitor, e a você, leitora.».

E tem o leitor em 109 páginas uma prosa límpida e alada, visual, musical e de odor inebriante, consequência de uma cabeça de viajante: «sempre desembestada e sem rédeas: basta um descuido e ela muda de trilhas. Basta um descuido e ela vai daqui para acolá, livre, sem freios. Essa é a dívida que pago por ser amante das histórias e das peripécias. Um homem como eu, um homem assim da minha espécie, está condenado a trilhar sem bússolas os caminhos feitos de pedra e os caminhos feitos de nuvens».

A «Sociedade de Contadores de histórias»

Tudo se passa «numa certa noite de Inverno», «num dos lugares mais misteriosos da cidade de Ouro Preto», onde o narrador acaba de chegar, vindo de muitas partes do mundo para as ceder àquele local. O desafio é conhecer a Cidade-Baixa, os subterrâneos de Ouro Preto, «lugarejos secretos» que Flauta Mágica – o que viaja de recordações e é «residente das lembranças» – assemelha aos que há sob Praga, Munique, Buenos Aires, Porto, e o «leme da imaginação» leva-o pela Grécia, Hungria, savanas africanas, ao interior de mosteiros espanhóis, à «meditação nas altas montanhas da Indochina». Assim se faz uma história sobre as peregrinações pelo mundo em busca de histórias. E assim se leva o mundo a uma pequena cidade transformando-a numa cidade do mundo.

A Ferdinando Flauta Mágica vão-se juntando outras tantas personagens surpreendentes para uma jornada de convívio com a «Sociedade de Contadores de Histórias»: entre muitos outros, estão Língua-Solta, homem de «rosto ameno e pacífico», apesar da «cicatriz em forma de lua minguante» a cortar-lhe a face, «olhos cor de pedra-sabão» e que, «embora seu nome indicasse o posto, parecia tudo fazer e tudo dizer com a língua guardada»; Centauro Veloz, um velhinho «galante e com nariz para o alto» que em jovem fora mordomo de dois governadores de Minas Gerais e com elegância segurava as tochas que iluminavam a caminhada «rumo às profundezas de Ouro Preto»; Jerónimo, um cego que sonhava com o fogo, e que o narrador imagina que tivesse asas, «as asas talvez de um anjo, talvez as asas de uma ave cuja espécie jamais conheceremos»; António-das-Hipérboles, homem «especialista em exagerar os factos do mundo» ; João Codax, um sineiro aposentado, com novas grandes missões; Maga Romena, especialista em dragões e conhecedora de todas as suas histórias «já escritas ou inventadas pelo mundo afora»; Nancy Cairo, «uma perfumista, fabricante de fragrâncias, inventora de odores, arquitecta de cheiros»; Magóia Coromande, uma detective que investiga o roubo das ossadas do «Hipnotizador» patrono da Petúnia Negra, organização dedicada aos estudos da hipnose, mas que é disputado por outra sociedade rival que o quer para patrono do seu mundo com grandes bibliotecas de ficção.

Todos percorrem os subterrâneos de Ouro Preto, rumam ao Salão das Histórias de Suspense, ao Salão das Histórias Intermináveis, ao Salão das Histórias Policiais, pelos corredores labirínticos onde a magia da imaginação acontece.

«O coração de um homem que acredita em fábulas é um coração destinado aos sobressaltos, aos disparos incontroláveis.» Por mais viajado que fosse Flauta Mágica, esperava-o o inesperado. Por mais livros que um leitor tenha lido, é o sobressalto, o espanto da leitura que ele procura. E, claro, o hipnotismo. Tudo está neste livro de Paulinho Assunção: «Ah, os filósofos. E os poetas. E os loucos. E as crianças. As mulheres apaixonadas. E os sem eira nem beira pelo morro abaixo das fantasias.».

O Hipnotizador, Paulinho Assunção; Editorial Campo das Letras, Porto, Fevereiro 2008

© Teresa Sá Couto

Poesia da angolana Ana Paula Tavares

Segundo um dito umbundu, «Um cesto faz-se de muitos fios». Também uma teia. Teia é o poema fabricado pelos fios das palavras que lhe tecem, minuciosos, o corpo. Assim é a poesia de Ana Paula Tavares, voz depurada da Literatura Africana de Expressão Portuguesa. Manual para Amantes Desesperados, livro editado em 2007 e Ritos de Passagem, o título inaugural da autora, reeditado no ano passado, são duas urdiduras poéticas que motivam este texto.

Em Manual para Amantes Desesperados, a teia que a poeta tece é feita de fogo e sede, de areia e vento, de sangue e febre, de sons e de segredos. Tecedeira exímia, a poeta mostra que é oriunda de um lugar onde «há pedras antigas /gastas das mãos das mulheres /que inventam a farinha de levedar /os dias». Ela conhece os segredos do canto de triste vida do pássaro bem-te-vi e verte-os num lirismo de feminilidade singular: «Deixa as mãos cegas /Aprender a ler o meu corpo /Que eu ofereço vales /curvas de rio /óleos /Deixa as mãos cegas /Descer o rio /Por montes e vales».

Construída com substantivos genesíacos, a poética da angolana nascida em Lubango, província da Huíla, em 1952, mas a viver em Lisboa, é de fortíssima tessitura feminina em diálogo com o elemento masculino: «Deixa a mão pousada na duna/ Enquanto dura a tempestade de areia/ A sede colherá o mel do corpo/ Renasceremos tranquilos/ De cada morte dos corpos/ Eu em ti/ tu em mim/ O deserto à volta.».

Do lado feminino surgem a areia, a duna, a sede, a tempestade, as tranças, a máscara, a árvore, a febre, a solidão; no outro lado, marcadamente masculino, o chão, o sonho, o navio, pássaros, vento, deserto, gritos, búzios. Todavia, entre os dois, há um rio poético que os separa e a articulação, em versos melódicos e de jorro espontâneo, revela-lhes a dicotomia, em quadros intimistas sobre a condição humana: «Deixa olhar o rei /Mas foi o escravo que chegou /Para me semear o corpo de erva rasteira /Devia sentar-me na cadeira ao lado do rei /Mas foi no chão que deixei a marca do meu corpo /Penteei-me para o rei /Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo».

Numa navegação solitária e desamparada, «Os sonhos são desertos /Com navios encalhados» e dão origem a gritos soterrados: «Os gritos em feixe /dentro de mim». Gritos soterrados sim, mas tornados estrídulos no silêncio da poesia: «Navego uma solidão de búzios /No mar verde de canela e açafrão// Meu coração é um lago /Por onde deslizou a vida /sem flores /Sem nenúfares». E «Ficam os sonhos a voar /Pássaros na boca do vento», e nesta poesia.

Com escrita ritualística, pejada de sonoplastias que agitam os sentidos, o pequeno livro solta os cantos do cuco, da cotovia, do bem-te-vi que articula, pungente, as três sílabas tradicionais do seu nome. Sem dúvida, um abraço lusófono de quem o explica assim:

De onde eu venho nascem os rios /nos nervos da terra /correm certos para o mar ou /perdem-se noutros lugares do tempo /sem que ninguém /os detenha / /Venho de muitos rios e um só mar /o Atlântico /suas cores secretas /a música erudita da praia /a espuma lenta das redes /de onde eu venho há lá e cá.

Ouvem-se também os tambores da mãe África, nas cerimónias ancestrais de iniciação onde a mulher jovem recebia a máscara Pwo, com lágrimas entalhadas abaixo dos olhos numa expressão dolorosa de perda, também simbologia de morte e renascimento. A consagração desta mulher ancestral, no enredo doloroso da sociedade colonial, encontra na palavra poética de Ana Paula Tavares o seu templo de modernidade:

Debaixo da árvore da febre /perdi a máscara Pwo /as pulseiras pesadas /da família / /Vesti o pano de noivar /os colares de missangas /e fiz de novo as tranças. /Preparada para o tempo /caminhei sobre as marcas de sangue /deitei-me /debaixo da árvore da febre//A mulher do mercado trouxe a pemba /traçou a minha testa e /as mãos /O velho soldado /entrançou-me as pernas de histórias e confusão /…/Debaixo da árvore da febre /ardo devagarinho /sem as palavras/ o silêncio /os óleos de protecção /os cantos de atravessar desertos /o fogo sagrado dos antepassados. / Viram a minha máscara Pwo?

Ritos de Passagem

«Dactilas-me o corpo / de A a Z / e reconstróis / asas / seda/ puro espanto /por debaixo das mãos /enquanto abertas /aparecem, pequenas/ as cicatrizes», escreveu a autora no poema Alfabeto, em Ritos de Passagem, o seu primeiro livro de poesia, editado em Angola, em 1985; nascia, então, a poeta e colonizava-se a literatura lusófona.

Ao todo, são vinte e quatro poemas dispostos em três partes («De cheiro macio ao tacto», «Navegação circular» e «Cerimónias de passagem»), ou três «andamentos», como diz Inocência Mata no Prefácio, aludindo às etapas do processo de aprendizagem do Eu poético nesta cerimónia vocabular iniciática.

Feminina, confundindo-se com a terra e a nação, nas quais se prolonga e se explica, a poesia de Ana Paula Tavares tece-se nos anseios primordiais. Nos frutos, quase todos de África, numa sequência de poemas, a autora desvela, com depuração, o mistério feminino. Assim surge a «abóbora menina», com as fases da preparação da mulher («folhinhas verdes/ flor amarela/ ventre redondo»), primeiro menina, «de segredos bem escondidos», depois adolescente, «procurando ser terra», e depois fêmea fecunda que espera que «nela desaguam todos os rapazes»; assim irrompe o erotismo do Mamão, que, cortado longitudinalmente, mostra a carne rosada e húmida, declara a metáfora do desejo e do prazer, a «Frágil vagina semeada /pronta, útil, semanal», onde se formam as ânsias, «se alargam as sedes» e «no meio cresce / insondável / o vazio…».

No poema «Colheitas», traça-se o percurso da mulher em paralelo com o da natureza, com os círculos que completam sobre si mesmas, a natureza por anos de sementeira, a mulher pelos vinte e oito dias do seu ciclo menstrual: «uma viagem /nasce-se, brota-se do chão /e dez anos depois o primeiro / forma-se espera e cai / por gravidade / ao vigésimo oitavo dia».

Noutro poema, a mulher surge fragmentada no seu ser e na sua condição, mas também reivindicando a sua unicidade, a sua utopia, o desejo de libertação; é a mulher confrontada com os seus limites, mas também confrontada com o apelo fundo para os ultrapassar e a vontade de dar conta disso a todas as mulheres:

Desossaste-me
cuidadosamente
inscrevendo-me
no teu universo
como uma ferida
uma prótese perfeita
maldita necessária
conduziste todas as minhas veias
para que desaguassem
nas tuas
sem remédio
meio pulmão respira em ti
o outro, que me lembre
mal existe
Hoje levantei-me cedo
pintei de tacula e água fria
o corpo aceso
não bato a manteiga
não ponho o cinto
VOU
para o sul saltar o cercado

Editados pela Editorial Caminho, que há muito dá voz às Literaturas de Expressão Portuguesa, os dois pequenos e preciosos livros estão disponíveis com capas belíssimas de Luandino Vieira. Em Ritos de Passagem – na reedição do ano passado –, surgem ilustrações impressivas de Luandino Vieira, também no interior; é uma leitura cromática, a manchas de café, tinta-da-china, sensualidade e erotismo, comprovando-se que o escritor angolano é um dos cativos dos ritos da autora de Manual para Amantes Desesperados.

Paula Tavares, Manual para Amantes Desesperados, Editorial Caminho, 2007 e Ritos de Passagem, Editorial Caminho, 2007

*Texto publicado no sítio da Orgia Literária em 30.01.2009)
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© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Ímpetos de amor em «Os Versos do Capitão»

«Os Versos do Capitão» de Pablo Neruda é um livro pleno de «arrebatamentos de amor e fúria» que se manteve durante bastante tempo no anonimato. Finalmente reconhecido pelo autor e editado, o livro caminhou sozinho, reconhecendo o autor e reconhecendo talvez o único português que o poderia traduzir: o poeta Albano Martins. Lançado entre nós pela Campo das Letras, em 1996, a obra está já na sua 11ª edição.

«Os versos do Capitão», no original Los versos del capitan, foi publicado em 1952, e traduzido por Albano Martins em 1996. Na imensa obra do poeta chileno, estes poemas são considerados um “Intervalo lírico e íntimo”, embora com a mesma intensidade dos Veinte poemas de amor e una canción desesperada. Na representação que aqui deixo parece-me ser essa marca evidente. Tal como o é a sua história de amor, que pode ser de qualquer um de nós, ou como o próprio afirma: «Ai, vida minha, / entre nós não arde só o fogo, / mas a vida toda, / a história simples, /o simples amor / duma mulher e dum homem / parecidos com todos».

Sensuais e sanguíneos, os versos revelam-nos o poeta como oleiro do amor e da palavra. E espelham-nos a nós, que no próprio barro esculpimos a essência e o sentido da vida: «Há em todo o teu corpo /uma taça ou doçura a mim destinada // como se te houvessem, meu amor, feito de argila /para as minhas mãos de oleiro. /Os teus joelhos, os teus seios, / a tua cintura, /faltam em mim como no côncavo /duma terra sedenta /a que retiraram /uma forma /e, juntos, / estamos completos como um só rio, /como um só areal.».

A mulher é o barro com que o homem se molda

Nesta “história” íntima do poeta ou, simplesmente, do homem e da mulher, a fêmea amada é a Rainha proclamada, a desejada, a única, a que concentra todo o frémito e razão de vida do sujeito poético:«Proclamei-te rainha. /Há-as mais altas do que tu, mais altas. /Há-as mais puras do que tu, mais puras. /Há-as mais belas do que tu, mais belas. /Mas tu és a rainha. //E, quando surges, /todos os rios marulham /no meu corpo, os sinos/ abalam o céu, /e um hino enche o mundo. /Apenas tu e eu, /apenas tu e eu, meu amor, /o escutamos.».

Os pés e as mãos surgem não só como elos tácteis, sensuais e eróticos, mas também ao serviço de razões místicas e arroubos espirituais de paixão: «Mas se amo os teus pés /é só porque andaram /sobre a terra e sobre/ o vento e sobre a água, /até me encontrarem.».

Com as suas mãos, o poeta perscruta o corpo da amada, como um mapa infinito: «Vês estas mãos? Mediram / a terra, separaram / os minerais e os cereais, / fizeram a paz e a guerra, / derrubaram as distâncias / de todos os mares e rios / e, no entanto, / quando te percorrem / a ti, pequena, / grão de trigo, calhandra, / não conseguem abarcar-te // Nesse território, / desde os pés à fronte, / andando, andando, andando, /passarei a vida.».

Com «As tuas mãos», as mãos da amada, cumpre-se um destino: «e quando puseste /as mãos no meu peito, /reconheci essas asas / de pomba dourada, / reconheci essa greda / e essa cor de trigo. / Passei os anos/ da minha vida a procurá-las. / Subi as escadas, /atravessei os recifes, /levaram-me os comboios, / as águas me trouxeram, / e na pela das uvas /imaginei tocar-te. / De repente a madeira /trouxe-me o teu contacto. / As amêndoas anunciavam-me /a tua secreta doçura, até que as tuas mãos / em meu peito se fecharam / e ali como duas asas / terminaram a viagem.».

No singelo e, talvez por isso, magnífico poema «O teu riso» evidencia-se a subjugação de amor, mas com a felicidade que só os amantes entendem:

«Tira-me o pão, se quiseres, /tira-me o ar, mas não / me tires o teu riso. Não me tires a rosa, /a lança que desfolhas, / a água que de súbito / brota da tua alegria, /a repentina onda de prata que em ti nasce. / A minha luta é dura e regresso /com olhos cansados /às vezes por ver /que a terra não muda, /mas ao entrar teu riso /sobe ao céu a procurar-me/ e abre-me todas/ as portas da minha vida. // Ri-te da noite, /do dia, da lua, /ri-te das ruas / tortas da ilha, / ri-te deste grosseiro /rapaz que te ama, / mas quando abro / os olhos e os fecho, /quando meus passos vão, / quando voltam meus passos; /nega-me o pão, o ar /a luz, a primavera, / mas nunca o teu riso, /porque então morreria.».

Os caminhos e desalinhos do amor

Os amantes são sempre uma Ilha ainda que às vezes fustigada por ventos. A sua perseverança encontra uma linguagem própria para exprimir a sua vontade de isolamento: «O vento é um cavalo:/ ouve como ele corre /pelo mar, pelo céu./ Quer levar-me: escuta / como percorre o mundo / para levar-me para longe. / Esconde-me em teus braços / por esta noite apenas, / enquanto a chuva abre / contra o mar e contra a terra / a sua boca inumerável. // Deixa que o vento corra /coroado de espuma, / que me chame e procure / galopando na sombra, / enquanto eu, submerso / sob os teus grandes olhos, / por esta noite apenas / descansarei, meu amor.».

Em «Ausência» apela-se à espera. E promete-se, em jeito de exigência: «Meu amor, /encontrámo-nos / sedentos e bebemos/ toda a nossa água e o nosso sangue, /encontrámo-nos / com fome / e mordemo-nos / como o fogo morde, / deixando-nos em ferida. / Mas espera-me, / guarda a tua doçura. / Eu te darei também / uma rosa.».

Os Versos do Capitão, Pablo Neruda, tradução para português de Albano Martins; Editora Campo das Letras, Porto

(to Artur)

© Teresa Sá Couto