quarta-feira, 18 de março de 2009

Dia Mundial da Poesia

A ciência desenha a onda; a poesia enche-a de água. - Teixeira de Pascoaes.

Quando um dia acabem os poetas...Há-de...ser tudo uma grande sensaboria. - Adolfo Casais Monteiro

Dia 21 de Março é o dia Mundial da Poesia. Sabe-se que, entre nós, as primeiras composições poéticas são anteriores ao séc. XII. Em Galaico-português, a alma encontrava a forma perfeita em versos melódicos e repletos de saudade. Falamos das cantigas de amigo que são, ainda hoje, um registo de verdade e emoção profundas. Os trovadores iniciavam, assim, a “saga maldita” da inquietação, porque a ousaram aliar à palavra. Nascia a poesia portuguesa.

Sem os poetas, teríamos chão seguro e paz nas veias. Então, porque buscamos exactamente o oposto? «Quando um dia acabem os poetas /há-de ser o mais belo dia deste mundo. /Hão-de cair do céu as divindades /sair do subsolo os medos e as sombras /reduzir-se ao tamanho natural /as coisas que eles aumentam e diminuem. /Há-de – não tenham dúvidas – /ser tudo uma grande sensaboria.» (Adolfo Casais Monteiro)

O que é a Poesia?

A poesia aparece-nos como uma negação: nega os lugares comuns, subverte a ordem das coisas, recusa o conhecido, procura o extraordinário: «A minha poesia é talvez esta luta contra paredes, muros e pedras – na tentativa de atravessá-los, em busca de um universo perdido…» (José Gomes Ferreira).

Na temática do amor, a negação surge como recusa da ausência, produzindo delírios encantados: «Agora, dormes, nua, /Sobre os lençóis – distante e ao mesmo tempo, aqui. /E essa réstia de lua /Vem da Lua, ou de ti?» (José Régio).

Sendo a descoberta a alavanca da inquietação, está criado o sangue e a correnteza que brotam do silêncio e alimentam a poesia: «eu quero a ânsia da onda/ o eterno rebentar da espuma» (Mia Couto); ou ainda, «O valor das palavras na poesia é o de nos conduzirem ao ponto onde nos esquecemos delas. O ponto onde nos esquecemos delas é onde nunca mais se pode ter repouso.» (Natália Correia).

A poesia é arroubo e êxtase. Para isso, surgem as antíteses: o sujeito elabora a poesia com lágrimas e risos, felicidade e dor, ódio e amor. Afinal, a Poesia é a Alma, com todos os seus recantos e labirintos: «Não, não posso adiar este abraço / que é uma arma de dois gumes /amor e ódio.» (António Ramos Rosa); «Anda sempre tão unido /o meu tormento comigo /que eu mesmo sou meu perigo. /E se de mim me livrasse, /nenhum gosto me seria; /que, não sendo eu, não teria /mal que esse bem me tirasse.» (Camões).

O Destino de Ser Poeta

Ser poeta é cumprir um estranho Destino: «Poeta sou! Cumpro o meu fado, estranho / Como o dum santo ou um louco: /Só posso dar de mais ou muito pouco, /Que é tudo quanto tenho.», e ainda, «Ser poeta é achar deleite /Nas suas próprias feridas. / Ai dos seios que dão leite /A bocas tão iludidas!» (José Régio)

Ser poeta é lançar um braço além-terra, sonhando a asa, para atingir um pássaro qualquer, ou "aquela voz" que não é voz, mais inflexão, interna, e secreta: «Enquanto na escola me ensinavam /a exactidão da bilha verde /para a minha boca/de-não-ter-sede... /...no papel que via? /Uma bilha torta /onde apodrecia /a água para a outra boca, /a secreta, /de sede intacta /no fundo da saliva. / E foi assim que me fiz poeta. / Com esta exactidão inexacta.» (José Gomes Ferreira)

Finalmente, diremos que ser poeta é, com «Voz activa», atirar sementes ao vento, ânsias e fomes, e congeminar o desassossego: «Canta, poeta, canta! /Violenta o silêncio conformado. / Cega com outra luz a luz do dia. /Desassossega o mundo sossegado. /Ensina a cada alma a sua rebeldia.» (Miguel Torga)


(dedicado a todos os poetas)


© Teresa Sá Couto

sábado, 14 de março de 2009

A Nação dos Chefes e dos Auxiliares

No dia que se seguiu às eleições, o senhor kraus, que escrevia crónicas num jornal, apontou no seu caderno: «No contacto com a população mais simples, alguns políticos dão beijos na cara como quem do cais diz adeus ao barco que parte para nunca mais voltar».

Assim se vê a oleada engrenagem dos Senhores do Bairro, de Gonçalo M Tavares, agora ainda mais afinada pela sátira aos tempos que correm – «para trás?, para o lado?». Perto da roda-viva de processos eleitorais, a narrativa d`«O Senhor Kraus», tendo a actuação política como uma brincadeira de crianças, purga-nos a alma: «Quando um político nos fala do céu, e aponta o dedo para o alto dizendo, vêem?, é aí, nesse momento, que devemos olhar atentamente para os objectos que ele guarda na cave.».

Os Chefes da Nação e o seu séquito de Auxiliares subservientes, deslumbrados com os métodos com que se convencem eleitores, constroem o teatro cómico que é a relação dos políticos com a população, onde todos somos rodas dentadas do burlesco. Directamente do olhar arguto, divulgado com humor original, de um autor que continua a surpreender.

Sobre o processo eleitoral, escreve o senhor Kraus: «Depois de qualquer eleição a sensação dos políticos – quer tenham perdido quer tenham ganho – é a de que o povo mais profundo acaba de entrar num comboio, dirigindo-se, compactamente, para uma terra distante. Esse povo voltará apenas, no mesmo comboio, nas semanas que antecedem a eleição seguinte. Esse intervalo temporal é indispensável para que o politico tenha tempo para transformar, delicadamente, o ódio ou indiferença em nova paixão genuína.».

Os Chefes construídos pelo senhor Kraus não têm nomes. Nem os Auxiliares. Nem «Os Outros», os eleitores, os que não são fascinantes para os primeiros e segundos, sim Necessários. Não têm nomes, por ser dispensável. Reconhecem-se os das duas primeiras categorias e, como a uns seguem-se sempre outros, e sendo todos tão iguais, dar-se-lhes um nome é supérfluo. Talvez isso explique a dificuldade que a maioria dos portugueses tem em saber o nome, por exemplo, dos ministros da Nação. Sabem que são ministros, como eram os antecessores e os que se lhes seguirão. E isso basta-lhes. Quanto aos últimos, «Os Outros», conservam o seu anonimato original na Nação de Chefes e Auxiliares. É nesta trilogia de “anónimos identificáveis” que se joga o jogo da reflexão e da sátira sobre a política que se faz, e se estende o contentamento do leitor.

Como os chefes lidam com o país

O Chefe aparece com aborrecimentos que «vinham sempre lá do fundo», quase como um decreto-lei. Defendia o instinto que nascia no estômago e subia até a garganta…melhor, ao vocabulário, conferindo-lhe uma força invulgar: «não é inteligência, que ela não é capaz de entender os meus discursos. Eu falo à população!». População que ele não conhecia. Os Auxiliares zelosos iam oferecendo ao Chefe mapas do país «para ele deixar de confundir tudo com o seu contrário». Porém, o Chefe era distraído, e ora perdia-os ora «punha-os debaixo de uma garrafa de vinho, para não sujar a mesa» ora assoava-se a eles, como lenço de socorro à constipação.

Descartando os mapas, o Chefe defendia que «o mapa mais real do país era o aparelho de televisão que tinha em casa». Com o país no botão da TV, era imprescindível ter todos os canais ligados. Enquanto ia assim “aprofundando” o conhecimento do país, um Auxiliarzinho alertava-o para a importância de saber geografia: «Se souber geografia as suas ordens podem ser exaustivas, ao metro quadrado» e assim não deixar nada «fora do benfazejo alcance das suas medidas politicas». Uma luz para o Chefe que nunca tinha pensado naquilo. As inaugurações onde se inaugura a figura do político, entenda-se, se inaugura o invisível, é outra boa estratégia do Chefe: «Inaugurar e ser a coisa inaugurada ao mesmo tempo» e depois fazer passar a mensagem: «tudo o que não se vê fomos nós que fizemos (…) porque em relação àquilo que se vê há sempre contestações».

Também o movimento e a mudança são imprescindíveis a quem quer ser Chefe. Por isso, ele mandou os seus Auxiliares sentarem-se numa cadeira e bater os pés no chão até às eleições. Para se consolidar a mudança, o Chefe seguiu outro «conceito estratégico»: pediu aos auxiliares que trocassem de lugares nas cadeiras a cada hora ou hora e meia, alternando, vice-versa, «sempre a bater com os pés no chão».

Como estratégia para estas estratégias dos políticos, o senhor Kraus adverte: «todo o número exacto atirado aos olhos da população insegura e distraída produz cegueira. Porém, se quando esse número for atirado nos fingirmos distraídos, imitar certos actores cómicos do cinema mudo, e aproveitar esse exacto instante para apertar os cordões dos sapatos», o número passa-nos por cima e «já não nos afectará a visão. (…) Com a visão intacta poderemos então assistir ao lamentável espectáculo das ruínas incoerentes, daquilo que parecia, ainda há instantes, ser um número exacto, convincente e decisivo».


O Senhor Kraus, Gonçalo M Tavares, ilustrações de Rachel Caiano, Editorial Caminho, Lisboa 2005


© Teresa Sá Couto

terça-feira, 10 de março de 2009

Recados de amor - poesia de Fernando Rente

«Quando um homem /abraça alguém /com a pureza de uma ave /de um peixe de uma flor /inventa /o ouro do mar /o abrigo do céu». Assim escreve Fernando Rente, em Amor do Mar e Outros Poemas (2004-2005), cantos distantes, «onde o mar e a terra pernoitam», donde tudo principia, onde tudo regressa e tudo se explica.

Fala-se de pureza, verdade e serenidade que consolidam a existência humana; nomeia-se «uma ilha situada aquém e além de todo o horizonte», com recados do vento que nos falam de amor: «Longe, nas brancas /ondas do escuro mar /surges a nado /cabelos molhados e amados /lentamente /o desejo cresce /nadas para a costa /onde meu corpo te espera /teus dedos, tuas mãos /molham-me /de água marítima /teu beijo de sal é amor».

Trilhar este percurso de Fernando Rente é seguir os passos de Afrodite que cria o mundo «gloriosamente profano que nos coube», refere Mário Cláudio no texto introdutório, intitulado «Os passos de Afrodite», acrescentando: «Cingido por agrura e esperança, atento a vozes interiores que serão o sopro dos espíritos, escutará Fernando Rente sempre “o vento que desenha /teu corpo”. Em tempo de desamparo converter-se-lhe-á a reminiscência de Afrodite em sustentáculo de esperança. E tomado de uma certeza única, segredará ao nosso ouvido, apenas ao nosso ouvido, esse mistério maior, “Aprendi / a comer o silêncio /dos que não amam”».

Nascido em Penafiel em 1933, Fernando Rente começou a escrever poesia na década de 60. A sua ligação às artes plásticas – curso de Pintura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto – explicará a forma da sua poesia que parece escorrer em telas com a pureza da aguarela e com o mistério da suavidade da cor, mesmo para desenhar o ímpeto e o fogo do desejo, mesmo para deter a pungência da perda, como a seguir se comprova.

São palavras de «espuma e recados dos peixes», na garupa do vento que desvela o enredo amoroso; é a indizível sensualidade de uma poesia decantada, fugaz e perene, suave e intensa, de toque, aromas e segredos ciciados ao ouvido:

Espero-te como o marulhar
das tentações das areias e do mar
esperam o peito das gaivotas

esse rumor é a tua presença
e o voltar aos nossos dias
desfolha-nos em abraços

o sentir da tua vinda
alertou-me
embalando meu corpo
até que tua noite me tocou

***
Conhecemo-nos pelos teus olhos
o amor nasceu
com um sorriso
unimos as mãos
o rosto o flanco

não tínhamos um lar
não tínhamos um leito

o meu abraço
cobriu-te os ombros
quando nasceu a manhã
encontrou-nos nas ruas
cansados
mas felizes

***
Ouvir sem ver
solidão triste
querer e não ter
água que não
se bebe nem abraça
ensinar com o tempo
as mãos desenhar
teus lábios soletrando
letra a letra
o fogo de seu ser

***
Conheci o amor
que não existe
fiquei triste

dias longos
terras desconhecidas
só o sonho ama
o que existe

***
Quando partires irás
pelo mar Atlântico
as ondas são meus abraços
o sal, o sabor dos lábios
sei que ilha a ilha
continente a continente
terra e mares oceânicos
voltarás um dia, uma noite
cheia de gotas de espuma
cheia de beijos de lágrimas
o olhar fixando um rosto
velho, de traços vincados

* * *
O fogo do cimo
os rochedos têm fome
do abraço das tuas águas
de espuma e recados dos peixes

com algas de areia
teci uma rede
para amar os seres marinhos

nós dois neste mundo
mentido amamos
a liberdade dos homens

***
Contigo vivi
junto ao mar
na casa da água

da última das ondas
descámos com as gotas
até à profundidade das tuas
montanhas submarinas

nesse leito de água
concebemos um filho
que nunca tivemos

***
O amor que tive
Erguendo-se pelo mar
Como o voo de pássaro
a ti me levou

Pernoitámos
os olhos fixaram-se
os lábios tocaram-se
e fugimos
um do outro

Amor do Mar e Outros Poemas, Fernando Rente, Campo das Letras, Porto, 2007


(to Artur)

© Teresa Sá Couto

domingo, 8 de março de 2009

Natália Correia, uma força superior

Incontornável: falar de Natália Correia é entrar em revoada. Mulher de voz diversa, rebelde e intelectualmente avassaladora, de «Espáduas brancas palpitantes:/ asas no exílio dum corpo», «Por vezes fêmea. Por vezes monja./Conforme a noite. Conforme o dia», cumpriu-se na palavra e pela palavra, estendida em poesia, romance, teatro, ensaio, memórias, relatos de viagem, registando sempre a peculiar forma de viver, indignada e insubmissa.

«Além de mim age um ignotus que ainda estou para saber o que é», dizia Natália para nos explicar, assim inexplicavelmente, a natalidade da sua criação genial. Concretamente, sabemo-la a feiticeira que se adiantou ao tempo e que continua a deslumbrar-nos com a sua verve original e inconfundível que nos atira na odisseia da existência.

O livro de Natália «Contos Inéditos e Crónicas de Viagem» é uma exibição, mais uma, da força superior e da escrita maior da autora. Prefaciado soberanamente por Zheto Cunha Gonçalves, é o 3º volume da colecção, por ele dirigida, que colige a obra jornalística de Natália Correia jamais editada em livro. Uma surpresa imperdível.

O livro de inéditos, editado pela Parceria A.M.Pereira, está dividido em duas partes, com textos escritos entre 1948 e 1985 e dispostos de forma cronológica. A primeira parte contém a estupenda lavra ficcional de Natália, em sete contos, e a segunda, mais de cariz jornalístico, traz-nos encontros com diversas personalidades, nacionais e estrangeiras (Norton de Matos ou Kadafi, por exemplo), além de narrativas de viagens. Contudo, em todos os textos, irrompe a surpresa narrativa, rutila a poesia, produto de um ministério de assombro literário; todos os textos nos dão «notícias do homem», escritos com «êxtases e intemperanças do sentimento», segundo palavras de Natália, agora relembradas por Zheto Cunha Gonçalves que, no prefácio, contextualiza a autora e dá-nos uma leitura de cada um dos contos inéditos.

Defende o prefaciador, e não poderíamos concordar mais, que «uma fortíssima carga poética subjaz e alimenta, da primeira à ultima linha, a par da ironia, ora branca como a magia, ora negra como o mais negro, cáustico e corrosivo humor, a narração e a factura desta escrita – nua e límpida como a desobediência que advém da rebeldia e da paixão, do encantamento do mundo e da intransigência para com a estupidez que é a falsificação da vida submetida às leis de moralismos utilitários.». A factura paga por Natália por deter esta inexcedível força da natureza – e que por se sentir um ser livre interveio conforme a sua consciência, sempre com coragem e frontalidade –, agrilhoou-a no epíteto de «excêntrica», do qual jamais se liberta, e que fez com que se desprezasse a sua criação artística. À adversidade do seu tempo, Natália responde com a ética de se inventar constantemente, e ora se rebela e se agita, ora se recolhe e medita, sempre produzindo palavras alquímicas.

«Feliz» é o título do primeiro conto e da personagem que ele edifica: uma mulher, «a idiota da região», que «nascera aleijadinha do juízo» e ostentava sempre um sorriso no rosto. Sozinha no mundo, Feliz encontra em Bento Gaiato o «único amigo, o único animal humano que a acariciara» e, mesmo sendo «coisa ruim» que se aproveita dela, Feliz, numa prova de gratidão assume o assassinato praticado pelo seu Bento. A crítica corrosiva «do português médio» irrompe em «Filme Tragicómico da Vida nas Praias em 3 Partes» com «heróicas virgens de bairro», «aves tontas» com ambições das «stars hollywoodenses» e de «um possível marido». Revelam-se «os títeres» de sempre, traçam-se retratos vibrantes da «urbe trágica e ridícula que se petrifica numa lágrima de Charlot».

Repletos de desamparo e desenraizamento, os contos «Um Homem Enamorado do Outono» e «Esplanada» trazem vozes de pessoas que «não são mais do que solidão», loucura e demência, e desatam-nos emoções antiquíssimas, fulgurações de sangue intemporais: «a música sai dum violino roído pelo tempo e o cego do violino é apenas mais uma sombra dessa tarde que se esvai num sopro de amargura.» Estupendamente inusitados, ou não fossem natalianos, surgem os contos «Barbo», «O Espelho de Anaita» e «Memórias de Uma Tia Tonta», este último, com um monólogo da personagem dirigido a Jesus, uma demência hilariante, construída com singular engenho narrativo.

As «Crónicas de Viagem», o conjunto de apontamentos jornalísticos, não perdem o arroubo da escrita dos contos, enleando-nos no deslumbramento da leitura. Assim é quando regista a sua viagem turística ao reduto do pintor El Greco e, como ele, arranca à sua arte «as expressões mais vivas e originais».
Na Líbia, “descasca” a imagem mítica de Moammar Kaddafi, o «controverso ungido da Unidade Árabe», em diversos pontos: o puritano, o misógino, o fanático, e, quanto «o mito se faz carne», a figura carismática daquele líder. Regista a sua visita a Moscovo, à «Mãe heroína» em plena «Perestroika».

Em Londres, numa marcha anti-atómica, encontra-se com Bertrand Russel, «o pacifista mais teimoso do mundo» um homem «radicalmente livre» e parece mostrar-nos no seu próprio reflexo: «a liberdade não é o privilégio de nenhuma ideologia mas antes aquilo que permite ao homem denunciar as pseudo-liberdades com que as ideologias nos atraem.».

Em Ponte de Lima, «numa viagem recreativa», descobre a eterna juventude do General Norton de Matos que mostrou «alta impetuosidade patriótica, que galvaniza o mais céptico apátrida », numa conversa «em que as horas rolaram nas fulgurações do espírito jovem».

Natália Correia, que soube a solidão do desprezo e das portas fechadas, soube olhar a solidão do Alentejo, esse «meio sem ponta» que espera, escrevendo-o desta forma:

Campos de ouro… muita terra… campos lilases… muita terra… Aldeias cenográficas de peças realistas com um toque Iorquiano… tão realistas que chegam a ser irreais… Homens atarracados que descobriram a atitude que convém à situação humana de estar… Estar… à espera de quê? (…) O humor que perpassa como uma aragem neste mundo ardente e estático, responde: "À espera de nada. À espera apenas… Acaso não é a existência, em toda a sua gama humílima e grandiosa, um tecido infinito de compassos de espera?".


Natália Correia, Contos Inéditos e crónicas de viagem; Editora Parceria A.M.Pereira, Lisboa 2005


© Teresa Sá Couto

sábado, 7 de março de 2009

Saudades de Egito Gonçalves

Dizia Egito Gonçalves que os poetas «têm um sonho, todos/ se esforçam por valer o pão/ que amassam». Sabemos nós que as penas da criação têm de lutar também contra as penas do olvido. E tão esquecido tem andado o poeta que escrevia sobre o presente, raspando o real quotidiano até atingir «o cerne emparedado», esculpindo no cerne das nossas emoções a memória e a saudade.

Porque «Nós vamos deixando pelo caminho/ os farrapos da pele», o rogo silencioso da criação foi escutado pela Campo das Letras que editou um daqueles farrapos com que se entende o mundo: «Entre Mim e a Minha Morte Há ainda um Copo de Crepúsculo» é um livro de inéditos do poeta que faleceu no ano 2000, quando completou 80 anos de idade. Agora, que se abram de novo as artérias para que elas povoem os lugares da poética egiteana. É hora de redescobrir o poeta.

Egipto Gonçalves começou a publicar poesia nos anos 50. Influenciado pelo Neo-realismo – e surrealismo –, o autor, todavia, não se deteve na poesia de circunstância ideológica e traçou o seu percurso de originalidade que nos chega até este livro com profunda homogeneidade temática. O espaço da escrita é um espaço luminoso com imagens do real a irromper nas páginas, como «rio de rápidos nervosos» que guiam o poeta no labirinto onde se perde e se reconhece, «em cada encontro, em cada linguagem»:

os versos que me surgem pelas ruas
têm o sono de um cavalo selvagem,
logo voam como flamingos. Deles
falo com cuidado; expurgo o insuportável
para a pele do leitor, os espinhos
que as picadas dos insectos segregam,
os dentes que se revelam flores carnívoras;
arcas inesgotáveis, caligrafia de sombras
que reservam a luz. Lanço ao Douro objectos,
memorias, desejos que não passaram
os limites. O mar devolve tudo: abro
as arcas; salgadas, as coisas ganham
novo aspecto; o caleidoscópio alerta
dias, estações, luzes, negativos.
As coisas parecem agora ser poemas
tocados por um pássaro: no seu bico,
uma haste do tempo reverdece.

Construída com quadros visuais e conceptuais, e com forte vertente narrativa, a poesia egiteana mostra-nos de forma singular os espaços da cidade do Porto. Embrenhamo-nos no Majestic, onde «uma névoa cobre os espelhos do café. /A névoa das ruas da cidade /refugiou-se aqui, seguiu o exemplo /dos nossos passos» de mãos dadas com esta poesia, onde as «as ruas são o nosso lugar (…) sermos o espaço /onde a cidade adquire consciência /e revela os seus arquivos, o fluir/ do rio que nos transporta os olhos /para o mar quando a névoa se abre /e deixa que as arvores se derramem /nas encostas (…)/ iremos dar nova forma às coisas, /surpreender os lugares até onde /a paixão nos trouxe; inscrevemo-nos /num espaço de árduas lutas, sonhos /de liberdade, flores nascidas /do sangue dos vencidos. (…)»;

Entramos no Cinema Rivoli onde «por dez tostões subíamos à galeria. /do alto víamos as divas, aprendíamos /a beijar – mal, é evidente: o código /heyes lá estava para nos impedir /de estremecer a fundo»; Sentamo-nos no Cinema batalha, onde os «heróis montavam a cavalo» e «os bandidos também» e à saída «em nós prolongava-se e ardia /o espírito de justiça, a imperecível /imagem do herói, o terreno fértil /para os que se seguiriam: Tom Mix, /Robin dos Bosques, Salvador Allende, Zorro, /Salgueiro Maia…»...

A palavra, corpo do real e do erotismo

Prenhe de tensão emocional, o discurso existencial de Egito Gonçalves constrói-se com expressão minuciosa e rigorosa onde coabitam individual e universal. Escrevendo nesta geografia, o poeta vigilante reage denunciado a castração humana, tudo o que contrarie a liberdade:

No Verão, por vezes, o vento Leste invade
a urbe. O vento da meseta – que o povo
diz não trazer nada de bom – seca tudo
na sua frente. Também a cidade
está cheia de pessoas que secam tudo
na sua frente. Só conhecem pássaros
em gaiolas, árvores em toros
para crepitarem nas lareiras.

A aspiração à liberdade é gritada no acto da criação e a palavra, feita corpo da realidade, encontra o erotismo com o qual se alia numa comunhão surpreendente:

escrever mensagens em que as aves
chilreiem, façam ninhos primaveris,
e pensar a cidade como se eu fosse
um forasteiro, com olhos de espanto: carregar a memória com o crepúsculo,
coleccionar metáforas para,
no regresso, depositar no teu seio e,
sob o teu olhar, avançar a mão
para a floresta, galopar intramuros, ouvir depois o boletim meteorológico
para saber onde iremos amanhã.

Egito Gonçalves disse: «do milénio /atravessaremos a fronteira com asa /rutilante, não perderemos as sementes, /as estrelas prosseguirão nos violinos». Este livro de textos originais, comprova-o.

Entre Mim e a Minha Morte Há ainda um Copo de Crepúsculo, Egito Gonçalves, Editorial Campo das Letras, Porto, Fevereiro de 2006

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 6 de março de 2009

Lisboa entre memória e realidade

O poeta Joaquim Pessoa, cativo de Lisboa, escreveu: «Em Lisboa a gente morre sem idade. /Devagar. Como se faz uma canção. /E há um pássaro que voa. É a saudade. /E uma janela aberta. O coração.». Também Fernando Pessoa, o poeta que tinha a cidade no sangue, nela se desapoquenta, escrevendo «como quem respira melhor sem que a doença haja passado».

Num gesto de grande fotografia, Henrique Dinis da Gama traz-nos a alma de uma cidade inteira que desce até ao rio. Como um pássaro alado e imenso que, sequioso, vai beber ao Tejo. E assim o exterior, uma vez mais, vem beber ao interior das nossas emoções. Trata-se do belíssimo livro «Baixa Pombalina – a luz obscura do iluminismo», de Henrique Dinis da Gama, tem a chancela da Editorial Caminho, editora que está há 30 anos (1975-2005) ao serviço da Cultura em Portugal. Um caminho luxuriante de homenagem à cidade, musa de quem a olha, e uma proposta aos leitores que querem ser espectadores e agentes do indefinível. Um livro que nos ensina a olhar e a sentir um património que é há muito tempo, descuidadamente, nosso.

Centrado na Baixa de Lisboa, o autor convida-nos, a partir de fotografias, a entrar no jogo entre a realidade retratada e a subjectividade do olhar da câmara. A fronteira entre objectividade e subjectividade é esboroada pela teatralidade com que se recriam os espaços, incitando-nos a (re)descobrir os locais e a adoptar uma postura de questionamento e reflexão em torno da fotografia, e sensações provocadas. Tratar assim a realidade, preenchendo-a de sentidos, é apanágio da grande fotografia. O processo de criação manifesta-se em imagens assombrosas, com muitas das fotografias, ainda, em cumplicidade com a pintura, como se de uma «Tela alucinada» se tratasse – não será ao acaso que o autor invoca a pintura de Mário Eloy (obra Lisboa, de 1934), a qual «terá entendido onde se encontrava o espírito da cidade» e os «os abismos da sua alma».

Fernando Pessoa apresentou-nos Lisboa calcorreada pela sua alma, num compêndio de desassossego e apaziguamento: «amo o Tejo porque há uma cidade grande à beira dele. Gozo o céu porque o vejo de um quarto andar da rua da baixa. Nada o campo ou a natureza me pode dar que valha a majestade irregular da cidade tranquila, sob o luar, vista da Graça ou de S. Pedro de Alcântara. Não há para mim flores como, sob o sol, o colorido vastíssimo de Lisboa.».

O poeta olhava Lisboa, como o próprio diz, com «um êxtase de ver, íntimo e postiço». É este arrebatamento criador que encontramos no olhar de Henrique Dinis da Gama. Surgem-nos ruas numa «quase irrealidade», captadas de muitos dos lugares elevados da cidade das sete colinas, que propiciam quadros de esmagadora beleza. Do plano geral ao plano de pormenor, nada escapa ao olhar atento e íntimo da câmara: a cidade ergue-se «quase a prumo falso», mostra-se a «linha monumental do Terreiro do Paço» e do Bairro Alto sobre o Tejo, largos e pátios, fachadas e arcadas, telhados, saguões, mansardas, coberturas, candeeiros, sacadas, jogos de esquinas, escadas, desníveis e suas resoluções. Não é esquecida a luminosidade singular de Lisboa, «a luz oblíqua nas ruas estreitas», aprisionada no instante mágico que o disparo pereniza. Nem os seus silêncios, janelas de mistério.

A densidade histórica é igualmente apreendida pela câmara fotográfica, e memória e realidade fundem-se num léxico pictórico prenhe de sentido. As fotografias são acompanhadas por textos, também de Dinis da Gama, num todo organizado em pequenos capítulos temáticos. Pretende apresentar-se a história da cidade desde o terramoto de 1755, considerado pelo autor como a «oportunidade única para a reconstrução de Lisboa» e dignificação do espaço. O Marquês de Pombal é tido como o espírito das Luzes em Portugal, espírito que «reincarnou nos que se lhe seguiram», como Fontes Pereira de Melo ou Duarte Pacheco, está presente nos grandes empreendimentos como a exposição do mundo português, em pleno estado novo e até, defende, na Expo 98, tudo «realizações que se destinaram a divulgar, uma vez mais, ao mundo, uma nova imagem de Portugal.».

A história da cidade é feita desde a reprodução de ilustrações dos sécs. XVIII a XIX, realizadas por estrangeiros – o que atesta o fascínio internacional por este espaço luso –, seguindo-se fotografias com a ambiência do Estado Novo, até à actualidade. É mostrada a «Lisboa sinuosa do fado», dos bairros históricos, a Lisboa da «modernidade estendida», mas sempre em reconstrução, sempre «à procura de escala», entre passado e presente, bairros e calçadas, e o sonho do futuro. Joaquim Pessoa escreveu: «É aqui, de bruços sobre a espuma /que o mar nos causa dor de estar em terra. /E as palavras nos doem uma a uma. /E os homens em Lisboa fazem guerra.».

Com a Baixa Pombalina na "guerra das candidaturas" a Património Mundial da UNESCO há, concordemos, muito que fazer para se nobilitar o espaço que anda demasiado vilipendiado. Este livro mostra-nos como se dignifica esse espaço, com uma solução elementar: ensina-nos a senti-lo.

Baixa Pombalina – a luz obscura do iluminismo, Henrique Dinis da Gama, Editorial Caminho, Lisboa 2005

© Teresa Sá Couto

domingo, 1 de março de 2009

Rui Herbon lança novo Romance

O Romper das Ondas é o novo romance de Rui Herbon, que será lançado no próximo dia 02 de Março, às 18 horas, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha, estando a apresentação pública a cargo da escritora Lídia Jorge.

O Romper das Ondas recebeu o Prémio Literário da Cidade de Almada 2008, em Outubro último, e é o quarto romance editado de Rui Herbon, a seguir aos Voar como os Pássaros, Chorar como as Nuvens (Um Filme Português), Prémio Eixo-Atlântico de Narrativa Galega e Portuguesa 2002, Absinto (A Inútil Deambulação da Escrita), Prémio António Paulouro 2004, da cidade Fundão e Os Girassóis.

Como Pré-publicação, deixo aqui um extracto do novo romance, com agradecimentos ao Rui Herbon que mo disponibilizou antes de chegar às livrarias. Além deste extracto, pode ler-se um outro que editei no site Orgia Literária.


«(...) Para usar uma frase feita, dir-lhe-ei que então – situemos esse então nos primeiros anos do silêncio – o inconsciente denunciava-me. Eu continuava a ir ao psicanalista, apesar dos riscos que isto implicava e do meu decadente poder aquisitivo. Sonhava profusamente e em cinemascope: pequeno luxo nocturno. Anotava num diário as minhas imagens oníricas, com o propósito de tê-las bem presentes no momento de fazer o meu relatório, desde o divã. Um dos sonhos faz parte do romance e passo a transcrevê-lo:

Ninguém deixa de assombrar-se. O vento duplica o alvoroço. É gente que exclama aqui e ali. Estamos na planície, dispersos em pequenos grupos. Alguns contemplam os firmes torreões e o céu, propiciamente limpo para turistas indómitos. O Professor contempla um plano dedutivo do castelo, onde só falta colocar a capela. Desde a ameia mais alta pode ver-se o fosso e a muralha suja de cinzas, também as cercas e barbacãs que flanqueiam com teimosia o acesso à fortaleza. Agora dirigimo-nos para a ponte levadiça. Asius e o Professor ficaram para trás, ainda entretidos com o mapa e com a descoberta da atalaia desmoronada. Butch toma-me pela cintura e entramos juntos na torre de menagem. Algo ali pertencia-nos; cada coisa parece-nos familiar. Por um resquício do passado surge a recordação de uma caixa contendo três ratazanas. Butch evoca-as. Achá-las mortas, por nosso imperdoável descuido, enche-nos de angústia. Contudo, a possibilidade de encontrá-las ainda com vida inquieta-me. Butch volta-se de costas para mim, inquisidor; ainda sabe como procurar os vestígios da nossa anterior passagem entre as paredes desses habitáculos em ruína.

Debaixo de um colchão de escombros e pó, está a caixa. Butch abre lentamente a tampa. As ratazanas estão aí, como solas de sapatos postas ao sol. Uma, a mais pequena, engana-nos. Salta. Eu corro. Trepa, desce, vem para mim. Oh, não. Está enredada nos meus pés. Por meio de um estalido, transforma-se em múltiplos insectos voláteis que se perdem no meu olhar; o meu olhar que se vira magicamente para a meia-luz de um passadiço subterrâneo. Sobre tarimbas estamos os vivos: o Professor, a sua mulher – muito desgrenhada, com uma enorme gravidez –, Asius, outras pessoas, Butch e eu. Somos prisioneiros dos mortos. Os mortos formam um Tribunal. Têm corpos emprestados. Intuo-o: falam acerca de nós. O lugar é uma armadilha. Suspeito que resolveram provocar-nos um grande sofrimento. É mais que um pressentimento; estou certa de que esperam a nossa desintegração. Deixar-nos-ão morrer de fome?

Extenso e plano é o campo de concentração, ou a antecâmara, para a tortura e a morte. Sempre fui uma rebelde paciente na sala de espera. Vejo-me na porta de serviço, pobremente, com tanta ânsia, com tanto ódio. Isto queima, isto queima-me. Os mortos têm semblantes de um encantador nada; caras azuis, mal pintadas, cheias de hematomas; estão vestidos com retalhos. Usam coletes e jardineiras e olhos alucinados. Transportam-nos para um vestíbulo. Sentamo-nos em círculo, ombro com ombro. Na perna, uma mancha começa a picar-me. Coço-me. Os nervos dão-me mais comichão. Volto a coçar-me, coço freneticamente. Com as unhas provoco uma leve ferida. Os mortos, que nos vigiam de perto, vêm o fio de sangue. Por que se incomodam e me perguntam se vai sarar? Por que necessitam saber se ficará uma cicatriz? Agora sei: querem os nossos corpos bem sãos, inteiros, com uma boa superfície. Os nossos corpos serão a sua nova vestimenta. Portanto, não haverá actos de violência; utilizarão um gás venenoso que não deixe manchas nem marcas na pele. Que farão com Butch? Como não pensei nisso antes? Pela expressão do seu rosto, intuo que urde um plano para escapar. (...)». pp.25,26


nota: ver artigos sobre Rui Herbon na etiqueta correspondente

© Teresa Sá Couto

sábado, 28 de fevereiro de 2009

A Arte maior de Nikias Skapinakis


Nikias Skapinakis – Uma pintura desalinhada é o título do magnífico álbum de luxo dedicado àquele nome maior das artes plásticas portuguesas, de ascendência grega, mas nascido em Lisboa em 1931, cidade onde vive e trabalha. Galardoado com o 1º prémio de Artes Plásticas do Casino da Póvoa de Varzim, em 2006, Nikias tem neste livro mais uma grande homenagem.

Nikias, que em 2004 foi também galardoado com Prémio Amadeu de Sousa Cardoso, disse que «o papel do pintor termina no quadro. O que acontece depois é do domínio das circunstâncias.». Dita a genialidade do pintor que a sua pintura desalinhada esteja esculpida nesta jóia editorial com a chancela da Campo das Letras.

«A pintura, quanto a mim, basta-se a si própria e exige uma espécie de dedicação apaixonada – senão, é melhor fazer outra coisa», disse Nikias Skapinakis numa entrevista ao JL. O presente livro – consequência do carácter democrático da Arte, que a retira do elitismo das Galerias –, contribui para iluminar aquela dedicação apaixonada; a abordagem crítica de Bernardo Pinto de Almeida, especialista em Teoria e História da Arte, possibilita-nos o enquadramento da vasta obra do pintor, um empenho de toda a vida, distribuído em dez capítulos: «Nikias, 55 anos depois», «O lirismo expressionista e a consciência da Modernidade», «Figuração versus para-figuração», «A segunda série para-figurativa: das paisagens de “Vale dos Reis” à expressão do desenho», «O ponto metafísico», «A contenção monocromática», «A apologia da cor: A série dos cartazes», «Retratos verdadeiros e falsos retratos», «O desenho» e «A recuperação dos grafitti e as “Cortinas Mirabolantes”.

Segue-se um último capítulo dedicado à Biografia e Bibliografia do artista, coligem-se alguns textos de intervenção de Nikias veiculados por diversas fontes jornalísticas e que constam do Catálogo da Exposição “Prospectiva” realizada no Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves. Inclui-se, ainda, uma entrevista ao pintor, supra referenciada, editada no Jornal de Letras (JL), em Setembro de 2005, altura em que foi distinguido com o Prémio Amadeu de Sousa Cardoso.

Retratos, reinvenção e metafísica

«Se bem me lembro, o que caracterizava o Estado Novo era o tédio. À parte aspectos pontuais, a tragédia veio depois e não terá ainda terminado. Mas eu tinha como ponto de honra não perder a alegria de viver, isto é, não consentir que ma roubassem.». José Gomes Ferreira resume talvez isso quando escreveu sobre mim: “amava os sabores do sistema e era anti-fascista”», disse Nikias em comentário a uma série de retratos da série melancólica, onde se inclui o «Tertúlia», de 1960 (na imagem à esquerda).

Se o pintor soube retratar como poucos esses sinais sociológicos caracteristicamente portugueses, a sua pintura assinala-se pelo constante movimento, numa estimulante invenção e reinvenção que o levou à procura de «um cada vez mais nítido domínio da cor», a penetrar noutras dimensões da linguagem e exploração cromática. Uma pintura não abstracta, mas sim metafísica cujo diálogo se encontra neste livro de partilha e que é, também, uma homenagem à Cultura Portuguesa.
Nikias Skapinakis – Uma pintura desalinhada, Bernardo Pinto de Almeida; Editora Campo das Letras e Casino da Póvoa; Porto, 2006

© Teresa Sá Couto

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

As Mulheres na pintura de Isabel Botelho

«São altas essas roseiras de mulheres, / inclinadas como sinos, como violinos, dentro / do som», escreveu Herberto Hélder em versos que nos ecoam fortíssimos quando nos detemos nas novas pinturas de Isabel Contreras Botelho.

A pintora, que expõe desde 2003, tem patente no Palácio Galveias, só até dia 01 de Março, a exposição Beautiful Unknown, um conjunto de trabalhos com o tema da mulher. Melhor: um hino à mulher, não a mulher idealizada, mas a mulher real, que molda o seu quotidiano com a matéria opalescente da alma, tudo vertido numa matéria plástica a um mesmo tempo delicada e vigorosa.

«Dediquei esta minha exposição no Palácio Galveias, à figura da Mulher, onde quer que ela esteja, de onde venha e para onde quer que vá… ela com figuras, que mesmo inventadas, eu sei que existem no centro de qualquer realidade!», diz Isabel Botelho sobre estes seus novos trabalhos.


Para os que defendem que a pintura deve apaziguar quem a contempla, encontra nas telas de Isabel Botelho a fidelidade a esse propósito. São belas, estas mulheres, de uma serenidade redonda, misteriosa, sagrada e benigna.

Ou, como diz a pintora, são «Belas as mulheres de Toda a Esperança, no feminino, real e verdadeiro, sem recurso à sofisticação da intelectualidade, virada para qualquer reinvenção do sexo e do seu género. Bela a mulher que o sabe ser, forte, mesmo na aparência das suas fraquezas…»

Para ver ao vivo e conferir o afago que nos chega pelo olhar, para se disseminar por todos os sentidos....

© Teresa Sá Couto

Jorge Pinheiro - Pintura de silêncio e luz

Não é esquecida, tampouco tardia, esta oferenda com nome Jorge Pinheiro! O deslumbramento não se olvida nem tem um tempo para acontecer. Sabe-o João Miguel Fernandes Jorge, autor dos textos que acompanham as fotografias de telas daquele pintor. Sabe-o a editora Campo das Letras que, em colaboração com a Galeria Palmira Suso, editou o esplendor em livro. É este, dos vários livros que nos trazem Jorge Pinheiro para nossas casas, que chamo à atenção. A capa dúctil e discreta guarda, convidativa, uma grande viagem: a dos sentidos desassossegados por dezasseis telas de pureza policroma, metaforização e teatralidade composicional.

«O som aniquila a grande beleza do silêncio», disse Charles Chaplin. Daí o grito dos seus filmes mudos. Por isso, Chaplin surge nas telas de Jorge Pinheiro, pintor que pinta com singularidade o silêncio estrídulo da alma inconformada e intervencionista.

Jorge Pinheiro nasceu em Coimbra, em 1931. Em 1963, quando concluiu a sua formação académica na Escola de Belas-Artes do Porto, criou com os amigos Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Armando Alves o grupo artístico "Os Quatro Vintes", numa alusão às classificações obtidas na Academia. Foi com esse nome que o grupo expôs no Porto, em Lisboa e em Paris (1968-1971). Com vários galardões pela sua pintura, Jorge Pinheiro está representado em diversos museus, como o Soares dos Reis, Serralves ou o Museu Nacional de Arte Contemporânea. Vive e trabalha em São Pedro do Estoril, Lisboa.

Pintar a intensidade do silêncio

O silêncio metafísico está em todas as pinturas coligidas no livro «Jorge Pinheiro – Oferenda Tardia». A abrir, a tela «Porquê?» – com data de realização de Março de 1991 a 2 de Fevereiro de 1992 – e é com esta pergunta, em crescendo inquietante, que se percorrem, em catarse, todas as imagens até à última, «Stabat Mater», de 2006.

Deus apareceu a Abraão em Berseba e disse-lhe: ´Toma o teu filho e sobe com ele a uma montanha que eu te indicarei na terra de Moriá`. Abraão respondeu:
- Senhor, tenho dois filhos. Qual deles devo levar comigo?
- O teu único filho.
-Senhor, cada um é o filho único de sua mãe.
- Leva o filho que tu amas.
- Senhor, amo os dois.
-Leva o filho a que tens mais amor.
- Senhor, o que devo fazer na terra de Moriá?
-Oferece um holocausto no meu altar.

João Miguel Fernandes Jorge transcreve de Génesis XXII este diálogo terrível para ilustrar o seu comentário das pinturas O Sacrifício de Isaac, de 2002, e da série O Jogo da MacacaO Jogo da Macaca I de 2004, O Jogo da Macaca II e O Jogo da Macaca III, de 2004 – as quatro numa alusão ao conflito israelo-palestiniano.

Nas telas, as personagens «movem-se entre um grito de terror e o sacrifício». Nem falta o holocausto no altar de pedra, nem o grito da mulher e mãe que ressoa num infinito sofrimento – à maneira de O Grito de Munch –, a evocar e a convocar toda a humanidade. E o silêncio está lá, denso na tragédia, estridente na denúncia da ruína humana, instigando à reflexão: «Qualquer morte é um sacrifício, um drama que desce sobre a pedra do sacrifício.».

Palcos onde se encena o grande jogo da vida construído alegoricamente: eis as telas de Jorge Pinheiro. Palcos onde se representa o ser humano, andarilho, Charlot, «The Tramp», o niilismo, mas também a esperança.
Metáfora da vida é, também, o grande jogo da macaca que um rapaz percorre, em figura invertida (imagem), «pé-ante-pé, quadrado a quadrado, desenhados a azul, num azul de giz de quadro negro de escola. «Num cuidadoso equilíbrio jogado com todo o corpo, não vá o menino, duplo de si, despertar para a crueldade do mundo», diz o magnífico texto de João Jorge.

O movimento que «incendeia»

Não é só o silêncio que dá forma à inquietação do espectador. Ela advém também do movimento das pinturas com mensagens que nos atingem, espectadores, fazendo-nos interlocutores das narrativas. Para esse movimento concorre a Luz que incendeia as telas, e nos incendeia, que foca argumentativamente pontos ou personagens, como que projecções da consciência – da ficção, do autor, do espectador.

«Jorge Pinheiro: um pintor, um signo. Na procura de uma verdade pictórica, o pintor deixa percorrer a sua obra de uma luz que ’incendeia’, com uma arqueologia nostálgica e com a fragilidade de uma existência longínqua, ícones, índices e símbolos», escreve João Miguel Fernandes Jorge sobre a pintura de Jorge Pinheiro.

E ecos, acrescento eu. Ecos longínquos oriundos dos primórdios da existência da alma humana, ecos fundos da alma que aprendeu a observar e a não se conformar. São os ecos da insanidade da guerra que encontramos na série de pinturas «O jogo da Macaca», onde se representa esse jogo ignóbil dos homens, e que nos remetem para outros ecos de denúncia que nos chegam de António Gedeão: «Não há mas. /Todos temos culpa, e a nossa culpa é mortal. /Eles virão e eu morrerei sem lhes pedir socorro /e sem lhes perguntar porque maltratam. /Eu sei porque é que morro. /Eles é que não sabem porque matam.».

Jorge Pinheiro - Oferenda Tardia, textos de João Miguel Fernandes Jorge; Editorial Campo das Letras, Porto, Dezembro 2006

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

ZECA AFONSO - NOME DE LIBERDADE

Quando passam 22 anos da morte de Zeca Afonso, recupero um texto que elaborei sobre o magnífico livro infantil Zeca Afonso – O andarilho da voz de ouro de José Jorge Letria, com ilustrações de Evelina Oliveira. É esta a minha humilde homenagem. Se Zeca foi a voz de ouro, sinónimo de riqueza humana e trigo do futuro, este livro dedicado ao grão do trigo novo é o instrumento que faltava para se passar esse testemunho às nossas crianças. Por isso, e já, Que é já tempo /D’embalar a trouxa /E zarpar em direcção ao futuro, Venham mais cinco e tragam outros amigos também para que se obtenha uma seara robusta.

Assim, os miúdos de hoje poderão perceber mais tarde o que é ser-se maior que o pensamento, e porque as palavras e a voz de Zeca levam ao arrepio. Homenagem às crianças, a Zeca Afonso e à Liberdade, este livro da soberba colecção O Sol e a Lua, da Campo das Letras, veicula ensinamentos indizíveis de sonho, coragem, resistência às amarguras, mas também educa a sensibilidade e as emoções.

José Jorge Letria, munindo-se da pureza encantatória da linguagem infantil, reconstrói a história do menino ao homem, e Evelina Oliveira desenha a magia narrativa com cor e emoção. São propriedades de uma escrita com poética singular, a que José Jorge Letria há muito nos habituou, que provoca no leitor adulto uma inaudita comoção.Um desafio de intimidades para pais e filhos, descoberta para os miúdos, redescoberta para os graúdos, num crescimento conjunto.

Conta-se a história do menino Zeca, nascido em Aveiro, que desde muito cedo aprendeu o sentido da palavra longe. As grandes viagens de barco que fazia para estar junto dos pais em territórios que Portugal então dominava noutros continentes, davam-lhe tempo para sonhar, mas também para escutar as suas primeiras inquietações e medos.

Em África fazia amigos, meninos negros com quem brincava numa fraternidade que o acompanharia toda a vida. Por isso, o menino Zeca não percebia a razão dos adultos brancos, com a marca do poder e da autoridade, distinguirem as duas raças. Escolhia então ser rebelde, porque era essa a sua maneira de ser livre. Dividido entre África e Portugal, dois mundos onde tinha amigos, sempre com o coração a bater em dois lados ao mesmo tempo, o menino andarilho crescia nesse desassossego que lhe traçava o rumo futuro, e que seria a sua sina e o seu drama. Refere-se que desde menino Zeca aprendeu o valor que têm as ideias, coisas esquivas e imateriais que não se compram nem se vendem nas bancas do comércio, nos supermercados ou nas feiras.

Quando em Timor os pais foram feitos prisioneiros pelos japoneses e levados para um campo de concentração, o menino, contendo as lágrimas da tristeza e da indignação, aprendeu a não gostar da palavra “guerra”, a mesma que, mais tarde, o inquietaria e o levaria a fazer canções que falassem só de paz.

Por outro lado, se as ideias que ouvia aos tios de Aveiro eram de liberdade, outras ideias corriam em Belmonte, onde viveu, na casa do tio Filomeno que gostava de Salazar, pelo qual foi obrigado a vestir a farda da mocidade portuguesa. Foi também lá que aprendeu o outro nome para o Papão: Salazar.

Mas o papão tinha um grande ponto fraco: não conseguia lidar com a força da palavra e encarcerava o país entre as grades do medo que mandara erguer por todo o lado. Todavia, Zeca já tinha aprendido a rebeldia e, por isso, erradicado o desânimo e o medo. É em Coimbra, cidade que o formou e ouviu, que Zeca faz novas amizades e começa a usar a voz de ouro para cantar.É lá que encontra Humberto Delgado, general sem medo da sofreguidão dos vampiros, que acabou por perder as eleições que ganhou, ousadia que lhe tirou a vida.

É também lá que percebe que as grades piores até eram as que cada um deixava erguer no interior do que pensava e sonhava, tornando cada vez mais difícil a livre partilha de ideias. Por isso, estudava e cantava procurando actualizar as mensagens dos antigos fados de Coimbra, cultivando com palavras certeiras, preocupadas com a vida das pessoas e com os seus problemas, palavras de união, porque casadas com o sofrimento dos que menos tinham para acordar os que o ouviam do sono resignado em que se tinham deixado cair sem quase se aperceberem disso.

Surgia naturalmente a definição de Cantor político. «Os vampiros querem calar a voz que os desmascara e condena. Mas o cantor não se cala. E já não está só. Estão com ele Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire ou Francisco Fanhais, entre muitos outros. Na página 36 irrompe a narração contígua à ilustração do último concerto de Zeca em Lisboa, em 1983, no Coliseu dos Recreios, uma fremente catarse, ainda hoje sem explicação racional.

O homem de errâncias, criador do soberbo tema Era um redondo vocábulo – escrito na prisão de Caxias – via fechar-se-lhe o seu ciclo de vida. José Jorge Letria descreve esse momento, da forma que se segue:

Era uma madrugada de Fevereiro, fria e húmida, e o ar começava a minguar-lhe nos pulmões. Tinha chegado a hora de partir. Nessa madrugada, uma mulher de rosto luminoso e sorridente acercou-se dele e perguntou-lhe se queria a sua companhia. Respondeu-lhe que sim, reconhecendo nela a jovem que caminhara a seu lado em Coimbra, nos dias em que Humberto Delgado era nome da esperança portuguesa. Perguntou-lhe docemente: - És tu que me vens buscar? E ela respondeu, apertando-lhe a mão contra o peito: - Sim, é comigo que vais partir, mas não penses que sou a Morte.


Eu sou a Liberdade, aquela que sempre amaste e seguiste e que agora se erguerá contigo nos ares, perseguindo um sonho que só acabará quando o último ser humano desaparecer deste planeta.


Zeca Afonso – O andarilho da voz de ouro, texto de José Jorge Letria e ilustrações de Evelina Oliveira; Editorial Campo das Letras, 2007


© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Sociedade secreta de Vila-Matas, em Lisboa

O escritor catalão Enrique Vila-Matas vai estar em Lisboa, no Centro Cultural de Belém (CCB) no próximo fim-de-semana, no ensejo da estreia da peça de teatro “Sentido Portátil”, uma adaptação do seu magnífico "história abreviada da literatura portátil". O acontecimento é imperdível. Ver aqui informações, acedendo a "sentido portátil".

A obra que está na base da peça é genial, e está editada entre nós. Recupero o texto que elaborei em 2006, quando o livro foi editado pela Campo das Letras. Deixo votos de boa leitura, óptimo espectáculo e surpreendam-se com este encontro.

Viagem à insólita psicologia dos criadores

Dizia Paul Valéry que o infinito «é uma questão de escrita», que «o universo só existe no papel». Comprova-o quem já teve a felicidade de se encontrar com a escrita de Enrique Vila-Matas. O autor das magníficas crónicas «Da cidade Nervosa» deixa-nos atónitos com «História Abreviada da Literatura Portátil».

Desta vez “desmantela-se” a conspiração shandy ou sociedade secreta dos portáteis, fundada em 1924 onde conjuraram escritores de renome da literatura universal, como García Lorca ou Scott Fitzerald. Com todos, por acontecimentos bizarros e hilariantes, o leitor viaja à psicologia dos criadores, que jamais verá da mesma maneira: este portento de Vila-Matas, como o próprio diz, permite-nos conhecer «os que tornaram possível que hoje se possa desmascarar com mais facilidade do que nunca todos os que, como disse Hermann Broch, “não é que sejam maus escritores, mas sim delinquentes».

Esta "História Abreviada da Literatura Portátil" foi publicada pela primeira vez em 1985 e é uma obra emblemática de Enrique Vila-Matas, traduzida em inúmeras línguas e, «transpondo as páginas do livro, originou diversas conspirações na vida real» ou não fosse o seu conteúdo “abrasivo”. A conjura shandy – que significa alegre, volúvel e maluco –, cuja característica era a de conspirar por conspirar, foi o «elo de união dos que formaram uma sociedade secreta sem precedentes na história da arte». Fundada na foz do rio Níger, foi dissolvida três anos depois, na sequência de um escândalo em Sevilha.Dela fizeram parte, entre muitos outros, García Lorca, Scott Fitzerald, Marcel Duchamp, Walter Benjamin, César Vallejo, Rita Malú, Valery Larbaud, Berta Bocado, Alberto Savinio e Georgia O’Keefe.

Pela mão de um narrador-investigador daquela sociedade secreta, mergulha-se na «história abreviada ou avariada» de escritores com atracção pelo minimalismo e defensores da «apoteose dos pesos ligeiros na história da literatura» e segue-se-lhes o rumo por vários pontos do mundo, «peregrinos medievais para quem o essencial era a viagem» e terem histórias para contar.

Para se ser shandy, e assim ser-se admitido na sociedade secreta, havia requisitos a cumprir: exigia-se um alto grau de loucura, ter uma obra que não fosse pesada e coubesse numa caixa-mala – para se cumprir o gosto de viajar com uma maleta que continha toda a obra –, «ter espírito inovador, sexualidade extrema, ausência de grandes propósitos, nomadismo infatigável, tensa convivência com a figura do duplo, simpatia pela negritude, o culto da arte e da insolência». Todos requisitos para a concentração na criação artística e apologias do desconcerto, «como fonte inesgotável de novas e estimulantes sensações».

Loucura, criação, fraude e magnetismo

Porque a solidão é necessária para criar, todos odiavam crianças, elucidado na história de Walter de la Maré que, «na sangria da vontade, da independência, da liberdade de concentrar-se no trabalho», chegou a atirar o filho pela janela. Em busca do retiro amigo da actividade criadora, muitos shandys resolveram fazer uma viagem imóvel ao fundo do mar, refugiando-se durante algum tempo dentro dum submarino ancorado no fundo das águas do porto de Dinard, na Bretanha, uma antiguidade bélica da primeira guerra mundial. Uma Nave de loucos, onde se libertava a excitação, o fumo e o álcool, que «evocava a bíblica Arca de Noé, tão parecida com o submarino, pois nunca como nesta ocasião houve tanta variedade de feras portáteis reunidas».

O escrúpulo em relação ao pormenor era justificado por só as coisas mínimas permitirem viver intensamente. Por outro lado, «miniaturizar é tornar portátil, e esta é a forma ideal de possuir coisas para um vagabundo ou exilado». Mas miniaturizar é também ocultar, daí o fascínio dos shandys por tudo o que exigisse ser decifrado: emblemas, manuscritos, anagramas. E assim seguiam, com a sua caligrafia microscópica, enigmática, volúvel e maluca, «coleccionadores carregados de coisas, quer dizer, de paixões».

Na “simpatia pela negritude”, refere-se Blaise Cendrars com a sua Antologia Negra que, baseada numa «intensa biografia», coligia histórias populares africanas, e propunha-se reproduzir «pela primeira vez na Europa contos que missionários e exploradores foram transmitindo oralmente». Concluiu-se que as estórias de Cendrars eram uma fraude, fabricadas pelo próprio, «apanhadas no ar» e construídas a seu belo prazer.

Por breves 107 páginas, o leitor segue magnetizado pela escrita indomável do autor catalão, que apresenta e polemiza o impensável, e que, veloz, só admite pausas na leitura para a interjeição do espanto, o sorriso que reage à ironia ou a reflexão proposta pela singularidade. E segue os encontros dos portáteis nas sextas-feiras, numa livraria, a polémica dos suicídios reais e literários - com a moda de suicídios por barbitúricos, numa «grande orgia de pastilhas», em quartos elegantes de hotéis europeus -, o “extravio” de alguns membros dos portáteis, por desistência, incompatibilidade ou morte, até à extinção da sociedade secreta heróica, em 1927.

História Abreviada da Literatura Portátil, Enrique vila-Matas; editorial Campo das Letras, Porto, Junho 2006

Nota: texto meu sobre Da Cidade Nervosa

© Teresa Sá Couto

Crónicas de Enrique Vila-Matas

Da Cidade Nervosa é uma surpreendente compilação de crónicas urbanas do jornalista e escritor barcelonês Enrique Vila-Matas. Tendendo a fixar-se sempre «no mais estranho», como o próprio assume, o autor constrói verdadeiras narrativas com o mote da cidade de Barcelona, curtas e certeiras, onde o lugar comum é de todo banido.

Com especial comprazimento no «romance da rua», Vila-Matas define o método para atingir o objectivo: viajar «sem destino marcado», partir sem se «dirigir a parte nenhuma», na «intenção de espiar condutas humanas e apanhar dissimuladamente conversas de desconhecidos». Como diz António Tabucchi, e recordado e comprovado por Vila-Matas, «todos os escritores são um pouco voyeurs, todos espiam um pouco a vida pelo buraco da fechadura. A vida é demasiado breve para se viver o número suficiente de experiências: é preciso roubá-las».

Com o título sugestionado das cidades das “epilépticas civilizações”, de Robert Arlt, Vila-Matas, que assume ser o que a cidade fez dele, edifica com ironia, encanto, mas também azedume, o nervosismo de Barcelona, cidade dos «prodígios de tanto desenhador barato», «muito activa, muito dinâmica, mas enormemente mutante», «a Madame Bovary das cidades deste mundo (…) onde nada dura, nem o que é mais recente». E o verbo insaciável e indomável corre pelas 282 páginas, divididas por quatro secções: a abrir coligem-se crónicas que atestam o olhar arguto e o vigor intelectual do autor; segue-se o texto original, e mais extenso, «Mastroianni-sur-Mer» onde se entrelaçam literatura e cinema; a terceira parte desenrola «Um tapete que se espalha em muitas direcções» e, surpreendentemente, explanam-se as vicissitudes e a tessitura da construção literária; a fechar, em «Escritos Shandys», coligem-se alguns dos artigos e ensaios literários do autor publicados quer na imprensa nacional espanhola quer estrangeira.

Fiel ao apelo da escrita, que domina com mestria, Vila-Matas retrata lugares, pessoas, vozes e sensações, «com o objectivo descritivo que tende ao infinito e portanto a todas as luzes impossível». O grito criador não se detém, mesmo que falte assunto, porquanto há assunto no «que se passa quando não se passa nada, só tempo, as pessoas, os carros as nuvens». Assim, feito detective numa viagem ao centro da terra – «como no cinema ou teatro, é sempre de noite» – desce ao metro de Barcelona, «esse mundo congelado, sem céu, nem plantas, nem animais (excepto ratazanas), movido pelo chamariz do boato de que nem toda a gente que lá desce volta à superfície»; viaja nos transportes públicos, perseguindo vidas alheias para constatar que neles «só as mulheres lêem, os homens fazem palavras cruzadas ou esgravatam o nariz»; arremete contra o campo e contra a praia das férias de Agosto; fixa-se enérgico e hilariante no “drama escultórico” de Barcelona. Para todo o lado, praças, becos esconsos, memórias, linha a linha, página a página, o autor leva consigo o leitor, como um íman, exultante por se sentir prisioneiro no olhar singular do barcelonês.

Portugal “deliciosamente atrasado”

Surpreendente e inversamente aos nervos estrídulos da capital da Catalunha, o autor motiva-se em terras lusas revelando-lhes o pitoresco com deslumbramento ímpar: sonha com o farol de Cascais numa entrega arrebatadora; detém-se na estátua de Fernando Pessoa, em Lisboa, para, irónico, confirmar que «as crianças estimam-no muito dando-lhe pontapés»; contempla, não de forma estática, mas em redemoinho sensorial, o café Majestic do Porto «com as suas ninfas e anjos art nouveau»; embrenha-se nas ruas da “deliciosamente atrasada” cidade invicta; tudo coado pelo olhar estrangeiro que vê descobrindo o que os nossos olhos, por habituados ou inaptos não alcançam:

A vida no Porto tem o ritmo antigo dos pés descalços, como diria Pessoa. É uma cidade longínqua, de outro tempo e os seus habitantes vestem rigorosamente de cinzento e negro. (…)no próprio centro da cidade, chamou-me poderosamente a atenção uma loja gerida por um homem que é o vivo retrato do escritor Saramago e na qual, desde há anos e com escassa afluência de clientela, se vendem unicamente armadilhas para caçar ratos. A montra, onde se exibem os mais variados modelos de ratoeiras, é simplesmente sensacional.

Verifica-se com surpresa que, ao virar da esquina, há uma loja de queijos. É a minha mais estranha recordação desta cidade que me devolveu a memória fria da minha infância de menino do pós-guerra. Cidade rara entre as raras. Cidade triste e longínqua em que penso frequentemente enquanto recordo o que disse a mãe de Pessoa quando lhe perguntaram se estava ao corrente de que o seu filho começava a ser conhecido em todo o mundo: “Olhe que o Fernando é tão famoso que até já no Porto o conhecem.

Defendendo que «a realidade imita a literatura» e que «escrever é corrigir a vida», Enrique Vila-Matas, com os cinco sentidos engatilhados, comprova-nos que a relação entre a literatura e a vida é um jogo interminável com regras em constante mutação. Também é interminável a leitura deste livro que pede revisitações oferecendo sempre novas descobertas.

Enrique Vila-Matas, Da Cidade Nervosa, Campo das Letras, 2006

© Teresa Sá Couto
 
nota: este texto foi publicado no sítio da Orgia Literária em 20.06.2008

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O erotismo de David Mourão-Ferreira

Jóia da poesia erótica portuguesa, a antologia poética «Música de Cama» de David Mourão-Ferreira – também título do último livro de poemas do autor (1993) – colige 100 poemas escritos ao longo de quarenta e cinco anos, acompanhados por dois desenhos em grafite de Francisco Simões.

O livro, cuja primeira edição foi lançada em 1994, é um voo rasante de Eros pelos enredos e segredos indecifráveis da pele: «Nem o Tempo tem tempo /para sondar as trevas /deste rio correndo /entre a pele e a pele /Nem o Tempo tem tempo /nem as tréguas dão tréguas /Não descubro o segredo /que o teu corpo segrega». O segredo da intemporalidade desta poesia estará na matéria de que é feita – Água, Fogo e Música –, e na torrente que a declara: a dança intensa e sôfrega do jogo dos corpos com que se sugestiona e desafia a imaginação do leitor, que nela reconhece a matéria e o pulsar das próprias veias.

Os mistérios da pele

Desde «A Secreta Viagem» (1948-1950), a poesia davidiana procura «decifrar o mistério» do desejo e do corpo. Diz Eduardo Lourenço que a viagem de David é secreta, «não porque em si mesma se esconda aos outros, mas porque é a viagem que se faz em torno de um segredo, guiando-se às cegas pela rota do segredo». Em «Tempestade de Verão» (1950-1953), contrapõe-se a sensação à razão com esta a inviabilizar aquela: «O amor é só de quem os olhos cerra /no desalmado instante da entrega. /Cerrai-vos, olhos meus, antes que cega /vos cegue a lucidez que nos faz guerra.».

Por isso, o sujeito poético perscruta e mergulha no Caleidoscópio que é o «Tu e o Mundo», em jogos de fluidos – saliva, suor, lágrimas, esperma –, consequência do tumulto dos corpos incendiados dos amantes, como «Dois unidos archotes a galope». O corpo do desejo surge descrito sugestivamente: como uma tenacíssima tenaz; membros como arbustos; o bosque da púbis; cordas de nervos; teias de veias; o som do alaúde nos toques dos dedos; como vários conjuntos de dois hemisférios de um vasto império ingovernável: os seios, as pálpebras, os joelhos, as nádegas, e as duas metades da alma, «uma de tudo, outra de nada».

Em «Do Tempo ao Coração» (1962-1966), David apresenta o amor cativo do fogo – «sempre esse frio sórdido, a seguir /ao fogo em que nos qu´remos consumir» –, e do mistério indecifrável da pele: «Quem foi que à tua pele conferiu esse papel /de mais que tua pele ser pele da minha pele». Porém, se o amor aprisiona, ele só pode ser vivido em liberdade: «Quis a tua nudez Não quis que te despisses».

O Jogo do amor é, ainda, feito de fluxos e conluios – com a «Sede do desejo», «seda da pele», dos «pés ao ventre/das ancas à nuca /ouve-se a torrente /de um rio confuso» –, onde tudo se troca e «investe-se a perda e o ganho em futuras empresas de segredo» e onde se aprende que «o não-ser pelo ser se troca». Também Jogo de espelhos, entre os protagonistas do enredo poético e o leitor convocado para a apoteose sensorial. Em «O Corpo Iluminado» (1987), um considerável conjunto de poemas explana a apoteose do prazer, com o ritmo do acto sexual urdido na poesia é acompanhado pela cadência fónica das palavras escolhidas: «é nesse ponto /de tuas coxas /que o meu pescoço /implora a forca /…/agreste gosto /de húmida polpa /o que dissolvo /dentro da boca /Eis num renovo /mágica força /Rei me coroo /em tuas coxas»; «És quando estás de joelhos /que és toda bicho da terra /…/se de joelhos me entregas /sempre que estás de joelhos /todos os frutos da Terra».

Se o corpo é apoteose de Tudo, também é o arquitecto do Nada, é o sentido e o sem-sentido, é a luz e a sombra, é, em suma, a força de equilíbrios e desequilíbrios: «Nada garante que tu existas /Não acredito que tu existas /Só necessito que tu existas»; «É de ti que me escondo /Em ti é que me firmo /Antes de já se ontem /sentir que estamos vivos».

Afinal, como diz o poeta, «Nós temos cinco sentidos: /são dois pares e meio de asas. /- Como quereis o equilíbrio?».

Música de Cama, David Mourão-Ferreira; Editorial Presença; Lx, 2ªedição, Outubro de 1996



(to Artur)


© Teresa Sá Couto

«Emendar a Morte, Pactos em Literatura»

Como vive a literatura «a nossa forma de morrer»? Ela é capaz de “enganar” a morte pela sua emenda, oferecendo-nos a correcção de vida? Que pactos e emendas nos dá ela? Afinal, não é a literatura um lugar de relações que o indivíduo estabelece consigo mesmo, com os outros e com o mundo, um lugar de diálogo com as formas de viver, de morrer e como morrer, onde se criam pactos e emendas para os limites da condição humana?

Interceptar pactos, segui-los, questioná-los, inquirir-lhes os jogos, as premissas, as tensões e as metáforas é a proposta do Ensaio «Emendar a Morte – Pactos em literatura» assinado pela escritora e professora universitária Helena Carvalhão Buescu. Com o título emprestado de palavras de Luiza Neto Jorge, «Emendar a Morte» é um magnífico projecto de grande fôlego, que se ancora na diversidade dos pactos, «ensaiando olhar para o literário como um dos modos maiores da discursividade pelos quais a humanidade-enquanto-relação (e por isso pacto) é pensada», refere a ensaísta. São 308 páginas que compreendem três grandes partes, por sua vez organizadas de forma minudente em capítulos.

A proposta é irrecusável, e assim anunciada: «O que queremos dizer quando dizemos que "emendamos um vestido", ou que "emendamos um erro" (não morremos todos por engano, no fim de contas? Sempre pelo menos um pouco por engano?): "emendar a morte" significa que é precisamente através da múltipla plasticidade dos nossos gestos humanos que nos podemos pensar como dirigidos a uma morte que entretanto nunca deixamos que dissolva aquilo que em nós responde, aquilo que em nós a entende como intolerável.» Assim, acrescenta-se: «os pactos em literatura propostos neste volume representam alguns dos modos em que essa emenda ou correcção se pode verter: os pactos que estabelecemos são outras tantas formas de responder à morte, de a situar no terreno do pensável, ela que não pode ser pensada por dentro.».

Na primeira parte, detendo-se na problemática do cânone e no estatuto da literatura, a ensaísta convoca diversos autores, para argumentar que a literatura emenda a sua própria morte, enfrentando a era tecnológica, pós-industrial, com a capacidade de se transformar para poder sempre falar-nos, sendo as obras o resultado da «errância colectiva da imaginação humana criadora em permanência de novas configurações porque inventora», no dizer de Eduardo Lourenço. A negociação do literário será, pois, o pacto que a literatura estabelece com a sua própria morte ou, ainda, como escreveu Calvino: «a função da literatura varia de acordo com a situação. Durante longos períodos de tempo a literatura parece trabalhar no sentido da consagração, da confirmação de valores, da aceitação da autoridade. Mas em determinado momento, alguma coisa é despoletada no mecanismo, e a literatura faz nascer um movimento na direcção oposta, recusando ver coisas e dizer coisas da forma como tinham sido até aí vistas e ditas.».

Na segunda e terceira partes, a autora segue os pactos em literatura, inquirindo textos de autores tão diversos como Proust, Dostoiévski, Lobo Antunes, Saramago, Stendhal, Garrett, Lídia Jorge ou Coetzee, procura-lhes «rastos, ecos e sombras», intercepta «ligações perigosas» entre autores, como Stendhal e Garrett, Pessoa e Mallarmé, Dostoiévski e Vergílio Ferreira ou Saramago e Dostoiévski. Texto após texto, um tapete infinito e complexo que, soberano, este Ensaio desenrola. São papéis e encenações do humano na literatura, mostruário do que acontece e do que pode não ter acontecido, jogo jogado entre a consciência e a premência de atentar no real, a escrita enquanto engendramento antropológico, social e político. Um complexo engendramento que se encontra, fulgurantemente, no discurso vergiliano, assim apresentado por Helena Carvalhão Buescu:

«se é certo que nele a intensidade de uma voz pessoal se faz sempre sentir, não é entretanto menos visível que essa voz não coincide com os estritos (e estreitos) limites daquilo que usualmente consideramos como “o indivíduo”. Este indivíduo é sobretudo, para Vergílio Ferreira (aqui uma vez mais com Dostoiévski), o lugar onde repercutem as várias vozes do mundo: passados e presentes; classes e pertenças diferenciadas; realidades vividas e outras tantas imaginadas, ou temidas; géneros de identidade sexual que se falam; memórias e futuros que se encontram nodularmente no momento intenso do presente; idades do homem para quem o passado nunca está encerrado e para quem o futuro faz parte do agora – todos estes discursos entretecem e em última análise produzem o discurso individual, nele fazendo cristalizar os múltiplos e mutáveis pactos pelos quais tecem a sua vida.».


Emendar a Morte – Pactos em literatura, Helena Carvalhão Buescu; Editorial Campo das Letras, Porto 2008


nota: Helena Carvalhão Buescu editou em 2007 o livro de poesia Ardem as Trevas e Outros Lugares, que aconselho vivamente


© Teresa Sá Couto

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Os fios da poesia de Ana Luísa Amaral

Dar a voz ao poema. Deixar que ele encontre o papel. O verso molda-se «até onde se quer». Ele pode ser «tanto montanha como campo lavrado ou montra da cidade». Mas ele é sempre corpo, braços, cabeça, coração. O verso é isso tudo num amplexo humano ao mundo: «A agonia do espaço, a tortura do tempo,/ e assim, a luta: /longa necessidade, /em sobressalto: /a alma». Isto diz-nos Ana Luísa Amaral, nome grande da actual poesia portuguesa.

Depois de «A Génese do Amor», livro de 2005 com o qual venceu o Prémio Correntes d’Escritas 2007, a autora traz-nos «Entre dois rios e outras noites», Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE) 2008, para mostrar com que fios se tece a linguagem do silêncio, qual a matéria da poesia e que halo o liberta e lhe dá forma.

Radicada na memória, a poesia de Ana Luísa Amaral tem a originalidade de rasgar esse tempo, pois a poesia vive de «desconjunções» e do avesso, precisa de uma urgência, «o olhar que fala, fala de um ponto outro»: «As linhas todas tortas outra vez, /e a meia muito em seda e muito preta, / espreitando da gaveta, /enovelada e do avesso /em verso».
«Teia de espelhos», jogo entre «dois rios e outras noites», o poema é, então, o resultado do acaso: «Que mística haverá /neste colocar versos, uns sobre os /outros, peças de jogar, pirâmides / de plástico ou madeira, /os faraós ausentes? //Convoco o sol, que é meu, /mas não aquece / E sou quase completa nessa /imperfeição».

Nas «outras noites» para muitos encontros da alma com a palavra, surgem poemas como este «à distância do céu»:

Horror é conhecer

O fundo do abismo
ou da muralha
saber até à precisão mais certa
as unhas de distância
para o céu

Horror é conhecer

O vento mais macio
a bandeira mais clara
a que anuncia
mas sem dentes nem
mãos

Horror é conhecer:
tudo o resto se cura
com a vida

Fortíssimo ao longo de todo o livro, o jogo entre a memória e a urgência do novo olhar irrompe assim no poema sobre a alma oval das pontes:
(…)
«Podem ser do que forem
as pontes de que falo,
que nada lhes retira a alma mais oval
como a do espelho
que tive há muito tempo.

III
Tive um espelho em criança
que me lembrava um rio,
me fez lembrar um rio,
as suas pontes.

Falei. Que o coração possa Sonhar –

Também, a ideia do poema como lugar dos sonhos, urdidores de histórias de utopia, acompanha este livro e está bem patente no longo e belíssimo poema «de sonhos e além: o guardador», em três andamentos, sobre um pastor estatutário que desejou um dia «além de guardar sonhos, /gravar uma paisagem», e «gravou-a num sonho, /que, um dia, tresmalhado, /o encontrou». Veja-se um extracto do final do poema:

(...)
E o pastor-estatuário,
que guardara e gravara o que de mais ninguém,
viu como o aguardava tudo, ou quase:
os mais perfeitos prados,
o absoluto e recortado amor,
em sonho: o mais tangível.
E aquilo que os seus olhos contemplavam
não tinha jeito ou modo
em tempo algum

E desejar
era maior que tudo
– o mais vivo navio
para a viagem

Entre dois rios e outras noites, Ana Luísa Amaral; Editorial Campo das Letras, Porto, 2007

© Teresa Sá Couto