(dedicado a todos os poetas)
quarta-feira, 18 de março de 2009
Dia Mundial da Poesia
(dedicado a todos os poetas)
sábado, 14 de março de 2009
A Nação dos Chefes e dos Auxiliares
No dia que se seguiu às eleições, o senhor kraus, que escrevia crónicas num jornal, apontou no seu caderno: «No contacto com a população mais simples, alguns políticos dão beijos na cara como quem do cais diz adeus ao barco que parte para nunca mais voltar». terça-feira, 10 de março de 2009
Recados de amor - poesia de Fernando Rente
«Quando um homem /abraça alguém /com a pureza de uma ave /de um peixe de uma flor /inventa /o ouro do mar /o abrigo do céu». Assim escreve Fernando Rente, em Amor do Mar e Outros Poemas (2004-2005), cantos distantes, «onde o mar e a terra pernoitam», donde tudo principia, onde tudo regressa e tudo se explica.São palavras de «espuma e recados dos peixes», na garupa do vento que desvela o enredo amoroso; é a indizível sensualidade de uma poesia decantada, fugaz e perene, suave e intensa, de toque, aromas e segredos ciciados ao ouvido:
das tentações das areias e do mar
esperam o peito das gaivotas
esse rumor é a tua presença
e o voltar aos nossos dias
desfolha-nos em abraços
o sentir da tua vinda
alertou-me
embalando meu corpo
até que tua noite me tocou
***
Conhecemo-nos pelos teus olhos
o amor nasceu
com um sorriso
unimos as mãos
o rosto o flanco
não tínhamos um lar
não tínhamos um leito
o meu abraço
cobriu-te os ombros
quando nasceu a manhã
encontrou-nos nas ruas
cansados
mas felizes
***
Ouvir sem ver
solidão triste
querer e não ter
água que não
se bebe nem abraça
ensinar com o tempo
as mãos desenhar
teus lábios soletrando
letra a letra
o fogo de seu ser
***
Conheci o amor
que não existe
fiquei triste
dias longos
terras desconhecidas
só o sonho ama
o que existe
***
Quando partires irás
* * *
O fogo do cimo
os rochedos têm fome
do abraço das tuas águas
de espuma e recados dos peixes
com algas de areia
teci uma rede
para amar os seres marinhos
nós dois neste mundo
mentido amamos
a liberdade dos homens
***
Contigo vivi
junto ao mar
na casa da água
da última das ondas
descámos com as gotas
até à profundidade das tuas
montanhas submarinas
nesse leito de água
concebemos um filho
que nunca tivemos
***
O amor que tive
Erguendo-se pelo mar
Como o voo de pássaro
a ti me levou
Pernoitámos
os olhos fixaram-se
os lábios tocaram-se
e fugimos
um do outro
domingo, 8 de março de 2009
Natália Correia, uma força superior
Incontornável: falar de Natália Correia é entrar em revoada. Mulher de voz diversa, rebelde e intelectualmente avassaladora, de «Espáduas brancas palpitantes:/ asas no exílio dum corpo», «Por vezes fêmea. Por vezes monja./Conforme a noite. Conforme o dia», cumpriu-se na palavra e pela palavra, estendida em poesia, romance, teatro, ensaio, memórias, relatos de viagem, registando sempre a peculiar forma de viver, indignada e insubmissa. Natália Correia, Contos Inéditos e crónicas de viagem; Editora Parceria A.M.Pereira, Lisboa 2005
© Teresa Sá Couto
sábado, 7 de março de 2009
Saudades de Egito Gonçalves
Dizia Egito Gonçalves que os poetas «têm um sonho, todos/ se esforçam por valer o pão/ que amassam». Sabemos nós que as penas da criação têm de lutar também contra as penas do olvido. E tão esquecido tem andado o poeta que escrevia sobre o presente, raspando o real quotidiano até atingir «o cerne emparedado», esculpindo no cerne das nossas emoções a memória e a saudade.têm o sono de um cavalo selvagem,
logo voam como flamingos. Deles
falo com cuidado; expurgo o insuportável
para a pele do leitor, os espinhos
que as picadas dos insectos segregam,
os dentes que se revelam flores carnívoras;
arcas inesgotáveis, caligrafia de sombras
que reservam a luz. Lanço ao Douro objectos,
memorias, desejos que não passaram
os limites. O mar devolve tudo: abro
as arcas; salgadas, as coisas ganham
novo aspecto; o caleidoscópio alerta
dias, estações, luzes, negativos.
As coisas parecem agora ser poemas
tocados por um pássaro: no seu bico,
uma haste do tempo reverdece.
sexta-feira, 6 de março de 2009
Lisboa entre memória e realidade
O poeta Joaquim Pessoa, cativo de Lisboa, escreveu: «Em Lisboa a gente morre sem idade. /Devagar. Como se faz uma canção. /E há um pássaro que voa. É a saudade. /E uma janela aberta. O coração.». Também Fernando Pessoa, o poeta que tinha a cidade no sangue, nela se desapoquenta, escrevendo «como quem respira melhor sem que a doença haja passado».domingo, 1 de março de 2009
Rui Herbon lança novo Romance
O Romper das Ondas é o novo romance de Rui Herbon, que será lançado no próximo dia 02 de Março, às 18 horas, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha, estando a apresentação pública a cargo da escritora Lídia Jorge.sábado, 28 de fevereiro de 2009
A Arte maior de Nikias Skapinakis

pontuais, a tragédia veio depois e não terá ainda terminado. Mas eu tinha como ponto de honra não perder a alegria de viver, isto é, não consentir que ma roubassem.». José Gomes Ferreira resume talvez isso quando escreveu sobre mim: “amava os sabores do sistema e era anti-fascista”», disse Nikias em comentário a uma série de retratos da série melancólica, onde se inclui o «Tertúlia», de 1960 (na imagem à esquerda).Se o pintor soube retratar como poucos esses sinais sociológicos caracteristicamente portugueses, a sua pintura assinala-se pelo constante movimento, numa estimulante invenção e reinvenção que o levou à procura de «um cada vez mais nítido domínio da cor», a penetrar noutras dimensões da linguagem e exploração cromática. Uma pintura não abstracta, mas sim metafísica cujo diálogo se encontra neste livro de partilha e que é, também, uma homenagem à Cultura Portuguesa.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
As Mulheres na pintura de Isabel Botelho
«São altas essas roseiras de mulheres, / inclinadas como sinos, como violinos, dentro / do som», escreveu Herberto Hélder em versos que nos ecoam fortíssimos quando nos detemos nas novas pinturas de Isabel Contreras Botelho.
Para ver ao vivo e conferir o afago que nos chega pelo olhar, para se disseminar por todos os sentidos....
Jorge Pinheiro - Pintura de silêncio e luz
Não é esquecida, tampouco tardia, esta oferenda com nome Jorge Pinheiro! O deslumbramento não se olvida nem tem um tempo para acontecer. Sabe-o João Miguel Fernandes Jorge, autor dos textos que acompanham as fotografias de telas daquele pintor. Sabe-o a editora Campo das Letras que, em colaboração com a Galeria Palmira Suso, editou o esplendor em livro. É este, dos vários livros que nos trazem Jorge Pinheiro para nossas casas, que chamo à atenção. A capa dúctil e discreta guarda, convidativa, uma grande viagem: a dos sentidos desassossegados por dezasseis telas de pureza policroma, metaforização e teatralidade composicional. - Senhor, tenho dois filhos. Qual deles devo levar comigo?
- O teu único filho.
-Senhor, cada um é o filho único de sua mãe.
- Leva o filho que tu amas.
- Senhor, amo os dois.
-Leva o filho a que tens mais amor.
- Senhor, o que devo fazer na terra de Moriá?
-Oferece um holocausto no meu altar.
Nas telas, as personagens «movem-se entre um grito de terror e o sacrifício». Nem falta o holocausto no altar de pedra, nem o grito da mulher e mãe que ressoa num infinito sofrimento – à maneira de O Grito de Munch –, a evocar e a convocar toda a humanidade. E o silêncio está lá, denso na tragédia, estridente na denúncia da ruína humana, instigando à reflexão: «Qualquer morte é um sacrifício, um drama que desce sobre a pedra do sacrifício.».
Palcos onde se encena o grande jogo da vida construído alegoricamente: eis as telas de Jorge Pinheiro. Palcos onde se representa o ser humano, andarilho, Charlot, «The Tramp», o niilismo, mas também a esperança. «Jorge Pinheiro: um pintor, um signo. Na procura de uma verdade pictórica, o pintor deixa percorrer a sua obra de uma luz que ’incendeia’, com uma arqueologia nostálgica e com a fragilidade de uma existência longínqua, ícones, índices e símbolos», escreve João Miguel Fernandes Jorge sobre a pintura de Jorge Pinheiro.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
ZECA AFONSO - NOME DE LIBERDADE
Quando passam 22 anos da morte de Zeca Afonso, recupero um texto que elaborei sobre o magnífico livro infantil Zeca Afonso – O andarilho da voz de ouro de José Jorge Letria, com ilustrações de Evelina Oliveira. É esta a minha humilde homenagem. Se Zeca foi a voz de ouro, sinónimo de riqueza humana e trigo do futuro, este livro dedicado ao grão do trigo novo é o instrumento que faltava para se passar esse testemunho às nossas crianças. Por isso, e já, Que é já tempo /D’embalar a trouxa /E zarpar em direcção ao futuro, Venham mais cinco e tragam outros amigos também para que se obtenha uma seara robusta.
Surgia naturalmente a definição de Cantor político. «Os vampiros querem calar a voz que os desmascara e condena. Mas o cantor não se cala. E já não está só. Estão com ele Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire ou Francisco Fanhais, entre muitos outros. Na página 36 irrompe a narração contígua à ilustração do último concerto de Zeca em Lisboa, em 1983, no Coliseu dos Recreios, uma fremente catarse, ainda hoje sem explicação racional. quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Sociedade secreta de Vila-Matas, em Lisboa
O escritor catalão Enrique Vila-Matas vai estar em Lisboa, no Centro Cultural de Belém (CCB) no próximo fim-de-semana, no ensejo da estreia da peça de teatro “Sentido Portátil”, uma adaptação do seu magnífico "história abreviada da literatura portátil". O acontecimento é imperdível. Ver aqui informações, acedendo a "sentido portátil".
Viagem à insólita psicologia dos criadoresDesta vez “desmantela-se” a conspiração shandy ou sociedade secreta dos portáteis, fundada em 1924 onde conjuraram escritores de renome da literatura universal, como García Lorca ou Scott Fitzerald. Com todos, por acontecimentos bizarros e hilariantes, o leitor viaja à psicologia dos criadores, que jamais verá da mesma maneira: este portento de Vila-Matas, como o próprio diz, permite-nos conhecer «os que tornaram possível que hoje se possa desmascarar com mais facilidade do que nunca todos os que, como disse Hermann Broch, “não é que sejam maus escritores, mas sim delinquentes».
Esta "História Abreviada da Literatura Portátil" foi publicada pela primeira vez em 1985 e é uma obra emblemática de Enrique Vila-Matas, traduzida em inúmeras línguas e, «transpondo as páginas do livro, originou diversas conspirações na vida real» ou não fosse o seu conteúdo “abrasivo”. A conjura shandy – que significa alegre, volúvel e maluco –, cuja característica era a de conspirar por conspirar, foi o «elo de união dos que formaram uma sociedade secreta sem precedentes na história da arte». Fundada na foz do rio Níger, foi dissolvida três anos depois, na sequência de um escândalo em Sevilha.Dela fizeram parte, entre muitos outros, García Lorca, Scott Fitzerald, Marcel Duchamp, Walter Benjamin, César Vallejo, Rita Malú, Valery Larbaud, Berta Bocado, Alberto Savinio e Georgia O’Keefe.
Pela mão de um narrador-investigador daquela sociedade secreta, mergulha-se na «história abreviada ou avariada» de escritores com atracção pelo minimalismo e defensores da «apoteose dos pesos ligeiros na história da literatura» e segue-se-lhes o rumo por vários pontos do mundo, «peregrinos medievais para quem o essencial era a viagem» e terem histórias para contar.
Para se ser shandy, e assim ser-se admitido na sociedade secreta, havia requisitos a cumprir: exigia-se um alto grau de loucura, ter uma obra que não fosse pesada e coubesse numa caixa-mala – para se cumprir o gosto de viajar com uma maleta que continha toda a obra –, «ter espírito inovador, sexualidade extrema, ausência de grandes propósitos, nomadismo infatigável, tensa convivência com a figura do duplo, simpatia pela negritude, o culto da arte e da insolência». Todos requisitos para a concentração na criação artística e apologias do desconcerto, «como fonte inesgotável de novas e estimulantes sensações».
Loucura, criação, fraude e magnetismo
Porque a solidão é necessária para criar, todos odiavam crianças, elucidado na história de Walter de la Maré que, «na sangria da vontade, da independência, da liberdade de concentrar-se no trabalho», chegou a atirar o filho pela janela. Em busca do retiro amigo da actividade criadora, muitos shandys resolveram fazer uma viagem imóvel ao fundo do mar, refugiando-se durante algum tempo dentro dum submarino ancorado no fundo das águas do porto de Dinard, na Bretanha, uma antiguidade bélica da primeira guerra mundial. Uma Nave de loucos, onde se libertava a excitação, o fumo e o álcool, que «evocava a bíblica Arca de Noé, tão parecida com o submarino, pois nunca como nesta ocasião houve tanta variedade de feras portáteis reunidas».
O escrúpulo em relação ao pormenor era justificado por só as coisas mínimas permitirem viver intensamente. Por outro lado, «miniaturizar é tornar portátil, e esta é a forma ideal de possuir coisas para um vagabundo ou exilado». Mas miniaturizar é também ocultar, daí o fascínio dos shandys por tudo o que exigisse ser decifrado: emblemas, manuscritos, anagramas. E assim seguiam, com a sua caligrafia microscópica, enigmática, volúvel e maluca, «coleccionadores carregados de coisas, quer dizer, de paixões».
Na “simpatia pela negritude”, refere-se Blaise Cendrars com a sua Antologia Negra que, baseada numa «intensa biografia», coligia histórias populares africanas, e propunha-se reproduzir «pela primeira vez na Europa contos que missionários e exploradores foram transmitindo oralmente». Concluiu-se que as estórias de Cendrars eram uma fraude, fabricadas pelo próprio, «apanhadas no ar» e construídas a seu belo prazer.
Por breves 107 páginas, o leitor segue magnetizado pela escrita indomável do autor catalão, que apresenta e polemiza o impensável, e que, veloz, só admite pausas na leitura para a interjeição do espanto, o sorriso que reage à ironia ou a reflexão proposta pela singularidade. E segue os encontros dos portáteis nas sextas-feiras, numa livraria, a polémica dos suicídios reais e literários - com a moda de suicídios por barbitúricos, numa «grande orgia de pastilhas», em quartos elegantes de hotéis europeus -, o “extravio” de alguns membros dos portáteis, por desistência, incompatibilidade ou morte, até à extinção da sociedade secreta heróica, em 1927.
História Abreviada da Literatura Portátil, Enrique vila-Matas; editorial Campo das Letras, Porto, Junho 2006
Nota: texto meu sobre Da Cidade Nervosa
© Teresa Sá Couto
Crónicas de Enrique Vila-Matas
Portugal “deliciosamente atrasado”
© Teresa Sá Couto
nota: este texto foi publicado no sítio da Orgia Literária em 20.06.2008
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
O erotismo de David Mourão-Ferreira
Jóia da poesia erótica portuguesa, a antologia poética «Música de Cama» de David Mourão-Ferreira – também título do último livro de poemas do autor (1993) – colige 100 poemas escritos ao longo de quarenta e cinco anos, acompanhados por dois desenhos em grafite de Francisco Simões.Os mistérios da pele
Afinal, como diz o poeta, «Nós temos cinco sentidos: /são dois pares e meio de asas. /- Como quereis o equilíbrio?».
(to Artur)
© Teresa Sá Couto
«Emendar a Morte, Pactos em Literatura»
Como vive a literatura «a nossa forma de morrer»? Ela é capaz de “enganar” a morte pela sua emenda, oferecendo-nos a correcção de vida? Que pactos e emendas nos dá ela? Afinal, não é a literatura um lugar de relações que o indivíduo estabelece consigo mesmo, com os outros e com o mundo, um lugar de diálogo com as formas de viver, de morrer e como morrer, onde se criam pactos e emendas para os limites da condição humana?«se é certo que nele a intensidade de uma voz pessoal se faz sempre sentir, não é entretanto menos visível que essa voz não coincide com os estritos (e estreitos) limites daquilo que usualmente consideramos como “o indivíduo”. Este indivíduo é sobretudo, para Vergílio Ferreira (aqui uma vez mais com Dostoiévski), o lugar onde repercutem as várias vozes do mundo: passados e presentes; classes e pertenças diferenciadas; realidades vividas e outras tantas imaginadas, ou temidas; géneros de identidade sexual que se falam; memórias e futuros que se encontram nodularmente no momento intenso do presente; idades do homem para quem o passado nunca está encerrado e para quem o futuro faz parte do agora – todos estes discursos entretecem e em última análise produzem o discurso individual, nele fazendo cristalizar os múltiplos e mutáveis pactos pelos quais tecem a sua vida.».
nota: Helena Carvalhão Buescu editou em 2007 o livro de poesia Ardem as Trevas e Outros Lugares, que aconselho vivamente
© Teresa Sá Couto
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Os fios da poesia de Ana Luísa Amaral
Dar a voz ao poema. Deixar que ele encontre o papel. O verso molda-se «até onde se quer». Ele pode ser «tanto montanha como campo lavrado ou montra da cidade». Mas ele é sempre corpo, braços, cabeça, coração. O verso é isso tudo num amplexo humano ao mundo: «A agonia do espaço, a tortura do tempo,/ e assim, a luta: /longa necessidade, /em sobressalto: /a alma». Isto diz-nos Ana Luísa Amaral, nome grande da actual poesia portuguesa. O fundo do abismo
ou da muralha
saber até à precisão mais certa
as unhas de distância
para o céu
Horror é conhecer
O vento mais macio
a bandeira mais clara
a que anuncia
mas sem dentes nem
mãos
Horror é conhecer:
tudo o resto se cura
com a vida
«Podem ser do que forem
as pontes de que falo,
que nada lhes retira a alma mais oval
como a do espelho
que tive há muito tempo.
III
Tive um espelho em criança
que me lembrava um rio,
me fez lembrar um rio,
as suas pontes.
Falei. Que o coração possa Sonhar –
E o pastor-estatuário,
que guardara e gravara o que de mais ninguém,
viu como o aguardava tudo, ou quase:
os mais perfeitos prados,
o absoluto e recortado amor,
em sonho: o mais tangível.
E aquilo que os seus olhos contemplavam
não tinha jeito ou modo
em tempo algum
E desejar
era maior que tudo
– o mais vivo navio
para a viagem



