Desde o início, revela-se a caminhada de busca da felicidade, de «Um palácio da Ventura» que concretize um sonho. O caminhar é, porém, inglório e só traz adversidade e desilusão: «Sonho que sou um cavaleiro andante. /Por desertos, por sóis, por noite escura, /Paladino do amor, busco anelante /O palácio encantado da Ventura! //Com grandes golpes bato à porta e brado: /Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…/Abri-vos, portas d´ouro, ante meus ais! / Abrem-se as portas d´ouro, com fragor…/Mas dentro encontro só, cheio de dor,/ Silêncio e escuridão – e nada mais!».
sábado, 18 de abril de 2009
Os 167 anos de Antero
Desde o início, revela-se a caminhada de busca da felicidade, de «Um palácio da Ventura» que concretize um sonho. O caminhar é, porém, inglório e só traz adversidade e desilusão: «Sonho que sou um cavaleiro andante. /Por desertos, por sóis, por noite escura, /Paladino do amor, busco anelante /O palácio encantado da Ventura! //Com grandes golpes bato à porta e brado: /Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…/Abri-vos, portas d´ouro, ante meus ais! / Abrem-se as portas d´ouro, com fragor…/Mas dentro encontro só, cheio de dor,/ Silêncio e escuridão – e nada mais!».
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Imperecível «Sedução» de José Marmelo e Silva
São raras as narrativas que resistem à poalha do tempo. Esculpida há 50 anos com fogo sobre a pedra, reeditada em 2007 pela Campo das Letras, Sedução de José Marmelo e Silva (1911-1991), comprova o seu imperecível fulgor. O seu autor, incompreendido no seu tempo, viria a ser condecorado em 1988 pelo presidente da República com o grau de Comendador da Ordem de Mérito. E é o mérito literário que nos avassala na leitura de cada página da sua escrita.
Considerada «Obra-prima», por Baptista Bastos, narração da «força do desejo», por Urbano Tavares Rodrigues, um «livro de combate, um livro indisciplinador», segundo José Saramago, «Sedução» define, descarnando, a obsessão sexual, alcançando, arrojada e ironicamente, a repressão de uma sociedade machista e hipocritamente asséptica. Deixarmo-nos seduzir pela obra de José Marmelo e Silva começando pelo seu título de estreia é permitirmo-nos o espanto e a felicidade desmedida de uma leitura excepcional.Eduardo, o magistral narrador da história, e Noémia são dois irmãos, ela mais velha dez anos, filhos de um homem com quem a mãe casara contra vontade e que morreu louco depois de delapidar o património da família. Noémia ficara solteira, consequência de ter sido abandonada pelo noivo, a mãe vivia numa «apatia quase santa, quase seráfica» e cabia a Noémia – que deixara a aldeia junto à Serra para exercer advocacia em Coimbra, e que, amiúde os visitava – os comandos económicos da família. Eduardo, o homem da casa, nunca aceitara este domínio feminino da irmã – tendo-o como «o jugo de Noémia» – que apresenta como sendo «mirrada, abstinente, horrivelmente feia», com «tíbias tortas, descarnadas» e «mesmo algum bigode…uma carcaça a andar».
Na sua «seriedade de homem», Eduardo tem o seu «mundo de raparigas meigas e bonitas»: «como Laide, Berta, Helena, Julinha, Leonor ou outras, – que eu sempre amei e continuo a amar de harmonia com seus dotes, visto que sou justo. A todas distribuo a minha ternura, a todas acaricio, se mo permitem, – de todas gosto humanamente. Hipócrita seria eu, se afirmasse que me sinto menos homem diante de qualquer uma, exclusive.». A Marta, que se queixa de serem as mulheres vítimas da falta de escrúpulos dos homens – jovem que acompanha Noémia numas férias à aldeia –, Eduardo responde: «Você não admite que o aperfeiçoamento humano precise… como direi? de quem se sacrifique?».
Confrontado por outro homem sobre a homossexualidade da irmã, que lhe diz que ela em Coimbra tem «as que quer» e que ainda lhe há-de roubar as que ele tem por mania de se gabar, sente repulsa pelo homem e ao mesmo tempo por si: «amarfanhado, mesquinho, despersonificado, encarnava aquela figura viscosa que pela manhã eu tinha surpreendido em mim, num desvão tenebroso».
Todavia, estropiado no seu machismo, com o sexo senhor dele, «carne mordida das mil fúrias açuladas», quis vingar a tirania de Noémia. Enlouquecido, revista o quarto da irmã à procura de explicações para o seu inexplicável desvario, que se soma à visão de um quadro lésbico, com a irmã rodeada pelas carícias das outras mulheres, as que foram suas, todas numa entrega fiel. Um quadro real ou fruto do seu delírio?
Comummente considerado o «libertador do amor», José Marmelo e Silva derruba, em apenas 158 páginas deste Sedução, todas as grades do desejo e dos preconceitos sexuais. Escrita no tempo das trevas moralistas do salazarismo, a obra continua a atingir mentalidades e condutas munidas com as respectivas máscaras da hipocrisia.
Sedução, José Marmelo e Silva, 7ª edição; Editorial Campo das Letras, Porto, 2007
Novo trabalho de Ondjaki e Rachel Caiano
Está nas livrarias, já na 2ª edição, o livro infantil O Leão e o Coelho Saltitão, com texto de Ondjaki e ilustrações de Rachel Caiano. O livro foi seleccionado para a exposição The White Ravens 2009, evento organizado anualmente pela Biblioteca Internacional da Juventude – Internationale Jugendbibliothek – (IJB), no âmbito da Feira do Livro Infantil de Bolonha. Este é o segundo ano consecutivo em que Rachel Caiano vê o seu trabalho reconhecido internacionalmente: o livro Os Dois Lados, com texto de Gonçalo M. Tavares, também editado pela Caminho, foi seleccionado para a exposição White Ravens 2008.A exposição dos «corvos brancos» — 250 livros infantis e juvenis em mais 30 línguas e provenientes de cerca de 50 países, seleccionados entre os milhares de livros que a biblioteca recebeu durante o ano passado — será apresentada no stand da IJB na Feira de Bolonha. É acompanhada por um catálogo em língua inglesa que contém informações bibliográficas e resenhas curtas dos títulos seleccionados. Uma magistral divulgação, pois, para este belo livro infantil que, de Portugal, cresce para o mundo.
terça-feira, 14 de abril de 2009
A lógica do esplendor - O Senhor Valéry de Gonçalo M. Tavares
É franzino, de baixa estatura, solitário, distraído, desconcertante, perfeccionista, inapto na sua lógica de Ser, mas metódico na aprendizagem. Eis o Senhor Valéry, o primeiro do Bairro dos Senhores criado por Gonçalo M. Tavares em 2002, com duas das suas 25 micro histórias, porém, desta vez, com nova roupagem ilustrativa de Rachel Caiano, e fica o leitor esmagado com a beleza desta reaparição.Era pequenino, «mas dava muitos saltos» e, por isso, explicava que era «igual às pessoas altas só que por menos tempo». Porém, «se as pessoas altas saltassem, ele nunca as alcançaria na vertical», e, persistente na sua aprendizagem, abandona o exercício e enceta novas experimentações: primeiro um banco, depois um banco com rodas e pensa até «congelar um salto». Porém, «nenhuma destas ideias era confortável ou possível, e por isso o Senhor Valéry decidiu ser alto na cabeça». Assim, «Concentrando-se, o Senhor Valéry conseguia mesmo ver a imagem do topo do cabelo de pessoas que eram bem mais altas que ele», mas com a visão de cima «tinha dificuldade em se lembrar da cara das pessoas com quem se cruzava» e, «com a altura, o Senhor Valéry perdeu amigos.».
Rachel Caiano, que já ilustrou os outros livros do Bairro dos Senhores, irrompe agora com esplendor (exemplos do interior dos dois livros na montagem), toma conta das páginas onde dançam as palavras mágicas e certeiras de Gonçalo M. Tavares.Desenvolvendo a Teoria de que o mundo tem dois lados, «o direito e o esquerdo», o Senhor Valéry põe em prática uma disciplinada e rigorosa metodologia: divide a sua casa em duas partes e «só tocava nas coisas que estavam à sua esquerda com a mão esquerda» e «nas coisas que estavam à sua direita com a mão direita» e, para nunca se enganar, no rigor de utilizar sempre «a mão certa», mesmo quando estivesse de costas, pintou «todo o lado esquerdo da casa, incluindo os seus objectos, de azul» e o outro lado de vermelho. Porém, para nunca se enganar, o Senhor Valéry tinha um outro grande truque: a mão esquerda pintada de azul e a mão direita de vermelho.
Os Dois Lados e Os Amigos, Gonçalo M. Tavares (texto), Rachel Caiano (ilustrações); Editorial Caminho, Lisboa, 2007
domingo, 12 de abril de 2009
Como espanar tristezas
(Texto editado no site Orgia Literária em 10 de Abril de 2009)Materiais Para Confecção De Um Espanador De Tristezas colige poemas narrativos e prosa poética com conversas que trazem «cócegas ao cosmos». São 86 páginas com uma magnífica síntese da navegação literária de Ondjaki pelo rio da infância, com elos ao anterior livro de poesia «Há Prendisajens com o Xão (O segredo húmido da lesma & outras descoisas)» de 2002, e consubstancia o diálogo com outras obras do autor, como o inultrapassável livro infantil «Ynari – a menina das cinco tranças» de 2004 ou a novela «O Assobiador» de 2002, ambos chamados a estas novíssimas páginas.
Este «é um livro que tem um jeito de apalpar a língua como quem apalpa o dorso de um rio. Ou tem um jeito de escrever as palavras da língua como quem rumoreja sussurros para não assustá-las», diz o escritor brasileiro Paulinho Assunção, no soberbo Posfácio. Acrescentamos: porque «há qualquer coisa de jangada na palavra rio», este é um livro sobre o sonho que corre no rio de antigamente, lugar de «verdades doces como mangas», do tempo em que «as pessoas emprestavam os pés às pombas / e elas roçavam os telhados /para cumprimentar as casas», casas onde circulavam «abelhas mansas» e os lagartos faziam parte da família, mas a família também fazia parte do lagarto. E se é certo que «o mundo, mesmo partilhado, /é muito a pele de cada qual», estas incursões de Ondjaki instigam-nos a escutar a pureza do vivenciado e trazer testemunhos de felicidade para a caminhada dos dias, como o próprio atesta.
Materiais e método dum poema
.
“Sujo de infâncias”, Ondjaki constrói a casa dos sonhos que se recusam a partir, e mostra-nos com que materiais se espanta a tristeza e a solidão: «dedos quietos que crescem /pele nua /brincadeiras como o amor /pêndulo solto de sonhos /lógicas sacudidas /olhar de só-assim /modos de chegar como sementes /manobras de artesão contra o ego /desafio do «eu» /nudez de pele /de mãos /e (sob os teus olhos) / invenção de um sólido espanador de tristezas.». Depois, define-se o método: pedir emprestada a gaguez da garça, ganhar o hábito «de gaguejar tardes» e desenhar tudo com a tinta das veias: a família, os amigos, as vozes, as brincadeiras, o sol, as nuvens, o vento, as aves azuis. Para tanto, há que estender o «luando», emprestar o corpo ao chão e adormecer num poema «ardilhado de simplicidade».
Assim se convoca a chuva, uma «chuva carente» que precisa ser acariciada, ainda que o poema lhe seja um «lar provisório»: «e a chuva aceitou ficar. /vive actualmente /na leitura [mesmo que desatenta] /de um poema. / o barulhar dessa chuva /é uma espécie de pequena mentira. / dizem que as crianças lhe conseguem escutar. / dizem que os gambozinos lhe pressentem / e nela, por vezes, / se deixam vislumbrar. / dizem.»; assim surgem manhãs iniciáticas, apalpadas a «partir do tom amarelo das ramelas», aonde se chega com tombo deslizando num «escorrega», os fios de tarde empanturrados «de brandura» e noites inundadas de estrelas: «se eu soubesse manejar a palavra etecetera pedia licença à/ noite /e terminava este poema assim: etestrelas…!».
Materiais Para Confecção De Um Espanador de Tristezas é uma celebração com «qualquer coisa de lágrima», anunciadora de saudade, fundadora de nostalgia, com qualquer coisa de tristeza. Cônscio, Ondjaki adverte: «há qualquer coisa de sapiência na palavra tristeza. e algumas tristezas não são de espanar – um dia posso descobrir que elas me fazem falta e ter que ir buscá-las …». Cabe à palavra a metamorfose, pois «uma construção pode bem ser o lado avesso de uma certa tristezura.». E o ofício de a erigir é-nos descrito assim, cristalinamente, por Ondjaki: «vou encher-me de silêncios e imitar as pedras. adormecer entre as pedras pode ser que me contagie delas. depois de conseguir ser pedra vou exercitar o sorriso dessa pedra que eu for. com esse sorriso vou iniciar uma construção…».
© Teresa Sá Couto
segunda-feira, 6 de abril de 2009
A magnífica Rota da Pimenta
O prometido é devido e reedito aqui o texto sobre o extraordinário Na Rota da Pimenta de Theresa M. Schedel de Castello Branco, do qual se falou menos do que merecia e que me trouxe o feliz contacto com a autora a quem envio um grande beijinho e os votos de rápidas edições de novas obras.Capitães, pilotos, nautas de vária sorte, com ou sem experiência de mar, fidalgos e cavaleiros – com os respectivos criados –, condestáveis de artilharia, bombardeiros, e «a gente» de que pouco se fala, que vinha de vilas e lugares de todo o país, e de diversos pontos da Europa: aventureiros e mercadores alemães, galegos, flamengos, gregos, italianos entre muitos outros. E tudo saltita na narrativa viva e célere que, assim, enreda o leitor convocando-o para os actos com que se aparelhavam as naus e as almas para a Grande Viagem em direcção ao cabo de todas as tormentas, mas também do sonho da Boa Esperança, aportando em terras de gente estranha e locais de riquezas inebriantes.
É desta aluvião de documentos, como diria ainda Marc Bloch, «deste carácter maravilhosamente desarmónico dos materiais» preservados com rigor, agora enriquecidos pela leitura original da autora, que se constrói a excelsa narrativa, colorida e, em muitíssimos passos, pintalgada de ironia, como aquele em se refere o propósito religioso do empreendimento indiano: «religião, comércio e descobrimentos encontravam-se intimamente ligados, mas a religião não esteve em primeiro lugar nem para o rei nem para os homens que o serviam. D. Manuel preocupava-se muito mais com os problemas do comércio português na Índia do que com a cristianização dos hindus.».
Nota: Theresa Shedel é conhecida do público português por diversas obras de cariz histórico. Refiram-se: Os Painéis de São Vicente de Fora – As Chaves do Mistério; Os Painéis de São Vicente de Fora – Investigação ou Adivinhação?; Os Primeiros Tempos dos Portugueses na Índia.
Na Rota da Pimenta, Theresa M. Schedel de Castello Branco; Editorial Presença; Lisboa 2006
A «Janela do (In)Finito» de Anselmo Borges
Sendo o Homem biologia e cultura, como se relaciona ele com a transcendência? Será a religião uma mera experiência espiritual para acalmar os nossos medos? Deus existe? O que é o Homem? Os nossos tempos exigem-nos optimismo ou pessimismo? O século XXI será religioso?Depois do «Deus para o Século XXI» (ver aqui), Anselmo Borges, Padre da Sociedade Missionária Portuguesa, e reputado colunista do Diário de Notícias sobre temas de religião, traz-nos 99 pequenos e iluminados textos, agrupados em 4 capítulos – «Do Transcender ao Transcendente», Religião e Religiões», «Religião e Sociedade» e «Morte e Esperança» – que foram publicados na imprensa, instigando-nos à reflexão sobre o fenómeno religioso e os seus caminhos na era da globalidade.
O Homem é inquietação e transcendência, porquanto carrega consigo a pergunta pela Ultimidade, que ele não domina, «a pergunta pelo sentido de todos os sentidos, portanto, a pergunta última», refere-se. Ora, defende-se, esta busca de sentido é tão «central na vida humana que a história da Humanidade não se compreende sem a história da consciência religiosa, não sendo de esperar o fim da religião e das religiões.». Detendo-se na «Esperança», enquanto motor da caminhada humana, diz-nos o texto:
«O homem, como o animal, não pode não esperar: vive orientado para o futuro e esperando o que ele projecta, isto é, a consecução de metas e objectivos concretos e também, quer se dê conta disso quer não, o que permanentemente transcende a obtenção desses projectos. A esperança tem, pois, dois modos complementares: a esperança do concreto (o hábito de confiar que os projectos parciais se irão realizando bem) e a esperança do fundamental (o hábito de confiar – a confiança não é certeza – em que a realização da existência pessoal será boa).
Esta esperança do fundamental é a “esperança genuína”, que assume também dois modos, que não se excluem: a esperança terrena e histórica e a esperança meta-terrena e trans-histórica. Esta é própria dos crentes numa religião que afirma confiadamente a vida para lá da morte em Deus.
Aí encontraria o Homem finalmente, como diz Santo Agostinho, aquela plenitude por que aspira na tensão constitutiva entre a sua radical finitude e a ânsia de Infinito: “o coração está inquieto enquanto não repousar em ti, ó Deus”. “Santa esperança!”, dizia Péguy».
«A crise tem, pois, uma dupla vertente. Há o perigo do fim do humanismo, na medida em que dissolve o Homem na natureza, na física, na bioquímica. Cada vez mais o homem é produto do homem. Por outro lado, a crise está à vista na falta de sentido, na vivência, do niilismo e do seu mal-estar. É assim que, por exemplo, a palavra de ordem é competir, concorrer. Mas ninguém nos diz para quê. Já não há as grandes finalidades humanas, pois tudo se reduz, segundo a razão instrumental, a meios para outros meios, sem fim. Agora, no quadro da globalização, o destino é mesmo concorrer pura e simplesmente, pois a alternativa é: concorrer ou morrer.
Terreno propício para fundamentalismos!».
© Teresa Sá Couto
domingo, 5 de abril de 2009
Albano Martins – A Sinfonia Poética
Há muito que o constamos, ainda que o facto se nos afigure um mistério quase insondável: o poeta português Albano Martins é mais reconhecido no grande Brasil do que nesta pequena aldeia, a sua pátria Lusa, que se agrega em torno das suas sempiternas elites. A provar que a Academia do outro lado do Atlântico é incansável na divulgação e partilha do fascínio pelo nosso autor, contamos com o Ensaio A Quintessência Musical da Poesia: Rodomel Rododendro, um poema sinfónico de Albano Martins do carioca Jorge Valentim, editado em 2007 pela atenta editora portuense, a Campo das Letras.«Trazíamos ainda nos ouvidos o canto acre e fausto das cigarras. Vinham com ele, amarrados, os bois, as noras, os carvalhos, e a voz rouca do cuco e da poupa, o aroma poroso dos rododendros. Porque é deles que falas onde quer que te dispas, te desnudes, desprevenido e inteiro. Da moldura partida e do retrato caído no degrau mais fundo das escadas. Sim, por mais que digas, falas sempre das abelhas, do mel adolescente escorrendo dos favos loucos da alegria. Da alegria perdida, reencontrada, perdida entre os escombros e as abjecções do real, mais falso e verdadeiro que todas as verdades aprendidas, que todos os dogmas e doutrinas acumuladas nos compêndios por onde te ensinaram a vida.»
sábado, 4 de abril de 2009
A singularidade poética de Albano Martins
Na sequência do meu texto Palavras escritas e ditas a vermelho, que desencadeou “pedidos de esclarecimento” sobre a obra do poeta Albano Martins, edito aqui alguns artigos que fui elaborando ao longo dos anos, esperando assim contribuir para um melhor entendimento de uma poética singular.Albano Martins encontra na natureza a chave da harmonia existencial. Associando a natureza à natureza da palavra, diz o poeta que «A verdadeira beleza /está no que o homem tem de semelhante /com a natureza.». Mais, aconselha o homem a aproximar-se dela para lhe apreender a perfeição: «Para saberes, ergue /um monumento, deixa /que as rolas façam /seu ninho no topo».
Paul Éluard escreveu: «combatíamos juntos o sono. /Dois sóis em nós se erguiam». A reciprocidade amorosa sobressai na temática do Amor em Albano Martins, com intimismo avassalador. A mulher amada surge como complemento de lugar onde o sujeito encontra a sua plenitude, carne e espírito: «Assim me deito /sobre a ternura /Este é o meu leito /e a minha lura». O pronome pessoal “Eu” dá lugar ao “Nós”, e o possessivo “Nosso” atesta a conjura amorosa: «Nenhum excesso /nos contém. Nenhuma /onda nos devolve.»; «O que em nós sobra /à maré pertence.»; «Basta uma flor, /basta uma asa /para saber que a primavera /entrou em nossa casa.». Juntos partilham uma margem – «Esta é a margem /do azul. Nenhum /outro limite / reconheço ao sangue» –, repleta de luz, emaranhados no erotismo.
Porque o homem faz-se também de memória, em Em tempo de memória (1974), o poeta enceta a «viagem das flores sem moldura», recupera o tempo branco, «sem cor e sem regresso». Não se julgue, porém, que este retorno ao passado é feito de passividade: não há imobilismo nesta poesia, mas reminiscências, cintilações, inclinações do corpo, uma oração até às mãos doridas e requiem aos «gestos perdidos /no espaço da memória».
Em Paralelo ao vento, (1979), caracterizam-se e questionam-se os «Anos plácidos, /fulvos, /que luz ainda perdura? /Que piano guarda /ainda uma nota /grave, /cintilante /e pura?». A demanda seguiria em Os Remos escaldantes (1983) onde «Há um melro que faz /o ninho» na memória: «Ouço-o /agora. Canta /a flor das giestas /e da cerejeira». Esses «dias enxutos» instigam, em O mesmo nome (1996), a «Rosa-dos-ventos» da infância, onde cabiam todos os lugares e todas as direcções. Reiterava-se, na poesia de excelência, o mel das «Lendárias e luminosas abelhas», a «Magnólia dos símbolos», a florida e «incandescente metáfora», o «Aveludado perfume», recorrências que palmilham e dinamizam todo o trabalho poético de Albano.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Palavras escritas e ditas a Vermelho
A vida é um «Compêndio» e, diz-nos Albano Martins, no livro Escrito a Vermelho, que Escrever /é isso: fazer /da vida uma pauta/ e um compêndio de espuma. «Melodia do Silêncio», a poesia do poeta beirão é um solfejo de veias que encontrou na excelência artística de António Pinho Vargas inspiração para Sete Canções de Albano Martins para canto e piano, editadas em CD no ano 2000, revividas no passado dia 27 de Março, na Casa-Museu Teixeira Lopes, em Gaia, interpretadas pelo barítono António Salgado.perguntaste quem era.
Não se pergunta ao amor
que nome tem.
ou,
Nunca te disseram
que a aparência é só
o primeiro lance. Em todos
os jogos há sempre
uma carta escondida
ou,
Não te esqueças de,
ao sair,
deixar a porta
aberta. Podes
perder a chave
e não entrar.
Ou podem roubar-ta,
o que é pior.
Porque são numerosos
os ladrões do azul.
Regressar sem partir. Não são apenas
os relógios que se atrasam, às vezes
é o próprio tempo. E todos
os cuidados são
então necessários. Há sempre
um comboio que rola
a nosso lado sem luzes
e sem freios. E pode
faltar-nos o estribo ou já
não haver lugar
na carruagem da frente.
ou,
Falar do trigo e não dizer
Pertence-te /ser homem, afirmar /todos os dias que tens /um compromisso: ser claro /e brando como a luz /e, como ela, /necessário. E não deixar crescer à tua porta /ervas daninhas.
domingo, 29 de março de 2009
Carlos Paredes - O menino da guitarra encantada
Símbolo da Liberdade, o mês de Abril não poderia começar melhor. A abrir, logo dia 2, celebra-se o Dia Mundial do Livro Infantil. Associo-me às celebrações com a história do «menino que se apaixonou por uma guitarra», a mais bela homenagem a Carlos Paredes, quase a completarem-se 5 anos da sua morte.Mas como pode um pequeno livro de literatura infanto-juvenil ser a mais bela homenagem à lenda da guitarra portuguesa? Mostrando aos miúdos que a genialidade só pode ser consequência do amor; permitindo-lhes levar para o futuro o virtuosismo daquele que um dia disse: “Já me tem sucedido fazer as pessoas chorar enquanto eu toco... E eu não compreendia isto, mas depois percebi que é a sonoridade da guitarra, mais do que a música que se toca ou como se toca, que emociona as pessoas".
É escrito, com uma ternura infinita, por José Jorge Letria, que pretende eternizar a memória do amigo, escolhendo para isso os únicos interlocutores capazes de o fazer: as crianças. Para elas, a narrativa é encantada e certamente vão fazer muitas perguntas. Para nós é um revisitar comovente e, indubitavelmente, vamos gostar de lhes responder.A narrativa apresenta-nos Carlos Paredes desde a sua meninice, numa família que já conhecia os acordes da guitarra e da poesia. Com a oferta da primeira guitarra – “bisneta de outra vinda de Inglaterra dois séculos antes”, mas que falava português, com o som do Mondego e do Choupal” – começa a paixão da sua vida. Descobre-lhe os “Sons de oiro e trigo” e devota-lhe juras “de amor com a timidez dos grandes apaixonados”.
Segue-se a sua partida para Lisboa, aos nove anos de idade, para junto do “rio largo e muito azul”. Enquanto “os dedos cresceram, e os indomáveis sonhos”, o menino/homem observava a azáfama dos cacilheiros, os golfinhos, o “Voo circular das gaivotas". Cresciam a timidez, a humildade, a distracção e a delicadeza na mesma proporção do amor à sua guitarra. Só a ela, por ela e através dela se desvelava e comunicava com o mundo: “foi sempre com a bela guitarra que preferiu conversar e trocar promessas de fidelidade e eterna ternura. Amores assim não se explicam, porque talvez façam parte de um destino secreto que só as estrelas conhecem lá no fundo.”
Estão de parabéns os autores e a Editora Campo das Letras, que nos cederam estas doze cordas, estes doze pares de asas, mas estão sobretudo de parabéns todas as crianças que os tomem, porque com eles aprendem a voar. Obrigatório, pois, procurar-se este livro.
O Menino que se Apaixonou por uma Guitarra - Carlos Paredes, José Jorge Letria / Ilustrações de José Emídio, Campo das Letras, Porto, 2004
quarta-feira, 25 de março de 2009
As mãos que nos dá Manuel Gusmão
«Corta a minha mão e escreve com ela um poema que seja teu», escreveu o poeta Manuel Gusmão, no livro «Migrações do Fogo», livro que lhe deu o «Prémio Literário D. Diniz 2004». No ano passado, o poeta trouxe-nos «A Terceira Mão», a mão com que o leitor manufactura a sua alma, guiado por uma poesia única e enorme, que perscruta e rasga o caminho interior mais sombrio, poesia de ecos e labirintos humanos, que desvela o homem como «o migrante de si mesmo»: a mão «que te empurra / para território desconhecido e aquela / que te guia em terra de ninguém: no pavor /que abala a noite do teu corpo, /que abalado fora antes pela alegria».
Juntamente com esta recolha poética, e também com a chancela da Editorial Caminho, chamo a atenção para o «Poesia e Arte – A Arte da Poesia», livro de homenagem ao poeta, e que colige textos vários, entre entrevistas, poemas e ensaios, uma ajuda preciosa para se entender a poesia de Manuel Gusmão. O trabalho de antologia coube a Helena Carvalhão Buescu e Kelly Basílio, nomes reconhecidos pelo trabalho notável na organização de outros compêndios do género que tenho vindo a aconselhar, pela sua qualidade e valor inestimável para a cultura portuguesa. Entre os autores que colaboraram neste livro de homenagem ao poeta e ensaísta nascido em Évora em 1945, figuram Fernando Guerreiro, Fernando J. B. Martinho, Gastão Cruz, João Barrento, Joaquim Manuel Magalhães, Maria Andresen Sousa Tavares, Maria Velho da Costa, Nuno Júdice, Silvina Rodrigues Lopes, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Graça Moura e Vítor Aguiar e Silva. A Poesia da Inquietação Segundo o próprio autor, a sua poesia está repleta de «traços muito negros, no modo como são abordados o mundo e os afectos». Poesia negra, sombria, «intermitências da sombra e do coração», ignescente e inquietantemente verdadeira, assim patente em «Migrações do Fogo»: «Por terra muito antiga – e contudo chão recente / filha de um fogo que esfriou e a abriu nas águas, / andámos hoje»; «Depois atirados para um canto / desta ou da outra casa, há esses corpos que não / se entendem: repetem-se mas não se ajustam.»; «com o comando vais mudando as imagens / à espera que elas próprias te digam o que ali procuras. / No ecrã da insónia, as imagens são labaredas claras / deitando as sombras sobre a mesa do trabalho que / sonha o filme. O pesadelo bate com a noite nas janelas». Estas "Migrações" fazem-nos leitores do eco de um eco: o poema que «traz consigo a voz que ele próprio / escreveu: essa voz emprestada / que um dia te inventou para o amor: / a razão enquanto ardia, a única razão.». É do poeta o dom da palavra e do incentivo que rasga o caminho mais sombrio da alma. Cabe ao poeta a dor desse desbravar:«Sem outras qualidades que não a de se ter perdido / e a de perdendo-se continuar, o migrante dança.(…) Enquanto tu lês (...)Tu vês: o migrante beija a morte na boca.». A mão do mestre As mãos talham a memória. «As mãos lembram-se: recordam o coração». Com as mãos ligamo-nos ao mundo e reinventamo-lo, diz-nos Manuel Gusmão, enquanto nos ensina a perscrutar as sensações que elas recolhem, os gestos que elas executam, autobiografando as suas próprias mãos: Repetes, recapitulas, recuperas esse gesto antigo: O poema que troca de mão Já sobre «Migrações do Fogo», noutras ocasiões, referi que a poesia de Manuel Gusmão faz-se com gestos primordiais, «Por terra muito antiga – e contudo chão recente», convocando o leitor para o seu interior de vozes, corpos outros que desaguaram no corpo de agora, ecos e espelhos para encontrar o seu reflexo, a sua inquietação, e o poema troca de alma, troca de mão, sempre à procura do sítio para habitar: «Que podem os versos saber /desse sítio que o papel não chega para estancar.» «Quem lê é levado pela mão nesse “movimento” que os textos pedem», escreve Paula Morão no texto «A inquietante arte de escrever», compreendido no livro de Homenagem; «Entendemos agora que / quando cruelmente triunfamos / é fugaz o furor voraz dos músculos / e por isso terror e alegria, então / e hoje, nos trespassam», escreve, por sua vez Gastão Cruz, que também recolheu os ecos das palavras de Manuel Gusmão. «Onde está o mundo quando não / estamos a olhar?», qual a sua vibração, que nos enreda, fugazes e transitórios, na «arquitectura do mundo», no movimento infinito das coisas? O poeta que nos desafia dá-nos a hipótese da terceira mão, do desequilíbrio e do desassossego, mas também a do amparo, pela luz com que nos alumia: (…) Quando não estás a olhar é o mundo que te olha. Nunca saberás o que vê. Obscuramente imaginas que testemunhará por ti, mas ignoras de todo – e que importa? – onde, a que propósito e perante quem. Manuel Gusmão, Migrações do Fogo, Editorial Caminho, Lx 2004 Manuel Gusmão, A Terceira Mão ; Editorial Caminho, Lisboa, 2008 Poesia e Arte – A Arte da Poesia, Homenagem a Manuel Gusmão, vários autores; Editorial Caminho, Lisboa, 2008 © Teresa Sá Couto |
quarta-feira, 18 de março de 2009
Dia Mundial da Poesia
(dedicado a todos os poetas)
domingo, 15 de março de 2009
Dois Ensaios sobre Literatura
Matéria Poética de Maria João Reynaud e Considerações Incertas de Filomena Vasconcelos são mais dois magníficos Ensaios que a Campo das Letras fez chegar às livrarias. Sendo do domínio público que a editora está em processo de insolvência, é pois de ter muita atenção a estes – e a todos os livros que aqui tenho destacado da Campo das Letras – antes que desapareçam.sábado, 14 de março de 2009
A Nação dos Chefes e dos Auxiliares
No dia que se seguiu às eleições, o senhor kraus, que escrevia crónicas num jornal, apontou no seu caderno: «No contacto com a população mais simples, alguns políticos dão beijos na cara como quem do cais diz adeus ao barco que parte para nunca mais voltar». terça-feira, 10 de março de 2009
Recados de amor - poesia de Fernando Rente
«Quando um homem /abraça alguém /com a pureza de uma ave /de um peixe de uma flor /inventa /o ouro do mar /o abrigo do céu». Assim escreve Fernando Rente, em Amor do Mar e Outros Poemas (2004-2005), cantos distantes, «onde o mar e a terra pernoitam», donde tudo principia, onde tudo regressa e tudo se explica.São palavras de «espuma e recados dos peixes», na garupa do vento que desvela o enredo amoroso; é a indizível sensualidade de uma poesia decantada, fugaz e perene, suave e intensa, de toque, aromas e segredos ciciados ao ouvido:
das tentações das areias e do mar
esperam o peito das gaivotas
esse rumor é a tua presença
e o voltar aos nossos dias
desfolha-nos em abraços
o sentir da tua vinda
alertou-me
embalando meu corpo
até que tua noite me tocou
***
Conhecemo-nos pelos teus olhos
o amor nasceu
com um sorriso
unimos as mãos
o rosto o flanco
não tínhamos um lar
não tínhamos um leito
o meu abraço
cobriu-te os ombros
quando nasceu a manhã
encontrou-nos nas ruas
cansados
mas felizes
***
Ouvir sem ver
solidão triste
querer e não ter
água que não
se bebe nem abraça
ensinar com o tempo
as mãos desenhar
teus lábios soletrando
letra a letra
o fogo de seu ser
***
Conheci o amor
que não existe
fiquei triste
dias longos
terras desconhecidas
só o sonho ama
o que existe
***
Quando partires irás
* * *
O fogo do cimo
os rochedos têm fome
do abraço das tuas águas
de espuma e recados dos peixes
com algas de areia
teci uma rede
para amar os seres marinhos
nós dois neste mundo
mentido amamos
a liberdade dos homens
***
Contigo vivi
junto ao mar
na casa da água
da última das ondas
descámos com as gotas
até à profundidade das tuas
montanhas submarinas
nesse leito de água
concebemos um filho
que nunca tivemos
***
O amor que tive
Erguendo-se pelo mar
Como o voo de pássaro
a ti me levou
Pernoitámos
os olhos fixaram-se
os lábios tocaram-se
e fugimos
um do outro


