domingo, 21 de junho de 2009

Novidades Editoriais

História, literatura e actualidade: são estes os campos dos novíssimos lançamentos da Campo das Letras. Deixo, para já, estas breves notas.
Assinado pelo historiador António do Carmo Reis, chega-nos a «Nova História Universal». Trata-se de um compêndio de Nova História, porquanto é a «leitura do nosso tempo» sobre toda a História, sobre a «Vida da Humanidade no tempo e no espaço», desde 9000 – começo do Neolítico – até ao séc. XXI, ano de 2007. «A História é a escola do cidadão», disse Georges Duby; segundo o historiador, na introdução, este novíssimo título procura «o fio condutor da História – de toda a História que, sendo a de todas as Civilizações (cada qual com seu andamento e sua trajectória), é o drama de uma só Humanidade. Nesse esforço de síntese, procuramos saber quem somos – para assumir a nossa Cultura de cidadãos do Mundo».

Na capa de Margarida Baldaia, a ilustração «A primeira Viagem» de Cristóvão Colombo aludindo ao início da globalização, marca indelével da nossa Idade Contemporânea e reconhecimento de que a «História Continua». Para já, este documento de síntese da História, com escrita rigorosa, lesta e depurada, afigura-se imprescindível em qualquer lar e em qualquer escola.


No campo da literatura, contamos com «O Personagem na obra de José Marmelo e Silva». Um título saudado pelo seu carácter imprescindível, já que José Marmelo e Silva (1911-1991), incompreendido no seu tempo que, consequentemente, lhe ostracizou as letras, foi autor de uma obra fortíssima e inquietante, que está criticamente por explorar. Ver texto meu sobre uma obra do autor, AQUI.

São seis ensaios organizados por Arnaldo Saraiva que, segundo refere na nota introdutória, «permitem caracterizar bem a galeria de personagens das narrativas breves de Marmelo e Silva: personagens preferentemente jovens e preferentemente masculinos, geralmente em relação difícil ou traumatizante com personagens femininos”típicos” (a ingénua, a dissimulada, a puta); frustrantemente fixados em espaços limitados e limitantes, de que alguns fogem ou tentam fugir, como o da família, o do campo, o do internato ou o da caserna (e da Beira, da Madeira, de Coimbra, de Lisboa, de Aveiro, do Porto…); confrontados com valores, hipocrisias e preconceitos patriarcais, autoritários, religiosos ou sexuais, contra os quais podem inglória ou dramaticamente rebelar-se.».

A assinar os ensaios estão Maria de Fátima Marinho, na obra «Sedução»; Paula Morão, em «O Sonho e a Aventura»; João Camilo, em «Adolescente Agrilhoado»; Celina Siva, em «Anquilose»; Tânia Moreira, em «O Ser e o Ter»; Cristina Costa Vieira, em «Desnudez Uivante».


Na inquietação da actualidade, marca de um «planeta que não gira bem», temos o Ensaio «Planeta Sexo – Turismos sexuais, mercantilização e desumanização dos corpos», dito assim pelo autor, Frank Michel, antropólogo e professor universitário, com tradução de Vítor Dias:
«Metamorfose do capitalismo selvagem, o turismo sexual prospera sobre as ruínas das desilusões do “desenvolvimento” e do “progresso” e assemelha-se frequentemente a uma invasão do Sul pelo Norte. Ele permite aos ocidentais que, aqui ou ali, perderam a batalha da colonização, restabelecerem posições firmes nas suas antigas (e novas) possessões, com uma conquista em vista: a dos corpos.»

São duas grandes partes espraiadas por 214 páginas para, sem contemplações, se abordar o “mercado mundial” do turismo e sexo, para reflexões sobre «a crise de identidade sexual no Ocidente», a comercialização da mulher, o tráfico sexual no mundo – com «as crianças na tormenta» da dominação –, a «herança colonial nas mentes e nos corpos», «Africas», Marrocos, Cuba, «as raparigas de leste», o Sudueste Asiático e, na conclusão, o desassossego de uma pergunta: «A caminho de um turismo sexual de massas?».


© Teresa Sá Couto

Trilogia maynardiana

(clicar na imagem para aumentar)

Uma perversidade nunca vem só. Pois. E a Assírio&Alvim lança o cartaz/convite para anunciar a apresentação da Trilogia Maynardiana, no próximo dia 29 de Junho, na Fnac do Chiado, com outra imagem para nos baralhar a imaginação da figura de Peter Maynard.
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Lá estarei com o meu companheiro desta magnífica saga, o inextinguível José Xavier Ezequiel.
Estão todos convidados. Evidentemente.
Teresa Sá Couto

O meu texto da Apresentação, titulado Peter Maynard – Beretta e consciência,  editado n' A Phala

sábado, 20 de junho de 2009

O desaforo da escrita de José António Barreiros

Há um homem por detrás de um fragmento de vidro. Olha fixamente a realidade e, cansado de a ver, congemina o que fazer com ela. Pela acção do olhar fixo, o fragmento de vidro estilhaça-se em dezasseis fulgurantes luminescências de um caleidoscópio chamado Contos do Desaforo. O homem da singular urdidura é José António Barreiros e o livro que aqui referencio é de 2007 e é a sua estreia nas paisagens que «a imaginação escreve e a fantasia ilustra».

«Só escreve quem vê. Só vê quem afasta (e se afasta)», diz Gonçalo M. Tavares no prefácio, referindo-se ao método utilizado por José António Barreiros. E é esse jogo de movimentos de proximidade e afastamento da realidade que encontramos nas curtas narrativas que ousam xeque-mates de desaforo contra o lugar comum e a apatia. São dezasseis olhares insubmissos pintalgados de humor insuperável, para uma leitura imperdível.

«A única coisa de que preciso para ser feliz é de tempo. Muito tempo», lê-se no primeiro texto, distinto dos que se lhe seguem, pois é esculpido em jeito de justificação ao leitor sobre «a necessidade de contar». E são de tempo as narrativas, de tempo e dos arranques sem razão de que é feita a vida que é feita de tempo. Mas o que tem para nos contar o autor? Conta-nos que todos somos, num qualquer momento, intrusos no nosso lugar, que todos temos um armário, com mais ou menos gavetas, «imóvel e disponível» e uma vontade desmedida de desarrumar o mundo para, à nossa maneira, o podermos arrumar nas gavetas do nosso armário, assim aprisionando a realidade, fugaz e passageira, ou a ilusão dela.

«Um dia, o céu e a terra unir-se-ão numa cratera fatal. Até lá, eu escrevo isto, pensando na eternidade, como se nisso acreditasse», diz o autor e explica a «escrita obsessiva e simultaneamente necessária e inútil»: «Sem ela eu não teria um mundo que vivesse, devorado pela monotonia do óbvio, pela materialidade do evidente. E, no entanto, descontado um ou outro encantamento que isso provoque, nada mais volátil do que as palavras que aqui ficam, como um perfume que um momento de rua faz evanescer. No fundo, é uma escrita de nada, manuscrita em folhas de coisa nenhuma. Mas haverá mais substância no real do que esta, que não existe?»

Afastando-se da realidade para a apreender - «estar longe é isso mesmo, é verem-se apenas as grandes coisas» - José António Barreiros edifica o «sonho de uma casa de papel» e o leitor constrói a ilusão de nela se encontrar. É a luta com o tempo e a necessidade de se ser algo nele.

A semelhança com o real é mera ilusão

«Cruzo-me comigo em cada página, às vezes fingindo não me ver», diz o autor em nota introdutória, esclarecendo que escondeu «muito quotidiano, ficcionando-o, para parecer plausível». Munido de uma escrita elástica, capta acontecimentos correntes, personagens em trânsito, entre o ser alguma coisa e coisa nenhuma, aprisiona a fugacidade: «há, nos encontros fugazes, a força do desejo: neles se concentra a vontade de encontrar».

Também o leitor se cruza consigo ao encontrar-se com as personagens e com a ironia do olhar que capta a comédia humana:
«Fazem assim as famílias. Atestam os carros de malas e de miúdos, guardam zangas para a viagem e coisas fundamentais de que se esquecerão. Entre o parar para vomitar, que eles são pequenos, e para urinar, porque ela é velha, lá vão galgando quilómetros, para voltarem estafados de terem ido».

E lá está o encontro com a mulher que não consegue entender porque não pode deixar em testamento a parca reforma às suas galinhas, minudências afectivas incomportáveis num documento do Direito; com o professor de liceu que vem numa camioneta para Lisboa e regista a azáfama galhofeira de duas viajantes com o seu pacote de bolachas; com o réu silencioso que só nas alegações finais resolve discursar para mostrar que ao ouvir a convicção de quem o acusa convence-se do seu crime: «Se um homem se condena por não saber resistir à veemência dos que o acusam, se a verdade é a força da convicção com que é dita e proclamada, condenara-se.».

Reputado advogado criminalista, José António Barreiros saltou para o mediatismo da nossa aldeia por defender Vale e Azevedo, Pimenta Machado ou José Castelo Branco. Sobre a sua intervenção pela escrita de ficção, o autor diz num dos seus blogues que «se o editor o consentir e tiver leitores, comecei já um segundo volume». Aguarda-se. «Na representação cómica que é a vida», todos somos «arrumadores de almas», e esta escrita desafia-nos a arrumar as nossas gavetas ou a termos a ilusão disso, o que é a mesma coisa.


Outros blogues de José António Barreiros, aqui e aqui

Contos do desaforo, José antónio Barreiros; Editorial Presença, Lisboa 2007


© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 18 de junho de 2009

"Mulher e Arma com Guitarra Espanhola"

(clicar para aumentar)

Será esta a aparência de Peter Maynard, ele que se deu à perversidade de não possibilitar ao leitor nenhum indício do seu aspecto físico?

Eis, pois, outra perversidade da Assírio & Alvim, que hoje lança oficialmente o «Mulher e Arma com Guitarra Espanhola», último romance policial de Dennis McShade (Dinis Machado).
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"Dentro de momentos" estará aqui disponível o meu texto crítico da apresentação deste livro.
Ver textos dos anteriores na etiqueta Dennis McShade
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Teresa Sá Couto

terça-feira, 16 de junho de 2009

valter hugo mãe canta "governo"

Eis valter hugo mãe no caminho das palavras escritas para as palavras cantadas. O escritor integra o projecto "governo" (com antónio rafael, miguel pedro – ambos dos mão morta –, henrique fernandes – dos mécanosphère) e estreia-se como vocalista no tema «meio bicho e fogo», incluído na colectânea «novos talentos fnac 2009», agora à venda. Junto o vídeo oficial do projecto, que acabo de receber do valter. É uma belíssima animação de "esgar acelerado" (com desenhos de esgar acelerado e sara macedo).

Confiram, pois, e surpreendam-se:

GOVERNO - Meio Bicho e Fogo from 8 e Meio on Vimeo.

domingo, 14 de junho de 2009

Palavras de música e silêncio - poemas de Fernando Tordo

Não são cantigas que ele nos traz, mas é, e ainda, a música das palavras. «Quando não souberes copia» é o título do livro de estreia na poesia de Fernando Tordo.

Mas o que tem para nos dizer este homem de 60 anos e músico há mais de quarenta? O que registam as suas letras, agora cinzeladas no intimismo e no silêncio do poema? A sua poesia regista olhares e interpretações do mundo, marca do sentido global do homem. E, nas 86 páginas, poema após poema, o autor mostra que, se não se sabe contar o mundo, basta prestar atenção às próprias veias onde correm sentimentos e sensações, o medo e a esperança, o sonho e a perda: o rio interior de cada um é cópia do de todos, porque todo o homem é feito do mesmo barro.

Com o sentido da sua própria incompletude, o poeta parte no encalço de todos os homens para se construir a si, homem: «Aquele barco longe de mim/ e eu ainda mais longe de mim /por isso não sei da distância do barco até mim, a qual de mim. /Vejo-lhe o mastro, imagino-lhe o rasto, mas desconheço-lhe / o rumo. Ponho-lhe um dos de mim ao leme e com voz de bússola ordeno-lhe/ que procure outro. /Mas não me respondo /nem um nem outro /não nos conheço /e ao agarrar o leme que nos dei /afundo o barco /onde sem saber /estava o meu outro que só agora sei.».

Na procura humana, o poeta detém-se no mercado de Coyoane para lhe apreender as pessoas, a ambiência e os sentidos, como antes no mercado de Alvalade, porque «com sentidos, recordamos os /distintos rumos que atribuímos / à vida»; visita o café “El Pêndulo”, da Cidade do México, cheio de olhares de Frida Kahlo; observa a morte de Arafat e constata o mesmo silêncio: «Na Mukata ou no cemitério do Lumiar»; procura o sentido do medo em Ossétia, «no olhar daquele menino /que nunca mais encontrará o sentido /dos sentidos»; entra no comboio da sua condição, não sentado de frente para o destino, como lhe disseram, mas de costas: «teimo em dizer que vou acordado e quero saber /por qual diapasão afino /se bato de costas quando chegar /ou se esbarro de caras com o destino».

Numa escrita que se liberta do grilhão da rima, «até porque acordes não rima com liberta», assim segue a palavra solta pelos vários pontos do mundo, no rasto longínquo dos homens, ajustando contas com Deus, pedindo-lhe responsabilidades, mas, sobretudo, pedindo responsabilidades aos homens que banalizam a dor com que se constrói a indiferença. Neste sentido, esta poesia de Fernando Tordo envereda pela denúncia que desafia a uma mudança de comportamento, lembrando a que ele durante tantos anos interpretou nas suas cantigas. Correm, completos, dois desses poemas:

A linha do horizonte faz uma curva perigosa e está fora de
mão
A linha do horizonte, afinal, é um embuste linear e um
veículo mal conduzido
Quem lhe deu toda esta grandeza esqueceu-se de que lhe
estava a dar todo o poder. Ouviste, Deus?, é contigo.
Ou será que te enganaste e não percebeste que o horizonte
não é para ver de cima? Já não é a primeira vez que te
apanho em falso.
Repara nos homens.
Nas guerras.
Na fome.
Nos incêndios e nas cheias.
Queres pior?
Repara na mentira.
Queres um resumo? Repara em ti.
Já sei, já sei. Para estes casos, tu não és nenhuma entidade
superior, tu és dentro de cada um de nós.
Mas a multa do horizonte fora de mão, essa pagas tu.

****
Quantos achas que morreram no atentado desta manhã?
oito, 23?
e feridos graves?
71, quarenta e quatro? Nenhum?
Ao pequeno almoço, Manuel e Maria apostam via rádio.
Não jogam a dinheiro são pobres como a morte
apostam na morte a feijões para o jantar
à hora do pequeno almoço.
Amanhã, ligam a telefonia outra vez.
Quantos para hoje?
onze mortos e vinte e sete feridos, 18 graves, ou
cinco mortos e 39 feridos, nove graves?
O Iraque, a batota, a aposta. A sorte. O azar.
O mundo todo em jogo, Las Vegas todas as manhãs
da vida da Maria e do Manuel, surdos com as ondas
das bombas e da rádio.
Quando nos habituamos, apostamos a morte a feijões.
Quantos achas que são hoje?, quem perder faz o jantar.
Feijoada.



Quando não souberes copia, Fernando Tordo; editorial Campo das Letras; Porto, Maio 2007

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 11 de junho de 2009

O mundo nos seus pés - a excelência literária de Kapuscinski

Falar de Ryszard Kapuscinski é abrir a grande janela para o mundo, uma vastidão que ele traduziu numa magistral literatura de viagens. Falecido em Janeiro de 2007, com 74 anos, o jornalista e escritor da Bielorrússia deixou uma obra a ecoar pelos quatros cantos do globo, os mesmos que calcorreou para compreender a grande família humana, e dar-nos disso conta.

«Andanças com Heródoto» foi editado entre nós pouco depois da morte do autor, pela Editorial Campo das Letras, que tem a chancela de vários títulos de Kapuscinski. Com as Histórias do grego na bagagem, fica clara a síndrome incurável e contagiante da viagem: «a viagem nem começa no momento de iniciarmos a sua rota, nem termina ao chegarmos ao destino. Na realidade, começa muito antes e, praticamente, nunca acaba, porque a fita continua a rodar dentro de nós, mesmo se, fisicamente, não sairmos mais do lugar.».

Atente-se num «homem obcecado por uma ideia que não o quer deixar em paz. É vivaz, não consegue viver sem se mexer; anda sempre a mudar de sítio; onde aparece provoca inquietação e movimento!». Talvez Kapuscinski fale de Heródoto, que talvez fosse assim. Mas do homem que morreu há vinte e cinco séculos, e pioneiro na captura da globalização, pouco sabemos; sabemos porém que esta demanda inesgotável que se alimenta do próprio infinito é apanágio do repórter polaco, «atraído pelo além-fronteiras» de todos os mundos, sempre interessado em «novas pessoas, novos caminhos, novos céus», considerado um dos grandes mestres do jornalismo moderno, eleito em 1999 o melhor jornalista polaco do século XX, distinguido em 2003 com o Prémio Príncipe das Astúrias, e que presenciou 27 revoluções, viveu 12 frentes de guerra e foi 4 vezes condenado a ser fuzilado.

Escrever para existir

No presente título, Kapuscinski dá conta de viagens pela Índia, China, Ásia Menor e África, que fez com «a mala e o saco cheio de livros», entre eles o Histórias de Heródoto que o acompanha no caminhar e lhe possibilita fazer o diálogo entre os tempos, e que lhe foi dado pela sua redactora-chefe. Este último pormenor biográfico é o primeiro de vários que correm nas páginas do livro, o que o distingue dos outros títulos do autor. Como se quisesse mostrar-se ao leitor, confiar-lhe a alma do homem que conta as histórias que vê, que sente antes de ver e por ver, que enquadra a realidade abrindo-lhe novos horizontes.

Diz o autor que é na Índia que trava o seu primeiro «encontro com o desconhecido», e aprende a grande lição da humildade.
Depois do calor tórrido da Índia, ao chegar ao frio gélido da Polónia, Kapuscinski define-nos os sentidos da totalidade que se adquire no acto de viajar, como a junção de opostos dá plenitude aos seres humanos: «O mundo já não era monotonamente frio e nevado, mas duplicara-se, diferenciara-se: era, ao mesmo tempo, gelado e caloroso, branco de neve, mas também verde e florido.».

Com o mundo aberto «como um leque de temas», desata-se a escrita perscrutadora de espaços e formas de vida e tudo lido no comportamento dos povos, como no exemplo que se segue:

«O indiano é um ser descontraído, o chinês é atento e tenso. Uma multidão de indianos tem um aspecto disforme, enquanto uma multidão de chineses aparece em filas, disciplinada e caminhando ordenadamente. Sente-se que sobre a multidão de chineses há uma autoridade, um comandante, enquanto com a multidão de indianos está um areópago de infinitas divindades que não exigem absolutamente nada. Se uma multidão de indianos encontra algo interessante, pára e vai olhar e debater. Numa situação idêntica, uma multidão de chineses continua em marcha, firme, atenta às ordens (…)não tem tempo para festejar porque têm de cumprir directrizes de Mao ou de outro dirigente; em vez de venerar os deuses, pensam respeitar o protocolo e, pelos caminhos, em vez de peregrinos, desfilam brigadas de produção.».

E corre assim a escrita magistral, impressiva e impressionista:

De facto, ainda era noite fechada, quando as pessoas começaram a andar na direcção do rio. Alguns sozinhos, outros em grupo, clãs inteiros, colunas de peregrinos, inválidos com muletas, esqueletos de velhos levados às costas de jovens, outros simplesmente paralíticos, sofridos, rastejavam penosamente pelo asfalto gasto e esburacado. Juntamente com as pessoas, arrastavam-se vacas, cabras e manadas de cães magros e maláricos. Acabei por me juntar a esse estranho mistério.

E ainda, a descrição sinestésica e terrível, a ombrear com o Inferno de Dante:

Do outro lado do Rio Ganges, que aí é extenso e preguiçoso como um lago, há filas de fogueiras de lenha, onde ardem centenas, milhares de cadáveres. Quem estiver interessado pode, por algumas rupias, chegar ao bote até esse gigantesco crematório ao ar livre. Deambulam por aqui homens e rapazes meio nus, fuliginosos, que com paus enormes compõem as fogueiras. Trata-se de melhorar a circulação do ar para acelerar a queima, porque a fila dos cadáveres não tem fim e a espera é morosa. De vez em quando, esses coveiros empurram as cinzas, ainda com chamas, para o rio. Durante algum tempo o pó cinzento dança nas ondas, mas rapidamente desaparece no fundo do rio.
Diz-nos Kapuscinski que Heródoto «é um repórter de sangue puro», que toma notas do que «viu, aprendeu, ou simplesmente para não esquecer». Diz Saint-Exupéry que «Somos, uns para outros, peregrinos que, com pena, prosseguem caminhos diferentes para um encontro comum». Na síntese dos dois está Kapuscinski, o redactor e tradutor do mundo, que regista o tempo para fixar a memória, por saber que sem ela não se pode viver, que detrás do «não sabemos estende-se o território da ignorância, e ignorância quer dizer inexistência».

Andanças com Heródoto, Ryszard Kapuscinski, Editorial Campo das Letras, Porto, Abril 2007


© Teresa Sá Couto

nota: este é mais um livro em destaque na 79ª Feira do Livro do Porto

quarta-feira, 10 de junho de 2009

O país das maravilhas de Alice Vieira

Na vertigem da inovação que caracteriza as sociedades modernas, não deixa de ser surpreendente o sempiterno sucesso das narrativas populares. As crianças adoram-nas, os adultos rejubilam. Todos as adoptam, interagem com elas, recriam-nas e, assim, aperfeiçoam-nas «como um seixo rolado pela água, que pouco a pouco se torna mais polido e luzidio», como dizia Leite de Vasconcelos

«A Machadinha e a Menina Tonta, e o Cordão Dourado» são mais duas histórias tradicionais portuguesas que nos chegam da escritora Alice Vieira, ilustradas esplendorosamente por Bela Silva, num belíssimo livro cartonado, com chancela da Editorial Caminho. Mais dois daqueles seixos prontos a rolarem na água do crescimento, para que as gerações do futuro os possam polir e transmitir a outras gerações. Tem sido assim, ao longo dos séculos, a corrente alquímica, intemporal, autentica e viva das histórias populares.

Ambas as histórias são, à maneira das histórias populares de autor anónimo – passadas oralmente, o autor perdeu-se no tempo – narrativas curtas, cuja brevidade tem implicações estruturais: poucas personagens; concentração e indefinição do espaço e do tempo; acção simples e linear; fórmulas introdutórias – «A história que vou contar…», em «A Machadinha…» e «Era uma vez uma mulher…», em «O Cordão Dourado» –; recurso à repetição que facilita a memorização e concentra o leitor /ouvinte na linearidade da narrativa; têm um final feliz, uma compensação dada às personagens principais pelas suas atitudes.

A primeira narrativa conta a história de uma rapariga «Tonta, tonta» que todos diziam «fazer parte da família mais tonta à face da terra», e de um rapaz que «se tomou de amores por ela» apesar do pai o advertir: «mulher tola não faz casamento feliz». No dia de se marcar a boda, a «menina chora com medo» no meio da adega, por ter visto uma «machadinha pendurada no tecto» que iria cair e matar o menino que haviam de ter. Toda a família se pôs em «ais» pelo menino e o rapaz, dando credo às palavras que todos diziam, rompe o noivado para, anos depois, depois de ter vivido e ganho experiência do mundo, perceber que a «tolice da sua noiva» nada era «comparada com a loucura que ataca a terra inteira!». Porque a «machadinha poderia mesmo cair e matar o menino, o casal nunca teve filhos, e assim se explica, com recurso ao maravilhoso, um facto que causa dor nos casais e que é, fria e cientificamente explicado.

A segunda história, com a moralidade do exemplo, traz-nos a simbologia do número três, símbolo da perfeição e da concretização, que vem de tempos imemoriais e continua bem presente nos ditos populares como o «não há duas sem três». Com efeito, nesta história do «Cordão Dourado», é a terceira rapariga que mostra trabalhar com empenho, alegria e felicidade, e, por isso, a recompensada com um fino cordão de ouro, fino, mas “mágico” pois traz-lhe o amor e a riqueza. As suas duas irmãs desejavam melhor recompensa do que a que lhes era dada pelo trabalho doméstico prestado em casa da vizinha e, embrenhadas no materialismo não estavam preparadas para ensinamentos e recompensas.

Mostra-se que os cordões dourados são todos aqueles que se tecem com probidade, iluminados com o brilho da alegria de quem não pede contrapartidas para o bem que faz aos outros. O maravilhoso é uma forte componente da história com a vizinha a ser uma “fada” disfarçada, e o final à maneira da Gata Borralheira, agora com um Rei a fazer Rainha a rapariga que merece.

É louvável a dedicação de Alice Vieira na (re)elaboração de histórias populares – repeto esta terminologia em vez de histórias tradicionais, pois faço parte dos que defendem ser o termo “Popular” de significado mais extenso, cabendo nele toda a matéria literária que o povo entende e gosta, seja sua ou de outrem, antiga ou recente. Elas servem de entretenimento, a pessoas de todas as idades, e, mais especialmente, a crianças. O lúdico traz o ensinamento moral e a experiência susceptíveis de moldar o carácter e enriquecer o saber.

Histórias Tradicionais Portuguesas – Nova Série, n.º 1, Alice Vieira, ilustrações a cores de Bela Silva; Editorial Caminho, Lisboa, Janeiro de 2006


nota: este texto foi escrito em 2006, aquando do lançamento deste livro de Alice Vieira

© Teresa Sá Couto

terça-feira, 9 de junho de 2009

«O Sentimento do Porto» em palavras e fotografias

Cidade secular, de «alma funda e poética», o Porto escreve-se assim com Agustina: «Está ela como que inclinada numa cordilheira, com ar cativo, as faixas das ruas parecendo pendentes do casario desigual. A luz é doce sobre os telhados dum vermelho estagnado. (…) tem toda ela uma forma, uma alma de muralha.(…) Uma ravina profunda marca o entalhe do rio, cujas águas verdes da primavera reflectem o crescente da sombra dos rabelos de velas enfunadas. O sol parece baixo sobre a cidade segregada na pedreira; uma transcendência de melancolia paira e comove-nos.».

Com dois quilos de peso e um sentimento incomensurável, o Álbum de luxo «O Sentimento do Porto», da Editorial Campo das Letras, colige textos de escritores portugueses sobre o Porto, acompanhados de um trabalho fotográfico portentoso. A selecção de textos é de Arnaldo Saraiva, as fotografias do sentimento são de Luís Ferreira Alves e o Design de João Machado. Para aproveitar na Feira do Livro do Porto, onde esta dádiva estará com 40% de desconto - Livro do Dia - em 14 de Junho. Recorde-se, ainda, que a Editora está em vias de desaparecer e com ela muitos e magníficos títulos que tem publicados.

Logo na abertura do Álbum, num convite directo ao deslumbramento, Jaime Cortesão apresenta o Porto com a sua teatralidade e ardência barrocas, o espectáculo dos sentidos que tem na invicta o acervo mais importante do país, com a arte barroca a atingir o seu apogeu. Ex libris, são muitos, exteriores e interiores de igrejas – com exuberante talha dourada –, dramatizações em azulejaria branca e azul e a inconfundível Torre dos Clérigos, monumento visual que apela a todos os olhares.

Eugénio de Andrade regista o carácter da «cidade de Garrett», sólida nas suas convicções, e o seu carácter secreto: «O Porto é a cidade mais fechada das nossas cidades (daí parecer tão secreta), e eu nunca procurei ganhar a sua confiança – sou um homem do Sul, tenho de repeti-lo; quando a conheci já pertencia a outras luzes, e outras sombras». Porém, rendido à cidade, o poeta fala na troca do b pelo v, «da digestão sonolenta das tripas e do lombo assado regado a verde tinto», da «desventrada vitalidade da sua população ribeirinha, onde o descaro da linguagem se mistura ao ruído dos socos», e da descoberta que se faz da cidade, devagarinho, para se lhe apreender a «intimidade recolhida e serena que os seus nevoeiros espessos frequentemente escondem.».

Com Armindo de Sousa atende-se «o Porto primitivo» que se perpetua «na memória de visitantes e residentes», quando há oitocentos anos era «um muro fosco e diminuto, lá no alto, em torno da Pena Ventosa», quando a «cidade era o Morro da Sé». Percorrer aquele muro, guiados pelo arrepio dos ecos do tempo é a proposta do autor e do fotógrafo da pedra perene.
Alexandre Herculano transporta-nos para o seu (deles: do escritor e da cidade) romantismo medieval, numa explanação apaixonada do «Porto dos finais do século XIV» e que ainda subsiste entalhado na moderna cidade.

Acompanhados por imagens do Teatro Nacional de São João – exterior e pormenores interiores – o leitor segue pela mão de Camilo Castelo Branco que desvenda o «Porto do século XVIII» e a vivência do dia 15 de Maio, quando ainda havia Primavera na cidade, numa crítica plena de actualidade: «Quem, à face da folhinha, se vestisse de fresco em Maio, podia sair à rua trajado de holandilha ou vareja, que não entraria em casa a espirrar constipado pela súbita frialdade que o surpreendeu. A gente fiava-se dos sábios, os sábios da ciência, e a ciência dos factos repetidos. (…) Se algum sábio estivesse de pachorra para demonstrar a profundeza desta minha hipótese original, ficávamos convencidos nós de que a civilização do fumo e a dos arames eléctricos, afinal, acabariam de todo com a Primavera».

Almada Negreiros traz para «O Sentimento» o dinamismo e o colorido das gentes que se confundem com o movimento e a policromia arquitectónica das fotografias da Ribeira: «O equilíbrio dessas mulheres não tinha uma hesitação á altura de três homens da água, e em menos de três palmos de largura durante os dez metros. Acrescente-se a isto que levavam à cabeça as canastras, umas vezes vazias e outras vezes cheias até acima, em pirâmide, conforme iam ou vinham da fragata. Daquela vez não me lembro que descarregavam; apetecia-me que fossem laranjas».

Também Raul Brandão, entre fotografias do mar bravio a enrodilhar as rochas costeiras, redes e embarcações, detém-se no cenário líquido da cidade e faz brilhar o tesouro do mar que alimenta as gentes: «O fundo da catraia escorrega cheia de água e daquela vida que se debate, misturada e calcada, cheirando a frescum. É uma mescla de dorsos, de escamas, de peles com reflexos molhados, de tons escorregadios e metálicos…»

Estes são apenas ínfimos exemplos do pulsar de alma que enche «O Sentimento do Porto» de inúmeros matizes e outros tantos mistérios, em 260 páginas. Um livro apaixonante, bilingue – português e Inglês –, em dádiva também aos forasteiros, porque o amor só se vive se partilhado!

Nota: Em 1981, o Porto atingia o pico de 327 mil habitantes, para começar logo a descer para 302 mil em 1991 e para 263 mil em 2001. De notar que as quatro freguesias da zona histórica do Porto – Sé, S. Nicolau, Vitória e Miragaia – perderam metade da população entre 1981 e 2001, passando de 28 mil para 13 mil habitantes.


O Sentimento do Porto / A Feeling for Oporto, antologia de Arnaldo Saraiva; fotografias de Luís Ferreira Alves; Editorial Campo das Letras, Porto, 3ª edição Janeiro 2001


© Teresa Sá Couto

domingo, 7 de junho de 2009

Peregrinação a Macau - Poderes e saberes dos séculos XVI e XVII

Em 1555, o mercador de elite, aventureiro e escritor Fernão Mendes Pinto passava a carta de nascimento de Macau (Haojing). No mesmo ano, arrolando a magnificência do novo poderio português, Mendes Pinto dizia que «para escrever tudo era necessário que o mar fosse tinta e o céu papel» e, na Peregrinação, escreveria: «...este porto de Macao onde agora se faz a (veniaga), no qual sendo antes ilha deserta, fizeram os nossos uma nobre povoação».
Porto de portugueses na entrada da China, «fronteira múltipla, placa giratória de encontros entre diferentes espaços e mundos», o território projectou desde logo o seu carácter internacional e multicultural.Viajar por aquele tempo de poderes e de ideias que chegam ao século XXI encrostados de romantismo, mas também de realização, é a proposta do extraordinário livro «Macau: Poder e Saber – séculos XVI e XVII», de Luís Filipe Barreto, editado pela Editorial Presença.

Com o objectivo de traçar a história dos poderes e saberes de Macau nos séculos XVI e XVII, o historiador procura a História em quatro vertentes, como o afirma no prólogo: a «história interna de portugueses casados e miscigenados, de chineses de Macau e da restante China, de portugueses e outros europeus asiatizados»; a «história de parcerias em constante renovação entre grupos de chineses, portugueses e de outros asiáticos e ocidentais, de comunidades marítimas e mercantis nos Litorais da China e nos Mares do Sul»; a «história de redes e rotas, que trocam produtos e ideias, que ligam, á escala planetária, diferentes litorais, mercados e centros económicos e culturais» e, finalmente, a «história do primeiro século de vida social e intercultural de uma comunidade e território bem como das condições e dos antecedentes que a viram e fizeram nascer.».

Apoiado rigorosamente em fontes históricas chamadas sempre para o texto robustecendo-o e dando-lhe o colorido da época, «testando hipóteses e descobrindo problemáticas e documentos», Luís Filipe Barreto segue uma metodologia crítica e analítica que assenta em duas partes ou, como referido, dois livros: no primeiro abordam-se os Poderes económicos, sociais e políticos «que tecem a realidade de Macau», e o segundo livro colige criticamente textos e ideias sobre e produzidos em Macau, elaborados à época e que retratam o impacto intelectual do território nos anos quinhentos e seiscentos.

A aventura portuguesa nas portas da China

Se Macau nasceu em 1555 fruto de uma parceria sino-luso-nipónica que fez do território o «intermediário hegemónico do grande comércio internacional da prata e da seda», lembra-nos o historiador que a grande novidade asiática surgia em 1506 no Planisfério Anónimo Português, uma carta do mundo que representava a grande ousadia lusa e onde se registavam todas as novidades chegadas a Lisboa, e que contendo a mais antiga referência à terra de chins evidencia Malaca como uma porta da China e a sua posição frente à China Ming: «na legenda junto a Malaca diz: …Malaca. Em esta cidade há todas as mercadorias que vêm a Calecute. Ou seja, cravo e benjoim e linaloés e sândalo, estoraque e ruibarbo e marfim e pedras preciosas de muita valia e pérolas, e almíscar e porcelanas finas e outras muitas mercadorias; todas a mor parte, vem de fora, contra a terra de chins…».

Presentes em Malaca desde 1509, os portugueses aproveitaram a abertura do comércio marítimo para estabelecer um comércio profícuo com mercadores chineses. Refere o texto que é graças a um punhado de pioneiros, do seu trabalho de recolha de informações sobre o «Sueste Asiático insular e as linhas marítimas para o mares da China», que desfilam nas páginas deste livro, que a Coroa portuguesa resolve dar novos passos e envia embaixadas com o propósito de se «fazer uma fortaleza na China e a fazer a carga das mercadorias da dita China».

Porém, lê-se, «abertos os caminhos do mar», abriram-se «os caminhos das hostilidades» e as tentativas diplomáticas entre a China Ming e Portugal terminavam em «guerra total», em 1521. Em 1527 documentos indiciam o retomar de «laços marítimo-mercantis entre mercadores privados chineses e portugueses pois «estavam os chins desejosos de nós outros da pimenta e pau preto e puncho e incenço macho e marfim». Por outro lado, defende-se, «os grandes investidores e armadores privados chineses e japoneses foram obrigados a concluir que os investimentos corriam menos riscos em associação com os portugueses».

Para o estabelecimento de laços contribuíram as elites miscigenadas de Cochim, Goa e Malaca, apanágio dos portugueses e da sua capacidade de se misturarem com os outros povos. Começava então a surgir a formação da poderosa «parceria, informal e privada sino-luso-nipónica» que dominou o comércio no mundo. Refere-se que, também a posição oficial chinesa se alterara: considerava-se que «a potencial ameaça e perigosidade dos portugueses reside nos canhões e nas velas, isto é, no poder marítimo. Colocá-las em terra, é dominá-las: “...têm os chins os portugueses em pouco por dizer que não sabem pelejar em terra que são como peixes que como os tiram da água do mar logo morrem…”».

Também o poder Chinês vê nos portugueses um «intermediário imprescindível» e «tornam-se agora parte da solução do problema financeiro chinês», além de contar com a temível artilharia naval portuguesa para a defesa marítima de Cantão. Esta confluência de interesses, e a consequente pacificação do comércio, fez de Macau o consórcio de realização plena e o ancoradouro mais famoso do seiscentismo.

Também o credo lançado é uma importante marca de identidade da «cidade do nome de Deus, situada na ilha de Amacao, pertencente à China»: o cristianismo semeado pelos missionários jesuítas - chegam a ter poder e influência política e mercantil - fica enraizado no «húmus social», e é fundamental na construção dos laços.

São 410 páginas de uma viagem imperdível ao fascínio, que Luís Filipe Barreto oferece à História e Cultura Portuguesas.

Macau: Poder e Saber – séculos XVI e XVII, Luís Filipe Barreto; Editorial Presença, Lisboa 2006


© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Feitiços e maldições de valter

Mariana Alcoforado urdia o desamor no cárcere religioso: «picava bonecos com cara de homem, e queimava-os no forno onde fazia os assados. (…)à noite, também sem mais nada, mariana levantava-se sonâmbula e convivia com os bonecos com cara de homem, beijando-os e sentindo-lhes o corpo com os dedos trémulos, talvez por isso, eles espantados, ardessem confusos sem nunca acreditarem no ódio que ela queria sentir pelo marquês».

Assim nos surge valter hugo mãe no livro de maldições: fulgurante, dramático, visual, alegórico, enigmático. São 52 poemas em prosa, tanto breves quanto intensos, com um feitiço imperdível. Sobretudo, porque estas maldições alvejam a normalidade, a modorra, a palavra do costume. Inconfundível marca do autor, esta é uma escrita proibida para leituras sossegadas.

Linguagem expressionista

Neste livro de maldições fulgura uma vez mais uma escrita expressionista, onde ressumam Kafka e Paul Klee (pintor e poeta), nas construções alegóricas, nos processos, nos símbolos utilizados, na atitude crítica e interventiva. As palavras de cores puras conjugam-se em imagens abstractas, conjuram-se no lúgubre e no iluminado, contorcem-se num dinamismo inesperado, num emaranhado visual de alienação e intensidade psicológica.

Desfocar o real para apreender a sensação, aprender o pássaro para saber o que há «entre a terra e o chão», parece ser o método para o conhecimento: «as coisas ensinam o chão. explicam-lhe quanto há entre terra e céu, o caminho livre do voo, a vista elevada de deus. eu vejo anjos e os anjos são das coisas aladas os sonhos mais completos. erguem-se braçados de asas a educar o vento, percursos de sopro que se abrem nas dimensões, e luzem nas nossas cabeças como homens enfim pássaros. como se as árvores pudessem ser casas nossas e nada nos acordasse na força do frio ou da chuva. como se nos cumprimentássemos em pleno ar, seres tão leves atarefados com mais nada. seríamos só pulmões cheios, máquinas de pairar, alegres imprecisões ao alto.»

Gnóstico, o símbolo da árvore surge fortíssimo como coluna vertebral da aprendizagem: «tudo o que as árvores fazem é pensar. ficam generosas à espera de chegar a uma conclusão. e se morrem não é absoluto que tenham tido resposta. deram sombra, pássaros, fruto e vento, mas podem partir quietas, como quem tomba dentro de si mesmo, com felicidade pelo que já passou e nenhuma mágoa, só aceitação sábia do tempo».

Abstracção do corpo, corporização do abstracto

Também o corpo atinge a abstracção, sujeito ao processo de deformação subjectiva. Surgem homens de grandes dimensões que não cabem nas suas casas, ou nos seus corações, homens que habitam paredes movediças – a fazer lembrar as casas giratórias das telas de Paul Klee –, mulheres excisadas, crianças sem um braço no meio do peito, por isso incapazes de agarrar nos corações umas das outras. Todavia, também se dá o inverso, com a figuração de sentimentos: a maldição da dor e da saudade é configurada num grilo lambuzado de sangue que passa por um pequeno buraco do seio de uma mulher – a remeter-nos para Kafka e a metamorfose de Gregor Samsa em insecto.

Também o amor eterno surge de forma inusitada e inebriante como um corpo desprezado, mas com nota de esperança:

«inventaram um amor eterno. trouxeram-no em braços para o meio das pessoas e ali ficou, à espera que lhe falassem. mas ninguém entendeu a necessidade de sedução. Pouco a pouco, as pessoas voltaram a casa convictas de que seria falso alarme, e o amor eterno tombou no chão. não estava desesperado, nada do que é eterno tem pressa, estava só surpreso. um dia, do outro lado da vida, trouxeram um animal de duzentos metros e mil bocas e, por ocupar muito espaço, o amor eterno deslizou para fora da praça. ficou muito discreto, algo sujo. foi como um louco o viu e acreditou nas suas intenções. carregou-o para dentro do seu coração, fugindo no exacto momento em que o animal de duzentos metros e mil bocas se preparava para o devorar».

Livro de maldições, valter hugo mãe; objecto cardíaco, Vila do Conde, 2006


© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Cartografia da perda - Albas de Pedro Sena-lino

Bastam dezoito poemas para Pedro Sena-Lino cartografar a «Zona de perda» e estabelecer encontros raros com o leitor. Sufocado por «um nada imensamente tu», o sujeito poético desvela, gradativamente, o mapa da alma abandonada. «Queria morrer contigo /não queria morrer de ti», refere o longo diálogo com o Tu ausente – e a partir dele, o diálogo com o Eu –, e o Leitor, enquanto procura o projecto de sobrevivência pós perda; o subtítulo «livro de Albas», evidencia a construção de um compêndio sobre o acordar e a revelação: no escutar do silêncio que dá forma à emoção mais íntima; no acordar do leitor, alvo, emboscado e reflectido no movimento de noites e madrugadas.

Disse Goethe: «Não és mais que uma sombra na noite da terra /enquanto não tiveres compreendido esta lei: /Morre e transforma-te». Pedro Sena-Lino comprova que a Poesia é o gládio, corpo da alma, lugar onde se morre, renasce e se redime.

Segundo Roland Barthes, em Fragmentos do Discurso Amoroso, o reino da memória é uma arma de ressonância, e «a ressonância é a prática zelosa de uma escrita perfeita, a pureza de uma escuta que dói». Assim entendemos o discurso íntimo e emotivo, que nos traz Pedro Sena-Lino, erigido pela memória da perda, desde a sua origem, desde o momento do êxtase, do lugar fundo onde se ouve «morrer uma noite» e se escuta o «eco de corpos»:

chegaste donde o medo tecia os meus cabelos
donde os pássaros ardiam a voz
donde só o silêncio se desconhecia
era tão larga a morte
que não se podia ver dos meus olhos
chegaste quando o fim sangrava dos meus braços
a casa soterrou-me dos teus passos
terra de mim todo
chegaste pelo coração de água da noite
quando o mistério escorre em grito pelos telhados
e Deus se desabita
chegaste tão de dentro de mim mesmo
que agora a morte me nasce na garganta
a noite e o meu rosto são alguémque eu próprio desconheço

Roland Barthes considera o processo onde o «outro está ausente como referente, presente como interlocutor» uma «singular distorção» que origina a sensação de se estar prisioneiro entre tempos. No caso deste corpus poético, o Eu está prisioneiro entre o passado da perda, o presente insustentável, e o Futuro povoado de medo e descrença: ontem foi o amor, hoje é a perda, (tempo de todos os silêncios e ecos) e, sendo hoje «o futuro de ontem», lê-se: «com as duas mãos amanhecidas em ontem /despeço-me de ti».

Porém, neste discurso de recordação e morte, que arrasta o sujeito poético para o interior onde se define o abandono, cintila «uma sede iluminadamente branca»: «o verbo do amor é transe e transito /mas o que em nós é antigo como o sémen /procura inclinações de sede até tocar o início /vento e água e terra ansiosamente recriada /o próprio modo de Deus se encontrar //perderam-se as paredes do meu corpo /quando chegares existirá um amor /mais alba que sermos manhã /e fabricarei um mundo /onde não nos possa morrer».

À procura de mim, através de ti…

Se todo o discurso da ausência só pode ser feito por quem fica – o Eu poético –, é, todavia, a partir do Tu ausente, objecto da perda, que ele se constrói:

da minha janela vê-se uma espécie única de medo
chama-se eu mas diz-se tu
e por vezes nós quando prende a vida
a algo tão falível como a vida


No diálogo com o outro, comprova-se a angústia, reconstrói-se o que se perdeu, faz-se o luto e edifica-se a vida. E a palavra está lá para registar tudo isso:

e agora apenas as trevas pronuncio e caminho
há de nascer uma escada onde era o amor
um livro de albas que nunca foram noite
a sede de outros há-de beber a luz
que tu nunca me abraçaste.


Com estes «outros» que hão-de «beber a luz», mostra-se que a revelação do Eu não se extingue no diálogo com o Tu ausente, e um outro Tu, o leitor, parece surgir como motor da revelação e cúmplice da emoção:

um dia a noite há-de dizer-te
como o amor escrevia no meu corpo


E a esse novo Tu, alerta-se para o sentimento da perda: «subirás as escadas fantasmas da posse», conhecerás «Os sítios perdidos de tão tidos / as noites que doeram por se abraçar», «passarás pelo fogo das palavras mentidas», «sentirás a ausência de ti», «verás os selos do coração desfeitos, verás o teu nome medido em sílabas de pânico» que têm o «sabor cru dos peitos esmagados pela ausência /o som a fogo interior de tão imaginado /e andarás na memória como numa dor intrusa», «com as mãos do desejo tocarás no fim», «um dia encontrarás o amor onde ele não te encontre mais».

A esse Tu fica também a certeza de que não está só:

Quando caminhares na dor como um chão
estarás de pé na morte onde te vejo
na cal viva das paredes dos ossos
o teu abraço chegará a mim
como um rio acordado de frio.

zona de perda - livro de albas, Pedro Sena-Lino; objecto cardíaco, Março 2006

© Teresa Sá Couto

sábado, 30 de maio de 2009

Coração Atlântico - poesia da Madeira e Açores

Do azul enérgico do atlântico detenho-me em fulgurantes «Pontos Luminosos» e o “ouro sobre azul” faz ainda mais sentido. Trazida pela mão da Editorial Campo das Letras, a Antologia poética reúne poesias dos Açores e da Madeira com o intuito de, na sua especificidade, se lhe apreenderem pontos de contacto, numa comunicabilidade que se estende ao leitor.

Se todo o “homem é uma ilha”, e o desamparo é uma linguagem universal, esta poesia insular é um compêndio de experiências e subjectividades, contributo para o mundo. Curioso é o caso de Carlos Nogueira Fino, que nasceu em Évora, onde o horizonte é a planura larga da terra, foi para a Madeira em 1959 e lá apreendeu outra vastidão de isolamento: «havia sempre um cais no fim /de cada dia /…/um mar mesmo a teus pés até perder de vista /até perder-se o sol no seu naufrágio brando /até ser tudo sombra e tudo estremecer /…/e então ficavas quieta ficavas mais um pouco /até ser funda a mágoa /funda como o mar».

A selecção de textos é da responsabilidade de Maria Aurora Carvalho Homem, da Madeira, e Urbano Bettencourt, dos Açores. A organização, posfácio e notas são de Diana Pimentel.
Os textos estão ordenados por ordem alfabética seguindo o apelido dos autores. No final da antologia encontram-se notas bibliográficas de todos os poetas contemplados, numa útil informação ao leitor. Na Nota de Leitura, a abrir a Antologia, Diana Pimentel lança o repto ao leitor para se envolver no diálogo que esta poesia desata: «esta leitura (auto-bibliográfica e hetero-bibliográfica) destina-se, clara, transparente, ao leitor: que (lendo, elegendo) inscreva a sua voz nesta paisagem transfigurada que desenha uma espécie de mapa invisível das ilhas comunicantes».

«O ofício das vagas»
Como um mapa desdobrado de sensibilidades insulares, a poesia coligida em «Pontos Luminosos» mostra que a mão sabe o pulsar do coração e desenha esse saber fundo com palavras translúcidas, marulhadas nas pedras salgadas e que são «o lastro de não ir». Vibrantes, as palavras surgem como emissárias desse silêncio branco como a espuma, feitas aves que abrem as asas e esperam que o vento as leve. Desse ofício assombroso da escrita dá-nos conta o madeirense José Agostinho Baptista, que recentemente venceu o Grande Prémio de Poesia Associação Portuguesa de Escritores/CTT com o livro "Esta voz é quase o vento", e é um dos contemplados na Antologia:

«Um porto é como uma seara plantada de mastros, /uma azáfama de gritos /…/O ofício das vagas, a minúcia das velas – /outro destino não queria: /empunhei o leme, recolho a ancora, bebo, escrevo – /…/ ainda que o digas não partirei – /conheço a nostalgia que vive para sempre no coração da /infância e dos barcos.».

Também Urbano Bettencourt “transfigura” pela palavra aquela paisagem, sinónimo de infinitude:
«aqui o homem ergue
uma ilha e olha
as palavras cercadas de sal
até onde o olhar se afoga».

A Terra Nova da emigração

Carlos Faria, que nasceu na Golegã, Ribatejo, mas radicou-se nos Açores, em «Telegrama para o Universo» aborda a questão da emigração:
«A ilha está em flor.
As asas têm as raízes no vento.
O mar é bom para regressar.
As nuvens movem-se
nas mãos da distância…».

Em «Fado», o autor mostra-nos de forma pungente essa condição de amar à distância: «Marinheiro perdido: avariadas /as bússolas só te resta o coração /e a derrota! /Marinheiro perdido: Não tens/outra Fortuna que salvar os Lusíadas /a nado! Marinheiro perdido: regressa /que é hora de voltar a partir /O longe português /é para lá do infinito /…/Ilha ou asa ou raiz? /O mar responde que é o coração /da viagem!»

No posfácio, Diana Pimentel refere que «entre as poéticas açoriana e madeirense aclara-se uma diferença ou tensão entre o fascínio e a repulsa face ao microcosmo simultaneamente individualizante e possessivo da Madeira e a abertura expansiva em direcção a um infinito inominável presente na poesia dos Açores.». Assim, refere, a presente edição de «Pontos Luminosos» pretende integrar e não isolar. Concordamos que esta poesia dá a ler “a construção da subjectividade» e a «experiência do espaço», e desvenda marcas psicológicas da portugalidade. Verdadeiras centelhas rutilantes que esperam nas prateleiras das livrarias o leitor que as saiba olhar.

Pontos Luminosos – Açores e Madeira – Antologia de Poesia do Século XX – Vários Autores, Editorial campo das letras, Porto, Abril 2006

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Escravatura na fundação da modernidade

O trabalho escravo africano foi a pedra angular da construção do mundo moderno e nele se reconhecem as fundações do capitalismo. Ir ao encontro desse fundamento é conhecer a nossa história política, económica, cultural, social e psicológica, outrossim reconhecer o que subsiste da colonização ultramarina – espinho silencioso na nossa memória colectiva.

«Ricos e famosos! Este foi o verdadeiro e único móvel das nossas façanhas em África (…).Se a navegação foi arrojo de heróis, a colonização pareceu obra de ratoneiros (…). Ficamos senhores do mundo! Em Portugal não se curou mais da produção. Submeter os negros, comprá-los e vendê-los! Subjugar a Índia e avassalar o Brasil! Eis a grande preocupação»: escrevia Ladislau Batalha, no séc. XIX, relembrado no livro «Trabalho Forçado Africano», ferramenta do saber crítico que colige conferências de 26 investigadores nacionais e estrangeiros, coordenado pelo Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto e com a chancela da Campo das Letras.

As conferências estão agrupadas tematicamente em quatro partes: «O tráfico atlântico de escravos», Problemática da escravatura no Brasil», Trabalho forçado na África colonial» e «Heranças Culturais da escravatura no Brasil».

Sinal de riqueza para os seus proprietários e construtores de riqueza pelo seu trabalho, os escravos perpetraram as grandes migrações e com elas o vigor económico de nações. Longe dos anos de quinhentos, constata-se que a escravatura está na formação social de quase todos os estados americanos e subsiste em formas de cultura nos cantos da diáspora.

A partir daqui, o texto desafia-nos, confirmando-se que é necessário obter respostas, ainda que a matéria seja vasta e tenha de enfrentar lacunas documentais, ainda que o caminho do questionamento devolva e angarie novas perguntas:

«Mas, se a escravatura africana teve esse peso histórico tão grande e foi abolida em meados do século XIX, o que aconteceu em seguida a um sistema que já então tinha tomado uma dimensão planetária? Como se alterou a divisão mundial do trabalho entretanto instituída? De que forma nela participaram as regiões africanas, agora obrigatoriamente reconvertidas? Em que consistiram os sistemas coloniais europeus em África e o que tiveram em comum?».

Com efeito, e reportando-se ao caso português, refere-se que «Em 1876, quando já a escravatura era abolida de facto e de direito em toda a África, ainda no interior de Angola os portugueses compravam e vendiam escravos, sendo as próprias autoridades, até chefes de concelho, às vezes, os que realizavam tão odiosas transacções ou as toleravam dentro da área da sua jurisdição, mascarando-as com o nome de resgate.». Na conferência «Politica da Sociedade das Nações para a extinção da escravatura e do trabalho forçado em colónias africanas (1922-36): o caso português» constata-se que a luta contra a escravatura continuou muito depois de ser extinto o tráfico de escravos, manifesta em diversas formas de trabalho forçado nas colónias de S. Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, bem como a persistência de formas de «escravatura doméstica e servil».

Com o apoio documental, refere-se que a Sociedade das Nações, pressionada por vários relatórios e queixas sobre «práticas análogas a escravatura», criou uma «Comissão Temporária da Escravatura» para apurar os casos e zelar pelo cumprimento dos direitos das populações dominadas. No caso português os documentos são elucidativos: um relatório de 1914 acusava Portugal de «fornecer mão-de-obra ao Estado e aos particulares sem atender aos direitos mais elementares dos africanos e às especificidades próprias das suas sociedades.». Acusava-se Portugal de consideração abusiva do termo «vagabundo», de aplicar de «forma abrangente» a lei que determinava que «todo o indígena válido que não trabalhasse seria compulsivamente obrigado a fazê-lo», de forma a «melhorar progressivamente a sua condição social e a civilizar-se».

O que se pretendia, defende-se, era «além de suprir o problema da falta de mão-de-obra, que o africano ganhasse o suficiente para pagar o imposto de palhota e comprar vestuário ou objectos importados» pela potência colonizadora, evidentemente!

Também o caso da Guiné é esclarecedor das práticas portuguesas. Nos anos cinquenta, já do século XX, a mão de obra africana era requisitada no contexto do ”imposto braçal” para se executarem obras de “utilidade pública” principalmente na construção de estradas, uma vez que «a única maneira de transitar entre os vários portos e praças era através de barcos e canoas, em viagens morosas». As construções eram tidas como símbolo da evolução, e assim aspirava-se a «um novo patamar de desenvolvimento, que podia rivalizar com os seus vizinhos francófonos da AOF». Desta feita, o trabalho forçado imposto às populações sob condições penosas servia para pagar dívidas ao Estado, seria o «verdadeiro tributo para garantir o seu progresso».

Trabalho Forçado Africano - Experiências Coloniais Comparadas, Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto; Editora Campo das Letras; Porto, Outubro 2006


© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 22 de maio de 2009

«O Porto: Orgulho e Ressentimento»

Olhar a invicta com olhos de pássaro, «esperar e ficar de atalaia, como um caçador de átimos; ter os sentidos engatilhados e um bornal vazio onde depositar, com desvelo, o pequeno e delicado momento que nos há-de ficar para sempre». Assim se perenizam momentos em «O Porto: Orgulho e Ressentimento», um livro, antológico, de Manuel Jorge Marmelo. Os textos foram publicados no jornal Público, e outros, breves apontamentos sobre a cidade, escritos no blog do autor, antes «Nariz de Ferro», depois Tatarana.

Como jornalista, o autor dá-nos o olhar minucioso com que perscruta a realidade. Como contista, oferece-nos pequenas narrativas numa escrita depurada, com palavras musicais que tecem sensíveis voos de alma, entretecidas, a muitos passos, numa bela prosa poética, repleta de sinestesias que permitem transmitir sugestões e impressões da realidade captada. Transborda o afecto pela cidade parda, mesmo quando as ruas desatam a mágoa. E aventa-se a razão: «todos os delírios cabem no espaço que coisa nenhuma ocupa. É obrigatório sonhar que estas ruas podem voltar a ser alegres. Um dia

Diz o autor que «a subtil magia de certos lugares não dura, às vezes, mais do que um instante. Não que desapareça de facto, pois o fundamental está lá, perenemente. Mas basta que os olhos se distraiam alguns segundos, não mais, para que se desvaneça o imaterial e transitório que opera o milagre de transformar um sitio aprazível numa epifania de maravilhar.». Contra todo o esquecimento, tudo é registado na paleta da observação: gente que passa, gente que se detém num doce vagar, magotes cavaqueando, «um escarro matinal», azáfama e silêncios, rumor de pernas, rumor de penas, vidas de gatos, crianças que «guincham enquanto dão de comer às aves», animais que investigam e debicam migalhas, «frases garatujadas nas paredes do Porto, misteriosas e mágicas», como o misterioso e mágico nevoeiro que ora «povoa a manhã de espantos», ora revela melancolias e desejos de evasão.

Tomando o ar em «golfadas puras», o autor deambula pela cidade, mesmo que o dia amanheça noite, mesmo que o vento cicie nas orelhas «ameaças de chuva», embrenhando-se por becos e vielas, à procura de um «raio de luz que ilumine tudo», ainda que tarde em surgir. Com a doutrina dos sentidos bem afinada, vai revelando a cidade que poucos vêem ou sentem, disciplinado ao método infalível: «caminhar sem rumo. Parar para ver. Fumar um cigarro. Respirar fundo.». Encostar o ouvido aos muros para escutar a palpitação do barro e da pedra. Inventar novos mitos».

Dá-se largas à reinvenção da realidade com o Jardim das Virtudes a rivalizar com o jardim do éden, nos murmúrios de água e erva «perlada de orvalhos», um local que «esmaga e acolhe como um braço apertado e morno», e solta-se a poesia mesmo que – ou talvez por isso mesmo – as «quimeras» sejam sem cabeça. Mira-se Gaia com as suas «casitas de presépio» e navega-se na mansidão preguiçosa do Douro, linha divisória do sagrado e profano, rio que não só separa cidades como deuses: «De um lado Baco, o do vinho, do outro o omnipotente da Bíblia, o das igrejas e dos santos.». Sobe-se ao alto da Torre dos Clérigos, «o gigante de granito» para se ver aquele Porto «minúsculo e rasteiro», e com os braços «abarcar a cidade inteira».

Todavia, também se desce, e o abraço transforma-se num nó que parece apertar a alma e que só a escrita liberta. Comprova-se que mostrar o lado e o reverso é uma consequência da deambulação. Interventivo e crítico, o autor averba misérias da cidade: no largo do Lagarteiro, detém-se junto de famílias, com doentes e crianças, que vivem no interior dos carros, na «miséria, lama e lixo», resultado dos «despejos que a câmara municipal promoveu num conjunto de habitações que ali haviam sido ocupadas»; munido da amplificação que a escrita possibilita, faz sobressair um monte de lixo diante de um hotel de luxo onde «o gato preto famélico e com olho vazado, mergulhou nos dejectos em busca do desjejum»; outrossim, surgem as Fontainhas, quase com «uma pobreza bíblica», «um terreiro de abandono, desolação e lixo, como se a cidade findasse no sítio exacto onde começa a escarpar-se, a empobrecer-se (…), sitio velho, gasto, aviltado pelo tempo, onde os plátanos enfileirados estendem suplicantes braços, retorcidos e nus.».

Um património mundial, de casebres insalubres, refere, onde as pombas são negras –da mesma cor do gato de olho vazado -, «pretas retintas». A técnica de juntar os contrastes para melhor os destacar tem o seu ponto máximo nas elucubrações sobre a Foz, desembocando na rua com nome Alegre onde se atesta o «silêncio furtivo dos dois mundos que aí persistem»: o silêncio dos abastados, símbolo do desprezo, com o cão de guarda a rosnar à passagem de estranhos – a fazer-nos lembrar o Bairro Moderno de Cesário Verde – e o outro silêncio, o rústico, o desprezado, das paredes caiadas, da roupa a secar nas janelas.

A adesão ao mundo dos humildes é assumida na escrita que o reabilita, numa transformação de vitalidade ou projecto de sobrevivência: o arrolar das rolas quebra o silêncio, o ar impregna-se de cheiros da tangerineiras e limoeiros, ostenta-se a vida em «couves tronchudas, num subtil jogo narrativo testemunhado pelas nuvens que «brincam a mostrar e esconder o sol». Na subtileza dos encontros que ocorrem nos «humores da cidade, entre sol e neblina», destaque-se, ainda, as figuras femininas plenas de sensualidade, mesmo que em breves apontamentos como o da «mulher que, feminil, estende um tapete rosado».

Contrapondo-se aos homens da faina – «rudes e mal barbeados que sobem a rampa do cais acartando cabazes de fanecas acabados de chegar do mar» –, surgem surpreendentes figuras femininas, «talvez um pequeno cardume», numa aparição quase mística e repleta de erotismo:
«Com carícias lentas espantavam as algas e os pequenos mariscos que lhes tivessem ficado agarrados aos cabelos; com vigorosos arrepios, como guinadas de carpa, sacudiam a água das escamas. (...) Nestas escadas cantariam, pode-se sonhar à vontade, o seu agudo canto de encantar, semelhando golfinhos, semelhando baleias, semelhando o inaudível sussurro das anémonas e os murmúrios de todos os seres do mar. (…) Apenas confiavam, as sereias, nos marinheiros ébrios e nos contadores de patranhas, com os quais se entregavam, calhando, a fogosas e inverosímeis noites de amor. Metade fêmeas, metade peixes, tinham todo o mel nos lábios e nos bicos dos seios, toda a pimenta nos cabelos longos, todo o colorau e o gengibre todo nas partes humanas do corpo. Ai o viço e o encanto. Abaixo, nas escamas prateadas, temperadas só com sal, ficava o tremor da paixão, o arrepiado amplexo dos brilhos náuticos.».

Evasão – os pássaros do Sul

Embrenhado na cidade, o autor lança um olhar ao largo, numa manifesta evasão. A metáfora do ir /libertar-se surge com os pássaros que passam na rota para o Sul: «havia hoje, ao entardecer, loucos bandos de pássaros voando nos céus da minha cidade. Iam para sul, eu sei. E como entendo a sua fuga!»; «não há sequer pássaros no céu, porém, e os braços das árvores estão nus. O ar não aquece. O corpo encolhe e arrepia-se. Invejo, por isso, todos os bichos da criação que, chegada a invernia, se refugiam no Sul, na metade da terra que é Verão.». Também o vento surge como incentivo à fuga: «o vento tem mil demónios soprando na tarde: assobiam-me, chamam-me, dizem-me que vá.».

O plano irreal irrompe pelo plano real. Engaiolado, detém-se na observação de gaiolas vazias para logo fechar os olhos e, assim, poder «viajar para longe, para o início dos tempos. Estar na cidade e ir ao pedaço de paraíso a que cada homem tem direito – nem que seja por um instante e nada mais.». Ainda neste exemplo percebe-se que a fuga é, todavia, impossível. Essa impossibilidade é o motor da criação destas palavras espraiadas por 142 páginas.

Diz o autor que «tal como a viagem, tal como as cores deste sítio, essa ideia abandonada talvez precise apenas de um raio de sol que a aqueça e dê brilho. Que a faça boa.». Manuel Jorge Marmelo dá-nos uma antologia de luz sobre a sua cidade com que se aquecem bons momentos de leitura.

O Porto: Orgulho e Ressentimento, Manuel Jorge Marmelo, Editora Campo das Letras, Porto, Janeiro 2006

© Teresa Sá Couto


* Dedico este meu texto aos fotógrafos Manuela Vaz Marques e António Amen pelos olhares devotos à cidade do Porto

sábado, 16 de maio de 2009

História do Cinema Português (de 1931 a 2004)

Com o título Cinema Português através dos Seus Filmes se colmata uma lacuna na publicação de estudos sobre a história do cinema em Portugal. Vocacionado para estudantes de cursos superiores relacionados com o audiovisual e o cinema, cinéfilos e todos os interessados na sétima arte portuguesa, o livro contém a análise crítica de dezoito pesquisadores nacionais e internacionais a 23 longas-metragens, desde A Severa de José Leitão Ramos (1931) até Noite Escura de João Canijo (2004).

São também seis capítulos de uma longa-metragem que nos caracteriza, portugueses, no ser e na estética do olhar: no exílio e regresso da imigração de Gado Bravo (1933-34), na ruralidade pitoresca que inspira a comédia da grande Aldeia da Roupa Branca (1938), no drama de um destino ditado pelo mar de Nazaré (1952), no saudosismo campestre amordaçado na cidade de Os Verdes Anos (1963), no telurismo das penedias de Trás-os-Montes (1976), nos encapotados e burlescos capítulos dos Brandos Costumes (1972-1975), no grotesco da desagregação humana ou A Comédia de Deus (1995), na nova Tentação (1997) ou na disfuncionalidade familiar da sociedade actual de Os Mutantes(1998).

Com a chancela da Campo das Letras, a obra é rigorosa, bem documentada e bem organizada por Carolin Overhoff Ferreira – resultado de uma metodologia que confere fácil manuseio e o garante da informação exacta no lugar certo. Ressalva para o facto deste Cinema Português através dos Seus Filmes parecer ser o resultado de sinergias críticas em torno dos filmes nacionais, porquanto se unem nas abordagens nomes portugueses e estrangeiros; sinergias que sempre têm acompanhado e até tido um papel determinante nos planos e execução do nosso cinema desde os anos 30, prova de cumplicidade internacional nos projectos artísticos dos teimosos realizadores lusos que, tradicionalmente, têm poucos apoios em Portugal, demonstrado nas páginas deste livro, filme após filme.

Assim, colaboram na obra, Bárbara Barroso, Carolin Overhoff Ferreira, Fausto Cruchinho, Jorge Campos, Jorge Leitão Ramos, Jorge Seabra, José de Matos-Cruz, Lisa Shaw, Luís Reis Torgal, Malte Hagener, Maria do Rosário Leitão Lupi Bello, Martin Barnier, Oliver Vogt, Paulo Cunha, Paulo Filipe Monteiro, Paulo Jorge Granja, Randal Johnson e Ronald Balczuweit.

Duzentas e sessenta e três páginas compreendem 6 capítulos que organizam a análise crítica dos filmes por décadas, com títulos referenciais da focalização pretendida (Os anos 30 e 40: A primeira e única indústria; Os anos 50: Estagnação e Neo-Realismo; Os anos 60: Um cinema novo; Os anos 70: Após o 25 de Abril; Os anos 80: Entre a escola portuguesa e o cinema comercial; Dos anos 90 até à Actualidade: O cinema contemporâneo). No final, são inseridos dados sobre a Filmografia apresentada – com a respectiva ficha técnica dos filmes analisados –, um Índice de realizadores e filmes citados, e Notas sobre os colaboradores.

Que futuro? Cinema Comercial ou de Autor?

Qual o futuro do cinema português, como se acaba com a indiferença do público para com o seu cinema de autor – que se lhe afigura elitista –, que faz mais sucesso no estrangeiro do que por cá (sacrifica-se a qualidade pelas receitas de bilheteira ou educa-se o público para a qualidade ou procura-se o equilíbrio?) são questões que se colocam há cerca de trinta anos e que esta obra volta a relançar, agora com todos os instrumentos para uma reflexão longa e capacitada.

Diz Carolin Overhoff Ferreira, incluído na análise que faz ao filme O Lugar do Morto (de António Pedro de Vasconcelos, 1984), que «segundo João Bénard da Costa, o debate entre cinema de autor iniciou-se em 1978 por causa dos êxitos internacionais e fracassos nacionais de Amor de Perdição (Manoel de Oliveira, 1978) e Trás-os-Montes (António Reis e Margarida Martins Cordeiro, 1976)» referindo também que em 1982 o debate tornou-se polémica quando o já extinto Instituto Português do Cinema /IPC suspendeu os planos de produção cinematográfica, alegando falta de verbas, a que se juntaram dirigentes políticos em reclamação de um «cinema mais acessível ao grande público, ou seja “filmes para Bragança e não para Paris”».

No centro daqueles tempos de polémica surgia o filme que bateria todos os recordes de público até então em Portugal: O Lugar do Morto que, no seu género híbrido com características de film noir, se juntava ao género de sucesso com tradição em Portugal desde os anos 30, a Comédia. Refere-se que o filme conseguia 271 845 espectadores, só sendo batido até hoje por Tentação (Joaquim Leitão, 1997), com 361 312 espectadores e O Crime do Padre Amaro (de Carlos Coelho da Silva, 2005), com 380.652 espectadores, filme este que colheu a negativa da crítica.

Atentando nas análises crítica feitas aos quatro filmes escolhidos para o capítulo dedicado ao cinema contemporâneo, deparamo-nos com diversidade estética e de conteúdo, com três dos autores reconhecidos internacionalmente (João César Monteiro, com A Comédia de Deus, considerada a sua obra-prima; Teresa Villaverde, com Os Mutantes e João Canijo, com Noite Escura, e um êxito de bilheteira, o Tentação, de Joaquim Leitão, filme que contou com um novo tipo de parceria - que parece ter vindo para ficar enquanto aposta comercial e capaz de dar grande difusão aos filmes - entre a produtora, distribuidora e um canal de televisão privada.

Diz a autora coordenadora desta obra que, neste momento, «o cinema participa na discussão sobre o rumo de Portugal para uma nova identidade europeia, porém, com um legado extremamente autoritário». Cremos que este imprescindível livro terá um papel importante nas reflexões e, pela frutificação delas, quiçá, na definição desse percurso de identidade. A adquirir antes que desapareça do mercado.

Cinema Português através dos Seus Filmes – Vários Autores – Carolin Overhoff Ferreira (coordenação); Editorial Campo das Letras, Porto, Julho 2007

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 14 de maio de 2009

«O Amor Infinito de Pedro e Inês»

Editado no cair do ano de 2005, quando se concluiam as celebrações nacionais dos 650 anos da morte de Inês de Castro, «O Amor Infinito de Pedro e Inês» de Luís Rosa voltou a ser relançado, neste ano de 2009.

A Paixão trágica de Pedro de Portugal e Inês, que se transformou no mito que tem preenchido o nosso imaginário colectivo, devido à recriação literária de Camões ao cantar a história crua da «mesquinha que depois de morta foi rainha», tem neste romance uma nova porta exploratória: a porta grande da meditação sobre o amor e a loucura: «Não sei se se ama alguém com loucura, ou se se ama a loucura por motivo de alguém»; a porta da reflexão maior sobre o tempo e o seu compromisso com a palavra escrita: «O vento faz o seu caminho e o apaga na passagem. Só o homem tem sempre vontade de voltar ao impossível».

A história da «larga rua da vida» com memória perene inicia-se no dia da loucura, o dia de «terminação aziaga», 7 de Janeiro de 1355, dia da morte de Inês, a dama do «colo da garça». Sendo o amor trágico dos amantes a acção central da narrativa, a urdidura reconstrói a época com densidade psicológica e envolvência reflexiva: «Cada tempo tem os seus ódios próprios e as amizades convenientes. E também as suas coincidências. Branco e negro como o lado do ser e do seu oposto. Aquilo que o homem é. Um pequeno mundo onde se trava a luta do bem e do mal.». As lutas fratricidas pelo poder entre Castela e Aragão assombravam Portugal, agora por causa de Inês de Castro, nome maldito que iria enredar este país naquela «teia interminável». As analepses estruturam e explicitam o enredo. As prolepses definem-lhe o sentido futuro.

A desmesura de Deus e dos homens…

Em torno deste episódio trágico pululam mitos e lendas que muitas vezes se sobrepõem à verdade histórica. Todavia, defende-se, «a lenda é o que fica da vida. E a própria vida é uma lenda que se vai amplificando para além da morte.». A narrativa aponta para um destino onde confluem a desmesura de Deus e a desmesura dos homens. Fala assim, o belo texto: «o amor é esse voejar incerto por um céu de fragilidades errantes. Nunca se sabe onde há mais horizonte aleatório, nem onde existe força para voar no espaço vacilante. Apenas se sente a liberdade de estar preso, e não ser capaz nem querer romper as cadeias de tudo e nada.»; «Às vezes, para descobrir a verdade basta abrir os olhos. Pelo caminho ficam os actos em pedaços. Só no fim do caminho longo se juntam os pedaços e se vêem à distância as cores da insensatez.».

Pedro decidiu viver o seu amor: «a vida é breve. A alma é extensa e vária. Vive-se de acordo com o modo que os outros querem ou segundo a escolha da sua própria construção. O viver? É essa a relatividade das coisas. Para Pedro a vida vivia-se desmesuradamente. A justa medida é apenas o modo de apaziguar o louco que há dentro de cada um. Só um grande amor entende os limites que não pode ter para ser grande.».

Pedro, «rei excessivo, tão grande quanto infeliz», tartamudo, «temeroso em assuntos de transcendência», que fizera da justiça o ceptro da governação, neto de D. Dinis - o rei Trovador, o que teve a «premonição dos poetas e a epopeica visão do mar» -, e neto de Isabel de Aragão - a senhora que o povo fez santa -, deixava, além dos filhos de Inês, um filho de uma galega, Teresa Lourenço. Chama-se João, tal como o filho mais velho de Inês. Com seis anos, foi nomeado, Mestre de Avis, rodeado de monges e cavaleiros, «sob o olhar zeloso do D. Abade de Alcobaça, como se ali fosse o futuro do mundo». Era esse menino que perguntava se podia entrar pela «Porta do Mundo», Ceuta, o portal cobiçado. O tempo havia de «joeirar a escolha». O futuro histórico iria dar a resposta ao magnânimo menino e ao povo português.

«O rei Pedro de Portugal ia a caminho do fim dos seus dias. Caminhara em poucos anos um caminho longo e um amor infinito. De tudo o que era perene deixaria a lembrança desse grande amor e aquele menino, Mestre de Avis, a quem o destino sorria. Mas os homens que semeiam o futuro são assim. Um bocado de tudo e um pouco de nada. O excesso numa das mãos e a contenção na outra. O infinito é isso. O que existe e não existe, ao mesmo tempo.».

«A porta do mundo» de Luís Rosa

A narrativa ergue-se com uma prosa poética engenhosa, encantadora e encantatória, pejada de imagens, sons, cumplicidades: «porque não havemos de inventar palavras? Entendê-las pelo caminho dos sons e levá-las até ao limite, para ver se alargam o pensamento». É a emergência da criação, das palavras que «dentro de nós esperam para serem ditas». «Estranha coisa é o tempo que de vez em quando acorda e quer mostrar o tempo dos tempos», lê-se. Magnífica literatura esta que nos acorda as veias do tempo que nos compõe, acrescento. Ainda: «O tempo é como um livro de uma palavra só. Lê-se com todos os sentidos que contém ao virar das folhas. São as folhas que passam. Permanece o entendimento. (…) Restamos nós, interrogantes, rasto do que foi e é, à espera da palavra de amanhã.».

Conclua-se, então, que «O tempo é apenas uma aparência. O espírito sopra onde quer, quando quer. O que deve ser feito é que procura o tempo próprio. Não como os homens julgam. Imediato é o homem e a sua dimensão das coisas. Perene é o destino.». Perene será, certamente, a criação deste autor. Tal como Bartolomeu de Molianos o artífice que «prendia as almas» na pedra calcária branca e que esculpiu as narrativas do amor infinito nos túmulos de Pedro e Inês, em Alcobaça, também Luís Rosa, nascido em Alcobaça, deixa-nos esta narrativa de 195 páginas capaz de cinzelar muitas almas.

O Amor Infinito de Pedro e Inês, Luís Rosa; Editorial Presença, Lisboa, 2ª edição, 2009

(to Artur)

© Teresa Sá Couto

terça-feira, 12 de maio de 2009

Encontros com a Luz - Pinturas de Adão Cruz

«A minha pintura procura desnudar a própria sombra», diz Adão Cruz, médico cardiologista, ficcionista, poeta e pintor nascido em 1937. A pintura de Adão Cruz é «o canto da arte e da vida», disse o poeta Albano Martins. Para o conferir, ver, sentir e ouvir aquela «espécie de expressionismo ficcionista do sentimento» que nega a ditadura do tempo, temos o belíssimo e majestoso álbum «Hora a hora rente ao tempo», editado pela Campo das Letras, e a procurar urgentemente.

São sessenta e duas pinturas, distribuídas por outras tantas páginas feitas galerias de revelação indiscreta das nossas emoções, sentimentos, quimeras, frustrações, inquietações mais secretas que nos acordam, interrogam e reestruturam, possibilitando-nos uma experiência vivencial imperdível.

Precedendo as imagens, Adão Cruz apresenta um texto de reflexão sobre a Arte – preferindo designá-la por sentimento artístico –, sobre o que ela transporta e como deve ser recepcionada. Enquanto médico, remete uma possível definição a ser dada, um dia, pela neurobiologia; enquanto artista, recusa-lhe a amarra da definição e prefere deixá-la à sua natureza, soltá-la para que se cumpra em liberdade, tanto na liberdade de quem a executa como de quem a contempla: «o espectador deve deixar-se levar pelo que ecoa dentro dele, sem pretender colar-se ao que deve ser, ou àquilo que nos disseram que é ou que lá existe. A obra pode ser o que somos e muito pouco do que lá está.».

Uma utopia de liberdade

Escreve Adão Cruz no poema que abre o Álbum, e a voz do sujeito poético poderia muito bem ser a voz de alguém que observa, escutando-se, as telas do pintor e a partir delas se liberta: «Um dia me darei conta /do teu corpo infindável. /Um dia me darei conta /do tempo que não se perde para lá das formas /do tempo em que não murcham os rebentos /cálidos da minha carne /e o sangue não perde o fulgor /das cores abertas ao sol. /Um dia me darei conta /e nesse dia gostaria de partir.».

Tomar consciência e libertar-se, compreender e tomar a vida, sentir e comprometer-se na luz das novas emoções são os impulsos transmitidos ao espectador da obra de Adão Cruz.

São-no perante o abraço da mãe à criança ou o abraço do casal – a um mesmo tempo seguro e protector, intimidado e transitório –, na massa humana que reivindica a sua liberdade ou grita o seu sofrimento, no homem que trabalha semeando ou desfazendo a sua vida, mostrando-nos o chapéu que lhe esconde o rosto ( ver imagem).

A Arte é a descoisificação das coisas: «Os materiais em si são inertes. Mas ganham vida ao mais pequeno movimento», diz Adão Cruz, especificando: «a tela, os pincéis, as tintas são coisas que vão perdendo a sua natureza de coisas, à medida que as coisas vão sendo trabalhadas se vão transformando em imagens e em vivências».
Diz o pintor que a Arte é uma «criação mental gerada a partir das coisas da Natureza, transformadas pelo mundo interior do artista e plasticamente traduzidas em beleza por mãos ensinadas quer geneticamente quer de forma adquirida, só ganha vida se correr pelas suas veias o sangue da poesia. Por isso eu digo que a poesia é a alma de qualquer obra de Arte.»

Por isso, «a Arte é uma relação de vida»: ela é sempre uma «prática de meditação, uma tomada de consciência, a livre expansão de nós mesmos, inteligência viva, diálogo e libertação das forças vitais dentro de uma disciplina ética. Dito de outra maneira, a Arte é sempre impacto, desconcerto de espírito e agente de transcendência das formas físicas e de mudança das formas de ver e pensar.».

Hora a hora rente ao tempo, Adão Cruz; Editorial Campo das Letras, Porto 2007

página de Adão Cruz, AQUI

© Teresa Sá Couto