Texto pronunciado na sessão do lançamento, a 18 de Junho de 2009, na livraria da Assírio & Alvim da Passos Manuel.Dez mil dólares. É esta a munição e o disparo de Mulher e Arma Com Guitarra Espanhola, o último livro da trilogia Dennis McShade, pseudónimo de Dinis Machado, escrita entre 1967 e 1968, agora reeditada pela Assírio & Alvim. À maneira do humor “machadino”, são dez mil dólares para o fim de uma saga escrita num ano por vinte contos de réis.
E se o leitor, que leu os anteriores Mão Direita do Diabo e Requiem para Dom Quixote, se prepara para mais um tomo irrepetível, não divisa, todavia, a surpresa da nova leitura, nem que acatará com um sorriso a sentença maynardiana: «o homem que se surpreende não é adulto». Tanto mais que o espanto terá novo episódio no perturbador Blackpot, um inédito a editar no fim do ano.
Por causa de dez mil dólares, o escrupuloso assassino profissional Peter Maynard embaraça-se numa organização nazi americana; para os descobrir, recebe o Contrato; devido a eles, desenvolve novas estratégias de sobrevivência; na peugada deles, confronta-se com a sua consciência; motivada por eles, a palavra detém-se na realidade, num engajamento social, filosófico, político e até lírico: «as palavras servem para muita coisa. Com elas, podem encher-se sacos de silêncio.».
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Tudo isto é muito estranho para um policial? É. Mas é precisamente devido a esta genial estranheza que estes livros de bolso, a disfarçar a fina literatura, não envelhecem.
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Dinis Machado apostou transformar o policial negro e «a transformação operou-se», como o próprio escrevia na Nota do Editor: «o género policial, que se bastava com uma só face da realidade, quantas vezes apenas aparente, tende a desdobrar-se em vários planos, procurando pistas de vida em todas as direcções que a vida tem».
Se toda a realidade está na mente do observador, em Peter Maynard, o intelecto é a vigília. De forma assombrosamente natural, surge uma estética literária a evidenciar a autonomia de Dinis Machado face às regras dos policiais que, aliada à autenticidade – na sua visão da natureza humana e das mutações do mundo – legitimam o valor artístico da obra e conferem-lhe o carácter vanguardista, que se mantém, quarenta anos depois.
Como o título deixa lobrigar, neste Mulher e Arma Com Guitarra Espanhola impera o feminino: Peter Maynard, o «mão direita do diabo» que usa pistola e silenciador, que tem um negócio privado e a vaidade de escolher os contratos que faz, recebe o contrato «Nora», mulher de um malandro, «homem de uma baixeza quase integral» e um fatalismo “dostoiewskeano”, que contrata um assassino profissional para a eliminar, o qual desaparece com o adiantamento de dez mil dólares sem executar o trabalho.
Um «problema de alcova», marca pusilânime do homem, o que agasta Maynard, que defende que «Para andar direito na vida, qualquer homem precisa da sua costela espartana»; feminina é, também, a arma espanhola que o ataca, uma navalha de ponta e mola com uma longa tradição em questões passionais e vinganças; a comandar as operações está, desta vez, uma mulher, e até Sinatra no gira-discos é destronado pelas guitarras de Segóvia e de Yepes. E, claro, há sempre a presença de Olga, a única mulher do mundo com a qual Peter Maynard tem «questões de pele eternamente por resolver», nos braços da qual se sente mar. Indubitavelmente, Maynard encerra uma tese, agora engenhosamente robustecida, sobre o feminino, nos seus múltiplos e insondáveis enigmas: mulher, o céu e o inferno, o alento e a debilidade, o afago e a traição, Penélope e Circe.
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O conflito de uma consciência
Paradoxais e inéditos são, ainda, os monólogos maynardianos, desta vez difundidos por sonhos. Maynard, «um assassino profissional específico. Um assassino profissional com consciência. Um conflito vivo» que, por isso, tem uma úlcera que «vai e vem. Como os barcos», é levado «pela outra úlcera, a que não pára e vive nos miolos. Uma merda chamada cosa mentale pelos intelectuais sofisticados.».
O drama interior da consciência em monólogo consigo irrompe em fragmentos dispersos e desfigurados do real, ordenados caoticamente, prenhes de sentidos “sem-sentido”, à maneira de Kafka. E porque a consciência de Maynard tem um compromisso activo com o mundo, os monólogos fluem no questionamento da existência humana, dão eco à consciência funda de alienação e angústia, juntam, no teatro do absurdo, pantomina em palco, as nostalgias, a futilidade, o erotismo, o irracional, a dor, o riso, o grotesco e tudo o que em nós acorda o número do palhaço.
Em jogos cénicos, onde convivem o drama humano e o humor irónico e satírico, surge-nos Maynard, no bar vermelho de bebidas vermelhas chamado «As vinhas da Ira», onde os convivas têm nomes de escritores como Zola, Baudelaire, Marx, Neruda, onde até Aristóteles é amigo de Picasso, onde Maynard escolhe ser Confúcio ou Branca de Neve, revê a infância, a morte do pai, e confronta-se com os seus fantasmas; ou Maynard no fundo do poço, no eterno combate contra a parede que o quer esmagar, que é, afinal, o combate contra a escuridão da existência, como o é, ainda, o veiculado por esta literatura iluminada.
* Nota: Disponível há cerca de dois meses, este Mulher e Arma Com Guitarra Espanhola é o ensejo para um conjunto de actividades de homenagem a Dinis Machado, falecido em Outubro último: o livro foi oficialmente apresentado dia 18 de Junho, na livraria da Assírio & Alvim e, no final do mês, as honras mudam-se para o Bairro de Dinis Machado, com tertúlia na Fnac do Chiado. O texto que aqui se edita foi o pronunciado na sessão do lançamento.
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Dinis Machado apostou transformar o policial negro e «a transformação operou-se», como o próprio escrevia na Nota do Editor: «o género policial, que se bastava com uma só face da realidade, quantas vezes apenas aparente, tende a desdobrar-se em vários planos, procurando pistas de vida em todas as direcções que a vida tem».
Se toda a realidade está na mente do observador, em Peter Maynard, o intelecto é a vigília. De forma assombrosamente natural, surge uma estética literária a evidenciar a autonomia de Dinis Machado face às regras dos policiais que, aliada à autenticidade – na sua visão da natureza humana e das mutações do mundo – legitimam o valor artístico da obra e conferem-lhe o carácter vanguardista, que se mantém, quarenta anos depois.
Como o título deixa lobrigar, neste Mulher e Arma Com Guitarra Espanhola impera o feminino: Peter Maynard, o «mão direita do diabo» que usa pistola e silenciador, que tem um negócio privado e a vaidade de escolher os contratos que faz, recebe o contrato «Nora», mulher de um malandro, «homem de uma baixeza quase integral» e um fatalismo “dostoiewskeano”, que contrata um assassino profissional para a eliminar, o qual desaparece com o adiantamento de dez mil dólares sem executar o trabalho.
Um «problema de alcova», marca pusilânime do homem, o que agasta Maynard, que defende que «Para andar direito na vida, qualquer homem precisa da sua costela espartana»; feminina é, também, a arma espanhola que o ataca, uma navalha de ponta e mola com uma longa tradição em questões passionais e vinganças; a comandar as operações está, desta vez, uma mulher, e até Sinatra no gira-discos é destronado pelas guitarras de Segóvia e de Yepes. E, claro, há sempre a presença de Olga, a única mulher do mundo com a qual Peter Maynard tem «questões de pele eternamente por resolver», nos braços da qual se sente mar. Indubitavelmente, Maynard encerra uma tese, agora engenhosamente robustecida, sobre o feminino, nos seus múltiplos e insondáveis enigmas: mulher, o céu e o inferno, o alento e a debilidade, o afago e a traição, Penélope e Circe.
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O conflito de uma consciência
Paradoxais e inéditos são, ainda, os monólogos maynardianos, desta vez difundidos por sonhos. Maynard, «um assassino profissional específico. Um assassino profissional com consciência. Um conflito vivo» que, por isso, tem uma úlcera que «vai e vem. Como os barcos», é levado «pela outra úlcera, a que não pára e vive nos miolos. Uma merda chamada cosa mentale pelos intelectuais sofisticados.».
O drama interior da consciência em monólogo consigo irrompe em fragmentos dispersos e desfigurados do real, ordenados caoticamente, prenhes de sentidos “sem-sentido”, à maneira de Kafka. E porque a consciência de Maynard tem um compromisso activo com o mundo, os monólogos fluem no questionamento da existência humana, dão eco à consciência funda de alienação e angústia, juntam, no teatro do absurdo, pantomina em palco, as nostalgias, a futilidade, o erotismo, o irracional, a dor, o riso, o grotesco e tudo o que em nós acorda o número do palhaço.
Em jogos cénicos, onde convivem o drama humano e o humor irónico e satírico, surge-nos Maynard, no bar vermelho de bebidas vermelhas chamado «As vinhas da Ira», onde os convivas têm nomes de escritores como Zola, Baudelaire, Marx, Neruda, onde até Aristóteles é amigo de Picasso, onde Maynard escolhe ser Confúcio ou Branca de Neve, revê a infância, a morte do pai, e confronta-se com os seus fantasmas; ou Maynard no fundo do poço, no eterno combate contra a parede que o quer esmagar, que é, afinal, o combate contra a escuridão da existência, como o é, ainda, o veiculado por esta literatura iluminada.
* Nota: Disponível há cerca de dois meses, este Mulher e Arma Com Guitarra Espanhola é o ensejo para um conjunto de actividades de homenagem a Dinis Machado, falecido em Outubro último: o livro foi oficialmente apresentado dia 18 de Junho, na livraria da Assírio & Alvim e, no final do mês, as honras mudam-se para o Bairro de Dinis Machado, com tertúlia na Fnac do Chiado. O texto que aqui se edita foi o pronunciado na sessão do lançamento.
Nota: Este texto está editado, desde dia 22 de Junho no renovadíssimo site Orgia Literária.
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História, literatura e actualidade: são estes os campos dos novíssimos lançamentos da Campo das Letras. Deixo, para já, estas breves notas.
















