segunda-feira, 17 de agosto de 2009

123 anos com Cesário Verde

(Texto editado hoje no sitio da Orgia Literária)
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Cesário Verde arranca facilmente paixões a quem o lê e, sobretudo, a sensação persistente do muito que há por descobrir no olhar do poeta que assim clamava: «Ah! Ninguém entender que ao meu olhar / Tudo tem certo espírito secreto!». Trata-se de um olhar cheio de realidade que apreende uma Lisboa antropomórfica, dos sentidos apurados, da luz e da transfiguração que esculpem a poesia, da contundente crítica social, do pungente retrato da condição humana, que ele nos deixou, a título póstumo, num diamante poético magistralmente lapidado: O Livro de Cesário Verde.

Criticado e desprezado no seu tempo – pelo «sentimento dum ocidental» de estilo novo, à maneira de Baudelaire e dos parnasianos, que chocou a enquistada elite cultural do Portugal oitocentista –, Cesário disse: «Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso, / Os pegos abismais da minha vida. (…) E eu hei-de, então, soltar uma risada…». E nós ouvimo-la, real, intensa e sonora através de uma poesia onde o prosaico e a reportagem artística se convertem em grande literatura.

José Joaquim Cesário Verde nasceu a 25 de Fevereiro de 1855, em Lisboa, e morreu precocemente a 19 de Julho de 1886. A tuberculose, vulgo tísica, que o vitimou, aparecia como o epílogo de uma geração que, assim, se esvaía: «E que fazer se a geração decai! / Se a seiva genealógica se gasta! / Tudo empobrece! Extingue-se uma casta! / Morre o filho primeiro do que o pai!».
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Neste contexto de morte que assolava o Portugal de oitocentos – a juntar epidemias de febre-amarela e Cólera –, a poesia de Cesário aparece como baluarte de resistência às trevas, um grito de sobrevivência num projecto intemporal: «Se eu não morresse, nunca! E eternamente / Buscasse e conseguisse a perfeição das coisas…». Iria encontrar a perfeição na poesia de palavras «salubres e sinceras», com que transfigurou a realidade imperfeita. Poeta Realista, Cesário deambulou no real urbano, na cidade de Lisboa, captando-lhe retalhos de vida; Impressionista, fez do cosmopolitismo doentio quadros pintados «com letras e sinais», luz e sombra, cheiros e sons: «Eu tudo encontro alegremente exacto, / Lavo, refresco, limpo os meus sentidos / E tangem-me, excitados, sacudidos, / O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto.».

Considerado o representante do Realismo Poético português, por retirar “toda a palha” à observação fiel, o seu exercício sobre o concreto é, no entanto, apimentado pela ironia e pela crítica sagaz e acutilante de quem tinha «riquezas químicas no sangue» e se revoltava com o que olhava. O «aconchego», a «vida fácil» dos burgueses e a «nódoa negra e fúnebre do clero» foram alvos da sua repulsa e, portanto, sujeitos à aclaração ou caso de «Manias!» de um poeta atento e crítico para quem «O mundo é velha cena ensanguentada, / Coberta de remendos, picaresca; / A vida é chula farsa assobiada, / Ou selvagem tragédia romanesca.». Em vivas «Horas mortas», denuncia um presente de vida falida, de frustração, de decadência colectiva, de um Portugal morto-vivo: «Mas se vivemos, os emparedados, / Sem árvores, no vale escuro das muralhas!… / Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas / E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.». São os «nebulosos corredores» da sua magistral poesia que capta, como nenhuma, a desagregação existencial: «E, enorme, nesta massa irregular / De prédios sepulcrais, com dimensões de montes, / A Dor humana busca os amplos horizontes, / E tem marés, de fel, como um sinistro mar!».

Nascido em berço burguês, via, no entanto, nas classes mais desfavorecidas a razão de Portugal, a vida da cidade, a energia portentosa dos seus versos. O trabalho dedicado dos humildes é recriado poeticamente em «Cheiro salutar e honesto ao pão no forno», e as mulheres irrompem com um poder quase místico: «Vêm sacudindo as ancas opulentas! / Seus troncos varonis recordam-me pilastras; / E algumas, à cabeça, embalam nas canastras / Os filhos que depois naufragam nas tormentas.»

No poema «Cristalizações», Cesário denuncia a opressão das classes trabalhadoras: «Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas! / Que vida tão custosa! Que diabo!». Segundo o poeta, esta é uma realidade imutável, um desígnio delatado assim: «Povo! No pano cru rasgado das camisas / Uma bandeira penso que transluz! / Com ela sofres, bebes, agonizas. / Listrões de vinho lançam-lhe divisas / E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!».

A mulher e a sexualidade

Figura central na poesia de Cesário, a mulher é muito mais do que a catalogada em “Mulher Anjo” e “Mulher Demónio”, como é ensinado na Escola portuguesa. O autor de «Ó áridas Messalinas» apresenta a mulher numa negociação da masculinidade como uma posição sexual, ela vem preencher o lugar do Outro, o lugar de inscrição da sexualidade do poeta. Por outro lado, a existência de mulheres de traços masculinos (como as hercúleas varinas de «O sentimento dum Ocidental» ou a vendeira de «Num Bairro Moderno») surgem com poder mítico a sublinhar o drama da identificação do corpo com um género sexual.

Abordando as temáticas da sexualidade e do papel da mulher na poesia cesárica – a cândida e virginal, mas também a lúbrica, a sensual, a libidinosa, as mulheres desprezíveis, mas atraentes –, Hélder Macedo (num artigo de 16 páginas, editado no livro Cesário Verde – Visões de Artista, da Campo das Letras, que reuniu as comunicações do colóquio dos 150 anos do nascimento do poeta) apresenta-nos leituras, desvela-nos significações metafóricas, surpreende-nos com o arroubo secreto dos textos.

Por exemplo, enquadrando as metáforas de “barco” ou barca – que significam a fálica sexualidade masculina – e “mar” – que transporta a «húmida sexualidade feminina», o ensaísta apresenta-nos uma leitura do soneto «Heroísmos», título «algo irónico» que «revela as ambivalências do jovem Cesário em relação às mulheres sexualmente vorazes que simultaneamente temia, desejava e desprezava, num encadeamento de emoções mal resolvidas e de comportamentos contraditórios que culmina na horrenda imagem de uma ejaculação profanadora no último verso». Transcrevemos um excerto desse poema:
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Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento,
O mar sublime, o mar que nunca dorme
(…)
Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n’água quase assente,


E ouvindo muito perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!

O Livro de Cesário Verde foi editado meses após a sua morte, em Abril de 1887, pelo amigo Silva Pinto, que incluiu na antologia apenas vinte e dois poemas, quando são conhecidos mais de quarenta. Cesário é o nosso eterno poeta; revisitá-lo não é uma obrigatoriedade, é uma necessidade que nos tange os sentidos.
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© Teresa Sá Couto

Antologia da Poesia Grega


Na azáfama dos dias em que o kitsch é rei, regressar à poesia helénica e a sua indemne sabedoria de pensar o ser humano, é motivo de júbilo. Por isso, é de saudar a edição do Antologia Da Poesia Grega Clássica, com tradução e notas complementares do poeta e tradutor Albano Martins, com a chancela da Portugália Editora.

Como informa na introdução Albano Martins, a «antologia tem como matriz de referência duas obras publicadas em França na segunda metade do século passado: Anthologie de la Poésie Grecque, de Robert Brasillac e La Couronne et la Lyre, de Marguerite Yourcenar.».
E são 547 páginas com estes nomes: Homero, Hesíodo, Arquíloco, Calino, Mimnermo, Tirteu, Álcman, Aríon, Sólon, Estesícoro, Íbico, Alceu, Safo, Anacreonte, Erina, Aristeu de Proconeso, Teógnis, Pitágoras, Simónides de Ceos, Calístrato, Xenófanes, Parménides, Píndaro, Ésquilo, Baquílides, Empédocles, Sófocles, Eurípides, Crítias, Aristófanes, Querémon, Cleanto, Filóxeno, Crates de Tebas, Menandro, Calímaco, Apolónio de Rodes, Teócrito, Herondas, Bíon, Mosco, Arato, Pseudo-Focílides, Anacreônticas, Meléagro, Esopo, Opiano, Bábrio, São Gregório de Nazianzo, Quinto de Esmirna, Sinésio, Apolinário, Nono, Proclo, Coluto, Museu, Paulo Silenciário.


O êxito

Granjear miséria e com abundância é fácil.
A estrada é plana e fica muito próxima.
À frente do mérito, porém,
puseram os deuses o suor: o caminho
para lá é longo e corre a pique;
é árduo ao princípio, mas,
quando se chega ao cimo,
embora difícil, depois parece fácil.

Hesíodo, p.p. 71, 72
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Eu penso, logo existo

Pois bem, eu vou falar, e tu escuta e retém as minhas palavras,
que te ensinarão as duas únicas vias do conhecimento que é possível conceber.
A primeira é o que é e que não pode deixar de ser.
É a via da persuasão, companheira da Verdade.
A segunda é o que não é e como é forçoso que não exista.
Digo-te: esta via é uma senda que não se pode percorrer.
Pois não poderás conhecer o que não é
nem exprimi-lo por palavras.

…Pois pensar é o mesmo que existir.


Parménides, p.175

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Quetzal no reencontro com Vergílio Ferreira

Aos mais distraídos, alerto para a reedição da obra completa de Vergílio Ferreira, em tomos individuais com esmero inaudito da Quetzal, para um reencontro de sempre.

Escritor de excelência, Vergílio Ferreira (1926/1996) é o ilustre representante do Existencialismo em Portugal; o “Eu” e o mistério da morte ocuparam grande parte da sua reflexão literária e a sua obra «Aparição» foi, ao longo de gerações, leitura obrigatória nos currículos escolares dos alunos do 12º ano.

Vergílio Ferreira procura nas coisas o seu «mistério e o seu alarme» que «são o tecido de tudo». Cônscio, defende que o homem é o que faz, responsável por todos os seus actos, e faz da palavra o meio para essa investigação humana. Sobre a razão da sua escrita, responde-nos assim:

«Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem e a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo.».

Sobre essa necessidade de escrita que nos despoleta a necessidade de o ler, transcrevo dois extractos do espantoso romance «Em Nome da Terra», escrito em 1989 e editado no ano seguinte. Outros extractos podem ser lidos na Casa Improvável.

Extractos:

«Um corpo apenas, material, verificável. Mortal. Mas o que sobrepus nele não se trespassa assim. É preciso atravessar o medo o deslumbramento o impossível. É preciso vencer o mistério – um corpo amado é tão misterioso. Meu corpo de ternura. Havemos de conquistá-lo até um dia. Até quando ele for insuportável de doçura. Devagar. Mas há a tua inquietação. A tua pressa ardência, deixa-me ter tempo de te criar. De te trazer toda às minhas mãos. De trazer até mim o teu olhar esquivo, os teus desencontros furtivos. A tua agilidade, o oculto de ti. O teu riso, a tua franja irrequieta. A rapidez de seres, a vitalidade desassossegada, a tua alegria agressiva. A intensidade de existires – devagar. Atravessar tudo até ao teu mito que está todo no teu corpo nu. Fica longe. Tanto. E então amámo-nos e tudo estava aí. Estava lá tudo ao mesmo tempo e eu estalava de agonia. E Deus olhava-nos e dizia está bem. Realizar Deus todo inteiro é difícil. Está bem. Tínhamos as galáxias do universo e havia ainda espaço. E isso era de endoidecer. Tínhamos em nós a sua expansão até ao rebentamento de nós. O desmesurado e incrível. Deus olhava o nosso esforço enorme e sorria por cumprirmos o seu poder. Gostava bem de ser calmo ao dizer-te. Um corpo cerrado num punho sangrento de homem. Ter-te toda de uma vez. As pernas os seios a boca. Apunhar-te toda na minha avidez. Mastigar-te integrar-te no meu sangue. E tu enovelada em mim, na angústia exaltação de uma morte que viesse. Desaparecermos no não-ser, na perfeição. E olhar por fim o teu corpo morto, reconhecermo-nos na materialidade expulsa do paraíso.».p. 102
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«E vão sendo horas enfim de descermos ao rio. Amanhã talvez? Hoje. Um dia. Estará uma noite quente, caminharemos de mãos dadas. O anjo não virá, que teria lá que fazer? Vamos sós. Não terei medo da tua presença com toda a sua força de me ajoelhar. Olharei o teu corpo na sua transparência incorruptível. Sofrerei em mim a descarga do universo e não gritarei o teu nome. Porque estará em mim e eu hei-de sabê-lo. A areia brilhará de uma luz pálida, pisá-la-emos devagar a um impulso fortíssimo e lento. Estaremos nus desde o início, sem vergonha anterior. Nudez primitiva, não a saberemos. Porque será uma nudez para antes de os deuses nascerem. Então mergulharemos nas águas do rio e deitar-nos-emos na areia. E olharemos o céu limpo e sem estrelas. E acharemos perfeitamente natural, porque a iluminação estará em nós. Erguer-nos-emos por fim e eu baixar-me-ei ao rio e trarei água na concha das mãos. E derramá-la-ei imensamente devagar sobre a tua cabeça. E direi para toda a história futura, na eternidade de nós
- Eu te baptizo em nome da Terra, dos astros e da perfeição.
E tu dirás está bem. » p. p. 270, 271


Em Nome da Terra, Vergílio Ferreira; Quetzal, 10ª edição, 2009


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

As perguntas de Neruda

Não deixa de ser curiosamente pertinente que a obra póstuma de Pablo Neruda se intitule O Livro das Perguntas, ele que passou a vida a interpelar o mundo com a palavra de pendor épico. «Como tiveram as uvas conhecimento / da propaganda do cacho?», questiona o poeta chileno numa metáfora que já deu o titulo ao As Uvas e o Vento, esse canto de propagação da esperança, editado entre nós há dois anos, e que ressurge, profícuo, em perguntas orvalhadas: «É verdade que as esperanças / devem ser regadas com orvalho?».

É um livro pequeno, editado há alguns meses, com 74 poemas curtos, e como todos os livros pequenos de grandes autores demora muito tempo a ler. Na nossa sensibilidade e na experiência dos dias, encontramos a resposta para algumas perguntas; outras são questões de retórica; outras, ainda, têm o peso do aforismo; todas têm a capacidade de nos deixar suspensos no seu eco. A tradução deste pequeno desassossego está entregue ao poeta e tradutor Albano Martins, que há muito traduz para a Campo das Letras as obras de Neruda, incluindo o incontornável Canto Geral.

«Há loucura maior na vida / que ter nome de Pablo Neruda?», «O que dirão da minha poesia / os que não tocaram o meu sangue?», «Posso perguntar ao meu livro / se fui eu que o escrevi?», pergunta Neruda sobre ele próprio, neste livro que já foi por muitos enunciado como o seu “testamento”, nomeação que considero ser exagerada já que temos de nos deter na valia da sua obra que, aliás, deu ao autor o Prémio Nobel da Literatura em 1971; o «Livro das Perguntas» é, indubitavelmente, uma síntese originalíssima e feita com mestria do seu programa literário. Humor e acidez crítica, companheirismo e cumplicidade, perda e fé são os trajectos centrais das inquirições.

Tingidos de misticismo, os elementos da natureza apoiam a reflexão sobre a condição existencial:

«Onde há-de viver um cego / a quem as abelhas perseguem?»
«Já contaram o ouro que há / no território do milho?»
«Se o amarelo acabar / com que havemos de fazer o pão?»
«As lágrimas que não se choram /esperam em pequenos lagos? / Ou serão rios invisíveis / que correm para a tristeza?»
«Porque se suicidam as folhas/ quando se tornam amarelas?»
«Sabes que reflexões / rumina a terra no Outono?»
«Porque é que a agricultura se ri / do pálido pranto do céu?»

Fortíssima, como Neruda nos habitou, a sua missão de denúncia política corre com raiva, ironia, solidariedade e desafio de tomada de consciência, semente da actuação:

«E sentar o triste Nixon / com o rabo sobre a braseira? / Queimando-o com fogo lento / de napalm norte-americano?
«Porque é que na Bolívia não amanhece / desde a noite de Guevara? / E o seu coração assassinado / procura ali os assassinos?»
«É verdade que sobre a minha pátria / voa de noite um condor negro?»
«É mau viver sem inferno: / não podemos reconstruí-lo?»
«Como conseguiu a liberdade / a bicicleta abandonada?»
«De que se ri a melancia / quando estão a assassiná-la?»
«Quando o preso pensa na luz /ela é a mesma que te ilumina?»
«Porque é tão dura a doçura / do coração da cereja? / É porque tem que morrer / ou porque tem de continuar?»
«Onde encontrar um sino / que soe dentro dos teus sonhos?»
«As lembranças dos pobres/ das aldeias juntam-se todas?»


Por consequência, o artífice da palavra feita arma questiona o seu próprio ofício e o preço a pagar por ele:

«Porque é que me picam as pulgas / e os sargentos literários?»
«Porque rolo sem ter rodas / e voo sem asas nem penas, / e o que me deu para emigrar / se os meus ossos vivem no Chile?»
«Foi onde me perderam que por fim / consegui encontrar-me?»
«Porque é que nos tempos sombrios / se escreve com tinta invisível?»


Livro das Perguntas, Pablo Neruda; tradução de Albano Martins; Campo das Letras, 2008

© Teresa Sá Couto

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Caleidoscópio feminino

Vinte e sete histórias do brasileiro Rubem Fonseca

Se «não há mulher que não sonhe em matar o marido», Francisca torna o sonho realidade; Guiomar faz com que o companheiro aprenda e realize por ela as tarefas domésticas; Luíza faz uma «ablação peniana» ao namorado; Zézé (Josefina) prepara-se para o Dia Internacional do Orgasmo; Belinha é assassinada pelo namorado, que é assassino profissional, pois ele fica escandalizado por ela querer matar o pai: estes são alguns motes para as histórias do Ela e as Outras mulheres, décimo primeiro título que a Campo das Letras editou entre nós do prolixo, carnal, desbocado e virulento escritor brasileiro Rubem Fonseca, Prémio Camões 2003.

São vinte e sete mulheres, uma para cada conto, construídas no quotidiano urbano violento. São adolescentes, jovens, adultas, de meia-idade e idade avançada; são vítimas, dedicadas, meigas, solitárias, manipuladoras, cerebrais, lascivas, ninfomaníacas, cleptomaníacas; são 148 páginas de histórias curtas, concisas e de enredos imprevistos, que se lêem de um fôlego, em apenas algumas horas.

Mesmo que em muitos contos Rubem Fonseca construa a psicologia feminina de forma estereotipada, cheia de lugares comuns, com moldes repetitivos de violência e sexo (obsessões na escrita do autor e que lhe têm granjeado críticas de ser um escritor comercial), noutros irrompe o processo de construção de histórias com fulgor quase genial. Em subsídio da leitura activa está, também, a componente cinematográfica das pequenas narrativas, velozes e dinâmicas, que prendem o leitor ao texto levando-o de surpresa em surpresa até aos finais inesperados, arrancando-lhe um sorriso ou uma repulsa, e nunca a indiferença.

Por ordem alfabética, vão surgindo os nomes das mulheres, titulando os contos, marcando diversas cadências na pulsação desta antologia.
Francisca, tal «como toda a mulher casada», vivia «tomando remédios aos montões para aliviar momentaneamente» a sua «insuportável carga de frustrações», até que um dia decide usar os seus medicamentos para mudar a vida. A resolução era simples: juntá-los à bebida do marido para depois o matar. Corre assim o texto:

Estava morta de cansaço quando cheguei à varanda, mas ainda tive forças para deitá-lo de barriga sobre a grade da varanda e depois agarrar suas pernas, levantá-las e impulsionar o corpo.
A queda causou um distante som oco ao bater na calçada.
Depois liguei para a polícia dizendo que o meu marido tinha bebido demais e havia caído da varanda. Acrescentei que ele era viciado em entorpecentes.
Voltei para a sala e bebi outra taça de champanhe. Adoçava a boca, antes de começar a comer o pão que o diabo amassou.
Depois, na frente do espelho ensaiei a história que ia contar para a polícia. Seu delegado, isso aconteceu no mês passado com o morador do 1201, que também misturava bebida com calmantes, era alto e gordo como o meu marido e caiu da varanda, a grade é muito baixa.
Ele provavelmente também foi empurrado pela esposa, mas esse final não ia contar.
Fiz minha cara de choro e as lágrimas escorreram. É fácil chorar se a pessoa está feliz.

A história de Belinha introduz a figura do assassino a soldo, muito cultivada na literatura brasileira e que se radica na violência real que grassa no país. Esta figura está incluída noutros contos desta colectânea, nomeadamente na história de Teresa, mulher que é salva por um destes assassinos que matam por dinheiro, mas «nem sempre»; e assim se mostra a dedicação das letras brasileiras pela exploração esta figura da violência nos seus múltipos contornos, filão para a sátira social.

Belinha tem dezoito anos, é menina de boas famílias, formada em bons colégios, fala francês e gosta do namorado bandido porque o «tesão» dele era verdadeiro. Mas a rapariga comete um erro de cálculo ao pedir-lhe que assassine o pai para ela ficar com o dinheiro, pois o namorado, assassino profissional que a adorava, tinha a sua honra, e descarrega-lhe a Walter «bem na nuca para ela morrer de maneira instantânea e sem dor.»: «Como é que alguém pode querer matar o pai ou a mãe?».

Ela e Outras Mulheres, Rubem Fonseca; editorial Campo das Letras, Porto, Fevereiro 2008


© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

«As Mulheres Deviam Vir Com Livro de Instruções»


Com as mulheres há que ter uma postura cartesiana: «primeiro destruir as opiniões e, depois, não confiar cegamente nos sentidos, tantas vezes ilusórios e falsos», ou então vê-se um tipo enredado «nas mais inverosímeis trapalhadas». Por isso As Mulheres Deviam Vir com Livro de Instruções.

Isto não é uma brincadeira. É até um caso muito sério. Um caso seríssimo espraiado em 141 páginas de barafundas, apimentadas por um humor fino e inteligente, com escrita dúctil, vibrante e coloquial. Uma comédia de costumes, de Manuel Jorge Marmelo, regozijo para os leitores, homens e mulheres de cá, mas já no lado de lá a falar castelhano: está editado em Espanha pela editora basca Txalaparta e, mais longe, em Itália, pela pela Vertigo Edizioni, Roma, 2008 (ver segunda imagem). Mais um voo português à conquista do mundo. E que voo!

Foi o primeiro livro traduzido de Manuel Jorge Marmelo. O acordo prevê a posterior edição em outros três países de língua castelhana da América Latina: Chile, Argentina e Uruguai. O autor nasceu no Porto em 1971. É jornalista desde 1989. Estreou-se nas letras em 1996 com O Homem que julgou morrer de amor/O caso virtual (ver na etiqueta correspondente ao autor).

O «As Mulheres Deviam Vir Com Livro de Instruções» apresenta-nos uma profusão de histórias burlescas e bem contadas, num processo narrativo sólido. O narrador, participante, mas não omnisciente, sobretudo no que diz respeito a mulheres, é Madureira, 43 anos, espécie de trolha, «canalizador-carpinteiro-pedreiro-pintor-mecânico-de-pequenos-electrodomésticos, formado na Faculdade da Necessidade», bígamo, casado “secretamente” com Uiko e Maria da Anunciação, com 3 filhos em cada família, e mais umas "aventuras". Porém, avisa, quanto mais mulheres, «mais discussões e os inconvenientes conjugais».

Esta polivalência fá-lo enredar-se com todos os outros: Noronha, dono de uma Agência de Inovação Ocupacional que arranja emprego a Maria Rosa com o advogado Francisco J. Morais, passando estes a ser amantes. O advogado Morais é um indivíduo sem escrúpulos, formado na Católica, casado com Belinha e pai de Catarina, bela miúda, mas mártir do visa gold. Belinda é uma trintona avançada, a quem a falta de homem na cama, dormem em quartos separados, «desperta-lhe apetites furacónicos», e por isso o professor de aeróbica tem dificuldade de escolher entre a mãe e a filha.

É sobre a movimentação feminina que o narrador faz as elucubrações e conjecturas, de tal forma enredadas que nem o leitor sabe como elas reagirão nos inúmeros desfechos. Fica provada a tese inicial: as mulheres são «um bicho fugidio» e criaturas imprevisíveis que sabem mais sobre o homem do que ele sobre elas.

A escrita é muitas vezes brejeira, mas, diz o narrador, «Não é a escrita que descamba; são os tempos». E não é raro estes tempos de escrita despoletarem-nos gargalhadas, ou sorrisos rasgados. Trava um diálogo directo com o leitor, desculpando-se ora das suas opiniões, ora desvalorizando o marfim que lhe cresce na cabeça, por obra da Maria da Anunciação, ora por isto e por aquilo, o que atesta a sua atrapalhação perante a imprevisibilidade feminina. Ou perante o mundo todo, sobre o qual confessa: «Aliás, o mundo todo devia ser servido com um manual detalhado, uma bibliografia inclusa – com dosagem recomendada e intervalos entre tomas – que a todos preparasse, à nascença, para os infinitos desaires que a vida nos reserva»
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As Mulheres Deviam Vir com Livro de Instruções, Manuel Jorge Marmelo, Editora Campo das Letras, Porto 1ª edição de 1999, 8ª edição de 2002

© Teresa Sá Couto

nota: dedico este texto ao meu amigo João Ferro, que o descobriu noutro blogue meu, antigo, o qual já me tinha esquecido que existia.

sábado, 8 de agosto de 2009

Passarola do padre Bartolomeu apresentada há 300 anos

A 8 de Agosto de 1709, em Lisboa, sob o olhar atento e desconfiado do Santo Ofício, o Padre Bartolomeu de Gusmão apresentava a Passarola Voadora, engenho que fazia dele o percursor mundial do balonismo. Decorridos 3 séculos, ainda nos apaixonamos pela história da ave grande numa espécie de navio, mas para navegar o ar, que tanto impressionou a corte portuguesa de setecentos. E é em nome desse assombro que registo esta minha homenagem.

Especialistas defendem que o invento que o padre Bartolomeu pôs a voar nada tem a ver com os conhecidos desenhos que o representam, sendo estes meros exercícios imaginativos. Porque o assunto é do foro do extraordinário, deixem-se as questões científicas e sigamos pela imaginação de José Saramago e pelo seu romance Memorial do Convento.

Assim, logo a saber, o sonho foi partilhado a três: o Padre, Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete –Luas, «casal ilegítimo por sua própria vontade, não sacramentado pela igreja», tendo Blimunda «mistério tão grande que voar faria figura pequena»: todas as manhãs antes de abrir os olhos, comia pão, pois em jejum conseguia olhar para «dentro das pessoas». Ficava claro que para se voar na atmosfera seriam precisas forças concertadas, do sol, do âmbar, dos ímanes, e das vontades – «pelos menos duas mil vontades que tiveram querido soltar-se por as não merecerem as almas, ou os corpos as não merecerem», que Blimunda guardaria em frascos –, e que as vontades seriam, de tudo, «o mais importante», sem elas a terra não os deixaria subir.

Soprando os espíritos nestes três sonhadores, havia que testar o sopro do vento. E testou-se a exótica passarola, numa aventura, que transcrevo da inventiva ficcional de José Saramago, sem interrupções.

O dia em que a Passarola voou

Nunca perguntamos se haverá juízo na loucura, mas vamos dizendo que de louco todos temos um pouco. São maneiras de nos segurarmos do lado de cá, imagine-se, darem os doidos como pretexto para exigir igualdades no mundo dos sensatos, só loucos um pouco, o mínimo juízo que conservem, por exemplo, salvaguardarem a própria vida, como está fazendo o padre Bartolomeu Lourenço, Se abrirmos de repente a vela, cairemos na terra como uma pedra, e é ele quem vai manobrar a corda, dar-lhe a folga precisa para que se estenda a vela sem esforço, tudo depende agora do jeito, e a vela abre-se devagar, faz descer a sombra sobre as bolas de âmbar e a máquina diminui de velocidade, quem diria que tão facilmente se poderia ser piloto nos ares, já podemos ir à procura das novas Indias.

A máquina deixou de subir, está parada no céu, de asas abertas, o bico virado para o Norte, se se está movendo, não parece. O padre abre mais a vela, três quartas partes das bolas de âmbar estão já à sombra, e a máquina desce suavemente, é como estar dentro de um bote num lago tranquilo, um jeito no leme, um harpejo de remo, as coisas que um homem é capaz de inventar.

Devagar, a terra aproxima-se, Lisboa distingue-se melhor, o rectângulo torto do Terreiro do Paço, o labirinto das ruas e travessas, o friso das varandas onde o padre morava, e onde agora estão entrando os familiares do Santo Ofício para o prenderem, tarde piaram, gente tão escrupulosa dos interesses do céu e não se lembram de olhar para cima, é certo que, a tal altura, a máquina é um pontinho no azul, como levantariam os olhos se estão aterrados diante de uma Bíblia rasgada na altura do Pentateuco, de um Alcorão feito em pedaços indecifráveis, e já saem, vão na direcção do Rossio, do palácio dos Estaus, a informar que fugiu o padre a quem iam buscar para o cárcere, e não adivinham que o protege a grande abóbada celeste aonde eles nunca irão, é bem verdade que Deus escolhe os seus favoritos, doidos, defeituosos excessivos, mas não familiares do Santo Ofício.


Memorial do Convento, José Saramago; Editorial Caminho, 15ª edição, Lisboa 1985


© Teresa Sá Couto

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Canto do Sul

Galardoado com o Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, A sul da escrita de Dora Nunes Gago, de 2007, faz jus ao patrono do Prémio: a escrita depurada e delicada é um hino à criação literária de autores nascidos no sul de Portugal, ao mesmo tempo que colhe a alma da terra exibindo-lhe as texturas, as melodias e os cheiros. Conto após conto, o leitor é envolvido em sinestesias que o catapultam para a única terra possível: a terra das casas brancas semeadas na planície tendo por tecto um azul infinito, das badaladas lânguidas dos sinos, do «canto trinado das cigarras», do «odor amarelecido do feno aquecido pelo sol quente», do amarelo odorífico das mimosas, do «cheiro forte da terra molhada e criadora».

O «panteão espiritual» do Sul começa com Ibn Amar, «poeta do Al-Garb», corre o ano de 1086. Narrado na primeira pessoa, o poeta, escravo e prisioneiro de guerra, encarcerado numa cela em Sevilha pelas mãos de Al-Mutamid, antes seu amigo, revê a sua terra, a sua vida, as escolhas e os caminhos que essas escolhas ditaram. Na claustrofobia do cativeiro, relembra traições, intrigas, invejas, ambições que «vão minando e corroendo os carácteres mais puros, como a traça faz no mais belo e rico tecido». Porém, o tecido da sua alma mantém incólume o ouro: enquanto espera pelo futuro, desenvolve a sua poética «depurada de toda a vileza e traição» e, com ela, tece a sua imortalidade.

Segue-se o ano de 1536 para se testemunhar o último suspiro de Garcia de Resende, o «poeta-amante que preferia a morte a viver sem a sua amada», que escreveu para o futuro a Cultura e a História portuguesas num legado abraçado, continuado e divulgado pelo poeta do mundo, que seria Luís de Camões. Ainda no século XVI, surge o eterno canto do rouxinol que, místico, canta a saudade e a alma exausta: Bernardim Ribeiro

Entra-se em 1859 com o canto de ternura de João de Deus. Puro na poesia, zeloso no ensino das primeiras letras, o autor da Cartilha Maternal cumpria a sua missão de corrente na lapidação da cultura portuguesa. Ainda no século XIX irrompe o «poeta, dândi, cronista e panfletário», o singular Fialho de Almeida.

O século XX traz a infeliz que vagueou pela vida «perdida nos seus devaneios»: Florbela Espanca. É o conto mais longo da série e recria pungentemente a vida triste da «Princesa desalento», os amores infelizes, a imaturidade afectiva, a má reputação, as tentativas de suicídio até ao consumado.

No sentido inverso do desprezo social surge o popular e amado António Aleixo, o ti Toino, com a sua vida de miséria que albergava a riqueza da alma. E corre assim o texto: «António sente-se feliz com o apoio do povo, apesar da doença que o vai consumindo, das forças que se esvaem, como a água através da peneira …Desconfia que o final se aproxima a passos largos. É nisto que vai meditando, a caminho do hospital, quase deitado no chão da carroça do seu vizinho, para ver se adormece a dor e a agonia. Todavia, não sabe ainda que quando deixar a vida, é nessas quadras soltas que a sua alma continuará viva, permanecerá de geração em geração, a ensinar a profunda e sincera filosofia da vida.».

Também Emiliano, penúltimo inscrito neste hino de Dora Nunes Gago, está quase a abalar da vida. O médico e «poeta da luz e da cor» conhece a dor da perda, pois está-lhe sulcada na existência. «Sentado no seu cadeirão, com uma folha de papel poisada no colo, toda a dor, o sofrimento, mas também as cores pujantes da natureza se convertiam em poesia.».

O canto finda com o esplendor da vida de Teixeira Gomes, sétimo Presidente da República (entre 1923-25), falecido a 18 de Outubro de 1941, na Argélia. Desde cedo conviveu com escritores, entre eles João de Deus e Fialho de Almeida. É no retiro argelino que produz muitas das suas obras reveladoras de um humanista preocupado com a justiça e seduzido pela sensualidade. Mas é também com este final que a autora dos nove contos abre as portas para o futuro, num claro desafio: não nos esquecermos dos que puseram o seu sangue no idioma, que é o nosso, é fazermos a parte que nos cabe, é garantir-lhes a imortalidade.

A Sul da Escrita, Dora Nunes Gago, Editorial Campo das Letras, Porto, Outubro de 2007


© Teresa Sá Couto


página de Dora Gago, AQUI

sexta-feira, 31 de julho de 2009

«O Romper das Ondas» de Rui Herbon

Texto editado no site Orgia Literária em 27 de Julho

A literatura contamina? Quantos dos nossos sentimentos serão uma invenção da escrita? Teremos nós originalidade para criar sentimentos próprios que não estejam escritos? O Romper das Ondas, o quarto e mais recente romance de Rui Herbon, que deu ao seu autor o Prémio Cidade de Almada, impele-nos a estas reflexões e ao questionamento do papel da actual literatura.

Num puzzle de inquietações, contra todos os comodismos literários e todos os lugares comuns, o texto mostra-nos como é necessário romper as ondas para lhes conhecer o interior, o mesmo é dizer, abri-las no silêncio estrídulo da página: «não há nada mais envilecido que a violência do silêncio», lê-se neste compêndio de indagação, que desbrava corredores escusos e sombrios do ser humano enquanto retrata uma geração citadina de «destino particular e europeu» e marcada pelas impossibilidades.

A abrir, uma música de fundo: «o adágio de Albinoni era zumbido entre obstinado e tranquilizador», contudo, «atrás da cortina monumental daquelas notas havia um sonoro interruptor de luz; um receio?». E o coração do receio fala pela voz duma jovem mulher, cujo nome só é referido, como que por acaso, no final do romance, facto nada isento, porquanto carrega a questão da procura da identidade. É uma mulher que chega a uma grande cidade, com um livro na bagagem, à espera do seu destino literário ou uma mulher que procura o «esplendor de uma voz». A música (inserida no vasto sistema de sons onde abundam rumores e ecos), a mulher e o livro são os três pilares que sustêm a complexa teia narrativa tecida com depuração e poesia.

A mulher sonha em cinemascope, e é assim que o texto avança, com o ritmo do pensamento das personagens achatado nas páginas, em fragmentos plenos de visualismo, com olhar sempre oblíquo, de dedução em dedução, pois «nada é exactamente o que parece ser», como no romance que a mulher traz na bagagem – o romance dentro do romance e ambos se contaminam –, onde «tudo ia e vinha, subia e descia, como a água, embaciando até o mais insignificante impulso para forjar um objecto conciso». Trata-se de um método que cria afecções, micro-desordens no que na vida temos por rotineiro, que age sobre objectos, acontecimentos, personagens, gestos, sentimentos, desestruturando “tudo” em «momentos que se dilatam, outros comprimem-se, outros suspendem-se».

Assim surge o crítico que vai analisar o romance da jovem mulher, e ambos protagonizam uma história de amor, um «vínculo fundado no respeito dos silêncios»: «Ele e eu, certamente, éramos como duas intrigas que guardávamos com cuidado de qualquer possível revelação», diz a mulher; a outra história de amor é a de um professor e a sua mulher, personagens chamadas ao romance, entre muitas outras com aparições mais ou menos fortuitas, como uma mulher com uma cabeça de medusa, um bêbado com ar de «soldado galhardo para produzir um arroto colossal», um estudante, mas todas a enformar a tese sobre «gente apanhada entre o cimento e a noite».

Em diálogo com o labiríntico da existência dos obstruídos, surgem os espaços, como o hotel com «tantas portas quantos os alvéolos de uma colmeia», uma espécie de réplica das casas da cidade: «pequenos conventos, pequenos cárceres»; surge o tempo, caótico, que às vezes confirma e outras desqualifica, entre recordações e avaliações, como a alcatifa vermelho berrante do hotel, «fiapos de um passado vermelho», a compendiar sensações nefastas e a reconsiderar a ausência de esperança; surge o perturbante quadro surrealista, com um sonho batido pelo uivo do vento e uma sineta, onde se juntam ratazanas, sangue e cinzas, vivos e mortos «confundidos no delírio da salvação»; surgem as linhas de força dos dois romances: «frustração, derrota e desprezo».

Noção de Voz e de Testemunha

«Você encontrava-se ali», «você mesma», diz o texto implicando o leitor na voz narrativa, levando-o a vestir a pele da mulher que o narra, sentindo-lhe os pés «intumescidos» pelo palmilhar da cidade, a Babel perfeita «para pessoas sem raízes ou enjoadas da ficção absurda da identidade», confirmando-lhe as «têmporas ardentes» de quem estudou para uma carreira inútil, atestando-lhe até a Anedonia, doença «cujos sintomas são a infelicidade e não encontrar prazer nas coisas que outros desfrutam». Com o fenómeno de linguagem que cria a ambiguidade da voz narrativa, Rui Herbon compromete, com mestria, o leitor enquanto testemunha da dimensão opaca da vida, permite-lhe transformar a sua própria experiência, a partir da experiência verbal do texto, pensar a solidão existencial através do seu reconhecimento. «Compreender, em definitivo, é render uma homenagem de entrega», lê-se sobre a verosimilhança do relato deste romance que se ajusta «às referências da época» e, como no romance da mulher, «abundam as metáforas», o discurso é «marcadamente nietzcheano» e, acrescento, dostoievskiano.

Com efeito, se o jogo dostoievskiano é um ritual de prazer e sobrevivência que apresenta à razão do homem outras razões alternativas que, confrontado com elas, não as pode ignorar, em O Romper das Ondas o leitor observa as personagens vertidas num qualquer jogo de cartas, mais ou menos clandestino, na roleta de um casino ou na da vida, projectando-se, também ele, na sua condição de jogador, não como forma de se alhear do real, mas de se ligar ao real, tentando inventar o jogo dos outros e reinventar-se. A metáfora do jogo entronca na própria construção da obra literária, com este O Romper das Ondas a lançar a reflexão sobre a procura do cânone e a fazer o leitor testemunha de todo o processo: o romance que a mulher escreve está «cheio de subentendidos», é «falso como uma pérola fabricada pelo homem», e há que fazer uma sinopse para agradar aos leitores e à crítica.

Na terceira, e última, parte, volta-se ao início, volta a ouvir-se o adágio, a mulher está novamente só, com o romance «perpetuamente inacabado», com o «futuro em branco», à espera de «um esplendor incerto» que ponha outra vez a sua vida em jogo: é a espiral do tempo que se «cinge cada vez mais ao centro», um vicioso e irremediável centro de inquietação.


O Romper das Ondas, Rui Herbon; Parceria A.M. Pereira, Lisboa, 2009

Nota: Livros de Rui Herbon: Voar como os Pássaros, Chorar como as Nuvens (Um Filme Português), Prémio Eixo-Atlântico de Narrativa Galega e Portuguesa 2002; Absinto (A Inútil Deambulação da Escrita), Prémio António Paulouro 2004, da cidade Fundão; Os Girassóis.

Não editados, mas premiados, Rui Herbon tem: Eterno Retorno, Prémio Afonso Lopes Vieira 2005, da cidade de Leiria, Prémio Orlando Gonçalves 2005, da Amadora e Menção Honrosa no Prémio Alves Redol 2005, de Vila Franca de Xira; A Preto e Branco, livro de contos, Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal 2007; Masoch, Prémio Maria Matos 2007 de Dramaturgia.

© Teresa Sá Couto


páginas de Rui Herbon:

Rui Herbon

A Escada de Penrose

terça-feira, 28 de julho de 2009

«Pessoas, Animais e Outros que Tais»

A arte de contar histórias

Um narrador que fala com o leitor, um cão companheiro de jornada do narrador com faro infalível para detectar feitios e personalidades, e treze histórias entrecruzadas, é a proposta do livro Pessoas, Animais e Outros que Tais – Narrações do Dr. Domingos Pintado assinado por Pedro Baptista, um exímio contador de histórias.

Não há sossego nesta leitura. No centro irradiador da narrativa está uma loja de velharias, frequentada pelos clientes habitués que dão origem a estórias com outras estórias engatilhadas que a escrita encaixa a um ritmo vertiginoso. Com subtileza, o reino animal é convocado, criativa e inusitadamente, para se construírem as personagens no desfile de títeres da existência, para se destruírem apatias na leitura. São 163 páginas farejadas pelo cão Púchkin, onde até surge uma história de amor entre um burro e um ardina, além da história do fascínio entre o leitor e a leitura.

O narrador Domingos Pintado é um reformado acabado de chegar aos sessenta anos, antiquário e alfarrabista, estabelecido no Porto, na travessa de Cedofeita, «quase a chegar ao largo chamado de Alberto Pimentel, onde acabam as Oliveiras e Mártires da Liberdade começa». A sua loja cheia de «cangalhada» expõe, além de velharias literárias, todo o tipo de objectos, a «panóplia das coisas do mundo». Por isso, nela exalam os cheiros do tempo e vibram os sons que compõem enredos. Fiel companheiro do leitor, este narrador transmite-lhe todas as ambiências, todos os humores além de, com mestria, o levar para dentro das narrativas para o fazer participante no julgamento das personagens e do próprio narrador.

Dado a degustações, o singular narrador almoça frequentemente no Buraco, na rua Bulhão Pato, carapauzinhos de escabeche, onde a «conta era feita a olho e sempre igual», «puxava por um cafezito no Majestic ou no Ateneu, em seguida um salto à Latina, quando não à Bertrand e à Leitura, a ver as novidades ou, melhor, «a ver se havia novidade». Com ele, ou melhor, connosco – narrador e leitor –, o inseparável cão Púchkin «que não só era como uma pessoa, era mesmo uma pessoa. Não humana, mas pessoa», um grande psicólogo. Mesmo antes de nós – narrador e leitor –, o canídeo topou logo o Pimenta, personagem que percorre as narrativas que, todavia, podem também ser lidas autonomamente, como se de contos se tratassem.

Aristides Pimenta é um «autêntico mito» de partidas cruéis e humilhantes, pelo que o desejo de se lhe dar «uma ensinadela assomava cada vez mais a mente de todos» até que um dia o rapaz de uma estalagem pincelou «toda a pelugem dos interiores nasais do Pimentola» com o «material mais prosaico da vida animal…estrabo, bolisco, bestoiro, com sua licença, era mesmo merda» e é ver o altivo Pimenta no descontrolo da loucura. Figura esquálida, nariz afilado e «meia dúzia de pelos semeados a despropósito no centro da cabeça», aparecia umas vezes para companhia «que uma pessoa precisa numa hora deprimida, outras o inverso a estragar o dia que até tinha começado por sorrir, outras nem uma coisa nem outra, um chato de adormecer». O cão rosnava-lhe, presenteando-o com o «melhor dos seus sorrisos», mostrando a «dentuça escancarada a rosnar apaixonado»: «com efeito, o Pimenta era daqueles capazes de fazer uma patifaria a um cão, por causa da similitude de alguns sentimentos que com eles partilhava e não eram os que mais enalteciam a nobreza dos canídeos. O Pimenta entrara em derrapagem, numa depressão acelerada, agravada pela patologia do corno: «a mulher, muito mais jovem, desarvorou e, ao que se rosna, foi aquecer a cama dum actor», a do Marques, a quem o Pimenta antes pregara uma partida.
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Ao invés do Pimenta, o clarividente Púchkin aprovara o Senhor Mello, e sempre que o homem se anunciava na loja, o cão latia de forma reiterada, «reclamando pressa na abertura da porta». É o Mello que conta emocionado a história do ardina, do jumento e da couve, uma história de idílio, «da terna ligação entre o humano e asinino»: o animal que, habituado à couve que o ardina lhe dava todos os dias de manhã na esquina onde trabalhava, falecido o ardina, matou-se à fome, recusando-se a comer fosse o que fosse. Classicista que não gosta de se expor, mas o narrador fá-lo por ele, o Mello é outra das personagens que a narrativa detém, dentre o arco-íris de personagens que nela pouco se demoram – entram e saem ao sabor da excelsa divagação – mas que tatuam a grande história deste livro.

«Como considerava a entrada das personagens na cena da loja ou a sua simples passagem à frente da montra de uma grande riqueza, digamos… temática, comecei a orientar as notas do meu caderno anual para a produção destas histórias, que a leitora ou o leitor estão a ter a paciência de seguir. É a primeira colectânea mas, se a coisa correr, haverá mais no armazém», lê-se na página 90.

Cabe-me dizer ao Dr. Domingos Pintado que esperamos com mal disfarçada impaciência um novo tomo das suas histórias «recolhidas na loja e registadas nos canhenhos». Culpa dele por nos ter deixado adictos destas viagens. Exigência nossa no reencontro com a escrita arejada, elegante e inesgotável.


Pessoas, Animais e Outros que Tais – Narrações do Dr. Domingos Pintado, Pedro Baptista; editorial Campo das Letras; Porto 2006


© Teresa Sá Couto

domingo, 26 de julho de 2009

Os caminhos-de-ferro na Literatura

Viagem ao fundo da nostalgia

Muitos guardarão, como eu, uma memória de infância, funda e nostálgica, das antigas Estações de caminhos-de-ferro rurais, locais de embarque para grandes viagens. A graciosidade dos edifícios, jóias na paisagem silenciosa onde se vigiava o silvar do comboio, o interior com as madeiras enceradas e os cheiros desse zelo misturado com o adocicado de óleos da maquinaria, as paredes alvas decoradas com narrativas contadas a azul e branco dos azulejos, num festim de sentidos. Mas esses cais de memória romântica fazem emergir a revolta, igualmente funda, por termos assistido, impotentes, à decadência e ruína das estações. E aqueloutro canto do comboio fica guardado na eternidade da memória.

O livro «Carris de Papel – o caminho-de-ferro na literatura portuguesa» desata-nos muitas questões e é com aplausos que o acolhemos. Organizado soberanamente por Albert Von Brun, nele coligem-se 21 textos em prosa e 6 em verso, de autores como Fernando Pessoa, Fialho de Almeida, Vergílio Ferreira, Agustina Bessa-Luís, entre muitos outros, e que atestam o fascínio pelo monstro de metal.

Na introdução, Albert Von Brun traça brevemente a história da ferrovia em Portugal, e sua contextualização europeia, o sonho concretizado por Fontes Pereira de Melo, as polémicas que suscitou, os «interesses que agregou», os «ódios que ateou», comprovando-nos isso na recolha de textos. Presença forte na literatura portuguesa, através da recriação ficcional dos caminhos-de-ferro, seguimos parte da História de Portugal, politica, social, económica, cultural e psicológica.

Portugal de comboio…

Em quadras de gosto popular, Fernando Pessoa atesta a cumplicidade e o convívio proporcionada pelos comboios:
No comboio descendente /Vinha tudo à gargalhada /Uns por verem rir os outros /E os outros sem ser por nada.

Também José Viale Moutinho atesta a alegria e o carácter democrático do comboio, procurado por todos os extractos sociais. Por outro lado, reagindo à modernidade, Guerra Junqueiro benzia poeticamente uma locomotiva, com a sátira sagaz que lhe era própria, com vastas implicações no estado da nação:
Viajo no comboio do douro /pelo natal de tanta gente /entre malas e palavras /…/atrasa-se o caminho que /entre transbordos e vocábu /los cruzados se narra cada /vida em folhetim e sandes /de chouriço presunto vinho.

Num texto para crianças, José Jorge Letria conta a história de um velho comboio que partilhou muitas vidas e tem um grande coração. Um toque de fascínio que chega também aos mais pequenos que partilham o deslumbre pela grande e mágica máquina:
Talvez eu devesse, caso queiram dar-me nome, chamar-me «Muita Terra», porque esse sim, corresponde à realidade que foi a minha vida.

As maldições de Vulcano

Albert Von Brun refere-se à exploração que a literatura faz do lado sinistro do caminho-de-ferro, «feito de desterros, mortes e misérias», com o comboio a surgir com a metáfora do «monstro de ferro», produzido «na forja de Vulcano» que é, «ao mesmo tempo, o deus do fogo, do desejo, do delito e da fatalidade.». Para isso, o organizador desta antologia, recupera Fialho de Almeida, mestre da escrita visual e crua, com o texto «O filho» – de «O País das Uvas». Nele conta-se que na Beira, na estação da Pampilhosa, uma mãe espera o comboio de Lisboa que traria o filho vindo do Brasil, sem saber que ele morrera no mar, durante a viagem:

- O seu José, tia Rosa, o seu José…morreu na viagem.
Nem um grito de espanto, um queixume, uma lágrima, nem sequer um um último suspiro. Aconchega mais o xaile sobre os ombros, baixa a cabeça trémula e gelada, e pequenina, acocorando-se mais por entre o tumulto daquela gente alegre, ei-la caminha a cambalear como uma bêbeda. (…) ela não sente, ela não ouve, avança! avança! E a máquina chama-a a si subitamente, dá-lhe um encontrão pra dentro do caminho, enovelou-a bem nas saias da viúva, e sem trepidar fá-la num bolo, passa-lhe por cima, e continua a correr à desfilada.
Viu-se um dos pés da mulher escrever na terra o quer que fosse, protesto, suplica, epitáfio… e ao outro dia, quando os trabalhadores foram levar o corpo ao cemitério, o cura da Pampilhosa recusou-se a enterrá-la em sagrado, sob o pretexto de a velha ter morrido sem confissão!

Também Vergílio Ferreira, em «Manhã Submersa», num texto com características autobiográficas, associa ao comboio que o levou para o seminário do Fundão a dor de ter sido «espoliado abruptamente» da sua infância. Com o ponto da angústia na estação da Castanheira, o cais para o abandono, traça um percurso lancinante pelas estações da Guarda, Covilhã até à chegada à estação da Torre Branca:

E, bruscamente, entre dois grandes penhascos, o comboio rompeu enfim com um rancor subterrâneo, alucinado de ferros e fumarada. E tive medo. Pela primeira vez estremeci de medo até aos limites da vida, não tanto, porém, da fúria do comboio, como dessa coisa insondável e enorme, tão grande para mim, que era partir.

Progresso ou megalomania?

Atrasado, o Portugal de oitocentos reagia em partidos contrários, à implementação do comboio no país. Um artigo de Alexandre Herculano – O caminho-de-ferro e a nacionalidade – polemiza o programa de obras públicas do fontismo, que nos faz lembrar as actuais polémicas sobre o TGV trazidas quotidianamente à berlinda entre defensores e oponentes.

Dissestes que combatíamos a feitura dos caminhos-de-ferro; que combatíamos em especial os que devem ligar-nos com a Espanha; e que condenávamos todos pelos benefícios que para a nossa civilização daí hão-de resultar. (…)Os caminhos e ferro, facto impreterível (e ainda bem que o é) da civilização moderna, devem produzir incalculáveis benefícios para o país; mas por isso mesmo que importam uma revolução , que são um remédio salvador, um remédio heróico, trazem consigo o perigo de um dano também imenso. Apontar ao poder esse perigo: perguntar-lhe, não em nosso nome, mas em nome da pátria, quais são os meios para obviar a ele, é ou não um dever e um direito daqueles que estão convencidos da existência desse perigo? (…)este medicamento cura o estômago e arruína o fígado; o meu intuito é curar o estômago; o fígado que se arranje como puder?

Carris de Papel – O caminho-de-ferro na literatura portuguesa, organização de Albert Von Brun; Editorial Caminho, Lisboa, Maio 2006

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Pintar a imensidão humana

O Deserto pintado existe de facto no mapa-múndi: é uma pequena zona do Sudoeste Americano, a 36º de latitude norte e 111º de longitude oeste, refere a escritora e pintora Isabel Cristina Pires na badana do seu livro de poesia «Deserto Pintado». Todavia, esta poética pintura tem, noutra combinação da longitude com a latitude, um outro lugar mais perto de cada um de nós e mais vasto: a imensidão interior do ser humano.

Recorrente na poética da autora, na exacta latitude surge o azul, cor que sintetiza a condição humana e o mistério original da criação: Porque deus é azul, /a Terra é uma esfera comovente. /Porque deus é azul, /a alma dos bichos voa em arco-íris. /Porque deus é azul /as árvores abraçam o olhar. /Porque deus é azul /há azuis que nunca entenderemos. /Porque deus é azul /existe o mar.
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Nascida em Pampilhosa, a 20 de Agosto de 1953, Isabel Cristina Pires é licenciada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Coimbra e Chefe de Serviço de Psiquiatria do Hospital Psiquiátrico do Lorvão. Desde 1987 que edita prosa e poesia com a chancela da Editorial Caminho. Interessada pela pintura, e autodidacta, faz trabalhos em acrílico sobre tela. Também na poesia, palavras e tintas carregadas de enigmas confundem-se, numa dança e convergência, e «Tela a tela se vai o corpo abrindo /à descoberta da cor.».
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O chamamento primordial
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Num exercício místico, a Natureza e a Alma seguem juntas, uma adquirindo propriedades da outra, revelando-se mutuamente. Feitas cordas umbilicais que nos ligam ao nosso início, as palavras declaram esse mistério:
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A túlipa do mundo desabrocha /feita de todas as palavras, do plasma macio /dos sentidos, da carne imediata de saber /que há nas coisas um coração radiante: esse algo /que nos avisa do abismo e emite /o azul do céu na exacta latitude. E queima /com as incertas incertezas que há no meio das árvores. / As palavras gelam o mistério, retiram-no /do musgo sombrio onde vegeta e vestem-no /de sons e de quase música.
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Desta forma surge o espaço, a textura, a cor e o som do Arizona – o silêncio das pedras, «um urro de absoluto ser» –, Canyon de Wild River, a montanha de Shiprock, Canyon de Chelly, o céu laranja de Monument Valley, o castanho-violeta da manhã, o ocre da terra, «a terra aberta pelo calor», a Lua na noite de Albuquerque, o infinito do planalto, a altura do céu e a entrega primordial: O tempo condensou-se /à minha volta, parei de respirar: /o antigo mar quer-me para si.
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Fecundidade e aridez, vida e morte
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A palavra é apresentada ora como matéria bruta ora lapidada em literatura, como que a mostrar que há paisagens áridas, mas também fecundas, que há vida e morte: se nalguns poemas a palavra surge emaranhada num exercício cultista – a palavra pela palavra em detrimento da significação do corpus do poema – noutros há que ela invade a brancura do papel para explodir no máximo do conceito criando imagens arrebatadoras. É, evidentemente, destes poemas que bebemos um lirismo quase místico que, também, espreita o segredo que poderá haver para lá da morte, ficando claro que o caminho se processa no retorno ou devolução à natureza:
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(...)O que se esconde atrás da lua? Quanta /ausência de amor é necessária /para que a vida desista e vá embora? /Pode-se morrer com uma corda, /com o futuro que se solta do veneno; /eu escondo-me debaixo do viver. /Há pouco andava pela cidade /sem entender um único sentido. /Eu estava morta? Viva? O que era isso? /Eu respirava e tudo era perdido.

*****
Estou neste lodo de amar quem me não ama /Como se passa para o outro lado da armadilha? /Como morre o amor a sua morte? /Quem pára a fábrica de oiro das estrelas?

****
(…)A noite virá feita de escuro, /e rápida por dentro. Não sei /se é mundo o que está para além do mundo, /e o que se esconde na poalha das estrelas. /Quero ver azul quando morrer /no silêncio que há-de ser o meu. /Enquanto escrevo, morro assim feita de areia: /grão a grão, o tempo esculpe a estátua /de um corpo sem caminho.


Deserto Pintado, Isabel cristina Pires; editorial Caminho, Lisboa, Junho 2007

© Teresa Sá Couto

sábado, 18 de julho de 2009

Grande Prémio de Poesia para Armando Silva Carvalho

O poeta e ficcionista Armando Silva Carvalho venceu por unanimidade o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores/CTT- 2008, com a colectânea poética O Amante Japonês, editado pela Assírio & Alvim.

O prémio, que foi anunciado no passado dia 7 de Julho, é um merecido galardão para o autor, um dos nomes mais originais e carismáticos da poesia portuguesa, à qual se dedica há mais de quarenta anos.

Partindo duma referência prosaica – o amante japonês é um carro de «origem japonesa» -, Armando Silva Carvalho produz um discurso metafórico sobre a escrita, celebrando-a como triunfo da máquina, exaltando-lhe a energia, a velocidade e a força mecânica até ao paroxismo, num excesso violento de sensações construído com recurso à ironia e sarcasmo, a fazer lembrar-nos Álvaro de Campos.

Além deste O Amante Japonês, a Assírio & Alvim tem editados outros títulos individuais do autor, em poesia e prosa, além do magnífico «O que foi passado a Limpo», título que reúne poesia de 1965 a 2005, editado no ano 2007.
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Dois Poemas:
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Já não vejo o som mas só a lama
E acelero.

Quero atravessar este país depressa
Antes da morte.

Já não oiço a luz mas só o sono
E travo

Contigo, com os teus freios cansados
E as tuas jantes tortas.

Sigo esta pista de silêncio
E arrabalde de velhos.

Arrastamos connosco a história cega
E acrobata deste tempo.

Chamo a tudo isto uma gincana
Nas traseiras da Europa

Já não viajamos, vamos em ponto morto
E a meta é ali

Desperta
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in O Amante Japonês, p.36
***

Soneto panorâmico

Do alto deste hotel de cinco estrelas
Lisboa não morreu. Nesta revista
até se fala em novas caravelas
e pra tamanho ardor tão curta a vista.

Dum lado o rio do outro o cimenteiro
nas suas sete quintas da marinha
em cima o céu de barro do barbeiro
em baixo o sol a fazer farinha.

Nos silos da mais sábia segurança
boémia estouvanada e bem ligeira
os anjos dão as mãos na contradança

da seringa mais nobre e derradeira
que existe a refulgir na lua mansa
à esquina onde se dorme a noite inteira.

in O Que Foi Passado a Limpo, Assirio & Alvim, 2007, p.451

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Grande Prémio para Julieta Monginho

Julieta Monginho recebeu, no passado dia 14 de Julho, o Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLB – 2008 pelo seu romance A Terceira Mãe, publicado pela Campo das Letras. Ver AQUI declarações do júri.

Como o título indicia, o romance é um hino ao feminino vertido na história de três gerações de mulheres e mães da mesma família. Com escrita robusta e domínio narrativo, a viagem por três tempos – do salazarismo, passando pela efervescência pós 25 de Abril até à actualidade – é obrigatoriamente um percurso de questionamento sobre a condição da mulher no seu duplo papel, familiar e social.

Construída com a visão de uma das mulheres, Rosalina, a narrativa vibra prenhe de intimismo e cumplicidades: no sonho e na solidão, no amor e na sexualidade, nos afectos, tensões, submissões, lutas, forças e cansaços.

Extracto:

«A boca da menina mordiscava o chocolate quente e a seguir a mãe cheirava-lhe o corpo todo: a boca, o pescoço, atrás das orelhas, a penugem que herdara a espessura do cabelo dela. Cheirava-a e mordia-a toda, sem dentes. Foi assim que a menina aprendeu a definir amor: cheiro e mordedura.
Nem com a janela fechada. O aroma, não da casa mas do pequeno polígono onde mãe e filha, rosas e chocolate, se entreteciam num tear, estava destinado a atrair a atenção e a inveja do bairro. Ninguém o suportava. Na padaria as mulheres cochichavam, para se distraírem da comparação. Ao passar pela sociedade recreativa, mesmo que atravessasse a rua, os homens suspendiam os dedos nas peças do dominó e nas cascas dos caracóis. Removiam-lhe o corpo do sítio onde pairava para o sítio viscoso deles e cuspiam-lhe na alma.
Não se queixava. Empurrava o êmbolo do fogão a petróleo para atiçar o lume, a ver se os feijões coziam mais depressa para poder voltar para a casinha de chocolate, o polígono, a clandestinidade de um nome – Filomena – dividido em sílabas, cada sílaba uma conta do rosário. Quando ele chegasse esconderia tudo, menos o sorriso. Tudo escondido na gaveta onde as asas se acumulavam à espera de aragem. Quando o Vítor chegasse, empunhando uma bandeira e um pacote de bolacha maria, nem o mais pequeno vestígio de Floresta Encontrada. Até à noite em que ela se atrevesse a entreabrir-lhe a porta no tronco da árvore, propondo-lhe um pacto
- a cruz e o martelo.
Porém, antes que essa noite fosse tempo, muitas outras haviam de contar-se. «Vamos para a greve, Lina, prepara-te para o pior.». p.p. 80,81

O «Portugalório» de Antero de Quental

Atenção a este título, que tem uma surpresa no seu interior ou não tivesse na fronte o nome Antero de Quental, o líder da Geração de 70, seu mestre, mentor e inspirador. Não se trata de poesia anteriana, mas de prosa de intervenção, irónica e sarcástica. São publicadas, pela primeira vez em livro, correspondências do “Bacharel José”, pseudónimo da ínclita personalidade, que as escreveu entre 1864 e 1865 no jornal “O Século XIX”, de Penafiel.

A Coimbra dos estudantes é vista pela lupa da irreverência, do inconformismo, do humor que desnuda, manuseada pelo “apostolado social” de quem teve o sonho revolucionário de modernizar Portugal. O mesmo que, do alto dos seus vinte anos e do Penedo da Saudade, desabafava premonitoriamente : «É duvidoso se haverá prosperidade para este deplorável Portugalório».

Atestam-se ufanos tempos de estudo, com Antero desabrido: «Um correspondente que deixa escapar aos bicos da pena os acontecimentos mais graúdos, perdendo assim a ocasião de abrir a boca ao leitor com as duas pontas dum dilema bem formado, produto da sua lógica impenetrável, comete decerto um pecado tão grave que não sei de água benta que o possa ungir e absolver. Excomungado! Eu?!... Paciência – entre o anátema e a forca não há que hesitar.».

Com recolha, prefácio e notas de Ana Maria Almeida Martins, o livro «Antero de Quental – O Bacharel José», reúne correspondências que ficaram de fora de anteriores edições, como as do volume de “Prosas I” e do segundo volume de “Subsídios”.

O estado do ensino superior e educação em geral…

Autor do “Manifesto dos Estudantes da Universidade de Coimbra à Opinião Ilustrada do País”, Antero (1842-1891) apresenta-nos nestas crónicas uma observação cortante sobre a Educação, e ao mesmo tempo esclarecedora do seu pseudónimo irónico:

«Toda aquela escolástica é sumamente recreativa; é, sem a menor dúvida, a primeira máquina de fazer imbecis ilustrados que existe no país. A imbecilidade palavrosa e pretensiosa, que hoje domina em Portugal, e os estabelecimentos de instrução dita superior são coisas correlativas e que se explicam uma pela outra. Nação de bacharéis que pode fazer senão bacharelar?».

Segundo Antero, a incultura é generalizada, apanágio do próprio povo, sobre a qual lançava, como dizia dele Eça de Queirós, «o seu assobio malicioso» que «nele andava sempre ao lado da acção»:

A religião é o anjo, que este povo instintivamente abraça, como símbolo da vida. (…) Pena é que o anjo não tenha asas que o possam levar ao céu! (…) Para que a religião nos pudesse salvar, era preciso que fosse o que devera ser; e que mão inimiga tem desvirtuado, fazendo dela um partido político ou corrilho de interesses. Ainda assim a religião é como dissemos a única estrela que brilha para o povo nas trevas da dissolução social. O povo não tem escolas, não sabe ler, pede o pão do espírito e respondem-lhe: “Outro dia será, irmãozinho!” Tirem-lhe agora a religião e toda essa gente morre desesperada.

Eram visíveis as preocupações de Antero que se assume, desde esses verdes anos, como a consciência de uma época e da necessidade de renovar as mentalidades preparando-as para um novo século. Líder ideológico do grupo da Geração de 70, com Ramalho Ortigão, Teófilo Braga, Eça e Guerra Junqueiro, teve grande implementação no meio universitário, influenciando nos gostos e interesses todos os que com ele conviveram.

Quando o progresso invade o provincianismo A mudança pretendida para o país estendia-se, também, ao domínio social e económico. O bacharel José mostra-nos nas suas crónicas a resistência dos portugueses à mudança ou a sua não consonância. A criação da Linha-férrea suscita-nos episódios e observações entre o cepticismo no progresso e a hilaridade suscitada pelas figuras desadequadas:

O brasileiro, namorado como está da sua obra, não dá pela falta: e não admira; também o cego não vê a estrada que vai pisando. Mas certo público – o público – que não é cego – conhece bem que a mudança foi só no vestido; e nesse descobre ainda a traidora arrecada por baixo do chapelinho da moda ou o bico do tamanco meio encoberto pela fofa crinolina. – Estamos no caso. – O governo é um brasileiro endinheirado. – Coimbra é uma camponesa vestida à moderna de modo que acima fica dito. O vestido que lhe deram é o caminho-de-ferro; e como se não sabe ajeitar com ele, anda aí por essas ruas que parece mesmo uma endemoninhada! Move-se e agita-se, mas desgraçada!, não pode por mais que trabalhe esconder as pequenas faltas.

As manifestações de cultura

Nada escapa ao olhar acutilante de Antero. Escarnece dos gostos que ditavam as euforias literárias, a escolha dos espectáculos, récitas, saraus, palestras e inúmeras actividades, "supostamente" culturais. Sobre a edição em delírio de um poeta ultra romântico, fala-nos assim:

É peça de muito merecimento literário, e que se pode cantar com a música das cantigas populares, por isso lhe agouramos uma bem merecida celebridade e longa vida. Agora mesmo acabámos de assistir a um ensaio em que se cantou o dito hino no estilo bem conhecido do “Manuel Ceguinho”, e ficámos maravilhados do bem que a letra diz com a música.

Critica as récitas e espectáculos no Teatro D. Luís, local da moda e da elegância, desancando tudo e todos:

Ainda bem que enquanto uns pasmam e admiram, criticam outros; ora como a pasmaceira não é coisa que interessa alguém, a não ser quem está pasmado; vamos ao teatro e oiçamos a crítica, posto que, mesmo isto, não seja muito para divertir.


Antero de Quental – O Bacharel José; recolha, prefácio e notas de Ana Maria Almeida Martins; Editorial Presença, Lisboa 2005


© Teresa Sá Couto

domingo, 12 de julho de 2009

O fulgor dos clássicos europeus

A Língua Posta a Salvo de Elias Canetti, Wallenstein de Friedrich von Schiller, Guzmán de Alfarache de Mateo Alemán e O Livro do Cortesão de Baldesar Castiglione são quatro clássicos fulgurantes que se encontram no mercado, pela primeira vez traduzidos para português contemporâneo. As edições inserem-se no «Projecto da União Europeia para melhor conhecimento dos grandes clássicos europeus» e têm a chancela da Campo das Letras em colaboração com o Departamento da Comissão da União Europeia para a Educação, Audiovisual e Cultura. Sem dúvida, são quatro títulos para leituras inesperadas, para vários gostos destas férias. Muito boas leituras!

Não é um romance, mas lê-se como se o fosse. Tampouco é um ensaio, mas apresenta um problema e explana-o argumentativamente incitando-nos à reflexão. A Língua Posta a Salvo de Elias Canetti – no original, Die gerettete Zunge – Geschichte einer Jugend – é a primeira de três partes de uma narrativa autobiográfica, publicada entre 1977 e 1985, que está nas livrarias com tradução de Maria Hermínia Brandão.

Prémio Nobel da Literatura em 1981, Elias Canetti (1905-1994) foi sociólogo, ensaísta, romancista e dramaturgo. Búlgaro, filho de um comerciante judeu sefardita, construiu em língua alemã, a sua língua da paixão, uma obra literária gizada no seu tempo, vigorosa, inquiridora e com reconhecido poder artístico. Nas 309 páginas deste A Língua Posta a Salvo, encontramos aquelas características, para uma leitura a um mesmo tempo intensa e fluida, com desafios intelectuais actualíssimos, como é apanágio de Elias Canetti. (Ler o meu texto crítico completo no site Orgia Literária).


Pleno de esplendor dramatúrgico, temos as 368 páginas de Wallenstein, título que reúne o conjunto de três peças, do historiador e dramaturgo alemão Friedrich von Schiller (1759-1805). O primeiro texto, O Campo de Wallenstein, foi estreado em 1798 e com ele se abriu uma reflexão sobre a vã glória do poder, o jogo de máscaras no período devastador da guerra dos 30 anos – com as lutas ferozes entre católicos e protestes que martirizaram a Europa – a avidez, a insídia, a vingança e a ruína.

No centro do retrato da época, a figura do ambicioso general e duque de Friedland, Albrecht von Wallenstein, que formou um temível exército de mercenários e que, tentado pelo trono da Boémia, negoceia a paz com o inimigo, à revelia do seu soberano. Acusado de traição, prepara-se a conjura que ditará o seu assassinato.
Sobre o seu Wallenstein, escreve Friedrich Schiller, em carta a Iffland, datada de 12 de Outubro de 1798:

«Wallenstein» é uma série de três peças: «O Campo de Wallenstein» é um Prólogo em 1 acto que se representa em 5 quartos de hora e tem as personagens mais diversas. É uma pintura do exército wallensteiniano, dá uma imagem da situação da Alemanha na Guerra dos 30 anos, mostra a disposição dos regimentos a favor e contra o general e destina-se a desenhar o terreno sobre o qual se desenrola o empreendimento de Wallenstein. Pode representar-se isolada, mas fica melhor se for associada à segunda peça.
O segundo texto chama-se «Os Piccolomini», do nome das duas personagens que mais intervêm. É em 5 actos, mas não chega a levar duas horas a representar. Esta peça compreende toda a exposição do «Wallenstein» e acaba quando os dados estão lançados. No fim tem um epílogo que forma a transição para a terceira peça.
A terceira peça chama-se «Queda e Morte de Wallenstein» e é a tragédia propriamente dita. Como a exposição já teve lugar e os dados já estão lançados, é uma acção contínua e ininterrupta desde a primeira cena. Tem também 5 actos e representa-se em menos de 3 horas.».


Guzmán de Alfarache de Mateo Alemán (1547- data incerta, mas após 1615) é um clássico do "Século de Ouro" da literatura castelhana, picaresco, humorístico e satírico onde se espelha a sociedade espanhola do início do século XVII. Publicada entre 1599 e 1604, o seu pronto sucesso projectou-o fora de portas, com múltiplas edições no século XVII e traduções para francês, alemão e inglês.

Em arejadas, diligentes e magníficas 672 páginas, numa tradução de excelência de António Pescada, como é seu timbre, narram-se na primeira pessoa as andanças picarescas de Guzmán de Alfarache, um anti-herói nascido em Sevilha em 1547 e desaparecido no México em data incerta. O resultado é um tomo de literatura didáctica que retrata uma época (a sociedade ibérica da transição do século XVI para o século XVII) aliando o carácter moralizador ao lúdico, instigando-nos à eterna reflexão sobre a condição existencial, a errância humana, com os seus momentos de “balanço de vida”, de júbilo e contrição. E corre assim a narrativa quinhentista que, lesta, retrata qualquer tempo, pois todo o tempo motiva a reflexão sobre as virtudes humanas e a falta delas:

Não te darão cadeira nem lugar ao lado quando te virem depenado, mesmo que te vejam revestido de virtudes e de ciência. Nem se faz já caso desses tais. Mas, se representares bem, nem que sejas uma esterqueira, se estiveres coberto de erva, virão recrear-se em ti. Não o sentiu assim Catulo, quando ao ver Nónio num carro triunfal, disse: “Para que esterqueira levais esse carro de lixo?” Dando a entender que as dignidades não melhoram os viciosos. Mas já não há Catulos, embora sejam muitos os Nónios. Quando fores alquimia, aquilo que em ti reluzir é que será venerado. Já não se julgam almas, nem mais do que aquilo que os olhos vêem. Ninguém se põe a considerar o que tu sabes, mas o que tens; não a tua virtude, mas a da tua bolsa; e da tua bolsa não o que tens, mas como o gastas. p.474.


A elite deve dar o exemplo virtuoso; em quinhentos dir-se-ia que o perfeito cortesão devia ter «discrição, decoro e graciosidade», além de que só assim se podia, e pode, «fazer amigos e conquistar pessoas». Para se ensinar e incentivar essas posturas, pegue-se em citações ocultas de Cícero, Horácio, Lucrécio, Platão ou Aristóteles, observe-se a realidade política e social da pomposa Itália renascentista, a psicologia, os hábitos, e verta-se tudo numa crónica de costumes em jeito de guia de boas maneiras construído com diálogos imaginários entre membros da corte de Urbino, em 1507.

Assim irrompeu, em 1528, O Livro do Cortesão de Baldesar Castiglione (1478-1529) – ele que foi cortesão, diplomata, soldado e escritor –, que nos chega na tradução segura de Carlos Aboim de Brito. São quatro capítulos, correspondendo a quatro «Livros» do Cortesão, para outros tantos serões de diálogos.

Documento histórico – história política, social e das mentalidades – a narrativa extravasa em muito a actualidade da época em que se inscreveu: a identificação é fácil para o leitor actual, que segue o manifesto com muitos sorrisos e embrenha-se com gosto nos relatos de episódios pitorescos. Surpreendente é ainda a visão que se apresenta sobre a mulher ideal e, percorrendo toda a obra, o manifesto em sua defesa e protecção. Ora veja-se:

Mas a maneira de se comportar nas conversas de amor que eu quero que a minha dama utilize será recusar acreditar sempre que aquele lhe fala de amor a ama realmente; e se o gentil-homem é, como muitas vezes acontece, presunçoso e lhe fala com pouco respeito, ela dar-lhe-á uma resposta tal que ele saberá claramente que lhe causa desprazer. Mas se é discreto e usa termos modestos, falando de amor com palavras veladas, com uma maneira honesta que creio utilizaria o cortesão que estes senhores definiram, a dama fingirá não compreender e acolherá as suas palavras com outro significado, procurando sempre, de maneira modesta, e com o juízo e prudência que já dissemos ouvir-lhe, abandonar esse assunto. Mas se a conversa é tal que não pode simular não compreender, acolherá tudo como um gracejo, diminuindo os seus méritos e atribuindo à cortesia do gentil-homem os louvores que ele dará; por essa via, mostrar-se-á sensata e ficará ao abrigo dos enganos. Parece-me, pois, que é deste modo que a dama do palácio deve comportar-se nas questões de amor. p. 228

© Teresa Sá Couto

sábado, 11 de julho de 2009

Antiquíssima tristeza peninsular - Bernardim Ribeiro renascido por Teresa Tudela

«T a Bernardim» é o título dum livro de poemas de Teresa Tudela, um «prodígio de asas» que nos regozija e surpreende. Deve ler-se e ouvir-se devagar – traz um CD com declamações de 36 dos 83 poemas – e deixar que a pele da alma absorva os nutrientes da emoção, só possível pela alquimia da grande poesia. E a emoção advém do encontro com Bernardim Ribeiro, o poeta renascentista que tão alto ergueu a «dor artística», o enleio interior, a tristeza que escorre de todas as coisas e que desagua na eternidade.

Com Bernardim «ainda presente em diáspora e no exílio da tristeza», a autora estabelece diálogo da e com a «Menina e Moça» – novela do poeta de seiscentos, também conhecida pelo nome «Saudades», na edição de Évora. São ecos dessas saudades tão antigas quanto o tempo da nação portuguesa que Teresa faz soar neste livro: «de longe /mando-te um búzio /recolhe bem /esse murmúrio /ao ouvido».

A espiritualidade superior da mulher

O sentimento de tristeza literário associado à mulher e expresso pela própria remonta às nossas cantigas de amigo – escritas por homens, sendo o sujeito poético feminino e executadas pela mulheres –, atinge pujança na novela sentimental de Bernardim, que por sua vez inspira o romantismo do séc. XIX; Almeida Garrett, em Frei luís de Sousa, faz referência ao autor de Menina e Moça. Sendo a tristeza o sinal de uma espiritualidade e revelador de uma verdade oculta, ser expressa por mulheres confere-lhes um poder divino.

Seguindo essa sabedoria feminina, de «dimensão inacabada» e secreta, escreve Teresa Tudela: «Nem saberás /do pacto entre mim e o meu peito». Nesse contrato com a alma, está a procura do entendimento pelo amor – Aceita um pouco /também /os meus contrários em mim /temores fraquezas /trespasses de frio neblinas – ainda que vão, pois enamoramento e tristeza conjuram-se no destino da mulher: o amor não é crime antes dever /mistério maior da vida /a que se há-de a braço /a pulso /todos os dias viver.
Também a ausência do amado é transmitida de forma quase pungente e veicula uma alma desterrada no e pelo mundo : E sem ti /não há a quem dar todo o mundo.

Todavia, o maior exílio é a impossibilidade da tristeza não encontrar a escrita: Maior a crescer é o medo /de ver a vida não caber /por entre as sílabas maiores /do texto gravado a negro na memória branca do papel.

O papel das águas

O mar tem presença fortíssima em Bernardim, como aliás se verifica desde as primeiras composições medievais peninsulares. Marcando a fronteira entre o peso do terrestre e o apelo da espiritualidade, o mar surge, também, como espelho e reflexo do tormento das gentes. Teresa, apostada no «derramar da vela», liberta do limbo a psicologia antiga, num «grito que ganhou a idade da espera», do povo de coração agrilhoado:

«sou de peso sou de terra /trago o horizonte curvo /marejado nas pupilas /vidrado a chumbo no olhar», diz o texto descarnando uma «infinita dor» que «bombeia sístoles com pressa inusitada /no músculo pequeno e vermelho /em caixa fechada»

E surgem os pescadores, o mar, água de dor e morte, e o diálogo com o divino impregnados no ser português:

onde bóiam gaivotas /distantes poucas braças da orla /negra dos sargaços arrancados pela recente /fúria das marés /ninguém os vem já buscar à praia /mulheres possantes já não /enterradas de saias negras /infladas nas ondas /horas de forças rijas /gélidas salgadas /gadanhos moscas e bois /anacronias antigas /sem protectores solares /para pôr riquezas na terra /que as há-de em dobro tornar /caldo e pão /vinho nas pipas /e em sendo tempo /algumas dálias senhora /pró altar /anacronia maior este verão a acabar

Noutro passo, efectiva-se a osmose pungente com as mulheres das sete saias desditosas, conluio só possível no feminino:
Vou hoje deitar-me com a saia sobre a cabeça /como as mulheres da Nazaré sobre a desgraça /não sei a que me leva o sonho ou se é destino /qual a desdita da noite /a não ser /depositar-me aqui à margem.
Enigmas de Bernardim

No final, um poema que sintetiza o mistério de Bernardim que tem levado a polémicas sobre significados políticos e religiosos escondidos no texto Menina e Moça, no se diz respeito à sua relação com os judeus na época em que a Península Ibérica está marcada pela conversão – forçada ou deliberada. Refira-se a este propósito a obra crítica de Hélder Macedo, O Significado Oculto da Menina e Moça, editada em 1977 pela Morais Editores, onde o autor, numa análise fulgurante, apresenta a vertente cabalística do texto de Bernardim Ribeiro. Teresa Tudela consegue num poema curto desfraldar todas essas questões, com uma imagem vibrante: coloca a estrela, símbolo do povo judeu – em que os 12 lados demonstraram a disposição das 12 tribos de Israel durante sua jornada de 40 anos no deserto, após sua saída do Egipto em direcção à Terra de Israel – nas mãos de Bernardim, com as seis pontas orientadas para a dor do exílio:

Essa tristeza /esse exílio /da vida ampla em faixa estreita /obstinada /se calhar abriste a tua estrela de David /e desdobrou-se em ziguezague na mão /que a tinha /viste a tristeza inscrita numa ponta /e quando olhaste para a mão esquerda em simetria /abriste os dedos em estrela /tua /e julgaste /ver nela em espelho o exílio replicado /das outras cinco pontas /de David /Bernardim /é ainda certo o teu nome.

Sobressai na declamação o jogo de palavras no último verso, com o «é ainda certo» – ligando-se à característica oralizante da escrita de Bernardim –, que resvala para «é ainda (in)certo» com o que se reforça o saber incompleto que se tem do genial escritor do século XVI, ainda que se lhe seja mais desconhecida a vida do que a obra.

Nota: Bernardim Ribeiro (1481? 1545?) colaborou com Sá de Miranda no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, destacando-se pela genialidade das éclogas e da novela sentimental Menina e Moça, narrativa feminina de solidão e saudade onde se analisa minuciosamente o mundo interior, à luz do desengano, pessimismo e fatalismo. É sobretudo esta narrativa a geratriz da presente obra de Teresa Tudela.

T a Bernardim, Teresa Tudela; (livro e CD) Editorial Campo das Letras, Porto, Maio 2006

© Teresa Sá Couto

(to Artur)