Com as mulheres há que ter uma postura cartesiana: «primeiro destruir as opiniões e, depois, não confiar cegamente nos sentidos, tantas vezes ilusórios e falsos», ou então vê-se um tipo enredado «nas mais inverosímeis trapalhadas». Por isso As Mulheres Deviam Vir com Livro de Instruções.
Isto não é uma brincadeira. É até um caso muito sério. Um caso seríssimo espraiado em 141 páginas de barafundas, apimentadas por um humor fino e inteligente, com escrita dúctil, vibrante e coloquial. Uma comédia de costumes, de Manuel Jorge Marmelo, regozijo para os leitores, homens e mulheres de cá, mas já no lado de lá a falar castelhano: está editado em Espanha pela editora basca Txalaparta e, mais longe, em Itália, pela pela Vertigo Edizioni, Roma, 2008 (ver segunda imagem). Mais um voo português à conquista do mundo. E que voo!
Foi o primeiro livro traduzido de Manuel Jorge Marmelo. O acordo prevê a posterior edição em outros três países de língua castelhana da América Latina: Chile, Argentina e Uruguai. O autor nasceu no Porto em 1971. É jornalista desde 1989. Estreou-se nas letras em 1996 com O Homem que julgou morrer de amor/O caso virtual (ver na etiqueta correspondente ao autor).
O «As Mulheres Deviam Vir Com Livro de Instruções» apresenta-nos uma profusão de histórias burlescas e bem contadas, num processo narrativo sólido. O narrador, participante, mas não omnisciente, sobretudo no que diz respeito a mulheres, é Madureira, 43 anos, espécie de trolha, «canalizador-carpinteiro-pedreiro-pintor-mecânico-de-pequenos-electrodomésticos, formado na Faculdade da Necessidade», bígamo, casado “secretamente” com Uiko e Maria da Anunciação, com 3 filhos em cada família, e mais umas "aventuras". Porém, avisa, quanto mais mulheres, «mais discussões e os inconvenientes conjugais».
Esta polivalência fá-lo enredar-se com todos os outros: Noronha, dono de uma Agência de Inovação Ocupacional que arranja emprego a Maria Rosa com o advogado Francisco J. Morais, passando estes a ser amantes. O advogado Morais é um indivíduo sem escrúpulos, formado na Católica, casado com Belinha e pai de Catarina, bela miúda, mas mártir do visa gold. Belinda é uma trintona avançada, a quem a falta de homem na cama, dormem em quartos separados, «desperta-lhe apetites furacónicos», e por isso o professor de aeróbica tem dificuldade de escolher entre a mãe e a filha. É sobre a movimentação feminina que o narrador faz as elucubrações e conjecturas, de tal forma enredadas que nem o leitor sabe como elas reagirão nos inúmeros desfechos. Fica provada a tese inicial: as mulheres são «um bicho fugidio» e criaturas imprevisíveis que sabem mais sobre o homem do que ele sobre elas.
A escrita é muitas vezes brejeira, mas, diz o narrador, «Não é a escrita que descamba; são os tempos». E não é raro estes tempos de escrita despoletarem-nos gargalhadas, ou sorrisos rasgados. Trava um diálogo directo com o leitor, desculpando-se ora das suas opiniões, ora desvalorizando o marfim que lhe cresce na cabeça, por obra da Maria da Anunciação, ora por isto e por aquilo, o que atesta a sua atrapalhação perante a imprevisibilidade feminina. Ou perante o mundo todo, sobre o qual confessa: «Aliás, o mundo todo devia ser servido com um manual detalhado, uma bibliografia inclusa – com dosagem recomendada e intervalos entre tomas – que a todos preparasse, à nascença, para os infinitos desaires que a vida nos reserva»
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As Mulheres Deviam Vir com Livro de Instruções, Manuel Jorge Marmelo, Editora Campo das Letras, Porto 1ª edição de 1999, 8ª edição de 2002
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As Mulheres Deviam Vir com Livro de Instruções, Manuel Jorge Marmelo, Editora Campo das Letras, Porto 1ª edição de 1999, 8ª edição de 2002
© Teresa Sá Couto
nota: dedico este texto ao meu amigo João Ferro, que o descobriu noutro blogue meu, antigo, o qual já me tinha esquecido que existia.




















