quinta-feira, 3 de setembro de 2009

António José Telo vence Prémio John dos Passos

O Historiador e professor catedrático António José Telo acaba de vencer o Prémio John dos Passos, no valor de 2500 euros, atribuído pela Câmara Municipal de Ponta do Sol (Madeira), pela obra História Contemporânea de Portugal – do 25 de Abril à Actualidade, de dois volumes, editada pela Presença. Quando foi lançado o primeiro volume, em Março de 2007, elaborei um texto que agora aqui recupero.

História dos nossos 30 anos de democracia

Em Portugal, é o poder que cria os partidos e não o contrário, como é normal noutras sociedades, escreve o historiador António José Telo, referindo-se à criação de partidos que representassem a direita portuguesa logo após a Revolução do 25 de Abril. Argumenta que, por cá, fugindo à denominação maldita, os partidos que vingaram legalmente sentiram a «necessidade de colocar o “social” ou o “socialismo” no nome».

A falta de dirigentes conhecidos, a inacessibilidade aos órgãos de informação, a falta de representatividade nos órgãos do povo e a falta de financiamento privado e apoio internacional – «quem tinha dinheiro para investir na política (…) preferia fazê-lo em quem lhe dava alguma garantia de vir a ser poder a curto prazo» – levou a que as organizações assumidas de direita fossem «pulverizadas».

Respondendo à urgência de se coligir o material histórico e a necessidade de o explicar, António José Telo brinda-nos com o História Contemporânea de Portugal – do 25 de Abril à Actualidade, o primeiro de dois volumes que interpretam a história recente da nossa vivência em democracia. Neste primeiro tomo explana-se desde a Revolução do 25 de Abril até 1985; o segundo volume cobre o período entre 1986 e a actualidade, contemplando, ainda, a descolonização e a adesão de Portugal à União Europeia.

António José Telo, Professor catedrático de História na Academia Militar e autor de uma vasta obra no campo da História, Defesa e Relações Internacionais, refere no prefácio as dificuldades de escrever a História dum período recente: «Temos acesso à selva da informação tornada pública no dia-a-dia em infindável quantidade, mas muito duvidosa na sua verdade e que tende a asfixiar pela mera quantidade».

Com a «informação sobre a espuma das coisas» interpelada e com recurso a todo o tipo de fontes e testemunhos, desenvolve-se uma «obra que pretende ser uma fonte fidedigna de época». Este primeiro tomo tem 400 páginas para cinco capítulos que organizam criteriosamente a informação. Os títulos e subtítulos conferem-lhe um fácil manuseio e as explicações apresentadas pelo autor possibilitam uma interacção do leitor com a sua História. Ao longo do texto apresentam-se janelas e quadros explicativos com transcrições de documentos, declarações e factos como surgiram a público, composição dos diversos governos constitucionais, resultados de eleições para a Presidência da República; incluem-se ainda gráficos com dados sobre censos, educação e saúde.

O primeiro capítulo versa «O 25 de Abril e o novo poder», as novas organizações políticas numa conjuntura conturbada, própria do renascimento de um país. No segundo capítulo apresenta-se «A deriva comunista – Outubro de 1974 a Novembro de 1975». O terceiro capítulo é dedicado à «Consolidação na instabilidade», analisando-se «a violência remanescente», as novas estratégias dos Partidos Políticos com poder, o nascimento da AD, os realinhamentos partidários e a adesão à CEE. O quarto capítulo aborda «Uma economia à procura de uma estratégia», explanando-se impasses, crises e modulações várias. No quinto capítulo, apresenta-se o estudo sobre «Sociedade e Mentalidades – 1974-2006», analisando-se explicativamente as mudanças: «de emigrantes a imigrantes?», a nova família e o papel da mulher, o ensino, a saúde, a segurança social, a habitação, a Cultura e o lazer, entre outros assuntos.

Saber a História para interpretar o presente

Numa breve entrevista ao JL (Jornal de Letras), António José Telo referiu que escrever esta História mudou a sua «perspectiva sobre a evolução de fundo no Portugal nos últimos tempos». Comprovando-se que, como referiu, «a História ajuda a ver um pouco mais longe», no terceiro capítulo, ao abordar-se o «o fim de uma fase», com as eleições de Outubro de 1985, depois do Verão Quente, a assinalarem uma nova etapa na democracia portuguesa, lê-se:

«A instabilidade política de 1975/1985 tinha sido em larga medida uma herança do espírito do PREC de 1974/1975. A deriva comunista terminou com o 25 de Novembro, mas os seus efeitos nas mentalidades perduraram. Estava enraizada numa parte substancial da população a ideia consagrada na Constituição de que não se podia abrir mão da “conquistas irreversíveis» e que se caminhava para o socialismo, com tudo o que isso implicava(…)
Quando começaram as políticas de austeridade que obrigavam a apertar o cinto, a reacção geral foi fortemente negativa e contestatária. (…) A mais pequena tentativa de diminuir os poderes do imenso Estado levantava um coro de protestos de várias origens, com o fogo cruzado que partia da oposição, do Presidente da República, do Conselho da Revolução e da Rua.
(…) O Estado não só mantinha a sua esfera de acção consagrada no PREC, como alargava mesmo a outras funções, onde se destacavam o Serviço Nacional de Saúde, o aumento da segurança social e do ensino obrigatório e gratuito (teoricamente). (…)Era relativamente fácil cair no despesismo, que só tinha um travão eficaz quando surgia a crise de pagamentos internacionais e o FMI aparecia para impor a austeridade, sob pena da bancarrota. (...)
Sá Carneiro procurou desatar o nó górdio do problema em 1980, mas o seu desaparecimento prematuro fez tudo regressar ao mesmo, fossem os governos da AD ou do Bloco Central. Só em 1985 se reuniram as condições para acabar com esta fase. Em larga medida isso deveu-se a um factor externo – a adesão à CEE(...)»
(pp.247,248)

Numa altura em que os nossos governantes reconhecem a necessidade de ser ensinada nas escolas portuguesas a História da jovem democracia e que o que vem a ser ministrado está ao sabor das iniciativas de professores que, colmatando o vazio dos programas ditados pelas tutela, fazem questão de levar aos seus alunos a História recente, esta obra é um contributo inestimável; para nos ensinar a nós, tanto mais que «um terço da população portuguesa nasceu depois da Revolução dos Cravos», e para que possamos ensinar os nossos jovens.

História Contemporânea de Portugal – do 25 de Abril à Actualidade, volume I, António José Telo; Editorial Presença, Lisboa, Março de 2007

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

À procura d’ Os Degraus do Parnaso

Com a morte do filósofo, ensaísta e poeta M.S. Lourenço, no passado dia 01 de Agosto, aos 73 anos, verificou-se uma “procura acentuada” do seu Os Degraus do Parnaso, edição integral pela Assírio&Alvim em 2002, o que terá levado a que a obra “esgotasse”, segundo dito em algumas livrarias de Lisboa a leitores deste blogue. Ora, esta informação é errada. Confirmado por mim, os livros estão sossegados nas prateleiras da Assírio à espera de leitores que os mereçam.
Excelente notícia é também a que nos dá conta que a Assírio vai editar, ainda este ano, a obra poético-literária reunida de M.S. Lourenço, com o título O Caminho dos Pisões.

M.S. Lourenço estreou-se com poesia em O Desequilibrista (1961, Moraes editores). Também pela Moraes, seguiram-se O Doge (1963) - romance miniatural que conheceu uma 2ªedição revista e aumentada pela Fenda, em 1998 -, Arte Combinatória (1971) e Wytham Abbey (1974). Também em poesia, a Perspectivas e Realidades publicou Pássaro Paradípsico (1979) e a Assírio&Alvim editou Nada Brahma (1991).
No campo da Filosofia, como bem lembrado na caixa de comentários em baixo, M.S. Lourenço é autor de A Espontaneidade da Razão, editado pela INCM e Teoria Clássica da Dedução, pela Assírio&Alvim (como se verifica no link em M.S.Lourenço) além de ter traduzido o Tratado Lógico-Filosófico e as Investigações Filosóficas de Ludwig Wittgenstein, pela Fundação Gulbenkian.

O aclamado Os Degraus do Parnaso, Prémio D. Diniz da Fundação da Casa de Mateus, colige ensaios literários que M.S. Lourenço editou no jornal O Independente. Teve a 1ªedição pelas Edições O Independente, em 1991, para ressurgir na edição imperdível que aqui se referencia.
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Extracto do texto Genius Loci:
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«[…]Em contraste com Fernando Pessoa, a minha pátria não é a língua portuguesa mas antes o Latim de são Jerónimo, conhecido por Vulgata, o nome com que se designa a sua tradução da Bíblia. Mas de todas as línguas românicas a portuguesa é a que mais se assemelha ao Latim de São Jerónimo. O leitor da sua tradução do Novo Testamento não cessa nunca de se admirar perante a miraculosa congruência entre ritmo, o vocabulário e a sintaxe da frase da Vulgata, em formulações como
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Maria conservábat ómnia verba haec,
Cónferens in corde suo

E a correspondente frase portuguesa
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Maria conservava todas estas palavras,
Conferindo-as no seu coração.
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Ambas as línguas conseguem exprimir a mesma interioridade meditativa mas lúcida do acto de conservar palavras para depois as conferir.

Assim é-se forçado a concluir que a atitude tomada pelos portugueses perante o seu património é de tipo ingénuo ou naïf, não estando assim em condições de opor à incultura da civilização pós-industrial os frutos da sua história linguística e cultural, não se distinguindo assim dos chamados povos primitivos, já referidos acima, estudados pela etnomusicologia.
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Os factores que determinaram uma sociedade, com quase novecentos anos, a possuir um tipo de consciência an-histórica são essencialmente dois. O primeiro é, ao longo de toda a história nacional, a inexistência, do ponto de vista da cultura, de uma classe social que a represente. A incultura em Portugal nunca esteve nem está associada a uma única classe social. A incultura é uma característica comum que une todas as classes sociais portuguesas, quer estas sejam definidas a partir do privilégio do nascimento quer a partir do privilégio do poder económico. Enquanto que no resto da Europa a cultura foi inicialmente um predicado da Coroa e depois, mais tarde, dos empresários, em Portugal a nobreza primeiro e os empresários depois nunca tiveram, nem têm ainda hoje, necessidades de cultura. É por isso que os portugueses, ricos e pobres, nobres, burgueses ou proletários não tiveram nunca, e assim não têm hoje, a paisagem, a arquitectura, os museus, as bibliotecas, e as orquestras que têm as outras nações europeias com a mesma longa história.
O segundo factor diz respeito à apropriação do poder económico e cultural pelos empresários, após o triunfo da primeira revolução industrial. Como disse atrás só nesta altura foi proposto o conceito de Estado de Cultura, com o fim de prover à realização de uma política de cultura nacional, a qual incluía a definição, o tratamento e a conservação de todo o elenco do património cultural. Em Portugal a inexistência da nobreza como classe de cultura e o aparecimento tardio de uma classe empresarial, mas de origem proletária, tornaram impossível a realização de uma tal política.
Assim, Portugal está na situação da princesa da ópera Ariana em Naxos: a nós também só nos resta esperar pelo dia em que Bachus desça e anule o desfavorável oráculo que paira sobre a nossa cultura.». p.p.141, 142, 143.

domingo, 30 de agosto de 2009

Escritos de Kleist

Atenção a este título: Sobre o Teatro de Marionetas e Outros Escritos de Heinrich von Kleist é uma jóia editorial que queremos ter bem ao pé da mão e ir saboreando devagar. Editado recentemente pela Antígona, o volume de 158 páginas reúne 16 textos curtos (entre os quais o que dá título ao tomo) escritos entre 1799 e 1811, de temática filosófica onde é claro o comprometimento do autor com a sua época, denunciando com ironia o Teatro de Marionetas - ou o palco da existência onde todos somos mais ou menos títeres – onde desfilam «fraquezas, imperfeições, falsidades e hipocrisias» que geram o «sentimento de miséria».

Escritor incontornável do romantismo alemão, a par de Goethe, Schiller e Novalis, ainda que injustamente menos falado, Heinrich von Kleist (1777-1811) foi nome de topo da dramaturgia alemã, sendo considerado o precursor do teatro moderno.

A presente obra é, por todas as razões, motivo de júbilo, acrescido pela superior tradução, e estudo inicial, de José Miranda Justo. Mais um livro com que a Antígona celebra o seu 30º aniversário, e registe-se que a Antígona sabe celebrar-se em cada livro que edita.

Deixo uns extractos desta minha actual leitura:

Sobre a gradual elaboração dos pensamentos no discurso

«Quando queres saber certa coisa e não encontras resposta por via da meditação, aconselho-te, meu querido e arguto amigo, que fales sobre o assunto com o primeiro conhecido que encontres. Não precisa de ser propriamente um espírito perspicaz, aliás o que digo também não significa que hajas de o interrogar para obteres a resposta: não! Pelo contrário, antes de mais deverás contar-lhe o que te preocupa. Vejo-te já a abrires muito os olhos e a responderes-me que em anos mais recuados te deram o conselho de não falares senão sobre coisas que entendesses. Nesse tempo, porém, falavas provavelmente com o intuito de ensinar coisas aos outros, enquanto aquilo que pretendo é que fales com a sensata intenção de te instruíres a ti mesmo; sendo assim, tratando diferentemente o que é diferente, talvez as duas regras de bom senso possam coexistir sem embaraço. Os Franceses dizem: l’ appétit vient em mangeant; este princípio derivado da experiencia permanece verdadeiro se o parafrasearmos dizendo: l’ idée vient en parlant. (…)» p.p.71, 72


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A Fábula sem moral

«Pudesse eu ter-te, dizia o homem a um cavalo que estava á sua frente devidamente selado e arreado, mas que não queria deixar-se montar; pudesse eu ter-te tal como em tempos saíste das florestas, em bruto, simples filho da natureza! Conduzir-te-ia, ligeiro como uma ave, por montes e vales, como me aprouvesse; bem nos sentiríamos, tu e eu. Mas ensinaram-te artifícios dos quais eu, desprovido como estou perante ti, nada sei; e ser-me-ia preciso entrar contigo no picadeiro (livre-me Deus de tal coisa) se quiséssemos entender-nos.» p.86

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Um princípio da crítica superior

«É preciso mais génio para apreciar uma obra de arte mediana do que para apreciar uma que seja excelente. A beleza e a verdade evidenciam-se à natureza humana em primeiríssima instância; e tal como os princípios mais sublimes são os mais fáceis de entender (só a minúcia é difícil de captar), também o belo agrada com facilidade; só o que é deficiente e afectado precisa de esforço para ser saboreado. (…)» p.151

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Poesia Cubana Contemporânea

(Texto editado hoje no site Orgia Literária)

Dois poetas laboram sobre outros dez, num encontro apadrinhado por uma editora que há muito nos mostra a dedicação que põe nos livros que faz. Refiro-me à Antologia bilingue Poesia Cubana Contemporânea – Dez Poetas com a chancela da Antígona. Pedro Marqués de Armas selecciona, apresenta e critica as vozes, faz o extraordinário Prefácio e as Notas do documento. Jorge Milícias assina a exímia tradução.

Em 237 páginas compendiam-se desenraizamento, dor, desdém, denúncia e raiva de dez ânsias de liberdade: José Kozer (1940), Reinaldo Arenas (1943- 1990), Reina Maria Rodríguez (1952), Ángel Escobar Varela (1957-1997), Rolando Sánchez Mejías (1959), Ismael González Castañer (1961), António José Ponte (1964), Omar Pérez (1964), Damaris Calderón (1966) e Alessandra Molina (1968).

No prefácio, Pedro Marqués de Armas dá-nos, de forma precisa e sintética, a contextualização histórica da produção literária cubana, define-lhe as características desde o início – por volta de 1825, tendo em José Martí, o poeta soldado, «ao mesmo tempo o último romântico e o primeiro modernista da América Latina» –, para desembocar nos anos 80, com recolha de textos de autores que começam a escrever nesta altura ou nela se consolidam, época a partir da qual, defende Armas, a poesia começa a libertar-se do «lastro da ideologia».

A selecção dos textos da mostra poética entronca no percurso de uma poesia em constante tensão com a História, refere Armas, com esta a ter de ser redimida pela primeira: a identidade, a insularidade, a procura de vanguardas, a institucionalização da literatura devido à «imposição do realismo socialista como único modelo estético» que servia a Revolução castrista, a fragmentação, os exílios constituem uma herança fortíssima que os poetas cubanos da geração de 80 carregam e transpõem para a palavra com grito subversivo. Com esta necessária Antologia, ficamos a perceber «em que travessias, em que estranhas / paragens / em que trocas», palavras de Omar Pérez, as letras cubanas contraíram o engenho, e como essas travessias se encontram e se enredam no século XX com a nova palavra.

Continuar a ler no site Orgia Literária

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Eça de Queirós e Manoel de Oliveira


O mais recente filme de Manoel de Oliveira, Singularidades de uma rapariga loura, baseado no conto homónimo de Eça de Queirós, estará em exibição na Cinemateca portuguesa, no dia 2 de Setembro às 21h30. A sessão especial, que contará com o decano da sétima arte portuguesa, terá ainda Rencontre Unique (França, 2007), episódio por si realizado para o filme colectivo Chacun Son Cinéma, com a duração de 3 minutos e participação de Duarte de Almeida e Michel Piccoli. O filme surge em homenagem a Duarte de Almeida, pois foi o último com a sua participação. O filme foi estreado em vida de João Bénard da Costa. É legendado em português.

Singularidades de uma rapariga loura, com Catarina Wallenstein, Ricardo Trepa, eDiogo Dória, tem a duração de 64 minutos. «Foi o único filme de Manoel de Oliveira que João Bénard da Costa não viu», e o que «mais gostaria de ter visto», lê-se no Boletim da Cinemateca (o qual agradeço ao zeloso Nuno Rodrigues).

Imperdível, pois, esta sessão e, já agora, obrigatório ler o conto de Eça de Queirós.

domingo, 23 de agosto de 2009

A política e o mando - no século XVII como no século XXI

Nestes longos dias de campanha eleitoral, a nossa atenção vira-se para o discurso de todos os arremessos e estratégias: o discurso político. As reflexões e as lições tiradas podem e devem ser muitas, tanto sobre a política que se faz por cá, desde a retórica à prática, mas sobretudo sobre o que somos, veiculado por esse vaivém frenético de mandos e desmandos, quezílias e quejandos que nos inviabilizam a crença e, assim, a obediência.

Por isso, exultantes, descobrimo-nos numa prédica política do século XVII. Manuel Fernandes de Vila Real é o autor dos “Discursos Políticos” que desafiam este nosso tempo, dizendo-nos sobre o ofício de mandar: «num ministro o defeito não é só um crime mas uma regra, porque os súbditos aprendem mais com o exemplo que com os preceitos.». Quatrocentos anos depois, o espelho devolve-nos a imagem. Sendo o espelho uma superfície de revelação, que se tirem ilações e que se aprenda com elas.

Actuação política, Verdade e Eloquência

O autor diz que um governante tem de ser sábio e estar bem preparado; «a ignorância é mãe do mau sucesso e quanto maior é seu poder, maior é seu dano». E, depois, «se a sabedoria não reina, quem governará a ignorância?». Então, como escolhê-lo? «Grande infelicidade entregar-se o governo ao que ignora o governo da sua casa. Para se conhecer um ministro, é necessário ver o seu talento, não sua pessoa.» A erudição e as letras são condição essencial ao bom governante; «se não constrói um edifício aquele que não é arquitecto; por que se admitirá no Conselho o que carece de estudo?»; Ele necessita dominar as letras, pois «As palavras bem ordenadas são mais poderosas que as armas; umas aproveitam-se do poder, outras do discurso; se aquelas submetem o corpo com a violência, estas, o entendimento com a razão».

Porém, defende o autor, todo o político deve estar atento ao Dizer e Fazer: «É mui necessário num ministro o dizer e o fazer. A ciência que não se reduz a acto, que não se manifesta, é vã; e ser só para si é não querer ser para ninguém. (…) E num ministro o defeito não é só um crime mas uma regra, porque os súbditos aprendem mais com o exemplo que com os preceitos.».

Advertências ao apetite desordenado dos políticos

O autor discorre sobre a ambição desmedida dos políticos, e adverte-os para a prudência e a reputação, lamentando que poucos tenham estes atributos: «O empreender coisas grandes é de ânimo grande; e efectuá-las é de uma capacidade superior e de uma mão não medíocre fortuna. Às vezes procede quer do valor quer da desesperação; a umas acaba a sorte, outras acabam com o que as empreende. São poucas as que a prudência consegue, porque são raros os sujeitos que a gozam eminentemente. Quem estima a sua reputação considere primeiro se é poderoso para efectuar o que intenta, porque é danosa a experiência se não se executa, que o não aspirar ao que não poderia conseguir.».

Assim, à laia de conselho, «Que se sofra o que se não pode emendar, que não se provoque os que podem ofender»; há que contar, também, com o ressentimento daqueles que se vêem fora do governo e reparam que não é necessária a sua assistência para se governar. Adverte que a sede de poder pode levar um político a sucumbir à teia dos favorecimentos, desaconselhando-os.
Pronunciando-se sobre Validos e Valimento, o autor reflecte no preço perverso e de efeitos ilusórios que têm os favorecimentos: A privança, o favor, «é mais um cuidado grave que uma posse deleitosa. Não a procura o sábio, porque a tranquilidade do ânimo, que apetece, não se acha na confusão dos palácios.».

A Queda: quanto «Maior Altura Mais Fundo o Precipício»

É certo que todo o fruto sem dentro está condenado ao desprezo. Neste sentido, o autor defende que o amor pela causa pública tem de ter assento na alma, ou não passa de aparência, e esta tem um fim anunciado. Por outro lado, mesmo com boa actuação, todo o político deve ter em conta a sua queda. Esta postura dar-lhe-á lucidez e torna-o zeloso no cumprimento do seu ministério. Assim, se pronuncia: «Não há coisa que possa durar estável em sua perfeição»; «O ministro que tenha servido bem, tema sempre a sua queda, porque quando não a ocasionem seus erros, a executará a inveja ou a fortuna.».

E, sabemos – e sabe-o o político – que «o declive não tem escalões senão a queda.» Refere-se que o que cegou com a vaidade e ambição levará outros consigo na queda fatal: «É efeito próprio da soberba levantar o corpo segundo o edifício, não fabricá-lo segundo seu corpo. Julgam as suas forças pela sua ambição, e enganam-se, porque lhes faltou o conhecimento em seus juízos. Promete-se vitórias onde não podem esperar senão ruínas, loucura que tem o castigo na experiência. Enganar-se com a esperança, à custa de sua perda, é efeito de um apetite desordenado e induzirá outros a que sigam os seus passos; é pretender companheiros na miséria e conduzir muitos ao precipício.».

O autor alerta para as sedições, as sublevações populares, que são «como as ribeiras que quanto mais correm mais crescem, e se não acham resistência, não cessam até chegar ao oceano do diadema. (…) O seu ímpeto é desenfreado, uma fraqueza do entendimento que o amor da liberdade cega; ou da vontade que induz a paixão da inveja; ou do apetite que o gosto de mandar levanta.». Diz que a «Verdade é que o povo, como discorre sem prudência, sente mais o presente que teme o futuro; queixa-se mais do que insensivelmente se lhe tira do que pode perder ficando arruinado».


O autor: Manuel Fernandes de Vila Real nasceu na pululante e mercantil Lisboa, em 1608 – o mesmo ano em que nascia o autor do “Sermão de santo António aos Peixes”, o padre António Vieira – e, pela definição de hoje, foi «um dos primeiros jornalistas portugueses». Foi confidente (e/ou espião?) do cardeal Richelieu que lhe perguntava pelo «reino de Portugal e estado de suas coisas.».
Exerceu intensa actividade política e diplomática. Os seus discursos recentemente lançados no livro «Epítome Genealógico do Eminentíssimo Cardeal Duque de Richelieu e Discursos Políticos sobre algumas acções da sua vida», na Colecção «Obras Clássicas da Literatura Portuguesa – Século XVII», são arautos do direito à liberdade de consciência, antecedendo Bento Espinosa, autor do «Tratado Teológico-Político.». A expressão da liberdade de consciência do século XVII tinha direito à incineração e este português “maldito” acabou queimado no fogo da inquisição.


nota: edição deste documento com contributo inestimável para a cultura portuguesa é assinada pelo notável António Borges Coelho e tem a chancela da Editorial Caminho.

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

123 anos com Cesário Verde

(Texto editado hoje no sitio da Orgia Literária)
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Cesário Verde arranca facilmente paixões a quem o lê e, sobretudo, a sensação persistente do muito que há por descobrir no olhar do poeta que assim clamava: «Ah! Ninguém entender que ao meu olhar / Tudo tem certo espírito secreto!». Trata-se de um olhar cheio de realidade que apreende uma Lisboa antropomórfica, dos sentidos apurados, da luz e da transfiguração que esculpem a poesia, da contundente crítica social, do pungente retrato da condição humana, que ele nos deixou, a título póstumo, num diamante poético magistralmente lapidado: O Livro de Cesário Verde.

Criticado e desprezado no seu tempo – pelo «sentimento dum ocidental» de estilo novo, à maneira de Baudelaire e dos parnasianos, que chocou a enquistada elite cultural do Portugal oitocentista –, Cesário disse: «Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso, / Os pegos abismais da minha vida. (…) E eu hei-de, então, soltar uma risada…». E nós ouvimo-la, real, intensa e sonora através de uma poesia onde o prosaico e a reportagem artística se convertem em grande literatura.

José Joaquim Cesário Verde nasceu a 25 de Fevereiro de 1855, em Lisboa, e morreu precocemente a 19 de Julho de 1886. A tuberculose, vulgo tísica, que o vitimou, aparecia como o epílogo de uma geração que, assim, se esvaía: «E que fazer se a geração decai! / Se a seiva genealógica se gasta! / Tudo empobrece! Extingue-se uma casta! / Morre o filho primeiro do que o pai!».
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Neste contexto de morte que assolava o Portugal de oitocentos – a juntar epidemias de febre-amarela e Cólera –, a poesia de Cesário aparece como baluarte de resistência às trevas, um grito de sobrevivência num projecto intemporal: «Se eu não morresse, nunca! E eternamente / Buscasse e conseguisse a perfeição das coisas…». Iria encontrar a perfeição na poesia de palavras «salubres e sinceras», com que transfigurou a realidade imperfeita. Poeta Realista, Cesário deambulou no real urbano, na cidade de Lisboa, captando-lhe retalhos de vida; Impressionista, fez do cosmopolitismo doentio quadros pintados «com letras e sinais», luz e sombra, cheiros e sons: «Eu tudo encontro alegremente exacto, / Lavo, refresco, limpo os meus sentidos / E tangem-me, excitados, sacudidos, / O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto.».

Considerado o representante do Realismo Poético português, por retirar “toda a palha” à observação fiel, o seu exercício sobre o concreto é, no entanto, apimentado pela ironia e pela crítica sagaz e acutilante de quem tinha «riquezas químicas no sangue» e se revoltava com o que olhava. O «aconchego», a «vida fácil» dos burgueses e a «nódoa negra e fúnebre do clero» foram alvos da sua repulsa e, portanto, sujeitos à aclaração ou caso de «Manias!» de um poeta atento e crítico para quem «O mundo é velha cena ensanguentada, / Coberta de remendos, picaresca; / A vida é chula farsa assobiada, / Ou selvagem tragédia romanesca.». Em vivas «Horas mortas», denuncia um presente de vida falida, de frustração, de decadência colectiva, de um Portugal morto-vivo: «Mas se vivemos, os emparedados, / Sem árvores, no vale escuro das muralhas!… / Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas / E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.». São os «nebulosos corredores» da sua magistral poesia que capta, como nenhuma, a desagregação existencial: «E, enorme, nesta massa irregular / De prédios sepulcrais, com dimensões de montes, / A Dor humana busca os amplos horizontes, / E tem marés, de fel, como um sinistro mar!».

Nascido em berço burguês, via, no entanto, nas classes mais desfavorecidas a razão de Portugal, a vida da cidade, a energia portentosa dos seus versos. O trabalho dedicado dos humildes é recriado poeticamente em «Cheiro salutar e honesto ao pão no forno», e as mulheres irrompem com um poder quase místico: «Vêm sacudindo as ancas opulentas! / Seus troncos varonis recordam-me pilastras; / E algumas, à cabeça, embalam nas canastras / Os filhos que depois naufragam nas tormentas.»

No poema «Cristalizações», Cesário denuncia a opressão das classes trabalhadoras: «Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas! / Que vida tão custosa! Que diabo!». Segundo o poeta, esta é uma realidade imutável, um desígnio delatado assim: «Povo! No pano cru rasgado das camisas / Uma bandeira penso que transluz! / Com ela sofres, bebes, agonizas. / Listrões de vinho lançam-lhe divisas / E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!».

A mulher e a sexualidade

Figura central na poesia de Cesário, a mulher é muito mais do que a catalogada em “Mulher Anjo” e “Mulher Demónio”, como é ensinado na Escola portuguesa. O autor de «Ó áridas Messalinas» apresenta a mulher numa negociação da masculinidade como uma posição sexual, ela vem preencher o lugar do Outro, o lugar de inscrição da sexualidade do poeta. Por outro lado, a existência de mulheres de traços masculinos (como as hercúleas varinas de «O sentimento dum Ocidental» ou a vendeira de «Num Bairro Moderno») surgem com poder mítico a sublinhar o drama da identificação do corpo com um género sexual.

Abordando as temáticas da sexualidade e do papel da mulher na poesia cesárica – a cândida e virginal, mas também a lúbrica, a sensual, a libidinosa, as mulheres desprezíveis, mas atraentes –, Hélder Macedo (num artigo de 16 páginas, editado no livro Cesário Verde – Visões de Artista, da Campo das Letras, que reuniu as comunicações do colóquio dos 150 anos do nascimento do poeta) apresenta-nos leituras, desvela-nos significações metafóricas, surpreende-nos com o arroubo secreto dos textos.

Por exemplo, enquadrando as metáforas de “barco” ou barca – que significam a fálica sexualidade masculina – e “mar” – que transporta a «húmida sexualidade feminina», o ensaísta apresenta-nos uma leitura do soneto «Heroísmos», título «algo irónico» que «revela as ambivalências do jovem Cesário em relação às mulheres sexualmente vorazes que simultaneamente temia, desejava e desprezava, num encadeamento de emoções mal resolvidas e de comportamentos contraditórios que culmina na horrenda imagem de uma ejaculação profanadora no último verso». Transcrevemos um excerto desse poema:
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Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento,
O mar sublime, o mar que nunca dorme
(…)
Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n’água quase assente,


E ouvindo muito perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!

O Livro de Cesário Verde foi editado meses após a sua morte, em Abril de 1887, pelo amigo Silva Pinto, que incluiu na antologia apenas vinte e dois poemas, quando são conhecidos mais de quarenta. Cesário é o nosso eterno poeta; revisitá-lo não é uma obrigatoriedade, é uma necessidade que nos tange os sentidos.
.
© Teresa Sá Couto

Antologia da Poesia Grega


Na azáfama dos dias em que o kitsch é rei, regressar à poesia helénica e a sua indemne sabedoria de pensar o ser humano, é motivo de júbilo. Por isso, é de saudar a edição do Antologia Da Poesia Grega Clássica, com tradução e notas complementares do poeta e tradutor Albano Martins, com a chancela da Portugália Editora.

Como informa na introdução Albano Martins, a «antologia tem como matriz de referência duas obras publicadas em França na segunda metade do século passado: Anthologie de la Poésie Grecque, de Robert Brasillac e La Couronne et la Lyre, de Marguerite Yourcenar.».
E são 547 páginas com estes nomes: Homero, Hesíodo, Arquíloco, Calino, Mimnermo, Tirteu, Álcman, Aríon, Sólon, Estesícoro, Íbico, Alceu, Safo, Anacreonte, Erina, Aristeu de Proconeso, Teógnis, Pitágoras, Simónides de Ceos, Calístrato, Xenófanes, Parménides, Píndaro, Ésquilo, Baquílides, Empédocles, Sófocles, Eurípides, Crítias, Aristófanes, Querémon, Cleanto, Filóxeno, Crates de Tebas, Menandro, Calímaco, Apolónio de Rodes, Teócrito, Herondas, Bíon, Mosco, Arato, Pseudo-Focílides, Anacreônticas, Meléagro, Esopo, Opiano, Bábrio, São Gregório de Nazianzo, Quinto de Esmirna, Sinésio, Apolinário, Nono, Proclo, Coluto, Museu, Paulo Silenciário.


O êxito

Granjear miséria e com abundância é fácil.
A estrada é plana e fica muito próxima.
À frente do mérito, porém,
puseram os deuses o suor: o caminho
para lá é longo e corre a pique;
é árduo ao princípio, mas,
quando se chega ao cimo,
embora difícil, depois parece fácil.

Hesíodo, p.p. 71, 72
**
Eu penso, logo existo

Pois bem, eu vou falar, e tu escuta e retém as minhas palavras,
que te ensinarão as duas únicas vias do conhecimento que é possível conceber.
A primeira é o que é e que não pode deixar de ser.
É a via da persuasão, companheira da Verdade.
A segunda é o que não é e como é forçoso que não exista.
Digo-te: esta via é uma senda que não se pode percorrer.
Pois não poderás conhecer o que não é
nem exprimi-lo por palavras.

…Pois pensar é o mesmo que existir.


Parménides, p.175

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Quetzal no reencontro com Vergílio Ferreira

Aos mais distraídos, alerto para a reedição da obra completa de Vergílio Ferreira, em tomos individuais com esmero inaudito da Quetzal, para um reencontro de sempre.

Escritor de excelência, Vergílio Ferreira (1926/1996) é o ilustre representante do Existencialismo em Portugal; o “Eu” e o mistério da morte ocuparam grande parte da sua reflexão literária e a sua obra «Aparição» foi, ao longo de gerações, leitura obrigatória nos currículos escolares dos alunos do 12º ano.

Vergílio Ferreira procura nas coisas o seu «mistério e o seu alarme» que «são o tecido de tudo». Cônscio, defende que o homem é o que faz, responsável por todos os seus actos, e faz da palavra o meio para essa investigação humana. Sobre a razão da sua escrita, responde-nos assim:

«Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem e a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo.».

Sobre essa necessidade de escrita que nos despoleta a necessidade de o ler, transcrevo dois extractos do espantoso romance «Em Nome da Terra», escrito em 1989 e editado no ano seguinte. Outros extractos podem ser lidos na Casa Improvável.

Extractos:

«Um corpo apenas, material, verificável. Mortal. Mas o que sobrepus nele não se trespassa assim. É preciso atravessar o medo o deslumbramento o impossível. É preciso vencer o mistério – um corpo amado é tão misterioso. Meu corpo de ternura. Havemos de conquistá-lo até um dia. Até quando ele for insuportável de doçura. Devagar. Mas há a tua inquietação. A tua pressa ardência, deixa-me ter tempo de te criar. De te trazer toda às minhas mãos. De trazer até mim o teu olhar esquivo, os teus desencontros furtivos. A tua agilidade, o oculto de ti. O teu riso, a tua franja irrequieta. A rapidez de seres, a vitalidade desassossegada, a tua alegria agressiva. A intensidade de existires – devagar. Atravessar tudo até ao teu mito que está todo no teu corpo nu. Fica longe. Tanto. E então amámo-nos e tudo estava aí. Estava lá tudo ao mesmo tempo e eu estalava de agonia. E Deus olhava-nos e dizia está bem. Realizar Deus todo inteiro é difícil. Está bem. Tínhamos as galáxias do universo e havia ainda espaço. E isso era de endoidecer. Tínhamos em nós a sua expansão até ao rebentamento de nós. O desmesurado e incrível. Deus olhava o nosso esforço enorme e sorria por cumprirmos o seu poder. Gostava bem de ser calmo ao dizer-te. Um corpo cerrado num punho sangrento de homem. Ter-te toda de uma vez. As pernas os seios a boca. Apunhar-te toda na minha avidez. Mastigar-te integrar-te no meu sangue. E tu enovelada em mim, na angústia exaltação de uma morte que viesse. Desaparecermos no não-ser, na perfeição. E olhar por fim o teu corpo morto, reconhecermo-nos na materialidade expulsa do paraíso.».p. 102
.
«E vão sendo horas enfim de descermos ao rio. Amanhã talvez? Hoje. Um dia. Estará uma noite quente, caminharemos de mãos dadas. O anjo não virá, que teria lá que fazer? Vamos sós. Não terei medo da tua presença com toda a sua força de me ajoelhar. Olharei o teu corpo na sua transparência incorruptível. Sofrerei em mim a descarga do universo e não gritarei o teu nome. Porque estará em mim e eu hei-de sabê-lo. A areia brilhará de uma luz pálida, pisá-la-emos devagar a um impulso fortíssimo e lento. Estaremos nus desde o início, sem vergonha anterior. Nudez primitiva, não a saberemos. Porque será uma nudez para antes de os deuses nascerem. Então mergulharemos nas águas do rio e deitar-nos-emos na areia. E olharemos o céu limpo e sem estrelas. E acharemos perfeitamente natural, porque a iluminação estará em nós. Erguer-nos-emos por fim e eu baixar-me-ei ao rio e trarei água na concha das mãos. E derramá-la-ei imensamente devagar sobre a tua cabeça. E direi para toda a história futura, na eternidade de nós
- Eu te baptizo em nome da Terra, dos astros e da perfeição.
E tu dirás está bem. » p. p. 270, 271


Em Nome da Terra, Vergílio Ferreira; Quetzal, 10ª edição, 2009


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

As perguntas de Neruda

Não deixa de ser curiosamente pertinente que a obra póstuma de Pablo Neruda se intitule O Livro das Perguntas, ele que passou a vida a interpelar o mundo com a palavra de pendor épico. «Como tiveram as uvas conhecimento / da propaganda do cacho?», questiona o poeta chileno numa metáfora que já deu o titulo ao As Uvas e o Vento, esse canto de propagação da esperança, editado entre nós há dois anos, e que ressurge, profícuo, em perguntas orvalhadas: «É verdade que as esperanças / devem ser regadas com orvalho?».

É um livro pequeno, editado há alguns meses, com 74 poemas curtos, e como todos os livros pequenos de grandes autores demora muito tempo a ler. Na nossa sensibilidade e na experiência dos dias, encontramos a resposta para algumas perguntas; outras são questões de retórica; outras, ainda, têm o peso do aforismo; todas têm a capacidade de nos deixar suspensos no seu eco. A tradução deste pequeno desassossego está entregue ao poeta e tradutor Albano Martins, que há muito traduz para a Campo das Letras as obras de Neruda, incluindo o incontornável Canto Geral.

«Há loucura maior na vida / que ter nome de Pablo Neruda?», «O que dirão da minha poesia / os que não tocaram o meu sangue?», «Posso perguntar ao meu livro / se fui eu que o escrevi?», pergunta Neruda sobre ele próprio, neste livro que já foi por muitos enunciado como o seu “testamento”, nomeação que considero ser exagerada já que temos de nos deter na valia da sua obra que, aliás, deu ao autor o Prémio Nobel da Literatura em 1971; o «Livro das Perguntas» é, indubitavelmente, uma síntese originalíssima e feita com mestria do seu programa literário. Humor e acidez crítica, companheirismo e cumplicidade, perda e fé são os trajectos centrais das inquirições.

Tingidos de misticismo, os elementos da natureza apoiam a reflexão sobre a condição existencial:

«Onde há-de viver um cego / a quem as abelhas perseguem?»
«Já contaram o ouro que há / no território do milho?»
«Se o amarelo acabar / com que havemos de fazer o pão?»
«As lágrimas que não se choram /esperam em pequenos lagos? / Ou serão rios invisíveis / que correm para a tristeza?»
«Porque se suicidam as folhas/ quando se tornam amarelas?»
«Sabes que reflexões / rumina a terra no Outono?»
«Porque é que a agricultura se ri / do pálido pranto do céu?»

Fortíssima, como Neruda nos habitou, a sua missão de denúncia política corre com raiva, ironia, solidariedade e desafio de tomada de consciência, semente da actuação:

«E sentar o triste Nixon / com o rabo sobre a braseira? / Queimando-o com fogo lento / de napalm norte-americano?
«Porque é que na Bolívia não amanhece / desde a noite de Guevara? / E o seu coração assassinado / procura ali os assassinos?»
«É verdade que sobre a minha pátria / voa de noite um condor negro?»
«É mau viver sem inferno: / não podemos reconstruí-lo?»
«Como conseguiu a liberdade / a bicicleta abandonada?»
«De que se ri a melancia / quando estão a assassiná-la?»
«Quando o preso pensa na luz /ela é a mesma que te ilumina?»
«Porque é tão dura a doçura / do coração da cereja? / É porque tem que morrer / ou porque tem de continuar?»
«Onde encontrar um sino / que soe dentro dos teus sonhos?»
«As lembranças dos pobres/ das aldeias juntam-se todas?»


Por consequência, o artífice da palavra feita arma questiona o seu próprio ofício e o preço a pagar por ele:

«Porque é que me picam as pulgas / e os sargentos literários?»
«Porque rolo sem ter rodas / e voo sem asas nem penas, / e o que me deu para emigrar / se os meus ossos vivem no Chile?»
«Foi onde me perderam que por fim / consegui encontrar-me?»
«Porque é que nos tempos sombrios / se escreve com tinta invisível?»


Livro das Perguntas, Pablo Neruda; tradução de Albano Martins; Campo das Letras, 2008

© Teresa Sá Couto

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Caleidoscópio feminino

Vinte e sete histórias do brasileiro Rubem Fonseca

Se «não há mulher que não sonhe em matar o marido», Francisca torna o sonho realidade; Guiomar faz com que o companheiro aprenda e realize por ela as tarefas domésticas; Luíza faz uma «ablação peniana» ao namorado; Zézé (Josefina) prepara-se para o Dia Internacional do Orgasmo; Belinha é assassinada pelo namorado, que é assassino profissional, pois ele fica escandalizado por ela querer matar o pai: estes são alguns motes para as histórias do Ela e as Outras mulheres, décimo primeiro título que a Campo das Letras editou entre nós do prolixo, carnal, desbocado e virulento escritor brasileiro Rubem Fonseca, Prémio Camões 2003.

São vinte e sete mulheres, uma para cada conto, construídas no quotidiano urbano violento. São adolescentes, jovens, adultas, de meia-idade e idade avançada; são vítimas, dedicadas, meigas, solitárias, manipuladoras, cerebrais, lascivas, ninfomaníacas, cleptomaníacas; são 148 páginas de histórias curtas, concisas e de enredos imprevistos, que se lêem de um fôlego, em apenas algumas horas.

Mesmo que em muitos contos Rubem Fonseca construa a psicologia feminina de forma estereotipada, cheia de lugares comuns, com moldes repetitivos de violência e sexo (obsessões na escrita do autor e que lhe têm granjeado críticas de ser um escritor comercial), noutros irrompe o processo de construção de histórias com fulgor quase genial. Em subsídio da leitura activa está, também, a componente cinematográfica das pequenas narrativas, velozes e dinâmicas, que prendem o leitor ao texto levando-o de surpresa em surpresa até aos finais inesperados, arrancando-lhe um sorriso ou uma repulsa, e nunca a indiferença.

Por ordem alfabética, vão surgindo os nomes das mulheres, titulando os contos, marcando diversas cadências na pulsação desta antologia.
Francisca, tal «como toda a mulher casada», vivia «tomando remédios aos montões para aliviar momentaneamente» a sua «insuportável carga de frustrações», até que um dia decide usar os seus medicamentos para mudar a vida. A resolução era simples: juntá-los à bebida do marido para depois o matar. Corre assim o texto:

Estava morta de cansaço quando cheguei à varanda, mas ainda tive forças para deitá-lo de barriga sobre a grade da varanda e depois agarrar suas pernas, levantá-las e impulsionar o corpo.
A queda causou um distante som oco ao bater na calçada.
Depois liguei para a polícia dizendo que o meu marido tinha bebido demais e havia caído da varanda. Acrescentei que ele era viciado em entorpecentes.
Voltei para a sala e bebi outra taça de champanhe. Adoçava a boca, antes de começar a comer o pão que o diabo amassou.
Depois, na frente do espelho ensaiei a história que ia contar para a polícia. Seu delegado, isso aconteceu no mês passado com o morador do 1201, que também misturava bebida com calmantes, era alto e gordo como o meu marido e caiu da varanda, a grade é muito baixa.
Ele provavelmente também foi empurrado pela esposa, mas esse final não ia contar.
Fiz minha cara de choro e as lágrimas escorreram. É fácil chorar se a pessoa está feliz.

A história de Belinha introduz a figura do assassino a soldo, muito cultivada na literatura brasileira e que se radica na violência real que grassa no país. Esta figura está incluída noutros contos desta colectânea, nomeadamente na história de Teresa, mulher que é salva por um destes assassinos que matam por dinheiro, mas «nem sempre»; e assim se mostra a dedicação das letras brasileiras pela exploração esta figura da violência nos seus múltipos contornos, filão para a sátira social.

Belinha tem dezoito anos, é menina de boas famílias, formada em bons colégios, fala francês e gosta do namorado bandido porque o «tesão» dele era verdadeiro. Mas a rapariga comete um erro de cálculo ao pedir-lhe que assassine o pai para ela ficar com o dinheiro, pois o namorado, assassino profissional que a adorava, tinha a sua honra, e descarrega-lhe a Walter «bem na nuca para ela morrer de maneira instantânea e sem dor.»: «Como é que alguém pode querer matar o pai ou a mãe?».

Ela e Outras Mulheres, Rubem Fonseca; editorial Campo das Letras, Porto, Fevereiro 2008


© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

«As Mulheres Deviam Vir Com Livro de Instruções»


Com as mulheres há que ter uma postura cartesiana: «primeiro destruir as opiniões e, depois, não confiar cegamente nos sentidos, tantas vezes ilusórios e falsos», ou então vê-se um tipo enredado «nas mais inverosímeis trapalhadas». Por isso As Mulheres Deviam Vir com Livro de Instruções.

Isto não é uma brincadeira. É até um caso muito sério. Um caso seríssimo espraiado em 141 páginas de barafundas, apimentadas por um humor fino e inteligente, com escrita dúctil, vibrante e coloquial. Uma comédia de costumes, de Manuel Jorge Marmelo, regozijo para os leitores, homens e mulheres de cá, mas já no lado de lá a falar castelhano: está editado em Espanha pela editora basca Txalaparta e, mais longe, em Itália, pela pela Vertigo Edizioni, Roma, 2008 (ver segunda imagem). Mais um voo português à conquista do mundo. E que voo!

Foi o primeiro livro traduzido de Manuel Jorge Marmelo. O acordo prevê a posterior edição em outros três países de língua castelhana da América Latina: Chile, Argentina e Uruguai. O autor nasceu no Porto em 1971. É jornalista desde 1989. Estreou-se nas letras em 1996 com O Homem que julgou morrer de amor/O caso virtual (ver na etiqueta correspondente ao autor).

O «As Mulheres Deviam Vir Com Livro de Instruções» apresenta-nos uma profusão de histórias burlescas e bem contadas, num processo narrativo sólido. O narrador, participante, mas não omnisciente, sobretudo no que diz respeito a mulheres, é Madureira, 43 anos, espécie de trolha, «canalizador-carpinteiro-pedreiro-pintor-mecânico-de-pequenos-electrodomésticos, formado na Faculdade da Necessidade», bígamo, casado “secretamente” com Uiko e Maria da Anunciação, com 3 filhos em cada família, e mais umas "aventuras". Porém, avisa, quanto mais mulheres, «mais discussões e os inconvenientes conjugais».

Esta polivalência fá-lo enredar-se com todos os outros: Noronha, dono de uma Agência de Inovação Ocupacional que arranja emprego a Maria Rosa com o advogado Francisco J. Morais, passando estes a ser amantes. O advogado Morais é um indivíduo sem escrúpulos, formado na Católica, casado com Belinha e pai de Catarina, bela miúda, mas mártir do visa gold. Belinda é uma trintona avançada, a quem a falta de homem na cama, dormem em quartos separados, «desperta-lhe apetites furacónicos», e por isso o professor de aeróbica tem dificuldade de escolher entre a mãe e a filha.

É sobre a movimentação feminina que o narrador faz as elucubrações e conjecturas, de tal forma enredadas que nem o leitor sabe como elas reagirão nos inúmeros desfechos. Fica provada a tese inicial: as mulheres são «um bicho fugidio» e criaturas imprevisíveis que sabem mais sobre o homem do que ele sobre elas.

A escrita é muitas vezes brejeira, mas, diz o narrador, «Não é a escrita que descamba; são os tempos». E não é raro estes tempos de escrita despoletarem-nos gargalhadas, ou sorrisos rasgados. Trava um diálogo directo com o leitor, desculpando-se ora das suas opiniões, ora desvalorizando o marfim que lhe cresce na cabeça, por obra da Maria da Anunciação, ora por isto e por aquilo, o que atesta a sua atrapalhação perante a imprevisibilidade feminina. Ou perante o mundo todo, sobre o qual confessa: «Aliás, o mundo todo devia ser servido com um manual detalhado, uma bibliografia inclusa – com dosagem recomendada e intervalos entre tomas – que a todos preparasse, à nascença, para os infinitos desaires que a vida nos reserva»
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As Mulheres Deviam Vir com Livro de Instruções, Manuel Jorge Marmelo, Editora Campo das Letras, Porto 1ª edição de 1999, 8ª edição de 2002

© Teresa Sá Couto

nota: dedico este texto ao meu amigo João Ferro, que o descobriu noutro blogue meu, antigo, o qual já me tinha esquecido que existia.

sábado, 8 de agosto de 2009

Passarola do padre Bartolomeu apresentada há 300 anos

A 8 de Agosto de 1709, em Lisboa, sob o olhar atento e desconfiado do Santo Ofício, o Padre Bartolomeu de Gusmão apresentava a Passarola Voadora, engenho que fazia dele o percursor mundial do balonismo. Decorridos 3 séculos, ainda nos apaixonamos pela história da ave grande numa espécie de navio, mas para navegar o ar, que tanto impressionou a corte portuguesa de setecentos. E é em nome desse assombro que registo esta minha homenagem.

Especialistas defendem que o invento que o padre Bartolomeu pôs a voar nada tem a ver com os conhecidos desenhos que o representam, sendo estes meros exercícios imaginativos. Porque o assunto é do foro do extraordinário, deixem-se as questões científicas e sigamos pela imaginação de José Saramago e pelo seu romance Memorial do Convento.

Assim, logo a saber, o sonho foi partilhado a três: o Padre, Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete –Luas, «casal ilegítimo por sua própria vontade, não sacramentado pela igreja», tendo Blimunda «mistério tão grande que voar faria figura pequena»: todas as manhãs antes de abrir os olhos, comia pão, pois em jejum conseguia olhar para «dentro das pessoas». Ficava claro que para se voar na atmosfera seriam precisas forças concertadas, do sol, do âmbar, dos ímanes, e das vontades – «pelos menos duas mil vontades que tiveram querido soltar-se por as não merecerem as almas, ou os corpos as não merecerem», que Blimunda guardaria em frascos –, e que as vontades seriam, de tudo, «o mais importante», sem elas a terra não os deixaria subir.

Soprando os espíritos nestes três sonhadores, havia que testar o sopro do vento. E testou-se a exótica passarola, numa aventura, que transcrevo da inventiva ficcional de José Saramago, sem interrupções.

O dia em que a Passarola voou

Nunca perguntamos se haverá juízo na loucura, mas vamos dizendo que de louco todos temos um pouco. São maneiras de nos segurarmos do lado de cá, imagine-se, darem os doidos como pretexto para exigir igualdades no mundo dos sensatos, só loucos um pouco, o mínimo juízo que conservem, por exemplo, salvaguardarem a própria vida, como está fazendo o padre Bartolomeu Lourenço, Se abrirmos de repente a vela, cairemos na terra como uma pedra, e é ele quem vai manobrar a corda, dar-lhe a folga precisa para que se estenda a vela sem esforço, tudo depende agora do jeito, e a vela abre-se devagar, faz descer a sombra sobre as bolas de âmbar e a máquina diminui de velocidade, quem diria que tão facilmente se poderia ser piloto nos ares, já podemos ir à procura das novas Indias.

A máquina deixou de subir, está parada no céu, de asas abertas, o bico virado para o Norte, se se está movendo, não parece. O padre abre mais a vela, três quartas partes das bolas de âmbar estão já à sombra, e a máquina desce suavemente, é como estar dentro de um bote num lago tranquilo, um jeito no leme, um harpejo de remo, as coisas que um homem é capaz de inventar.

Devagar, a terra aproxima-se, Lisboa distingue-se melhor, o rectângulo torto do Terreiro do Paço, o labirinto das ruas e travessas, o friso das varandas onde o padre morava, e onde agora estão entrando os familiares do Santo Ofício para o prenderem, tarde piaram, gente tão escrupulosa dos interesses do céu e não se lembram de olhar para cima, é certo que, a tal altura, a máquina é um pontinho no azul, como levantariam os olhos se estão aterrados diante de uma Bíblia rasgada na altura do Pentateuco, de um Alcorão feito em pedaços indecifráveis, e já saem, vão na direcção do Rossio, do palácio dos Estaus, a informar que fugiu o padre a quem iam buscar para o cárcere, e não adivinham que o protege a grande abóbada celeste aonde eles nunca irão, é bem verdade que Deus escolhe os seus favoritos, doidos, defeituosos excessivos, mas não familiares do Santo Ofício.


Memorial do Convento, José Saramago; Editorial Caminho, 15ª edição, Lisboa 1985


© Teresa Sá Couto

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Canto do Sul

Galardoado com o Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, A sul da escrita de Dora Nunes Gago, de 2007, faz jus ao patrono do Prémio: a escrita depurada e delicada é um hino à criação literária de autores nascidos no sul de Portugal, ao mesmo tempo que colhe a alma da terra exibindo-lhe as texturas, as melodias e os cheiros. Conto após conto, o leitor é envolvido em sinestesias que o catapultam para a única terra possível: a terra das casas brancas semeadas na planície tendo por tecto um azul infinito, das badaladas lânguidas dos sinos, do «canto trinado das cigarras», do «odor amarelecido do feno aquecido pelo sol quente», do amarelo odorífico das mimosas, do «cheiro forte da terra molhada e criadora».

O «panteão espiritual» do Sul começa com Ibn Amar, «poeta do Al-Garb», corre o ano de 1086. Narrado na primeira pessoa, o poeta, escravo e prisioneiro de guerra, encarcerado numa cela em Sevilha pelas mãos de Al-Mutamid, antes seu amigo, revê a sua terra, a sua vida, as escolhas e os caminhos que essas escolhas ditaram. Na claustrofobia do cativeiro, relembra traições, intrigas, invejas, ambições que «vão minando e corroendo os carácteres mais puros, como a traça faz no mais belo e rico tecido». Porém, o tecido da sua alma mantém incólume o ouro: enquanto espera pelo futuro, desenvolve a sua poética «depurada de toda a vileza e traição» e, com ela, tece a sua imortalidade.

Segue-se o ano de 1536 para se testemunhar o último suspiro de Garcia de Resende, o «poeta-amante que preferia a morte a viver sem a sua amada», que escreveu para o futuro a Cultura e a História portuguesas num legado abraçado, continuado e divulgado pelo poeta do mundo, que seria Luís de Camões. Ainda no século XVI, surge o eterno canto do rouxinol que, místico, canta a saudade e a alma exausta: Bernardim Ribeiro

Entra-se em 1859 com o canto de ternura de João de Deus. Puro na poesia, zeloso no ensino das primeiras letras, o autor da Cartilha Maternal cumpria a sua missão de corrente na lapidação da cultura portuguesa. Ainda no século XIX irrompe o «poeta, dândi, cronista e panfletário», o singular Fialho de Almeida.

O século XX traz a infeliz que vagueou pela vida «perdida nos seus devaneios»: Florbela Espanca. É o conto mais longo da série e recria pungentemente a vida triste da «Princesa desalento», os amores infelizes, a imaturidade afectiva, a má reputação, as tentativas de suicídio até ao consumado.

No sentido inverso do desprezo social surge o popular e amado António Aleixo, o ti Toino, com a sua vida de miséria que albergava a riqueza da alma. E corre assim o texto: «António sente-se feliz com o apoio do povo, apesar da doença que o vai consumindo, das forças que se esvaem, como a água através da peneira …Desconfia que o final se aproxima a passos largos. É nisto que vai meditando, a caminho do hospital, quase deitado no chão da carroça do seu vizinho, para ver se adormece a dor e a agonia. Todavia, não sabe ainda que quando deixar a vida, é nessas quadras soltas que a sua alma continuará viva, permanecerá de geração em geração, a ensinar a profunda e sincera filosofia da vida.».

Também Emiliano, penúltimo inscrito neste hino de Dora Nunes Gago, está quase a abalar da vida. O médico e «poeta da luz e da cor» conhece a dor da perda, pois está-lhe sulcada na existência. «Sentado no seu cadeirão, com uma folha de papel poisada no colo, toda a dor, o sofrimento, mas também as cores pujantes da natureza se convertiam em poesia.».

O canto finda com o esplendor da vida de Teixeira Gomes, sétimo Presidente da República (entre 1923-25), falecido a 18 de Outubro de 1941, na Argélia. Desde cedo conviveu com escritores, entre eles João de Deus e Fialho de Almeida. É no retiro argelino que produz muitas das suas obras reveladoras de um humanista preocupado com a justiça e seduzido pela sensualidade. Mas é também com este final que a autora dos nove contos abre as portas para o futuro, num claro desafio: não nos esquecermos dos que puseram o seu sangue no idioma, que é o nosso, é fazermos a parte que nos cabe, é garantir-lhes a imortalidade.

A Sul da Escrita, Dora Nunes Gago, Editorial Campo das Letras, Porto, Outubro de 2007


© Teresa Sá Couto


página de Dora Gago, AQUI

sexta-feira, 31 de julho de 2009

«O Romper das Ondas» de Rui Herbon

Texto editado no site Orgia Literária em 27 de Julho

A literatura contamina? Quantos dos nossos sentimentos serão uma invenção da escrita? Teremos nós originalidade para criar sentimentos próprios que não estejam escritos? O Romper das Ondas, o quarto e mais recente romance de Rui Herbon, que deu ao seu autor o Prémio Cidade de Almada, impele-nos a estas reflexões e ao questionamento do papel da actual literatura.

Num puzzle de inquietações, contra todos os comodismos literários e todos os lugares comuns, o texto mostra-nos como é necessário romper as ondas para lhes conhecer o interior, o mesmo é dizer, abri-las no silêncio estrídulo da página: «não há nada mais envilecido que a violência do silêncio», lê-se neste compêndio de indagação, que desbrava corredores escusos e sombrios do ser humano enquanto retrata uma geração citadina de «destino particular e europeu» e marcada pelas impossibilidades.

A abrir, uma música de fundo: «o adágio de Albinoni era zumbido entre obstinado e tranquilizador», contudo, «atrás da cortina monumental daquelas notas havia um sonoro interruptor de luz; um receio?». E o coração do receio fala pela voz duma jovem mulher, cujo nome só é referido, como que por acaso, no final do romance, facto nada isento, porquanto carrega a questão da procura da identidade. É uma mulher que chega a uma grande cidade, com um livro na bagagem, à espera do seu destino literário ou uma mulher que procura o «esplendor de uma voz». A música (inserida no vasto sistema de sons onde abundam rumores e ecos), a mulher e o livro são os três pilares que sustêm a complexa teia narrativa tecida com depuração e poesia.

A mulher sonha em cinemascope, e é assim que o texto avança, com o ritmo do pensamento das personagens achatado nas páginas, em fragmentos plenos de visualismo, com olhar sempre oblíquo, de dedução em dedução, pois «nada é exactamente o que parece ser», como no romance que a mulher traz na bagagem – o romance dentro do romance e ambos se contaminam –, onde «tudo ia e vinha, subia e descia, como a água, embaciando até o mais insignificante impulso para forjar um objecto conciso». Trata-se de um método que cria afecções, micro-desordens no que na vida temos por rotineiro, que age sobre objectos, acontecimentos, personagens, gestos, sentimentos, desestruturando “tudo” em «momentos que se dilatam, outros comprimem-se, outros suspendem-se».

Assim surge o crítico que vai analisar o romance da jovem mulher, e ambos protagonizam uma história de amor, um «vínculo fundado no respeito dos silêncios»: «Ele e eu, certamente, éramos como duas intrigas que guardávamos com cuidado de qualquer possível revelação», diz a mulher; a outra história de amor é a de um professor e a sua mulher, personagens chamadas ao romance, entre muitas outras com aparições mais ou menos fortuitas, como uma mulher com uma cabeça de medusa, um bêbado com ar de «soldado galhardo para produzir um arroto colossal», um estudante, mas todas a enformar a tese sobre «gente apanhada entre o cimento e a noite».

Em diálogo com o labiríntico da existência dos obstruídos, surgem os espaços, como o hotel com «tantas portas quantos os alvéolos de uma colmeia», uma espécie de réplica das casas da cidade: «pequenos conventos, pequenos cárceres»; surge o tempo, caótico, que às vezes confirma e outras desqualifica, entre recordações e avaliações, como a alcatifa vermelho berrante do hotel, «fiapos de um passado vermelho», a compendiar sensações nefastas e a reconsiderar a ausência de esperança; surge o perturbante quadro surrealista, com um sonho batido pelo uivo do vento e uma sineta, onde se juntam ratazanas, sangue e cinzas, vivos e mortos «confundidos no delírio da salvação»; surgem as linhas de força dos dois romances: «frustração, derrota e desprezo».

Noção de Voz e de Testemunha

«Você encontrava-se ali», «você mesma», diz o texto implicando o leitor na voz narrativa, levando-o a vestir a pele da mulher que o narra, sentindo-lhe os pés «intumescidos» pelo palmilhar da cidade, a Babel perfeita «para pessoas sem raízes ou enjoadas da ficção absurda da identidade», confirmando-lhe as «têmporas ardentes» de quem estudou para uma carreira inútil, atestando-lhe até a Anedonia, doença «cujos sintomas são a infelicidade e não encontrar prazer nas coisas que outros desfrutam». Com o fenómeno de linguagem que cria a ambiguidade da voz narrativa, Rui Herbon compromete, com mestria, o leitor enquanto testemunha da dimensão opaca da vida, permite-lhe transformar a sua própria experiência, a partir da experiência verbal do texto, pensar a solidão existencial através do seu reconhecimento. «Compreender, em definitivo, é render uma homenagem de entrega», lê-se sobre a verosimilhança do relato deste romance que se ajusta «às referências da época» e, como no romance da mulher, «abundam as metáforas», o discurso é «marcadamente nietzcheano» e, acrescento, dostoievskiano.

Com efeito, se o jogo dostoievskiano é um ritual de prazer e sobrevivência que apresenta à razão do homem outras razões alternativas que, confrontado com elas, não as pode ignorar, em O Romper das Ondas o leitor observa as personagens vertidas num qualquer jogo de cartas, mais ou menos clandestino, na roleta de um casino ou na da vida, projectando-se, também ele, na sua condição de jogador, não como forma de se alhear do real, mas de se ligar ao real, tentando inventar o jogo dos outros e reinventar-se. A metáfora do jogo entronca na própria construção da obra literária, com este O Romper das Ondas a lançar a reflexão sobre a procura do cânone e a fazer o leitor testemunha de todo o processo: o romance que a mulher escreve está «cheio de subentendidos», é «falso como uma pérola fabricada pelo homem», e há que fazer uma sinopse para agradar aos leitores e à crítica.

Na terceira, e última, parte, volta-se ao início, volta a ouvir-se o adágio, a mulher está novamente só, com o romance «perpetuamente inacabado», com o «futuro em branco», à espera de «um esplendor incerto» que ponha outra vez a sua vida em jogo: é a espiral do tempo que se «cinge cada vez mais ao centro», um vicioso e irremediável centro de inquietação.


O Romper das Ondas, Rui Herbon; Parceria A.M. Pereira, Lisboa, 2009

Nota: Livros de Rui Herbon: Voar como os Pássaros, Chorar como as Nuvens (Um Filme Português), Prémio Eixo-Atlântico de Narrativa Galega e Portuguesa 2002; Absinto (A Inútil Deambulação da Escrita), Prémio António Paulouro 2004, da cidade Fundão; Os Girassóis.

Não editados, mas premiados, Rui Herbon tem: Eterno Retorno, Prémio Afonso Lopes Vieira 2005, da cidade de Leiria, Prémio Orlando Gonçalves 2005, da Amadora e Menção Honrosa no Prémio Alves Redol 2005, de Vila Franca de Xira; A Preto e Branco, livro de contos, Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal 2007; Masoch, Prémio Maria Matos 2007 de Dramaturgia.

© Teresa Sá Couto


páginas de Rui Herbon:

Rui Herbon

A Escada de Penrose

terça-feira, 28 de julho de 2009

«Pessoas, Animais e Outros que Tais»

A arte de contar histórias

Um narrador que fala com o leitor, um cão companheiro de jornada do narrador com faro infalível para detectar feitios e personalidades, e treze histórias entrecruzadas, é a proposta do livro Pessoas, Animais e Outros que Tais – Narrações do Dr. Domingos Pintado assinado por Pedro Baptista, um exímio contador de histórias.

Não há sossego nesta leitura. No centro irradiador da narrativa está uma loja de velharias, frequentada pelos clientes habitués que dão origem a estórias com outras estórias engatilhadas que a escrita encaixa a um ritmo vertiginoso. Com subtileza, o reino animal é convocado, criativa e inusitadamente, para se construírem as personagens no desfile de títeres da existência, para se destruírem apatias na leitura. São 163 páginas farejadas pelo cão Púchkin, onde até surge uma história de amor entre um burro e um ardina, além da história do fascínio entre o leitor e a leitura.

O narrador Domingos Pintado é um reformado acabado de chegar aos sessenta anos, antiquário e alfarrabista, estabelecido no Porto, na travessa de Cedofeita, «quase a chegar ao largo chamado de Alberto Pimentel, onde acabam as Oliveiras e Mártires da Liberdade começa». A sua loja cheia de «cangalhada» expõe, além de velharias literárias, todo o tipo de objectos, a «panóplia das coisas do mundo». Por isso, nela exalam os cheiros do tempo e vibram os sons que compõem enredos. Fiel companheiro do leitor, este narrador transmite-lhe todas as ambiências, todos os humores além de, com mestria, o levar para dentro das narrativas para o fazer participante no julgamento das personagens e do próprio narrador.

Dado a degustações, o singular narrador almoça frequentemente no Buraco, na rua Bulhão Pato, carapauzinhos de escabeche, onde a «conta era feita a olho e sempre igual», «puxava por um cafezito no Majestic ou no Ateneu, em seguida um salto à Latina, quando não à Bertrand e à Leitura, a ver as novidades ou, melhor, «a ver se havia novidade». Com ele, ou melhor, connosco – narrador e leitor –, o inseparável cão Púchkin «que não só era como uma pessoa, era mesmo uma pessoa. Não humana, mas pessoa», um grande psicólogo. Mesmo antes de nós – narrador e leitor –, o canídeo topou logo o Pimenta, personagem que percorre as narrativas que, todavia, podem também ser lidas autonomamente, como se de contos se tratassem.

Aristides Pimenta é um «autêntico mito» de partidas cruéis e humilhantes, pelo que o desejo de se lhe dar «uma ensinadela assomava cada vez mais a mente de todos» até que um dia o rapaz de uma estalagem pincelou «toda a pelugem dos interiores nasais do Pimentola» com o «material mais prosaico da vida animal…estrabo, bolisco, bestoiro, com sua licença, era mesmo merda» e é ver o altivo Pimenta no descontrolo da loucura. Figura esquálida, nariz afilado e «meia dúzia de pelos semeados a despropósito no centro da cabeça», aparecia umas vezes para companhia «que uma pessoa precisa numa hora deprimida, outras o inverso a estragar o dia que até tinha começado por sorrir, outras nem uma coisa nem outra, um chato de adormecer». O cão rosnava-lhe, presenteando-o com o «melhor dos seus sorrisos», mostrando a «dentuça escancarada a rosnar apaixonado»: «com efeito, o Pimenta era daqueles capazes de fazer uma patifaria a um cão, por causa da similitude de alguns sentimentos que com eles partilhava e não eram os que mais enalteciam a nobreza dos canídeos. O Pimenta entrara em derrapagem, numa depressão acelerada, agravada pela patologia do corno: «a mulher, muito mais jovem, desarvorou e, ao que se rosna, foi aquecer a cama dum actor», a do Marques, a quem o Pimenta antes pregara uma partida.
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Ao invés do Pimenta, o clarividente Púchkin aprovara o Senhor Mello, e sempre que o homem se anunciava na loja, o cão latia de forma reiterada, «reclamando pressa na abertura da porta». É o Mello que conta emocionado a história do ardina, do jumento e da couve, uma história de idílio, «da terna ligação entre o humano e asinino»: o animal que, habituado à couve que o ardina lhe dava todos os dias de manhã na esquina onde trabalhava, falecido o ardina, matou-se à fome, recusando-se a comer fosse o que fosse. Classicista que não gosta de se expor, mas o narrador fá-lo por ele, o Mello é outra das personagens que a narrativa detém, dentre o arco-íris de personagens que nela pouco se demoram – entram e saem ao sabor da excelsa divagação – mas que tatuam a grande história deste livro.

«Como considerava a entrada das personagens na cena da loja ou a sua simples passagem à frente da montra de uma grande riqueza, digamos… temática, comecei a orientar as notas do meu caderno anual para a produção destas histórias, que a leitora ou o leitor estão a ter a paciência de seguir. É a primeira colectânea mas, se a coisa correr, haverá mais no armazém», lê-se na página 90.

Cabe-me dizer ao Dr. Domingos Pintado que esperamos com mal disfarçada impaciência um novo tomo das suas histórias «recolhidas na loja e registadas nos canhenhos». Culpa dele por nos ter deixado adictos destas viagens. Exigência nossa no reencontro com a escrita arejada, elegante e inesgotável.


Pessoas, Animais e Outros que Tais – Narrações do Dr. Domingos Pintado, Pedro Baptista; editorial Campo das Letras; Porto 2006


© Teresa Sá Couto

domingo, 26 de julho de 2009

Os caminhos-de-ferro na Literatura

Viagem ao fundo da nostalgia

Muitos guardarão, como eu, uma memória de infância, funda e nostálgica, das antigas Estações de caminhos-de-ferro rurais, locais de embarque para grandes viagens. A graciosidade dos edifícios, jóias na paisagem silenciosa onde se vigiava o silvar do comboio, o interior com as madeiras enceradas e os cheiros desse zelo misturado com o adocicado de óleos da maquinaria, as paredes alvas decoradas com narrativas contadas a azul e branco dos azulejos, num festim de sentidos. Mas esses cais de memória romântica fazem emergir a revolta, igualmente funda, por termos assistido, impotentes, à decadência e ruína das estações. E aqueloutro canto do comboio fica guardado na eternidade da memória.

O livro «Carris de Papel – o caminho-de-ferro na literatura portuguesa» desata-nos muitas questões e é com aplausos que o acolhemos. Organizado soberanamente por Albert Von Brun, nele coligem-se 21 textos em prosa e 6 em verso, de autores como Fernando Pessoa, Fialho de Almeida, Vergílio Ferreira, Agustina Bessa-Luís, entre muitos outros, e que atestam o fascínio pelo monstro de metal.

Na introdução, Albert Von Brun traça brevemente a história da ferrovia em Portugal, e sua contextualização europeia, o sonho concretizado por Fontes Pereira de Melo, as polémicas que suscitou, os «interesses que agregou», os «ódios que ateou», comprovando-nos isso na recolha de textos. Presença forte na literatura portuguesa, através da recriação ficcional dos caminhos-de-ferro, seguimos parte da História de Portugal, politica, social, económica, cultural e psicológica.

Portugal de comboio…

Em quadras de gosto popular, Fernando Pessoa atesta a cumplicidade e o convívio proporcionada pelos comboios:
No comboio descendente /Vinha tudo à gargalhada /Uns por verem rir os outros /E os outros sem ser por nada.

Também José Viale Moutinho atesta a alegria e o carácter democrático do comboio, procurado por todos os extractos sociais. Por outro lado, reagindo à modernidade, Guerra Junqueiro benzia poeticamente uma locomotiva, com a sátira sagaz que lhe era própria, com vastas implicações no estado da nação:
Viajo no comboio do douro /pelo natal de tanta gente /entre malas e palavras /…/atrasa-se o caminho que /entre transbordos e vocábu /los cruzados se narra cada /vida em folhetim e sandes /de chouriço presunto vinho.

Num texto para crianças, José Jorge Letria conta a história de um velho comboio que partilhou muitas vidas e tem um grande coração. Um toque de fascínio que chega também aos mais pequenos que partilham o deslumbre pela grande e mágica máquina:
Talvez eu devesse, caso queiram dar-me nome, chamar-me «Muita Terra», porque esse sim, corresponde à realidade que foi a minha vida.

As maldições de Vulcano

Albert Von Brun refere-se à exploração que a literatura faz do lado sinistro do caminho-de-ferro, «feito de desterros, mortes e misérias», com o comboio a surgir com a metáfora do «monstro de ferro», produzido «na forja de Vulcano» que é, «ao mesmo tempo, o deus do fogo, do desejo, do delito e da fatalidade.». Para isso, o organizador desta antologia, recupera Fialho de Almeida, mestre da escrita visual e crua, com o texto «O filho» – de «O País das Uvas». Nele conta-se que na Beira, na estação da Pampilhosa, uma mãe espera o comboio de Lisboa que traria o filho vindo do Brasil, sem saber que ele morrera no mar, durante a viagem:

- O seu José, tia Rosa, o seu José…morreu na viagem.
Nem um grito de espanto, um queixume, uma lágrima, nem sequer um um último suspiro. Aconchega mais o xaile sobre os ombros, baixa a cabeça trémula e gelada, e pequenina, acocorando-se mais por entre o tumulto daquela gente alegre, ei-la caminha a cambalear como uma bêbeda. (…) ela não sente, ela não ouve, avança! avança! E a máquina chama-a a si subitamente, dá-lhe um encontrão pra dentro do caminho, enovelou-a bem nas saias da viúva, e sem trepidar fá-la num bolo, passa-lhe por cima, e continua a correr à desfilada.
Viu-se um dos pés da mulher escrever na terra o quer que fosse, protesto, suplica, epitáfio… e ao outro dia, quando os trabalhadores foram levar o corpo ao cemitério, o cura da Pampilhosa recusou-se a enterrá-la em sagrado, sob o pretexto de a velha ter morrido sem confissão!

Também Vergílio Ferreira, em «Manhã Submersa», num texto com características autobiográficas, associa ao comboio que o levou para o seminário do Fundão a dor de ter sido «espoliado abruptamente» da sua infância. Com o ponto da angústia na estação da Castanheira, o cais para o abandono, traça um percurso lancinante pelas estações da Guarda, Covilhã até à chegada à estação da Torre Branca:

E, bruscamente, entre dois grandes penhascos, o comboio rompeu enfim com um rancor subterrâneo, alucinado de ferros e fumarada. E tive medo. Pela primeira vez estremeci de medo até aos limites da vida, não tanto, porém, da fúria do comboio, como dessa coisa insondável e enorme, tão grande para mim, que era partir.

Progresso ou megalomania?

Atrasado, o Portugal de oitocentos reagia em partidos contrários, à implementação do comboio no país. Um artigo de Alexandre Herculano – O caminho-de-ferro e a nacionalidade – polemiza o programa de obras públicas do fontismo, que nos faz lembrar as actuais polémicas sobre o TGV trazidas quotidianamente à berlinda entre defensores e oponentes.

Dissestes que combatíamos a feitura dos caminhos-de-ferro; que combatíamos em especial os que devem ligar-nos com a Espanha; e que condenávamos todos pelos benefícios que para a nossa civilização daí hão-de resultar. (…)Os caminhos e ferro, facto impreterível (e ainda bem que o é) da civilização moderna, devem produzir incalculáveis benefícios para o país; mas por isso mesmo que importam uma revolução , que são um remédio salvador, um remédio heróico, trazem consigo o perigo de um dano também imenso. Apontar ao poder esse perigo: perguntar-lhe, não em nosso nome, mas em nome da pátria, quais são os meios para obviar a ele, é ou não um dever e um direito daqueles que estão convencidos da existência desse perigo? (…)este medicamento cura o estômago e arruína o fígado; o meu intuito é curar o estômago; o fígado que se arranje como puder?

Carris de Papel – O caminho-de-ferro na literatura portuguesa, organização de Albert Von Brun; Editorial Caminho, Lisboa, Maio 2006

© Teresa Sá Couto