quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Myra: o encontro com a inquietação

«Myra» de Maria Velho da Costa acaba de ser galardoado com o Prémio Pen Clube de ficção. Um justíssimo galardão para o portentoso romance que há dias recebeu também o Prémio Máxima de literatura. Segue-se o meu texto editado no site Orgia Literária.
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Este mundo é íngreme. Como tal está cheio de criaturas íngremes. Nosso mister é achatá-lo. É com estas palavras de Luís de Sousa Costa que abre o novo romance Myra de Maria Velho da Costa, e são elas que incitam esta minha leitura.
Achatar o mundo remete-nos para o compromisso que a obra literária estabelece com o acto da leitura: forma de pensar o caos e de inquirição dos abismos humanos, lugar de encontro onde o desconhecido se possa fazer conhecido, permitindo ao leitor confrontar-se com ele mesmo e pensar os modos pelos quais o tormento faz parte da existência. Um compromisso que tem no romance Myra a mais elevada celebração.

Programa narrativo de procura, Myra traz-nos a história de uma adolescente imigrante russa, cujo nome faz título do romance, «proibida de existir», «roubada de poder ser», em fuga dos que a querem seviciar, e da sua amizade com Rambo, um cão de luta, também ele estropiado como ela, ele, o prolongamento dela, a sua alma gémea. Myra foge «contra o vento», por uma praia deserta, em direcção ao mar, com frio e com medo, foge da espécie de bordel da Caparica onde a agrilhoam, foge para Sul, como que em busca do sonho que deixou no Leste. Foge sob um «céu baixo e muito escuro», sob a chuva que lhe bate na cara «como chorar sem gritos».

E Myra nunca mais pára de fugir, colando-se o leitor à sua dor, também ele inquieto, na deambulação, na deslocação física que dá visibilidade à sua angústia, metáfora da deslocação existencial. Impressivas, como se trabalhadas com lâminas de faca, as oito pinturas de Ilda David’, incluídas no interior do livro, constituem mais um caderno para desassossego do leitor. Na capa, também de Ilda David’, o arrebatamento negro e cinza de um laço indestrutível.
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Se o assombro meteorológico, do início da narrativa, impele Myra à anulação – se ela entrasse no mar, «se corresse por ali adentro ninguém daria por ela nunca mais, nem no país dali, nem em nenhum outro» – ela procura, todavia, um barracão que a proteja e é lá que encontra Rambo, maltratado depois de uma luta, com pêlo a espirrar água e sangue. O reconhecimento é imediato: «o sangue puxa sangue», tinham sido feitos um para o outro. É assim que o plano narrativo encontra o carácter e dimensão trágicos de dois seres extraviados, e explora-o, enquanto seres enleados em regras predeterminadas e consabidas, pelas 221 páginas de inquietação do leitor.
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Myra, sem direitos de plena cidadania – motivo da identidade como problema –, e Rambo, sem direitos de escolha, surgem-nos como duas formas de pensar o caos. Ela sempre com medo: «Myra não tem remorsos nem culpa. Tem medo, porque os fantasmas assombram quando querem.». Rambo, sempre vigil, «enlaçado à mão dela pela trela amante», com os sentidos nela, ladra à beira do precipício «onde ela parece siderada, farta de tentar, a tentação», e puxa-a. Na deriva, ele vai alertando-a: «tem cuidado, olha a ilusão», «Não te fies do céu. (…) Atém-te à sombra, mesmo escassa, enquanto a tiveres agarrada aos pés».
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Sem direito a uma identidade, ambos vão mudando de nome consoante os locais e «os outros humanos» que vão conhecendo. Os dois, ou como no reforço dado pelo texto, «ambos os dois», sempre na orla: na orla do mar, na orla da serra, na orla do arvoredo, na orla das sombras, na orla da existência. Concorre, ainda, para o carácter trágico da visão humana, o motivo da procura sempre minada que não só adia o encontro como reforça o desencontro, mostrando que o encontro sempre foi impossível. Mesmo o tempo da felicidade redonda e perfeita, aparentemente paradoxal, que Myra passa ao lado de Gabriel Rolando (um jovem rico mas também marcado com a tragédia), tem na narrativa o tempo do onírico a acentuar o fracasso de um projecto humano, como se fosse necessário conhecer a felicidade para se saber que não se tem direito a ela.
«Os milagres são como o vento, e o vento sopra onde quer», diz-nos o texto. Quando o vento lhes nega o encontro com o Sul e os agrilhoa no percurso para o Norte, intui-se a tragédia: Myra e Rambo suicidam-se, decidindo ir juntos para o «reino dos céus».

Construído em torno da noção de voz, este romance da autora de Missa In Albis evidencia, também, o carácter dialogal de todo o discurso humano. Myra fala para o cão e pensa para o cão , o cão responde-lhe e aquiesce aos seus pensamentos. Ela não quer ouvir vozes, porque quer seguir em frente, mas não pára de as ouvir. São as vozes das raízes, vindas de longe, murmúrios do mundo que o homem escuta dentro de si e que nunca consegue calar. Myra ouve a voz da família, e benze-se “à russa” no encalço de uma força metafísica, que lhe dá, não conforto, mas ansiedade. Myra é, pois, o lugar onde repercutem as várias vozes do mundo e são elas que dão ao romance uma rima interna fortíssima.
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Narrativa sobre a noite humana e a luz da amizade que existe nessa noite, Myra faz-nos reflectir sobre as forças agitadas que estão sob a superfície, que o homem é incapaz de conter. Programa de procura, Myra é inegavelmente um lugar de encontro com a inquietação e, por isso, com a melhor literatura.

este texto foi editado em 19.02.09 no site Orgia Literária

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Prémio Leya para João Paulo Borges Coelho

O Olho de Hertzog é o título do romance do escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho, vencedor do prémio Leya 2009. O título estará disponível em Março, com a chancela da Caminho, que tem publicadas sete obras do escritor: As Duas Sombras do Rio, As Visitas do Dr. Valdez, Índicos Indícios I. Setentrião, Índicos Indícios II. Meridião, Crónica da Rua 513.2 , Campo de Trânsito e Hinyambaan.
Trago para a ordem do dia, o texto que elaborei sobre o magnífico Campo de Trânsito, livro do qual, incompreensivelmente, pouco se falou.
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Cega-nos a rotina a tal ponto que só quando agitamos freneticamente os braços como duas ventoinhas na esperança vã de recuperar o equilíbrio perdido à beira do precipício nos apercebemos de que o caminho por onde seguíamos não vai dar a parte alguma.
Isto diz-nos João Paulo Borges Coelho no surpreendente Campo de Trânsito, livro do ano passado e do qual, incompreensivelmente, pouco se falou. São doze capítulos como doze pancadas na modorra dos nossos dias, que nos acordam para todas as interrogações existenciais:

- será a vida um permanente campo de trânsito onde gastamos o tempo a desenvolver estratégias de sobrevivência com que iludimos o quotidiano? É esse um lugar que escolhemos ou é ele que nos escolhe, títeres existenciais? Como se sai de uma «interminável e pestilenta espiral»? O que somos além de cansaço depois de tanto caminho percorrido em vão?

Nascido no Porto, mas naturalizado moçambicano, João Paulo Borges Coelho é um dos grandes nomes da Literatura de Expressão Portuguesa. Depois de «Crónica da Rua 513.2 », título anterior e também editado pela Editorial Caminho, o historiador e escritor traz-nos em «Campo de Trânsito» uma alegoria da condição existencial através da personagem J. Mungau - que pode ser qualquer um de nós -, no chão de Moçambique - como pode ser em qualquer chão onde se deixa o sangue, sendo o chão uma metáfora da caminhada.

J. Mungau, homem urbano, é acordado numa noite na sua casa, com pancadas ritmadas na porta que o arrancam ao torpor de uma ressaca. É feito prisioneiro por um agente de nome Bexigoso, levado para uma cela, e depois por um percurso de pó argiloso, espesso e vermelho, como sangue, até desembocar num Campo de Trânsito onde fica a aguardar transferência para um lugar definitivo.

Os três espaços são as bases de uma urdidura original com fortíssima densidade psicológica. Arrancado ao seu lugar, J Mungau deixa de ter nome, e passa a ser um número, prisioneiro 15.6., uma perda de identidade que indicia o caminho da procura de uma nova. Questionando-se sobre as razões da sua prisão, as quais nunca chega a saber, e esperando que o equívoco seja desfeito – como tantos equívocos da nossa vida nunca são desfeitos – o prisioneiro, todavia, vai esquecendo-se dessa interrogação, como quem se resigna às circunstâncias. Também não chegará a um lugar definitivo, o que demonstra que o único definitivo da vida é a morte.Lugar de confluência de pessoas de vidas fragmentadas – que é preciso aglutinar, «cada fragmento uma folha de papel», milhares de páginas dentro de pastas que o Director procura organizar (as páginas e as vidas) –, o presente do Campo de Trânsito conta também com as tensões de outros dois campos: o Campo Antigo e o Campo Novo, o passado e o futuro.

Nessa teia de tempos, sem se encaixar em nenhum, Mungau aprende o poder de alguns objectos – nomeadamente da faca que passa a deter e que vai ser um instrumento do destino –, perscruta as relações que o cercam, observa as diversas estratégias de sobrevivência. Para isso, o texto dá-nos uma galeria portentosa de personagens em interacção, com que se constrói o caos existencial: o Professor do Campo e a estranha Mulher do Professor – uma hortelã que vive no seu retalho de horta fustigando o chão com uma mão de dois dedos, uma tenaz, enquanto o marido divulga o conhecimento entre os prisioneiros –, os prisioneiros, os guardas, os feirantes que vão ao Campo uma vez por mês, o Chefe da Aldeia e a filha casadoira - a Desengonçada Garça -, o misterioso Vendedor de Chá.

No trapézio do destino

O agente Bexigoso acompanha Mungau durante todo o tempo de detenção no Campo de Trânsito. Ele representa a sombra onde se tropeça, a metáfora dos “Bexigosos” que nos barram o caminho. Arrogando-se actor do seu destino, e apesar de todos os equívocos que ele acha não serem da sua responsabilidade, Mungau tenta iludir os limites que o aprisionam e, no horizonte infinito da imaginação, convoca uma plateia para a qual representará com humildade e dignidade, para que ela se condoa, para que ela, cúmplice, seja uma companhia amiga, um conforto. E sonha, ainda que num sonho contaminado pela dureza da realidade:

(...)aos poucos chama novamente o palco e fecha os olhos para que se apaguem as luzes da plateia. A cela tem agora um tecto muito alto. Lá em cima, um trapezista evolui ousadamente agarrado a um baloiço. Risca o ar em curvas largas, subindo quase até ao tecto e voltando a descer. Subitamente, quando acha ter já ganho o impulso suficiente, larga o baloiço, volteia no espaço, estica os braços e finca as mãos num baloiço seguinte até então oscilando vazio como se não tivesse propósito algum, na verdade tendo o propósito precioso de estar ali para que ele possa agarrá-lo e se salvar. Sempre que tal acontece sobe um murmúrio ansioso e a audiência explode numa nervosa salva de palmas. Admiração e alívio é o que significam aquelas palmas.

Durante um tempo o trapezista executa as suas temerárias evoluções, ganhando balanço para largar o primeiro baloiço, confiante de que, pendendo à espera dele, estará o segundo. Até que de uma das vezes resolve olhar para cima e o seu olhar cruza-se com as pupilas brancas do Bexigoso que, na plataforma mais elevada, segura as cordas do segundo baloiço debatendo-se na dúvida se o envia ou não. Dessa troca de olhares vem ao trapezista a certeza de que haverá uma vez em que o maldito não o fará. De que vai tropeçar no ar, agitando as mãos no desespero de encontrar qualquer coisa a que se agarrar. E irá caindo, caindo, enquanto cresce um rumor de aflitas e desencontradas vozes na audiência.Acorda quando embate no solo com violência. É noite.

Campo de Trânsito, João Paulo Borges Coelho; Editorial Caminho, Lisboa, 2007

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Entrevista a Albano Martins

Entrevista em 4 partes, difundida pela Página Literária do Porto. Ver, também, textos meus sobre Albano Martins, Aqui








domingo, 11 de outubro de 2009

A Lusofonia no desafio da globalização

Língua materna em Portugal e no Brasil, língua oficial em Angola, Cabo verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Moçambique – os PALOP – e Timor-Leste, língua de uso em Macau, Goa, Damão, Diu e Malaca, a Língua Portuguesa é ainda falada nos quatro cantos do mundo onde chega a diáspora lusa. Ainda, e acatando o que defende Eduardo Lourenço, a lusofonia deve incluir a Galiza: «como imaginar o espaço lusófono, e na medida em que ele é o horizonte onde inscrevemos a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, sem incluir nele a Galiza?»

«Quem tem José Saramago e Jorge Amado, quem tem Mia Couto e Pepetela, quem tem Milton Nascimento e Gilberto Gil, quem tem Cesária Évora e Madredeus, quem tem Walter Salles e Manoel de Oliveira já conquistou certamente um sólido espaço específico no mercado cultural globalizado», diz Eduardo Namburete sobre a força e o papel da lusofonia no Mundo, no livro «Comunicação e lusofonia», que colige as comunicações da I Conferência Internacional sobre Comunicação e Lusofonia, na Universidade do Minho, a 7 de Outubro de 2006. A conferência reuniu investigadores de Portugal, Angola, Moçambique, Brasil, Timor-Leste e dos Estados Unidos da América. Os trabalhos desenrolaram-se em 3 painéis plenários: Lusofonia: Equívocos, Fronteiras e possibilidades; Políticas da Língua e Identidade; Os Media e a Memória Social.

«A cultura e o progresso são filhos da mistura»

«Aquilo que motiva a lusofonia como coisa sua é a sua globalização multiculturalista, dentro de áreas culturais específicas, uma globalização paradoxalmente regionalista, que se alimenta de um imaginário de territórios, memórias e paisagens vivos e concretos», refere Moisés de Lemos Martins, Presidente da Conferência Internacional Comunicação e Lusofonia, para salientar que «a cultura e o progresso são filhos da mistura».

Na mesma linha de argumentação, António Guimarães Rodrigues, Reitor da Universidade do Minho, cita Confúcio: «“Se trocar uma laranja com outra pessoa que também possui uma laranja, cada uma fica com uma laranja. Mas, se trocar uma ideia com alguém que também tem uma ideia, então cada um fica com duas ideias”. Trocar opiniões, ideias e interpretações é mais do que trocar informação. E as ideias são diversas. Não se somam de forma conservativa. Constroem e criam novas ideias. A globalização que todos ajudámos e ajudamos a construir não significa o imperativo de nos despojarmos do que nos dá identidade. Antes pelo contrário, no conjunto dos valores e das promessas que nos atraem para a construção de um Mundo global, a diversidade das diferentes identidades funciona como elemento de ligação e garante a sua sustentabilidade.». Assim, sintetiza, «num tempo de globalização, em que o mote é a constituição de redes de conhecimento e cultura, os países lusófonos possuem-na, dela têm consciência, e querem promovê-la e atribuir-lhe um papel efectivo ao serviço do desenvolvimento».

Maria Manuel Baptista, docente na Universidade de Aveiro, lembra que o espaço da lusofonia é um «apetecível mercado de milhões de consumidores», além de que «o Brasil e os outros países lusófonos têm-nos como necessária porta de entrada noutros mercados e culturas ocidentais.». Assim, defende, cabe a Portugal defender o seu património secular, histórico, linguístico e cultural no mundo (…) pretende-se conferir à lusofonia (tal como outrora ao Império) uma lógica predominantemente afectiva e moral: cada parte não pode dar largas ao seu “egoísmo” e deve concorrer para o todo, para o bem comum.».

Se não podemos fugir à globalização, podemos defender-nos da invasão da língua da globalização, antecipando-nos aos seus efeitos, como defende Eduardo Namburete, docente universitário em Moçambique: «levar a cultura lusófona para o Reino Unido, Estados Unidos da América, Nigéria, Burundi, Singapura e outros cantos do mundo, a aposta na difusão internacional da cultura lusófona, através da massificação da produção cultural no nosso espaço de referência, ensino e formação do português deve ser uma estratégia prioritária da lusofonia.».

A língua que permite a união

A adopção do português em Timor-Leste como língua oficial a par do tétum reflecte, segundo Xanana Gusmão, a afirmação da identidade pela diferença, identidade que é «vital para consolidar a soberania nacional». Com efeito, referem Regina de Brito e Neusa Bastos, docentes universitárias em São Paulo, «o português possibilita, dentre outras coisas, o resgate e a manutenção do carácter híbrido da cultura timorense e o acesso ao conhecimento já disponível nos países lusófonos – que já contam, especialmente em Portugal, e já agora no Brasil, com diversos estudos sobre a Cultura e História timorense. Por fim, acentuam os timorenses, é preciso valorizar a força do português, sexta língua mais falada no globo, como forma de união entre os oito países da CPLP e um mecanismo de inserção dos timorenses no mundo globalizado». As autoras referem também o caso «multiétnico, multicultural e multilinguístico» de Moçambique rodeado de países de língua inglesa e associado à anglófona Commonwealth, onde a língua portuguesa é a «única utilizada na alfabetização de adultos, no ensino e na formação» e, no meio da diferença, é esta que vai encontrando «denominadores comuns em todos».

Comunicação e lusofonia – Para uma abordagem crítica da cultura e dos media; Editorial Campo das Letras, Porto, Dezembro 2006


© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Sérgio Luís de Carvalho lança novo romance

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O Destino do Capitão Blanc é o título do novo romance histórico de Sérgio Luís de Carvalho, com a chancela da Planeta. O lançamento está marcado para a tarde do próximo sábado, dia 10, na Fnac do Chiado, com apresentação de Miguel Real.

Sempre na peugada da Memória, Sérgio Luís de Carvalho traz-nos «os destinos» de um capitão do exército português, nos três últimos meses da Primeira Guerra Mundial, de 7 de Agosto a 27 de Novembro de 1918. Luís Guilherme d’Orey Sarmento Blanc, «solteiro, 29 anos, filho do cidadão belga Guillaume Blanc e da senhora portuguesa D. Maria Amélia d’Orey Sarmento», «instrutor na Escola de Guerra e colunista do jornal “A Situação”… (periódico afecto ao governo sidonista e ao Partido Nacional Republicano)», lê-se no Prólogo, é a personagem que incentiva a escrita no jogo da realidade e ficção que ilumina um passado de sombras da Primeira República e da Primeira Grande Guerra.

À semelhança de anteriores títulos do escritor, trarei brevemente a minha leitura crítica desta novíssima obra. Ver textos sobre O Retábulo de Genebra e Os Peregrinos Sem Fé.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Os males humanos e a verdade de Brecht

Aqui jaz B.B., limpo, objectivo, mau. Esta era a missiva tumular que Bertolt Brecht confessou gostar de ter na sua sepultura. Mas é também a marca da reflexão dialéctica entre o Bem e o Mal do ser humano, indagado com «verdade concreta» impulsionada por um ideal: desalojar a maldade apesar do apelo – ou devido exactamente a ele – de que só sendo-se mau se domina o mundo; e lutar nessa missão, estreme e intrépido, apesar das desilusões, mesmo que o Epitáfio venha a ser este:Escapei aos tigres /Nutri os percevejos /Fui devorado /Pela mediocridade.

Como sempre com autores estrangeiros, há que ter atenção às traduções. Sugiro as Peças de Teatro, que têm vindo a ser coligidas em vários volumes pelas Edições Cotovia; na poesia, destaco a pequena Antologia Poemas, com tradução, selecção, estudos e notas de Arnaldo Saraiva, com a chancela da Campo das Letras e, para uma leitura mais integral da obra do alemão, a grande Antologia Poemas, da Asa, com versão portuguesa de Paulo Quintela, organização e prefácio de António Sousa Ribeiro.

Várias obras de Brecht têm subido aos palcos portugueses. Destaque-se Um homem é um homem, escrito pelo dramaturgo alemão em1953, encenado pelo magistral Luís Miguel Cintra para o Teatro da Cornucópia, espectáculo que foi galardoado com o Prémio da Crítica 2005.

Arauto das injustiças sociais, Brecht fez da palavra a arma contra a indiferença, promoveu a interrogação e a reflexão sobre a identidade individual, a alienação, a violência da guerra, a desumanização. Presenciou as duas Grandes Guerras, a Revolução na Alemanha com o massacre dos seus líderes e milhares de operários, a fome dos anos 20, a ascensão do nazismo e, com ele, Hitler. Anteviu perseguições políticas, soube-se alvo delas e escreveu-o:

As ruas do meu tempo conduziam ao pântano. A linguagem denunciou-me ao carrasco. Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima estariam melhor sem mim, disso tive esperança.

Mais do que sentimentos, Brecht pede actuações. Quem é teu inimigo? pergunta, para logo responder, num jogo subtil e didáctico com o leitor:

O que tem fome e te rouba /o último pedaço de pão chama-lo teu inimigo. /Mas não saltas ao pescoço /do teu ladrão que nunca teve fome.

Assim, a ordem é abrir os olhos e agir para haver equilíbrio na luta contra a injustiça que age de olhos bem abertos:

A injustiça avança hoje a passo firme. /Os tiranos fazem planos para dez mil anos. /O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são. /Nenhuma voz além da dos que mandam. /E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo. /Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem: /Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos. /Quem ainda está vivo nunca diga: nunca. /O que é seguro não é seguro. /As coisas não continuarão a ser como são. /Depois de falarem os dominantes /Falarão os dominados. /Quem pois ousa dizer: nunca?

Também a sátira brechtiana é desenrolada até ao cinismo, apesar do exílio do autor, quiçá por isso mesmo, e assume-se sem esconderijos para servir a pedagogia. Próprio de um homem de Teatro, a verosimilhança da mensagem - os comportamentos, situações, pessoas concretas - atinge certeira o leitor ou o espectador, no caso da dramaturgia, porque é a eles que se dirige e é deles que se fala. E os poemas ora olham acutilantes o poder político, ora detêm-se denunciadores na insanidade da guerra:

Todos os dias os ministros dizem ao povo /Como é difícil governar. Sem os ministros /O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima. / Nem um pedaço de carvão sairia das minas /Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda /Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra /Nunca mais haveria guerra. E atrever-se-ia a nascer o sol /Sem a autorização do Führer? /Não é nada provável e se o fosse /Ele nasceria por certo fora do lugar(…)

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(…)De pé à sua volta à hora de morrer / – Nós todos. /E /Lá estava também a mulher que o dera à luz /E que não disse uma palavra quando o levámos. /Que essa mulher seja estripada! /Amem. /Mas quando o matámos tratámos /De transformar o seu rosto /com as marcas dos nossos punhos. /Assim o tornámos irreconhecível /para não o darem como filho de algum homem. /Fizemo-lo sair do aço. /Trouxemo-lo para a cidade. /Enterrámo-lo sob uma pedra e sob um arco chamado /Arco do Triunfo /que pesa 1.000 quintais para que /O soldado Desconhecido /Não se levante no dia do Juízo Final /E irreconhecível /Mas de novo e para sempre na luz /Não vá diante de Deus /Apontar-nos a nós, os reconhecíveis, /À Justiça.

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

«A Morte de Portugal»

Reflexão sobre nós, num Ensaio de Miguel Real

O livro A morte de Portugal de Miguel Real vai estar em debate na livraria Almedina do Arrábida Shopping, dias 10 e 31 de Outubro, com ambas as sessões às 17 horas e entrada gratuita.
O sentido de oportunidade do debate é, pois, irrepreensível. Recupero aqui o texto que elaborei na altura do lançamento do livro, em 2007.

A «”morte de Portugal” não significa que Portugal desapareça (Portugal “dura”, escrevia Eça de Queirós durante a crise do Ultimatum; é, aliás, a sua grande virtude, não dar felicidade ao seu povo, mas durar, sobreviver, existir por existir, criando contínuas mitologias que justifiquem a sua existência)», diz Miguel Real .A morte de Portugal residirá, então, no desaparecimento de toda a originalidade portuguesa substituída pela vertigem estrangeira por uma «ditadura tecnocrática» instituída por «técnicos medíocres» para quem só conta «primeiro, a contabilidade das estatísticas, e, segundo, o sentido europeu das estatísticas». Mais, acrescenta Miguel Real:

«em nome de um orçamento metafísico e de uma canina imitação do pior da Europa, terão sido eliminados por este os curtos direitos ganhos pelas populações desde o 25 de Abril de 1974 (ter escola na sua terra, ter maternidade na sua terra, ter assistência hospitalar na sua terra, ter dinheiro suficiente para ir ao dentista, ter reforma garantida). É um Portugal solto, desregrado, cheirando alarvemente a dinheiro, os ricos por o terem, os pobres por o desejarem, todos por nas “Índias” o espreitarem, isto é, na mirífica Europa.».

Este é um «ensaiozinho despretensioso e reflexivo de horas nocturnas», no dizer do próprio ensaísta, texto ágil, acutilante, intervencionista, predicados para um prazer incomensurável de leitura, dizemos nós. Em 123 páginas, com Introdução, três capítulos e um Índice Onomástico, Miguel Real consulta 800 anos de política, mentalidades, História da Cultura e História das Ideias para desembocar nas actuais páginas de jornais onde corre a narrativa sobre quem somos e em quem nos estamos a transformar. Sobre o resultado do comando do Estado por «títeres janotas que transfiguram a nobre arte da política numa cinzenta cadeia técnica de raciocínios casuais», «uma nova geração de engenheiros e economistas totalmente desprovida de espírito histórico», escreve o ensaísta:

«Portugal permanecerá, na sua posição relativa face aos países mais ricos da Europa, como se encontra desde o reinado de D. João III, na base da tabela», com um «povo pobre, analfabeto e supersticioso. (…) É o Portugal de D. João III (menos de 30 anos depois de D. João III tínhamos sido condenados à inexistência por Castela), o Portugal do “Nada para que caminhamos” de Marquesa de Alorna, um Portugal merecedor de um Gil Vicente, que infelizmente não o há. É a orgia báquica dos técnicos cinzentos e dos políticos janotas antes da grande derrocada, como aconteceu na segunda metade do século XVI e na passagem entre os séculos XVIII e XIX.». Invocando o nome grande das letras portuguesas que também designa o Dia de Portugal, escreve o ensaísta:

«Camões, de facto, merece ser o símbolo do povo português – homem azarado, poeta pobre, brigão, mulherengo, condenado pelo Estado, perseguido pela igreja, nunca terá frequentado a Universidade (“saber de experiência feito”), migrante do Império, ora aqui, ora acolá, a sua vida, como a de Fernão Mendes Pinto, reproduz a vida dos portugueses que nunca beijaram a sombra do Estado, adversa às elites reitoras do Poder.».

Os quatro complexos de Portugal

Desenhando os quatros pontos cardiais por que Portugal se tem movimentado na sua História, Miguel Real apresenta quatro complexos culturais. O primeiro, da ORIGEM EXEMPLAR, é o complexo viriatino, que «emerge na segunda metade do século XVI», radicado na imagem de Viriato, «herói impoluto, puro, virtuoso, soldado modelo, chefe guerreiro íntegro, homem simples, pastor humilde que se revolta contra a prepotência do ocupante estrangeiro» que só pela traição é derrotado.
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O segundo, o da NAÇÃO SUPERIOR, o complexo vieirinho, que irrompe depois de D. João III, Alcácer Quibir e a decadência do Império, com o Padre António Vieira a semear a esperança, anunciando-nos o Quinto Império «dourando-nos o futuro com o regresso anunciado às glórias do passado», e que «nos determina a desejarmos mais do que nos pedem as forças e nos exigem as circunstancias, pulsao social que orientou as caravelas portuguesas;»

O terceiro, da NAÇÃO INFERIOR, o complexo pombalino, radicado no ímpeto de Pombal, o da nação humilhada pelo seu atraso e sequiosa das luzes europeias, «hoje acefalamente política dominante do Estado português, que a segue como “bom aluno”.

Por fim, o do CANIBALISMO CULTURAL, o complexo canibalista, «que alimenta o desejo de cada pai de família portuguesa de se tornar súbdito do chefe ou do patrão, “familiar” do Tribunal da Inquisição, sicofanta da Intendência-Geral de Pina Manique, “informador” de qualquer uma das várias polícias políticas, carreirista do Estado, devoto acrítico da Igreja, histrião da claque de um clube de futebol, bisbilhoteiro do interior da casa dos vizinhos, denunciador ao supremo hierárquico», aludindo-se, na actualidade, à «perseguição a funcionários públicos rebeldes pelos poderes partidários instituídos pelo governo de José Sócrates/Cavaco Silva.».

«Se a vitória europeia de Portugal se consumar, terá sido a geração nascida entre 1940 e 1960 a matar D. Sebastião pela segunda vez», diz, sem que, no entanto, antes desafie:
«Resta aos homens de bem virarem as costas a esta nova elite tecnocrática que assaltou e se apoderou do Estado português (..) e, se puderem, emigrarem, clamando que aos homens-técnicos leva-os o Tejo e o Douro nas enxurradas de Inverno, os homens-cultos, esses, permanecem, recriando a nova imagem literária, estética e cultural por que Portugal posteriormente se reverá no espelho da História.».

A Morte de Portugal, Miguel Real; Editorial Campo das Letras, Porto, 2007

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

David Mourão-Ferreira ou a inscrição da memória

(texto publicado hoje no site Orgia Literária)


O tempo é reversível. Pela memória exuma-se um passado tido como perdido. Se a memória é acção, a palavra é a criação que lhe confere sentido: juntas executam o eterno retorno, transfiguram, legitimam o tempo branco, perpetuam-se e perpetuam o seu criador.
A memória é o tema irradiante da escrita de David Mourão-Ferreira (1927-1996), com fulgor máximo na Obra Poética editada entre nós pela Presença. Fulgor máximo porque, como defendia Calvino, uma obra não se explica por parcelas, mas sim na sua totalidade, e esta Antologia – que colige a poesia do autor de 1948 até 1988 – tem todas as parcelas da grande urdidura do esplendor.
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A memória persiste amolecendo-a: assim a representava Salvador Dalí nos relógios moles pendurados de ramos secos, numa alusão ao carácter maleável do tempo quando sobre ele age a criação artística. Na mesma esteira, David Mourão-Ferreira usa outra metáfora singular: a memória como mármore mole, a memória sustentada por dois excessos, «o da fixidez e o da diluição» – assim referido por Eduardo Prado Coelho que prefacia a Antologia –, o que permite ao poeta modular a sua enunciação, confirmado pelo próprio: «mármore, sim…mole porém, como a casca da árvore, como o vento no sono escutando…». Na mesma metáfora, é evidente a luta e a dor da criação:
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Luta de corpo a corpo no interior do corpo.
Monólogo do tempo no interior da alma.
Monólogo monótono com saltos inesperados!
Monólogo no mármore mais mole de que há memoria…
Mármore, e mar, e vento sobre o mar…
Memória!
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Poética da «Apoteose do Nada» – na demanda daquilo que na memória se pode e deixa construir, uma «matéria obscura que obstina para além da vida ou da morte» –, a obra poética de David Mourão-Ferreira tem, segundo Eduardo Prado Coelho, uma «estrutura de tríptico» – «és retina, és rotina, és renovo», enuncia o próprio David –, com os últimos livros organizados em «incursões nos ciclos anteriores». Comprova-se o carácter circular da memória com a própria criação poética configurada no Eterno Retorno:
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todo o dia senti,
bem funda, em mim,
a tortura do beijo que não demos:
lago sereno, preso num jardim,
saudoso dum nenhum sulcar de remos.
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Corpo, mármore fugidio

À procura «daquela ribeira que reabilita a pedra», ou a subjectividade artística capaz de recriar a memória, o Corpo surge como centro de todo o processo, donde partem todas as buscas, onde convergem todas as emoções, «corpo de mármore fugidio», «memória por onde desliza a sensualidade e o erotismo». Afinal, diz o poeta, «o mundo só é mundo enquanto houver o corpo», e o poema, também corpo, exprime o «Voto» que sintetiza o empenho de David:

Que o fosso da memória se transponha,
que seja a solidão atravessada!
Da cálida crisálida renasça
de novo o corpo o corpo todo!
Venham as roucas sílabas da posse
no búzio dos ouvidos enroladas!
sobre a teia das veias impalpáveis,
reconstrua-se a cúpula dos olhos!
Que tudo, tudo, súbito se emprenhe
da realidade que a lembrança apenas
em folha de álbum, ressequida, guarda!
Que eu vá de novo decorar-te a seiva,
como um poema líquido que seja
urgente recitar na eternidade.

Enfrentar a voragem do tempo, descobrir os ângulos pelos quais o tempo nos devora, desafiar-lhe os quatro cantos com o canto poético é a grande tarefa de David Mourão-Ferreira. Para isso, escuta o «grito dos ventos», «pólen transformado», e constrói uma poética musical ímpar: «Além de amor, o meu amor quer melodia», diz o texto ao mesmo tempo que define a memória do amor: «O amor é um vidro sob um diamante: pois tudo foi vibrante e foi cruel». Em «Epitáfio», pode ler-se:
..
Cada sorriso teu agora só desperta
esse remorso vil que a minha vida tem:
– A tua alma estava à minha espera, aberta…
Repousei no teu corpo e não fui mais além.

Com os tempos conjugados – o da memória e o da recriação, «biliões de cordas um só nó» –, pergunta e responde, no «canto secular do pensamento»:
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as pedras são pedras ou são vento?
(E são ombros, são espadas, são gladíolos.)
Mas os cantos são meus ou são do tempo?

Responda-se que os cantos, estes cantos, são do tempo futuro pois é lá que em cada leitor se recriarão.
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© Teresa Sá Couto

Espaço Web de Camilo Pessanha

A Biblioteca Nacional (BN) fez ontem a apresentação pública do sítio Web de Camilo Pessanha. Representante do simbolismo português, o autor deu-nos, num só livro, Clepsidra, uma poética de símbolo, sugestão e música, construídas com ânsia, abulia e sentido de diluição, de inutilidade da vida.
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Fernando Pessoa considerou-o seu mestre; António Ferro disse, sobre Clepsidra: «a nossa geração tem um missal. Saiu o livro de Camilo Pessanha. A alma de todos nós, desnorteada, tem, enfim, um relógio». Com efeito, o título Clepsidra funciona como símbolo de uma poesia de símbolos: se no grego significa relógio de água, a terminação –idra remete para hidra, mitológico monstro marinho, serpente de inúmeras cabeças que nascem e se desenvolvem à medida que são cortadas, símbolo da impotência humana perante os obstáculos, manifesto sobre a fragilidade da condição humana.
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Que este novo sítio na Web seja, pois, um incentivo para se revisitar Camilo Pessanha, o «exilado da beleza».
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Um poema:
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Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
– Bom dia, companheiro – te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei…
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia! … Foi no entanto

Que chorámos a dor de cada um…
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

in Clepsidra, p.38, Biblioteca Ulisseia, 1987

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A Televisão do share e das elites

Publico este texto em resposta a inúmeros pedidos de sugestões de títulos que analisam o jornalismo em Portugal, e na sequência doutros que tenho aqui trazido.

Se atentarmos nos plateaux informativos das nossas três estações de televisão, verificamos que «não se descobrirá o retrato do país que somos. Antes se vê aí desenhado um mapa social que salienta as elites que a TV absorve e reforça.». Esta é a conclusão de Felisbela Lopes depois de rastrear doze anos de programas informativos (de 1993 até 2005), num Estudo agora editado no livro «A TV das Elites». De contributo imprescindível para o debate da televisão que temos, a obra investiga e interroga a informação televisiva não-diária – sobretudo, debates e entrevistas – na peugada da verdade que se revela de nós através do que se oculta; são quatro capítulos em 371 páginas, num exame completíssimo que nos avalia social e culturalmente

Com a chancela da Campo das Letras, o título pertence à Colecção Comunicação e Sociedade – uma colecção ímpar de abordagem crítica à Comunicação Social – dirigida por Moisés de Lemos Martins, do Centro de Estudos de Comunicação e da Universidade do Minho. A presente obra retoma parte da dissertação de doutoramento de Felisbela Lopes, colaboradora do jornal Público de 1990 a 1996.

A análise clara, objectiva, contextualizada, bem documentada e bem organizada por capítulos e alíneas norteadoras, são um apelo para a leitura não só por jornalistas, políticos ou investigadores, mas também por «todos os interessados na res pública, incluindo particularmente aqueles que frequentam as escolas secundárias e o ensino superior», como refere, no prefácio, Manuel Pinto, coordenador do projecto Mediascópio e director do CECS – Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho.

Informação sacrificada pelo Share

Sendo certo que os dados audimétricos condicionam as opções de programação das televisões, um dos grandes objectivos de Felisbela Lopes é mostrar que as novas grelhas avançaram cada vez mais para o espaço privado sacrificando os programas informativos: se em 1993 – com coabitação das estações privadas no Panorama Audiovisual Português (PAP) – ainda se verificava um número razoável de programas de informação, a partir de 2000 «a informação semanal vai sendo desalojada do horário nobre dos canais privados para dar mais espaço ao entretenimento que hegemoniza os serões televisivos». A lei do mercado, e na guerra das audiências, enreda também o serviço público de televisão que passa a seguir os exemplos das privadas.

Concomitantemente, o espaço televisivo vai sendo tomado por elites, evidenciando-se, também a preferência que os jornalistas lhes dão. Como consequência, refere-se, em 2002 tinha-se um «espaço público pouco diversificado do ponto de vista temático» e com representatividade limitada, que nós reconhecemos por serem “sempre os mesmos a falar das mesmas coisas”. Defende-se que quem é desconhecido da opinião pública, ou não pertence a «instituições centrais onde se exerce o poder político» tem poucas possibilidades de aparecer no ecrã. «Consequentemente, construiu-se no espaço televisivo uma enorme espiral de silêncio que se foi avolumando ao longo dos anos.».

A par da explanação apurada, a autora apresenta quadros sintéticos da programação semanal nos diversos anos, perfil dos convidados, evolução das audiências, quadros comparativos de audiências, oferta e consumo de informação semanal de prime time (por meses, dias e horas), temas de maior sucesso, percentagens de políticos presentes nos programas de informação, entre outras vertentes em análise.

Informação ou espectáculo?

Refere a autora que, nos anos em Estudo, «o cidadão comum foi desvalorizado na informação semanal» das três estações de televisão. «Nesse período, poucos programas reclamaram a sua presença para os plateaux televisivos e, sempre que o fizeram, foi para o integrar em talk shows ou para lhe solicitar um testemunho pessoal sobre um tema que seria depois discutido por especialistas ou com actores das indústrias culturais». Na tentativa de o incorporar nas emissões surgiram os telefonemas, o televoto, cartas, SMS, «mas esses diferentes meios de acesso, para além de controlados pelos responsáveis dos programas, apenas permitiam uma participação marginal e, não raras vezes, pouco representativa da população portuguesa.». Acresce que, defende-se, aquela «participação à distância não equivale ao direito à palavra que os convidados dispõem nos plateaux dos debates televisivos», tanto mais que o cidadão comum está excluído das grandes-entrevistas.

Advoga-se que, nos doze anos, deparamo-nos com o crescimento de programas ditos informativos, um «terreno ambíguo entre informação (que não prestavam) e o entretenimento (que não era explícito, por se tratar de histórias reais e sofridas de pessoas concretas). (…) Os temas, embora pudessem ser integrados no espaço público, eram atravessados por vivências privadas apresentadas por um discurso emotivo ao serviço do espectáculo da palavra através do qual se exibia o ser humano degradante: crimes, escândalos sexuais, negócios de pornografia, etc. ser célebre, neste contexto, significava não ter direito a uma vida privada.». Por outro lado, defende-se, esta «espectacularização do discurso» é uma «forma ilusória de transformar a televisão num meio reparador de injustiças sociais», porquanto representam uma parte ínfima da população.

Refere a autora que este Estudo sobre a TV que temos não permite grandes optimismos. Todavia, apelando à intervenção de todos, lança-se um desafio, que fazemos também nosso: «não nos dêem a televisão que queremos, nós merecemos muito mais».


A TV das Elites, Felisberta Lopes; Campo das Letras, 2007


© Teresa Sá Couto

sábado, 19 de setembro de 2009

Sessenta anos de corrupção na ONU

Um livro demolidor de Eric Frattini

Digo-vos, infelizes, lixados pela vida, vencidos desolados, sempre empapados em suor, advirto-vos: quando os grandes deste mundo começam a amar-vos é porque vão converter-vos em carne para canhão. O aviso é de Louis-Ferdinand Céline, restaurado pelo polémico, inquiridor, denunciador e demolidor Eric Frattini. Autor de «A Santa Aliança – Cinco Séculos de Espionagem do Vaticano», o jornalista, investigador e escritor nascido em Lima, em 1963, assina mais este título abrasivo: ONU – História da Corrupção, onde descreve e documenta, sem constrangimentos, 60 anos de fraude, «corrupção, favores, assédio e abusos sexuais, pederastia, nepotismo, clientelismo, esbanjamento, burlas, torturas, subornos, má gestão e uma catastrófica administração» da Organização das Nações Unidas, tida como um «monstro que continua a engordar» exaurindo os ideais que lhe serviram e legitimaram a criação.

Em nota introdutória, datada de 2005, o autor diz que o livro não é um texto histórico sobre as Nações Unidas, mas um capítulo dentro da longa história daquela organização, feito com informação verídica, muita com recurso a documentos "classificados", fornecidos «por funcionários da ONU muito interessados em que se tornassem públicos». A exposição de Eric Frattini é acompanhada de fotografias, reprodução de documentos oficiais, uma extensa bibliografia, e listagem de Organismos e Meios de Comunicação consultados. O resultado é um ensaio que vai desde a raiz da ONU até aos ramos da actualidade.

Ao longo de doze capítulos, feitos degraus de descida aos subterrâneos iníquos do poder, o autor acompanha os mandatos dos sete Secretários-Gerais da organização para relatar como Trygve Lie, primeiro secretário-geral da ONU, cooperou abertamente com o Comité de Actividades Antiamericanas de McCarthy na sua "caça às bruxas" dentro da ONU; como Dag Hammarskjöld permitiu a entrada de agentes da CIA na sede da ONU e como ajudou essa entidade a manipular a política do Congo; como U Thant protegeu seis diplomatas árabes suspeitos de assassinar uma norte-americana numa orgia de sangue e sexo em troca de uma importante doação; como Kurt Waldheim ocultou o seu passado nazi e os seus anos de serviço no exército de Hitler; como Javier Pérez de Cuéllar protegeu e promoveu as influências pessoais e o esbanjamento entre altos funcionários da ONU; como Butros Butros-Gali protegeu altos funcionários da ONU – seus amigos pessoais – de graves acusações de assédio sexual sobre funcionárias da organização; ou como Kofi Annan fechou os olhos em relação aos maiores casos de genocídio no Ruanda e em Srebrenica e, por "omissão", face ao maior caso de corrupção de toda a história da ONU no programa "Petróleo por Alimentos", em que esteve envolvido o seu próprio filho, Kojo Annan».

Capacetes Azuis: abusos e impunidades

Partindo da asserção de um ex-funcionário da Onu – «Se um capacete azul chega à tua cidade ou aldeia e se oferece para te proteger, foge. Agarra numa arma. A tua vida vale muito menos do que a dele» –, Eric Frattini relembra múltiplos escândalos enredando os “capacetes azuis”. Diz-se que, se em 1988 estas forças da paz das Nações Unidas receberam o Prémio Nobel da Paz, a sua actuação posterior deixou para trás a imagem romântica dos soldados que alimentavam e protegiam as mulheres, os velhos e as crianças.

Referem-se abusos e exploração sexual de mulheres e raparigas no Camboja (1992-1993) ou na Libéria (1993-1997); torturas a prisioneiros na Somália (1992-1995) – «o jornal flamengo Het Laastse Nieuws publicou mesmo fotografias que mostravam um soldado da ONU a urinar sobre o cadáver de um somali»; violações de crianças no Congo (presença desde 1999) e em Moçambique (1992-1994); casos de pederastia na Serra Leoa (presença desde 1998) e no Kosovo (desde 1999); escândalos na Bósnia-Herzegovina (1995-2005) com a prática do mercado negro – tido como «fonte de rendimentos ilícitos para os soldados da ONU» com o qual «estavam a ficar bem ricos e a tornar ricas as máfias locais» –, também da prostituição juntando-se-lhe um rol de insanidades: «pelo menos trinta e dois “capacetes azuis” do Canadá feriram, torturaram e violaram doentes e enfermeiras de um hospital psiquiátrico na Bósnia»; abordam-se «casos de escravatura de mulheres somalis ou bósnias e abandono de civis desarmados às mãos dos seus agressores no Ruanda e Sbrenica», numa lista demasido vasta de condutas atrozes para que possamos ficar indiferentes.

Perante a bizarria e o anómalo, o texto refere que foi pedido por mais de 100 Estados-membros dos 191 que compõem a assembleia-geral da ONU que se rejeitasse a Resolução 1487 do Conselho de Segurança que impedia o Tribunal Internacional de julgar os “capacetes azuis”. Todavia, pode ler-se, «apesar das suas bem intencionadas palavras em que Annan afirmava que a resolução contrariava o espírito da Carta das Nações Unidas, o Conselho de Segurança renovou a 1422 e adoptou a Resolução 1487, como ampliação da anterior e com ela a “autorização de pirataria” para os milhares de “capacetes azuis” espalhados por todo o Mundo».

Um provérbio chinês aconselha: «Antes de iniciar a tarefa de mudar o Mundo, dá três voltas pela tua própria casa». Sendo o Mundo a casa larga de todos, é o dever de cada um participar na arrumação. Não o fazer é deixar a tarefa concentrada só nalguns e legitimar-lhe o poder sobre esse bem que deve ser comum. Este livro mostra-nos o preço e o perigo do comodismo de uma metade da humanidade perante a outra metade.

ONU – História da Corrupção, Eric Frattini, Editorial Campo das Letras, Porto, Setembro de 2006


© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

«cem mil cigarros - Os Filmes de Pedro Costa».

«cem mil cigarros – OS FILMES DE PEDRO COSTA» é o próximo lançamento das edições Orfeu Negro. Coordenada por Ricardo Matos Cabo, a monografia tem mais de 300 páginas com textos de 28 críticos, ensaístas, realizadores e artistas de todo o mundo. O lançamento está marcado para 22 de Setembro, terça-feira, na Cinemateca Portuguesa, às 19h30.
Serão também apresentados os lançamentos da Midas Filmes da edição em DVD do primeiro filme de Pedro Costa, O SANGUE, a partir de um novo master digital de alta definição 2K, com restauro digital de imagem e som, e da reedição em DVD de ONDE JAZ O TEU SORRISO? Às 21h30, segue-se uma sessão de O SANGUE na sala Dr. Félix Ribeiro, com a presença do realizador.

O filme será objecto de uma reposição em cópia nova, no dia 24 de Setembro, em exclusivo no cinema UCI El Corte Inglés, em Lisboa, vinte anos depois da sua estreia mundial em Veneza.

As edições em DVD dos dois filmes são edições de coleccionador com várias horas de complementos e estarão à venda a partir do dia 1 de Outubro. O DVD de O SANGUE tem como extras: “Sangue antigo e sangue novo por João Bénard da Costa”, “Órfãos um comentário de Phillipe Azoury”, “Jeanne Balibar canta duas canções um filme de Pedro Costa”, “13 Fotografias de Paulo Nozolino”, “Fotografias de rodagem”, “Filmografia de Pedro Costa”, “Trailers” e “Capítulos”. ONDE JAZ O TEU SORRISO? tem como extras “Danièle Huillet, Jean Marie Straub, Cineastas – filme da colecção cinema de notre temps”, “6 Bagatelas – seis cenas inéditas montadas especialmente para esta edição”, “O Viandante e O Amolador – duas curtas-metragens inéditas de Danièle Huillet e Jean Marie Straub”, “Filmografias Pedro Costa, Danièle Huillet e Jean Marie Straub”.

Em Novembro, a Midas Filmes estreará ainda NE CHANGE RIEN, o último filme do realizador, antestreado na Quinzena dos Realizadores em Cannes. A estreia do filme contará com a presença da actriz Jeanne Balibar.

NE CHANGE RIEN foi também já apresentado na Filmoteca de Madrid, onde foi exibida uma retrospectiva completa do realizador, no Festival de Marselha, na Haus der Kulturen der Welt, em Berlim, e seguem-se apresentações em mais de vinte festivais em todo o mundo, entre os quais o Festival de Nova Iorque e a Tate Modern em Londres, onde em Setembro e Outubro será apresentada uma retrospectiva completa da obra de Costa e uma selecção de filmes que o inspiraram enquanto realizador.
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(conforme nota da Orfeu Negro)

domingo, 13 de setembro de 2009

Jorge de Sena voltou a casa

Cumpriu-se o que tinha de se cumprir: JORGE de SENA voltou a casa. Dia 11 de Setembro, na Basílica da Estrela, fez-se a Homenagem de trasladação dos seus restos mortais. Agora há que recuperar a sua obra literária, pois recuperá-la é recuperarmos parte de nós, portugueses.

Fique a página da Fundação José Saramago para o percurso biográfico e bibliográfico de Jorge de Sena, percurso que se confunde com o da nossa história.


Dois poemas de Jorge de Sena:

Recortes

Os meus recortes fugindo para o Sul!
Velozes, tão velozes!
Ainda ontem desdobrados
e hoje azuis de corpo inteiro!...
e a sombra de olhar circundante,
num passo apressado e decidido,
e a minha forma entregue, aberta,
escancarada,
mas a barreira caída em falhas de sinais.

Eu não soube cortá-los pelo meio,
colá-los
nas páginas onde os sentiria com os meus dedos
- igual aos cegos diante de um livro para cegos,
porém sentindo mais e muito mais
e cego eu fosse aos livros de mim próprio!

Os meus recortes
fugindo para o Sul no carroussel:
amanhã, um dia, tornarão a passar,
tornarão a fugir…

E eu talvez então nem fale
- porque falei hoje.

25/8/1939

Obras de Jorge de Sena, Poesia-I p.p. 47, 48, edições70

Madrugada

Há que deixar no mundo as ervas e a tristeza,
e ao lume de águas o rancor da vida.
Levar connosco mortos o desejo
e o senso de existir que penetrando
além dos lobos sob as águas fundas
hão-de ser verdes como a velha esperança
nos prados de amargura já floridos.

Deixar no mundo as árvores erguidas,
e da tremente carne as vãs cavernas
aos outros destinados e às montanhas
que a neve cobrirá de álgida ausência.
Levar connosco em ossos que resistam
não sabemos o quê de paz tranquila.

E ao lume de águas o rancor da vida.


Madrid, 4/9/1972

Obras de Jorge de Sena, Poesia-III, p.p. 207,208, edições70, 1989

sábado, 12 de setembro de 2009

Gonçalo M. Tavares elogiado em França

Segundo divulgado pela Caminho, O Senhor Calvino e O Senhor Kraus de Gonçalo M. Tavares acabaram de ser publicados em França pela editora Viviane Hamy, e arrancam aplausos da crítica na secção Avant-Portrait da revista francesa Livres Hebdo. Véronique Rossignol, que assina o texto crítico, refere-se a O Bairro como "a sua biblioteca ideal concebida como uma cidade ideal que ele povoa pouco a pouco com senhores, artistas queridos do seu panteão, aos quais consagra pequenos livros impossíveis de catalogar".
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Cita-se Alberto Manguel, que escreveu um texto para servir de posfácio à edição francesa de O Senhor Kraus (o posfácio que acompanha o Sr. Calvino é da autoria de Jacques Roubaud), e no qual o conhecido escritor argentino afirma: "O Kraus que Tavares instala no Bairro é um Kraus paralelo, reinventado para o nosso espaço e o nosso tempo."
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Sobre a obra de Gonçalo M. Tavares, a anteceder duas referências a Jerusalém e Aprender a Rezar na Era da Técnica, afirma-se:

«Enumerar os ilustres autores aos quais é comparado depois de Saramago ter declarado ver nele um futuro prémio Nobel seria esmagador. Traduzido em cerca de trinta línguas, Tavares foi louvado pelos maiores (Lobo Antunes, Vila-Matas ). Se a referência Kafkiana e a herança Mittel Europa são os tópicos que ocorrem com mais frequência para qualificar o seu universo literário, ele surge mais amplamente considerado como a nova encarnação na categoria "grande escritor europeu". ».
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Clicar na imagem para ler o texto da Livres Hebdo.
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Ver na Etiqueta os textos sobre Gonçalo M. Tavares.

Ideias e emoção com o Senhor Calvino

Sexto livro da série criada por Gonçalo M Tavares, «O Senhor Calvino» traz o olhar da procura essencial, e as coisas insignificantes suscitam reflexões singulares. Num dos sonhos, Calvino lança-se em perseguição da sua roupa, que alguém atirou de uma janela do alto de mais de trinta andares. Enquanto desce vai alcançando peça por peça, calça os sapatos, põe e ajeita a gravata, bem a tempo de chegar impecável ao chão.

Acordamos e concordamos: é merecido este desvelo para nos apresentarmos ao chão. Afinal, resta-nos sempre o chão, e podemos sempre contar com ele, porque ele tudo suporta: cansaço, traições, fracassos, fadigas ou como nos lembra o autor, no seu livro "Poesia 1": «aconteça o que acontecer, tens sempre um corpo que pesa; e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece(1).

Este Senhor Calvino é construído com muito do “Senhor Palomar” – personagem do romance Palomar, de Ítalo Calvino. Ambas as personagens são conscientes do carácter inesgotável das coisas e detêm-se na superfície dessa diversidade para lhe apreenderem o sentido. Palomar observa os pássaros e as ondas do mar. Também Calvino tem como exercício fundamental «treinar o olhar sobre as coisas do mundo». O seu dia-a-dia desenrola-se entre a banalidade dos actos diários articulada com a intensidade da procura.

Por exemplo, Calvino, de vez em quando, obriga-se a andar com um balão que guarda uma «pequeníssima parte da totalidade do ar do mundo». Um exercício fundamental para apreender a importância do Nada; « escolher uma cor para o balão era atribuir uma cor ao insignificante». Doutra parte, «a quase insuperável fragilidade do balão obrigava ainda a um conjunto de gestos protectores que lembravam a Calvino a pequena distancia que existe entre a enorme e forte vida que ele agora possuía e a enorme e forte morte que andava sempre, como um insecto desconhecido mas ruidoso, a cada momento a circular em seu redor».

Calvino deambula perscrutadoramente. Passear sem objectivo é permitir-se aprender. «Via-se como um peregrino, mas não tinha meta nem mapa. Queria ir directo, sem desvios, para um sítio onde se sentisse perdido.». Talvez por isso, sentisse comprazimento em não indicar correctamente as direcções aos que entravam no bairro: «fazer com que as pessoas se perdessem no bairro era um acto de generosa simpatia (…) sabia que se as pessoas fossem directamente, sem qualquer desvio, para o seu destino, nunca teriam oportunidade de ver e conhecer cantinhos que só os homens muito perdidos descobrem.».

Metódico na procura, nos sábados de manhã transporta, sem qualquer falha, uma vara metálica paralela ao solo. De regresso traz a mesma vara, mas na diagonal e com postura relaxada. Conclui: «Uma falha mínima podia transformar uma paralela em diagonal» e, «qualquer transportador de paralelas devia ser pago a peso de ouro pois demonstrava que sabia colocar, com exactidão, a mão no centro das coisas». Sempre à procura do centro das coisas, e assim, do seu próprio centro, Calvino «não deixava de aperfeiçoar, todos os sábados de manhã, essa específica habilitação técnica e metafísica.». Ser que por vezes se emocionava com as ideias, «não com o mundo», Calvino achava que «quem não tinha pensamentos próprios não tinha vida própria».

Existir é jogar e para que se jogue o jogo da perpétua descoberta há que subverter as regras criando regras subversivas. Aplicando este método subtil, Calvino e Duchamp jogaram. Como não tinham definido as regras, não sabiam quem tinha ganho. Então, em alternância, começaram a «formular regras para o jogo que já haviam jogado, cada um tentando definir o jogo capaz de o fazer, embora a posteriori, vencedor».


O Senhor Calvino, Gonçalo M. Tavares, ilustrações de Rachel Caiano, Caminho, 2005

(1). Gonçalo M. Tavares, Poesia 1, Relógio D'Água, 2004

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

«100 fábulas De La Fontaine»

Numa jóia editorial com talento português

Volvidos três séculos das primeiras edições das Fábulas de Jean de La Fontaine, milhares de edições para outras tantas ilustrações, atento numa jóia editorial que nos deixa atónitos pela sua magnificência: «100 Fábulas de La Fontaine» envoltas em arte portuguesa, seleccionadas por José Viale Moutinho, traduzidas por portugueses como Bocage e Teófilo Braga, recriadas portentosamente pelas ilustrações de José Emídio; tudo reunido num livro de luxo ou não tivesse a chancela da Campo das Letras, editora que habitou os leitores à qualidade soberana destes objectos que nos tiram o fôlego.

É desacertado julgarem-se as Fábulas de La Fontaine apenas literatura infantil. Elas são para todos e comprova-se na intenção do fabulista francês mais famoso do mundo: «O mundo é velho /(Dizem) e eu creio que inda diverti-lo /Compete, como as crianças se divertem» (O poder das Fábulas, pag 202). Na apresentação, José Viale Moutinho diz como «o Senhor La Fontaine puxa as orelhas à república dos homens pondo a falar o reino dos animais»: «Papagaio real, quem passa? / – É o Senhor de La Fontaine que vai à Praça! / – E o que vai lá fazer? / – Colher os tiques da gente, /…/ Tal senhor escreve fábulas /e nenhuma outra ficção! / – É que os homens e as mulheres / (é bom se o souberes!) / têm tiques e pruridos tais /que é melhor /(Para não os ofenderes!) /pregar-lhes lições tais /que só metam animais!/…/ - E são lições para a humanidade /se comportar a preceito! / É que o tal de La Fontaine /queria ver este mundo /portar-se muito direito».

Viale Moutinho questiona-se sobre o «misterioso desígnio» que faz com que estas fábulas cheguem, vigorosas, aos nossos dias, para concluir que é a sua perenidade enquanto forma literária bem como a actualidade dos «conceitos morais que são o desfecho de todas elas». Justifica que a antologia de 100 fábulas «não é totalmente inocente», pois entende ser este o «núcleo mais duro da obra de La Fontaine, e considera que as fábulas do francês «já não suportam entre nós a edição integral».

As 100 fábulas coligidas têm tradução portuguesa de A. Lopes Cardoso, Abel Botelho, Acácio Antunes, Alfredo Alves, Bocage, Cipriano Jardim, Costa e Silva, Curvo Semedo, E. A. Vidal, Eduardo Garrido, Fernando Leal, Filinto Elísio, Francisco Palha, Gomes Leal, Gonçalves Crespo, Henrique Lopes de Mendonça, José Inácio de Araújo, José de Sousa Monteiro, Luís de Macedo, Miguel do Couto Guerreiro e Teófilo Braga.

As 100 ilustrações de José Emídio

As fábulas de La Fontaine foram ilustradas por grandes artistas ao longo dos séculos, com interpretações pessoais, mas que reiteram o seu carácter intemporal e universal. Destaco os guaches de Chagall, muito aplaudidos pela crítica da época, realizados entre 1926 e 1927 e exibidos em 1930 com pompa e circunstância. Antes da arte chagalliana, refira-se o trabalho de Gustave Doré (1867) sobre madeira, onde aparecem ora figuras humanas, ora animais.

As presentes 100 ilustrações nas páginas ímpares recriam de forma particular as narrativas das páginas pares. As interpretações das fábulas foram, seguramente, um desafio para José Emídio que o cumpre com distinção, criando um parentesco moral e narrativo, subtil e impressionista com as narrativas do francês. José Emídio, que já nos habituou à qualidade do seu trabalho, pinta como ninguém essa “poética comum" e universal, em pinceladas que põem em movimento quadros morais; um movimento pictórico que sai das páginas em direcção ao espectador que assiste com assombro à visão pessoal do artista. Doutra parte, estas ilustrações surgem com força mesmo se retiradas das fábulas. São, por todas as razões, 100 obras de arte imperdíveis.

Os vícios humanos e a fórmula da perenidade

No reinado tirano de Luís XIV (1643), La Fontaine encontrava a matéria para as suas breves narrativas em verso, com as rimas a facilitarem a memorização e a fixarem, de forma lúdica e humorística, os ensinamentos. O mesmo carácter lúdico da moralização dos costumes foi seguido pelo nosso dramaturgo Gil Vicente, que teve na máxima Ridendo castigat mores – a rir corrigem-se os costumes – soberana actuação. Os avisos do fabulista francês constroem-se com recurso a animais antropomorfizados. A reconversão é feita com agilidade e engenho narrativos, amplificação subtil dos vícios sociais e um talentoso carácter interventivo na sociedade e na moralidade. Algumas fábulas são recriações de fábulas do grego Esopo que por sua vez foram aperfeiçoadas pelo latino Fedro. No entanto, este tipo de texto já aparece no século XVIII a.C., na Suméria. É, no entanto, La Fontaine que as populariza em todo o mundo. As Fábulas foram editadas em 12 livros, de 1668 a 1694: I a VI (1668), VII a VIII (1678), IX a XI (1679), e XII em1694. Muito apreciado na sua época, La Fontaine pertenceu ao grupo literário-filosófico francês de Molière, Racine, Nicolas Boileau-Despréaux, entre outros, tendo sido eleito membro da Academia Francesa, em 1683.

Desta forma, chegam com actualidade incólume máximas morais, das quais destaco a da Cigarra preguiçosa e da formiga laboriosa; da raposa matreira como um vigarista; a fábula do corvo e da raposa cuja «lição vale um queijo»; da rã vaidosa que inchou para ser maior que o boi e rebentou; do lobo que come o cordeiro – «Sempre o sagaz prepotente /quer ter por base a razão, /inda que seja aparente» (O lobo e o Cordeiro, p. 30); «Na dor deseja-se a morte; /Mas quando vem faz tremer; /Qu’ é dos viventes o instinto /antes penar que morrer.» (O Lenhador, p. 38); «Assim, nas mútuas desordens /Dos grandes, dos potentados, /Quase sempre os mais pequenos /Vêm a ser os esmagados.» (Os Dois Touros e a Rã, p. 44); «Quase sempre as ímpias tramas /urdem o mal do inventor; /E mil vezes a perfídia /Recai sobre o seu autor.» (O rato e a rã. p. 88); «Confiar na Providência /Para obter o qu’ intentamos /Sem que os meios lhe ponhamos /É demência. /Nada obtém quem não procura; /Que foi sempre a diligência /Mãe da sólida ventura.» (O Carreteiro atolado, p. 156).

Viale Moutinho refere a «Excelente fórmula» encontada por La Fontaine que ditou a intemporalidade das suas histórias morais em verso: «Apurou a palavra e as maneiras de dar recados às gentes e divertiu com isso essas mesmas gentes, que não deram, ou fingiram que não davam (ou que não dão!), pelo espelho diante do rosto, lá isso não é mentira nenhuma. E como ele zurziu as mesmíssimas gentes e como continua a zurzi-las á escala internacional! E toda a gente gosta, às vezes fingindo que é com os outros, isso gosta, gosta muito…».

100 Fábulas de La Fontaine; selecção de José Viale Moutinho; ilustrações de José Emídio; 224 páginas; Editora Campo das Letras, Porto 2005

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Como se produz uma notícia?

As relações entre o jornalista e a fonte

«Que narrativas e histórias interessam aos jornalistas? Como trabalham os jornalistas os seus recursos e que rotinas? Que representação do poder e da sociedade em geral deixam ficar nas notícias? Que fontes de informação falam das notícias? Que fontes de informação são seleccionadas pelos jornalistas?»

Responder a estas e muitas outras questões é o objectivo do livro A Fonte não quis revelar, de Rogério Santos, doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e docente de Comunicação na Universidade Católica Portuguesa. Por 242 páginas o leitor é convidado a seguir o percurso da construção da notícia, a apreender as relações entre jornalistas e fontes de informação. Na vertigem das sociedades da comunicação, com a notícia procurada e metamorfoseada a cada instante, o livro vem lançar alguma luz sobre o «jogo informativo» de que todos fazemos parte.

Na introdução, o autor adverte que grande parte da pesquisa compreendida no texto foi base para a sua tese de doutoramento sobre como o HIV-AIDS foi abordado pelos media portugueses. A investigação apoiou-se, ainda na Sociologia do jornalismo, com recurso a vários autores, pelo que no final é apresentada uma extensa lista de Bibliografia consultada.
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A «dança guerreira» no acesso à informação
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Diz-nos o autor que lendo-se conveniente e atentamente uma notícia, ela revela uma «dança de lances de jogo e negociação» entre o jornalista que a produziu e a fonte de informação que a promoveu. Comparando-se a um jogo de xadrez onde existem regras definidoras e regras estratégicas, é-nos explicado que a complexidade aumenta conforme o número de «entrantes» no jogo e há que contar com «fontes políticas, judiciais, científicas e outras, jornalistas, e os vários meios noticiosos em concorrência, e a opinião pública», que o texto explica desta forma:

«A relação entre jornalista e fonte de informação, para além de usar regras definidoras – rigor na informação, rapidez na prestação da informação, enquadramentos adequados dos acontecimentos, colaboração ou desconfiança mútua –, emprega as regras estratégicas do jogo – necessidades concorrentes de publicitar o acontecimento de uma fonte de informação e do jornalista obter uma informação nova ou exclusivo. Mas não existe uma determinação prévia onde está o poder, ou quem controla o conhecimento num dado momento. O jogo é, em simultâneo, desempenhado por vários intervenientes, que escrutinam o poder, as forças e a influencia dos adversários, para fazerem os seus lances.

A disputa de recursos disponíveis implica a luta e negociação sobre os acontecimentos importantes ou relevantes. Assim, a luta ou troca de informação regista-se não entre um jornalista e uma fonte de informação, mas numa multiplicidade de agentes sociais, que incluem jornalistas, meios noticiosos, fontes de informação e a sociedade no seu todo.».

Mais: diz-nos o autor que neste jogo de influência e conflito entre jornalistas e fontes, «cada uma das partes cria uma agenda de temas e tenta influenciá-la». Assim, refere-se, «jornalistas e fontes de informação procuram protagonizar o jogo, mas sabem que são usados pelos outros agentes sociais. Trata-se de uma dança ou simbiose guerreira entre o que se sabe e o que não se sabe, entre o que se disponibiliza e se esconde».

Neste jogo ou dança ou arena de luta, onde coabitam o segredo, a confidência, a censura e a publicidade, o autor adverte para o carácter pernicioso de fontes e jornalistas que põe em relevo uma multiplicidade de interesses: «as fontes de menores recursos apostam na intriga, desvendam as rivalidades de organizações maiores»; «fontes rivais através de fugas de informação ou balões de ensaio, boicotam os projectos das organizações a que pertencem» e, «graças a redes de contactos informais com jornalistas», veiculam os seus interesses que servem também os objectivos dos jornalistas sedentos de novas notícias.

A fonte não quis revelar, Rogério Santos, Editorial Campo das Letras, Porto, Junho de 2006

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Prémio de Literatura Casa da América Latina / Banif para Helder Moura Pereira


Hélder Moura Pereira venceu o Prémio de Literatura Casa da América Latina (CdAL) / Banco Internacional do Funchal (Banif), pela tradução do romance O Inútil da Família, do autor chileno Jorge Edwards. O romance foi editado pela Assírio & Alvim, em 2008.

A edição de 2009 do prémio que visou distinguir a melhor tradução literária de obras latino-americanas, publicadas em Portugal em 2007 e 2008, no valor de 7.500 euros, teve a unanimidade do júri. O Prémio será entregue dia 16 de Setembro, às 18:30, na CdAL.
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É, pois, mais um Prémio para a prestigiada Assírio & Alvim e para Helder Moura Pereira; recorde-se que o autor, enquanto poeta, venceu o Prémio Pen Clube 2008 de Poesia com a obra Segredos do Reino Animal, editada em 2007, também pela Assírio.

António José Telo vence Prémio John dos Passos

O Historiador e professor catedrático António José Telo acaba de vencer o Prémio John dos Passos, no valor de 2500 euros, atribuído pela Câmara Municipal de Ponta do Sol (Madeira), pela obra História Contemporânea de Portugal – do 25 de Abril à Actualidade, de dois volumes, editada pela Presença. Quando foi lançado o primeiro volume, em Março de 2007, elaborei um texto que agora aqui recupero.

História dos nossos 30 anos de democracia

Em Portugal, é o poder que cria os partidos e não o contrário, como é normal noutras sociedades, escreve o historiador António José Telo, referindo-se à criação de partidos que representassem a direita portuguesa logo após a Revolução do 25 de Abril. Argumenta que, por cá, fugindo à denominação maldita, os partidos que vingaram legalmente sentiram a «necessidade de colocar o “social” ou o “socialismo” no nome».

A falta de dirigentes conhecidos, a inacessibilidade aos órgãos de informação, a falta de representatividade nos órgãos do povo e a falta de financiamento privado e apoio internacional – «quem tinha dinheiro para investir na política (…) preferia fazê-lo em quem lhe dava alguma garantia de vir a ser poder a curto prazo» – levou a que as organizações assumidas de direita fossem «pulverizadas».

Respondendo à urgência de se coligir o material histórico e a necessidade de o explicar, António José Telo brinda-nos com o História Contemporânea de Portugal – do 25 de Abril à Actualidade, o primeiro de dois volumes que interpretam a história recente da nossa vivência em democracia. Neste primeiro tomo explana-se desde a Revolução do 25 de Abril até 1985; o segundo volume cobre o período entre 1986 e a actualidade, contemplando, ainda, a descolonização e a adesão de Portugal à União Europeia.

António José Telo, Professor catedrático de História na Academia Militar e autor de uma vasta obra no campo da História, Defesa e Relações Internacionais, refere no prefácio as dificuldades de escrever a História dum período recente: «Temos acesso à selva da informação tornada pública no dia-a-dia em infindável quantidade, mas muito duvidosa na sua verdade e que tende a asfixiar pela mera quantidade».

Com a «informação sobre a espuma das coisas» interpelada e com recurso a todo o tipo de fontes e testemunhos, desenvolve-se uma «obra que pretende ser uma fonte fidedigna de época». Este primeiro tomo tem 400 páginas para cinco capítulos que organizam criteriosamente a informação. Os títulos e subtítulos conferem-lhe um fácil manuseio e as explicações apresentadas pelo autor possibilitam uma interacção do leitor com a sua História. Ao longo do texto apresentam-se janelas e quadros explicativos com transcrições de documentos, declarações e factos como surgiram a público, composição dos diversos governos constitucionais, resultados de eleições para a Presidência da República; incluem-se ainda gráficos com dados sobre censos, educação e saúde.

O primeiro capítulo versa «O 25 de Abril e o novo poder», as novas organizações políticas numa conjuntura conturbada, própria do renascimento de um país. No segundo capítulo apresenta-se «A deriva comunista – Outubro de 1974 a Novembro de 1975». O terceiro capítulo é dedicado à «Consolidação na instabilidade», analisando-se «a violência remanescente», as novas estratégias dos Partidos Políticos com poder, o nascimento da AD, os realinhamentos partidários e a adesão à CEE. O quarto capítulo aborda «Uma economia à procura de uma estratégia», explanando-se impasses, crises e modulações várias. No quinto capítulo, apresenta-se o estudo sobre «Sociedade e Mentalidades – 1974-2006», analisando-se explicativamente as mudanças: «de emigrantes a imigrantes?», a nova família e o papel da mulher, o ensino, a saúde, a segurança social, a habitação, a Cultura e o lazer, entre outros assuntos.

Saber a História para interpretar o presente

Numa breve entrevista ao JL (Jornal de Letras), António José Telo referiu que escrever esta História mudou a sua «perspectiva sobre a evolução de fundo no Portugal nos últimos tempos». Comprovando-se que, como referiu, «a História ajuda a ver um pouco mais longe», no terceiro capítulo, ao abordar-se o «o fim de uma fase», com as eleições de Outubro de 1985, depois do Verão Quente, a assinalarem uma nova etapa na democracia portuguesa, lê-se:

«A instabilidade política de 1975/1985 tinha sido em larga medida uma herança do espírito do PREC de 1974/1975. A deriva comunista terminou com o 25 de Novembro, mas os seus efeitos nas mentalidades perduraram. Estava enraizada numa parte substancial da população a ideia consagrada na Constituição de que não se podia abrir mão da “conquistas irreversíveis» e que se caminhava para o socialismo, com tudo o que isso implicava(…)
Quando começaram as políticas de austeridade que obrigavam a apertar o cinto, a reacção geral foi fortemente negativa e contestatária. (…) A mais pequena tentativa de diminuir os poderes do imenso Estado levantava um coro de protestos de várias origens, com o fogo cruzado que partia da oposição, do Presidente da República, do Conselho da Revolução e da Rua.
(…) O Estado não só mantinha a sua esfera de acção consagrada no PREC, como alargava mesmo a outras funções, onde se destacavam o Serviço Nacional de Saúde, o aumento da segurança social e do ensino obrigatório e gratuito (teoricamente). (…)Era relativamente fácil cair no despesismo, que só tinha um travão eficaz quando surgia a crise de pagamentos internacionais e o FMI aparecia para impor a austeridade, sob pena da bancarrota. (...)
Sá Carneiro procurou desatar o nó górdio do problema em 1980, mas o seu desaparecimento prematuro fez tudo regressar ao mesmo, fossem os governos da AD ou do Bloco Central. Só em 1985 se reuniram as condições para acabar com esta fase. Em larga medida isso deveu-se a um factor externo – a adesão à CEE(...)»
(pp.247,248)

Numa altura em que os nossos governantes reconhecem a necessidade de ser ensinada nas escolas portuguesas a História da jovem democracia e que o que vem a ser ministrado está ao sabor das iniciativas de professores que, colmatando o vazio dos programas ditados pelas tutela, fazem questão de levar aos seus alunos a História recente, esta obra é um contributo inestimável; para nos ensinar a nós, tanto mais que «um terço da população portuguesa nasceu depois da Revolução dos Cravos», e para que possamos ensinar os nossos jovens.

História Contemporânea de Portugal – do 25 de Abril à Actualidade, volume I, António José Telo; Editorial Presença, Lisboa, Março de 2007

© Teresa Sá Couto