sábado, 12 de dezembro de 2009

O legado de um andarilho

(texto editado no sítio da Orgia Literária em 08.12.09)

As Voltas de um Andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso de Viriato Teles: eis um documento raro sobre um sonho agarrado à vida concreta, firmado no telurismo português e braços estendidos a outros lugares do mundo onde despontava a utopia; uma voz sobre uma das vozes da resistência ao fascismo, que rasgou as sombras e iluminou quem nelas vivia; um diálogo entre gerações sobre «o que faz falta», o idealismo, a persistência na luta pela Liberdade.

«Mais uma vez, a luz. Mas aqui, desta vez, sem misticismo. Para o Viriato tratou-se só de erguer a lâmpada sobre as extraordinárias funções do Zeca, e nisso encontrar quem nós temos saudades de ser», diz Sérgio Godinho no Prefácio titulado «A que distância está o Zeca?». E luz é o substantivo genesíaco que nomeia esta obra alagada de memória, que palavras emissárias e imagens perpetuam, para grande felicidade nossa. Na base, uma segura, minuciosa e depurada investigação da vida de José Afonso, que casa factos reais com lugares interiores, só mensuráveis pelo tempo, porque é a narração do tempo que aqui encontramos, o tempo social, político, insurrecto. Depois, a mestria da composição, marca iniludível da escrita de Viriato Teles, que transforma entrevistas e reportagens em edifícios sensoriais e de comprometimento ímpar com o leitor.

Editada em 1999, e esgotadíssima, a obra é republicada pela Assírio & Alvim «com algumas actualizações, correcções e acrescentos», assim dito por Viriato Teles. Clara é também a missão que o jornalista e escritor cumpre soberanamente: «participar, tanto quanto possível, na luta contra o esquecimento, que é como se sabe um dos vícios portugueses mais comuns».

A voz e o legado

Além da história da vida de José Afonso, Viriato Teles transmite-nos um exemplo de vida de quem fez do compromisso com o seu tempo uma forma de se manter vivo. Um exemplo testemunhado por Viriato, pelo estreito contacto com Zeca, documentado nas entrevistas que lhe fez e nos encontros «sem marcação nem “agenda” prévia, ao sabor dos acasos e das lutas».
Desvenda-se na raiz o homem nascido para encarnar uma aspiração que tatuou numa existência andarilha, mobilizado pelo apelo solidário do Outro, na demanda da «irmandade». O «trovador de muitos sonhos», que, nos anos 60, em Coimbra, criava baladas e «abria uma revolução musical e poética que abalou a estrutura da canção ligeira portuguesa», cedo terá percebido que a música seria uma forma de chegar às populações. A esta juntou o gosto de «ensinar os filhos dos outros», com a leccionação em História e o envio de recados através das aulas.

«Um provocador, por instinto», refere Viriato Teles. «A música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido», e «o que é preciso é criar desassossego»; «acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de “homenzinhos” e “mulherzinhas”. Temos é que ser gente, pá!», diz Zeca, regista-o Viriato, dizendo-nos também que Zeca se esquivava constantemente a falar de música, sendo ela o ponto de partida para outras divagações:

«Praticamente nunca canto por gosto», diz Zeca em 1980, «Prefiro estudar, agradar-me-ia tirar outro curso, às vezes até me passa pela cabeça que gostava de mudar de personalidade, como as personagens de Pirandello». Eram (e são) caminhos de um homem livre que «vive na recusa do oportunismo, na análise permanente das suas posições, na interrogação constante», portador da consciência contra o conformismo, «um verdadeiro e incorrigível independente»; era o timbre de um homem livre, que afirmou ser o seu próprio “comité central”, que decidiu, em 1985, apoiar a candidatura de Maria de Lurdes Pintassilgo à Presidência da República, que apoiou as lutas anti-imperialistas na América Latina, que se ligou a «grupos de apoio à Reforma Agrária, nomeadamente na Alemanha e na Holanda» e fez parte do Comité Central de Apoio à Frente Polisário.

Com a destreza que lhe é característica, Viriato Teles capta e regista em breves linhas a síntese perfeita do homem José Afonso: Zeca, na sua casa em Azeitão, «simultaneamente bem-disposto e mordaz, por vezes até impiedoso”, perante o “perguntador”», entre a viola, a um canto, um retrato de Che Guevara, na parede, e «uma faiança com o texto de Grândola Vila Morena», a encher o espaço todo.

É sobre este homem que, com alguma vergonha pela iniquidade lusa, vem a lição da Galiza: a grande homenaxe, uma «festa rubra, viva e alegre», em Maio de 1987, “um testemunho de solidariedade”, uma lição que culminou, em Maio de 2009, com a inauguração, em Santiago de Compostela, do Parque José Afonso, perto do local onde, em 10 de Maio de 1972, Zeca cantou pela primeira vez em público Grândola Vila Morena.

Por cá, a intemporalidade das suas mensagens clareia-se no interesse das novas gerações de músicos e nas constantes versões das suas cantigas. Na «Discografia Anotada» do autor de Os Filhos da Madrugada, Viriato Teles mostra-nos o «Zeca para além de Zeca», o registo dos intérpretes de Zeca até à actualidade, desde Adriano Correia de Oliveira, que interpretou a Balada da Esperança, em 1961, até Rão Kyao, com os temas Balada de Outono e Menino d’ Oiro, de 2009.

As Voltas de um Andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso, Viriato Teles; Assírio & Alvim, 2009


© Teresa Sá Couto


* Ver toda a informação disponível sobre este livro, e uma entrevista a Viriato Teles, AQUI

*Outros textos meus sobre outros livros de Viriato Teles, AQUI

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O regresso de Albert Cossery

A Antígona acabou de distribuir a sua prenda de Natal. Uma magnífica prenda. A editora divulgou as primeiras páginas do romance inacabado de Albert Cossery, por morte do autor, aos 94 anos, em Paris, em Junho de 2009, no hotel onde viveu mais de sessenta anos. De Albert Cossery, a Antígona tem publicados, e disponíveis: A Casa da Morte Certa, A Violência e o Escárnio, As Cores da Infâmia, Mandriões no Vale Fértil, Mendigos e Altivos, Os Homens Esquecidos de Deus, Uma Ambição no Deserto, Uma Conjura de Saltimbancos e , de Michel Mitrani, Conversas com Albert Cossery.




Uma época de filhos de cães

Mokhtar sentou-se na esplanada de um café de aspecto sórdido, mas cujo rádio difundia uma melodia da cantora mítica que lhe fazia lembrar Malika, a sua mãe, que não podia ouvir este lamento de um amor perdido sem que os olhos se lhe marejassem de lágrimas. A esta hora matinal, para além de um jovem adormecido sobre um banco, como um destroço rejeitado pela noite, o local proporcionava uma calma, sem dúvida precária, mas por agora propícia à reflexão. Evidentemente, não estava nas suas intenções reflectir de novo sobre a perenidade da estupidez humana, nem vituperar os lastimáveis dirigentes deste mundo, pois todos estes indivíduos se encontravam há muito esgotados e não eram merecedores de qualquer outra crítica mais aprofundada. Numa palavra, o que ele desejava de imediato era um recanto tranquilo onde pudesse recordar – antes que perdesse todo o sabor – o incidente burlesco que precipitara o seu despedimento do lugar de professor de uma escola de um bairro popular da cidade costeira, considerada histórica, a que chamam Alexandria. Tudo começara por uma discussão sem motivo aparente com o director do estabelecimento escolar, um homem pleno de ignorância e, ainda por cima, casado com uma mulher feia. Esta dupla particularidade tornava-o detestável e intolerante nas suas relações com as pessoas inteligentes e solteiras. Após algumas insinuações pérfidas acerca da concupiscência ligada ao celibato, este gerador de crianças degeneradas acusara-o de ter feito esquecer aos seus alunos, no espaço de alguns meses, o que eles haviam demorado muitos anos a aprender. Mokhtar, nada surpreendido com este elogio que considerava absolutamente merecido, não pôde resistir à tentação de dar uma estocada definitiva e global na hierarquia, mesmo que esta fosse de medíocre qualidade. Respondeu com um tom de comiseração, como se estivesse a dar os pêsames a um viúvo amargurado, que os seus alunos tinham mesmo assim aprendido uma coisa muito importante para o futuro: que o director desta escola era um burro, e que era preciso substituí-lo por um burro de verdade, certamente mais agradável de contemplar. Para qualquer espírito livre dos preconceitos seculares de sacralização do homem, era evidente que tratar um humano de burro constituía um insulto para o burro. Mas o director, incapaz de assimilar uma doutrina tão audaciosa, pôs-se a gritar que um louco estava a querer degolá-lo, atraindo com os seus berros uma matilha de salvadores benévolos que agarraram Mokhtar e o atiraram, com as imprecações habituais, para fora da escola.

A Mokhtar não desagradou esta expulsão brutal, que lhe conferia um estatuto de dissidente político e de mártir da liberdade de expressão, capaz de suscitar o interesse, para além dos mares, dos intelectuais dos ricos países democráticos. Estes bravos pensadores, adeptos de um humanismo sem fronteiras, tinham a faculdade de tornar célebre a pessoa mais insignificante do planeta, desde que esta tivesse sofrido alguns vexames ou alguns meses de prisão por parte de um governo qualificado, para a circunstância, de ditadura sangrenta. Esta ideia divertia-o como uma enorme brincadeira. Por um momento, entreteve-se com a perspectiva de um exílio dourado em terra estrangeira, solicitado e adulado por todas as cabeças pensantes do hemisfério ocidental. Tratava-se, e ele tinha consciência disso, de uma apoteose longínqua, e mesmo improvável, pela simples razão de que o género de dissidência de que era o genial inventor nada tinha em comum com uma oposição a qualquer governo. A Mokhtar todos os governos eram completamente indiferentes, fossem eles eleitos ou impostos pela força das armas, pois todos provinham do mesmo molde e eram compostos pelos mesmos malfeitores. Era, pois, estúpido querer derrubar um governo, para depois ficar diante de outro pior do que o anterior. E na obrigação de recomeçar indefinidamente esta comédia grotesca. Para Mokhtar, a única maneira de combater um regime político só podia conceber-se no humor e no escárnio, longe de toda a disciplina e das fadigas que qualquer revolução geralmente implica. Na verdade, tratava-se de conseguir uma distracção fora das normas e não uma prova debilitante para a saúde. O seu combate contra a ignomínia reinante não tornava necessário um grupo armado nem mesmo uma sigla que referisse a sua existência. Era um combate solitário, não uma congregação de massas ululantes, mas uma operação prazenteira de salvação da humanidade, sem lhe pedir a opinião e sem esperar uma autorização vinda do céu. Há muito tempo que Mokhtar decidira que o seu papel na vida seria o de dinamitar o pensamento universal e os seus miasmas fétidos que atulhavam há séculos o cérebro fraco dos miseráveis. Esmagadas e fragilizadas, as massas humanas ainda sobreviventes à superfície do Globo foram levadas a acreditar em tudo o que lhes conta uma propaganda que ofende em permanência a verdade. Afigurava-se-lhe com nitidez que o drama da injustiça social só desaparecerá no dia em que os pobres deixarem de crer nos valores eternos da civilização, um palmarés de mentiras deliberadas, programado para os manter para sempre na escravidão. Por exemplo, a honestidade. Os pobres estão convencidos de que a honestidade é a virtude fundamental que lhes vai salvar a alma das chamas do inferno, e esta crença condena-os a uma miséria endémica, enquanto os ricos, cujos antepassados inventaram a palavra, sem jamais terem acreditado nela, continuam a prosperar. É certo que esta análise, aparentemente pueril, da economia capitalista, não satisfará os espíritos sérios, inimigos implacáveis da verdade, porque o seu simplismo impede-os de parecer profundos. Três meses antes, quando se candidatou a este lugar de professor, Mokhtar não ambicionava de maneira nenhuma ser profundo em matéria de ensino. Professor era o emprego ideal para começar a pôr em prática a destruição do discurso pernicioso habitual em todos estes continentes, cuja tradicional impostura é proclamarem-se civilizados. Com efeito, a escola proporcionava-lhe uma ocasião magnífica para influenciar jovens alunos, mais dispostos à subversão do que os adultos anestesiados de longa data pelo vocabulário dominante. A indignação do director deu-lhe a certeza de ter sido bem sucedido, pelo menos em relação a uma parte ínfima da população, mas este magro resultado representava uma carga explosiva, manipulada por três dezenas de adolescentes dotados de uma consciência renovada, e que se preparavam para prodigalizar por todo o lado o seu novo saber. Mokhtar via este bando de alegres missionários crescer e disseminar-se por todos os países e, porque não, além-fronteiras em direcção às tristes cidades do Sul moribundo.

A visão deste futuro mirífico foi bruscamente perturbada pelos latidos de um cão que dava a impressão de ser de uma espécie rara, desconhecida no bairro. Havia nestes latidos uma notável dose de insolência e como que um desafio lançado contra sabe-se lá que raça maldita. Subjugado e seduzido por este desempenho, Mokhtar dispôs-se a procurar o animal com a intenção de o adoptar, caso ele tivesse fugido a um dono autoritário e mal-educado. A ideia de passear com um cão pela trela enchia-o já de júbilo como um ataque subtil ao mito insuportável da supremacia do homem. Pôs-se assim a inspeccionar a esplanada, mas, em vez de um encontro amigável com um membro eminente da raça canina, foi ofuscado por um esplendor de cores cambiantes sob os raios pálidos de um sol de Inverno, bruscamente surgido de entre as nuvens, como que para participar neste surpreendente espectáculo feérico. O responsável por esta intrusão excêntrica da moda, símbolo da modernidade, no cenário imundo da esplanada, era um jovem dos seus vinte anos, de físico atraente e porte aristocrático, sentado a uma mesa à entrada do café, e que exibia uma panóplia vestimentar de grande ousadia na escolha dos tecidos e das cores. Este jovem esteta envergara, para uma visita turística nestas paragens deserdadas, calças de linho branco, camisa de seda vermelha, bem aberta no peito, e casaco preto de caxemira, com um pequeno ramo de jasmim na botoeira. Para completar este traje magnificente e requintado, calçava sapatos de verniz, como os que usam os ministros e os proxenetas quando vão à ópera. Mas as originalidades deste enviado do diabo não se ficavam por aqui: estava a fumar um cigarro de haxixe, cujo fumo parado desenhava uma espécie de auréola sobre a sua cabeça.

Perante esta cena inusitada, Mokhtar aguardou calmamente o que se ia passar a seguir, estranhamente consciente de que este príncipe da elegância, perdido neste lugar, tinha para lhe transmitir uma mensagem da mais alta importância. Dir-se-ia que o portador da mensagem se apercebera desta expectativa e que estava pronto para lhe responder, pois, sem mais delongas, abandonou a sua pose descontraída, endireitou-se na cadeira, ergueu os olhos ao céu, e depois, com a determinação do cantor que entoa a ária que o celebrizou, pôs-se a ladrar com um tom implacável e obstinadamente sarcástico, parecendo assim exprimir a sua raiva para com os habitantes da casa em frente. Passado um momento, parou com os latidos e virou-se para Mokhtar, visivelmente satisfeito com a sua proeza.

Mokhtar aplaudiu discretamente para não acordar o homem adormecido no seu banco, único elemento de realidade tangível que o impedia de ficar alarmado. Sem qualquer dúvida, estes latidos continham um sentido oculto que ele tinha de decifrar o mais rapidamente possível, mas o imitador de cães furiosos não lhe deu tempo para isso ao desferir-lhe a seguinte frase insensata:

- Estava certo de que compreenderias.
- De onde vem essa certeza? – perguntou Mokhtar. – Gostaria muito de conhecer as razões dela.
O jovem pimpão, que se chamava Haydar, levantou-se para se ir sentar a uma mesa junto de Mokhtar e começou a falar com um tom fortemente caloroso, como se pretendesse cativar o seu interlocutor com vista a uma cumplicidade eterna.
- Passava por aqui, guiado apenas pelo acaso, quando te vi sentado, sozinho, neste café piolhoso. Mas, em vez da tristeza e do abatimento do solitário, pairava nos teus lábios um sorriso muito especial, o género de sorriso malicioso que é um desafio à infâmia universal. Sentias-te mais poderoso do que algum monarca jamais foi. Isto levou-me a pensar que tinha obtido a tua compreensão.

Tradução: Luís Leitão
Revisão: Carla da Silva Pereira

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Portalegre recebe pintura de Isabel Botelho

Passagens Secretas é o título da exposição de pintura de Isabel Botelho, na cidade de Portalegre. Depois da exposição Beautiful Unknown, no Palácio Galveias, em Lisboa, em Fevereiro de 2009, a pintora volta a espargir magia com novos trabalhos.
Inaugurada a 28 de Novembro, a exposição surge dividida e, consequentemente, de fulgor ampliado, em duas galerias: Passagens Secretas I, na Galeria do Museu da Tapeçaria de Portalegre, Guy Fino e Passagens Secretas II, na Galeria de S. Sebastião, no Edificio da Câmara Municipal de Portalegre. Para ver até 17 de Janeiro de 2010.

Agradeço à pintora Isabel Botelho o envio das fotografias da inauguração, já que não pude estar presente. Ver os trabalhos da exposição, AQUI, na página de Isabel Botelho.


.Deixo, ainda  a digitalização da minha nota que acompanha oficialmente a divulgação da exposição:


(clicar na imagem para aumentar)

Esplendor infantil de Carla Almeida

Ainda falta muito? é o terceiro e mais recente livro infantil de Carla Maia de Almeida, mais uma marca de um estupendo percurso nas letras para os mais novos, que urge aqui apresentar.
A história deste “capítulo” é simples; a composição – pureza narrativa e ilustrações de Alex Gozlau – é arrebatadora. Primeiro a verosimilhança com a situação narrada, o que possibilita a cumplicidade com os jovens leitores e a partilha intergeracional: conta-se uma viagem de automóvel feita por dois adultos, pai e mãe, com os dois filhos pequenos, um rapaz e uma rapariga. O objectivo é visitar os avós a uma aldeia distante e de ambiência distinta do local onde as crianças habitam.

A imobilidade imposta no banco traseiro da viatura faz com que a viagem seja um tormento para as crianças. Ainda falta muito? é a pergunta que o miúdo mais pequeno coloca constantemente. Será a irmã, um pouco mais velha, a narradora da história da impaciência e a veiculadora da memória guarda que, nos seus tenros anos, já acumulou. Segue-se a narrativa, passos de crescimento, irrupções de júbilo, registos de afectos, projecções de futuro.

«O meu irmão ainda é muito pequeno. Só quer atenção e mimos. Não se lembra da aldeia, nem do cão chamado Roger, nem dos gatos que eram primos. E assim não podemos conversar. Mas depois, Como é que era? Como é que eu podia pensar? Como é que eu conseguia estar a sós com a minha imaginação? Aindaaaaaaaa faaaaaaaalta muuuuuuuto?, diz ele, quase a gritar», lê-se, ao mesmo tempo que se mostra que, afinal, uma viagem longa pode ser emocinante, bastando tão-só o motor veloz da imaginação. As ilustrações, que juntam brilhantemente fotografia e pintura, enchem as páginas de cor e expressividade.

Ainda Falta Muito?, Carla Maia de Almeida (texto) e Alex Gozblau (ilustrações); Editorial Caminho, 2009

Titula-se Não quero usar óculos, é o segundo livro infantil de Carla Maria de Almeida e atesta que o segredo da genialidade está em inventar a simplicidade. Ora vejamos: um miúdo fica a saber que tem de usar óculos. Enquanto os espera, vai discorrendo sobre as formas das armações, pondo em cada hipótese os desejos com que se liga ao mundo. As ilustrações de André Letria objectivam a narrativa textual, e o festim pictórico que corre em páginas inteiras, instigando a criatividade do leitor.

Com efeito, a arte ao serviço das crianças está em trinta e duas páginas de cartolina, envolvidas por uma capa dura, carregam o espanto da arte literário e plástica, que junta palavras e imagens e cor ao serviço no incentivo desenvolvimento, intelectual, emocional e artístico das crianças. Conta-se a breve história, de forma límpida e de fácil identificação ao universo infantil, de um rapaz que vai a um médico «com um nome comprido: O-F-T-A-L-M-O-L-O-G-I-S-T-A», e fica a saber que tem de usar óculos. Enquanto os espera vai imaginando o seu formato: balizas, pois um dia quer ser guarda-redes; à maneira dos piratas, pois há-de ser «um terrível pirata»; guarda-chuvas, para poder andar à Chuva.

Comprovando-se que, quando libertada, a imaginação corre sem limites alimentando-se do próprio voo, o rapaz logo imagina óculos especiais que lhe permitam uma eficaz aproximação da natureza, das árvores, do mar, e de óculos para ver ao longe. Uma alegoria numa lição também para muitos adultos que “precisam de óculos” para poderem ver e, consequentemente, respeitar o meio ambiente, e poderem ver o «longe» do futuro. O rapaz da história também projecta óculos para «entender certas coisas» que lhe dizem não ser para a sua idade.

Preenchendo totalmente as páginas, com cores fortes e contrastantes, dinamizadas, pelo movimento das cerdas do pincel que ora espalham, em lastro, a tinta no fundo, ora se detêm, deixando nos pormenores o mesmo testemunho do processo de criação, André Letria vai construindo uma montra de óculos com narrativas do mundo interior infantil, que muitas vezes não divisamos. Também neste sentido, este é um livro de partilha entre pais e filhos, de revelações e deslumbramentos.

Não quero usar óculos, Carla Maia de Almeida (texto) e André Letria (ilustrações); Editorial Caminho, Lisboa, 2008

O Gato e a Rainha só é o livro de estreia de Carla Maia Almeida, um livro encantado que multiplica encantamentos, destinado a crianças a partir dos 8 anos. Fala de um gato que «Nunca tinha ido à Lua, mas pensava muito no assunto». «O mundo não é como vem nos livros – é muito mais redondo!»: palavras sábias a que se juntam as portentosas ilustrações Júlio Vanzeler, tudo a lembrar-nos que um livro pode ter as coordenadas, os instrumentos e os impulsos para se explorar o mundo.

Depois da casa destruída por um incêndio, o gato Radar é obrigado a recomeçar a vida. Parte à procura de uma nova casa para morar, «que tivesse cheiro, memórias….». Começa aqui a estrada da aprendizagem: há dor em qualquer recomeço porquanto se carrega o que se teve e se perdeu, acrescido do medo do desconhecido e do desnorte dessa nova empreitada. Todavia, a vida é uma «sopa de tudo» e, havendo fome, há que tomá-la. Assim se vê o gato (e os leitores) pelos caminhos do mundo que vinham ter com ele, e pelos quais seguia sem pensar, até encontrar uma encruzilhada com três tabuletas, cada qual indicando um caminho misterioso; cabia-lhe a difícil opção de escolher pela Terra da Água Salgada ou Terra do riso Eterno ou Terra do silêncio Prometido. Na Terra do Riso Eterno só era permitido rir. Auscultando-se, considerou que «Pior do que chorar quando se está triste, só mesmo obrigar-se a rir quando não se tem vontade.». Mostra-se que muitas vezes se escolhem caminhos mais empurrados pela intuição do que ditados pela razão: porque razão o gato escolheu a Terra do Silêncio Profundo? «ele não sabia porquê, mas sabia porque sim. Era o bastante para continuar a andar.».

Andando, encontra a Rainha Só, que deixou de o ser quando cativada pela amizade do novo amigo. No entanto, o gato mostra-nos o valor e a importância de se estar só: «às vezes também precisava de se sentir um Gato Só. Era bom poder miar alto, sem ter de explicar o que estava a dizer. Apenas a miar. Por incrível que parecesse, miar alto podia ser melhor do que comer chocolate em pó às colheradas ou afiar as unhas no sofá preferido dela. E era uma coisa tão fácil de fazer! Com tantas conversas e brincadeiras, quase se tinha esquecido. Decidiu que, a partir dali, haveria um dia DMA (Dia de Miar Alto) sempre que fosse necessário.».

Seres muitos diferentes, – mas, como o gato diz, não teria graça nenhuma se fôssemos todos iguais – a Rainha e o gato decidem partir juntos à procura de nova casa. Ela já pode prescindir das suas chaves pesadas, que carregava ao pescoço, por deter as chaves leves do espírito; abandona a sua «máquina-de-costurar-palavras», que se lhe afigura inútil por não conseguir dar respostas sobre o sonho e a aventura humana, pois sabe que só ela pode encontrar as respostas.

O gato e a Rainha Só, Carla Maria de Almeida; ilustrações de Júlio Vanzeler; Editorial Caminho, Lisboa 2005

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Stefan Zweig, a eterna nostalgia

«O Porvir da Nostalgia – Uma vida de Stefan Zweig» não é uma mera biografia do fecundo escritor austríaco e investigador do mundo. Escrita por Jean-Jacques Lafaye, e galardoada com o Prix Cazes-Brasserie Lipp 1990, a obra é uma narrativa apaixonante, literariamente poderosa, um documento de época construído com os fios do fulgor, da sede da descoberta, da inquietude, dos abismos secretos e da nostalgia de Stefan Zweig.

«O livro é de uma lucidez e de uma actualidade impressionantes. Vale a pena lê-lo e meditá-lo, com os olhos de hoje», escreve Mário Soares no prefácio desta edição portuguesa, numa referência aos valores humanistas e éticos de Stefan Zweig. «O porvir da nostalgia é a morte escolhida, a morte consentida – e a porta do mistério», escreve o biógrafo nesta obra que ilumina os corredores do enigma, aludindo ao suicídio de Zweig, aos 61 anos, em Petrópolis, Brasil, em 1942.
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Por nove capítulos, enformados em 228 páginas, corre a escrita magnetizante, seguindo a ordem cronológica dos factos, crescimento, amadurecimento e queda do biografado. Coloquial e cúmplice, a narrativa faz, logo nas primeiras páginas, com que o leitor se esqueça que está perante uma biografia, para fazer parte do pulsar intenso dos quadros sociais e psicológicos apresentados. A utilização do Discurso Indirecto Livre propicia ao leitor dialogar intimamente com a personalidade de Stefan Zweig, por intermédio do narrador, estratega de toda a magia.

No original, L’Avenir de La Nostalgie - soberanamente traduzido por Clara d’ Ovar para «O Porvir da Nostalgia», como, aliás, é de excelência toda a tradução - , a obra foi escrita em 1989, e é o primeiro livro de Jean-Jacques Lafaye que, entretanto, reuniu uma obra admirável nas áreas da literatura e da música. Antigo Agente Internacional de Amália Rodrigues, é dele o título «Amália, uma voz no mundo», editado em Portugal pela Quetzal. A sua ligação à alma portuguesa valeu-lhe, ainda, a nomeação de comendador da Ordem do Infante D. Henrique, em 2006, pelo então Presidente da República Jorge Sampaio.
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Personalidade singular num texto notável
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Nascido no seio burguês da sociedade vienense, «desde a mais tenra infância, o pequeno Stefan foi habituado a exprimir-se em inglês, francês, italiano e alemão: ele é o príncipe anónimo de uma família europeia», diz-nos o texto, antecipando a paixão do escritor por uma Europa unida, guiando-nos magistralmente pelo percurso singular de Stefan Zweig, homem e obra, imagem e espelho, confundindo-se ambas. «Judeu, quase não tem consciência de o ser, apenas ouve vagamente falar de certos grupos de jovens nacionalistas anti-semitas. Austríaco, nem ele sabe a que ponto o será, de tal modo o seu horizonte intelectual ultrapassa as fronteiras para abraçar a Europa inteira, sua múltipla terra natal.».

Aos 16 anos era já um «genial poeta» e «são as palavras que lhe oferecem a vida que respira». Apenas «foi três vezes à Universidade: a primeira para se matricular, a segunda para pedir o certificado de assiduidade (!!!) e a terceira para uma agradável conversa com os professores.». Lê muito, e cada vez mais, «escreve novos poemas e não hesita em receber amigos às onze da manhã, em mangas de camisa, despenteado, “navegando” entre montes de livros que cobrem o chão como dantes no seu quarto de criança, os olhos cansados: é que em plena noite uma ideia o acordou e o levou para a mesa de trabalho! Uma boémia activa e fecunda, uma sábia desorganização, um longo e lento desregramento da sua antiga disciplina escolar, tudo o que ele esperava!». Aos 23 anos doutorou-se em filosofia com uma tese sobre Taine. Viaja pela Europa, atinge o mundo todo. Traduz poetas estrangeiros, para aprender com eles; é também ensaísta, dramaturgo, novelista, contista, historiador e biógrafo.

Enquanto o espírito se eleva a altos pensamentos, a alma «enterra-se no negrume de tentações incertas»: «Ao longo da sua vida Zweig manterá uma curiosidade um pouco mórbida pelas formas marginais do sentimento e do desejo»; «O sentimento trágico da existência já está no coração da literatura de Zweig: ele quer sempre interpretar a extraordinária tensão dos nervos, a paixão secreta que dirige a vida e os actos. Esta densidade explosiva que se contenta em aflorar exerce sobre a sua alma uma atracção perigosa, no princípio de um século em que, por duas vezes, ele verá a derrocada.».

A vivência da guerra desmorona-lhe o seu mundo. Crítico do nazismo e regimes fascistas, vê na palavra a salvação: «pelo domínio da palavra, tenho de despertar a consciência dos homens transviados por outras fanfarras. Pela escrita, ilustrar o imperativo da criação que não é mais do que conduzir o género humano para mais humanidade! Mostrar como os chefes enganam os povos nos caminhos do ódio, como as gentes ávidas de conquistas se ligam aos profetas da desgraça, como do caos das paixões pode nascer uma ordem superior, de que maneira uma derrota terrestre contém a promessa da vitória espiritual: é a meta que Zweig se impõe quando começa o seu Jeremias, em pleno 1916. É o seu primeiro combate de homem contra a guerra – em plena guerra.».

Em 1942, Zweig é visitado pela vertigem mórbida, termina o romance O jogador de Xadrez, e joga o xeque-mate da sua existência. «Zweig não foi levado ao suicídio apenas pela guerra mundial, o fantasma de Hitler e a perseguição ao povo judeu. Não; é um homem de sessenta anos que põe fim ao erro de toda uma existência ao serviço de um ideal».


O Porvir da Nostalgia – Uma vida de Stefan Zweig, Jean-Jacques Lafaye; editorial Campo das Letras, Porto, Novembro 2007
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© Teresa Sá Couto

domingo, 22 de novembro de 2009

Escalpe de Amadeu Baptista

Cumplicidade da carne, «expressão do desejo», o centro do corpo, «inquietação na procura do corpo», saliva, esperma, «vício absoluto», paixão amorosa, «sortílegos caminhos», a solidão do amor e a luta contra as sombras que acossam o acto primordial da entrega. Nas livrarias, Escalpe, um poema longo de Amadeu Baptista, com imagens da arte de António Ferra e chancela da &etc .




Extracto:

Nos meus e nos teus rins se acumulam
segredos desusados,
o real é um cúmulo de árvores e areais
desoladores,
visões devastadoras do silêncio,
espaços inaudíveis a sitiar-nos os ombros.

Mas nós, sendo sagrados, ardemos tanto
que sopesamos os ritmos da memória e os da terra,
ainda volúveis,
ainda corça e gamo,
ainda mensageiros.

Assim adormecemos.

Assim velo o teu sono com o meu sono,
assim velas o meu sono com o teu sono.

E são os nossos sonhos sonhos lúbricos,
e fluis suavemente pelos meus lábios,
e fluo suavemente pelos teus lábios.
(p.p. 34,35)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Blackpot, Dennis McShade

texto editado no site Orgia Literária em 17.11.09

Blackpot é a criação literária de um pesadelo, a invenção de uma chave, uma libertação. É uma trama na prosa certeira e desconcertantemente eficaz de Dennis McShade, que convoca a morte, conversa com ela, verte o encontro em palavras como dentes a morderem a precariedade da existência, a estreiteza do mundo. Falo de transgressão: a transgressão dos limites que é imanente à arte, e da qual a obra de Dinis Machado é digníssima representante.

É implacável, negro e assombrosamente iluminado, este Blackpot. Carrega um enleado e terrível pacto com a morte, enfrenta-lhe o carácter inexorável para a corrigir e dar voz à vida. É uma novela sobre a noite que implora, sobre a morte que se vê ao espelho à procura de outra forma que o povoe, à procura de outro sonho, à procura de outra voz. Por isso, o espelho onde a personagem Gulliver se mira é a vigília que procura decifrar o labirinto; por isto, entrarmos em Blackpot é entrarmos no «pesadelo», como o descrito por Jorge Luís Borges, uma «sala circular cujas paredes e portas eram de espelho, de modo que quem entrasse nessa sala ficava no centro de um labirinto realmente infinito». E o labirinto espraia-se por 31 capítulos curtos, vertiginosos e cinematográficos, onde as personagens se matam umas às outras e disparar é o verbo auditivo que a prosa silencia de forma terrível: sob o fumo do tabaco (da narrativa) e o assombro inaudito (do leitor), cumprem-se as balas surdas disparadas das armas com silenciador ou da metralhadora assim emudecida: «as balas da metralhadora estilhaçaram objectos e enfiaram-se, surdamente, nas paredes».
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Não há uma personagem central neste Blackpot. Ela será a morte ou a vida, porquanto nomear uma é evidenciar a outra. Há uma dezena de homens, membros do crime organizado, emboscados na sua própria rede, assassinos precisos no disparo, especialistas em ruínas, solitários, expostos ao critério misterioso de «reorganização cíclica» da Organização. Se há conflito no interior do próprio jogo com regras que obscuramente mudam de direcções, o conflito está também nos próprios jogadores enquanto lugares-limite com que se faz a questionação do homem na sua humanidade: no jogo da vida há que matar primeiro, pois «os acontecimentos, às vezes, vão à nossa frente». Também a questão da negação da identidade tem em Blackpot uma forma indeclinável: o nome dos homens é tão-só o posto que têm na engrenagem da Organização, pelo que, depois de mortos, o seus nomes passam a outros.

Mostrando-nos o trabalho dos relógios na sombra, a narrativa mostra-nos que viver é envelhecer, o acumular de males, a doença. Também neste sentido, Blackpot impõe o silêncio da meditação: a vida é dano, o homem joguete, pelo que há que encontrar o life force (de Bernard Shaw), a força vital para se recriar a existência, força que está no exercício da escrita com que se esconjura o desamparo. Na narrativa, desfilam homens marcados, desenganados, de meia-idade, homens que são o que é ninguém e uma campainha sinistra diz-nos que ninguém é o que todos somos.
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Gulliver, que não prescinde de esfregar o corpo e as mãos com álcool, olha para o espelho, sente náuseas, procura a sanita, vomita alguma bílis e sente-se aliviado. Falar para o retrato do pai morto, como fazia há 30 anos, também o alivia; Armador mata há 40 anos. Ajuda a filha a estudar Matemática, tosse e cospe sangue para um lenço, tem dores de cabeça e febre. Leva a filha à escola, beija-a, vê-a desaparecer no fundo do átrio. E sabe que vai morrer, de doença ou com uma bala; Lorenzo só vê sombras, «ardiam-lhe os olhos e chorava devagar», nada que os médicos pudessem fazer. Com os óculos, olha para o calendário da parede, desiste ao tentar ler os títulos dos jornais, lava os olhos e espera; Ornatto tem uma perna a apodrecer, sem cura, só lhe restando os comprimidos para as dores; Condor sabe que o querem matar, passa a mão pelo peito flácido e preocupa-se com o peso excessivo; Legos discorre sobre os seus problemas enquanto pesca, espera que o peixe morda a isca e gosta daquela «mistura de placidez e impaciência». No final, Victor discursa à amizade e «Os candelabros e as jóias cintilaram.». Até quando é Victor o vencedor, inquire-se em cima dum texto que recorda o carácter precário da existência e que a vida sem nós é pensável.

Contra a morte, toda a morte, há ainda e sempre a voz, mostra-nos Dennis McShade neste Blackpot, onde recebemos, também, fortíssimo, o eco da voz de Herberto Helder: «Olha: eu queria saber em que parte / se morre, para ter uma flor e com ela / atravessar vozes leves e ardentes e crimes / sem roupa. Existe nas ilhas um silêncio para / a poeira tremer, e o teu rosto se voltar lentamente cheio / de febre para o lado de uma canção /terrível e fria.» (1)

(1) Herberto Helder, Ofício Cantante, p.247, Assírio & Alvim

Dennis McShade, Blackpot, Assírio e Alvim, 2009
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© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Imperdível

(clicar na imagem para aumentar)

sábado, 14 de novembro de 2009

Vitor Oliveira Jorge com Electri-cidade em Lisboa

Depois da invicta, no passado dia 5 de Novembro, o arqueólogo, professor catedrático, ensaísta e poeta Vitor Oliveira Jorge vem a Lisboa lançar o seu mais recente livro de poesia: Electri-cidade tem a chancela das edições Colibri e será apresentado pelo poeta Casimiro de Brito, no próximo dia 17 de Novembro, pelas 19 horas, na Casa Fernando Pessoa.

Vitor Oliveira Jorge, nascido em Lisboa em 1948, mas radicado na cidade do Porto desde 1975, tem uma vasta obra publicada, tanto no domínio da Arqueologia como no da Poesia; trata-se de um olhar imenso pelos vestígios e enigmas do tempo e interpelação dos mistérios do canto lírico, em deflagração neste novo compêndio poético de 260 páginas.

Electri-cidade será, pois, um título para desvendar com o máximo interesse, porquanto talhado por um autor de diálogo interdisciplinar, que em 2001 foi distinguido com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito pelo conjunto do seu trabalho, outrossim pela sua actividade cívica em prol da defesa do património arqueológico português.


Ler o poema Falas, na página de Vitor Oliveira Jorge

Outro poema, agora do livro Casa das Máquinas:

Àqueles a quem foi cometida a tarefa
De decifrar o enigma do centro das casas,
A aparição no centro, o corpo pleno,
E o olhar:

Parai nesta suspensão, nesta descida do tecto,
Nesta subida do chão: ruído de tábuas no tempo,
Longe: um comboio deve ter atravessado a noite,
Ou o crepúsculo, ou a manhã: tanto faz, foi longe.

Parai neste corpo. Neste centro com lábios, e ombros,
E mãos dispostas de ambos os lados, enquanto
As madeiras estalam, os bichos invisíveis das madeiras
Se alimentam. Mas os lábios, mas o rosto, mas a presença
Impõe-se, como uma imperatriz: no centro, na casa,
Estirada de alto a baixo do texto. E eu aguardo.

Prolongo o enigma das alças, da roupa interior,
Do frémito que a presença enuncia, e no entanto
Não diz. Apenas vem ao centro, desce e sobe, entre
As paredes perenes do cubo, este enigma cinzento
E melancólico. Um comboio atravessa-se ao longe,
Cinde a consciência como um fluxo de sangue,
Como uma linha recta. Mas o corpo nada diz, apresenta-se.

E todo o enigma, a sua extraordinária presença,
Se vai esgueirando de verso para verso, entre os versos,
Entre as sílabas, até se prender na língua e a língua
Correr ao longe para o comboio, à procura de uns lábios,
De alguém que já aqui esteve no passado, e agora se renova

Entre estas quatro paredes, assim de chofre no algodão
Das saias, na cintura das alças, no silêncio da roupa
Interior. Foi há muitos anos, incontáveis anos, tantos
Quantas as pessoas que circularam no comboio, e partiram
Para sempre na calada da noite, ou do crepúsculo, ou da manhã,

E agora aqui regressam, na presença do corpo, na sacralidade
Do centro, na perfeição da simetria, na apresentação obstinada
Do enigma, do supremo enigma de um tu em saias e ligas,
Em mãos depostas, em braços totalmente nus,

Reflectindo o eco longínquo do oferecimento, no modo como
Os ombros se ajustam à aproximação das mãos do verso,
Nessa insuspeita, assustadora harmonia. Cheira este odor
De hortelã-pimenta: são todos os fantasmas da casa que voltam,
Que me rodeiam, amáveis, na tua figura, pedindo tudo e nada.

Bebo um chá quente e contemplo-te, oh aparição perfeita,
Completa, disponível, formidável obra de amor fotográfico.

Um comboio atravessa ao longe o sulco do sangue. Lembras-te?
Fazia uma cruz, uma cruz sobre o território, e essa cruz
Reproduzia-se aqui dentro, do lado de cá da cal, nas paredes
E nos nossos corpos, marcava indelevelmente o centro.

Isso. Exactamente aí.
Quando a mão do poema te atravessava por debaixo nas saias,
E saía pela cabeça, esplendorosa, digna da soberania dos lábios:

Era (é) uma paragem:
Nunca daí saímos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A perdição e a Assírio & Alvim



Pois é. A Assírio & Alvim não se cansa de nos desafiar para os jubilosos caminhos da perdição. No Verão passado foi a Feira do Livro Manuseado, que a editora teve patente na sua livraria da Rua Passos Manuel, nº 67, onde os nossos únicos problemas foram resistir à visita e regressar com um carrego e um sorriso do mesmo quilate.


Agora, no coração do Chiado, na Rua do Carmo, e até 31 de Dezembro, o desafio é o que se segue :
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Livros mais baratos, livros esgotados, livros impossíveis de encontrar, livros de artista, livros de tiragem limitada, e ainda, postais, cartazes e outras surpresas.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Novo livro de Casimiro de Brito

Casimiro de Brito, o poeta que através do «doloroso prazer da escrita» nos oferece, há meio século, a ignescência do barro humano e a celebração dos enigmas do amor, tem novo livro: En la vía del maestro - Un viaje con Laozi (Na via do mestre - Uma viagem com Laozi,) é uma edição bilingue com tradução espanhola de Montserrat Gibert e chancela da prestigiada editora espanhola Olifante. O lançamento da obra está marcado para o próximo dia 11 de Novembro, no Instituto Cervantes de Lisboa (na Rua de Santa Marta, 43-F), às 18.30, com apresentação a cargo do poeta espanhol Ángel Guinda.


Como o título desvela, e Casimiro de Brito aclara no primeiro belíssimo texto de abertura, esta é a foz poética de um rio que teve a sua nascente nas gotas cristalinas do mestre Lao Zi. Uma viagem longínqua, feita de arrebatamentos e transmutações, como o é a de toda a criação artística. Todavia, o que desagua neste En la vía del maestro é a pureza vocabular a dar conta da torrente subterrânea do ser humano, na sua secreta solidão, do carácter inexorável do tempo, da vida matizada de ganhos e perdas, sonhos e desesperanças, da sábia rendição à Natureza, da voz do amor, motor e legitimação da travessia existencial.
Com agradecimentos a Casimiro de Brito que me facultou o acesso a esta novíssima obra, e à qual regressarei com o olhar que merece, transcrevo dois poemas:

O segredo está na combinação
Do barro e do ar; o segredo,
Nos dedos que envolvem a taça a
Casca do ovo o rio onde se acolhe
A penumbra que deixei pelo caminho.
Assim eu possa buscar o monge mudo,
O princípio desconhecido. (p. 34)
***
Adormeço na praia escura
Ar poluído
Nuvens secas: envelheço. Refreia os desejos,
Diz o mestre. Poucos tenho. A laranja
De som dos meus filhos
Amadurece noutras casas, longe da sabedoria
Que não alcancei. A bondade o conhecimento
Perdem-se na bruma das manhãs no pirilampo
Das noites. Devolvo ao mundo
O barro que me sobra
De tanta escultura falhada. O mestre
Não sabe nada. (p.50)


notas: página de Casimiro de Brito ;
o pnt Literatura tem vindo a editar o Livro de Eros de Casimiro de Brito


© Teresa Sá Couto

sábado, 7 de novembro de 2009

A inventiva de Patrícia Portela, em exibição

Há mais de uma década que a encenadora Patrícia Portela nos brinda em palco com explosões multidisciplinares, inventivas, irreverentes, inteligentes e singulares. odília ou a história das musas confusas do cérebro é a primeira peça de teatro infanto-juvenil da autora, estreada no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, em Outubro 2006, no Festival Temps d´Images, com visitas a outros pontos do país. O espectáculo volta a palco, no Teatro Aveirense, a 10 e 11 de Novembro, às 10h30 e às 14h30, inserido no Ciclo Arte e Novas Tecnologias. Ver mais, aqui.

«A solidão medita, e a meditação cria», disse António Feliciano Castilho. Mas donde vêm as ideias que dão origem à criação? Patrícia Portela explica aos mais novos como tudo acontece no silêncio do cérebro, através da história de odília, musa solitária e desempregada e que, cansada de Esperar, resolve Acontecer. Imperdível, o pequeno livro editado pela Editorial Caminho instiga os cérebros de todas as idades a uma viagem aos seus corredores labirínticos, misteriosos e fascinantes. E assim se solta o pensamento que, depois de aprender a Acontecer, nunca mais será o mesmo.

Diz-nos o texto, que o tempo passa sempre, e nós, como o tempo, também passamos, mesmo que disso não tenhamos consciência, mesmo que o nosso pensamento, silenciado, não no-lo diga. «E decidirmos deixar de passar não é nada fácil porque há imensa coisa que tem de se destemporar para se deixar de passar: deixar de crescer, deixar de conhecer, deixar de questionar, deixar de amuar, deixar de teimar, deixar de hesitar, deixar de duvidar, deixar de repetir, deixar de parar, deixar de esperar

E «esperar não é nada fácil, é como passar, como se não se passasse nada, é como uma pausa numa música, um intervalo quando tudo o resto continua, como se nos atrasássemos e acontecêssemos sem nós, como se nos desligássemos. É como dormir. Umas vezes espera-se porque se quer, outras é sem querer, mas mesmo que ninguém fale ou lembre disso, mesmo quando se fazem outras coisas, muitas vezes espera-se.
E esperar é como acontecer. Umas vezes faz pena, outras não, outras nem se dá por isso e só muito mais tarde é que percebemos que esperámos, e quando não se sabe o que se passou entre duas coisas que acontecem pergunta-se: Esperei ou aconteci?», questiona-nos, fecundamente, o texto para nos mostrar que «estamos num tempo com dois tempos, assim como no futebol, no futebol em directo, estamos frente à televisão, e ouvimos GooooooOOOOOOOooooooollLLlllooooOOOOooo…mesmo antes de ver a bola entrar na baliza (…) neste tempo entre dois tempos, as horas param. Só as palavras se mexem.».

Odília, a musa confusa do cérebro, e Penélope esperam, «as duas, frente ao mar». Odília espera ser inspirada (odília, com minúscula, denomina as musas que «em vez de andarem a inspirar procuram constantemente alguém que as inspire» e «quando se cansam de esperar que a inspiração lhes apareça, partem à procura»), e Penélope espera Ulisses.
A partir daqui, é claro o incentivo do texto: munida da coragem da partida, Odília vira costas ao mar e parte, sempre seguida por Penélope que lhe vai «desemaranhar os fios do vestido», as duas «lado a lado, sombra uma da outra, «à procura do labirinto, à procura do fio de Ariana». Mas Odília entra «imediatamente em pânico». Espera-a o labirinto do percurso, que é o que sempre nos espera quando resolvemos seguir em frente: «à sua frente encontrava-se um labirinto infinito de meadas desfeitas, fios brancos espalhados por todas as ruas, todos os cantos e todas as praças do mundo». A persistência de Odília, a «primeira musa emigrante do mundo» leva-a ao encontro do poeta, pois «foram eles que fizeram as musas para que as musas os inspirassem a escrever um Livro que imaginasse deuses que criassem o mundo». E assim se ensina para o poder incomensurável do cérebro.

Repleto de ilustrações da própria autora, o texto corre vertiginoso, parando a brevíssimos espaços e acontecimentos do quotidiano, em soluços de tempo, onde o cérebro Espera antes de Acontecer, já acontecendo. Um texto para se ler, primeiro, de um fôlego, e reler, depois, escutando os momentos da Espera onde se formam as ideias que desenham as acções que temos.

Odília ou a história das musas confusas do cérebro, Patrícia Portela; Editorial Caminho; Lisboa, 2007

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Quem é Peter Maynard?

A PHALA online tem editado o meu texto que serviu de base à apresentação da Trilogia maynardiana, na FNAC do Chiado, a 29 de Junho de 2009, com o título «Peter Maynard – Beretta e consciência»*.


Quem é Peter Maynard, essa personagem que, segundo Matt West, «desfaz mitos com o mesmo escrúpulo com que dispara»? Que personagem é esta, «figura indefinida e fugidia», segundo Dinis Machado, que sabe tudo acerca do leitor, que joga com ele, que o manipula, o agrilhoa num inaudito fascínio, que se dá à perversidade de ajeitar a gravata ao espelho, falar para a cara que vê ao espelho e não revelar essa cara ao leitor, que cata, em vão, qualquer indício da sua aparência física? Peter Maynard é voz, postura, atenção, método, intuição, acção, rigor, ética, sedução, humor, crítica, solidão, sonho e consciência.
(Continuar a ler n' A Phala)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

À espera de Blackpot

Prestes a chegar às livrarias, Blackpot é o original de Dennis McShade (Dinis Machado) que todos esperam. Em pré-publicação, a Orgia Literária editou o capítulo 19, no passado dia 30 de Outubro, um exclusivo que agradeço à Assírio & Alvim e ao José Xavier Ezequiel, grande mentor da edição deste inédito, mas também da reedição da trilogia maynardiana.

Capítulo 19

Ornatto massajou a perna durante alguns minutos e depois foi sentar-se no sofá, em frente da televisão. Ficou a olhar para o ecrã do aparelho desligado.


Subitamente, lembrou-se que ainda não tinha almoçado. Levantou-se, dirigiu-se à cozinha e fritou ovos com bacon. A ideia de Victor andava-lhe na cabeça. Matar Armador. Franziu a testa, pensando em como as coisas se complicavam.
Comeu os ovos com bacon com um certo apetite. Quando acabou, foi aquecer o café do balão e bebeu três chávenas. Deitou-se no sofá e esticou a perna. Ainda acabaria por ser amputado. Fechou os olhos e esfregou as pálpebras.

Seria bom que Gulliver telefonasse. Queria falar com Gulliver por causa da ideia de Victor. Lembrou-se de Armador. De como era um excelente jogador de xadrez. Sabia que ele jogava xadrez muitas vezes com Gulliver. Gulliver também era um bom jogador de xadrez. Ornatto nunca percebera como funcionava o xadrez. Preferia ler Samuel Beckett e revistas de banda desenhada. Mas ultimamente procurava apenas o silêncio. Era assim que passava o tempo.

Levantou-se a coxear um pouco e foi limpar a arma. Deixou-a impecável. Tomou comprimidos para a dor na perna. Sentou-se ao pé da mesa do telefone, à espera da chamada de Gulliver. Não sabia o que pensar da ideia de Victor: matar Armador.

Ficou à espera, olhando fixamente o ecrã do televisor desligado.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Zeca Afonso por Viriato Teles


Acabado de chegar às livrarias. Ver mais aqui
Lançamento no Museu da República e Resistência, no dia 17 de Novembro, às19h
Brevemente, o meu texto crítico
Zeca na literatura infantil: Zeca Afonso - Nome de Liberdade

Saudosa tertúlia

Imagine-se o leitor no centro de uma tertúlia onde estão Amália Rodrigues, Baden Powell, Chico Buarque, Atahualpa Yupanqui, Peter Seeger, Sting, Léo Ferre, Juliette Greco, Marcel Marceau e Mário Viegas. Deixe-se o mero exercício de imaginação, porque pode o leitor experimentá-la, bastando tão só aceitar o convite do estratega do encontro: o jornalista Viriato Teles. E o encontro está marcado para Bocas de Cena, local de achamento também do prazer incomensurável da leitura.

«São dez as entrevistas, estas dez e não quaisquer outras, porque o autor ao seleccioná-las quis dar-lhes um fio de coerência interventiva: aquela que, assumidamente, os entrevistados sempre souberam viver», diz Edite Soeiro no Prefácio. «Como é que ele conseguiu?», questionou Raul Solnado, referindo-se à «natureza inatingível dos entrevistados», numa pergunta de Retórica, pois a genialidade não se explica, comprova-se nas 135 páginas que inscrevem a eternidade.

Verdadeiro mestre de apresentações, Viriato Teles elabora, antecedendo as entrevistas, a descrição das personalidades, define-as biograficamente e expõem-nas no efeito que, presencialmente, lhe provocam . Também no decorrer das entrevistas, para além dos assuntos tratados, o jornalista faz o retrato dos entrevistados, retratos humanos totais, com alegrias e desencantos, projectos e nostalgias, ganhos e perdas. Como o autor já nos habituou, a prosa é quente, reveladora e cúmplice do leitor, como se também este fosse conhecido de Viriato Teles; mais um mistério só possível quando se tem a intuição de um grande escritor. «O homem que agora se senta à minha frente está destinado a vencer a morte. Fala muito e em ritmo acelerado, mas nunca fala por falar. Os olhos não param quietos, mesmo quando se dirige a nós», escreve o jornalista sobre a entrevista a Mário Viegas, feita em Fevereiro de 1992, com o título «A vida em alta velocidade».

Mário Viegas morreria no dia das mentiras, a 1 de Abril de 1996, com 47 anos, «deixando aparvalhados os amigos», deixando-nos a todos uma imensa saudade. Ler esta entrevista é matar um pouco essa saudade, matando o sentimento de tristeza e desamparo que nos ficou com a partida daquele homem intenso e insubmisso.

Se aquela entrevista é a última do livro, a abrir está a do outro nome português: a imperecível Amália Rodrigues. «Quando você quiser conversar e não tiver com quem, venha até cá. Já viu que eu falo muito», disse a diva do nosso Fado a Viriato Teles, na despedida da entrevista feita em 1983, por ocasião do lançamento do disco «Lágrima». Com o título «Humana forma de vida», lá está a Amália que conhecemos e a dar-se a conhecer aos que a desconheciam, porquanto o jornalista regista a forma de estar, os gestos, os esgares, a timidez, as hesitações e a comoção.

Entre os dois portugueses, como num longo abraço instigado por Viriato Teles, surgem os outros entrevistados: Baden Powell, com entrevista feita em Julho de 1982, com o título «O Samba que veio do morro». O intérprete e compositor do Samba que defendeu, a Viriato Teles, ser aquela «uma das músicas mais fortes do mundo, porque o é o resultado de três raças: o africano, o português e o índio brasileiro», deixa uma grande lição: um compositor «tem de aprender a compor aquilo que está dentro do coração e isso é válido para a vida inteira»; Chico Buarque, em dois andamentos, com entrevistas de 1988 e 1997, reunidas sob o título «A arte por via das dúvidas». Explora-se o compositor-cantor, mas também o escritor dos livros Estorvo e Benjamim; titulada «O silêncio da Terra», surge a entrevista ao esquivo Atahualpa Yupanqui, «velho payador argentino», autor de mais de 1200 canções, que percorreu o mundo apenas com a sua voz e a guitarra; Peter Seeger, o que é «muito mais do que um mito da história da folk song», «uma das vozes que mais lucidamente se ergueram contra a massificação cultural imposta pelo poder político e económico dos Estados Unidos, aquele que optou pelo «lado esquerdo da vida», forma de vida transferida para o título da entrevista: «No lado esquerdo da América»; Sting, no cenário dos ficcionados amores proibidos de Romeu e Julieta, com o desejo real expresso na entrevista titulada «A importância de ser feliz»; «Porta-voz de um mundo perdido», segundo o próprio, Léo Ferre desvela-se em oito magníficas páginas da conversa com o título «A Formiga que canta»; Juliette Greco, a senhora «de olhos grandes, profundos, penetrantes. E as mãos que em palco, criam um espaço próprio dentro do cenário» e dão expressividade à entrevista precisamente com o título «Mãos de Fala»; finalmente, o ícone que falta, e sempre com muita pressa: Marcel Marceau, o mimo, o «palhaço triste e sábio», o que junta a mímica ao silêncio para comunicar o grito e o inefável.

Na introdução, Viriato Teles informa que «estas conversas foram maioritariamente publicadas nos semanários Se7e e O Jornal, na década de 80», com excepção da entrevista com Chico Buarque, publicada na revista Ler. Refere, ainda, que a cumplicidade de muitos amigos «foi o melhor dos incentivos» para a reunião dos textos do Bocas de Cena. Mas Viriato sabe também que o leitor já estava no incentivo primeiro do jornalista, pois foi o leitor que lhe pediu esta dedicação que ele, como sempre, tão distintamente cumpriu!

Bocas de Cena, Viriato Teles, Campo das Letras, 2003

© Teresa Sá Couto

nota: este texto foi publicado a 29 de Março de 2008

M.S.Lourenço e "O Caminho dos Pisões"

É hoje o lançamento do O Caminho dos Pisões, obra reunida de M.S.Lourenço. E que fulgurante está a Assírio &Alvim na abertura do ano editorial.


Gostaria de ir ao teu encontro,
Procurar-te na vila, entre as pessoas,
Ou debaixo da magnólia do jardim.
A cascata corre & tu sentas-te a ouvir
Ao acaso as folhas que o vento espalha.
No teu rosto já só vejo ar frio da serra,
As sombras dos que te abrem o caminho
Para que a cor do dia entre no jardim.
Faz com que a angústia nas palavras que usamos
Seja um bom presságio à nossa volta.
Tudo o que é divino é transitório,
Mas não o é em vão.

Nada Brahma, p.48 (livro incluído no O Caminho dos Pisões)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Poesia reunida de António Osório

Já está nas livrarias o majestoso A Luz Fraterna, que reúne a poesia de António Osório dos últimos 44 anos. São 653 páginas imperdíveis, num belo livro de capa dura, que a Assírio & Alvim dá agora à estampa. Ver aqui.
Além de prefaciado por Eugénio Lisboa, o compêndio compreende também uma entrevista de Ana Marques Gastão - que «revela o homem, na aproximação ao mistério, de uma escrita avessa à retórica» - feita a António Osório em 24 de Março de 2001.

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Deixo 4 textos:

DESPOJOS

Amarras que se lançam ao fluxo das águas,
despojos, limos espraiados,
cabedelos que chegam e partem com o mar,
surgem os versos.

E tudo de roldão, angústia,
vida e morte, oculto movimento de plantas,
o equinócio do amor, que torna a noite igual ao dia,
a confiança, a luta, a respiração dos homens. (p.23)

***
ENTRAR contigo
dentro das searas
e depois
trigo
sairmos da terra. (p.139)

***
VEJO teus olhos,
queria me convertesses
nesta perseverança de cego
esmoler, à porta do Metro,
dedilhando o seu livro
de bilros, e que não explica
nem vislumbra
a pertinácia irredutível da vida. (p. 143)

***
As Lavadoras

Quase todas são negras, fugidas de Angola. Mulheres novas e raparigas, com fatos de oleado e botas de borracha. De dia e de noite, por turnos, lavam os carros na garagem. Contemplo-as: na sua cor e no seu exílio. Entregam-se àquele duro trabalho, e eu admiro o contacto feminino com a água, o apuro, um rigor efectivo – os carros ficam luminosos como crianças saídas do banho. Ou como versos perfeitamente limpos de toda a dor. (p. 420)

Dom Quixote na aventura do futuro

El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, escrito por Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), está disponível em Portugal numa versão para crianças. Um álbum espantoso, ilustrado com aguarelas expressivas, numa edição de luxo da editora Campo das Letras que reitera a sua aposta no público do futuro.

No II Capítulo do texto original, pode ler-se: Dichosa edad y siglo dichoso aquel adonde saldrán a luz las famosas hazañas mías, dignas de entallarse en bronces, esculpirse en mármoles y pintarse en tablas, para memoria en lo futuro.!. (Feliz idade e feliz século aquele onde sairão à luz as minhas famosas façanhas, dignas de se entalharem em bronzes, esculpidas em mármores e pintadas em telas para a memória do futuro). Estamos certos que cabe às crianças, agentes do futuro, arrolar as aventuras peregrinas desse cavaleiro louco, porém douto, que ainda encanta leitores de todas as idades.

O livro é da autoria de Rosa Navarro Durán e traduzido para Língua portuguesa por António Rebordão Navarro. Adaptar um clássico para crianças é, seguramente, um desafio metodológico e uma missão maior. Há que depurar o texto base, encontrar-lhe a simetria e a forma para enlear na trama o jovem leitor. Há que adequar o assunto, forma e estilo fazendo com que o universo proposto e os problemas identificados surjam com fácil apreensão. O livro passa com distinção todos os requisitos. O narrador afasta-se do adulto para se aproximar do mundo infantil. O tipo de letra “gorda” desenha a narrativa que vibra nos momentos de avanço – com poucas descrições, os chamados momentos de pausa – da narração. As frases são curtas e simples. Assim se cria a vertigem pelas aventuras fantásticas, de trapalhadas e desditas das famosas personagens, e se enfeitiçam os novos leitores para a literatura que também deleita os adultos.

As Ilustração coloridas e expressivas, repletas de movimento e sentimentos, delicadeza e divertimento, de Francesc Rovira, acompanham e dão forma ao texto e ao encantamento do leitor, ajudam a compreender o conflito e a configurar as personagens, física e psicologicamente. São legendadas com uma frase que compreende uma ideia forte do texto, e actuam como fonte de imaginação para a criança que, a partir do visual, cria o sentido sobre o que é contado, para depois o reestruturar à luz do seu mundo interior. Este é o processo da criação e do crescimento intelectual.

Os ensinamentos da loucura

As aventuras do maluco cavaleiro andante Dom Quixote, que enlouqueceu por ter lido demasiados romances de cavalaria, chegam às crianças indeléveis nos seus valores morais. Figura que reverbera a grandeza humana pela assunção das suas fragilidades – um ser defeituoso pela loucura, e de frágil compleição física – o cavaleiro da triste figura propícia aos miúdos grandes ensinamentos morais. O humanista Erasmo escreveu em «O Elogio da Loucura» que a melhor idade do ser humano é quando se é criança pois tem-se o «encanto da loucura», e questiona: «o que seria dos homens sem o impulso da estultícia?». Também, António lobo Antunes, ao reflectir sobre a loucura do homem, disse: «no fundo o que é enlouquecer? é sair de uma determinada norma, não é? É preciso ter muita coragem para se ser realmente louco.» Desprovidas da razão tantas vezes castradora, e íntimas da loucura, as crianças facilmente se reconhecem nos ideais do anti-herói, pois para elas, as atitudes tidas por absurdas e irreais, não o são. Mais: usam-nas para crescer saudavelmente.

A loucura de Dom Quixote é um ímpeto vital que o atira para a aventura que lhe dá sentido à existência. A aventura do protagonista com condutas fora do seu tempo é uma manifesta fuga a esse tempo e, por isso, encerra a crítica de Cervantes a uma época insonsa e sem encanto. No contraponto, que fortalece o sentido da crítica, está Sancho Pança “alheado” das utopias, com os pés assentes na realidade, mas, talvez por isso, toldado pelo medo: «O medo que tens, Sancho, não te deixa ver nem ouvir nada – disse dom Quixote. E depois de explicar ao seu escudeiro como o medo faz ver as coisas que não existem, disse-lhe que o esperasse, pois ia entrar na batalha. Esporeando o rocinante, desceu como um raio a encosta e lançou-se contra os exército» (p.63).

Aprende-se que a vitalidade da loucura contamina até os “incontamináveis” –chegam a dizer que Sancho parece estar tão louco quanto Dom Quixote. Sancho aprende o benefício da loucura: «Sancho seguia-o, embora o pavor aumentasse á medida que se aproximavam do estrondo. Iam avançando passo a passo e, de repente, viram o que causava o espantoso barulho: eram seis maços, com que se comprimem os linhos, aproveitando a força da água! O riso de Sancho foi tão grande que se esqueceu de todas as suas penas.» (p. 73).

A loucura de Dom Quixote ensina que deve lutar-se pelos ideais sendo claro, também, que a ilusão permite a voluptuosidade da alma: todas as desditas eram interpretadas como novas formas de encantamento, embora Sancho lhe tentasse mostrar que ele não estava encantado, ele estava convencido que sim, «e isso bastava». «Aceitava todas as calamidades como acontecimentos da vida de cavaleiro andante». Consolou Sancho dizendo que «todas essas borrascas anunciavam que depressa sairia o sol e que estavam já prestes a chegar o bom tempo, os reinos e as riquezas.»(p.67)

A loucura permite, ainda, criarem-se laços de amizade: entre Quixote e Sancho desponta uma amizade enternecedora testemunhada ao longo da narrativa, como por exemplo quando Sancho pediu a Dom Quixote um ordenado e foi servido pela resposta veemente do amo: «que se não queria ir com ele, encontraria outro escudeiro mais obediente e decidido. Quando Sancho ouviu a firme determinação do seu senhor prescindir dos seus serviços, caíram-lhe as asas do coração. Então, submisso e enternecido, disse-lhe: - de novo, senhor, eu me ofereço a servi-lo tão fiel e legalmente, tão bem e melhor que quantos escudeiros serviram cavaleiros andantes nos passados e presentes tempos. Senhor e escudeiro abraçaram-se afectuosamente.».

Erasmo, na obra já citada, defendeu que «há tanta variedade e tanta obscuridade nas coisas humanas que nada se pode elucidar» e que «toda a vida dos mortais não passa de uma comédia, na qual todos procedem conforme a máscara que usam, todos representam o seu papel, até que o contra-regra os mande sair de cena».
Dentro de cena, e a adquirir instrumentos de robustez psíquica, estarão os jovens leitores deste novo livro de 202 páginas e quase um quilo, feito para eles, num acto mágico dos autores. Cremos que o «sabio encantador» do futuro que se deixará tocar pelas aventuras peregrinas de D.Quijote – de que falou Cervantes – respeita aos jovens leitores que zelarão pela imortalidade desta narrativa considerada a obra mais significativa da cultura espanhola e um clássico da literatura universal.


Dom Quixote Contado às Crianças, Rosa Navarro Durán e Francesc Rovira; Editora Campo das Letras, Porto, Dezembro de 2005

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© Teresa Sá Cou
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(a um jovem avô)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Myra: o encontro com a inquietação

«Myra» de Maria Velho da Costa acaba de ser galardoado com o Prémio Pen Clube de ficção. Um justíssimo galardão para o portentoso romance que há dias recebeu também o Prémio Máxima de literatura. Segue-se o meu texto editado no site Orgia Literária.
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Este mundo é íngreme. Como tal está cheio de criaturas íngremes. Nosso mister é achatá-lo. É com estas palavras de Luís de Sousa Costa que abre o novo romance Myra de Maria Velho da Costa, e são elas que incitam esta minha leitura.
Achatar o mundo remete-nos para o compromisso que a obra literária estabelece com o acto da leitura: forma de pensar o caos e de inquirição dos abismos humanos, lugar de encontro onde o desconhecido se possa fazer conhecido, permitindo ao leitor confrontar-se com ele mesmo e pensar os modos pelos quais o tormento faz parte da existência. Um compromisso que tem no romance Myra a mais elevada celebração.

Programa narrativo de procura, Myra traz-nos a história de uma adolescente imigrante russa, cujo nome faz título do romance, «proibida de existir», «roubada de poder ser», em fuga dos que a querem seviciar, e da sua amizade com Rambo, um cão de luta, também ele estropiado como ela, ele, o prolongamento dela, a sua alma gémea. Myra foge «contra o vento», por uma praia deserta, em direcção ao mar, com frio e com medo, foge da espécie de bordel da Caparica onde a agrilhoam, foge para Sul, como que em busca do sonho que deixou no Leste. Foge sob um «céu baixo e muito escuro», sob a chuva que lhe bate na cara «como chorar sem gritos».

E Myra nunca mais pára de fugir, colando-se o leitor à sua dor, também ele inquieto, na deambulação, na deslocação física que dá visibilidade à sua angústia, metáfora da deslocação existencial. Impressivas, como se trabalhadas com lâminas de faca, as oito pinturas de Ilda David’, incluídas no interior do livro, constituem mais um caderno para desassossego do leitor. Na capa, também de Ilda David’, o arrebatamento negro e cinza de um laço indestrutível.
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Se o assombro meteorológico, do início da narrativa, impele Myra à anulação – se ela entrasse no mar, «se corresse por ali adentro ninguém daria por ela nunca mais, nem no país dali, nem em nenhum outro» – ela procura, todavia, um barracão que a proteja e é lá que encontra Rambo, maltratado depois de uma luta, com pêlo a espirrar água e sangue. O reconhecimento é imediato: «o sangue puxa sangue», tinham sido feitos um para o outro. É assim que o plano narrativo encontra o carácter e dimensão trágicos de dois seres extraviados, e explora-o, enquanto seres enleados em regras predeterminadas e consabidas, pelas 221 páginas de inquietação do leitor.
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Myra, sem direitos de plena cidadania – motivo da identidade como problema –, e Rambo, sem direitos de escolha, surgem-nos como duas formas de pensar o caos. Ela sempre com medo: «Myra não tem remorsos nem culpa. Tem medo, porque os fantasmas assombram quando querem.». Rambo, sempre vigil, «enlaçado à mão dela pela trela amante», com os sentidos nela, ladra à beira do precipício «onde ela parece siderada, farta de tentar, a tentação», e puxa-a. Na deriva, ele vai alertando-a: «tem cuidado, olha a ilusão», «Não te fies do céu. (…) Atém-te à sombra, mesmo escassa, enquanto a tiveres agarrada aos pés».
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Sem direito a uma identidade, ambos vão mudando de nome consoante os locais e «os outros humanos» que vão conhecendo. Os dois, ou como no reforço dado pelo texto, «ambos os dois», sempre na orla: na orla do mar, na orla da serra, na orla do arvoredo, na orla das sombras, na orla da existência. Concorre, ainda, para o carácter trágico da visão humana, o motivo da procura sempre minada que não só adia o encontro como reforça o desencontro, mostrando que o encontro sempre foi impossível. Mesmo o tempo da felicidade redonda e perfeita, aparentemente paradoxal, que Myra passa ao lado de Gabriel Rolando (um jovem rico mas também marcado com a tragédia), tem na narrativa o tempo do onírico a acentuar o fracasso de um projecto humano, como se fosse necessário conhecer a felicidade para se saber que não se tem direito a ela.
«Os milagres são como o vento, e o vento sopra onde quer», diz-nos o texto. Quando o vento lhes nega o encontro com o Sul e os agrilhoa no percurso para o Norte, intui-se a tragédia: Myra e Rambo suicidam-se, decidindo ir juntos para o «reino dos céus».

Construído em torno da noção de voz, este romance da autora de Missa In Albis evidencia, também, o carácter dialogal de todo o discurso humano. Myra fala para o cão e pensa para o cão , o cão responde-lhe e aquiesce aos seus pensamentos. Ela não quer ouvir vozes, porque quer seguir em frente, mas não pára de as ouvir. São as vozes das raízes, vindas de longe, murmúrios do mundo que o homem escuta dentro de si e que nunca consegue calar. Myra ouve a voz da família, e benze-se “à russa” no encalço de uma força metafísica, que lhe dá, não conforto, mas ansiedade. Myra é, pois, o lugar onde repercutem as várias vozes do mundo e são elas que dão ao romance uma rima interna fortíssima.
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Narrativa sobre a noite humana e a luz da amizade que existe nessa noite, Myra faz-nos reflectir sobre as forças agitadas que estão sob a superfície, que o homem é incapaz de conter. Programa de procura, Myra é inegavelmente um lugar de encontro com a inquietação e, por isso, com a melhor literatura.

este texto foi editado em 19.02.09 no site Orgia Literária

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Prémio Leya para João Paulo Borges Coelho

O Olho de Hertzog é o título do romance do escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho, vencedor do prémio Leya 2009. O título estará disponível em Março, com a chancela da Caminho, que tem publicadas sete obras do escritor: As Duas Sombras do Rio, As Visitas do Dr. Valdez, Índicos Indícios I. Setentrião, Índicos Indícios II. Meridião, Crónica da Rua 513.2 , Campo de Trânsito e Hinyambaan.
Trago para a ordem do dia, o texto que elaborei sobre o magnífico Campo de Trânsito, livro do qual, incompreensivelmente, pouco se falou.
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Cega-nos a rotina a tal ponto que só quando agitamos freneticamente os braços como duas ventoinhas na esperança vã de recuperar o equilíbrio perdido à beira do precipício nos apercebemos de que o caminho por onde seguíamos não vai dar a parte alguma.
Isto diz-nos João Paulo Borges Coelho no surpreendente Campo de Trânsito, livro do ano passado e do qual, incompreensivelmente, pouco se falou. São doze capítulos como doze pancadas na modorra dos nossos dias, que nos acordam para todas as interrogações existenciais:

- será a vida um permanente campo de trânsito onde gastamos o tempo a desenvolver estratégias de sobrevivência com que iludimos o quotidiano? É esse um lugar que escolhemos ou é ele que nos escolhe, títeres existenciais? Como se sai de uma «interminável e pestilenta espiral»? O que somos além de cansaço depois de tanto caminho percorrido em vão?

Nascido no Porto, mas naturalizado moçambicano, João Paulo Borges Coelho é um dos grandes nomes da Literatura de Expressão Portuguesa. Depois de «Crónica da Rua 513.2 », título anterior e também editado pela Editorial Caminho, o historiador e escritor traz-nos em «Campo de Trânsito» uma alegoria da condição existencial através da personagem J. Mungau - que pode ser qualquer um de nós -, no chão de Moçambique - como pode ser em qualquer chão onde se deixa o sangue, sendo o chão uma metáfora da caminhada.

J. Mungau, homem urbano, é acordado numa noite na sua casa, com pancadas ritmadas na porta que o arrancam ao torpor de uma ressaca. É feito prisioneiro por um agente de nome Bexigoso, levado para uma cela, e depois por um percurso de pó argiloso, espesso e vermelho, como sangue, até desembocar num Campo de Trânsito onde fica a aguardar transferência para um lugar definitivo.

Os três espaços são as bases de uma urdidura original com fortíssima densidade psicológica. Arrancado ao seu lugar, J Mungau deixa de ter nome, e passa a ser um número, prisioneiro 15.6., uma perda de identidade que indicia o caminho da procura de uma nova. Questionando-se sobre as razões da sua prisão, as quais nunca chega a saber, e esperando que o equívoco seja desfeito – como tantos equívocos da nossa vida nunca são desfeitos – o prisioneiro, todavia, vai esquecendo-se dessa interrogação, como quem se resigna às circunstâncias. Também não chegará a um lugar definitivo, o que demonstra que o único definitivo da vida é a morte.Lugar de confluência de pessoas de vidas fragmentadas – que é preciso aglutinar, «cada fragmento uma folha de papel», milhares de páginas dentro de pastas que o Director procura organizar (as páginas e as vidas) –, o presente do Campo de Trânsito conta também com as tensões de outros dois campos: o Campo Antigo e o Campo Novo, o passado e o futuro.

Nessa teia de tempos, sem se encaixar em nenhum, Mungau aprende o poder de alguns objectos – nomeadamente da faca que passa a deter e que vai ser um instrumento do destino –, perscruta as relações que o cercam, observa as diversas estratégias de sobrevivência. Para isso, o texto dá-nos uma galeria portentosa de personagens em interacção, com que se constrói o caos existencial: o Professor do Campo e a estranha Mulher do Professor – uma hortelã que vive no seu retalho de horta fustigando o chão com uma mão de dois dedos, uma tenaz, enquanto o marido divulga o conhecimento entre os prisioneiros –, os prisioneiros, os guardas, os feirantes que vão ao Campo uma vez por mês, o Chefe da Aldeia e a filha casadoira - a Desengonçada Garça -, o misterioso Vendedor de Chá.

No trapézio do destino

O agente Bexigoso acompanha Mungau durante todo o tempo de detenção no Campo de Trânsito. Ele representa a sombra onde se tropeça, a metáfora dos “Bexigosos” que nos barram o caminho. Arrogando-se actor do seu destino, e apesar de todos os equívocos que ele acha não serem da sua responsabilidade, Mungau tenta iludir os limites que o aprisionam e, no horizonte infinito da imaginação, convoca uma plateia para a qual representará com humildade e dignidade, para que ela se condoa, para que ela, cúmplice, seja uma companhia amiga, um conforto. E sonha, ainda que num sonho contaminado pela dureza da realidade:

(...)aos poucos chama novamente o palco e fecha os olhos para que se apaguem as luzes da plateia. A cela tem agora um tecto muito alto. Lá em cima, um trapezista evolui ousadamente agarrado a um baloiço. Risca o ar em curvas largas, subindo quase até ao tecto e voltando a descer. Subitamente, quando acha ter já ganho o impulso suficiente, larga o baloiço, volteia no espaço, estica os braços e finca as mãos num baloiço seguinte até então oscilando vazio como se não tivesse propósito algum, na verdade tendo o propósito precioso de estar ali para que ele possa agarrá-lo e se salvar. Sempre que tal acontece sobe um murmúrio ansioso e a audiência explode numa nervosa salva de palmas. Admiração e alívio é o que significam aquelas palmas.

Durante um tempo o trapezista executa as suas temerárias evoluções, ganhando balanço para largar o primeiro baloiço, confiante de que, pendendo à espera dele, estará o segundo. Até que de uma das vezes resolve olhar para cima e o seu olhar cruza-se com as pupilas brancas do Bexigoso que, na plataforma mais elevada, segura as cordas do segundo baloiço debatendo-se na dúvida se o envia ou não. Dessa troca de olhares vem ao trapezista a certeza de que haverá uma vez em que o maldito não o fará. De que vai tropeçar no ar, agitando as mãos no desespero de encontrar qualquer coisa a que se agarrar. E irá caindo, caindo, enquanto cresce um rumor de aflitas e desencontradas vozes na audiência.Acorda quando embate no solo com violência. É noite.

Campo de Trânsito, João Paulo Borges Coelho; Editorial Caminho, Lisboa, 2007

© Teresa Sá Couto