sábado, 12 de dezembro de 2009
O legado de um andarilho
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
O regresso de Albert Cossery
Tradução: Luís Leitão
Revisão: Carla da Silva Pereira
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Portalegre recebe pintura de Isabel Botelho
Agradeço à pintora Isabel Botelho o envio das fotografias da inauguração, já que não pude estar presente. Ver os trabalhos da exposição, AQUI, na página de Isabel Botelho.

Esplendor infantil de Carla Almeida
Ainda falta muito? é o terceiro e mais recente livro infantil de Carla Maia de Almeida, mais uma marca de um estupendo percurso nas letras para os mais novos, que urge aqui apresentar.A imobilidade imposta no banco traseiro da viatura faz com que a viagem seja um tormento para as crianças. Ainda falta muito? é a pergunta que o miúdo mais pequeno coloca constantemente. Será a irmã, um pouco mais velha, a narradora da história da impaciência e a veiculadora da memória guarda que, nos seus tenros anos, já acumulou. Segue-se a narrativa, passos de crescimento, irrupções de júbilo, registos de afectos, projecções de futuro.
«O meu irmão ainda é muito pequeno. Só quer atenção e mimos. Não se lembra da aldeia, nem do cão chamado Roger, nem dos gatos que eram primos. E assim não podemos conversar. Mas depois, Como é que era? Como é que eu podia pensar? Como é que eu conseguia estar a sós com a minha imaginação? Aindaaaaaaaa faaaaaaaalta muuuuuuuto?, diz ele, quase a gritar», lê-se, ao mesmo tempo que se mostra que, afinal, uma viagem longa pode ser emocinante, bastando tão-só o motor veloz da imaginação. As ilustrações, que juntam brilhantemente fotografia e pintura, enchem as páginas de cor e expressividade.
Titula-se Não quero usar óculos, é o segundo livro infantil de Carla Maria de Almeida e atesta que o segredo da genialidade está em inventar a simplicidade. Ora vejamos: um miúdo fica a saber que tem de usar óculos. Enquanto os espera, vai discorrendo sobre as formas das armações, pondo em cada hipótese os desejos com que se liga ao mundo. As ilustrações de André Letria objectivam a narrativa textual, e o festim pictórico que corre em páginas inteiras, instigando a criatividade do leitor.Com efeito, a arte ao serviço das crianças está em trinta e duas páginas de cartolina, envolvidas por uma capa dura, carregam o espanto da arte literário e plástica, que junta palavras e imagens e cor ao serviço no incentivo desenvolvimento, intelectual, emocional e artístico das crianças. Conta-se a breve história, de forma límpida e de fácil identificação ao universo infantil, de um rapaz que vai a um médico «com um nome comprido: O-F-T-A-L-M-O-L-O-G-I-S-T-A», e fica a saber que tem de usar óculos. Enquanto os espera vai imaginando o seu formato: balizas, pois um dia quer ser guarda-redes; à maneira dos piratas, pois há-de ser «um terrível pirata»; guarda-chuvas, para poder andar à Chuva.
Comprovando-se que, quando libertada, a imaginação corre sem limites alimentando-se do próprio voo, o rapaz logo imagina óculos especiais que lhe permitam uma eficaz aproximação da natureza, das árvores, do mar, e de óculos para ver ao longe. Uma alegoria numa lição também para muitos adultos que “precisam de óculos” para poderem ver e, consequentemente, respeitar o meio ambiente, e poderem ver o «longe» do futuro. O rapaz da história também projecta óculos para «entender certas coisas» que lhe dizem não ser para a sua idade.
Preenchendo totalmente as páginas, com cores fortes e contrastantes, dinamizadas, pelo movimento das cerdas do pincel que ora espalham, em lastro, a tinta no fundo, ora se detêm, deixando nos pormenores o mesmo testemunho do processo de criação, André Letria vai construindo uma montra de óculos com narrativas do mundo interior infantil, que muitas vezes não divisamos. Também neste sentido, este é um livro de partilha entre pais e filhos, de revelações e deslumbramentos.
O Gato e a Rainha só é o livro de estreia de Carla Maia Almeida, um livro encantado que multiplica encantamentos, destinado a crianças a partir dos 8 anos. Fala de um gato que «Nunca tinha ido à Lua, mas pensava muito no assunto». «O mundo não é como vem nos livros – é muito mais redondo!»: palavras sábias a que se juntam as portentosas ilustrações Júlio Vanzeler, tudo a lembrar-nos que um livro pode ter as coordenadas, os instrumentos e os impulsos para se explorar o mundo.Depois da casa destruída por um incêndio, o gato Radar é obrigado a recomeçar a vida. Parte à procura de uma nova casa para morar, «que tivesse cheiro, memórias….». Começa aqui a estrada da aprendizagem: há dor em qualquer recomeço porquanto se carrega o que se teve e se perdeu, acrescido do medo do desconhecido e do desnorte dessa nova empreitada. Todavia, a vida é uma «sopa de tudo» e, havendo fome, há que tomá-la. Assim se vê o gato (e os leitores) pelos caminhos do mundo que vinham ter com ele, e pelos quais seguia sem pensar, até encontrar uma encruzilhada com três tabuletas, cada qual indicando um caminho misterioso; cabia-lhe a difícil opção de escolher pela Terra da Água Salgada ou Terra do riso Eterno ou Terra do silêncio Prometido. Na Terra do Riso Eterno só era permitido rir. Auscultando-se, considerou que «Pior do que chorar quando se está triste, só mesmo obrigar-se a rir quando não se tem vontade.». Mostra-se que muitas vezes se escolhem caminhos mais empurrados pela intuição do que ditados pela razão: porque razão o gato escolheu a Terra do Silêncio Profundo? «ele não sabia porquê, mas sabia porque sim. Era o bastante para continuar a andar.».
Seres muitos diferentes, – mas, como o gato diz, não teria graça nenhuma se fôssemos todos iguais – a Rainha e o gato decidem partir juntos à procura de nova casa. Ela já pode prescindir das suas chaves pesadas, que carregava ao pescoço, por deter as chaves leves do espírito; abandona a sua «máquina-de-costurar-palavras», que se lhe afigura inútil por não conseguir dar respostas sobre o sonho e a aventura humana, pois sabe que só ela pode encontrar as respostas.
O gato e a Rainha Só, Carla Maria de Almeida; ilustrações de Júlio Vanzeler; Editorial Caminho, Lisboa 2005
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Stefan Zweig, a eterna nostalgia
«O Porvir da Nostalgia – Uma vida de Stefan Zweig» não é uma mera biografia do fecundo escritor austríaco e investigador do mundo. Escrita por Jean-Jacques Lafaye, e galardoada com o Prix Cazes-Brasserie Lipp 1990, a obra é uma narrativa apaixonante, literariamente poderosa, um documento de época construído com os fios do fulgor, da sede da descoberta, da inquietude, dos abismos secretos e da nostalgia de Stefan Zweig.No original, L’Avenir de La Nostalgie - soberanamente traduzido por Clara d’ Ovar para «O Porvir da Nostalgia», como, aliás, é de excelência toda a tradução - , a obra foi escrita em 1989, e é o primeiro livro de Jean-Jacques Lafaye que, entretanto, reuniu uma obra admirável nas áreas da literatura e da música. Antigo Agente Internacional de Amália Rodrigues, é dele o título «Amália, uma voz no mundo», editado em Portugal pela Quetzal. A sua ligação à alma portuguesa valeu-lhe, ainda, a nomeação de comendador da Ordem do Infante D. Henrique, em 2006, pelo então Presidente da República Jorge Sampaio.
Aos 16 anos era já um «genial poeta» e «são as palavras que lhe oferecem a vida que respira». Apenas «foi três vezes à Universidade: a primeira para se matricular, a segunda para pedir o certificado de assiduidade (!!!) e a terceira para uma agradável conversa com os professores.». Lê muito, e cada vez mais, «escreve novos poemas e não hesita em receber amigos às onze da manhã, em mangas de camisa, despenteado, “navegando” entre montes de livros que cobrem o chão como dantes no seu quarto de criança, os olhos cansados: é que em plena noite uma ideia o acordou e o levou para a mesa de trabalho! Uma boémia activa e fecunda, uma sábia desorganização, um longo e lento desregramento da sua antiga disciplina escolar, tudo o que ele esperava!». Aos 23 anos doutorou-se em filosofia com uma tese sobre Taine. Viaja pela Europa, atinge o mundo todo. Traduz poetas estrangeiros, para aprender com eles; é também ensaísta, dramaturgo, novelista, contista, historiador e biógrafo.
Enquanto o espírito se eleva a altos pensamentos, a alma «enterra-se no negrume de tentações incertas»: «Ao longo da sua vida Zweig manterá uma curiosidade um pouco mórbida pelas formas marginais do sentimento e do desejo»; «O sentimento trágico da existência já está no coração da literatura de Zweig: ele quer sempre interpretar a extraordinária tensão dos nervos, a paixão secreta que dirige a vida e os actos. Esta densidade explosiva que se contenta em aflorar exerce sobre a sua alma uma atracção perigosa, no princípio de um século em que, por duas vezes, ele verá a derrocada.».
A vivência da guerra desmorona-lhe o seu mundo. Crítico do nazismo e regimes fascistas, vê na palavra a salvação: «pelo domínio da palavra, tenho de despertar a consciência dos homens transviados por outras fanfarras. Pela escrita, ilustrar o imperativo da criação que não é mais do que conduzir o género humano para mais humanidade! Mostrar como os chefes enganam os povos nos caminhos do ódio, como as gentes ávidas de conquistas se ligam aos profetas da desgraça, como do caos das paixões pode nascer uma ordem superior, de que maneira uma derrota terrestre contém a promessa da vitória espiritual: é a meta que Zweig se impõe quando começa o seu Jeremias, em pleno 1916. É o seu primeiro combate de homem contra a guerra – em plena guerra.».
Em 1942, Zweig é visitado pela vertigem mórbida, termina o romance O jogador de Xadrez, e joga o xeque-mate da sua existência. «Zweig não foi levado ao suicídio apenas pela guerra mundial, o fantasma de Hitler e a perseguição ao povo judeu. Não; é um homem de sessenta anos que põe fim ao erro de toda uma existência ao serviço de um ideal».
O Porvir da Nostalgia – Uma vida de Stefan Zweig, Jean-Jacques Lafaye; editorial Campo das Letras, Porto, Novembro 2007
domingo, 22 de novembro de 2009
Escalpe de Amadeu Baptista
Extracto:
Nos meus e nos teus rins se acumulam
segredos desusados,
o real é um cúmulo de árvores e areais
desoladores,
visões devastadoras do silêncio,
espaços inaudíveis a sitiar-nos os ombros.
Mas nós, sendo sagrados, ardemos tanto
que sopesamos os ritmos da memória e os da terra,
ainda volúveis,
ainda corça e gamo,
ainda mensageiros.
Assim adormecemos.
Assim velo o teu sono com o meu sono,
assim velas o meu sono com o teu sono.
E são os nossos sonhos sonhos lúbricos,
e fluis suavemente pelos meus lábios,
e fluo suavemente pelos teus lábios. (p.p. 34,35)
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Blackpot, Dennis McShade
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(1) Herberto Helder, Ofício Cantante, p.247, Assírio & Alvim
Dennis McShade, Blackpot, Assírio e Alvim, 2009
.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
sábado, 14 de novembro de 2009
Vitor Oliveira Jorge com Electri-cidade em Lisboa
Depois da invicta, no passado dia 5 de Novembro, o arqueólogo, professor catedrático, ensaísta e poeta Vitor Oliveira Jorge vem a Lisboa lançar o seu mais recente livro de poesia: Electri-cidade tem a chancela das edições Colibri e será apresentado pelo poeta Casimiro de Brito, no próximo dia 17 de Novembro, pelas 19 horas, na Casa Fernando Pessoa. Vitor Oliveira Jorge, nascido em Lisboa em 1948, mas radicado na cidade do Porto desde 1975, tem uma vasta obra publicada, tanto no domínio da Arqueologia como no da Poesia; trata-se de um olhar imenso pelos vestígios e enigmas do tempo e interpelação dos mistérios do canto lírico, em deflagração neste novo compêndio poético de 260 páginas.
Electri-cidade será, pois, um título para desvendar com o máximo interesse, porquanto talhado por um autor de diálogo interdisciplinar, que em 2001 foi distinguido com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito pelo conjunto do seu trabalho, outrossim pela sua actividade cívica em prol da defesa do património arqueológico português.
Ler o poema Falas, na página de Vitor Oliveira Jorge
Outro poema, agora do livro Casa das Máquinas:
Àqueles a quem foi cometida a tarefa
De decifrar o enigma do centro das casas,
A aparição no centro, o corpo pleno,
E o olhar:
Parai nesta suspensão, nesta descida do tecto,
Nesta subida do chão: ruído de tábuas no tempo,
Longe: um comboio deve ter atravessado a noite,
Ou o crepúsculo, ou a manhã: tanto faz, foi longe.
Parai neste corpo. Neste centro com lábios, e ombros,
E mãos dispostas de ambos os lados, enquanto
As madeiras estalam, os bichos invisíveis das madeiras
Se alimentam. Mas os lábios, mas o rosto, mas a presença
Impõe-se, como uma imperatriz: no centro, na casa,
Estirada de alto a baixo do texto. E eu aguardo.
Prolongo o enigma das alças, da roupa interior,
Do frémito que a presença enuncia, e no entanto
Não diz. Apenas vem ao centro, desce e sobe, entre
As paredes perenes do cubo, este enigma cinzento
E melancólico. Um comboio atravessa-se ao longe,
Cinde a consciência como um fluxo de sangue,
Como uma linha recta. Mas o corpo nada diz, apresenta-se.
E todo o enigma, a sua extraordinária presença,
Se vai esgueirando de verso para verso, entre os versos,
Entre as sílabas, até se prender na língua e a língua
Correr ao longe para o comboio, à procura de uns lábios,
De alguém que já aqui esteve no passado, e agora se renova
Entre estas quatro paredes, assim de chofre no algodão
Das saias, na cintura das alças, no silêncio da roupa
Interior. Foi há muitos anos, incontáveis anos, tantos
Quantas as pessoas que circularam no comboio, e partiram
Para sempre na calada da noite, ou do crepúsculo, ou da manhã,
E agora aqui regressam, na presença do corpo, na sacralidade
Do centro, na perfeição da simetria, na apresentação obstinada
Do enigma, do supremo enigma de um tu em saias e ligas,
Em mãos depostas, em braços totalmente nus,
Reflectindo o eco longínquo do oferecimento, no modo como
Os ombros se ajustam à aproximação das mãos do verso,
Nessa insuspeita, assustadora harmonia. Cheira este odor
De hortelã-pimenta: são todos os fantasmas da casa que voltam,
Que me rodeiam, amáveis, na tua figura, pedindo tudo e nada.
Bebo um chá quente e contemplo-te, oh aparição perfeita,
Completa, disponível, formidável obra de amor fotográfico.
Um comboio atravessa ao longe o sulco do sangue. Lembras-te?
Fazia uma cruz, uma cruz sobre o território, e essa cruz
Reproduzia-se aqui dentro, do lado de cá da cal, nas paredes
E nos nossos corpos, marcava indelevelmente o centro.
Isso. Exactamente aí.
Quando a mão do poema te atravessava por debaixo nas saias,
E saía pela cabeça, esplendorosa, digna da soberania dos lábios:
Era (é) uma paragem:
Nunca daí saímos.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
A perdição e a Assírio & Alvim

terça-feira, 10 de novembro de 2009
Novo livro de Casimiro de Brito

Como o título desvela, e Casimiro de Brito aclara no primeiro belíssimo texto de abertura, esta é a foz poética de um rio que teve a sua nascente nas gotas cristalinas do mestre Lao Zi. Uma viagem longínqua, feita de arrebatamentos e transmutações, como o é a de toda a criação artística. Todavia, o que desagua neste En la vía del maestro é a pureza vocabular a dar conta da torrente subterrânea do ser humano, na sua secreta solidão, do carácter inexorável do tempo, da vida matizada de ganhos e perdas, sonhos e desesperanças, da sábia rendição à Natureza, da voz do amor, motor e legitimação da travessia existencial.
Com agradecimentos a Casimiro de Brito que me facultou o acesso a esta novíssima obra, e à qual regressarei com o olhar que merece, transcrevo dois poemas:
Do barro e do ar; o segredo,
Nos dedos que envolvem a taça a
Casca do ovo o rio onde se acolhe
A penumbra que deixei pelo caminho.
Assim eu possa buscar o monge mudo,
O princípio desconhecido. (p. 34)
Adormeço na praia escura
Ar poluído
Nuvens secas: envelheço. Refreia os desejos,
Diz o mestre. Poucos tenho. A laranja
De som dos meus filhos
Amadurece noutras casas, longe da sabedoria
Que não alcancei. A bondade o conhecimento
Perdem-se na bruma das manhãs no pirilampo
Das noites. Devolvo ao mundo
O barro que me sobra
De tanta escultura falhada. O mestre
Não sabe nada. (p.50)
notas: página de Casimiro de Brito ;
o pnt Literatura tem vindo a editar o Livro de Eros de Casimiro de Brito
© Teresa Sá Couto
sábado, 7 de novembro de 2009
A inventiva de Patrícia Portela, em exibição
Há mais de uma década que a encenadora Patrícia Portela nos brinda em palco com explosões multidisciplinares, inventivas, irreverentes, inteligentes e singulares. odília ou a história das musas confusas do cérebro é a primeira peça de teatro infanto-juvenil da autora, estreada no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, em Outubro 2006, no Festival Temps d´Images, com visitas a outros pontos do país. O espectáculo volta a palco, no Teatro Aveirense, a 10 e 11 de Novembro, às 10h30 e às 14h30, inserido no Ciclo Arte e Novas Tecnologias. Ver mais, aqui.E «esperar não é nada fácil, é como passar, como se não se passasse nada, é como uma pausa numa música, um intervalo quando tudo o resto continua, como se nos atrasássemos e acontecêssemos sem nós, como se nos desligássemos. É como dormir. Umas vezes espera-se porque se quer, outras é sem querer, mas mesmo que ninguém fale ou lembre disso, mesmo quando se fazem outras coisas, muitas vezes espera-se.
Odília, a musa confusa do cérebro, e Penélope esperam, «as duas, frente ao mar». Odília espera ser inspirada (odília, com minúscula, denomina as musas que «em vez de andarem a inspirar procuram constantemente alguém que as inspire» e «quando se cansam de esperar que a inspiração lhes apareça, partem à procura»), e Penélope espera Ulisses.
Repleto de ilustrações da própria autora, o texto corre vertiginoso, parando a brevíssimos espaços e acontecimentos do quotidiano, em soluços de tempo, onde o cérebro Espera antes de Acontecer, já acontecendo. Um texto para se ler, primeiro, de um fôlego, e reler, depois, escutando os momentos da Espera onde se formam as ideias que desenham as acções que temos.
Odília ou a história das musas confusas do cérebro, Patrícia Portela; Editorial Caminho; Lisboa, 2007
© Teresa Sá Couto
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Quem é Peter Maynard?
Quem é Peter Maynard, essa personagem que, segundo Matt West, «desfaz mitos com o mesmo escrúpulo com que dispara»? Que personagem é esta, «figura indefinida e fugidia», segundo Dinis Machado, que sabe tudo acerca do leitor, que joga com ele, que o manipula, o agrilhoa num inaudito fascínio, que se dá à perversidade de ajeitar a gravata ao espelho, falar para a cara que vê ao espelho e não revelar essa cara ao leitor, que cata, em vão, qualquer indício da sua aparência física? Peter Maynard é voz, postura, atenção, método, intuição, acção, rigor, ética, sedução, humor, crítica, solidão, sonho e consciência.
(Continuar a ler n' A Phala)
terça-feira, 3 de novembro de 2009
À espera de Blackpot
Prestes a chegar às livrarias, Blackpot é o original de Dennis McShade (Dinis Machado) que todos esperam. Em pré-publicação, a Orgia Literária editou o capítulo 19, no passado dia 30 de Outubro, um exclusivo que agradeço à Assírio & Alvim e ao José Xavier Ezequiel, grande mentor da edição deste inédito, mas também da reedição da trilogia maynardiana.Capítulo 19
Ornatto massajou a perna durante alguns minutos e depois foi sentar-se no sofá, em frente da televisão. Ficou a olhar para o ecrã do aparelho desligado.
Subitamente, lembrou-se que ainda não tinha almoçado. Levantou-se, dirigiu-se à cozinha e fritou ovos com bacon. A ideia de Victor andava-lhe na cabeça. Matar Armador. Franziu a testa, pensando em como as coisas se complicavam.
Comeu os ovos com bacon com um certo apetite. Quando acabou, foi aquecer o café do balão e bebeu três chávenas. Deitou-se no sofá e esticou a perna. Ainda acabaria por ser amputado. Fechou os olhos e esfregou as pálpebras.
Seria bom que Gulliver telefonasse. Queria falar com Gulliver por causa da ideia de Victor. Lembrou-se de Armador. De como era um excelente jogador de xadrez. Sabia que ele jogava xadrez muitas vezes com Gulliver. Gulliver também era um bom jogador de xadrez. Ornatto nunca percebera como funcionava o xadrez. Preferia ler Samuel Beckett e revistas de banda desenhada. Mas ultimamente procurava apenas o silêncio. Era assim que passava o tempo.
Levantou-se a coxear um pouco e foi limpar a arma. Deixou-a impecável. Tomou comprimidos para a dor na perna. Sentou-se ao pé da mesa do telefone, à espera da chamada de Gulliver. Não sabia o que pensar da ideia de Victor: matar Armador.
Ficou à espera, olhando fixamente o ecrã do televisor desligado.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Zeca Afonso por Viriato Teles

Saudosa tertúlia
Imagine-se o leitor no centro de uma tertúlia onde estão Amália Rodrigues, Baden Powell, Chico Buarque, Atahualpa Yupanqui, Peter Seeger, Sting, Léo Ferre, Juliette Greco, Marcel Marceau e Mário Viegas. Deixe-se o mero exercício de imaginação, porque pode o leitor experimentá-la, bastando tão só aceitar o convite do estratega do encontro: o jornalista Viriato Teles. E o encontro está marcado para Bocas de Cena, local de achamento também do prazer incomensurável da leitura.Se aquela entrevista é a última do livro, a abrir está a do outro nome português: a imperecível Amália Rodrigues. «Quando você quiser conversar e não tiver com quem, venha até cá. Já viu que eu falo muito», disse a diva do nosso Fado a Viriato Teles, na despedida da entrevista feita em 1983, por ocasião do lançamento do disco «Lágrima». Com o título «Humana forma de vida», lá está a Amália que conhecemos e a dar-se a conhecer aos que a desconheciam, porquanto o jornalista regista a forma de estar, os gestos, os esgares, a timidez, as hesitações e a comoção.
M.S.Lourenço e "O Caminho dos Pisões"
É hoje o lançamento do O Caminho dos Pisões, obra reunida de M.S.Lourenço. E que fulgurante está a Assírio &Alvim na abertura do ano editorial.Gostaria de ir ao teu encontro,
Procurar-te na vila, entre as pessoas,
Ou debaixo da magnólia do jardim.
A cascata corre & tu sentas-te a ouvir
Ao acaso as folhas que o vento espalha.
No teu rosto já só vejo ar frio da serra,
As sombras dos que te abrem o caminho
Para que a cor do dia entre no jardim.
Faz com que a angústia nas palavras que usamos
Seja um bom presságio à nossa volta.
Tudo o que é divino é transitório,
Mas não o é em vão.
Nada Brahma, p.48 (livro incluído no O Caminho dos Pisões)
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Poesia reunida de António Osório
Já está nas livrarias o majestoso A Luz Fraterna, que reúne a poesia de António Osório dos últimos 44 anos. São 653 páginas imperdíveis, num belo livro de capa dura, que a Assírio & Alvim dá agora à estampa. Ver aqui. .
Deixo 4 textos:
DESPOJOS
Amarras que se lançam ao fluxo das águas,
despojos, limos espraiados,
cabedelos que chegam e partem com o mar,
surgem os versos.
E tudo de roldão, angústia,
vida e morte, oculto movimento de plantas,
o equinócio do amor, que torna a noite igual ao dia,
a confiança, a luta, a respiração dos homens. (p.23)
***
ENTRAR contigo
dentro das searas
e depois
trigo
sairmos da terra. (p.139)
***
VEJO teus olhos,
queria me convertesses
nesta perseverança de cego
esmoler, à porta do Metro,
dedilhando o seu livro
de bilros, e que não explica
nem vislumbra
a pertinácia irredutível da vida. (p. 143)
***
As Lavadoras
Quase todas são negras, fugidas de Angola. Mulheres novas e raparigas, com fatos de oleado e botas de borracha. De dia e de noite, por turnos, lavam os carros na garagem. Contemplo-as: na sua cor e no seu exílio. Entregam-se àquele duro trabalho, e eu admiro o contacto feminino com a água, o apuro, um rigor efectivo – os carros ficam luminosos como crianças saídas do banho. Ou como versos perfeitamente limpos de toda a dor. (p. 420)
Dom Quixote na aventura do futuro
El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, escrito por Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), está disponível em Portugal numa versão para crianças. Um álbum espantoso, ilustrado com aguarelas expressivas, numa edição de luxo da editora Campo das Letras que reitera a sua aposta no público do futuro.
© Teresa Sá Couto
(a um jovem avô)
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Myra: o encontro com a inquietação
Este mundo é íngreme. Como tal está cheio de criaturas íngremes. Nosso mister é achatá-lo. É com estas palavras de Luís de Sousa Costa que abre o novo romance Myra de Maria Velho da Costa, e são elas que incitam esta minha leitura.Construído em torno da noção de voz, este romance da autora de Missa In Albis evidencia, também, o carácter dialogal de todo o discurso humano. Myra fala para o cão e pensa para o cão , o cão responde-lhe e aquiesce aos seus pensamentos. Ela não quer ouvir vozes, porque quer seguir em frente, mas não pára de as ouvir. São as vozes das raízes, vindas de longe, murmúrios do mundo que o homem escuta dentro de si e que nunca consegue calar. Myra ouve a voz da família, e benze-se “à russa” no encalço de uma força metafísica, que lhe dá, não conforto, mas ansiedade. Myra é, pois, o lugar onde repercutem as várias vozes do mundo e são elas que dão ao romance uma rima interna fortíssima.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Prémio Leya para João Paulo Borges Coelho
Cega-nos a rotina a tal ponto que só quando agitamos freneticamente os braços como duas ventoinhas na esperança vã de recuperar o equilíbrio perdido à beira do precipício nos apercebemos de que o caminho por onde seguíamos não vai dar a parte alguma. - será a vida um permanente campo de trânsito onde gastamos o tempo a desenvolver estratégias de sobrevivência com que iludimos o quotidiano? É esse um lugar que escolhemos ou é ele que nos escolhe, títeres existenciais? Como se sai de uma «interminável e pestilenta espiral»? O que somos além de cansaço depois de tanto caminho percorrido em vão?
Nascido no Porto, mas naturalizado moçambicano, João Paulo Borges Coelho é um dos grandes nomes da Literatura de Expressão Portuguesa. Depois de «Crónica da Rua 513.2 », título anterior e também editado pela Editorial Caminho, o historiador e escritor traz-nos em «Campo de Trânsito» uma alegoria da condição existencial através da personagem J. Mungau - que pode ser qualquer um de nós -, no chão de Moçambique - como pode ser em qualquer chão onde se deixa o sangue, sendo o chão uma metáfora da caminhada.
Nessa teia de tempos, sem se encaixar em nenhum, Mungau aprende o poder de alguns objectos – nomeadamente da faca que passa a deter e que vai ser um instrumento do destino –, perscruta as relações que o cercam, observa as diversas estratégias de sobrevivência. Para isso, o texto dá-nos uma galeria portentosa de personagens em interacção, com que se constrói o caos existencial: o Professor do Campo e a estranha Mulher do Professor – uma hortelã que vive no seu retalho de horta fustigando o chão com uma mão de dois dedos, uma tenaz, enquanto o marido divulga o conhecimento entre os prisioneiros –, os prisioneiros, os guardas, os feirantes que vão ao Campo uma vez por mês, o Chefe da Aldeia e a filha casadoira - a Desengonçada Garça -, o misterioso Vendedor de Chá.






