terça-feira, 19 de janeiro de 2010

De Eugénio de Andrade para as crianças


No dia de aniversário de Eugénio de Andrade (19 de Janeiro de 1923 - 13 de Junho de 2005) não vos trago a sua poesia, porquanto já a abordei, há precisamente um ano, AQUI; detenho-me na História da Égua Branca, uma narrativa do poeta beirão para os mais pequenos, num tesouro para quem queremos que cresça com as rédeas bem firmes da vida, com alegria e robustez intelectual. «Eu seria outro poeta se, aos cinco ou seis anos, tivesse deparado com as cintilações dessas sílabas», escreveu. Nesta história, o poeta dá aos mais novos o brilho mágico e sedutor da leitura que diverte e ensina.

Ilustrada magistralmente por Joana Quental, a breve narrativa tem a cadência da oralidade, o júbilo das peripécias, a pureza da linguagem. Conta a história de uma bela égua branca que é disputada por três irmãos que têm de provar merecê-la. No final, uma lição que acompanha o ser humano durante toda a sua vida: um tesouro não pode pertencer a que não o merecer.

Porque a magia sempre se multiplica, a obra está  incluída na lista de livros do Plano Nacional de Leitura. A mágica égua branca, animal duplamente intuitivo, na narrativa e na cumplicidade urdida com o leitor, tem muitas gerações para encantar.

Lição sobre o bem e o mal, os comportamentos e as escolhas que se fazem, a história de Eugénio de Andrade surpreende pelo seu vigor e carácter pedagógico tecidos numa mensagem translúcida, como, aliás, devem ser as mensagens basilares a partir donde se edifica o ser humano. A Égua Branca é o animal com características humanas e o centro de todo o ensinamento. Curioso é, também, que na galeria de personagens masculinas, a égua de cor pura é a essência ou a força feminina que está na origem de tudo, um ser genesíaco para a génese do crescimento psicossocial das crianças.

As ilustrações de Joana Quental enchem as páginas de cor e dinamismo. Com formas arredondadas, as figuras envolvem quem as contempla, guiando-o numa experiência única. A disposição das diversas figuras nas composições lançam o desafio aos mais novos para que construam a sua própria história e com elas interajam, consoante as suas percepções, o seu mundo.

Um, dois, três, e assim se faz magia. O número três faz parte do nosso imaginário colectivo e é ele que marca a cadência da «História da Égua Branca»: o velho Cristóvão tinha três filhos e não sabia a qual deixar a magnífica e afamada Égua Branca. Pede conselho ao amigo Boticário, um poeta, que o aconselha a testar os três rapazes, dando-lhes, a cada um, um tempo com o animal, daí originando-se os três episódios; foi dado ao primeiro filho, o António, o prazo de três semanas para devolver a Égua.

Os irmãos representam três dos pecados capitais, mas não pecados com sentido religioso: etimologicamente, peccare significa errar no objectivo, dar passo em falso, tropeçar, enganar-se, ser deficiente ou ser reduzido. Por isso, devem combater-se os pecados, para se moldar o carácter, para se ser alguém melhor, para se ser reconhecido, estimado e, consequentemente, realizado. E os rapazes, mostrando deficiências de carácter, erram o objectivo de ter a égua branca, além de serem castigados pela ladina égua humanizada:

- António, o filho mais velho, mostra a Vaidade e a presunção ao ver na Égua Branca o chamariz para impressionar as raparigas, pavoneando-se com ela pela vila «para que as moças se derretessem ou se matassem por ele». Um dia, quando passeava no bosque com uma rapariga que se deixou deslumbrar pelo portentoso animal, a Égua, farta de estar presa a um eucalipto e de lhe comer as folhas, ficou com soluços. Encavacado, o rapaz espetou-lhe um alfinete no traseiro para que ela parasse e a égua, relinchando, «alçou o rabo e borrifou de alto a baixo os dois namorados, exactamente com o que estás a pensar», e galopou para casa.

- Joaquim, o do meio, revela a Soberba e a ambição, outrossim a vaidade e a arrogância. Pensando nos proveitos monetários que a Égua lhe traria, resolve exibi-la nas feiras. Indignada, a Égua relinchou. Resolve, então, ensiná-la a chicote. «Mas a mansidão também tem limites – é mesmo da sabedoria das nações que os mansos não entram no Reino dos Céus», e o animal devolve-lhe uma parelha de coices, bem direccionada aos queixos do rapaz.

- João, o mais novo, deixa escapar a Ira e a insensatez: dominado pela cólera, espanca até à morte o burro do moleiro que tentou subir para cima da égua, «malhou, malhou, até o deixar bom para estrume.». O moleiro, alertado pelos zurros lancinantes do seu animal, corre em seu auxílio e, encontrando-o morto, desfaz-se em lágrimas. Estava encontrado o dono para a Égua Branca: o pesaroso moleiro. A Égua Branca escolhia o dono que a merecia e, desprezando o rapaz, segue a sua vida sem olhar para trás.
Estava encontrada a moral da história e uma lição de vida.


História da Égua Branca, texto de Eugénio de Andrade, ilustrações de Joana Quental; Editorial Campo das Letras, 10ª edição, Porto 2007

© Teresa Sá Couto

domingo, 17 de janeiro de 2010

O esplendor de Luísa Freire

O tempo é de celebração. Luísa Freire está agora ainda mais perto de nós. A sua poesia clara, feita de palavras «redondas», «coloridas» e «suculentas» tocadas pelo vento e esmeriladas na água do tempo, surge em 335 páginas da antologia O Tempo de Perfil; com a exposição de pintura da autora, a Assírio & Alvim dá-nos dois testemunhos do esplendor de Luísa Freire.

A antologia abarca poesia de 1980 a 2005, compreende 11 títulos inéditos e 5 já publicados, sendo estes: Verde-Nunca, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985; Searas de Tempo, Digo Tu e Memórias da Cal, reunidos em Ciclo da Cal, Porto, Campo das Letras, 2003; Imagens Acidentais (juntamente com Imagens Orientais), Lisboa, Assírio & Alvim, 2003.

Vê como a boca é triste
quando sorri a distância;

quando o inverno das asas
já atravessa os espaços e
cava na terra a sombra de uma
ausência.

Prova difícil é crermos no azul.

In O Tempo de Perfil, p.186


Nomear Luísa Freire é também chamarmos o seu trabalho de apresentação e tradução dos dois volumes de O Japão no Feminino: Tanka – séculos IX a XI e Haiku – séculos XVII a XX, editados pela Assírio & Alvim em 2007 e que estão disponíveis no mercado. É esta também uma poesia mágica, porquanto desagua na língua portuguesa pela tradução que só poderia ser de uma poeta.

Pergunto se o vento
irá abrir algum trilho
na erva do meu jardim
para que alguém possa vir
ainda hoje visitar-me.

in Tanka, p.51

**
Como uma mulher
que desmaia, o lótus branco
caiu por inteiro.

in Haiku, p.97

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Milton, William Blake

 (texto publicado no sítio Orgia Literária, em 11.01. 2010)

«Foi o menos contemporâneo dos homens» e «é um dos homens mais estranhos da literatura», disse Jorge Luís Borges sobre William Blake. Gravador, pintor, poeta visionário, William Blake (1757-1827) urdiu na chapa de gravação o fogo da sua irascibilidade, a sua inspiração tumultuosa, o humanismo apocalíptico assente numa complexa mitologia pessoal a dar conta da iniquidade e expiação humanas. Em Milton, recentíssimo título da Antígona, Blake invoca e recria John Milton (1608-1674), o «Despertador», o bardo de  O Paraíso Perdido, para mostrar que a regeneração humana se faz pela imaginação.

Longo poema épico, Milton chega-nos numa edição bilingue, com 51 ilustrações a cores, e insere-se no projecto de edições de William Blake iniciado pela Antígona, em 1994, com a primeira edição de Cantigas da Inocência e da Experiência, ao que se seguiram Quatro Visões Memoráveis, Sete Livros Iluminados, Poemas do Manuscrito Pickering e Uma Ilha na Lua, sempre com tradução, introdução e notas de excelência de Manuel Portela. Porque se impõe, assinale-se ainda a beleza gráfica de todos os livros, pelo que William Blake está em Portugal com a devida magnificência.

William Blake é um «realista da imaginação», escreveu W. B. Yeats aludindo à presença do visível no autor de Milton; uma espécie de olho interior ou, como diz Manuel Portela, na Introdução, o «olho do vórtice a que os seus textos procuram chegar», pois, segundo Blake, a imaginação é «o mundo real e eterno do qual mesmo este vegetal universo não passa de débil sombra». Sobre a transfiguração visionária, Manuel Portela refere que a forma de «espreitar o infinito que a mente abre entre a orbe do olho e a orbe do céu» parece situar Blake «entre o realismo visionário» e «a fantasmagoria surrealista», aproximando-o dum «cinema de visões». Pela imaginação, Blake expande o espaço até ao infinito e, num «Instante: uma Pulsação da Artéria», cria um universo livre da falsa aparência material, dito, afinal, desta forma clara: «O Céu é uma Tenda imortal (…) / E cada Espaço que um Homem avista em redor é a sua morada, / De pé no seu próprio telhado, ou no seu jardim num monte /De vinte e cinco cúbitos de altura, tal espaço é o seu Universo». (p.157)

No Prefácio, Blake invoca Shakespeare e Milton, «ambos diminuídos pela doença & infecção geral» por uma «classe de Homens cujo único prazer consiste em Destruir», defende que não são precisos os «Modelos Gregos nem Romanos se com justeza & verdade seguirmos a Imaginação, esse Mundo de Eternidade» e conclui com «Oxalá que todo o povo do Senhor fosse Profeta.». Para que se cumpra a sua profecia de que na «Nova Era» tudo será corrigido, há que instigar nos homens a forja criadora: «Erguei-vos, Ó Jovens da Nova Era!, e empregai as vossas cabeças contra os Mercenários ignorantes! (…) Pintores! Convoco-vos! Escultores! Arquitectos! Não aceiteis que os Ineptos em voga tolham as vossas forças com o preço que estão dispostos a pagar por obras desprezíveis ou através dos elogios publicitários que delas fazem».(p.29)

A «Salvação Eterna» estará no canto do «Homem Antigo», e o exemplo no percurso de Milton, que sacrifica a imortalidade ao descer de novo à Terra para, no mundo dos mortais, combater as forças opositoras da arte e do espírito humano. Em cometa, Milton entra no «Ovo Mundano», pelo Sul, pelos fogos de Satanás, em direcção a Norte, a Adão, percurso da regeneração humana:

Para me banhar nas Águas da Vida; e lavar o Não Humano / Venho em Auto-aniquilação & em grandeza de Inspiração / Livrar-me da Demonstração Racional pela Fé do Salvador / Livrar-me dos trapos corrompidos da Memória pela Inspiração / Expulsar Bacon, Locke & Newton do manto de Albion / Despir-lhe os trajos andrajosos, & vesti-lo de Imaginação / Expulsar da Poesia tudo o que não for Inspiração /Para que não mais se atreva a zombar com o epíteto de Loucura /Lançado sobre os Inspirados pelo insípido acabador de Borrões desprezíveis (p. 217)

O êxtase sexual que marca o instante da entrada de Milton no corpo de William Blake e a postura de crucificação representam, observa Manuel Portela, «a reunificação psíquica, sexual e cósmica» das «duas vozes bárdicas», numa comunhão assim enunciada por Blake:
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Mas quando Milton entrou no meu Pé: vi as regiões infernais / Da Imaginação; e também todos os homens da Terra, / E todos os do Céu vi nas regiões infernais da Imaginação (…) /Mas eu não sabia que era Milton, pois o homem não sabe /O que se passa nos seus membros antes de muitas eras de Espaço & Tempo /Revelarem os segredos da Eternidade: pois mais vastas /Do que quaisquer outras coisas terrenas são as feições terrenas do Homem. / E todo este Mundo Vegetal surgiu no meu Pé esquerdo, / Qual sandália brilhante e imortal feita de pedras preciosas & oiro: / Inclinei-me & atei-a para seguir em frente pela Eternidade. (p.111)

Se, «nos Lagares de Vinho», as uvas humanas se entregam aos divertimentos do amor e às «delícias do jogo amoroso /Lágrima da uva, o suor de morte do cacho o último suspiro», mostra-se quão árduos são os passos e ímpia a caminhada pelo «Ovo Mundano» esvaído na tensão dos seus contrários fabricadores de dilemas permanentes: «Os Cavalos loucos! A Charrua confundida! Os companheiros enfurecidos. / A culpa é minha! Deveria ter-me lembrado que a piedade divide a alma / E desumaniza o homem». (p.57).

E a jornada de autodescoberta de Milton, troa, total, no poema: «soa estrondoso o martelo de Los» (Los, anagrama de Sol, símbolo do Espírito Santo e da Imaginação criadora), nos labirintos de Londres, depois no resto do mundo, a forjar o Ferro, nas brasas da forja criativa pela qual o indivíduo se regenera; as Igrejas da Época «em terror & desespero», a adoração pelo medo; a tormenta humana saída do caos, e a prensa incansável e indomável a imprimir a imaginação, que dispõe «as suas palavras em ordem acima do cérebro mortal /Como os dentes da roda dentada engrenam nos dentes da roda oposta», a criar reverência à sua emanação, a produzir trechos de uma beleza inaudita, como este:
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Ouves o Rouxinol dar início ao Canto da Primavera:
A Cotovia está pousada na sua cama terrosa: quando a manhã
Desperta: escuta em silêncio: depois irrompe no Milheiral ondulante!
E lidera bem alto o Coro do Dia! triiit, triiit, triiit, triiit,
Sobe nas asas da luz para a Vastidão Imensa:
Faz eco na bela Casca azul & brilhante do céu:
A sua garganta trabalha com inspiração; cada pena
Da garganta & do peito &e das asas vibra com afluência Divina
Toda a Natureza escuta em silêncio & o Sol poderoso
Pára sobre a Montanha reparando na pequena Ave
Com olhos de humildade, & encanto & amor & espanto.
No coberto verde todas as Aves começam então o seu Canto sonoro
O Tordo, o Pintarroxo & o Pintassilgo, o Pisco & a Carriça
Despertam o Sol do seu doce devaneio na Montanha (p. 169)

«A beleza para Blake corresponde ao instante em que se encontram o leitor e a obra e é uma espécie de união mística», diz, ainda, Borges. Na chapa de gravação, onde vazava a sua cosmogonia, Blake profetizava o assombro e a inspiração que a sua obra provocaria. Aventa-se que terá morrido a cantar.


William Blake, Milton, Tradução e notas de Manuel Portela, Antígona, 2009

 © Teresa Sá Couto

sábado, 9 de janeiro de 2010

A liberdade de escolher a morte


Haverá maior liberdade do que a de quem escolhe quando e como morrer? E não será exactamente a execução “ousada” desta liberdade, que nos impossibilita o entendimento sobre o suicídio? Como é o sol para aqueles que, no seu silêncio, transportam o projecto de se matarem? O que leva alguém a atentar contra si, a, pela sua mão, eliminar-se? Que direito temos nós de condenar a morte livre?

Atentar contra si – discurso sobre a morte voluntária de Jean Améry (pseudónimo de Hans Mayer), publicado em 1976 e editado recentemente pela Assírio&Alvim, é um extraordinário ensaio sobre o assunto, e um registo biográfico, porquanto o autor suicidar-se-ia dois anos depois, sendo este o seu último trabalho. Não carrega a apologia da «morte voluntária», apresenta-nos, sim, uma reflexão sobre a «insolúvel contrariedade da condition suicidaire para dar testemunho dela», um testemunho «além da psicologia e da sociologia», a perspectiva da morte voluntária de dentro, a partir dos suicidas e não de fora, da «óptica dos vivos ou dos sobreviventes».

Pedro Panarra, responsável pela tradução, posfácio e notas, diz que Améry «descobre o suicídio como acto paradoxal, mas não absurdo; paradoxal pois contrário à lógica da vida, mas não um sem-sentido.». Mais, refere o tradutor, «no embate com a morte voluntária, o encontro do paradoxo permite-lhe tentar a conquista do lugar que é o de todos os suicidas, seja qual for a sua situação particular.». Não se pense que o suicida não tem medo, escreve Améry: ele teme «o nada», teme também «a sociedade que o condena e que desencadeia uma acção para o salvar (ele é parte de uma minoria e por isso também um escravo colonial da vida)». No limiar da morte voluntária, no «momento do salto», há «as dores da separação» do corpo, esse que foi sempre o Outro, o descurado, diz Améry, e, «no momento antes do salto tomamos consciência do nosso corpo com uma intimidade até então nunca atingida. Em todo este processo é a cabeça que desempenha um papel fundamental»; o que atenta contra si, para se desfazer de si, «enceta com o seu corpo, com a sua cabeça, com o seu Eu, o grande diálogo, de uma forma que até nunca acontecera».

 «Finalmente pertenço-me»: eis a mensagem do suicida, mesmo sabendo que não colherá os frutos da sua resolução, cônscio de que aquela mensagem não chegará ao destino, por não haver destino. «A experiência da liberdade é esmagadora», diz Améry, acrescentando: «o domínio da liberdade não é livre, mas o caminho é um verdadeiro caminho na direcção da liberdade. Enfrentamo-lo para pôr fim à tortura e enquanto progredimos desistimos dos momentos de elevação, sempre a tristeza que acompanha a despedida, sempre o sentimento de ter lançado fora uma carga que era demasiado pesada. O que vier a acontecer passa somente a dizer respeito aos outros. Futuramente, eles farão de mim o que quiserem, votando-me ao esquecimento ou recuperando-me pela memória».


Temática profusamente tratada na literatura, a morte como libertação do inferno da existência e o suicídio como projecto surgem no romance Hans, do incontornável Hermann Hesse, no passo que transcrevo:

«Decidiu finalmente que seria ali que morreria. Voltou lá mais do que uma vez, deixava-se ficar sentado e sentia uma estranha alegria ao imaginar que não tardava muito que alguém ali o viesse encontrar já morto. O ramo ao qual prenderia a corda estava já escolhido e a força deste fora também já experimentada, não deveria surgir qualquer dificuldade. A pouco e pouco foi também sendo escrita uma pequena carta ao pai e uma outra, bastante maior, a Hermann Heilner, castas essas que deveriam depois ser encontradas junto do cadáver.
Os preparativos e a sensação de estar seguro do seu destino haviam exercido uma boa influencia sobre a sua disposição. Sentado sob o funesto ramo, horas houve em que do seu ânimo desapareceu por completo a tensão e quase foi inundado por uma alegre sensação de bem-estar. Também o pai reparou nas melhoras do seu humor e foi com uma irónica satisfação que Hans olhou a alegria deste em relação ao que via. A única razão da sua boa disposição era a certeza do fim que estava próximo. Nem ele mesmo sabia bem por que razão não se pendurara já há mais tempo naquele belo ramo. A decisão estava tomada, a ideia da morte estava perfeitamente assente, mas entretanto sentia-se bem e não desprezava a possibilidade que nesses últimos dias se lhe oferecia de gozar aquele belo sol e de se entregar aos seus sonhos solitários, um pouco como se costuma fazer antes de se iniciar uma grande viagem.». (Hermann Hesse, Hans, p.p. 147, 148; Difel, 2000)

* Ler texto de João Barrento na PHALA sobre esta obra de Améry.
 
 
© Teresa Sá Couto

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Reis na Assírio & Alvim

Mais uma iniciativa imperdível da Assírio, pois claro.



terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Os Olhos do Homem que Chorava no Rio


Há um tipógrafo que chora palavras, algures nas margens do rio Douro. Chora-as para o rio, e apazigua-se.
Há uma rapariga que, sentada na beira do rio, colhe, com «a concha das mãos dos olhos» sôfregos, palavras choradas pelo tipógrafo. Lê-as, e aprende a chorá-las, engrossando-se o caudal. E há o leitor, adicto, puxado para essa correnteza donde jamais quererá sair. Assim se cumpre o mistério: «Ler é tudo isso, afinal, e ainda gostar e continuar lendo, mesmo depois das lágrimas e dos sustos, das angústias e dos medos».

O livro Os Olhos do Homem que Chorava no Rio é um romance escrito a quatro mãos exímias: Manuel Jorge Marmelo e Ana Paula Tavares. É um livro de mistérios sobre o mistério das palavras. É impossível entrarmos nele sem que façamos, de imediato, parte dele. Ele aloja-nos na sua parte maior, a construção da nossa própria história. Um portento de originalidade. Um adejar de alma.

A escrita, como sacrifício e penitência é explanada no e pelo tipógrafo. Ele sabe todas as palavras, e todos os livros. É no rio da língua, onde empresta o coração, que as chora, «devagarinho entre soluços e pausas para respirar», lava-as, simplifica-as, liberta-as para leitores ávidos. As palavras, de todos os livros, são sempre as mesmas, remisturadas e recombinadas. Algumas são talhadas para a perfídia, outras para o colo e o mimo. É o escritor, o responsável pelos humores do rio, pela trama narrativa, por acender o lume das emoções. A rapariga que lê é o motivo último do tipógrafo. Sem ela, ele não existiria, pois «nenhuma das suas lágrimas seria lida».

A leitura como recriação é apresentada na rapariga que lê com sobressalto «as sílabas que se destacam da água, aumentando o ritmo ao fio das palavras, repete-as baixinho como se tivesse medo de as perder lê os fragmentos de histórias que completa todas as tardes». Ás vezes, «Num dia de mais palavras, um pequeno coração pode não caber no peito.». Outras vezes, «transita o corpóreo para um limbo qualquer, para um recanto inabitado onde se guardam as coisas que detêm os segredos do mundo.». São as vivências com as palavras que nos ensinam a chorá-las, a clarificá-las. Não será assim com todos os afectos?
Acompanhando quem escreve e quem lê, existe, ainda, uma «legião de Vultos», mais solares, ou mais sombrios. É por isso, que no meio das palavras, se ouvem «ecos de vozes, por vezes sombras de vozes, frases como bolhas de ar». Há que esperar pela música, o som perfeito do Adufe. Este som “mais-que-perfeito” acompanha toda a prosa poética desta história surpreendente, interlocutora com o mais fundo de nós.Resta-nos dizer que este livro imaginado só adquire a sua consistência no exterior, em nós seus leitores que lhe definimos o enredo:

Donde vêm as palavras? Que fundos têm? Que correnteza é essa onde elas se juntam e em vertigem estremecem-nos na fímbria dos nervos? Que legião de vultos é essa que vigia as águas e nos faz deitar ao rio de palavras, mais água de palavras, num caudal sempre insatisfeito?

Se sabemos que as palavras vêm do assombro, respondemos ao mistério com um círculo vicioso de mistérios. Um desafio para bravas emoções.
Este é, indubitavelmente, um livro para se ler de um fôlego. Teremos, depois, a certeza que o lemos mal, e necessitaremos de recomeçar. Há que lê-lo devagar e chorar cada palavra. Ao som da música que dele escorre, subiremos o rio, da foz até à fonte. Quantas vezes forem precisas. Quantas vezes quisermos construir a nossa história.

Os Olhos do Homem que Chorava no Rio; Ana Paula Tavares / Manuel Jorge Marmelo; Editorial Caminho, Lisboa, Janeiro de 2005

*elaborei este texto em 2005, na altura do lançamento do livro.

© Teresa Sá Couto

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A canção do povo português na mestria de Fernando Lopes Graça


Ritmos cardíacos de funda ancestralidade, as cantigas populares são retratos da alma de um povo. À procura dessa alma antiga, e da invenção melódica do povo – uma das formas mais difíceis de invenção artística –, o maestro Fernando Lopes Graça recolheu criticamente cantigas tradicionais de todo o país. É esse trabalho que encontramos coligido na soberba Antologia A Canção Popular Portuguesa Em Fernando Lopes-Graça.
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«Restituir ao povo a sua música» é, pois, a missiva, o apelo e a urgência deste prodígio editorial, organizado por Alexandre Branco Weffort, que aqui invoco, quando se celebram 103 anos do nascimento de Fernando Lopes Graça (17 de Dezembro de 1906), considerado um dos músicos e compositores mais significativos da história da Música Portuguesa e da Península Ibérica. A Antologia crítica faz-se acompanhar de um CDROM contendo exemplos sonoros de composições referidas na Antologia e registos ao vivo da voz e de actuações do próprio maestro. Voz, estudo, paixão e mestria de um homem que, do Minho ao Algarve, passando pela Beira Baixa (Castelo Branco e Fundão) e bebendo a singularidade melódica do Alentejo, soube interpretar e imortalizar a alma sonora antiga do povo português.
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Fernando Lopes-Graça nasceu em Tomar em 1906 e faleceu a 27 Novembro de 1994, na freguesia da Parede, Cascais. Deixou uma obra imensa, comprovando-se as suas palavras: “a música é a minha única religião” e “a Academia é o meu lar musical”. Dessa sua religião nos dá conta a Antologia de 450 páginas, e o CD, dois registos complementares para prazeres de conhecimento.
Bem organizada, a Antologia crítica está dividida em 5 capítulos e repleta de fotografias de Fernando Lopes-Graça, em várias fases da sua vida, bem como de regiões do país que ele tanto palmilhou para reabilitar sonorizando. No prefácio, Mário Vieira de Carvalho faz uma contextualização histórica política e cultural da época de Fernando Lopes-Graça e traça o percurso do maestro pessoal e artístico, porquanto se interferem, nomeadamente a sua iniciação política nos anos vinte e os tempos conturbados da década seguinte que o atiram para o exílio em Paris, a partir de 1937.

É longe da pátria que o “olhar melhor a alcança” e é do exílio – onde bebe a modernidade – que Fernando Lopes-Graça desenvolve o sentimento telúrico que a sua intervenção musical posteriormente comprovaria.
A Antologia colige textos do maestro, sobre o Folclore e a Música Popular Portuguesa, resultado do trabalho de prospecção feito de norte a sul de Portugal, escritos que, por isso, mostram a intervenção na realidade, e não apenas a reflexão distanciada. A partir da terceira parte da colectânea, reúnem-se as composições de Lopes-Graça - letras e partituras -, sobre a canção popular e o seu tratamento erudito, uma relação explicada assim pelo maestro:
As canções que ides ouvir roubei-as eu ao nosso povo, que tem um grande tesouro delas: e roubei-lhas, não para as guardar para mim, mas com o propósito de lhas restituir, possivelmente com juro do roubo. (…) Não lhas restituo, porém, tal-qualmente lhas roubei: fiquei com alguma coisa delas e, ao devolver-lhas, procurei que elas não ficassem diminuídas no seu valor, antes diligenciei aumentá-las com aquele pequeno juro que está nas minhas posses despender.
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O CDROM abre com a voz do maestro, num registo ao vivo. Oferecem-se quatro caminhos informativos: um esboço biográfico de Lopes-Graça; a listagem da sua obra musical – as grandes formações instrumentais, Música Coral, Música de Câmara, Piano, Voz e piano, instrumentos diversos – com títulos e datas de formação; A Obra Literária; A Canção Popular Portuguesa, com 16 páginas para consulta e sempre com exemplos sonoros dos vários temas, referenciados na Antologia, interpretados muitas vezes ao piano pelo próprio Lopes-Graça. São incluídos também vários registos inéditos, como o do Coro da Academia de Amadores de Música, sob a direcção do maestro, captado ao vivo em 1976.
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A Canção Popular Portuguesa Em Fernando Lopes-Graça, organização de Alexandre Branco Weffort; Editorial Caminho, Lisboa 2006

© Teresa Sá Couto

domingo, 13 de dezembro de 2009

Duas lições de Ondjaki

A alegria é uma coisa bonita que se sente no coração. E é bonita porque nos faz voar. Esta é uma lição para as crianças, impressa no novíssimo livro de Ondjaki, um voo de palavras límpidas numa festa de mágicos azuis pintalgados de encarnados, laranjas e amarelos das ilustrações de Danuta Wojciechowska. O voo do Golfinho é o terceiro livro infantil do escritor angolano que escreveu o mágico, indispensável e já clássico da literatura infantil Ynari – a menina das cinco tranças, também com ilustrações de Danuta Wojciechowska, adaptado ao teatro sempre e ainda com representações de sucesso, e, já neste ano de 2009, o livro O Leão e o Coelho Saltitão, com ilustrações de Rachel Caiano.

Este O voo do golfinho traz a história de um golfinho que sentia o chamamento de ser pássaro e, nas travessuras no azul do mar, dava asas ao sonho de rodopiar no azul do céu. No ensaio dos voos, num dia de mar liso, vê-se espelhado na água, com bico de pássaro, corpo de pássaro e olhar de pássaro. Reconhecendo ter um corpo diferente dos outros golfinhos, decide ir brincar perto das nuvens onde encontra muitos pássaros diferentes, melhor dizendo, muitos animais terrestres que, como ele, quiseram e conseguiram ser pássaros, souberam conquistar a liberdade: “Tu sempre foste pássaro?”, perguntei a um deles, muito colorido. “Não. Eu era uma serpente mas sempre quis ser pássaro.”. Outro tinha sido canguru outro tinha sido camaleão outro tinha sido gato.

O facto de a narrativa ser contada na primeira pessoa, pelo herói da nova aventura do Ser, da clareza vocabular, da cor e movimento das ilustrações, faz com que a metáfora chegue sem obstáculos ao entendimento das crianças, permitindo uma adesão imediata à mensagem cheia de asas: «e se todos tivéssemos o dom de mudar de corpo ao longo da vida? E se voar fosse mesmo possível para todos os que sempre desejaram ter asas?». Convenhamos que obras desta valia traçam as rotas certas do crescimento dos miúdos, ao mesmo tempo que nos lembram a importância de se ter sempre olhos de pássaro.

O voo do golfinho, Ondjaki e Danuta Wojciechowska; Editorial Caminho, 2009


Cinco tranças de conhecimento

Com três partes se faz uma trança, com cinco tranças aprende-se a viver. Ynari – A Menina das Cinco Tranças, que não se desfazem, é mais do que um livro. São 43 páginas encantadas, a essência da vida, gotas de crescimento. É um livro pequeno, para gente menor, mas a sua missão é uma causa maior que nos envolve a todos. Afinal, nem tudo o que é menor é uma coisa pequena: o coração é pequeno e cabe “tanta coisa lá dentro”.
Escrita por Ondjaki e ilustrada por Danuta Wojciechowska este livro é dedicado a “todas as crianças angolanas e para as crianças de todo o mundo e para ti, Angola” e urde uma história que decorre na Angola profunda, entre as cubatas, o capim e o rio, iluminada pelo desejo de conhecimento de uma menina que nega a insanidade da guerra.

Ynari é a nossa heroína que tem sede de aprender. Encontra, à beira do rio, um “homem simplesmente pequeno” que a ajuda a crescer. Ensina-lhe que “existem palavras que estão no nosso coração, mas não ainda na nossa boca”. Mostra-lhe como, quando e com quem as deve utilizar. Ensina-lhe que a palavra MEDO não deve ser empregue para aquilo que não faz mal, que ADMIRAÇÃO usa-se quando o céu está “cheio de estrelas para se contar” e que a CONFUSÃO acontece quando há sonhos cheios de "muitas pessoas e de muitas palavras".

No seu papel de mestre, o homem pequeno leva-a à sua aldeia de pessoas pequenas onde é apresentada a um "velho muito velho" que inventava palavras e a "uma velha muito velha" que destruía as que eram inúteis. Lá, aprende a palavra PERMUTA, a “troca que pode não ser do mesmo tamanho, cor, ou sabor”, mas que traz felicidade a ambas as partes. Lá, aprende a palavra MAGIA, ao ver que se podem transformar armas em barro; reconstrói a palavra EXPLOSÃO, que deveria caracterizar o choque das estrelas, a sua explosãode cores:”quando se sabe ver as coisas simples da vida descobre-se que o mundo é muito, muito bonito”.
Acreditando que os sonhos a ajudam a viver e empenhada em tornar INÚTIL a palavra GUERRA, parte à procura da sua magia, da construção da palavra PAZ. Com ternura e generosidade, desloca-se a 5 aldeias em guerra e sacrifica as suas 5 tranças, deixando cada uma em cada aldeia, através de uma permuta mágica e alquímica.
A lição final, apreendida por Ynari, é que o coração também inventa palavras como a AMIZADE, e a expressão “OLHAR O OUTRO”. A mensagem de fraternidade provoca-nos um arrepio que desperta em nós a verdade e a pureza primordiais: “Primeiro somos crianças e coração bate. Depois somos caçados por nosso coração. Depois descobrimos criança no coração”.

A partir da fórmula introdutória “Era uma vez uma menina que tinha cinco tranças lindas…”, o leitor jamais se esquecerá deste livro. Ficar-lhe-á na alma, para sempre, o eco deste grito puro, tão soterrado pela competição e individualismo, a que nos escravizou a época moderna. Ondjaki diz que para escrever esta estória teve de “espremer um sonho”. Cabe-nos incentivá-lo, em todas as gotas, para que muitas se reúnam num rio pujante que nos transporte, finalmente, no seu caudal de generosidade.

Ynari – A Menina das Cinco Tranças, Ondjaki e Danuta Wojciechowska; Editorial Caminho, 2004

© Teresa Sá Couto

(a um jovem avô)

Uma invenção triangular

A semente da criação pode dar uma belíssima história. A ideia é simples e, talvez por isso mesmo, surpreendente. O Cão Triangular começou em desenhos de Evelina Oliveira. E foi crescendo, pois assim são as ideias, até que a vida pictórica do animal pediu uma narrativa em palavras, isto é, o cão triangular pedia companhia. Maria Leonor Barbosa Soares abraça o projecto e explica às crianças a alquimia: «É por isso que é bom trabalhar em colaboração com outra pessoa. Aprende-se mais depressa, fazem-se coisas que não seríamos capazes de fazer individualmente e é muito divertido. A Evelina e eu sugerimos que experimentes também.».

Assim nasce uma história sobre a diferença e a amizade, contada pelo protagonista, um cão com corpo em forma de triângulo, «azul-turquesa de dia, fluorescente ao luar, que não parece assemelhar-se a seja o que for, bonito ou feio», que teve de aprender a gostar de si e a «aproveitar ao máximo todas as capacidades e qualidades» do seu corpo diferente do dos cães comuns. Nas andanças, o cão triangular acaba por encontrar um rapaz de cara triangular, sozinho, como ele, e conhecedor do medo pelas mesmas razões que ele. Um grande pássaro amarelo e hexagonal acaba por se juntar aos dois amigos e os três descobrem que a sua força triplicava.

Evelina Oliveira - que ilustrou, entre muitos outros, o Zé do Saco de Manuel Jorge Marmelo, Zeca Afonso, o andarilho da voz de ouro e A coragem do General sem Medo, ambos de José Jorge Letria - cria as ambiências de solidão, desamparo, tristeza, alegria e afago, enche as páginas de cor, movimento, expressividade e cumplicidade com os jovens leitores, como é seu apanágio.

Coloquial, Maria Leonor Barbosa conta, de forma simples, as vicissitudes do cão na demanda da felicidade, o espanto e o júbilo da descoberta de novos amigos, degraus da sua  robustez, enceta diálogo directo com os leitores, estratégia que ora permite a identificação com as vivências dos miúdos que se sentem excluídos, ora veicula uma lição de carinho, compreensão e respeito pelos animais: «Foi um momento verdadeiramente extraordinário. Só então percebi como eu queria ter dono e como me tinha custado andar sozinho! Seria capaz de seguir aquele menino fosse para onde fosse... como um cão! Estavas à espera que eu dissesse outra coisa, não era? Mas não posso dizer melhor, acredita. Compreendi a minha realidade de cão naquele momento ou, dito de outra maneira, percebi o que queria da vida: uma matilha ou um humano em quem pudesse confiar e merecesse o meu respeito e que, por sua vez, me acarinhasse e respeitasse.».

O Cão Triangular, Evelina Oliveira e Maria Leonor Barbosa Soares; Campo das Letras, 2009

© Teresa Sá Couto

sábado, 12 de dezembro de 2009

O legado de um andarilho

(texto editado no sítio da Orgia Literária em 08.12.09)

As Voltas de um Andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso de Viriato Teles: eis um documento raro sobre um sonho agarrado à vida concreta, firmado no telurismo português e braços estendidos a outros lugares do mundo onde despontava a utopia; uma voz sobre uma das vozes da resistência ao fascismo, que rasgou as sombras e iluminou quem nelas vivia; um diálogo entre gerações sobre «o que faz falta», o idealismo, a persistência na luta pela Liberdade.

«Mais uma vez, a luz. Mas aqui, desta vez, sem misticismo. Para o Viriato tratou-se só de erguer a lâmpada sobre as extraordinárias funções do Zeca, e nisso encontrar quem nós temos saudades de ser», diz Sérgio Godinho no Prefácio titulado «A que distância está o Zeca?». E luz é o substantivo genesíaco que nomeia esta obra alagada de memória, que palavras emissárias e imagens perpetuam, para grande felicidade nossa. Na base, uma segura, minuciosa e depurada investigação da vida de José Afonso, que casa factos reais com lugares interiores, só mensuráveis pelo tempo, porque é a narração do tempo que aqui encontramos, o tempo social, político, insurrecto. Depois, a mestria da composição, marca iniludível da escrita de Viriato Teles, que transforma entrevistas e reportagens em edifícios sensoriais e de comprometimento ímpar com o leitor.

Editada em 1999, e esgotadíssima, a obra é republicada pela Assírio & Alvim «com algumas actualizações, correcções e acrescentos», assim dito por Viriato Teles. Clara é também a missão que o jornalista e escritor cumpre soberanamente: «participar, tanto quanto possível, na luta contra o esquecimento, que é como se sabe um dos vícios portugueses mais comuns».

A voz e o legado

Além da história da vida de José Afonso, Viriato Teles transmite-nos um exemplo de vida de quem fez do compromisso com o seu tempo uma forma de se manter vivo. Um exemplo testemunhado por Viriato, pelo estreito contacto com Zeca, documentado nas entrevistas que lhe fez e nos encontros «sem marcação nem “agenda” prévia, ao sabor dos acasos e das lutas».
Desvenda-se na raiz o homem nascido para encarnar uma aspiração que tatuou numa existência andarilha, mobilizado pelo apelo solidário do Outro, na demanda da «irmandade». O «trovador de muitos sonhos», que, nos anos 60, em Coimbra, criava baladas e «abria uma revolução musical e poética que abalou a estrutura da canção ligeira portuguesa», cedo terá percebido que a música seria uma forma de chegar às populações. A esta juntou o gosto de «ensinar os filhos dos outros», com a leccionação em História e o envio de recados através das aulas.

«Um provocador, por instinto», refere Viriato Teles. «A música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido», e «o que é preciso é criar desassossego»; «acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de “homenzinhos” e “mulherzinhas”. Temos é que ser gente, pá!», diz Zeca, regista-o Viriato, dizendo-nos também que Zeca se esquivava constantemente a falar de música, sendo ela o ponto de partida para outras divagações:

«Praticamente nunca canto por gosto», diz Zeca em 1980, «Prefiro estudar, agradar-me-ia tirar outro curso, às vezes até me passa pela cabeça que gostava de mudar de personalidade, como as personagens de Pirandello». Eram (e são) caminhos de um homem livre que «vive na recusa do oportunismo, na análise permanente das suas posições, na interrogação constante», portador da consciência contra o conformismo, «um verdadeiro e incorrigível independente»; era o timbre de um homem livre, que afirmou ser o seu próprio “comité central”, que decidiu, em 1985, apoiar a candidatura de Maria de Lurdes Pintassilgo à Presidência da República, que apoiou as lutas anti-imperialistas na América Latina, que se ligou a «grupos de apoio à Reforma Agrária, nomeadamente na Alemanha e na Holanda» e fez parte do Comité Central de Apoio à Frente Polisário.

Com a destreza que lhe é característica, Viriato Teles capta e regista em breves linhas a síntese perfeita do homem José Afonso: Zeca, na sua casa em Azeitão, «simultaneamente bem-disposto e mordaz, por vezes até impiedoso”, perante o “perguntador”», entre a viola, a um canto, um retrato de Che Guevara, na parede, e «uma faiança com o texto de Grândola Vila Morena», a encher o espaço todo.

É sobre este homem que, com alguma vergonha pela iniquidade lusa, vem a lição da Galiza: a grande homenaxe, uma «festa rubra, viva e alegre», em Maio de 1987, “um testemunho de solidariedade”, uma lição que culminou, em Maio de 2009, com a inauguração, em Santiago de Compostela, do Parque José Afonso, perto do local onde, em 10 de Maio de 1972, Zeca cantou pela primeira vez em público Grândola Vila Morena.

Por cá, a intemporalidade das suas mensagens clareia-se no interesse das novas gerações de músicos e nas constantes versões das suas cantigas. Na «Discografia Anotada» do autor de Os Filhos da Madrugada, Viriato Teles mostra-nos o «Zeca para além de Zeca», o registo dos intérpretes de Zeca até à actualidade, desde Adriano Correia de Oliveira, que interpretou a Balada da Esperança, em 1961, até Rão Kyao, com os temas Balada de Outono e Menino d’ Oiro, de 2009.

As Voltas de um Andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso, Viriato Teles; Assírio & Alvim, 2009


© Teresa Sá Couto


* Ver toda a informação disponível sobre este livro, e uma entrevista a Viriato Teles, AQUI

*Outros textos meus sobre outros livros de Viriato Teles, AQUI

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O regresso de Albert Cossery

A Antígona acabou de distribuir a sua prenda de Natal. Uma magnífica prenda. A editora divulgou as primeiras páginas do romance inacabado de Albert Cossery, por morte do autor, aos 94 anos, em Paris, em Junho de 2009, no hotel onde viveu mais de sessenta anos. De Albert Cossery, a Antígona tem publicados, e disponíveis: A Casa da Morte Certa, A Violência e o Escárnio, As Cores da Infâmia, Mandriões no Vale Fértil, Mendigos e Altivos, Os Homens Esquecidos de Deus, Uma Ambição no Deserto, Uma Conjura de Saltimbancos e , de Michel Mitrani, Conversas com Albert Cossery.




Uma época de filhos de cães

Mokhtar sentou-se na esplanada de um café de aspecto sórdido, mas cujo rádio difundia uma melodia da cantora mítica que lhe fazia lembrar Malika, a sua mãe, que não podia ouvir este lamento de um amor perdido sem que os olhos se lhe marejassem de lágrimas. A esta hora matinal, para além de um jovem adormecido sobre um banco, como um destroço rejeitado pela noite, o local proporcionava uma calma, sem dúvida precária, mas por agora propícia à reflexão. Evidentemente, não estava nas suas intenções reflectir de novo sobre a perenidade da estupidez humana, nem vituperar os lastimáveis dirigentes deste mundo, pois todos estes indivíduos se encontravam há muito esgotados e não eram merecedores de qualquer outra crítica mais aprofundada. Numa palavra, o que ele desejava de imediato era um recanto tranquilo onde pudesse recordar – antes que perdesse todo o sabor – o incidente burlesco que precipitara o seu despedimento do lugar de professor de uma escola de um bairro popular da cidade costeira, considerada histórica, a que chamam Alexandria. Tudo começara por uma discussão sem motivo aparente com o director do estabelecimento escolar, um homem pleno de ignorância e, ainda por cima, casado com uma mulher feia. Esta dupla particularidade tornava-o detestável e intolerante nas suas relações com as pessoas inteligentes e solteiras. Após algumas insinuações pérfidas acerca da concupiscência ligada ao celibato, este gerador de crianças degeneradas acusara-o de ter feito esquecer aos seus alunos, no espaço de alguns meses, o que eles haviam demorado muitos anos a aprender. Mokhtar, nada surpreendido com este elogio que considerava absolutamente merecido, não pôde resistir à tentação de dar uma estocada definitiva e global na hierarquia, mesmo que esta fosse de medíocre qualidade. Respondeu com um tom de comiseração, como se estivesse a dar os pêsames a um viúvo amargurado, que os seus alunos tinham mesmo assim aprendido uma coisa muito importante para o futuro: que o director desta escola era um burro, e que era preciso substituí-lo por um burro de verdade, certamente mais agradável de contemplar. Para qualquer espírito livre dos preconceitos seculares de sacralização do homem, era evidente que tratar um humano de burro constituía um insulto para o burro. Mas o director, incapaz de assimilar uma doutrina tão audaciosa, pôs-se a gritar que um louco estava a querer degolá-lo, atraindo com os seus berros uma matilha de salvadores benévolos que agarraram Mokhtar e o atiraram, com as imprecações habituais, para fora da escola.

A Mokhtar não desagradou esta expulsão brutal, que lhe conferia um estatuto de dissidente político e de mártir da liberdade de expressão, capaz de suscitar o interesse, para além dos mares, dos intelectuais dos ricos países democráticos. Estes bravos pensadores, adeptos de um humanismo sem fronteiras, tinham a faculdade de tornar célebre a pessoa mais insignificante do planeta, desde que esta tivesse sofrido alguns vexames ou alguns meses de prisão por parte de um governo qualificado, para a circunstância, de ditadura sangrenta. Esta ideia divertia-o como uma enorme brincadeira. Por um momento, entreteve-se com a perspectiva de um exílio dourado em terra estrangeira, solicitado e adulado por todas as cabeças pensantes do hemisfério ocidental. Tratava-se, e ele tinha consciência disso, de uma apoteose longínqua, e mesmo improvável, pela simples razão de que o género de dissidência de que era o genial inventor nada tinha em comum com uma oposição a qualquer governo. A Mokhtar todos os governos eram completamente indiferentes, fossem eles eleitos ou impostos pela força das armas, pois todos provinham do mesmo molde e eram compostos pelos mesmos malfeitores. Era, pois, estúpido querer derrubar um governo, para depois ficar diante de outro pior do que o anterior. E na obrigação de recomeçar indefinidamente esta comédia grotesca. Para Mokhtar, a única maneira de combater um regime político só podia conceber-se no humor e no escárnio, longe de toda a disciplina e das fadigas que qualquer revolução geralmente implica. Na verdade, tratava-se de conseguir uma distracção fora das normas e não uma prova debilitante para a saúde. O seu combate contra a ignomínia reinante não tornava necessário um grupo armado nem mesmo uma sigla que referisse a sua existência. Era um combate solitário, não uma congregação de massas ululantes, mas uma operação prazenteira de salvação da humanidade, sem lhe pedir a opinião e sem esperar uma autorização vinda do céu. Há muito tempo que Mokhtar decidira que o seu papel na vida seria o de dinamitar o pensamento universal e os seus miasmas fétidos que atulhavam há séculos o cérebro fraco dos miseráveis. Esmagadas e fragilizadas, as massas humanas ainda sobreviventes à superfície do Globo foram levadas a acreditar em tudo o que lhes conta uma propaganda que ofende em permanência a verdade. Afigurava-se-lhe com nitidez que o drama da injustiça social só desaparecerá no dia em que os pobres deixarem de crer nos valores eternos da civilização, um palmarés de mentiras deliberadas, programado para os manter para sempre na escravidão. Por exemplo, a honestidade. Os pobres estão convencidos de que a honestidade é a virtude fundamental que lhes vai salvar a alma das chamas do inferno, e esta crença condena-os a uma miséria endémica, enquanto os ricos, cujos antepassados inventaram a palavra, sem jamais terem acreditado nela, continuam a prosperar. É certo que esta análise, aparentemente pueril, da economia capitalista, não satisfará os espíritos sérios, inimigos implacáveis da verdade, porque o seu simplismo impede-os de parecer profundos. Três meses antes, quando se candidatou a este lugar de professor, Mokhtar não ambicionava de maneira nenhuma ser profundo em matéria de ensino. Professor era o emprego ideal para começar a pôr em prática a destruição do discurso pernicioso habitual em todos estes continentes, cuja tradicional impostura é proclamarem-se civilizados. Com efeito, a escola proporcionava-lhe uma ocasião magnífica para influenciar jovens alunos, mais dispostos à subversão do que os adultos anestesiados de longa data pelo vocabulário dominante. A indignação do director deu-lhe a certeza de ter sido bem sucedido, pelo menos em relação a uma parte ínfima da população, mas este magro resultado representava uma carga explosiva, manipulada por três dezenas de adolescentes dotados de uma consciência renovada, e que se preparavam para prodigalizar por todo o lado o seu novo saber. Mokhtar via este bando de alegres missionários crescer e disseminar-se por todos os países e, porque não, além-fronteiras em direcção às tristes cidades do Sul moribundo.

A visão deste futuro mirífico foi bruscamente perturbada pelos latidos de um cão que dava a impressão de ser de uma espécie rara, desconhecida no bairro. Havia nestes latidos uma notável dose de insolência e como que um desafio lançado contra sabe-se lá que raça maldita. Subjugado e seduzido por este desempenho, Mokhtar dispôs-se a procurar o animal com a intenção de o adoptar, caso ele tivesse fugido a um dono autoritário e mal-educado. A ideia de passear com um cão pela trela enchia-o já de júbilo como um ataque subtil ao mito insuportável da supremacia do homem. Pôs-se assim a inspeccionar a esplanada, mas, em vez de um encontro amigável com um membro eminente da raça canina, foi ofuscado por um esplendor de cores cambiantes sob os raios pálidos de um sol de Inverno, bruscamente surgido de entre as nuvens, como que para participar neste surpreendente espectáculo feérico. O responsável por esta intrusão excêntrica da moda, símbolo da modernidade, no cenário imundo da esplanada, era um jovem dos seus vinte anos, de físico atraente e porte aristocrático, sentado a uma mesa à entrada do café, e que exibia uma panóplia vestimentar de grande ousadia na escolha dos tecidos e das cores. Este jovem esteta envergara, para uma visita turística nestas paragens deserdadas, calças de linho branco, camisa de seda vermelha, bem aberta no peito, e casaco preto de caxemira, com um pequeno ramo de jasmim na botoeira. Para completar este traje magnificente e requintado, calçava sapatos de verniz, como os que usam os ministros e os proxenetas quando vão à ópera. Mas as originalidades deste enviado do diabo não se ficavam por aqui: estava a fumar um cigarro de haxixe, cujo fumo parado desenhava uma espécie de auréola sobre a sua cabeça.

Perante esta cena inusitada, Mokhtar aguardou calmamente o que se ia passar a seguir, estranhamente consciente de que este príncipe da elegância, perdido neste lugar, tinha para lhe transmitir uma mensagem da mais alta importância. Dir-se-ia que o portador da mensagem se apercebera desta expectativa e que estava pronto para lhe responder, pois, sem mais delongas, abandonou a sua pose descontraída, endireitou-se na cadeira, ergueu os olhos ao céu, e depois, com a determinação do cantor que entoa a ária que o celebrizou, pôs-se a ladrar com um tom implacável e obstinadamente sarcástico, parecendo assim exprimir a sua raiva para com os habitantes da casa em frente. Passado um momento, parou com os latidos e virou-se para Mokhtar, visivelmente satisfeito com a sua proeza.

Mokhtar aplaudiu discretamente para não acordar o homem adormecido no seu banco, único elemento de realidade tangível que o impedia de ficar alarmado. Sem qualquer dúvida, estes latidos continham um sentido oculto que ele tinha de decifrar o mais rapidamente possível, mas o imitador de cães furiosos não lhe deu tempo para isso ao desferir-lhe a seguinte frase insensata:

- Estava certo de que compreenderias.
- De onde vem essa certeza? – perguntou Mokhtar. – Gostaria muito de conhecer as razões dela.
O jovem pimpão, que se chamava Haydar, levantou-se para se ir sentar a uma mesa junto de Mokhtar e começou a falar com um tom fortemente caloroso, como se pretendesse cativar o seu interlocutor com vista a uma cumplicidade eterna.
- Passava por aqui, guiado apenas pelo acaso, quando te vi sentado, sozinho, neste café piolhoso. Mas, em vez da tristeza e do abatimento do solitário, pairava nos teus lábios um sorriso muito especial, o género de sorriso malicioso que é um desafio à infâmia universal. Sentias-te mais poderoso do que algum monarca jamais foi. Isto levou-me a pensar que tinha obtido a tua compreensão.

Tradução: Luís Leitão
Revisão: Carla da Silva Pereira

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Portalegre recebe pintura de Isabel Botelho

Passagens Secretas é o título da exposição de pintura de Isabel Botelho, na cidade de Portalegre. Depois da exposição Beautiful Unknown, no Palácio Galveias, em Lisboa, em Fevereiro de 2009, a pintora volta a espargir magia com novos trabalhos.
Inaugurada a 28 de Novembro, a exposição surge dividida e, consequentemente, de fulgor ampliado, em duas galerias: Passagens Secretas I, na Galeria do Museu da Tapeçaria de Portalegre, Guy Fino e Passagens Secretas II, na Galeria de S. Sebastião, no Edificio da Câmara Municipal de Portalegre. Para ver até 17 de Janeiro de 2010.

Agradeço à pintora Isabel Botelho o envio das fotografias da inauguração, já que não pude estar presente. Ver os trabalhos da exposição, AQUI, na página de Isabel Botelho.


.Deixo, ainda  a digitalização da minha nota que acompanha oficialmente a divulgação da exposição:


(clicar na imagem para aumentar)

Esplendor infantil de Carla Almeida

Ainda falta muito? é o terceiro e mais recente livro infantil de Carla Maia de Almeida, mais uma marca de um estupendo percurso nas letras para os mais novos, que urge aqui apresentar.
A história deste “capítulo” é simples; a composição – pureza narrativa e ilustrações de Alex Gozlau – é arrebatadora. Primeiro a verosimilhança com a situação narrada, o que possibilita a cumplicidade com os jovens leitores e a partilha intergeracional: conta-se uma viagem de automóvel feita por dois adultos, pai e mãe, com os dois filhos pequenos, um rapaz e uma rapariga. O objectivo é visitar os avós a uma aldeia distante e de ambiência distinta do local onde as crianças habitam.

A imobilidade imposta no banco traseiro da viatura faz com que a viagem seja um tormento para as crianças. Ainda falta muito? é a pergunta que o miúdo mais pequeno coloca constantemente. Será a irmã, um pouco mais velha, a narradora da história da impaciência e a veiculadora da memória guarda que, nos seus tenros anos, já acumulou. Segue-se a narrativa, passos de crescimento, irrupções de júbilo, registos de afectos, projecções de futuro.

«O meu irmão ainda é muito pequeno. Só quer atenção e mimos. Não se lembra da aldeia, nem do cão chamado Roger, nem dos gatos que eram primos. E assim não podemos conversar. Mas depois, Como é que era? Como é que eu podia pensar? Como é que eu conseguia estar a sós com a minha imaginação? Aindaaaaaaaa faaaaaaaalta muuuuuuuto?, diz ele, quase a gritar», lê-se, ao mesmo tempo que se mostra que, afinal, uma viagem longa pode ser emocinante, bastando tão-só o motor veloz da imaginação. As ilustrações, que juntam brilhantemente fotografia e pintura, enchem as páginas de cor e expressividade.

Ainda Falta Muito?, Carla Maia de Almeida (texto) e Alex Gozblau (ilustrações); Editorial Caminho, 2009

Titula-se Não quero usar óculos, é o segundo livro infantil de Carla Maria de Almeida e atesta que o segredo da genialidade está em inventar a simplicidade. Ora vejamos: um miúdo fica a saber que tem de usar óculos. Enquanto os espera, vai discorrendo sobre as formas das armações, pondo em cada hipótese os desejos com que se liga ao mundo. As ilustrações de André Letria objectivam a narrativa textual, e o festim pictórico que corre em páginas inteiras, instigando a criatividade do leitor.

Com efeito, a arte ao serviço das crianças está em trinta e duas páginas de cartolina, envolvidas por uma capa dura, carregam o espanto da arte literário e plástica, que junta palavras e imagens e cor ao serviço no incentivo desenvolvimento, intelectual, emocional e artístico das crianças. Conta-se a breve história, de forma límpida e de fácil identificação ao universo infantil, de um rapaz que vai a um médico «com um nome comprido: O-F-T-A-L-M-O-L-O-G-I-S-T-A», e fica a saber que tem de usar óculos. Enquanto os espera vai imaginando o seu formato: balizas, pois um dia quer ser guarda-redes; à maneira dos piratas, pois há-de ser «um terrível pirata»; guarda-chuvas, para poder andar à Chuva.

Comprovando-se que, quando libertada, a imaginação corre sem limites alimentando-se do próprio voo, o rapaz logo imagina óculos especiais que lhe permitam uma eficaz aproximação da natureza, das árvores, do mar, e de óculos para ver ao longe. Uma alegoria numa lição também para muitos adultos que “precisam de óculos” para poderem ver e, consequentemente, respeitar o meio ambiente, e poderem ver o «longe» do futuro. O rapaz da história também projecta óculos para «entender certas coisas» que lhe dizem não ser para a sua idade.

Preenchendo totalmente as páginas, com cores fortes e contrastantes, dinamizadas, pelo movimento das cerdas do pincel que ora espalham, em lastro, a tinta no fundo, ora se detêm, deixando nos pormenores o mesmo testemunho do processo de criação, André Letria vai construindo uma montra de óculos com narrativas do mundo interior infantil, que muitas vezes não divisamos. Também neste sentido, este é um livro de partilha entre pais e filhos, de revelações e deslumbramentos.

Não quero usar óculos, Carla Maia de Almeida (texto) e André Letria (ilustrações); Editorial Caminho, Lisboa, 2008

O Gato e a Rainha só é o livro de estreia de Carla Maia Almeida, um livro encantado que multiplica encantamentos, destinado a crianças a partir dos 8 anos. Fala de um gato que «Nunca tinha ido à Lua, mas pensava muito no assunto». «O mundo não é como vem nos livros – é muito mais redondo!»: palavras sábias a que se juntam as portentosas ilustrações Júlio Vanzeler, tudo a lembrar-nos que um livro pode ter as coordenadas, os instrumentos e os impulsos para se explorar o mundo.

Depois da casa destruída por um incêndio, o gato Radar é obrigado a recomeçar a vida. Parte à procura de uma nova casa para morar, «que tivesse cheiro, memórias….». Começa aqui a estrada da aprendizagem: há dor em qualquer recomeço porquanto se carrega o que se teve e se perdeu, acrescido do medo do desconhecido e do desnorte dessa nova empreitada. Todavia, a vida é uma «sopa de tudo» e, havendo fome, há que tomá-la. Assim se vê o gato (e os leitores) pelos caminhos do mundo que vinham ter com ele, e pelos quais seguia sem pensar, até encontrar uma encruzilhada com três tabuletas, cada qual indicando um caminho misterioso; cabia-lhe a difícil opção de escolher pela Terra da Água Salgada ou Terra do riso Eterno ou Terra do silêncio Prometido. Na Terra do Riso Eterno só era permitido rir. Auscultando-se, considerou que «Pior do que chorar quando se está triste, só mesmo obrigar-se a rir quando não se tem vontade.». Mostra-se que muitas vezes se escolhem caminhos mais empurrados pela intuição do que ditados pela razão: porque razão o gato escolheu a Terra do Silêncio Profundo? «ele não sabia porquê, mas sabia porque sim. Era o bastante para continuar a andar.».

Andando, encontra a Rainha Só, que deixou de o ser quando cativada pela amizade do novo amigo. No entanto, o gato mostra-nos o valor e a importância de se estar só: «às vezes também precisava de se sentir um Gato Só. Era bom poder miar alto, sem ter de explicar o que estava a dizer. Apenas a miar. Por incrível que parecesse, miar alto podia ser melhor do que comer chocolate em pó às colheradas ou afiar as unhas no sofá preferido dela. E era uma coisa tão fácil de fazer! Com tantas conversas e brincadeiras, quase se tinha esquecido. Decidiu que, a partir dali, haveria um dia DMA (Dia de Miar Alto) sempre que fosse necessário.».

Seres muitos diferentes, – mas, como o gato diz, não teria graça nenhuma se fôssemos todos iguais – a Rainha e o gato decidem partir juntos à procura de nova casa. Ela já pode prescindir das suas chaves pesadas, que carregava ao pescoço, por deter as chaves leves do espírito; abandona a sua «máquina-de-costurar-palavras», que se lhe afigura inútil por não conseguir dar respostas sobre o sonho e a aventura humana, pois sabe que só ela pode encontrar as respostas.

O gato e a Rainha Só, Carla Maria de Almeida; ilustrações de Júlio Vanzeler; Editorial Caminho, Lisboa 2005

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Stefan Zweig, a eterna nostalgia

«O Porvir da Nostalgia – Uma vida de Stefan Zweig» não é uma mera biografia do fecundo escritor austríaco e investigador do mundo. Escrita por Jean-Jacques Lafaye, e galardoada com o Prix Cazes-Brasserie Lipp 1990, a obra é uma narrativa apaixonante, literariamente poderosa, um documento de época construído com os fios do fulgor, da sede da descoberta, da inquietude, dos abismos secretos e da nostalgia de Stefan Zweig.

«O livro é de uma lucidez e de uma actualidade impressionantes. Vale a pena lê-lo e meditá-lo, com os olhos de hoje», escreve Mário Soares no prefácio desta edição portuguesa, numa referência aos valores humanistas e éticos de Stefan Zweig. «O porvir da nostalgia é a morte escolhida, a morte consentida – e a porta do mistério», escreve o biógrafo nesta obra que ilumina os corredores do enigma, aludindo ao suicídio de Zweig, aos 61 anos, em Petrópolis, Brasil, em 1942.
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Por nove capítulos, enformados em 228 páginas, corre a escrita magnetizante, seguindo a ordem cronológica dos factos, crescimento, amadurecimento e queda do biografado. Coloquial e cúmplice, a narrativa faz, logo nas primeiras páginas, com que o leitor se esqueça que está perante uma biografia, para fazer parte do pulsar intenso dos quadros sociais e psicológicos apresentados. A utilização do Discurso Indirecto Livre propicia ao leitor dialogar intimamente com a personalidade de Stefan Zweig, por intermédio do narrador, estratega de toda a magia.

No original, L’Avenir de La Nostalgie - soberanamente traduzido por Clara d’ Ovar para «O Porvir da Nostalgia», como, aliás, é de excelência toda a tradução - , a obra foi escrita em 1989, e é o primeiro livro de Jean-Jacques Lafaye que, entretanto, reuniu uma obra admirável nas áreas da literatura e da música. Antigo Agente Internacional de Amália Rodrigues, é dele o título «Amália, uma voz no mundo», editado em Portugal pela Quetzal. A sua ligação à alma portuguesa valeu-lhe, ainda, a nomeação de comendador da Ordem do Infante D. Henrique, em 2006, pelo então Presidente da República Jorge Sampaio.
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Personalidade singular num texto notável
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Nascido no seio burguês da sociedade vienense, «desde a mais tenra infância, o pequeno Stefan foi habituado a exprimir-se em inglês, francês, italiano e alemão: ele é o príncipe anónimo de uma família europeia», diz-nos o texto, antecipando a paixão do escritor por uma Europa unida, guiando-nos magistralmente pelo percurso singular de Stefan Zweig, homem e obra, imagem e espelho, confundindo-se ambas. «Judeu, quase não tem consciência de o ser, apenas ouve vagamente falar de certos grupos de jovens nacionalistas anti-semitas. Austríaco, nem ele sabe a que ponto o será, de tal modo o seu horizonte intelectual ultrapassa as fronteiras para abraçar a Europa inteira, sua múltipla terra natal.».

Aos 16 anos era já um «genial poeta» e «são as palavras que lhe oferecem a vida que respira». Apenas «foi três vezes à Universidade: a primeira para se matricular, a segunda para pedir o certificado de assiduidade (!!!) e a terceira para uma agradável conversa com os professores.». Lê muito, e cada vez mais, «escreve novos poemas e não hesita em receber amigos às onze da manhã, em mangas de camisa, despenteado, “navegando” entre montes de livros que cobrem o chão como dantes no seu quarto de criança, os olhos cansados: é que em plena noite uma ideia o acordou e o levou para a mesa de trabalho! Uma boémia activa e fecunda, uma sábia desorganização, um longo e lento desregramento da sua antiga disciplina escolar, tudo o que ele esperava!». Aos 23 anos doutorou-se em filosofia com uma tese sobre Taine. Viaja pela Europa, atinge o mundo todo. Traduz poetas estrangeiros, para aprender com eles; é também ensaísta, dramaturgo, novelista, contista, historiador e biógrafo.

Enquanto o espírito se eleva a altos pensamentos, a alma «enterra-se no negrume de tentações incertas»: «Ao longo da sua vida Zweig manterá uma curiosidade um pouco mórbida pelas formas marginais do sentimento e do desejo»; «O sentimento trágico da existência já está no coração da literatura de Zweig: ele quer sempre interpretar a extraordinária tensão dos nervos, a paixão secreta que dirige a vida e os actos. Esta densidade explosiva que se contenta em aflorar exerce sobre a sua alma uma atracção perigosa, no princípio de um século em que, por duas vezes, ele verá a derrocada.».

A vivência da guerra desmorona-lhe o seu mundo. Crítico do nazismo e regimes fascistas, vê na palavra a salvação: «pelo domínio da palavra, tenho de despertar a consciência dos homens transviados por outras fanfarras. Pela escrita, ilustrar o imperativo da criação que não é mais do que conduzir o género humano para mais humanidade! Mostrar como os chefes enganam os povos nos caminhos do ódio, como as gentes ávidas de conquistas se ligam aos profetas da desgraça, como do caos das paixões pode nascer uma ordem superior, de que maneira uma derrota terrestre contém a promessa da vitória espiritual: é a meta que Zweig se impõe quando começa o seu Jeremias, em pleno 1916. É o seu primeiro combate de homem contra a guerra – em plena guerra.».

Em 1942, Zweig é visitado pela vertigem mórbida, termina o romance O jogador de Xadrez, e joga o xeque-mate da sua existência. «Zweig não foi levado ao suicídio apenas pela guerra mundial, o fantasma de Hitler e a perseguição ao povo judeu. Não; é um homem de sessenta anos que põe fim ao erro de toda uma existência ao serviço de um ideal».


O Porvir da Nostalgia – Uma vida de Stefan Zweig, Jean-Jacques Lafaye; editorial Campo das Letras, Porto, Novembro 2007
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© Teresa Sá Couto

domingo, 22 de novembro de 2009

Escalpe de Amadeu Baptista

Cumplicidade da carne, «expressão do desejo», o centro do corpo, «inquietação na procura do corpo», saliva, esperma, «vício absoluto», paixão amorosa, «sortílegos caminhos», a solidão do amor e a luta contra as sombras que acossam o acto primordial da entrega. Nas livrarias, Escalpe, um poema longo de Amadeu Baptista, com imagens da arte de António Ferra e chancela da &etc .




Extracto:

Nos meus e nos teus rins se acumulam
segredos desusados,
o real é um cúmulo de árvores e areais
desoladores,
visões devastadoras do silêncio,
espaços inaudíveis a sitiar-nos os ombros.

Mas nós, sendo sagrados, ardemos tanto
que sopesamos os ritmos da memória e os da terra,
ainda volúveis,
ainda corça e gamo,
ainda mensageiros.

Assim adormecemos.

Assim velo o teu sono com o meu sono,
assim velas o meu sono com o teu sono.

E são os nossos sonhos sonhos lúbricos,
e fluis suavemente pelos meus lábios,
e fluo suavemente pelos teus lábios.
(p.p. 34,35)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Blackpot, Dennis McShade

texto editado no site Orgia Literária em 17.11.09

Blackpot é a criação literária de um pesadelo, a invenção de uma chave, uma libertação. É uma trama na prosa certeira e desconcertantemente eficaz de Dennis McShade, que convoca a morte, conversa com ela, verte o encontro em palavras como dentes a morderem a precariedade da existência, a estreiteza do mundo. Falo de transgressão: a transgressão dos limites que é imanente à arte, e da qual a obra de Dinis Machado é digníssima representante.

É implacável, negro e assombrosamente iluminado, este Blackpot. Carrega um enleado e terrível pacto com a morte, enfrenta-lhe o carácter inexorável para a corrigir e dar voz à vida. É uma novela sobre a noite que implora, sobre a morte que se vê ao espelho à procura de outra forma que o povoe, à procura de outro sonho, à procura de outra voz. Por isso, o espelho onde a personagem Gulliver se mira é a vigília que procura decifrar o labirinto; por isto, entrarmos em Blackpot é entrarmos no «pesadelo», como o descrito por Jorge Luís Borges, uma «sala circular cujas paredes e portas eram de espelho, de modo que quem entrasse nessa sala ficava no centro de um labirinto realmente infinito». E o labirinto espraia-se por 31 capítulos curtos, vertiginosos e cinematográficos, onde as personagens se matam umas às outras e disparar é o verbo auditivo que a prosa silencia de forma terrível: sob o fumo do tabaco (da narrativa) e o assombro inaudito (do leitor), cumprem-se as balas surdas disparadas das armas com silenciador ou da metralhadora assim emudecida: «as balas da metralhadora estilhaçaram objectos e enfiaram-se, surdamente, nas paredes».
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Não há uma personagem central neste Blackpot. Ela será a morte ou a vida, porquanto nomear uma é evidenciar a outra. Há uma dezena de homens, membros do crime organizado, emboscados na sua própria rede, assassinos precisos no disparo, especialistas em ruínas, solitários, expostos ao critério misterioso de «reorganização cíclica» da Organização. Se há conflito no interior do próprio jogo com regras que obscuramente mudam de direcções, o conflito está também nos próprios jogadores enquanto lugares-limite com que se faz a questionação do homem na sua humanidade: no jogo da vida há que matar primeiro, pois «os acontecimentos, às vezes, vão à nossa frente». Também a questão da negação da identidade tem em Blackpot uma forma indeclinável: o nome dos homens é tão-só o posto que têm na engrenagem da Organização, pelo que, depois de mortos, o seus nomes passam a outros.

Mostrando-nos o trabalho dos relógios na sombra, a narrativa mostra-nos que viver é envelhecer, o acumular de males, a doença. Também neste sentido, Blackpot impõe o silêncio da meditação: a vida é dano, o homem joguete, pelo que há que encontrar o life force (de Bernard Shaw), a força vital para se recriar a existência, força que está no exercício da escrita com que se esconjura o desamparo. Na narrativa, desfilam homens marcados, desenganados, de meia-idade, homens que são o que é ninguém e uma campainha sinistra diz-nos que ninguém é o que todos somos.
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Gulliver, que não prescinde de esfregar o corpo e as mãos com álcool, olha para o espelho, sente náuseas, procura a sanita, vomita alguma bílis e sente-se aliviado. Falar para o retrato do pai morto, como fazia há 30 anos, também o alivia; Armador mata há 40 anos. Ajuda a filha a estudar Matemática, tosse e cospe sangue para um lenço, tem dores de cabeça e febre. Leva a filha à escola, beija-a, vê-a desaparecer no fundo do átrio. E sabe que vai morrer, de doença ou com uma bala; Lorenzo só vê sombras, «ardiam-lhe os olhos e chorava devagar», nada que os médicos pudessem fazer. Com os óculos, olha para o calendário da parede, desiste ao tentar ler os títulos dos jornais, lava os olhos e espera; Ornatto tem uma perna a apodrecer, sem cura, só lhe restando os comprimidos para as dores; Condor sabe que o querem matar, passa a mão pelo peito flácido e preocupa-se com o peso excessivo; Legos discorre sobre os seus problemas enquanto pesca, espera que o peixe morda a isca e gosta daquela «mistura de placidez e impaciência». No final, Victor discursa à amizade e «Os candelabros e as jóias cintilaram.». Até quando é Victor o vencedor, inquire-se em cima dum texto que recorda o carácter precário da existência e que a vida sem nós é pensável.

Contra a morte, toda a morte, há ainda e sempre a voz, mostra-nos Dennis McShade neste Blackpot, onde recebemos, também, fortíssimo, o eco da voz de Herberto Helder: «Olha: eu queria saber em que parte / se morre, para ter uma flor e com ela / atravessar vozes leves e ardentes e crimes / sem roupa. Existe nas ilhas um silêncio para / a poeira tremer, e o teu rosto se voltar lentamente cheio / de febre para o lado de uma canção /terrível e fria.» (1)

(1) Herberto Helder, Ofício Cantante, p.247, Assírio & Alvim

Dennis McShade, Blackpot, Assírio e Alvim, 2009
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© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Imperdível

(clicar na imagem para aumentar)

sábado, 14 de novembro de 2009

Vitor Oliveira Jorge com Electri-cidade em Lisboa

Depois da invicta, no passado dia 5 de Novembro, o arqueólogo, professor catedrático, ensaísta e poeta Vitor Oliveira Jorge vem a Lisboa lançar o seu mais recente livro de poesia: Electri-cidade tem a chancela das edições Colibri e será apresentado pelo poeta Casimiro de Brito, no próximo dia 17 de Novembro, pelas 19 horas, na Casa Fernando Pessoa.

Vitor Oliveira Jorge, nascido em Lisboa em 1948, mas radicado na cidade do Porto desde 1975, tem uma vasta obra publicada, tanto no domínio da Arqueologia como no da Poesia; trata-se de um olhar imenso pelos vestígios e enigmas do tempo e interpelação dos mistérios do canto lírico, em deflagração neste novo compêndio poético de 260 páginas.

Electri-cidade será, pois, um título para desvendar com o máximo interesse, porquanto talhado por um autor de diálogo interdisciplinar, que em 2001 foi distinguido com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito pelo conjunto do seu trabalho, outrossim pela sua actividade cívica em prol da defesa do património arqueológico português.


Ler o poema Falas, na página de Vitor Oliveira Jorge

Outro poema, agora do livro Casa das Máquinas:

Àqueles a quem foi cometida a tarefa
De decifrar o enigma do centro das casas,
A aparição no centro, o corpo pleno,
E o olhar:

Parai nesta suspensão, nesta descida do tecto,
Nesta subida do chão: ruído de tábuas no tempo,
Longe: um comboio deve ter atravessado a noite,
Ou o crepúsculo, ou a manhã: tanto faz, foi longe.

Parai neste corpo. Neste centro com lábios, e ombros,
E mãos dispostas de ambos os lados, enquanto
As madeiras estalam, os bichos invisíveis das madeiras
Se alimentam. Mas os lábios, mas o rosto, mas a presença
Impõe-se, como uma imperatriz: no centro, na casa,
Estirada de alto a baixo do texto. E eu aguardo.

Prolongo o enigma das alças, da roupa interior,
Do frémito que a presença enuncia, e no entanto
Não diz. Apenas vem ao centro, desce e sobe, entre
As paredes perenes do cubo, este enigma cinzento
E melancólico. Um comboio atravessa-se ao longe,
Cinde a consciência como um fluxo de sangue,
Como uma linha recta. Mas o corpo nada diz, apresenta-se.

E todo o enigma, a sua extraordinária presença,
Se vai esgueirando de verso para verso, entre os versos,
Entre as sílabas, até se prender na língua e a língua
Correr ao longe para o comboio, à procura de uns lábios,
De alguém que já aqui esteve no passado, e agora se renova

Entre estas quatro paredes, assim de chofre no algodão
Das saias, na cintura das alças, no silêncio da roupa
Interior. Foi há muitos anos, incontáveis anos, tantos
Quantas as pessoas que circularam no comboio, e partiram
Para sempre na calada da noite, ou do crepúsculo, ou da manhã,

E agora aqui regressam, na presença do corpo, na sacralidade
Do centro, na perfeição da simetria, na apresentação obstinada
Do enigma, do supremo enigma de um tu em saias e ligas,
Em mãos depostas, em braços totalmente nus,

Reflectindo o eco longínquo do oferecimento, no modo como
Os ombros se ajustam à aproximação das mãos do verso,
Nessa insuspeita, assustadora harmonia. Cheira este odor
De hortelã-pimenta: são todos os fantasmas da casa que voltam,
Que me rodeiam, amáveis, na tua figura, pedindo tudo e nada.

Bebo um chá quente e contemplo-te, oh aparição perfeita,
Completa, disponível, formidável obra de amor fotográfico.

Um comboio atravessa ao longe o sulco do sangue. Lembras-te?
Fazia uma cruz, uma cruz sobre o território, e essa cruz
Reproduzia-se aqui dentro, do lado de cá da cal, nas paredes
E nos nossos corpos, marcava indelevelmente o centro.

Isso. Exactamente aí.
Quando a mão do poema te atravessava por debaixo nas saias,
E saía pela cabeça, esplendorosa, digna da soberania dos lábios:

Era (é) uma paragem:
Nunca daí saímos.