terça-feira, 8 de junho de 2010

Fernando Pessoa - tributo à alma estilhaçada e sem fronteiras

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa em 13 de Junho de 1888 e morreu, só e doente, em 30 de Novembro de 1935. Foi sepultado no Cemitério dos Prazeres com o testemunho de cerca de 50 pessoas. No cinquentenário da sua morte foi transladado para o Mosteiro dos Jerónimos, a última morada concedida aos mais altos dignitários de Portugal, para junto daqueles que admirou: o sonhador e o martirizado, Vasco da Gama e Camões.

Mensagem foi o livro da sua vida e o único que viu publicado em vida. A sua voz, impiedosamente denunciadora, e hoje tão actual, grita esta terra onde «tudo é nocturno e confuso», com «três espécies de Portugal, três espécies de português»: um começou com a nacionalidade, «é a forma e o fundo da nação, trabalha obscura e modestamente. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe». O outro «é o português que o não é», o que governa o país, «mas divorciado do país que governa. Contra a sua vontade é estúpido». O terceiro é o «português que fez as Descobertas, o que sonhou, mas que se foi em Alcácer Quibir», deixando, porém, alguns parentes que intentam, ainda no sonho - são os portugueses que «projectam a fé», que procuram ideais.

Deixou-nos um acervo genial de palavras, multiplicadas pela sua heteronímia, marca de um indivíduo que não coube num só corpo nem numa só alma. A escrita de Mensagem foi iniciada a 21 de Julho de 1913, finalizada em 26 de Março de 1934 e posta à venda simbolicamente, em 1 de Dezembro desse ano.

Eu nunca fiz senão sonhar

Mensagem é, também, a voz de um povo, uma raça que partiu em busca de uma Índia, que a tomou e perdeu. Porém, todas as naus são de sonho logo que esteja em nós o poder de as sonhar, ou Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Expõe-se a dor, a nostalgia, a saudade, mas fomenta-se um devir com glória, com um olhar fito no mar, no horizonte, na esperança: Sem a loucura que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?.
.
É preciso que a chama ilumine o herói, fecunde a realidade e faça com que a vida valha a pena ser vivida. E dá-nos o seu exemplo: Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: Navegar é preciso; viver não é preciso. Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que sou: viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma lenha desse fogo.
.
«Eu nunca fiz senão sonhar», escreveu Bernardo Soares, semi-heterónimo de Pessoa. E a mensagem final de Pessoa é que Portugal tem de se elevar através de uma espiritualidade forte, capaz de subjugar todas as adversidades. É um repto para se cumprir...

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Espólio de M.S. Lourenço doado à Biblioteca Nacional

O espólio de M. S. Lourenço já nos pertence. O Termo de Doação à Biblioteca Nacional  (BNP) foi concretizado dia 27 de Maio. Falecido no ano passado, M. S. Lourenço lega-nos uma obra de valor incomensurável. O momento é, pois, de alegria. E de comoção.


(clicar na imagem para aumentar)
´
Recordo que a Assírio&Alvim editou há pouco o O Caminho dos Pisões, que reúne toda a obra publicada de M. S. Lourenço, sendo ainda fácil de encontrar os livros individuais Nada Brahma e Os Degraus do Parnaso. Ver referências AQUI.

sábado, 22 de maio de 2010

Grande Prémio do Teatro Português SPA/Teatro Aberto para Rui Herbon

Rui Herbon acaba de arrecadar o Grande Prémio do Teatro Português SPA/Teatro Aberto com o texto dramático O Álbum de Família. O Prémio, no valor de cinco mil euros, foi entregue ontem à noite, na SPA, em cerimónia com a presença da Ministra da Cultura. O autor, que no próximo dia 25 de Maio lança o livro A Chave, já tinho sido agraciado nas letras dramatúrgicas, Prémio Maria Matos 2007 de Dramaturgia, com o texto Masoch.

A peça O Álbum de Família será publicada e representada no Teatro Aberto, no próximo ano. Reproduzo a nota de Rui Herbon que acompanha o texto original, com agradecimentos ao autor por ma ter disponibilizado:

Esta obra, não sendo auto-biográfica, é uma tentativa de partir de trás para reconstruir-me, e tentar ajudar os espectadores a reconstruir-se. Saber que o edifício veio totalmente abaixo e, com novos tijolos e cimento, tomar consciência sobre uma nova realidade possível até à qual havemos de viajar.
.
O tempo não é recuperável; e o espaço tão-pouco. Quando passamos por um lugar, esse sítio já não volta a ser o mesmo. Cada momento morre em si mesmo, desaparece o momento e o seu espaço. O fluir é um vidro; não deixa nada atrás. Só ficam sensações, fitas magnéticas acumuladas no nosso cérebro que, ao pôr-se em marcha, umas motivam que surjam as outras, bombardeando-nos com milhões de impressões. Numa fita estão gravadas as sensações, noutra as emoções, noutra as memórias, noutra os espaços, noutra os tempos...
.
As memórias são como um rio parado, convertido em gelo. A fotografia é a morte da realidade. Quis reflectir nesta obra uma inquietude que tenho desde os meus primeiros anos de vida: a luta entre o que flui e o que permanece, entre o álbum e o comboio... Como nos pesa o que levamos sob o braço, e sob o coração - queiramos ou não -, no nosso projecto de futuro.


*ver outros textos meus sobre Rui Herbon, Aqui

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Novo livro do poeta Torquato da Luz

Conhecido pela simplicidade cristalina da escrita e pelo olhar íntimo e limpo com que ilumina o real, o poeta algarvio Torquato da Luz tem novo livro: Espelho Íntimo será lançado já no próximo dia 26 de Maio, na livraria Barata (Avenida de Roma, 11 A, Lisboa) pelas 19 horas. A apresentação é de João Gonçalves, com leitura de poemas de Inês Ramos.
Deixo um poema deste novo compêndio, com agradecimentos ao poeta de Ofício Diário.
.

Ilusão
.
Apenas é real o que é sonhado.
A nossa imaginação
é que faz o que vemos e tocamos.
Seja qual for o lado
por que se encare a questão,
só existe o que arrancamos
do fundo do coração.
Tudo o mais em que teimamos
não passa de ilusão.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

não se brinca com facas, José António Barreiros

(texto editado no sítio da Orgia Literária a 11.05.2010)


O homem é «um equilíbrio difícil em dois pés precários», escreveu Vergílio Ferreira, ele que soube como ninguém retratar a tensão insuperável do homem consigo mesmo. Neste trilho ôntico, chega-nos o não se brinca com facas, recente título de José António Barreiros, com a palavra a erigir a vida ao abordar a fragilidade da existência, a solidão, a incompreensão e a interrogação da identidade a acordar a consciência do fracasso.

Estreia no género Romance, não se brinca com facas sucede a Contos do Desaforo, editado pela Presença em 2007, e com o qual, por sua vez, o autor se iniciou na escrita de ficção. Se em ambas as obras reconhecemos a problemática das vivências, o olhar hábil sobre o real e a escrita segura do autor, este novo livro segue, todavia, um programa narratológico distinto. Romance intimista e de forte densidade psicológica, não se brinca com facas assenta a sua intriga dentro das personagens, cabendo à escrita desvelar esse centro fechado, estiolado, ulcerado das existências: Júlia «há muito deixara de usar o relógio» e «os pés encaminhavam-na para o vazio»; Mário pensa-se «repetidamente até ao cansaço»: «Mário estás exausto de ti»; Pedro sente-se velho e «um sentimento de exílio acompanhava-o»; o emprego de Manuela «comprara-lhe a despersonalização para bem atender clientes personalizadamente».

A manusear estas quatro personagens de vidas cruzadas, fundadoras da narrativa, está um narrador engenhoso que se confunde com elas, fala com e sobre elas, assume-se como a voz das suas consciências, confunde-se com o autor e fala com o leitor enleando-o na questionação da condição humana, piscando-lhe o olho, ora subtil, ora declaradamente: «há sempre um livro que faz as vezes, há sempre um livro que conta a nossa história».

E se a história que se conta pretende descascar o porquê, «nem tudo o que é interrogativo tem de encontrar resposta, porque há a curiosidade e o mistério», lê-se para se compreender o método escolhido que origina uma narrativa fragmentária a contar uma história a suceder-se, como a vida, com as suas imprevisíveis erupções.

Na linha dos existencialistas, e logo a abrir, a assunção do homem enquanto um ser possível, sempre em construção, um “ainda não”: na manhã do primeiro dia do ano – porque «há sempre um primeiro dia» – Júlia, que «tinha saudades do que fora, agora que não sabia o que era», enceta uma viagem de comboio de Lisboa a Braga, na busca duma «possibilidade de destino». Distante de si, estranhando-se a si mesma, a personagem reúne os fundamentos da demanda existencial, Leitmotiv desta obra: «O que se faz numa terra estranha quando nós próprios nos estranhamos, desencontrados? Era tempo de viagem, de fuga, de recusar o destino, rir da fatalidade». Todavia, porque o ser humano é memória, Júlia carrega, na sua mala alegórica, vozes, desamor, vergonha, pudor, remorsos e um «ligeiro receio antiquíssimo, medo de lhe pesar nos ombros o fardo do seu futuro», «medo de já não mais se iludir». Ao sentido de inevitabilidade do tempo dissoluto, junta-se a noção do homem enquanto ser responsável pelo seu percurso – e de novo ressuma a visão sartriana da existência –, de se criar a si mesmo, elegendo-se e elegendo os seus possíveis: «há muito que o cinismo lhe dissolvera, ácido, a doçura da crença: nesta hora exacta, o momento zero da responsabilidade própria, sabia que não tinha ninguém», e, noutro passo, «o que fizeste de ti que nem o corpo te sobejou.».

Se o comboio é a metáfora da viagem humana, as janelas, a transparência que o nada representa, exibem o destino emoldurado, o retrato do percurso feito, a sombra tombada da existência no fulgor do vidro, no brilho da escrita. Nas janelas do comboio em movimento, sucedem-se as memórias, vivificam-se os espectros, procura-se o “eu” que surge em manifestações quotidianas; no reflexo das janelas, sonhos confundem-se com realidades, regista-se a angústia perante o nada a que se chega construindo-se um conceito trágico da condição humana. É a existência a segregar o seu próprio nada, pela acção da consciência – ainda na linha do pensamento de Sartre e de Heidegger –, e tudo desembocará nesse nada. As janelas são o elemento simbólico central no cumprimento desta narrativa existencial de José António Barreiros, estão ao longo de toda a obra a suturar falhas, a estabelecer diálogos entre o interior do ser humano e o infinito onde ele se projecta. Da janela da sua casa, Júlia, «rasgada de solidão», observava «os latões do lixo», os quais tivera como única companhia, eles que, como ela, «albergavam memórias de festas», depósitos do «rejeitado» e do «abandonado»; com um salto de uma janela, um «voo cego carregado de desejo de voar», uma prima de Júlia suicidara-se.

«Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio à existência, a repulsa pela existência, são outras tantas maneiras de a cumprir, de mergulhar nela» (1), escreveu o autor de La Nausée. «E sei que nesta narrativa me esqueci completamente de ti, Manuela, e da tua história, a história da tua revolta e não tens outra» (p.150), escreve José António Barreiros neste não se brinca com facas, narrativa que transporta em si a revolta de personagens sem lugar, que a palavra escrita acoita.


(1) Sartre, A Náusea, Europa América, 1976


José António Barreiros, Não se brinca com facas, Labirinto de letras, 2009

Ver outros textos sobre livros do autor na etiqueta correspondente.

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A Chave, novo livro de Rui Herbon

Prémio Branquinho da Fonseca de Conto Fantástico, 2009, A Chave é o novíssimo título de Rui Herbon a chegar às livrarias no final deste mês.
O lançamento está agendado para o dia 25 de Maio, às 18:30, na Bulhosa de Entrecampos. Será apresentado por mim.
Como sempre, editarei aqui, posteriormente, o texto que servirá de base à apresentação.

**

Deus move o jogador que move a peça
Que deus atrás de Deus o ardil começa
De pó e tempo e sonho e agonias?

Jorge Luis Borges


Extracto:

«O livro tinha por título Doze variações sobre a defesa Alekhine e o seu autor era o próprio Michel. A mulher, alta e esbelta, com longos cabelos negros ondulados e uns grandes olhos que às vezes pareciam cinzentos e outras azuis, disse chamar-se Lucrezia. Michel escreveu com rapidez uma dedicatória na primeira página do volume, mas enquanto o fazia, não pôde evitar perguntar-se como era possível que uma mulher tão bela se sentisse interessada por uma obra tão enfadonha quanto a sua.

– Joga xadrez? – perguntou Michel, enquanto lhe devolvia o livro.

– Sou apenas uma amadora – respondeu ela –, contudo, pode dizer-se que o xadrez é a minha vida. – Um estranho sorriso reverberou nos seus lábios. – Ou talvez seja mais correcto afirmar que o xadrez é a vida, não lhe parece? Dois princípios opostos debatendo-se sobre um tabuleiro cósmico: branco contra preto, Ormuzd contra Ariman, Cristo contra Satanás.».



*Ver textos sobre obras de Rui Herbon, bem como uma entrevista, na etiqueta com o seu nome.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Contas à Democracia

Perto de se celebrar mais um 25 de Abril, resgato este texto, elaborado há precisamente dois anos, sobre mais um livro imprescindível de Viriato Teles, para um reflexão necessária.

Contas à Democracia - Viriato Teles na missão de interpelar o tempo

Não é filósofo, nem sociólogo, tampouco analista político. Viriato Teles é apenas um português embrenhado no seu tempo, que vive a vida interpelando-a, com o dom superior de saber ouvir vozes individuais para, registando-as na palavra escrita, as devolver, plenas e inquiridoras, ao colectivo a que pertencem.

Quando passa mais um aniversário da Revolução de Abril, é ele que nos desafia à reflexão sobre os caminhos da nossa jovem Democracia, com Contas à Vida – Histórias do Tempo que passa, editado em 2005. São 20 conversas desatadas por entrevistas a personalidades dos mais diversas áreas da sociedade nacional, que viveram a revolução com frémito e esperança; não lhes é perguntado onde estavam no 25 de Abril, mas onde está e para onde vai o 25 de Abril; são as parcelas da prova dos nove que nos desfralda uma verdade irrefutável: Abril está na prática quotidiana da denúncia da injustiça, no inconformismo e na luta pela felicidade, o combate que legitima o homem, agora e sempre.

Nas 330 páginas deste Contas à Vida, não se dão respostas. Insurrecto, Viriato Teles, consegue muito mais: faz perguntas, às vezes directas, muitas vezes indirectas, sempre nascidas da interacção com os interlocutores que vão deixando escapar nostalgias, desencantos, pessimismo, mas também alguma esperança, quiçá cônscios de que a utopia é necessária para a caminhada; as suas perguntas alcançam-nos, leitores, estimulando-nos à auto – reflexão, num parto de ideias, espécie de maiêutica socrática, mas pelo timoneiro Viriato Teles, também ele enredado no processo que criou. Aliás, esta contaminação entre autor e leitor é uma das marcas inconfundíveis do jornalista, que torna magnética a leitura dos seus textos.
Gozando de liberdade reflexiva – num livro que se propõe fazer um retrato dos caminhos da Liberdade –, surgem as 20 personalidades, dispostas de A a V: Alberto Pimenta, Alice Vieira, António Pinho Vargas, Baptista-Bastos, Edmundo Pedro, Fausto Bordalo Dias, Fernando Relvas, Francisco Louçã, Isabel do Carmo, João Soares, José Mário Branco, José Medeiros, Luís Filipe Costa, Manuel Freire, Maria Teresa Horta, Mário Alberto, Padre Mário de Oliveira, Odete Santos, Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Gonçalves, o qual tem neste «Contas à Vida» a última entrevista dada – o militar de Abril e antigo primeiro-ministro morreu em 2005 – não chegando a ver o livro, disse-nos Viriato Teles.

E depois da Festa…

«A flor não é a certeza do fruto», disse Almada Negreiros. «O dia 25 de Abril de 1974 será esquecido. É inevitável», refere Tiago Rodrigues no Prefácio, aludindo à perda do valor da Festa coroada com cravos rubros. Todavia, sugestiona-nos, é preciso esquecermos Abril para «podermos começar a pensar na próxima festa, o que nos faz lembrar da razão que tinha Natália Correia ao afirmar que «só os medíocres sabem o que fazer com a vitória»; é também neste sentido de eterna construção do sonho que entendemos as palavras de José Mário Branco: «vai ser preciso fazer muitos mais vinte-e-cincos de Abril para recuperar o que se perdeu e se avançar no sentido da felicidade e da justiça da sociedade.». E não é esta energia do sonho um legado da Revolução de 1974?

Trinta e quatro anos depois das conquistas de Abril como vai a nossa Democracia, a nossa capacidade de crítica, e a nossa participação cívica?

Hoje, verifica-se perda de entusiasmo, diz a jornalista e escritora Alice Vieira, e surgem novos tipos de censura, como a «censura económica» que se alimenta da actual crise no trabalho e da fragilidade do trabalhador que necessita do pão na mesa, o que o faz calar-se perante o patrão, pois pode «ir para a rua e estão logo cinquenta» para o seu lugar.
Baptista Bastos aponta responsabilidades especiais aos partidos políticos de esquerda, aos jornais e à actual Literatura pela incapacidade de formação da massa crítica social: «O Guterres, cada vez que via um socialista ficava assustadíssimo!»; «O PCP está completamente esvaziado de conteúdo»; «os jornais não têm debate, não suscitam reflexão. Mas suscitavam no tempo do fascismo…»; «a literatura portuguesa está toda ela uma grande merda. Porque as pessoas estão a contar as suas vidinhas sem terem vidas para contar».
Apesar de nos ter restituído a cidadania, «dá a sensação que estamos cada vez mais longe dos objectivos do 25 de Abril, diz Fausto, para questionar: onde está a justiça social? Onde está garantido o direito à felicidade das pessoas quando estão à mercê de uma sociedade fortemente competitiva e onde milhares de jovens estão condenados ao desemprego, à marginalização, porque são dirigidos para se formarem em cursos completamente desadequados às necessidades do mercado e do país?».

Comentando o actual capitalismo tentacular, que debilita as ideias anticapitalistas e cria fossos sociais, João Soares nega-lhe a «inevitabilidade, porquanto reconhece nas classes mais jovens, que não se identificam com a «lógica de competição desenfreada, despudorada e feroz» do neoliberalismo, «espaço e apetite», e «uma grande vontade de construir alternativas».

«As revoluções não são apenas uma festa, isso sabemos desde o dia em que esta começou» e, por isso, «o 25 de Abril anda por aí», escreve Viriato Teles na Conclusão com que encerra as conversas. Haverá saudades? Certamente. Mas que sejam «saudades saudáveis, não nostálgicas ou melancólicas. Saudades que animam a luta pelo futuro», como as saudades assim descritas por Vasco Gonçalves. A prova desse ânimo está em nós, foi uma conquista de Abril, que este livro, em boa hora, volta a despertar. A prova está na resposta à provocação activa de Viriato Teles: «E se amanhã tivesses que dar a voz a outro 25 de Abril?». O jornalista e realizador Luís Filipe Costa responde, e na sua resposta reconhece-se a do imenso colectivo: «Ia já, a correr! (…) Desta vez não precisava nem de um minuto (…) desta vez, não vamos levar tanto tempo a acordar.».

Contas à Vida – Histórias do tempo que passa, Viriato Teles; Editora SeteCaminhos, Lisboa, Julho 2005

© Teresa Sá Couto
.

Ver texto sobre o recente As Voltas de um Andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso e outros textos sobre livros de Viriato Teles na Etiqueta correspondente.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A (re)Invenção do Dia Claro

Corria o mês de Novembro do ano de 1921 e “Olisipo” editava uma jóia literária do mestre Almada Negreiros: «A Invenção do Dia Claro». Maio de 2005 e “aquele dia” reapareceu tão claro como o original, num fac-símile pela mão da editora Assírio&Alvim. Desde então, o livro mantém-se em destaque nas prateleiras de muitas livrarias.

Nem uma palavra a mais é acrescentada nesta reedição. Nem é preciso. Tudo igual, da capa à contracapa. Até o papel sépia ostenta as manchas amarelecidas, e a imaginação urde o cheiro do tempo ao embrenhar-se no português falado nos anos vinte do século passado, nas palavras intemporalmente rebeldes.

Na capa, Almada esclarece ser esta uma Escripta de uma só maneira para todas as espécies de orgulho, seguida das démarches para a Invenção e acompanhada das confidencias mais intimas e geraes. Claramente um manifesto, como o foi toda a atitude de vida de Almada espraiada numa profusa e eclética intervenção artística. Interpretar o mundo, moldar o tempo e desafiar o futuro foram as grandes marcas do autor, bem patentes no «A Invenção do Dia Claro».
.
A abrir, um retrato «do autor por elle-proprio», destacando-se-lhe o olhar visionário. Dedicado ao amigo Fernando Amado, Almada confessa: «Eu queria que os outros dissessem de mim: olha um homem! Como se diz : Olha o cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma arvore! quando ha uma arvore. Assim, inteiro, sem adjectivos, só de uma peça: UM homem!».

Na primeira parte «Andaimes e Vésperas», entre vários pensamentos curtos e certeiros, na conta certa que alveja o leitor, Almada discorre uma «Conferência Improvisada» acerca do homem e da mulher: «Minhas senhoras e meus senhores: Mulheres e homens são as duas metades da humanidade – a metade masculina e a metade feminina. (…) A linha que passa por entre estas duas metades é parecidíssima com o ar por dentro de uma esponja do mar, seca.».

Três pensamentos depois deste, a sua viagem intelectual fá-lo aportar ao cais das palavras dizendo sobre elas: «O preço de uma pessôa vê-se na maneira como gosta de usar as palavras. Lê-se nos olhos das pessôas. As palavras dançam nos olhos das pessôas conforme o palco dos olhos de cada um.». As palavras são os barcos que o levam a todos os lugares, porque cada palavra «é um pedaço do universo». Com as palavras todas juntas, Almada destece-se tecendo o seu universo.

Em «Ensaios para a iniciação de portuguezes na revelação da pintura», ensina-nos sobre o desenho de uma flor:

Pede-se a uma creança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A creança vae sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas n´uma direcção, outras n´outras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A creança quis tanta força em certas linhas que o papel quasi que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o pezo do lápis já era demais. Depois a creança vem mostrar essas linhas ás pessoas:

Uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de
uma flor!

Comtudo, a palavra flor andou por dentro da creança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, á procura das linhas com que se faz uma flor, e a creança pôz no papel algumas d´essas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus logares, mas, são aquellas as linhas com que Deus faz uma flor.

A par das artes plásticas, as palavras sempre foram um porto seguro donde “partia sempre depois de chegar”, e sempre inteiro. E inteiro é com meiguice e truculência, idealismo e pragmatismo, iluminação e opacidade, sofrimento e gáudio, cólera e humor refinado ou ironia contagiante. Ou, ainda, Almada inigualável.


A Invenção do Dia Claro, José de Almada Negreiros, Assírio &Alvim (edição fac-similada da de 1921); Lisboa, Maio de 2005


© Teresa Sá Couto

domingo, 28 de março de 2010

Contagem Bang!

Eis o regresso da revista de literatura e fantástico, a Bang!  número 7.
Tempo da contagem decrescente para a apresentação.
Imperdíveis, o evento e a revista, podendo esta ser adquirida na página online da Saída de Emergência.


(clicar na imagem para aumentar)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Uma questão de gatos

«Ser ou não Ser um Gato é uma questão» e aqui a questão é artística. Refiro-me ao pequeno livro Só à noite os gatos são pardos que reúne 43 autores à volta da temática destes animais, com textos inéditos de poesia e prosa. A organização cabe a Jorge Velhote e Patrícia Pereira para uma edição Cantinho do Tareco - Associação de Protecção Animal.

As palavras contidas nas 73 mágicas páginas são semafóricas, sorrateiras, matreiras, ronronantes, acudindo à matéria felina que edificam. São retratos humanos dos gatos, entenda-se, sendo este entendimento a consciência do carácter esquivo e insubmisso do gato, ser «livre, invisível e alado, capaz de estar vivo e ainda assim não deixar rasto», como escreve Sara Canelhas no belo Prefácio.

Nos processos de construção da palavra estão a memória, a fantasia, a cumplicidade, o testemunho, e sempre a ideia do animal como um enigma fascinante. Na janela com escritos / o gato espera, escreve António Barbedo no poema minimalista; e sorrimos assentindo, porquanto escrever os gatos será sempre tarefa inacabada.
.
As ilustrações de Ricardo Ayres – que podem parecer discretas, todavia são marcantes - intentam fixar momentos expressivos dos gatos, no seu quotidiano; o propositado movimento do traço sugere-nos o desdém dos animais por qualquer tentativa de o agrilhoar numa imagem.

Assinam os textos: A. Dasilva O., Alexandra Malheiro, Amadeu Baptista, Ana Luísa Amaral, António Barbedo, António Ferra, António José Queirós, Aurelino Costa, Bruno Béu, Carlos Lizán, Carlos Poças Falcão, Cristina Carvalho, Diogo Alcoforado, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Francisco Duarte Mangas, Gabriel Mário Dia, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, João Manuel Ribeiro, Jorge Velhote, José Álvaro Afonso, José Emílio-Nelson, José Leon Machado, José Miguel Braga, José Viale Moutinho, Luís Filipe Cristóvão, Luísa Ribeiro, Maria do Carmo Serén, Mário Anacleto, Nuno Dempster, Renato Roque, Rosa Alice Branco, Rui Amaral Mendes, Rui Lage, Sara Canelhas, Soledade Santos, Tiago Worth Nicolau, Teresa Tudela, Vergílio Alberto Vieira, Victor Vicente e Vítor Oliveira Jorge.

Transcrevo dois poemas, numa escolha difícil:


Os gatos da minha mãe

Os gatos da minha mãe caminham
sobre as margens das coisas simples.
Não vão à praia. Sinalizam
a preguiça invadindo silenciosos
o regaço das visitas. E escutam,
privilegiados, obscuras conversas
sobre desnecessidades ou
invasivas devassas alheias.
Olham soberanos o nosso
olhar onde passam
obrigatórios como sombras
ou luz – e quando regressam
com passinhos de veludo
dos seus desvairados lugares
traduzindo a nossa ignorância
instauram a evidência, o conhecimento
fortuito, os limites imputáveis
à ternura com que, sedosos
e felinos, se deixam afagar.

Apenas não arborescem.

Jorge Velhote, p. 37


O gato que me fugiu

Era um gato fininho
como os gatos egípcios
e tão altivo
que diria ter sangue
de Nefertiti,
e tão dourado
que parecia a imagem de Bastet,
a deusa-gata.
Entrou-me pelo sonho sem ruído
e passeou por mim
sem fazer caso algum
do meu espaço.
Às vezes ronronava,
roçando-se,
e pedia comida e não comia.
Quem sabe fosse
um gato intemporal,
espírito do Delta,
orgulho e porte esquivo
que não se alimentava
senão dos grous em
poemas do Antigo Egipto.
O certo é que deixei de vê-lo
e, quando despertei,
soube que não havia hipótese
de ele voltar
por causa do ladrar dos cães.
E assim este poema
tornou-se em elegia para o gato
que não terei
e a que já tinha posto
até um belo nome. Faraó.

Nuno Dempster, p.p. 50,51


notas:
agradeço ao poeta Jorge Velhote a generosidade pelo envio deste livro.

Na sequência dos muitos pedidos de esclarecimento sobre como se adquirir este livro: pelo endereço cantinhodotareco@gmail.com. O valor unitário é de 7,50 €

quarta-feira, 10 de março de 2010

Livro das Quedas

Dois meses após ter feito o pagamento do Livro das Quedas à Wook, eis que o exemplar me chega a casa. No sítio da Wook, empresa de compras online de livros, propriedade do Grupo Porto Editora, lê-se que «normalmente segue pelo correio em 10 dias», como se constata clicando na ligação.

Nos dois meses de anomalia, fui brindada com comunicações semanais a darem-me conta da dificuldade de obtenção do exemplar e asserções a descartar toda a responsabilidade, remetida, esta, para a editora (a Roma Editora) que tem a chancela do título. Nem tudo está bem quando acaba bem: sumiu-se-me qualquer vontade de voltar à Wook.

Noto que a encomenda deste livro surgiu na altura em que atentei mais apuradamente em várias obras de Casimiro de Brito, para elaborar o meu texto crítico sobre o recente En La Vía del Maestro - Un viaje con Laozi , texto que foi editado no sítio da Orgia Literária em 01 de Fevereiro último.

Do Livro das Quedas, transcrevo dois poemas:


Se não existe o que vejo,
se a música nocturna é uma mentira
composta pela exaltação dos meus sentidos,
bom será
que eu veja de novo,
obsessivamente,
a gota de suor, a mancha no espelho, o sorriso
dos livros fechados
ou deixe de ver, ouvir, amar
de uma vez por todas. Se Deus está cego
e nada sabe da usura
é natural que eu escreva melhor
às escuras. (p.47)

*
Se o mundo não tivesse palavras
a palavra do mar, com toda a sua paixão,
bastava. Não lhe falta
nada: nem o enigma nem
a obsessão. Entregue ao seu ofício
de grande hospitaleiro
o mar é um animal que se refaz
em cada momento.
O amor também. Um mar
de poucas palavras. (p.146)



terça-feira, 9 de março de 2010

Policial de Fernando Pessoa

Para ir. Impreterivelmente.


(clicar na imagem para aumentar)

quinta-feira, 4 de março de 2010

Ciclo de Cinema Modernista

Em resposta a inúmeros pedidos, eis a informação sobre o Ciclo de Cinema Modernista incluído no Ciclo de Conferências Modernismos, Futurismos, Sensacionismo & Pós, a decorrer na cidade de Almada.


(clicar na imagem para aumentar)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Novo livro de Henrique Normando

Titula-se não acordes o gato e é o novíssimo livro de poesia de Henrique Normando. O lançamento está marcado para  o próximo dia 27 de Fevereiro, no Ateneu Comercial do Porto, pelas 16H30

(clicar na imagem para aumentar)

Este novo título de Henrique Normando (pseudónimo de Manuel H. Martins de Campos) segue-se ao Esfinges, primeiro livro de poesia do autor, publicado em Outubro de 2009. Formando de Mestre João Hogan e Maria Gabriel, Henrique Normando cria palavras com o olhar artístico, com a ductilidade das tintas; o resultado é uma poesia que investe no real, explorando-lhe os mais diversos sentidos, e, a partir dele, solta-se em movimentos e urdiduras  inesperadas, sempre à procura das novas potencialidades da palavra.
.
«O conteúdo deve sobrepor-se à forma e ao estilo, pelo que a Poesia não deve reduzir-se a um mero jogo de palavras», defende H. Normando; uma asserção que rejubila leitores (e, no, caso, a crítica literária) cansados da poesia que se esvazia no burilado de formas, que se esforça na pungência do ornato.
não acordes o gato é, por tudo isto, um livro que nos acorda e desafia. Para seguir atentamente, e conferir. 

Poema do novo livro:

O Fenómeno da Luz
.
.A luz dos teus olhos
É o enigma do comprimento de ondas e partículas
Que estranhamente se desprendem de forma descontínua
Até me transformarem num espectro
Que timidamente se aproxima
.
É a luz que me ofusca e me dissolve
No mar até à linha do horizonte
É a luz da lua receptiva
Que se reflecte no azul de forma esquiva
Como imagem entrecortada e derivante
.
É a luz agitada do amante que peca
E que não se propaga em linha recta
.
É o momento mágico
De um envolvimento de partículas
Que estão para além das leis da física
A luz revolvida pela maré que se prolonga
Num êxtase sublime em cada onda


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Caminhos poéticos de Nuno Dempster

(texto editado dia 22 de Fevereiro de 2010, no sítio da Orgia Literária)


Em Londres, o novíssimo poema longo de Nuno Dempster, desfila a humanidade imperfeita e a aventura de viver nessa imperfeição; libertam-se vozes, intelectualiza-se a emoção, redimem-se ruínas e mostra-se que «num pint de cerveja» e num poema «pode conter-se o universo».
.
Poema sobre a errância humana, Londres é o «cruzamento / dos mais insuspeitados caminhos / e as estradas que sustentam / o planeta na sua teia passam todas por aqui», o ponto de encontro da humanidade chegada de avião ou «nave» – a «Barca do Inferno de Gil Vicente» –, gente que não conhece Deus e só conta consigo mesma na aventura turbulenta de existir. São os «incansáveis cavaleiros na Terra», com o carrego da sua tragédia, que desembarcam no clarão desta escrita, porque a verdade não pode ser dita doutra maneira. São eles que aqui se invocam, é a vida deles, e o seu espírito, que aqui se comunga; uma «tarefa de barco» feita compromisso de escrita de Nuno Dempster: «e chamo: / – Ei, aonde ides? Esperai, esperai, bebei. // Nunca desejei tanto como hoje ser um de vós. / Por mais trágico que se torne o destino, / não me importava de sê-lo continuamente convosco, // eternidade sem Deus, // a eternidade calorosamente humana que guardais». (p. 15)

Ancorado na noção de que existir é ser personagem, na ideia de palco onde a humanidade desfila sob orientação dum «dramaturgo lúcido e honesto», este poema aproxima-se da poesia dramática, a qual tem em Shakespeare insigne representante; se, em Como Vos Aprouver, o autor inglês se detém na ideia da representação e da artificialidade da vida, retratando com pessimismo as sete idades do homem – «O mundo é um palco / E todos os homens e mulheres simples actores: / Têm as suas saídas e entradas, / E, em vida, um só homem tem vários papéis»(1) –, Nuno Dempster distende aquele princípio, conferindo singular unificação a um texto que denuncia o arruinamento humano: nesse mundo concentrado que é Londres, «é possível olhar os actores / que desfilam rumo às suas vidas conturbadas», mas cada um de nós só pode representar uma vez, condenados a assistirmos à nossa própria condição.

Olhar os outros – «o olhar procura impaciente o sinal de outra humanidade. / A sede de mundo é inextinguível» – ir com eles e ir neles suscita outro princípio da poesia dramática: a despersonalização do sujeito poético que apresenta estados de alma pensados e não sentidos, porque os compreende; o que sente com a imaginação a alma das outras personagens, fazendo delas vozes íntimas (e aqui ecoa a poesia de Konstantinos Kavafis, ainda que com sentidos diversos): «em que pensará a hospedeira de bordo? / A dor amaciou-lhe o rosto e tornou-o belo»; «Aonde ides, aonde ides, / ó raparigas celtas, ó filhas de viquingues?»; «de que murmúrios nasce a penumbra da vossa intimidade?»; «Irei em vós?»; «Não sei para onde me levam. / Para a vida, decerto para o sonho que guardam / e os sustenta e lhes dá vigor, / em enormes copos de cerveja. / Chamam-lhes pints. / Um pint é mais de meio litro de afrodisíaco.».

Com espinhosa lucidez – porquanto «A descoberta da humanidade / é um acto cansativo e doloroso, // e a lucidez não serve de nada, / excepto para morrermos / todos os dias pelos outros» –, a penosa lucidez dos olhos abertos – «Vêem como eu vejo / o fluir da multidão diversa? // Vêem quantos rostos a formam, / tão vária que em todos sigo?» –, Nuno Dempster cata na bruma todas as linhas para as esculpir na escrita, o que é, aliás, marca do autor, ao mesmo tempo que mostra que vermo-nos nos outros é também fundamento de solidão; e se a solidão medita, a meditação encontra a consciência das limitações, das impossibilidades, adensando-se o sentido trágico da vida: «Assalta-me não ser o que vejo, / não me diluir no que olho.». A escrita surgirá, assim, contra todas as impossibilidades: «nos olhos vai a claridade dos poemas, / a essência do absoluto impossível». Neste programa do olhar irrompe, fortíssima, a atitude indagadora e questionadora das convenções, a crítica sobre a realidade, a delação social e económica, feitas matéria de reflexão:

(…) Afinal, em Lisboa, os sem-abrigo cobrem-se com o Público,

lembraria uma turista portuguesa,
lavando as mãos diante de vagabundos intoxicados
de álcool e de fome,
provavelmente de solidão,
e sem dúvida de maldade.
.
Não estou a vê-los em Portugal
agasalharem-se do frio com o Diário da República.
.
Ainda que o imaginassem, não o fariam com medo
de a polícia os expulsar da casa que não têm
e de os fiscais lhes cobrarem o imposto de habitação,
e assim o meu país europeu mantém-se
na cauda dos índices de conforto.
.
Eis as notícias que me chegam a Londres
da capacidade de revolta nessa parte ocidental da Península Ibérica. (…) p. 17

Em Londres, tal como na restante obra de Nuno Dempster, estabelece-se uma relação complexa entre sentir e pensar: a referida lucidez do olhar no aprisionamento da realidade não significa ausência de emoção, mas sim de emoções intelectualizadas, pelo que irrompem no texto através da recordação, através da memória. É, ainda, pela memória que se faz a confluência dos tempos – passado, presente e perspectivação futura – e se encastoam a ironia e a descrença: «Virá o tempo em que filhos combaterão os pais, / virá o tempo em que as crianças e os pássaros serão esmagados, // mas virá o dia em que a subversão do humano não mais é possível, / e das cinzas, como Hórus, / um brado se levante e proclame “Basta. Chegámos ao limite” / e alguma luz nova, ou paz inteligente, ou vontade extrema / nos obrigue a reaprender a simplicidade de Tebas.». (p. 35)

Com Londres, texto de uma notável robustez poética, Nuno Dempster confirma a sua importância nas modernas letras portuguesas. «Não é possível ser-se pessimista, / Tudo aqui é permitido imaginar, // menos horários e aeroportos», lê-se no poema marcado pelo pessimismo que se redime, fulgurantemente, na escrita, explicado, também assim, pelo próprio texto: «Tudo é possível no que escrevo, / mesmo Homero e Shakespeare confabularem / cheios de entusiasmo pela humanidade». (p. 39).


(1) William Shakespeare, Como Vos Aprouver, Campo das Letras, 2008

Nuno Dempster, Londres, &etc, 2010

Dispersão
Recordo que Nuno Dempster editou, em 2008, a sua poesia reunida com o título Dispersão e chancela das Edições Sempre em Pé. Um compêndio de uma poética singular, cuja análise trarei aqui a curto prazo. Com agradecimentos ao Nuno Dempster pelo pronto e generoso envio deste livro bem como o  Londres, deixo dois poemas do Dispersão:


Gaivota de poemas

Era ainda a gaivota ideal e branca,
aquela que pairava sobre as ondas,
e o meu olhar seguiu-a vagamente,
longe, na praia, de onde o entardecer
levava os guarda-sóis e sua gente.
Seria uma gaivota de poemas,
ignorante dos restos de que as outras
gaivotas pós-modernas se alimentam.
Porém, deserta a praia e o Mediterrâneo,
acercou-se da areia e, já pousando,
devorou com as mais o lixo todo. (p.41)




A Lua

Tenho de repensar a minha vida,
disse-me, e acrescentou:
ser-se feliz é não ter esperança.
Lembrei-lhe o sol e o mar
que hoje vejo sozinho nesta praia,
e respondi não há quem viva assim,
ainda que a esperança não exista.
Mas vi-a olhar o céu,
dizendo que sorte é termos a Lua
- rege-nos as marés e o corpo -,
e que amava o seu rosto claro,
um espelho de luz na noite
onde se olhava já sem sonhos.
Nem suspeitou ser isso a esperança,
a lua e os espelhos sem mais nada,
a música que ouvíramos
e o mar além, atrás das dunas. (p. 63)

© Teresa Sá Couto

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Erotismo e liberdade


Depois da colectânea de 69 Poemas de Amor, editada em 2008 pela 4Águas, Casimiro de Brito acaba de publicar Amo agora, escrito em parceria com Marina Cedro, pela mesma editora algarvia. Desta vez, o poeta, ficcionista e ensaísta investe num diálogo sensual e erótico com a compositora e cantora argentina, e o resultado são 106 páginas que falam do interdito e prescrevem a transgressão, um hino à escrita capaz de inventar e cantar «a voz da fonte muda», o enigma do desejo no grito libertário da palavra. 

São variações musicais do amor, ou da sua invocação, num diálogo envolvente e provocante, em vários passos com sexualidade explícita, mas ganhando, sobretudo, na alusão, sugestão e no jogo sedutor da imaginação. A ligação à memória possibilita recolher emoções vividas na intimidade partilhada ou no vazio das ausências do objecto amado, permitindo um enredo emocional com fácil comprometimento do leitor:

(…) Silenciosa /escucho /tú voz (p.8)

(…) Ouço a tua voz /ao nascer do dia /e vejo brilhar /nas árvores que murmuram /um canto antigo /um ardor orvalhado /cristalino /acabado de nascer (p.9)

Bem organizados, inscrevendo-se nas páginas de números ímpares os poemas de Casimiro de Brito, e nas páginas pares, em castelhano, os poemas de Marina Cedro,  os textos estão dispostos em gradação, como o ritmo do desejo à procura do corpo desejado, para nele e com ele se fundir, ritmo a traduzir, também, a perseguição do mistério e a vontade, ainda que gorada, de o deslindar:

(...) te coso a mi corazón para /tender entre tú y yo /una distancia /que no me duela tanto /y se me parte el pecho /de tanto amor (p.100)

(...) És fonte fechada /ó irmã /nascente selada /ó esposa mais bela /que mil rios /mais secreta /que mil fontes (p.101)
Doblegué /mis entrañas /a tu cuerpo /para hacerme /víscera de tu sentir /y encarnarme en /tu sexo (...) p.102

(...) os nossos sexos voam /um dentro do outro // Inventam /um jardim das delícias /comum // Apenas /te peço /que me deixes morrer /em paz /dentro /de ti. p.103

Curioso é, ainda, não haver distinção psicológica entre homem e mulher, nem supremacia de um dos sexos, mas sim equivalência, na linguagem erótica e na comunhão da sede de beber da mesma seiva: o prazer original numa aventura por todos os sentidos e em liberdade vocabular.
Ver uma boa parte de poemas deste Amo Agora, na página de Casimiro de Brito, bem como informações sobre Marina Cedro.

Nota final:  com agradecimentos ao autor, que me enviou pronta e generosamente os seus livros,  possibilitando-me apresentá-los aos leitores, recordo que Casimiro de Brito lançou também há pouco o belo e importante  En la vía del maestro – Un viaje con Laozi. Ver outras ligações para a escrita de Casimiro de Brito, na etiqueta com o seu nome.

© Teresa Sá Couto

domingo, 7 de fevereiro de 2010

No encontro com «O Outro»

Os europeus e os Outros. O caminho, a marcha das civilizações. A história da dominação, do desprezo, a nova era global das migrações e o «nascimento de um novo Outro não-europeu, que também é estranho perante outros não-Europeus». A xenofobia, essa «doença dos apavorados que padecem de complexos de inferioridade, assustados só com a ideia de confrontação no espelho da cultura dos Outros.».

Estes são os motes do pequeno e interessantíssimo livro O Outro de Ryszard Kapuscinski, editado no ano passado pela Campo das Letras. Considerado por Gabriel García Márquez “o verdadeiro mestre do jornalismo”, Kapuscinski apresenta-nos seis textos proferidos noutras tantas conferências nos anos de 1990 e 2004.

«Somos responsáveis pelo caminho. Frequentemente temos a consciência de percorrer um caminho só uma vez na vida e de nunca mais lá voltarmos», escreve Kapuscinski neste livro que nos surge como epílogo de uma vida dedicada a desvendar o Outro; o autor, que faleceu em 2007, deixou-nos um precioso e vasto acervo a dar conta da «Experiência de vários anos de viagens pelo mundo» esculpida em «reportagem literária» (ver AQUI e AQUI)

Segundo o autor, se a raça, a nacionalidade e a religião definem o outro, constata-se que «os nossos Outros terceiro-mundistas estão a ganhar maior protagonismo na história contemporânea e actual», devido à «invasão» aos países desenvolvidos, nomeadamente desde os anos oitenta do séc. XX, o que obriga à redefinição do mapa-mundo multicolor e complexo. Estarão os europeus preparados para esta coabitação?, aventa-se. Com efeito, hoje há a consciência da presença dos Outros - que «têm ainda a percepção do direito à existência e uma identidade própria» -, o peso da sua diversidade no nosso quotidiano; aceitar a multiculturalidade é um progresso que, todavia, esconde ameaças, assim nomeadas: «a enorme dinâmica e a ambição das culturas recentemente reconhecidas podem ser aproveitadas por nacionalistas e racistas para guerrearem contra os Outros»; «a defesa de uma cultura pode ser pretexto para a propagação do etnocentrismo, da xenofobia e da hostilidade com os Outros. Na teoria do desenvolvimento autónomo de culturas, o reconhecimento do direito inalienável da diferença – assim é, por vezes, interpretada a regra de multiculturalidade – pode esconder uma intenção separatista, uma negação da  necessidade e do proveito de intercâmbio, uma arrogância e uma fobia relativamente aos Outros» (p.50).

Aprender com a História, recordar a dominação europeia com o seu balanço trágico e sanguinário, determo-nos no exemplo de períodos em que o pensamento europeu tentou aproximar-se do Outro pela compreensão, construirmos quotidianamente pontes de diálogo, constituem a tarefa imensa do caminho, já que vivemos num «mundo frágil, demagogo, desorientado, fanático e cheio de más vontades.».
Num pequeno livro, uma viagem à História das relações entre os habitantes do globo e uma reflexão lúcida para projectar o futuro.

O Outro, Ryszard Kapuscinski, tradução de Wlodzimierz Józef Szymaniak e Isabel Ponce Leão, Editorial Campo das Letras, 2009


© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

«não se brinca com facas» lançado em Faro

não se brinca com facas de José António Barreiros tem agora apresentação de honra em Faro, por Nuno Júdice. Recordo que o romance foi lançado em Lisboa, no passado mês de Dezembro, com apresentação do poeta António Osório e do cineasta Luís Filipe Rocha.


(clicar na imagem para ampliar)

José António Barreiros, que em 2007 nos tinha brindado com as curtas e magníficas narrativas do Contos do Desaforo, traz-nos um romance intimista que explora os corredores recônditos do Ser onde corre a solidão, a abulia, o desamparo. Com promessa de que voltarei a este romance com uma minha leitura, deixo um extracto:

    (...) Com o comboio aos solavancos regressara ao seu lugar, procurou na mala um livro, que não abriu. A paisagem insistia em marcar presença diante dos seus olhos, desfilando, rápida, inversa relativamente à marcha do comboio, tornando-se logo instantaneamente passado, escapando-se pela ponta do vidro, chicoteando-lhe os olhos. O seu lugar era de costas face ao sentido da marcha, o presente, alongando-se em duração, levava por isso mais tempo a entrar no futuro, até fugir-lhe do ângulo extenso do seu olhar. Podia mudar de lugar, mas não mudou. O eficaz executivo tinha-se, entretanto levantado para desembarcar, absolutamente pragmático, colado à porta um minuto antes de a porta se abrir, a vida numa folha de Excel. Agora em redor de si, ninguém. Se pudesse fumar, mas não podia. Restava-lhe dormir mas não tinha sono, os olhos recusavam-se a fechar, dotados de vontade própria. (p.p.100, 101)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

"En la vía del Maestro – Un viaje con Laozi", Casimiro de Brito

(Texto editado dia 01 de Fevereiro no sítio da Orgia Literária)

Pagar a portagem «para o outro lado» com um poema: assim nos chega o poeta Casimiro de Brito no recente En la vía del maestro – Un viaje con Laozi (Na via do mestre – Uma viagem com Laozi), uma via de «escalada interior, / alpinismo puro», vertida no mais puro e depurado silêncio vocabular. É um caminho de despojamento e incerteza, pois só este é válido; são respostas aos 81 versículos do Tao te-King de Lao Zi que o poeta fez ao longo de vinte anos.

Edição bilingue, a presente obra tem tradução espanhola de Montserrat Gibert, chancela da editora espanhola Olifante e patrocínio do Instituto Camões, Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e do Ministério da Cultura. Com 72 anos cumpridos no passado dia 14 de Janeiro, e mais de meia centena de títulos publicados e espalhados pelo mundo, o poeta fala-nos da «água transitória» que somos, de envelhecimento, de experiência de vida, de morte e negação da morte pela palavra, já que a morte não existe no silêncio da poesia.

A partir da nascente antiquíssima do Taoísmo, Casimiro de Brito desenvolve um programa de identificação cósmica do poeta com a natureza para cantar a «baga frágil que vai de viagem», a «árvore ardida», faz o balanço de todo o caminho passado, desvenda «a cal intensa de que é feito um homem», prepara-se para o fim do caminho com o espírito do vale, como Tao o enuncia: recebe todas as águas que nele afluem.

Água, ar, terra e fogo são os quatro elementos genesíacos que consubstanciam um vastíssimo, plástico e rítmico sistema de metáforas da caminhada humana, concomitantemente metáforas da criação artística, a teia do «doloroso prazer da escrita». E se, também na sua teia, «a morte que se aproxima devagar / e não sabe fazer outra coisa», o mesmo faz a palavra contra a morte, transubstanciação da aranha a segregar o seu fio e a tecer a sua teia:

Flexíveis são as aranhas
Que tecem a partitura
Do enigma inicial. Arte
Antiquíssima – tal a do vento
Esculpindo a pedra; arte efémera
Como os terraços da espuma;
Tão próximos do nada. (p. 98)

Ciente de que o caminho acaba, pois é «frágil a madeira / que nos ossos do homem apodrece», o sujeito poético caminheiro desta via reconhece que o «sal do desejo» o cegou e só o «branco mais vazio», o branco da luz do «não-desejo» lhe anunciará o segredo. Cabe-lhe decifrar o enigma, buscar o princípio desconhecido cujo «segredo está na combinação / do barro e do ar»; o objectivo é a harmonia que só começa quando cessar o medo e o desejo, «quando o sangue reconhece a paz das árvores»; o método é a destruição de todo o conhecimento adquirido, o retorno à «mãe das coisas», devolver-se às «águas que passam», render-se «à doce / vigília da chuva»: «a pouco e pouco aprendo a desprender-me / do corpo e da sua ilusão», diz, para atingir o «Doce desconhecimento da grandeza de quem nada recebe / nem conserva», ou, ainda:

(…) assim fossem vazios os meus dias –
vazios e sem retorno como as sandálias
que vagueiam no verão sem saber
se caminham para o norte ou para o sul. (p. 92)

Na conjugação com o Todo para alcançar o Absoluto, o «pescador de palavras», o coleccionador do «rumor da cal», o que ouve a «flauta rouca», funde-se no feminino vocabular de «águas», «loucura», «mãe», «matéria», «seda», «morte», «terra», «dor», «carne», «flores», «bocas», «gota», «maré», dando sentido aos masculinos «o fruto», «o sábio», «o mar», «o corpo», para concluir: «nesse dia deixei de ser osso / separado das dez mil coisas».

Aprender com a Natureza é a divisa: o homem é um rio, e na natureza os rios continuam o caminho indiferente aos homens que «deslizam insaciáveis com o desejo / virado para o céu» e «a boca na terra / de quem vive apenas / este momento»; as águas «ignoram / a dialéctica do caminho: bebem o chão / e basta»; há que louvar as águas que não fazem ruído, e imitar o Mestre que se recolhe «nas folhas discretas / do seu palácio», no silêncio da sua mente, e o poeta no silêncio da sua escrita. Aprender com a Natureza é libertar-se da casca, cantar «o pó», «a semente mínima / do animal humilde que lentamente / envelhece tão lentamente como a sua / escrita esta breve passagem / pelo vasto vazio do ar azul / em volta». Esta será a Lei do Mestre e a lei do poeta: «quanto mais leve / mais densa a sua lei». Uma lei que gera poemas belíssimos, como este:

(…) Invocado o espírito do solo
e dos cereais regresso como parti, sem
bagagem. A árvore dos meus ossos
Inclina-se vagarosa sobre a terra
onde sempre mantive o pé jamais o reino;
onde fui um filho pródigo, um braço
nómada. Alimento-me dos últimos figos,
das emoções derradeiras. Em breve o pó
será pão bastante – uma folha de água
se tiver sorte. A mais não aspiro.
Deito-me em repouso como se fosse enfim
o chão trémulo que nunca deixei de ser. (p. 170)

Na «cerimónia vagarosa do pó», com a aproximação da boca do silêncio, a morte, há que beber na boca secreta doutro silêncio, esse sim imperecível: a palavra. Parece clara a perspectiva heideggeriana da palavra enquanto morada do Ser: ao longo de toda a obra, ela surge como essencial à travessia, o «ovo perfeito», a urgência de «loucas abelhas laboriosas», como no poema a seguir transcrito, pois «Não há outro fogo outra via / nas hastes cansadas do entardecer»:

A teia essencial não é um mapa,
um cenário de luz onde eu possa
desenhar-me como se o pó da viagem
em ouro se pudesse converter; essencial
é ver o que vai nascendo, o rumor do chão
como se ele fosse uma nuvem fugidia
que se ajoelha dentro de mim; ou a sombra
dela, a doce respiração que ilumina
as loucas abelhas laboriosas
que são as coisas e os seus nomes. (p. 54)

Casimiro de Brito que escreve – em A Arte de Bem Morrer (Roma Editora, 2007) – que «Quando a natureza do homem se dilui na morte / há um saber mais vasto, uma matéria que aspira / à dispersão dos seus componentes», que a «obra permanece, jamais a alma», e que pede ajuda ao poema para «encontrar um sentido neste segredo / que todos bebemos / e não se esgota», continua a libertar, em direcção aos seus leitores, a concha da palavra perpétua: «Uma concha que me preserve», para «morrer-me», «uma nave / onde eu possa viajar / todos os dias em distante embriaguez».

Casimiro de Brito, En la vía del Maestro – Un viaje con Laozi, Olifante, 2009

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Modernismo, Oficina de Literatura

A decorrer em Almada, ciclo de conferências. Tutela de José Xavier Ezequiel



terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Miguel Torga, poeta da terra e da esperança


Partiu há 15 anos. Deixou-nos este chão repleto de palavras que lemos e relemos. Sempre e uma vez mais. Porquê? Porque também somos torga, urze, raiz que ainda depois de queimada dá alento pelo carvão que produz. Se não somos, ele, Miguel Torga, a urze, o mosto, a casta nobilíssima de uvas do Douro, ensina-nos a sê-lo.

Nascido em 12 de Agosto de 1907, em São Martinho da Anta, Trás-os-Montes, e falecido em 17 de Janeiro de 1995, em Coimbra, Adolfo Correia da Rocha, seu nome verdadeiro, é uma leitura premente e necessária para todos os que procuram uma consciência pura, a esperança, a teimosia em romper caminho.
As suas palavras são vigorosas, lúcidas, prenhes de sentimento telúrico, o amor à terra que lhe avassala a alma:

“Sempre que, prestes a sucumbir ao mórbido do desalento, toco estas fragas, todas as energias perdidas começam de novo a correr-me nas veias. É como se recebesse instantaneamente uma transfusão de seiva. Sei, contudo, que o prodígio não aconteceria sem a força amorosa do meu apelo, que as virtudes terapêuticas da fonte estão também na certeza da sede de quem bebe. (…) E quando chegar o dia em que a debilidade do ânimo seja tanta que já não consiga sequer confiar no valor do condão? Finos, os antigos, entenderam logo de entrada que o fabuloso não é mais do que a realidade aureolada. Que basta um homem ficar com a vontade tolhida para que Héracles – um dos muitos disfarces da morte – o vença irremediavelmente.” (Diário XI, 1943).

As razões do corpo

A sua inspiração genesíaca, das origens, da terra, das fragas, dos penedos, da água, transporta-nos, num vocabulário vibrante de “seiva”, “sémen”, “sexo”, “cio”, “fecundar”, “parir", para as nossas próprias origens. Falamos de um corpo humano que se cumpre nas paixões, no desejo, nos frémitos, mas também na desilusão, na tristeza, na renúncia:

Molhada pelo mar salgado e frio,
Sai da concha e passeia
A regar de frescura, amor e cio,
O deserto vazio
Desta areia!

ou,

Mulher e aparição num corpo só!

Seios, umbigo, coxas e cabelos
Que são fios abertos de novelos
Onde se aperta a seiva

Como um nó.

Porém, se em Torga o corpo se cumpre no percurso da vida que lhe dá a força, a fraqueza, a liberdade, a prisão à condição humana, a consciência lúcida dessa grandeza trágica fazem-no rebelar-se e lutar. A vertente Humanista torguiana explana-se ao longo da sua obra, quer poética, quer em prosa onde a saída para os revezes da vida é sempre iluminada de esperança e liberdade:

Meu irmão na distância, homem
Que nesta mesma cama hás-de sofrer
Que nem a terra nem o céu te domem;
Nenhuma dor te impeça de viver!

A palavra como arma

Senhor de uma arte literária portentosa, as suas palavras são, no entanto, cavadas com sacrifício. Um sacrifício que enalteceu a Literatura Portuguesa, inscrevendo-a entre as de excepção a nível mundial. Com o drama da criação, a que chama, em  O Quinto dia da criação, o «suplício de escrever», Torga mostra que todo o empenho é sofrimento:

Mas todo o semeador
Semeia contra o presente.
Semeia como vidente
A seara do futuro,
Sem saber se o chão é duro

E lhe recebe a semente.

A continuidade só é possível com o amor aliado à palavra:

“De quantos ofícios há no mundo, o mais belo e o mais trágico é o de criar arte. É ele o único onde um dia não pode ser igual ao que passou. O artista tem a condenação e o dom de nunca poder autonomizar a mão, o gosto, os olhos, a enxada. Quando deixa de descobrir, de sofrer a dúvida, de caminhar na incerteza e no desespero – está perdido.”, escreve em Diário I, 1941. Ou ainda:

Novamente o teu pranto.
Mais uma vez a força dos teus dias
Na brancura dum manto
E a quebrar-se de encontro às penedias.
Mas as gaivotas acompanham
A tua dor, irmão.
Elas que são aves e se banham
Na espuma que te sai do coração.

Preocupado com a continuidade da sua esperança, emite um apelo dirigido a um secreto, hipotético, leitor:

Sem saber o teu nome e sem te ver
– Juiz que ninguém pode corromper –,
Murmuro-te os meus versos, os pecados
Penitente e seguro
De que serás um búzio do futuro,
Se os poemas me forem perdoados.

Cumprir este apelo é uma forma de nos mostrarmos gratos.


*bibliografia consultada: Miguel Torga, Poesia Completa, Publicações Dom Quixote, 2.ª edição 2002

© Teresa Sá Couto