sábado, 17 de julho de 2010

Poesia de Manuel de Freitas

«Pode-se evitar tudo menos as evidências / – se estão nus os olhos por elas /apedrejados», escreve o poeta Manuel de Freitas em três versos que encerram características marcantes da sua poesia: a crueza da observação, a lucidez da palavra avessa a jogos retóricos ou meros exercícios vocabulares, que grassa em tanta da dita poesia que teima em fazer-se em Língua Portuguesa.

«Dificilmente alguém poderá rematar a leitura de um poema de Manuel de Freitas com aquele “não percebi nada” que, se o snobismo não fosse endémico no meio intelectual, dedicaríamos a muita da poesia que passa por “grande”, escreve José Miguel Silva no posfácio do A Última Porta, colectânea de poemas de Manuel de Freitas, acabada de editar pela Assírio&Alvim. Na belíssima capa, um desenho de Adriana Molder com a sua inconfundível técnica dos retratos a tinta-da-china sobre papel esquisso e a procura do branco com uso de água com lixívia.
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A obra de Manuel de Freitas é composta por poemas que fogem de lugares ledos, apesar do «estupor bucólico de certos dias». Trata-se de uma poesia que se detém em lugares onde se reúnem pessoas com «a sincera mentira dos seus gestos», com a «ilusão de se estar vivo», para colher e abrigar «numa espécie de voz /esses estilhaços» de existências caídas, excluídas, que erram nas ruas de várias cidades, que se vazam em copos nas tabernas, ou nos bares nocturnos onde se vive a «mentira de se estar vivo». No centro dos escombros, parte integrante deles, lúcido, atestando que a angústia é um dano colateral de quem vive, está o sujeito poético que, também ele, se confunde com o autor: «Dois homens, numa taberna, /enquanto chovia. O terceiro /era eu: aquele que escreve /e não escreve este poema.».
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A voz de Manuel de Freitas «não desemboca numa depreciação da vida mas numa espécie de amor rancoroso pela mesma, um amor desesperado e sem saída», resultado de um «sentimento de quem sabe que ama apenas uma sombra, e que apenas sombras podemos amar», diz José Miguel Silva. Contaminada pela morte, a vida – a que o sujeito poético não «apetece chamar-lhe “vida”» – é «o nada»: «A vida, devo-o ter dito já, também pode /ser isto – a violenta dor de alma, /a dor simples e gasta de ser isto apenas: //a alma nenhuma.». Quanto ao amor, «não sei o que é o amor», diz o sujeito poético que sabe que «nada ficará», pois «a morte escreve demasiado bem». A literatura, essa, será uma voz para futura memória da existência que tem a gritar unicamente o nada: «O mais estranho não é a literatura, / o solene esgar da poesia. / Mais estranho, sempre, é sobreviver /a isto, fingir que não, sorrir. // Enquanto o olhar negro negro /de um gato testemunha a tua morte /e se despede melhor do que tu/ da música e dos dias e da música. // Qualquer coisa assim.».

Transcrevo na íntegra o poema Errata, e um extracto do poema BWV 988
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Onde se lê Deus deve ler-se morte.
Onde se lê poesia deve ler-se nada.
Onde se lê literatura deve ler-se o quê?
Onde se lê eu deve ler-se morte.
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Onde se lê amor deve ler-se Inês.
Onde se lê gato deve ler-se Barnabé.
Onde se lê amizade deve ler-se amizade.
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Onde se lê taberna deve ler-se salvação.
Onde se lê taberna deve ler-se perdição.
Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.
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Onde se lê Manuel de Freitas de ser
Com certeza um sítio muito triste.

(poema Errata, p.131)

***
Talvez tudo fosse diferente
se o mundo tivesse começado tão bem
como as variações Goldberg.
Não sei, não quero saber, não faço ideia.
[…]
O amor? Talvez, quando um cadáver
se recria e afaga penosamente
a morte de que de uma maneira ou
de outra se morre. Quem me dera ser
menos realista, menos real,
menos permeável ao desgosto.
Mas a verdade é esta: partiste
a meio da noite, fodemos pouco e mal
e quando a janela me guilhotinou
já um táxi te levava
para longes terras da cidade em pânico..
É tudo – sabes? _ tão dolorosamente simples.
A mão que não quer esperar-me,
o rumor sórdido dos bares,
a certeza de que a vida, a vida,
não deveria ser exactamente assim.
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Reúno, numa espécie de voz,
esses estilhaços. Sei que não vale
a pena, sempre o soube.
Há os que se despedem e os que não.
E, indiferentemente, progridem
as diferentes coisas. Carteiros
matinais, aviões, poetas que dão
corda à musa e escolhem
devagar o timbre da gravata.
Estão no seu direito, partilham
o bem comum, a cidadania do terror.
..
E eu, infelizmente, existo. Abro
outra lata de cerveja, sob
o olhar reprovador do gato. Sim,
gostava de ser felino – uma coisa
mansa, dolorosa, ao abrigo da tormenta.
[…]
(poema BWV 988, p.p73,74)
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Nota (1):  É conhecida a posição de José Miguel Silva sobre o que deve ser a Poesia; desafio à leitura de um seu texto e respectiva discussão, AQUI.

sábado, 10 de julho de 2010

A Chave premiada de Rui Herbon

(versão do texto da Apresentação Pública, a 25 de Maio último, editada no sítio da Orgia Literária em 09 de Julho)

Prémio Branquinho da Fonseca de Conto Fantástico, 2009, A Chave é o novíssimo título de Rui Herbon. Em epígrafe, versos do poema Xadrez de Jorge Luis Borges – Deus move o jogador que move a peça. / Que deus atrás de Deus o ardil começa / de pó e tempo e sonho e agonias? – fazem-nos prever a influência borgiana e lobrigar a urdidura do conto com as declinações do jogo que é a vida onde todos somos jogadores e jogados, peões no imenso acaso que nos governa.
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No centro da narrativa está um jogador e um jogo: Michel Lemercier, um xadrezista francês de renome, com livro publicado sobre o métier, enredado numa só partida de xadrez que lhe ocupa dezassete anos de vida (de 1958 a 1975). O mistério chega-lhe de forma «enviesada, oblíqua» sob o aspecto duma bela e enigmática mulher, alta, esbelta, longos cabelos pretos, olhos grandes, com voz «grave e obscura» a evocar o «rumor do fogo», de nome Lucrezia, e pela qual se sente imediatamente enfeitiçado. Não é a Dama Pé de Cabra da narrativa de Alexandre Herculano, tampouco as fatais Cleópatra e Medusa ou a estonteante Lucrécia Bórgia, mas o leitor é, logo na primeira página, catapultado para todas elas; trata-se do início da negociação do fantástico com o leitor, lançada a ambiguidade essencial nesse tipo de narrativa, mantida durante todo o conto a construir e fortificar a dúvida entre o real e o irreal.
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Tratando-se de uma narrativa breve, célere e concentrada, o texto lança mão a diversos recursos industriosos como o de um narrador que sabe tudo e mostra-o pelo que cala no momento certo, em cortes cirúrgicos que nutrem a atmosfera do enigma; ainda no jogo com o leitor, porque na inversão do esperado, a relação do jogo de xadrez com o jogo da vida não é feita alegoricamente, mas evidenciada directamente no texto: «o xadrez é a vida», «Dois princípios opostos debatendo-se sobre um tabuleiro cósmico: branco contra preto»:
apenas um lance, pelo que aquela jogada adquire uma relevância absoluta. A vida inteira gira em torno desse lance, e a sua execução converte-se no objectivo básico, na razão final de cada jogador. A vida, portanto, transforma-se numa partida de xadrez, e o xadrez deixa de ser uma abstracção para se converter em vida. (p. 53)

Sempre na construção da ambiguidade, o texto vai alternando, numa espécie de camadas, elementos realistas com situações do dia-a-dia, a conferir verosimilhança à narrativa, e fraturas da racionalidade com elementos do Fantástico a tecerem a magia (um peão de prata, que Michel recebe de Lucrézia, e um minúsculo estojo de xadrez composto por peças feitas por um ourives florentino, no séc. XVI, que a mulher transporta na sua mala). Assim, A Chave radica-se num jogo dual com que se pretende explicar o mundo e o indivíduo, um jogo entre enigmas que procuram ser racionais e aquela «espécie de escândalo da razão» – referida por Borges no conto “O Aleph” – a registar «um processo não acessível aos homens».

Construindo-se a acção central, a mulher, amadora do xadrez, propõe ao jogador uma nova concepção do jogo, e, não obstante o desdém manifesto num encolher de ombros, o xadrezista aceita o jogo do acaso que a mulher lhe propõe: executar um lance duma partida de xadrez iniciada no séc. XIV, entre duas famílias poderosos e rivais, os Bianco e os Zwart (branco e preto como as pedras do xadrez), que depois de 200 anos a digladiarem-se em lutas e vinganças fratricidas decidiam que o xadrez fosse o campo de batalha, que fosse a mente e a inteligência a combater e não o músculo e o aço; jogariam apenas uma partida, cuja duração se mediria em termos geracionais, um lance em cada meio século, estando, pois, naquela altura, cumpridas catorze jornadas. É o jogo do tempo desatado pela mulher que, depois deste primeiro encontro, desaparece para reaparecer dezassete anos depois, com a beleza intacta, como se o tempo não tivesse passado por ela, a dizer ao jogador que ele já tinha feito o seu lance e a fazê-lo «compreender a ordem oculta que regia a sua própria vida».
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Para o tempo do jogo, o texto constrói a psicologia do jogador em princípios aproximados dos expostos por Dostoievsky, exactamente em O Jogador: «a alma do jogador exige sensações até à fadiga definitiva», escreveu o romancista russo, e o jogador do conto de Rui Herbon parece movido por um estranho capricho, pela sede de risco e pela obsessão: durante três anos isola-se do mundo, afasta-se da alta competição para preparar a partida; obcecado com o mistério para o qual não divisava sentido, investiga, muda progressivamente o seu carácter, torna-se taciturno, «enche a casa de tabuleiros de xadrez, desenvolvendo em cada um deles dezenas de posições alternativas, e os seus dias convertem-se numa irracional partida múltipla, numa confrontação desmedida entre ele e o infinito»; imagina o prémio prometido e os objectivos daquela estranha partida de xadrez, especula possibilidades esotéricas daquele prémio, procura explicações mais racionais, desenvolve desde teorias fantasiosas às mais prosaicas, tudo formas da narrativa introduzir rupturas, desvios, jogos mentais da personagem que lhe dão frustração perante a impossibilidade de conhecer a verdade.
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Ainda no poema Xadrez, Jorge Luis Borges escreveu: «E quando os jogadores tiverem ido, / Depois do tempo os ter já consumido, / Decerto não terá cessado o rito.». Trata-se do tempo da longa memória, esse mesmo que desfila neste A Chave, o do labirinto paciente desse novelo secreto que molda o universo. É feita de Tempo, a chave desta narrativa. Como é a escrita; e nesta, Rui Herbon tem-nos dado grandes jogadas.

Rui Herbon, A Chave, Parceria A. M. Pereira, 2010
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Nota: versão do texto que serviu de base à Apresentação Pública

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Nova edição de Gineceu

Cristina Nobre Soares lança hoje a segunda edição de Gineceu, uma casa de silêncios de 17 mulheres abrigadas no mesmo número de curtas narrativas, mais duas do que na edição anterior. Nesta dilatação se vai cumprindo o enunciado pela personagem Laura: Eu só quero que alguém escute o meu choro, a minha existência. A presente edição, ainda com a chancela da Papiro, tem na capa a fotografia da escultura de “Isabel”, do conjunto das esculturas de Bolota, nome artístico da ceramista Isabel Maria de Azevedo Claro, sobre estas mulheres da escrita de Cristina (ver vídeo, no final deste texto). Não obstante tratarem-se de pequenas narrativas, as personagens femininas demoram-se no espaço que as portas da escrita abrem. Com efeito, se se trata de mulheres retidas numa baixa condição social e radicados em lugares portugueses (com referenciais da emigração lusa, da Guerra do Ultramar e da Revolução de Abril), o seu universo psíquico atinge qualquer mulher de qualquer lugar.


São mulheres que se exaurem na banalidade rotineira dos gestos, por isso gestos secos continuamente a fechar cortinas, que choram por dentro, que olham para “as costas da felicidade” e para o chão, sem capacidade de joeirar sonhos. Por isso, Helena fica a “quatro passos da janela” e Rosário cruza o xaile de renda, envolvendo-se na teia ímpia, e urdida com esmero, do destino, e todas afogadas na solidão, cumprindo o seu “papel de espectro patético”.
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No seu claustro de silêncio, fechadas no lamento do fado, algumas das mulheres estioladas no abafar da frustração, aninhadas no luto da saudade, têm na maternidade o único sentido das suas vidas, dito assim sobre Irene:
outra agulha. Outra barriga cheia. Outra vez que não conseguira fugir ao corpo que a puxava a meio da noite. Mas dessa vez, escondera os vómitos no abafar da água da torneira aberta e a barriga que logo se fez saliente, na cinta apertada. Até ser tarde demais para que fosse de novo. E a mesma parteira que lhe desmanchou os filhos, agarrou-lhe as pernas para que ela parisse aquele. Que lhe saiu num grito imenso, prenhe de culpa, parido de alívio. (p.39, da primeira edição).
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Simples e despretensiosa, com vocabulário, concomitantemente, doce e cru, a expressão escrita veicula eficazmente a voz interior das mulheres, íntima e confessional, seguramente capaz de estabelecer diálogos de cumplicidades com leitores homens e mulheres.
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© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Margarida com Mulher Ao Mar

Mulher Ao Mar é um título de que se tem falado muito, e justamente falado bem. É o livro de estreia de Margarida Vale de Gato, ela que nos tem brindado com traduções de excelência – é dela a tradução de Edgar Allan Poe no Obra Poética Completa, livro de beleza magistral editado no ano passado pelas edições Tinta da China.

Mulher Ao Mar reúne poemas narrativos lúcidos, limpos de artifícios, intimistas, dialogantes, interventivos, irónicos, de escrita lesta, rítmica, rigorosa, depurada e plástica.
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A abrir, uma Glosa, à maneira da poesia do Cancioneiro, a evidenciar as temáticas e os caminhos do olhar poético, assumidamente feminino, que encontramos ao longo dos restantes poemas; Mais enxergo três meninas/debaixo de um laranjal, /uma na roca a fiar, /outra sentada a coser, /a mais fermosa de todas /está no meio a chorar, lê-se no mote da «Glosa  da Nau Catrineta», cujas glosas explanam «três irmãs mouras» a fiar, costurar e carpir a alma e os dias, enxergadas por um olhar feminino que lhes desvela a condição.
Mulher no mar da melhor escrita, para descobrir em 44 poemas. Transcrevo, na íntegra, o poema Intercidades:

galopamos pelas costas dos montes no interior
da terra a comer eucaliptos a comer os entulhos de feno
a cuspir o vento a cuspir o tempo a cuspir
o tempo
o tempo que os comboios do sentido contrário engolem
do sentido contrário roubam-nos o tempo meu amor
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preciso de ti que vens voando
até mim
mas voas à vela sobre o mar
e tens espaço asas por isso vogas à deriva enquanto eu
vou rastejando ao teu encontro sobre carris faiscando

ocasionalmente e escrevo para ti meu amor
a enganar a tua ausência a claustrofobia de cortinas
cor de mostarda tu caminhas sobre a água e agora
eu sei
as palavras valem menos do que os barcos
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preciso de ti meu amor nesta solidão neste desamparo
de cortinas espessas que impedem o sol que me impedem
de voar e ainda assim do outro lado
o céu exibe nuvens pequeninas carneirinhos a trotar
a trotar sobre searas de aveia e trigais aqui não há
comemos eucaliptos eucaliptos e igrejas caiadas
debruçadas sobre os apeadeiros igrejas caiadas
meu amor
eu fumo um cigarro entre duas paragens leio
o Lobo Antunes e penso as pessoas são tristes as
as pessoas são tão tristes as pessoas são patéticas meu
amor ainda bem que tu me escondes do mundo me escondes
dos sorrisos condescendentes do mundo da comiseração
do mundo
à noite no teu corpo meu amor eu
também sou um barco sentada sobre o teu ventre
sou um mastro
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preciso de ti meu amor estou cansada dói-me
em volta dos olhos tenho vontade de chorar mesmo assim
desejo-te mas antes antes de me tocares de dizeres quero-te
meu amor hás-de deixar-me dormir cem anos
depois de cem anos voltaremos a ser barcos
eu estou só
Portugal nunca mais acaba comemos eucaliptos
eucaliptos intermináveis longos e verdes
comemos eucaliptos entremeados de arbustos
comemos eucaliptos a dor da tua ausência meu amor
comemos este calor e os caminhos de ferro e a angústia
a deflagrar combustão no livro do Lobo Antunes
comemos eucaliptos e Portugal nunca mais acaba Portugal
é enorme eu preciso de ti e em sentido contrário roubam-nos
o tempo roubam-nos o tempo meu amor tempo
o tempo para sermos barcos e atravessar paredes dentro dos quartos
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meu amor para sermos barcos à noite
à noite a soprar docemente sobre velas acesas
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barcos.


Margarida Vale de Gato in Mulher Ao Mar, p.13, Mariposa Azual, 2010

domingo, 20 de junho de 2010

Baltasar e Blimunda: a mais bela história de amor

Em Memorial do Convento, José Saramago criou o par que protagoniza a mais bela história de amor de sempre da Literatura Portuguesa: Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas.
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Sem mais, que mais não é preciso, transcrevo:

«(…) Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires,
Por que queres tu que eu fique,
Porque é preciso,
Não é razão que me convença,
Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar,
Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto,
Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei,
Olhaste-me por dentro,
Juro que nunca te olharei por dentro,
Juras que não o farás e já o fizeste,
Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro,
Se eu ficar, onde durmo,
Comigo. (...)»

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José Saramago in Memorial do Convento, p.56; Editorial Caminho, 15ª edição, Lisboa 1985

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O adeus a José Saramago

José Saramago faleceu hoje, aos 87 anos, vítima de doença prolongada. Em homenagem à derradeira viagem do escritor, recupero o texto que elaborei sobre o A Viagem do Elefante editado no sítio da Orgia Literária em 05 de Dezembro de 2008.


«Com as boas ideias, e às vezes também com as más, passa-se o mesmo que se passava com os átomos de demócrito ou com as cerejas da cesta, vêm enganchadas umas nas outras». É desta forma que José Saramago nos explica a torrente luminosa de A Viagem do Elefante, o seu recentíssimo relato – romance ou conto.

Clara é, também, a metáfora executada nas 258 páginas de escrita precisa e depurada: «A Viagem do Elefante», por planícies abrasadoras, serras geladas, chuva e nevoeiro, é a longa marcha dos homens, a Viagem de qualquer um de nós para o sítio que sempre nos espera: a morte. «Custa é saber / como se emenda a morte», escreveu Luiza Neto Jorge, e esta narrativa de José Saramago parece responder-lhe, ao emendar a morte com o gesto da escrita que, concretizada em extrema debilidade física do Nobel português, espanta pela alegria, pelo humor transbordante, pelas lições de amizade, pelo vigor saramaguiano da crítica social, política e religiosa, temperadas com ironia imbatível.

A ideia para narrativa surgiu de um acaso, que o autor explana, numa breve nota, na primeira página. Num restaurante em Salzburgo, chamado «O Elefante», repara numa pequena escultura em madeira da Torre de Belém e é informado que tal se deve ao registo de um itinerário feito por um elefante, que em 1551 foi de Lisboa a Viena. Restava enfrentar a poalha do tempo, «levantar as pedras do passado para perceber o que há por baixo delas», recorrer à «inesgotável generosidade da imaginação», «abrir portas órfãs de fechadura ou que nunca a tiveram», «preenchendo as lacunas o melhor que se pode», gizar tudo na escrita que não conhece vedação, imprimir-lhe o registo contínuo e sem paragens, obtido pelas supressões de marcas gráficas nos diálogos, «em suspensões quase de alma», como referiu Luís M. O. Cardoso sobre a subversão da escrita de José Saramago.

Estava encontrado o herói da épica caminhada, o espelho onde nos revemos, o paquiderme Salomão que, não obstante ter nome de rei mítico, é súbdito dos homens e joguete dos seus caprichos – viera da Índia por vaidade da coroa portuguesa, seguira para a Áustria onde, pouco depois, morreria, e as patas que fizeram a hercúlea caminhada acabariam em bengaleiros decorativos. Com Salomão, surgem na narrativa o indiano Subhro, seu inseparável cornaca e amigo, o comandante de cavalaria português, e amigo de ambos, e a reflexão sobre o curso da existência humana, com os seus desejos, sentimentos, intenções, e desvios, pois, diz-nos o texto, «a representação mais exacta da alma humana é o labirinto. Com ela tudo é possível.». Com a alma e com as nações, porque estas são o retrato das almas que as dirigem, caminho para a crítica a Portugal.

Presente de casamento de D. João III e da rainha Catarina de Áustria ao primo Maximiliano, arquiduque de Áustria, que está em Espanha no Palácio do imperador Carlos V, seu sogro, Salomão prepara-se para «ir à pata» de Lisboa a Valladolid, não sem um banho com escova de piaçaba, que lhe retira o sarro acumulado de dois anos num país que o trouxera da Índia, mas que não sabia o que fazer com ele, enquanto a rainha inveja a sorte do animal por ir gozar a vida na cidade mais bela do mundo, enquanto ela ficava «aqui, entalada entre hoje e o futuro, e sem esperança em nenhum dos dois».

Habilidosa, a crítica à Pátria desenrola-se em inúmeros apontamentos, como este, retirado dum diálogo no Portugal profundo: «Nunca a viste, perguntou o comandante lançando-se num rapto lírico, vês aquelas nuvens que não sabem aonde vão, elas são a pátria, vês o sol que umas vezes está, outras não, ele é a pátria, vês aquele renque de árvores donde, com as calças na mão, avistei a aldeia nesta madrugada, elas são a pátria» (p.61)

O Teatro da vida

Para o mesmo caminho a caminhada é desigual, «também o frio, quando nasce, é para todos, diz-se, mas nem todos apanham nos lombos com a mesma porção dele. A diferença está em viajar num coche forrado de peliças e mantas com termóstato e ter de caminhar sob açoite da neve por seu pé ou com ele enfiado num estribo gelado que oprime como um torniquete» (p.222). Na desigualdade da caminhada e nas curvas do caminho, faz-se a coreografia humana de contraste entre os poderosos e os humildes: «a colorida cauda de pavão dos parasitas da corte do arquiduque» e o paraíso da gente simples que pode estar «num telhado que defenda da chuva e do sereno»; a constatação de que se «está por estudar a importância dos intendentes, mas também dos varredores de ruas, no regular funcionamento das nações»; o descobrimento de Subhro sobre a natureza e os suportes do poder, quando, do alto de Salomão, contempla a multidão com desprezo e conclui que «um arquiduque, um rei, um imperador não são mais do que cornacas montados num elefante».

Ainda, e como há muito nos habituou o autor de Memorial do Convento, a crítica à igreja é profusa e contundente, agora no desvario de um catolicismo que, no combate ao protestantismo de Lutero, não olha a meios para agrilhoar os crentes, desde o fabrico de milagres, ao negócio da fé e «cinismo» católico, todos parodiados pela narrativa que lhes dedica quadros hilariantes. Numa síntese do posicionamento saramaguiano, temos o quadro da partida de Salomão de Valladolid, decorado com uma enorme «gualdrapa» de opulentíssimos veludos, profusamente bordada, com pedras reluzentes e fio de ouro, dinheiro que se «malgastou» com o bicho, rosnou o arcebispo, pois daria um «palio magnífico para a catedral» da cidade. O «paramento» revela-se inútil na viagem, e o «ridículo e grotesco» acaba por ser enviado ao bispo e ao lugar a que pertence.

Mestre na harmónica do tempo, o autor cria um narrador que acompanha a acção, comenta e critica, sempre numa dialéctica activa entre passado, presente e futuro, enredando o leitor no criticismo de quem olha de frente o mundo para o conhecer. Nesta contaminação dos tempos, surge, por exemplo, a acção dos estrangeiros que gostam de se sentir em casa, projectando-se que, um dia, no Algarve, «toda a praia que se preze, não é praia mas é beach, qualquer pescador fisherman, tanto faz prezar-se como não, e se de aldeamentos turísticos, em vez de aldeias, se trata, fiquemos sabendo que é mais aceite dizer-se holiday’s village, ou village de vacances, ou ferienorte.» (p. 233).

Feita na primeira pessoa do plural, a narração é uma homenagem aos companheiros de viagem, a epígrafe da gratidão, com destaque individual de José Saramago à sua mulher, na Dedicatória: «A Pilar, que não deixou que eu morresse».

«A meta é o esquecimento. / Eu cheguei antes», escreveu Jorge Luís Borges em Rosa Profunda. Também a José Saramago se aplica a mesma certeza, por inscrever a perenidade numa pujante obra literária, reiterando-a neste livro que, ao falar sobre a morte, nos provoca um misterioso sentimento de felicidade.
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© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Toda a poesia de Albano Martins

Nas vésperas de completar 80 anos (a 24 de Julho), e na altura que celebra 60 anos de vida literária, Albano Martins vê editada a antologia que reúne toda a sua poesia: As Escarpas do Dia - (poesia 1950-2010), com a chancela das Edições Afrontamento, é apresentada no próximo dia 18 de Junho, pelas 18h00, no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, por Salvato Trigo. Este é o primeiro de vários eventos do programa de homenagem ao nosso poeta e tradutor de poetas.
Enquando se aguarda a nova Antologia, deixo dois poemas de livros individuais ainda disponíveis no mercado.

Sim, dizias tu, mas em seguida
corrigiste: talvez. Esta
é a única palavra
que não tem casa. Que mora
no intervalo
entre o som e o silêncio.

in Palinódias, palimpsestos, p.27, Campo das Letras


Quase Marinha

Desta luz, mais branca
do que o branco - ou
do que o leite, como diria Safo -,
o que pode dizer-se
é isto: um dia
o céu
acordou sem nuvens e a linha
do horizonte, de tão fresca
e tão nítida
e tão próxima, era o parapeito
onde a infância vivia
debruçada. E era
ali que o voo
das gaivotas começava

in Castália e outros poemas, p.41, Campo das Letras


Ver, na Etiqueta correspondente ou AQUI, textos que elaborei sobre a obra de Albano Martins.

domingo, 13 de junho de 2010

Os 122 anos de Pessoa

Ser que viveu na obscuridade de um tempo que não o compreendeu, Fernando Pessoa (nascido a 13 de Junho de 1888 e falecido a 30 de Novembro de 1935) teve depois da morte a luz que lhe foi negada em vida: «A criança que fui chora na estrada. /Deixei-a ali quando vim ser quem sou; /mas hoje, vendo que o que sou é nada, /Quero ir buscar quem fui onde ficou. /Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou /a vinda tem a regressão errada.».

Com inteligência e intuição desmedidas, Pessoa investigou a sua invulgar sensibilidade, de forma indagadora e analítica, para a conhecer e fixar; a forte elaboração mental a que a emoção é sujeita - transformando a emoção, antes estática, em emoção pensada - leva a uma nova concepção de arte: o fingimento poético, surpreendentemente explanado no texto «Autopsicografia» onde «O poeta é um fingidor» que “finge” «A dor que deveras sente». Doutra parte, o desafio enreda também o leitor: «Os que lêem o que escreve, /Na dor lida sentem bem, /Não as duas que ele teve, /Mas só a que ele tem»; assim, anuncia-se que o leitor não sente as duas dores do poeta nem a dor que ele próprio (leitor) tem, mas uma quarta dor, a suscitada pelo objecto artístico que é o poema.

Marcado pela dor de pensar, pela fragmentação do Eu que aspira a conhecer-se – mas num processo em que cada vez se afasta mais de si –, pelo tédio e cansaço de viver, a poesia do ortónimo é de extrema exaltação íntima:


Quem bate à minha porta
Tão insistentemente
Saberá que está morta
A alma que em mim sente?
Saberá que eu a velo
Desde que a noite é entrada
Com o vácuo e vão desvelo
De quem não vela nada?
Saberá que estou surdo?
Porque o sabe ou não sabe,
E assim bate, ermo e absurdo,
Até que o mundo acabe?

Na tensão da vida, tangida pela dor, diz o poeta que «É preciso destruir o propósito de todas as pontes, /Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras, / Endireitar à força a curva dos horizontes, /E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras…» .

Pessoa: o «quarto com inúmeros espelhos»

Sobre a heteronímia, Casais Monteiro explica porque não se podem considerar anónimas ou pseudónimas as obras pessoanas, mas sim ortónimas e heterónimas: «A obra pseudónima é do autor em sua pessoa, salvo no nome que assinala; a heterónima é do autor fora da sua pessoa, é de uma individualidade completa fabricada por ele, como seriam os dizeres de qualquer personagem de qualquer drama seu.». Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos são personalidades que devem ser consideradas «como distintas do autor delas. Forma cada uma uma espécie de drama; e todas elas juntas formam outro drama». Mais, esclarece Casais Monteiro: «a criação dos seus heterónimos é uma fase da sua criação de companheiros, de situações, de vidas… As criações do seu “sonho acordado”.» Com efeito, isso mesmo é explicado por Pessoa na «Carta sobre a génese dos heterónimos».

Eduardo Lourenço diz que Pessoa, «para se curar da sua tristeza de ser consciente», se sonhou Caeiro. Alberto Caeiro diz que Pessoa era «um novelo embrulhado para o lado de dentro» e que ele, Caeiro, é o oposto, ele quer “desembrulhar-se, ser um «animal humano que a Natureza produziu». Assim, «O guardador de rebanhos» surge como «o mestre», o que aceita a diversidade das coisas, a reconciliação com o universo. Poeta da natureza, com versos tão naturais «como o levantar-se o vento», do olhar antimetafísico, simples e calmo, Caeiro devolve-nos a eterna descoberta e a pureza e da criança:

a criança eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
são as cócegas que ele me faz, brincando nas orelhas.

O mais intelectual de todos, Ricardo Reis surge como o “epicurista triste”, com a sábia indiferença que ensina a “viver o momento”, a levar a vida sem competições inúteis. A máxima «Abdica /E sê rei de ti próprio» define a filosofia do saber viver e faz de Reis um poeta indizível:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Frenético, Álvaro de Campos irrompe com todas as sensações, querendo «sentir tudo de todas as maneiras». Mas Campos é também o decadente, o cansado e angustiado. No poema «Tabacaria» pode ler-se:

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Também no Poema «Dactilografia» o heterónimo parece aproximar-se do ortónimo e solta a mágoa, aquela que o acompanhou durante toda a vida e que hoje nos ilumina:

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros.
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.


Nota: a editora Assírio&Alvim tem editados sete volumes de Fernando Pessoa - Obra Essencial

© Teresa Sá Couto

terça-feira, 8 de junho de 2010

Fernando Pessoa - tributo à alma estilhaçada e sem fronteiras

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa em 13 de Junho de 1888 e morreu, só e doente, em 30 de Novembro de 1935. Foi sepultado no Cemitério dos Prazeres com o testemunho de cerca de 50 pessoas. No cinquentenário da sua morte foi transladado para o Mosteiro dos Jerónimos, a última morada concedida aos mais altos dignitários de Portugal, para junto daqueles que admirou: o sonhador e o martirizado, Vasco da Gama e Camões.

Mensagem foi o livro da sua vida e o único que viu publicado em vida. A sua voz, impiedosamente denunciadora, e hoje tão actual, grita esta terra onde «tudo é nocturno e confuso», com «três espécies de Portugal, três espécies de português»: um começou com a nacionalidade, «é a forma e o fundo da nação, trabalha obscura e modestamente. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe». O outro «é o português que o não é», o que governa o país, «mas divorciado do país que governa. Contra a sua vontade é estúpido». O terceiro é o «português que fez as Descobertas, o que sonhou, mas que se foi em Alcácer Quibir», deixando, porém, alguns parentes que intentam, ainda no sonho - são os portugueses que «projectam a fé», que procuram ideais.

Deixou-nos um acervo genial de palavras, multiplicadas pela sua heteronímia, marca de um indivíduo que não coube num só corpo nem numa só alma. A escrita de Mensagem foi iniciada a 21 de Julho de 1913, finalizada em 26 de Março de 1934 e posta à venda simbolicamente, em 1 de Dezembro desse ano.

Eu nunca fiz senão sonhar

Mensagem é, também, a voz de um povo, uma raça que partiu em busca de uma Índia, que a tomou e perdeu. Porém, todas as naus são de sonho logo que esteja em nós o poder de as sonhar, ou Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Expõe-se a dor, a nostalgia, a saudade, mas fomenta-se um devir com glória, com um olhar fito no mar, no horizonte, na esperança: Sem a loucura que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?.
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É preciso que a chama ilumine o herói, fecunde a realidade e faça com que a vida valha a pena ser vivida. E dá-nos o seu exemplo: Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: Navegar é preciso; viver não é preciso. Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que sou: viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma lenha desse fogo.
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«Eu nunca fiz senão sonhar», escreveu Bernardo Soares, semi-heterónimo de Pessoa. E a mensagem final de Pessoa é que Portugal tem de se elevar através de uma espiritualidade forte, capaz de subjugar todas as adversidades. É um repto para se cumprir...

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Espólio de M.S. Lourenço doado à Biblioteca Nacional

O espólio de M. S. Lourenço já nos pertence. O Termo de Doação à Biblioteca Nacional  (BNP) foi concretizado dia 27 de Maio. Falecido no ano passado, M. S. Lourenço lega-nos uma obra de valor incomensurável. O momento é, pois, de alegria. E de comoção.


(clicar na imagem para aumentar)
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Recordo que a Assírio&Alvim editou há pouco o O Caminho dos Pisões, que reúne toda a obra publicada de M. S. Lourenço, sendo ainda fácil de encontrar os livros individuais Nada Brahma e Os Degraus do Parnaso. Ver referências AQUI.

sábado, 22 de maio de 2010

Grande Prémio do Teatro Português SPA/Teatro Aberto para Rui Herbon

Rui Herbon acaba de arrecadar o Grande Prémio do Teatro Português SPA/Teatro Aberto com o texto dramático O Álbum de Família. O Prémio, no valor de cinco mil euros, foi entregue ontem à noite, na SPA, em cerimónia com a presença da Ministra da Cultura. O autor, que no próximo dia 25 de Maio lança o livro A Chave, já tinho sido agraciado nas letras dramatúrgicas, Prémio Maria Matos 2007 de Dramaturgia, com o texto Masoch.

A peça O Álbum de Família será publicada e representada no Teatro Aberto, no próximo ano. Reproduzo a nota de Rui Herbon que acompanha o texto original, com agradecimentos ao autor por ma ter disponibilizado:

Esta obra, não sendo auto-biográfica, é uma tentativa de partir de trás para reconstruir-me, e tentar ajudar os espectadores a reconstruir-se. Saber que o edifício veio totalmente abaixo e, com novos tijolos e cimento, tomar consciência sobre uma nova realidade possível até à qual havemos de viajar.
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O tempo não é recuperável; e o espaço tão-pouco. Quando passamos por um lugar, esse sítio já não volta a ser o mesmo. Cada momento morre em si mesmo, desaparece o momento e o seu espaço. O fluir é um vidro; não deixa nada atrás. Só ficam sensações, fitas magnéticas acumuladas no nosso cérebro que, ao pôr-se em marcha, umas motivam que surjam as outras, bombardeando-nos com milhões de impressões. Numa fita estão gravadas as sensações, noutra as emoções, noutra as memórias, noutra os espaços, noutra os tempos...
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As memórias são como um rio parado, convertido em gelo. A fotografia é a morte da realidade. Quis reflectir nesta obra uma inquietude que tenho desde os meus primeiros anos de vida: a luta entre o que flui e o que permanece, entre o álbum e o comboio... Como nos pesa o que levamos sob o braço, e sob o coração - queiramos ou não -, no nosso projecto de futuro.


*ver outros textos meus sobre Rui Herbon, Aqui

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Novo livro do poeta Torquato da Luz

Conhecido pela simplicidade cristalina da escrita e pelo olhar íntimo e limpo com que ilumina o real, o poeta algarvio Torquato da Luz tem novo livro: Espelho Íntimo será lançado já no próximo dia 26 de Maio, na livraria Barata (Avenida de Roma, 11 A, Lisboa) pelas 19 horas. A apresentação é de João Gonçalves, com leitura de poemas de Inês Ramos.
Deixo um poema deste novo compêndio, com agradecimentos ao poeta de Ofício Diário.
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Ilusão
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Apenas é real o que é sonhado.
A nossa imaginação
é que faz o que vemos e tocamos.
Seja qual for o lado
por que se encare a questão,
só existe o que arrancamos
do fundo do coração.
Tudo o mais em que teimamos
não passa de ilusão.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

não se brinca com facas, José António Barreiros

(texto editado no sítio da Orgia Literária a 11.05.2010)


O homem é «um equilíbrio difícil em dois pés precários», escreveu Vergílio Ferreira, ele que soube como ninguém retratar a tensão insuperável do homem consigo mesmo. Neste trilho ôntico, chega-nos o não se brinca com facas, recente título de José António Barreiros, com a palavra a erigir a vida ao abordar a fragilidade da existência, a solidão, a incompreensão e a interrogação da identidade a acordar a consciência do fracasso.

Estreia no género Romance, não se brinca com facas sucede a Contos do Desaforo, editado pela Presença em 2007, e com o qual, por sua vez, o autor se iniciou na escrita de ficção. Se em ambas as obras reconhecemos a problemática das vivências, o olhar hábil sobre o real e a escrita segura do autor, este novo livro segue, todavia, um programa narratológico distinto. Romance intimista e de forte densidade psicológica, não se brinca com facas assenta a sua intriga dentro das personagens, cabendo à escrita desvelar esse centro fechado, estiolado, ulcerado das existências: Júlia «há muito deixara de usar o relógio» e «os pés encaminhavam-na para o vazio»; Mário pensa-se «repetidamente até ao cansaço»: «Mário estás exausto de ti»; Pedro sente-se velho e «um sentimento de exílio acompanhava-o»; o emprego de Manuela «comprara-lhe a despersonalização para bem atender clientes personalizadamente».

A manusear estas quatro personagens de vidas cruzadas, fundadoras da narrativa, está um narrador engenhoso que se confunde com elas, fala com e sobre elas, assume-se como a voz das suas consciências, confunde-se com o autor e fala com o leitor enleando-o na questionação da condição humana, piscando-lhe o olho, ora subtil, ora declaradamente: «há sempre um livro que faz as vezes, há sempre um livro que conta a nossa história».

E se a história que se conta pretende descascar o porquê, «nem tudo o que é interrogativo tem de encontrar resposta, porque há a curiosidade e o mistério», lê-se para se compreender o método escolhido que origina uma narrativa fragmentária a contar uma história a suceder-se, como a vida, com as suas imprevisíveis erupções.

Na linha dos existencialistas, e logo a abrir, a assunção do homem enquanto um ser possível, sempre em construção, um “ainda não”: na manhã do primeiro dia do ano – porque «há sempre um primeiro dia» – Júlia, que «tinha saudades do que fora, agora que não sabia o que era», enceta uma viagem de comboio de Lisboa a Braga, na busca duma «possibilidade de destino». Distante de si, estranhando-se a si mesma, a personagem reúne os fundamentos da demanda existencial, Leitmotiv desta obra: «O que se faz numa terra estranha quando nós próprios nos estranhamos, desencontrados? Era tempo de viagem, de fuga, de recusar o destino, rir da fatalidade». Todavia, porque o ser humano é memória, Júlia carrega, na sua mala alegórica, vozes, desamor, vergonha, pudor, remorsos e um «ligeiro receio antiquíssimo, medo de lhe pesar nos ombros o fardo do seu futuro», «medo de já não mais se iludir». Ao sentido de inevitabilidade do tempo dissoluto, junta-se a noção do homem enquanto ser responsável pelo seu percurso – e de novo ressuma a visão sartriana da existência –, de se criar a si mesmo, elegendo-se e elegendo os seus possíveis: «há muito que o cinismo lhe dissolvera, ácido, a doçura da crença: nesta hora exacta, o momento zero da responsabilidade própria, sabia que não tinha ninguém», e, noutro passo, «o que fizeste de ti que nem o corpo te sobejou.».

Se o comboio é a metáfora da viagem humana, as janelas, a transparência que o nada representa, exibem o destino emoldurado, o retrato do percurso feito, a sombra tombada da existência no fulgor do vidro, no brilho da escrita. Nas janelas do comboio em movimento, sucedem-se as memórias, vivificam-se os espectros, procura-se o “eu” que surge em manifestações quotidianas; no reflexo das janelas, sonhos confundem-se com realidades, regista-se a angústia perante o nada a que se chega construindo-se um conceito trágico da condição humana. É a existência a segregar o seu próprio nada, pela acção da consciência – ainda na linha do pensamento de Sartre e de Heidegger –, e tudo desembocará nesse nada. As janelas são o elemento simbólico central no cumprimento desta narrativa existencial de José António Barreiros, estão ao longo de toda a obra a suturar falhas, a estabelecer diálogos entre o interior do ser humano e o infinito onde ele se projecta. Da janela da sua casa, Júlia, «rasgada de solidão», observava «os latões do lixo», os quais tivera como única companhia, eles que, como ela, «albergavam memórias de festas», depósitos do «rejeitado» e do «abandonado»; com um salto de uma janela, um «voo cego carregado de desejo de voar», uma prima de Júlia suicidara-se.

«Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio à existência, a repulsa pela existência, são outras tantas maneiras de a cumprir, de mergulhar nela» (1), escreveu o autor de La Nausée. «E sei que nesta narrativa me esqueci completamente de ti, Manuela, e da tua história, a história da tua revolta e não tens outra» (p.150), escreve José António Barreiros neste não se brinca com facas, narrativa que transporta em si a revolta de personagens sem lugar, que a palavra escrita acoita.


(1) Sartre, A Náusea, Europa América, 1976


José António Barreiros, Não se brinca com facas, Labirinto de letras, 2009

Ver outros textos sobre livros do autor na etiqueta correspondente.

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A Chave, novo livro de Rui Herbon

Prémio Branquinho da Fonseca de Conto Fantástico, 2009, A Chave é o novíssimo título de Rui Herbon a chegar às livrarias no final deste mês.
O lançamento está agendado para o dia 25 de Maio, às 18:30, na Bulhosa de Entrecampos. Será apresentado por mim.
Como sempre, editarei aqui, posteriormente, o texto que servirá de base à apresentação.

**

Deus move o jogador que move a peça
Que deus atrás de Deus o ardil começa
De pó e tempo e sonho e agonias?

Jorge Luis Borges


Extracto:

«O livro tinha por título Doze variações sobre a defesa Alekhine e o seu autor era o próprio Michel. A mulher, alta e esbelta, com longos cabelos negros ondulados e uns grandes olhos que às vezes pareciam cinzentos e outras azuis, disse chamar-se Lucrezia. Michel escreveu com rapidez uma dedicatória na primeira página do volume, mas enquanto o fazia, não pôde evitar perguntar-se como era possível que uma mulher tão bela se sentisse interessada por uma obra tão enfadonha quanto a sua.

– Joga xadrez? – perguntou Michel, enquanto lhe devolvia o livro.

– Sou apenas uma amadora – respondeu ela –, contudo, pode dizer-se que o xadrez é a minha vida. – Um estranho sorriso reverberou nos seus lábios. – Ou talvez seja mais correcto afirmar que o xadrez é a vida, não lhe parece? Dois princípios opostos debatendo-se sobre um tabuleiro cósmico: branco contra preto, Ormuzd contra Ariman, Cristo contra Satanás.».



*Ver textos sobre obras de Rui Herbon, bem como uma entrevista, na etiqueta com o seu nome.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Contas à Democracia

Perto de se celebrar mais um 25 de Abril, resgato este texto, elaborado há precisamente dois anos, sobre mais um livro imprescindível de Viriato Teles, para um reflexão necessária.

Contas à Democracia - Viriato Teles na missão de interpelar o tempo

Não é filósofo, nem sociólogo, tampouco analista político. Viriato Teles é apenas um português embrenhado no seu tempo, que vive a vida interpelando-a, com o dom superior de saber ouvir vozes individuais para, registando-as na palavra escrita, as devolver, plenas e inquiridoras, ao colectivo a que pertencem.

Quando passa mais um aniversário da Revolução de Abril, é ele que nos desafia à reflexão sobre os caminhos da nossa jovem Democracia, com Contas à Vida – Histórias do Tempo que passa, editado em 2005. São 20 conversas desatadas por entrevistas a personalidades dos mais diversas áreas da sociedade nacional, que viveram a revolução com frémito e esperança; não lhes é perguntado onde estavam no 25 de Abril, mas onde está e para onde vai o 25 de Abril; são as parcelas da prova dos nove que nos desfralda uma verdade irrefutável: Abril está na prática quotidiana da denúncia da injustiça, no inconformismo e na luta pela felicidade, o combate que legitima o homem, agora e sempre.

Nas 330 páginas deste Contas à Vida, não se dão respostas. Insurrecto, Viriato Teles, consegue muito mais: faz perguntas, às vezes directas, muitas vezes indirectas, sempre nascidas da interacção com os interlocutores que vão deixando escapar nostalgias, desencantos, pessimismo, mas também alguma esperança, quiçá cônscios de que a utopia é necessária para a caminhada; as suas perguntas alcançam-nos, leitores, estimulando-nos à auto – reflexão, num parto de ideias, espécie de maiêutica socrática, mas pelo timoneiro Viriato Teles, também ele enredado no processo que criou. Aliás, esta contaminação entre autor e leitor é uma das marcas inconfundíveis do jornalista, que torna magnética a leitura dos seus textos.
Gozando de liberdade reflexiva – num livro que se propõe fazer um retrato dos caminhos da Liberdade –, surgem as 20 personalidades, dispostas de A a V: Alberto Pimenta, Alice Vieira, António Pinho Vargas, Baptista-Bastos, Edmundo Pedro, Fausto Bordalo Dias, Fernando Relvas, Francisco Louçã, Isabel do Carmo, João Soares, José Mário Branco, José Medeiros, Luís Filipe Costa, Manuel Freire, Maria Teresa Horta, Mário Alberto, Padre Mário de Oliveira, Odete Santos, Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Gonçalves, o qual tem neste «Contas à Vida» a última entrevista dada – o militar de Abril e antigo primeiro-ministro morreu em 2005 – não chegando a ver o livro, disse-nos Viriato Teles.

E depois da Festa…

«A flor não é a certeza do fruto», disse Almada Negreiros. «O dia 25 de Abril de 1974 será esquecido. É inevitável», refere Tiago Rodrigues no Prefácio, aludindo à perda do valor da Festa coroada com cravos rubros. Todavia, sugestiona-nos, é preciso esquecermos Abril para «podermos começar a pensar na próxima festa, o que nos faz lembrar da razão que tinha Natália Correia ao afirmar que «só os medíocres sabem o que fazer com a vitória»; é também neste sentido de eterna construção do sonho que entendemos as palavras de José Mário Branco: «vai ser preciso fazer muitos mais vinte-e-cincos de Abril para recuperar o que se perdeu e se avançar no sentido da felicidade e da justiça da sociedade.». E não é esta energia do sonho um legado da Revolução de 1974?

Trinta e quatro anos depois das conquistas de Abril como vai a nossa Democracia, a nossa capacidade de crítica, e a nossa participação cívica?

Hoje, verifica-se perda de entusiasmo, diz a jornalista e escritora Alice Vieira, e surgem novos tipos de censura, como a «censura económica» que se alimenta da actual crise no trabalho e da fragilidade do trabalhador que necessita do pão na mesa, o que o faz calar-se perante o patrão, pois pode «ir para a rua e estão logo cinquenta» para o seu lugar.
Baptista Bastos aponta responsabilidades especiais aos partidos políticos de esquerda, aos jornais e à actual Literatura pela incapacidade de formação da massa crítica social: «O Guterres, cada vez que via um socialista ficava assustadíssimo!»; «O PCP está completamente esvaziado de conteúdo»; «os jornais não têm debate, não suscitam reflexão. Mas suscitavam no tempo do fascismo…»; «a literatura portuguesa está toda ela uma grande merda. Porque as pessoas estão a contar as suas vidinhas sem terem vidas para contar».
Apesar de nos ter restituído a cidadania, «dá a sensação que estamos cada vez mais longe dos objectivos do 25 de Abril, diz Fausto, para questionar: onde está a justiça social? Onde está garantido o direito à felicidade das pessoas quando estão à mercê de uma sociedade fortemente competitiva e onde milhares de jovens estão condenados ao desemprego, à marginalização, porque são dirigidos para se formarem em cursos completamente desadequados às necessidades do mercado e do país?».

Comentando o actual capitalismo tentacular, que debilita as ideias anticapitalistas e cria fossos sociais, João Soares nega-lhe a «inevitabilidade, porquanto reconhece nas classes mais jovens, que não se identificam com a «lógica de competição desenfreada, despudorada e feroz» do neoliberalismo, «espaço e apetite», e «uma grande vontade de construir alternativas».

«As revoluções não são apenas uma festa, isso sabemos desde o dia em que esta começou» e, por isso, «o 25 de Abril anda por aí», escreve Viriato Teles na Conclusão com que encerra as conversas. Haverá saudades? Certamente. Mas que sejam «saudades saudáveis, não nostálgicas ou melancólicas. Saudades que animam a luta pelo futuro», como as saudades assim descritas por Vasco Gonçalves. A prova desse ânimo está em nós, foi uma conquista de Abril, que este livro, em boa hora, volta a despertar. A prova está na resposta à provocação activa de Viriato Teles: «E se amanhã tivesses que dar a voz a outro 25 de Abril?». O jornalista e realizador Luís Filipe Costa responde, e na sua resposta reconhece-se a do imenso colectivo: «Ia já, a correr! (…) Desta vez não precisava nem de um minuto (…) desta vez, não vamos levar tanto tempo a acordar.».

Contas à Vida – Histórias do tempo que passa, Viriato Teles; Editora SeteCaminhos, Lisboa, Julho 2005

© Teresa Sá Couto
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Ver texto sobre o recente As Voltas de um Andarilho – Fragmentos da vida e obra de José Afonso e outros textos sobre livros de Viriato Teles na Etiqueta correspondente.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A (re)Invenção do Dia Claro

Corria o mês de Novembro do ano de 1921 e “Olisipo” editava uma jóia literária do mestre Almada Negreiros: «A Invenção do Dia Claro». Maio de 2005 e “aquele dia” reapareceu tão claro como o original, num fac-símile pela mão da editora Assírio&Alvim. Desde então, o livro mantém-se em destaque nas prateleiras de muitas livrarias.

Nem uma palavra a mais é acrescentada nesta reedição. Nem é preciso. Tudo igual, da capa à contracapa. Até o papel sépia ostenta as manchas amarelecidas, e a imaginação urde o cheiro do tempo ao embrenhar-se no português falado nos anos vinte do século passado, nas palavras intemporalmente rebeldes.

Na capa, Almada esclarece ser esta uma Escripta de uma só maneira para todas as espécies de orgulho, seguida das démarches para a Invenção e acompanhada das confidencias mais intimas e geraes. Claramente um manifesto, como o foi toda a atitude de vida de Almada espraiada numa profusa e eclética intervenção artística. Interpretar o mundo, moldar o tempo e desafiar o futuro foram as grandes marcas do autor, bem patentes no «A Invenção do Dia Claro».
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A abrir, um retrato «do autor por elle-proprio», destacando-se-lhe o olhar visionário. Dedicado ao amigo Fernando Amado, Almada confessa: «Eu queria que os outros dissessem de mim: olha um homem! Como se diz : Olha o cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma arvore! quando ha uma arvore. Assim, inteiro, sem adjectivos, só de uma peça: UM homem!».

Na primeira parte «Andaimes e Vésperas», entre vários pensamentos curtos e certeiros, na conta certa que alveja o leitor, Almada discorre uma «Conferência Improvisada» acerca do homem e da mulher: «Minhas senhoras e meus senhores: Mulheres e homens são as duas metades da humanidade – a metade masculina e a metade feminina. (…) A linha que passa por entre estas duas metades é parecidíssima com o ar por dentro de uma esponja do mar, seca.».

Três pensamentos depois deste, a sua viagem intelectual fá-lo aportar ao cais das palavras dizendo sobre elas: «O preço de uma pessôa vê-se na maneira como gosta de usar as palavras. Lê-se nos olhos das pessôas. As palavras dançam nos olhos das pessôas conforme o palco dos olhos de cada um.». As palavras são os barcos que o levam a todos os lugares, porque cada palavra «é um pedaço do universo». Com as palavras todas juntas, Almada destece-se tecendo o seu universo.

Em «Ensaios para a iniciação de portuguezes na revelação da pintura», ensina-nos sobre o desenho de uma flor:

Pede-se a uma creança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A creança vae sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas n´uma direcção, outras n´outras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A creança quis tanta força em certas linhas que o papel quasi que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o pezo do lápis já era demais. Depois a creança vem mostrar essas linhas ás pessoas:

Uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de
uma flor!

Comtudo, a palavra flor andou por dentro da creança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, á procura das linhas com que se faz uma flor, e a creança pôz no papel algumas d´essas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus logares, mas, são aquellas as linhas com que Deus faz uma flor.

A par das artes plásticas, as palavras sempre foram um porto seguro donde “partia sempre depois de chegar”, e sempre inteiro. E inteiro é com meiguice e truculência, idealismo e pragmatismo, iluminação e opacidade, sofrimento e gáudio, cólera e humor refinado ou ironia contagiante. Ou, ainda, Almada inigualável.


A Invenção do Dia Claro, José de Almada Negreiros, Assírio &Alvim (edição fac-similada da de 1921); Lisboa, Maio de 2005


© Teresa Sá Couto

domingo, 28 de março de 2010

Contagem Bang!

Eis o regresso da revista de literatura e fantástico, a Bang!  número 7.
Tempo da contagem decrescente para a apresentação.
Imperdíveis, o evento e a revista, podendo esta ser adquirida na página online da Saída de Emergência.


(clicar na imagem para aumentar)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Uma questão de gatos

«Ser ou não Ser um Gato é uma questão» e aqui a questão é artística. Refiro-me ao pequeno livro Só à noite os gatos são pardos que reúne 43 autores à volta da temática destes animais, com textos inéditos de poesia e prosa. A organização cabe a Jorge Velhote e Patrícia Pereira para uma edição Cantinho do Tareco - Associação de Protecção Animal.

As palavras contidas nas 73 mágicas páginas são semafóricas, sorrateiras, matreiras, ronronantes, acudindo à matéria felina que edificam. São retratos humanos dos gatos, entenda-se, sendo este entendimento a consciência do carácter esquivo e insubmisso do gato, ser «livre, invisível e alado, capaz de estar vivo e ainda assim não deixar rasto», como escreve Sara Canelhas no belo Prefácio.

Nos processos de construção da palavra estão a memória, a fantasia, a cumplicidade, o testemunho, e sempre a ideia do animal como um enigma fascinante. Na janela com escritos / o gato espera, escreve António Barbedo no poema minimalista; e sorrimos assentindo, porquanto escrever os gatos será sempre tarefa inacabada.
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As ilustrações de Ricardo Ayres – que podem parecer discretas, todavia são marcantes - intentam fixar momentos expressivos dos gatos, no seu quotidiano; o propositado movimento do traço sugere-nos o desdém dos animais por qualquer tentativa de o agrilhoar numa imagem.

Assinam os textos: A. Dasilva O., Alexandra Malheiro, Amadeu Baptista, Ana Luísa Amaral, António Barbedo, António Ferra, António José Queirós, Aurelino Costa, Bruno Béu, Carlos Lizán, Carlos Poças Falcão, Cristina Carvalho, Diogo Alcoforado, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Francisco Duarte Mangas, Gabriel Mário Dia, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, João Manuel Ribeiro, Jorge Velhote, José Álvaro Afonso, José Emílio-Nelson, José Leon Machado, José Miguel Braga, José Viale Moutinho, Luís Filipe Cristóvão, Luísa Ribeiro, Maria do Carmo Serén, Mário Anacleto, Nuno Dempster, Renato Roque, Rosa Alice Branco, Rui Amaral Mendes, Rui Lage, Sara Canelhas, Soledade Santos, Tiago Worth Nicolau, Teresa Tudela, Vergílio Alberto Vieira, Victor Vicente e Vítor Oliveira Jorge.

Transcrevo dois poemas, numa escolha difícil:


Os gatos da minha mãe

Os gatos da minha mãe caminham
sobre as margens das coisas simples.
Não vão à praia. Sinalizam
a preguiça invadindo silenciosos
o regaço das visitas. E escutam,
privilegiados, obscuras conversas
sobre desnecessidades ou
invasivas devassas alheias.
Olham soberanos o nosso
olhar onde passam
obrigatórios como sombras
ou luz – e quando regressam
com passinhos de veludo
dos seus desvairados lugares
traduzindo a nossa ignorância
instauram a evidência, o conhecimento
fortuito, os limites imputáveis
à ternura com que, sedosos
e felinos, se deixam afagar.

Apenas não arborescem.

Jorge Velhote, p. 37


O gato que me fugiu

Era um gato fininho
como os gatos egípcios
e tão altivo
que diria ter sangue
de Nefertiti,
e tão dourado
que parecia a imagem de Bastet,
a deusa-gata.
Entrou-me pelo sonho sem ruído
e passeou por mim
sem fazer caso algum
do meu espaço.
Às vezes ronronava,
roçando-se,
e pedia comida e não comia.
Quem sabe fosse
um gato intemporal,
espírito do Delta,
orgulho e porte esquivo
que não se alimentava
senão dos grous em
poemas do Antigo Egipto.
O certo é que deixei de vê-lo
e, quando despertei,
soube que não havia hipótese
de ele voltar
por causa do ladrar dos cães.
E assim este poema
tornou-se em elegia para o gato
que não terei
e a que já tinha posto
até um belo nome. Faraó.

Nuno Dempster, p.p. 50,51


notas:
agradeço ao poeta Jorge Velhote a generosidade pelo envio deste livro.

Na sequência dos muitos pedidos de esclarecimento sobre como se adquirir este livro: pelo endereço cantinhodotareco@gmail.com. O valor unitário é de 7,50 €

quarta-feira, 10 de março de 2010

Livro das Quedas

Dois meses após ter feito o pagamento do Livro das Quedas à Wook, eis que o exemplar me chega a casa. No sítio da Wook, empresa de compras online de livros, propriedade do Grupo Porto Editora, lê-se que «normalmente segue pelo correio em 10 dias», como se constata clicando na ligação.

Nos dois meses de anomalia, fui brindada com comunicações semanais a darem-me conta da dificuldade de obtenção do exemplar e asserções a descartar toda a responsabilidade, remetida, esta, para a editora (a Roma Editora) que tem a chancela do título. Nem tudo está bem quando acaba bem: sumiu-se-me qualquer vontade de voltar à Wook.

Noto que a encomenda deste livro surgiu na altura em que atentei mais apuradamente em várias obras de Casimiro de Brito, para elaborar o meu texto crítico sobre o recente En La Vía del Maestro - Un viaje con Laozi , texto que foi editado no sítio da Orgia Literária em 01 de Fevereiro último.

Do Livro das Quedas, transcrevo dois poemas:


Se não existe o que vejo,
se a música nocturna é uma mentira
composta pela exaltação dos meus sentidos,
bom será
que eu veja de novo,
obsessivamente,
a gota de suor, a mancha no espelho, o sorriso
dos livros fechados
ou deixe de ver, ouvir, amar
de uma vez por todas. Se Deus está cego
e nada sabe da usura
é natural que eu escreva melhor
às escuras. (p.47)

*
Se o mundo não tivesse palavras
a palavra do mar, com toda a sua paixão,
bastava. Não lhe falta
nada: nem o enigma nem
a obsessão. Entregue ao seu ofício
de grande hospitaleiro
o mar é um animal que se refaz
em cada momento.
O amor também. Um mar
de poucas palavras. (p.146)



terça-feira, 9 de março de 2010

Policial de Fernando Pessoa

Para ir. Impreterivelmente.


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quinta-feira, 4 de março de 2010

Ciclo de Cinema Modernista

Em resposta a inúmeros pedidos, eis a informação sobre o Ciclo de Cinema Modernista incluído no Ciclo de Conferências Modernismos, Futurismos, Sensacionismo & Pós, a decorrer na cidade de Almada.


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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Novo livro de Henrique Normando

Titula-se não acordes o gato e é o novíssimo livro de poesia de Henrique Normando. O lançamento está marcado para  o próximo dia 27 de Fevereiro, no Ateneu Comercial do Porto, pelas 16H30

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Este novo título de Henrique Normando (pseudónimo de Manuel H. Martins de Campos) segue-se ao Esfinges, primeiro livro de poesia do autor, publicado em Outubro de 2009. Formando de Mestre João Hogan e Maria Gabriel, Henrique Normando cria palavras com o olhar artístico, com a ductilidade das tintas; o resultado é uma poesia que investe no real, explorando-lhe os mais diversos sentidos, e, a partir dele, solta-se em movimentos e urdiduras  inesperadas, sempre à procura das novas potencialidades da palavra.
.
«O conteúdo deve sobrepor-se à forma e ao estilo, pelo que a Poesia não deve reduzir-se a um mero jogo de palavras», defende H. Normando; uma asserção que rejubila leitores (e, no, caso, a crítica literária) cansados da poesia que se esvazia no burilado de formas, que se esforça na pungência do ornato.
não acordes o gato é, por tudo isto, um livro que nos acorda e desafia. Para seguir atentamente, e conferir. 

Poema do novo livro:

O Fenómeno da Luz
.
.A luz dos teus olhos
É o enigma do comprimento de ondas e partículas
Que estranhamente se desprendem de forma descontínua
Até me transformarem num espectro
Que timidamente se aproxima
.
É a luz que me ofusca e me dissolve
No mar até à linha do horizonte
É a luz da lua receptiva
Que se reflecte no azul de forma esquiva
Como imagem entrecortada e derivante
.
É a luz agitada do amante que peca
E que não se propaga em linha recta
.
É o momento mágico
De um envolvimento de partículas
Que estão para além das leis da física
A luz revolvida pela maré que se prolonga
Num êxtase sublime em cada onda