terça-feira, 26 de outubro de 2010

Albano Martins: a cartografia da luz

(texto publicado no livro 80 Anos – Albano Martins e disponibilizado no sítio da Orgia Literária em 18 de Outubro de 2010)
.
.Não, ninguém se conhece, até que o toca
a luz de uma alma irmã
                                            Miguel de Unamuno

.
Falar de Albano Martins é nomear a luz. Uma luz verde, «casualmente azul», «às vezes amarela», «sobretudo vermelha», líquida, com «a cor dos miosótis e do sangue», a bordar um «coração de bússola» e a mapear a doação. Uma luz rutilante, exacta e concisa, irmanada com o nosso destino desde há 60 anos, nutrida de palavras, «Sentinelas de sal e de silêncio» a cantarem «A vida / – essa invenção magnífica / da morte».

«Meus versos / são encontros da sombra com a luz», escrevia o poeta no iniciático Secura Verde, os primeiros acordes de quem se propunha cumprir o «destino como qualquer fonte», com passos que fossem «os de qualquer bicho». Assim, «o verbo se fez cor, aurora, / boreal, multímodo / girassol», e o poeta fazia do seu nome uma canção, manifesto da transumância onde o sujeito lírico e o homem se aclaravam com «o mesmo nome», e o mesmo que nos chega até hoje, sabe-o quem conhece Albano Martins.
.
«Eu fujo de novo como faz o cuco», escreveu Anacreonte. Longe da Estrela e da Gardunha, radicado à beira do Douro com vista para a invicta brumosa, Albano convoca a luz, enceta a «viagem das flores sem moldura», dá cor ao tempo branco, «o tempo das cerejas e das malvas», torna audível um melro que «canta a flor das giestas / e da cerejeira», esculpe os «dias enxutos», os «Anos plácidos, / fulvos (alourados, amarelo torrado)», cintilações, inclinações do corpo, uma oração até às mãos doridas e requiem aos «gestos perdidos / no espaço da memória»; é o apelo da «Rosa-dos-ventos» da infância, onde cabem todos os lugares e todas as direcções da palavra que solta o mel das «Lendárias e luminosas abelhas», desata a «Magnólia dos símbolos», a florida e «incandescente metáfora». Edifício vivo, o ontem é eternizado na «luminosa fábula» construída com fios secretos a ligar os tempos Passado, Presente e Futuro e a desnudar o centro, o «Centro do próprio centro», a «água compulsiva». E nesse centro está o amor, leitmotiv da poesia albaniana, como na formulação de Paul Éluard: «Por amar, criei tudo o que é: real e imaginário. / Dei razão de ser, dei forma, dei calor / Dei imortal função àquela que me é lâmpada e luz».

A criação exige trabalho árduo, e Albano mostra-nos que, para abranger, a palavra – que busca «a flor do cálcio / na / luz da madrepérola» – tem de sofrer, sendo a presença da sombra uma prova incomensurável da força vital desta poesia:

Quando escurece, é preciso acender rapidamente todas as luzes da casa. Nunca se sabe quando o eclipse do sol é total. E a morte precisa de luz para ver na escuridão.

Em permanente busca interior, o amor Escrito a Vermelho tem, na obra albaniana, o «compromisso» largo e fulgente do destino humano, estabelecendo diálogo íntimo, directo e cristalino com o Homem:

Pertence-te
ser homem, afirmar
todos os dias que tens
um compromisso: ser claro
e brando como a luz
e, como ela,
necessário. E não deixar
crescer à tua porta
ervas daninhas.

É a bússola humanista de Albano Martins que brilha, total, em Rodomel Rododendro:

Repara. Há um rio correndo entre as falanges dos dedos. Navegá-lo-ás solitário, porque solitárias são as navegações humanas, todas, como inavegáveis são os rios, todos os rios da terra, anteriores ao mar. Onde tu vês a foz é a nascente que vês. Que os rios, como tudo o que é fluido e movente, nascem ao contrário.

Sobre o lugar do poeta na humanidade e o mistério da escrita, responde-nos Albano, num comentário ao poema «Santo e Senha», de Miguel Torga, com outro mistério: o «lugar onde do poeta» é na terra de todos, mas na área da sombra onde tem «a solidão por habitáculo». O poeta não mata a sede, engana-a, diz-nos, porque «a sua sede é de infinito, de absoluto, e a esta não há fontes que a saciem, mesmo as do Sonho, por mais refrescantes que sejam».

Interrogar, desvelar o real e soltar a imaginação são a «senha» e o «Lugar» de inscrição de Albano Martins, forma de vida plena na palavra plena a dar-nos lições de coerência e de autenticidade que partilha connosco, seus leitores e cúmplices de jornada.

O lugar da palavra de Albano, sabe-o o poeta, é aquele em que a pele das palavras, das que ele libertou, encontra outra pele que passa a ser a sua casa: a pele do leitor: «Como a palavra, Só o dardo /conhece o alvo. Só o dardo / sabe o nome / da ferida. / O seu lugar».

Escreveu José Régio: «Eis como tudo se reduz a pouco: literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo esse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação, a literatura que ele produza será superior; inacessível, portanto, às condições do tempo e do espaço». Assim vejo a poesia de Albano Martins: um hausto íntimo que atinge a universalidade e intemporalidade humanas; uma orquestração de palavras que depois de nos deixarem «todos os jardins da terra e do mar» nos incitam e ensinam a plantar «uma flor no vazio».

«Ao amigo e ao companheiro fiel nunca traí, / nem há na minha alma nada de servil», escreveu Teógnis, traduziu-o Albano Martins, lemo-lo como efígie deste homem poeta, tradutor de poetas, farol que nos guia na nossa inevitável condição crepuscular e dote nosso de língua lusa.


Nota: este texto foi editado no livro 80 Anos – Albano Martins, pp. 315 a 319, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2010, no ensejo das celebrações do aniversário do poeta (a 24 de Julho) e 60 anos de vida literária em 6 de Agosto de 2010.


*ler outros textos meus sobre Albano Martins na etiqueta correspondente.

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Juan Rulfo ou o assombro literário

Dois nomes de culto: Juan Rulfo e Pedro Páramo, o mágico e a «carpintaria secreta» reveladora de «insólita sabedoria», o escritor e a novela que o imortalizou. Gabriel García Márquez considerou a escrita do escritor mexicano sua matriz literária. Leitores dos quatro cantos do mundo consideram Pedro Páramo uma das maiores obras de sempre da literatura universal; também eu me inscrevo nessa multidão.
.
Publicada em 1955, Pedro Páramo daria a Juan Rulfo (1918-1986) o Prémio Príncipe das Astúrias, de Espanha, quatro anos antes do seu falecimento. Muito se escreveu sobre esta novela, e muito, creio, ainda se escreverá, porquanto ela nunca se acaba. É pejada de vozes, vozes fundas da terra difundidas pelas personagens, que as fazem suas, e que através delas se buscam.
.
Juan Rulfo escreveu pouco mais que essa novela e essa lhe bastaria para o nosso redondo assombro. É esse pouco que é tanto que nos acaba de chegar no tomo de 366 páginas: Juan Rulfo, Obra Reunida, pela Cavalo de Ferro, com o prefácio Breves nostalgias sobre Ruan Rulfo, por Gabriel García Márquez, tradução de Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu. Junto com Pedro Páramo, estão o llano em chamas e o galo de ouro; assim, três portentos literários, três viagens ao inefável, e ao indizível depois de Juan Rulfo.

Extractos:
.
«Dormi entre interrupções.
Numa dessas interrupções, ouvi o grito. Era um grito arrastado como o alarido de um bêbado: "Ai vida, não me mereces!"
Pus-me de pé rapidamente porque quase o ouvi aos meus ouvidos; podia ter sido na rua; mas eu ouvi-o aqui, colado às paredes do meu quarto. Ao acordar, tudo estava em silêncio; apenas o cair do pó e o rumor do silêncio.
Não, não era possível calcular a profundidade do silêncio que aquele grito produziu. Como se a Terra se tivesse esvaziado de todo o ar. Nenhum som; nem o da respiração, nem o do bater do coração; como se o próprio ruído da consciência se tivesse interrompido. E quando a interrupção terminou e voltei a acalmar-me, o grito regressou e continuou a ouvir-se durante um longo momento: "Deixem-me ainda que seja apenas o direito de empurrar a cadeira do enforcado!"».
.
Pedro Páramo, p.48
.
***
«Cai uma gota de água, grande, gorda, fazendo um buraco na terra e deixando um empate como de uma cuspidela. Cai sozinha. Nós esperamos que continuem a cair mais. Não chove. Agora, se olharmos para o céu, vê-se a nuvem aguaceira correndo para bem longe, cheia de pressa. O vento que vem da aldeia arrima-se-lhe empurrando-a contra as sombras azuis cerros. E a gota caída por engano é comida pela terra, que a faz desaparecer na sua sede.
Quem diabo terá feito esta planície tão grande? Para que é que serve, hã?
Voltámos a caminhar. Tínhamos parado para ver chover. Não choveu. Agora voltamos a caminhar. E a mim vem-me à cabeça que já caminhámos mais do que aquilo que andámos.»
.
O Llano em Chamas, p.146
.
***
«Passaram os dias. Dionisio Pinzón vivia unicamente preocupado com o seu galo, que enchia de cuidados. Levava-lhe água e comida. Metia-lhe migalhas de tortilha e folhas de alfafa dentro do bico, esforçando-se por fazê-lo comer. Mas o animal não tinha fome nem sede, parecia ter apenas vontade de morrer; embora ele ali estivesse para o impedir, vigiando-o constantemente, sem descolar os seus olhos dos olhos semi-adormecidos do galo enterrado.
Contudo, uma manhã, deparou-se com a novidade de que o galo já não abria os olhos e tinha o pescoço torcido, caído sob o seu próprio peso. Colocou rapidamente um caixote sobre a cova e pôs-se a bater-lhe com uma pedra durante horas e horas.
Quando, por fim, tirou o caixote, o galo olhava-o aturdido e pelo bico entreaberto entrava e saía o ar da ressurreição. Aproximou dele a tigela da água e o galo bebeu; deu-lhe de comer massa de milho e este engoliu-a, em seguida.
Poucas horas depois, pastoreava o seu galo pelo terreiro do curral. Aquele galo dourado ainda cinzento de terra que, apesar de se alquebrar a cada instante por lhe faltar o apoio da sua asa partida, dava mostras da sua fina condição, erguendo-se cheio de coragem perante a vida.».
.
.O Galo de Ouro, p.p.310,311

.

domingo, 17 de outubro de 2010

Luís Norberto Lourenço na tertúlia da História

O historiador e professor albicastrense Luís Norberto Lourenço acaba de lançar o livro Auto de arrolamento dos bens existentes na egreja matriz da freguesia de Penamacor, concelho do mesmo, distrito de Castello Branco, realisado no dia 6 de Julho de 1911 (Ver aqui). Segundo informações do próprio autor, a quem agradeço, o título terá distribuição gratuita: serão entregues 11 exemplares à Biblioteca Nacional (BN), um à Torre do Tombo, um a cada Arquivo Distrital, distribuídos pelas bibliotecas , por alguns arquivos municipais e em várias apresentações públicas pelo país.
.
Para muitos, Luís Norberto Lourenço dispensa apresentações, pois tem vindo, há cerca de uma década, a aplicar o conceito de terlúlia com envolvência cultural ímpar, e com o nome exacto de Casa Comum Das Tertúlias; o segredo estará na dedicação e tenacidade que corporizam um trabalho sólido estendido por apresentação de livros, declamação de poesia,  organização de tertúlias, organização de exposições (cerâmica, desenho, escultura, fotografia, pintura), concertos, visitas culturais, feiras do livro, revistas e fanzines e versátil actividade editorial.
.
Entre iniciativas de sucesso, a casa tertuliana de Castelo Branco ganhou asas e fôlego, pelo que o seu roteiro contempla já Cidade Rodrigo, Mangualde, Marvão, Nisa, Penamacor, Portalegre, Porto, Proença-a-Nova, Sátão, Vila Nova de Paiva, Vila Velha de Ródão, Salamanca, Seia, Setúbal. Ver aqui o resumo das actividades da Casa Comum das Tertúlias, e facilmente se conclui ser este um local que é obrigatório acompanhar.

sábado, 11 de setembro de 2010

Os «102 Minutos» do centro do Horror

Nove anos depois do terrível 11 de Setembro, recupero um texto que produzi em 2005 sobre um livro que reconstrói, minuto a minuto, o ataque às Torres Gémeas do World Trade Center – desde o embate do primeiro avião contra a primeira torre, às 8h46, até à queda da segunda torre, às 10h28.

Mostrar o interior, do exterior que todos presenciámos na televisão, é a grande novidade do 102 minutos; os autores, dois repórteres do jornal New York Times, Jim Dwyer e Kevin Flynn, colheram testemunhos de sobreviventes da catástrofe, pesquisaram centenas de entrevistas e transcrições de comunicações via rádio e telefone para que fosse recriado, o mais fidedignamente possível, o ambiente vivido no interior dos dois edifícios.
.
Este 102 Minutos, com o subtítulo A história desconhecida da luta pela sobrevivência no interior das Torres Gémeas, contém, logo a abrir, uma lista de «352 pessoas no World Trade Center» – funcionários, visitantes, elementos da Administração Portuária, bombeiros, polícias, entre outros, envolvidos na catástrofe; segue-se uma «Nota dos Autores» datada de Setembro de 2004; um Prólogo – a abrir com a primeira pessoa a chegar ao escritório no 89º andar, na Torre Norte, às 8h30, uma mulher sobrevivente e que foi entrevistada pelos autores no ano de 2003; o corpus da narrativa da tragédia em 14 capítulos, com o 1º capítulo a iniciar-se às 8h46, na Torre Norte, e o 14º a finalizar ao 102º minutos; um Epílogo – o Nível Zero às 11h00; uma Lista de 126 pessoas que, de entre os 2.749 mortos, estão mencionadas no livro; Notas e Agradecimentos.
No decurso da exposição são apresentadas diversas gravuras representando o espaço exterior das torres, e estrutura interior, além de esquemas dos embates dos aviões, todos documentos explicativos que foram editados no New York Times.
.
É também feita a história desde a concepção e construção das torres, as polémicas e os riscos anteriores ao fatídico 11 de Setembro. As consequências de um choque de um avião contra uma das torres tinham sido encaradas pelos que se opunham à sua construção de tal forma que esses opositores publicaram um anúncio no New York Times com a visão sinistra de um avião a embater na fachada norte da torre norte. A Administração Portuária, proprietária dos edifícios, respondeu que «os cálculos dos seus engenheiros e as simulações em computador demonstravam que o embate de um avião provocaria estragos em sete andares, mas o edifício permaneceria de pé.». No dia 7 de Novembro de 1982 as entidades oficiais “provocaram um desastre” numa das torres, a que responderam os Corpos de Policia e Bombeiros, bem como de Serviços de Emergência Médica e Administração Portuária. Tudo isto suscitado pela eminência de um acidente ocorrido no ano anterior: «um avião de carreira argentino, por problemas de comunicação com os controladores de tráfego estivera a noventa segundos de chocar com a torre norte, sem envolvimento de terroristas». Fala-se no atentado de 1993 e no alerta de Guy Tozzoli, Director reformado do World Trade Center, feito numa audiência com a assembleia legislativa, «que a cidade deveria preparar-se para uma catástrofe do género. Porém, ninguém lhe deu ouvidos» e, mesmo com a nova administração Giuliani, não foram feitos exercícios que envolvessem entidades conjuntas no edifício. As lutas intestinas, de ordem financeira, entre a Câmara e a Administração Portuária inviabilizavam acções concertadas.
.
A falta de comunicação entre entidades atingiu o ponto bizarro no 11 de Setembro: «Pelas 9h15, cerca de meia hora depois do embate do primeiro avião» perguntava-se ao chefe de bombeiros, sobre o plano de execução dos helicópteros; porém, «embora o município tivesse adquirido rádios para possibilitar a comunicação entre bombeiros e policias, os responsáveis dos dois organismos não conseguiram pôr-se de acordo quanto à escolha da frequência. Portanto nunca puseram os rádios em uso».
.
Enquanto isso, cerca de mil pessoas que sobreviveram ao embate do Voo 11, esperam no cimo da torre norte, por não terem encontrado uma saída desobstruída. «O destino daquela gente fora traçado quatro décadas antes, quando as escadas foram agrupadas no centro do edifício», e eliminadas as de serviço por terem sido consideradas um desperdício. Noutro lado a entrega à morte parece surgir como libertação : Kely viu as chamas avançar pelo poço do elevador. «Pensou inalar profundamente o fumo, matar-se antes das chamas o alcançarem»; «a necessidade de respirar era tão premente que as pessoas empilhavam-se às janelas», outras mergulhavam no vazio para fugirem «de um inferno de combustível a arder (…) não tinham de abrir caminho por entre as chamas».
.
.
102 Minutos, Jim Dwyer e Kevin Flynn; tradução de Saul Barata; Editorial Presença, Lisboa, Setembro de 2005
.
© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O desejo das palavras de Leonard Cohen

Confessional, intimista, espiritual, lúcido, irónico, Leonard Cohen apresenta-se-nos em Livro do Desejo - Book of Longing, no original - com letras arrebatadoras, reconstrói memórias, detém-se em sonhos e perdas, observa a passagem do tempo no corpo e na alma, interpreta o mundo, dialoga com a vida. São poemas e textos em prosa, ilustrados com desenhos do próprio Cohen, feitos durante os vinte anos que esteve sem publicar, um «Atraso» dito assim: «Consigo aguentar bastante; não falo /enquanto as águas não transbordarem das margens /e rebentarem a represa. //Daí ter sido capaz de atrasar este livro bem para lá/do final do século XX.».
.
(clicar na imagem para aumentar)
.
Publicado entre nós em 2008, com justas honras mediáticas, o Livro do Desejo é uma edição bilingue, tem a chancela das extintas edições Quasi e tradução de Vasco Gato. A obra foi base do espectáculo A Song Cycle Based on the Poetry and Images of Leonard Cohen, de Philip Glass, e alguns dos poemas foram adaptados a canções. Agora, no seu regresso a Lisboa (a 10 de Setembro), este título recorda-nos que o canadiano nascido em 1934 antes de ser cantor foi poeta - com o primeiro livro de poemas, Let Us Compara Mythologies, em 1956, a que se seguiram doze livros, entre os quais dois romances - e é, indubitavelmente, essa corrente primeira a geratriz da magia que recebemos ao ouvir as canções de Leonard Cohen.
.
quatro poemas:
.
Corpo de Solidão
.
Ela entrou no meu pé com o pé dela
e entrou na minha cintura com a neve dela.
Entrou no meu coração a dizer,
"Sim, é isso mesmo."
E foi assim que o Corpo de Solidão
se viu coberto por fora,
e por dentro se viu
o Corpo de Solidão abraçado.
Agora sempre que tento inspirar
ela segreda à minha falta de ar,
"Sim, meu amor, é isso mesmo, isso mesmo." (p.40)
.
***
Gravidade

Nunca tentei ver o teu rosto,
Nem sequer quis conhecer
Os pormenores de um lugar inferior
Para onde teria de ir.
.
Porém o amor é forte como a gravidade,
E toda a gente tem de cair.
Ao início é da macieira,
E depois do muro ocidental.
.
Ao início é da macieira,
E depois do muro ocidental.
E depois de ti e depois de mim
E depois de um e de todos. (p.212)
.
***
Metade do Mundo

Todas as noites ela vinha ter comigo
Eu cozinhava para ela, servia-lhe chá
Ela tinha trinta e tal naquela altura
conseguira fazer algum dinheiro, vivera com homens
Deitávamo-nos para dar e receber
debaixo do mosquiteiro branco
E uma vez que nenhuma contagem começara
vivíamos mil anos num só
As velas ardiam, a lua descia
a colina polida, a cidade leitosa
transparente, sem peso, luminosa,
destapando-nos aos dois
naquele chão fundamental,
onde o amor é fortuito, desatado, desencarcerado
e do mundo perfeito se acha metade. (p. 226)
.
***
A inundação
.
A inundação está a acumular-se
Em breve mover-se-á
Sobre todos os vales
Contra todos os telhados
O corpo afogar-se-á
E a alma libertar-se-á
Anoto tudo isto
Mas não tenho prova alguma  (p.229)

sábado, 4 de setembro de 2010

Palavras, a terra humilde de Ruy Duarte de Carvalho

.
«A tarde cai na concha devoluta do meu peito /exausto me devolvo à pedra/e ao coração de um animal cansado», escreveu Ruy Duarte de Carvalho em versos dum poema contido em Lavra - poesia reunida 1970/2000, título indispensável a todos nós que ressurgiu nas livrarias depois da morte do autor, no passado dia 2 de Agosto (Ver Aqui Ruy Duarte de Carvalho por ele próprio).

Um grande homem que nos deixa um legado magistral em língua portuguesa, uma poesia de humildade, pura filigrana vocabular, com a palavra depurada até à sua essência cristalina, com o «chapinhar das frases» que narram brumas, «dias claros» e explicam o infinito. Uma poesia lúcida, daquela lucidez que nos acorda para o assombro. Uma poesia líquida, daquela liquidez que escorre ágil pelos corredores mais esconsos do ser para os inundar e fecundar. Ao lermos a obra de Ruy Duarte de Carvalho fazemos uma viagem pela viagem que ele fez: uma viagem ao silêncio da terra, das paisagens, das grutas, dos bichos, das «mulheres sentadas, das tarefas autónomas que os seus gestos tecem», aos rumores do espírito e à comoção.

«Não poderia traduzir palavras. Optei assim por traduzir a forma e descobrir palavras que acrescentadas são palavras novas», diz Ruy Duarte de Carvalho sobre o gesto que é o texto, lugar de respiração com compassos nomeados assim:

«Partir de uma palavra. Partir numa palavra. Confirmações possíveis. Fidelidade a quê? Texto, lugar do encontro. O pensamento, o tempo, a emoção, o som. Regra primeira – humildade.»

Extractos de poemas:

Eu tenho os dias claros
.
Eu tenho os dias claros
de sucessivas luas de Setembro
e a noite que me impõe sinalizar
as direcções cruzadas das margens.
(…)

Entendes companheiro?
Eu estou aqui
a procurar não ir além da bárbara carícia
de um olhar sem tacto

e que nem uma lágrima machuque
a capa muito fina da lembrança
que tenho para dar-te. (p. 34)
.
***
A gravação do rosto

(...)
O zinco dos telhados cobriu-me solidões
e esperanças que tu sabes.
.
Esperei aqui por ti
bordei-te flores nos canteiros do céu
abri-te valas, semeei-te milhos
pari colheitas de searas vãs
abri os dedos, semeei calhaus.
.
Espremi a terra e fiz-lhe água nascente
Povoei prados de criaturas doces
Ergui torres, girassóis gigantes
Dei vida e morte, vi nascer e morrer.
..
Aqui reinei, julguei, plantei videiras
caminhos, grutas de vestígios;
colhi olhares de animais bravios
deixei aos dedos aladas liberdades.
(…)
Aqui me dei, aqui me fiz,
desfiz, refiz amores.
Senti escorrer pelo corpo o pus das mais antigas chagas.
.
Aqui me embebedei e vomitei o espanto.
.
Aqui contei os passos
de uma distância que me não contém.
.
Daqui abalo hoje, parido para o nada
apalpo a água
afago um bicho
ordeno qualquer coisa
e vou. (p.p 36 e 38)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Poesia reunida de José Tolentino Mendonça

Está nas livrarias a 2ª edição aumentada e encadernada de A Noite Abre Meus Olhos [Poesia Reunida], de José Tolentino Mendonça, com a chancela da Assírio&Alvim. A antologia contém oito livros do autor, desde Os dias Contados (1990), com o qual se inaugurou na poesia, até a O viajante sem sono, editado no final do ano passado, também pela Assírio. É um livro de pequenas dimensões, capa dura e de grande beleza, na linha doutros que a editora tem feito, e chega na altura em que o autor lança o pequeno livro de prosas O Hipopótamo de Deus e outros textos.
.
Um grande ano, pois, para José Tolentino Mendonça, padre, teólogo e poeta, que tem talhado uma poesia arrojada, inquiridora, nocturna, melancólica, pejada de vozes, plena de tensões a darem conta dos labirintos e dramas do homem actual. Uma missão fragosa da palavra - em poemas, muitos deles, muito condensados -, consciente da sua vulnerabilidade, lançada numa espécie de travessia ou peregrinação, com visão de descampados, caminhos de poeira, de fogo e de neve, túneis, muros, sempre à procura de novas possibilidades.
José Tolentino Mendonça é um nome da actual poesia portuguesa ao qual se deve dar a maior atenção.
.

Dois poemas:

A estrada branca
.
Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto


folhas tremiam
ao invisível peso mais forte
Podia morrer por uma só destas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate. (p.177)

***

Travessia


Os nossos dedos são cândidos
com brilhos impressos
e um tempo absorvido dos dois lados
Nos sinos, nos guizos, nas harpas
procuramos sem nenhuma restrição
o fogo e o gelo
a iluminação de um ramo dourado

Há um instante em que as nossas vozes
se fundem e destacam
reluzentes sobre a vida perpétua
.
Atravessamos a noite com uma vontade irreprimível de cantar (p.240)

.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Quatro estações de vida

Anda muito esquecido, mas é um título que encerra quatro pérolas literárias. O As Quatro Estações, de David Mourão-Ferreira, contém quatro contos para quatro figuras de mulher narradas em labirintos, escadas em espiral, espelhos, mágoas, perdas e cicatrizes, a incitar a reflexão sobre a vida subjugada ao curso implacável do tempo linear e irreversível, em oposição ao Tempo circular da natureza regenerada a cada ano.
Já Camões, no soneto Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, certificava a oposição do ciclo do homem/ciclo da natureza com desalento e amargura pela condição humana: «O tempo cobre o chão de verde manto, /Que já coberto foi de neve fria, /E em mim converte em choro o doce canto.».
Mestre da surpresa e da metamorfose, David Mourão-Ferreira vai, todavia, mais longe, reescrevendo com rebeldia os mitos das Estações: se no Inverno ressuma o mito correspondente - «a fase das ilusões perdidas» -, é nele que surge a sabedoria e «o anúncio da madrugada». E comprova-se que a arte da palavra reergue o que o tempo dissolveu e eterniza o nome de quem, com empenho, a esculpiu.

Vera, Wanda, Beatriz e Erika constituem a tetralogia, dispostas pela ordem das Estações do ano, Primavera, Verão, Outono, Inverno. No «belo» posfácio – assim caracterizado pelo próprio Mourão-Ferreira em Nota do Autor à 2ª edição, também incluída no livro –, com o título «Mutação, Anamorfose», José Martins Garcia apresenta uma leitura dos contos e diz que Mourão-Ferreira é um desmistificador de mitos, havendo a necessidade de se «descobrir que espécie de mutação sofrera toda essa provável mitologia»: nem Vera e o Acidente se apresenta como «narrativa primaveril»; nem Wanda e o Espelho representa a «exaltação de um qualquer mito solar»; nem Beatriz e o cãozinho de trela se «compraz com os crepúculos outonais»; nem Erika e a madrugada evidencia o «azedume do Inverno».

Degrau a degrau a aprender a vida

Sobre o tempo que passa e não volta, diria, ainda, Camões: Que me quereis, perpétuas saudades? /Com que esperança ainda me enganais? /Que o tempo que se vai não torna mais /E, se torna, não tornam as idades. Retornar às idades para as esclarecer é o compromisso narrativo de David Mourão-Ferreira. Longe do berço – pátria e infância –, em Nova Iorque, um homem de meia idade percorre um estranho museu «destinado a exposições temporárias», com «heteróclitos objectos pendurados nas paredes, suspensos no tecto, amontoados no pavimento», malas esventradas, peças de roupa em farrapos, sapatos, livros, espólio de existências que se observa num percurso descendente, por uma «rampa espiralada». Envolvido por estes restos de vidas, o seu olhar detém-se numa visitante, uma rapariga de face redonda,  loira como o sol, vestida com o vermelho da fatalidade que lhe faz lembrar a Vera dos seus 14 anos, de há 40 anos atrás, falecida então num acidente de automóvel, que sempre o desprezou, mas que ele, sabe-o agora, nunca esqueceu. Atordoado pela a imagem que guardou de Vera, e intrigado pela razão da memória em recordar «determinados incidentes» deixando outros conservados na «densa neblina», segue a rapariga por outros espaços, escravo do «caprichoso mecanismo» da memória em reconstituir ao pormenor, a imagem do passado da sua infância.

E a memória ensina; o sentimento de perda, agora clarificado, possibilita ao sujeito a «descoberta radical» de que a dor fica para sempre tatuada no corpo: «nada pode algum dia eliminar o género de infelicidade em que vai pensando. E é como se dentro de si também tivesse deixado de chover; ou como se, entre os esboços de todos os arranha-céus que dentro de si transporta, também se fossem abrindo clareiras de um azul igualmente inútil, igualmente precário e para sempre silencioso.».

No segundo conto, Wanda é a corista que fascina Jonas, o rapaz vindo do Seminário dos «confins da Beira Baixa», no Verão dos seus 17 anos. Por uma «escada de ferro em caracol», o rapaz entra nos bastidores de um teatro cheio de espelhos redondos que reflectem o mise-en-scéne da existência humana, expõem a verdade e registam as metamorfoses do corpo, num diálogo entre personagens e leitores, todos «parceiros num jogo estranho». É lá que Jonas, como as escadas indiciavam, num labirinto de frieza, conhece um pai misterioso, machista e fútil e o seu mundo decadente com as coristas. O Verão de todas as aventuras, o Verão de Wanda, é o da impossibilidade de aventura.

Na senda da "desmistificação",  surge a lição do Inverno com o autor a dar a «Erika e a madrugada» do seu Inverno, suprema dignidade. É clara a mensagem: o que importa é enfrentar o (s) tempo (s) e fazer dos degraus da vida um caminho para a luz para e não para as trevas, sendo o percuso, ou devendo ser, ascendente e não descendente. Antes reticente, Erika decide ir ao casamento do homem que amou, e o texto, com uma narrativa em jeito de carta que arruma o passado, corre assim:
.
mudaste de ideias e fizeste bem: tinhas de mostrar a ti própria que eras capaz de aparecer; tinhas de novamente pôr à prova o teu fair-play, a fim de conjurares, com a tua presença, a permanência ou o retorno de alguns fantasmas. Não estás muito segura de o ter conseguido. Mas talvez nem seja isso que importa.

Também Erika abre a janela sobre o passado de perdas, mas para o resolver, e nessa janela alvorece o futuro. O texto, brilhantemente, explana-o assim:
(…) e já tornaste a pôr sobre os ombros o casaco de peles, de novo pensando na ternura e na violência daquelas duas mãos que tanto gostavam de encontrar-te, aqui mesmo, geralmente durante a noite ou já de madrugada, apenas com este ou com outro casaco em cima do corpo, e que tanto gostavam, depois disso, de com ternura e violência avidamente to despirem.

© Teresa Sá Couto

domingo, 22 de agosto de 2010

Memórias de "Um Amor Feliz"

É considerado um dos melhores romances portugueses do séc. XX. Editado em 1986, Um Amor Feliz de David Mourão-Ferreira  narra um caso amoroso, adúltero e escaldante de um artista plástico com a senhora Y, sigla de sugestão erótica com que David inicia o romance.
História de um amor que se perdeu, o título de felicidade reporta-se, ainda, inevitavelmente, ao amor pela escrita, acto erótico e sexual de fecundação: «a feminina multidão das palavras: as que se entregam, as que se esquivam; as que é preciso perseguir, seduzir, ludibriar; as que por fim se deixam capturar, palpar, despir, penetrar e sorver, assim proporcionando, antes de se evaporarem, as horas supremas de um amor feliz. Não há matéria mais carnalmente incorpórea; nem mais disposta a por amor ser fecundada.».

Com recurso à Memória, e sempre ela como força da criação davidiana, reconstroem-se os meses de encontros arrebatadores e luxuriantes do narrador com senhora Y. O espelho está lá – o grande espelho no atelier onde se dão os encontros amorosos –, metáfora da memória, superfície da revelação, numa escrita magnificente pejada de símbolos:
.
Estamos ambos de pé, estamos ambos nus, diante do enorme espelho aí à largura dessa parede: e todo eu me escondo atrás do seu corpo, assim lhe mostrando como só o seu corpo ali merece reflectir-se. Acaricio-lhe e sopeso-lhe os seios, ora um ora outro, na palma da minha mão direita, enquanto com os dedos da mão esquerda lhe modelo o pescoço, o ombro, o flanco, o ventre, o deslumbrante nascimento das coxas (…). Mas os seus olhos apenas espiam, na superfície do espelho, o reflexo do meu rosto semioculto.
.
A premência de se recuperarem fidedignamente todas as sensações daquele amor proibido faz com que o narrador opte pelo longo diálogo que estabelece com a amada doutros tempos, recuperando ao ínfimo pormenor os momentos a dois, método de construção da história que terá magnetizado os leitores. Para essa cumplicidade com o texto concorre, também, a mestria das descrições sinestésicas, onde confluem o cheiro dos corpos em cópula, o sabor da pele em êxtase, o cetim da pele em torrente de arrepio, gemidos de vocábulos na cadência do tropel de cavalos, os olhos hipnotizados no outro, cada um dos sentidos sugestionando, motivando e enformando um outro sentido, num festim de imaginação: «raízes, ramos, folhas, frutos. E a gruta; e o grito. (…) Encontramo-nos, no entanto, muito mais despertos do que supúnhamos: sentimo-nos leves, límpidos, alados, lúcidos, como depois de uma trovoada».
.
Metáfora doutro amor, esse sim imorredouro, está o laço a outro elemento feminino: a palavra - a escrita, a página, a Terra -, dito assim pelo autor:

(...) como se pode interpretar de outro modo esse velho lugar-comum de ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro? Só se em todos os casos se tratar de grandes e inevitáveis actos de amor. Com a Mulher, com a Terra, com a Língua. Mas de plantar árvores e ter filhos haverá sempre muita gente que se encarregue. De destruir árvores também; de estragar filhos igualmente. Em compensação, um livro, um livro que viva, multiplicado, durante alguns anos ou alguns séculos, e que depois vá morrendo, sem ninguém dar por isso, mas nunca de uma só vez, até ser enterrado na maior discrição ou até se ver de súbito renascido, inesperadamente ressuscitado, um livro com semelhante destino – luminoso por mais obscuro, obscuro por mais luminoso –, isso é que foi sempre o que me empolgou.

e ainda:

a maravilha que deve ser escrever um livro: a invenção dentro da memória; a memória dentro da invenção; e toda essa cavalgada de uma grande fuga, todo esse prodígio de umas poligâmicas núpcias, secretas e arrebatadas, com a feminina multidão das palavras: as que se entregam, as que se esquivam; as que é preciso perseguir, seduzir, ludibriar; as que por fim se deixam capturar, palpar, despir, penetrar e sorver, assim proporcionando, antes de se evaporarem, as horas supremas de um amor feliz. Não há matéria mais carnalmente incorpórea; nem mais disposta a por amor ser fecundada.

notas:
- Um Amor Feliz foi Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, Prémio de Ficção Município de Lisboa e Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores.
- a Editorial Presença tem uma edição mais recente do título, com capa diferente.


© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Um loquaz Papagaio

Eis uma leitura imprescindível nestas férias: O Papagaio de Flaubert, escrito por Julian Barnes, traduzido por Ana Maria Amador e acabado de dar à estampa pela Quetzal.

Uma viagem pela vida, psicologia e obra de Gustave Flaubert, numa narrativa originalíssima, arejada, bem-humorada, que casa o pitoresco e o reflexivo de forma soberana. «Um romance magistral sobre literatura, talento, comboios, compotas de groselha, ursos, ficção, vestidos de mulher, George Sand, política, século XIX, absurdo, morte, solidão, escritores, crítica literária — e beleza.». Em leitura, atesto: uma surpresa deste Verão, um tesouro literário de 238 páginas a que nenhum leitor ficará indiferente.

Extractos:

«Depois vi o papagaio. Estava numa pequena alcova, verde-vivo e de olho petulante, com a cabeça inclinada num ângulo interrogador. "Psittacus", dizia a etiqueta no extremo do poleiro: "Papagaio que G. Flaubert pediu ao Museu de Ruão e que esteve na sua mesa de trabalho enquanto escreveu Un Coeur Simple, onde tem o nome de Lulu, o papagaio de Félicité, a personagem principal do conto." A fotocópia de uma carta de Flaubert confirma o facto: o papagaio, escreveu ele, estava na sua secretária há três semanas, e começava a irritar-se de o ver. Lulu estava em óptimas condições, as penas tão onduladas e o olho tão irritante como deviam estar cem anos atrás.». p.p.17, 18
.
***
«Os livros não se fazem como os filhos, mas como as pirâmides, com um plano longamente pensado, e pondo grandes blocos de pedra uns em cima dos outros, à custa de esforço, tempo e suor. E não serve para nada! Fica assim erguida no deserto! Mas domina-o de uma maneira prodigiosa. Os chacais mijam-lhe na base, e os burgueses trepam-lhe ao topo.»  p.43

***
«No princípio fiquei ferido; no princípio importei-me, senti desprezo por mim. A minha mulher ia para a cama com outros homens: deveria preocupar-me com isso? Eu não ia para a cama com outras mulheres: deveria preocupar-me com isso? A Ellen era sempre gentil comigo: Deveria preocupar-me com isso? Gentil, não por se sentir culpada de adultério, simplesmente gentil. Eu trabalhava muito; ela era uma boa esposa para mim. Eu não tinha amantes porque não estava interessado; além disso, o estereótipo do médico sedutor é repugnante. Ellen tinha amantes porque, penso eu, estava interessada. Éramos felizes; éramos infelizes; tenho saudades dela. “Levar a vida a sério é magnífico ou estúpido?” (1855)». p. 203


Verão com Patrícia Melo

Mencionar a escritora paulistana Patrícia Melo é referir-se a originalidade, o inusitado, a desconstrução, a acutilância, o humor, a ironia e o tempero de um delicioso cinismo, tudo vertido em narrativas alucinantes e magnéticas. Jonas, o copromanta é um título editado no final do ano passado pela Campo das Letras, o sétimo título que a editora nos trouxe da autora . (ver Aqui).
.
Personagem extraordinariamente bem construída, como é apanágio da autora, Jonas é um funcionário da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, leitor obsessivo, espírito estóico, criptólogo que, tendo por referência a escrita copta usada no Egipto até ao séc. XIII, perscruta diariamente as suas fezes, tentando desvendar o significado das formas fecais ao boiarem na retrete, hieróglifos que desenha num caderno para estudo apurado, e que são apresentados ao longo das páginas. Além da leitura de fezes e prever o futuro - a “dejectosofia” -, Jonas tem outro enigma para resolver: a razão de ver-se clonado, com a vida plagiada, num conto de Rubem Fonseca, o escritor brasileiro Prémio Camões, que é, assim, feito personagem nesta narrativa. Noto que Rubem Fonseca executou o guião para cinema da obra O Matador - livro que deu visibilidade a Patrícia Melo -, em 2003, com o título O Homem do Ano.

Extracto:

Quem possui dons divinatórios é por natureza um decifrador, um apaixonado, um jogador nato. Portanto, é fundamental, quando se vai prever o futuro, dominar também o principal axioma da criptografia, que é considerar todas as possibilidades. É uma luta. Nós e eles. O futuro e nós. O segredo e a revelação. O significado e o signo. A forma e o conteúdo. Eles se defendem e nós atacamos. Avançamos sobre Neco Juscelino e códigos. Li num manual de criptologia que uma simples oração como esta última, de apenas trinta e cinco letras, tem cinquenta nonilhões de formas de possíveis rearranjos. Um mar sem fim. Três os. Quatro emes. A lógica pura não dá conta de tudo. Por isso, precisamos ser imaginativos, dois es. Sem criatividade, três is, ficamos sem chão, dois as.
Tarde da noite, meus olhos perderam o foco. Dormi com as letras dançando em meus sonhos.
.

Por sua vez, Mundo Perdido recupera a personagem Máiquel, o assassino a soldo de O Matador. O reino dos homens não tem segredos para Máiquel, tampouco o inferno do qual é seu ilustre representante. Neste Mundo Perdido, o criminoso regressa dez anos depois, foragido da polícia, para procurar a filha Samanta que não vê há uma década, levada por Erika, a ex-companheira, que fugiu com Marlénio, pastor evangélico de uma das muitas seitas bizarras que pululam no Brasil. No encalço da filha, percorre o país, passa por acampamentos de sem-terra, contacta com quadrilhas de tráfico de droga, entra e sai da Bolívia, ensejos para se conhecer a putrefacção social. Embora Máiquel pretenda deixar a sua antiga profissão de matador, a rede de morte envolve-o e configura-o, e ele comete vários assassinatos, com a destreza e frieza costumeiras, mas desta vez em nome da sobrevivência. Por isso, Máiquel é um anti-herói (ou herói brasileiro?): errante sem futuro, num mundo de violência e morte, que «aguenta o tranco» e sobrevive na loucura de que tem consciência, vertentes do carácter dual da personagem e a sua grande intenção romanesca: a loucura de uma sociedade sem esperança e ciente disso:

Estrada é bom pra pensar. Você engata a quinta, os pensamentos nascem do nada, de um buraco negro, você vê uma propaganda de seguro de vida para toda a família, uma família na mesa de jantar, sorrindo, papai, mamãe e filhinhos, e você pensa que a melhor hora de atacar é essa mesmo, quando todos estão se empanturrando, e depois os pensamentos continuam, um atrás do outro, e, quando você vê, você já está lá, pensando coisas, pum, o dia em que eu vou morrer, vermes, podridão, fim.

Embora sujeito de uma existência decadente, Máiquel nunca está só. Mulherengo, à sua volta estão sempre mulheres que o disputam, num fenómeno assim explicado: «As pessoas adoram encontrar outras pessoas afundadas na mesma merda que elas. Esse é o segredo dos alcoólicos anónimos, e das porcarias anónimas em geral

Por outro lado, a narração em jeito de discurso directo de Máiquel abre a porta ao calão, usado sem pejo, à crueza da palavra, confere vigor ao romance que se lê de um fôlego, num crescendo de intimismo com a personagem e, gradativamente, também em dualidade, o leitor sente repulsa e simpatia pelo “malandro” aparentemente sem escrúpulos, mas apaixonado por um cão vadio e doente, que mete dó de tão feio, logo baptizado de Tigre, que ele cuida com tolerância e afeição desmedidas, - porque «cachorro é gente e gente é cachorro» – e que leva consigo nos seus caminhos infernais. Se a ternura e o humor contagiantes das inúmeras passagens, nos desatam sorrisos, é igualmente certo que amplificam o sentido trágico de vidas gastas em «mera fila para morte», deixando-nos um travo amargo de inquietação.
.
© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 23 de julho de 2010

As Artes Entre as Letras dedicado a Albano Martins

Chamada de atenção para o jornal  As Artes Entre As Letras, editado no Porto, que dedica o seu número ao poeta Albano Martins, no ensejo dos 80 anos do poeta, a completarem-se no próximo dia 24 de Julho, e dos seus 60 anos de vida literária, que se assinalam este ano.

(clicar na imagem para aumentar)
.
É uma bela edição, este número 30 do jornal quinzenal (sai à quarta-feira). Na homenagem a Albano Martins, à volta do homem e da obra, juntam-se, com textos, Guilherme d' Oliveira Martins, Miguel Veiga, António Oliveira, Salvato Trigo, Fernando J.B. Martinho, Jorge Velhote, Bernardette Capelo-Pereira, Helder Pacheco, António Rebordão Navarro.
Editam-se três poemas inéditos de Albano, datados e na sua caligrafia, e um anexo de 4 páginas com inéditos de Albano dedicados a Helder Pacheco.
.
*Ler aqui um texto de Guilherme d'Oliveira Martins sobre o percurso de Albano Martins.
.
Ver textos meus sobre a vida e a obra de Albano Martins na etiqueta correspondente.

sábado, 17 de julho de 2010

Poesia de Manuel de Freitas

«Pode-se evitar tudo menos as evidências / – se estão nus os olhos por elas /apedrejados», escreve o poeta Manuel de Freitas em três versos que encerram características marcantes da sua poesia: a crueza da observação, a lucidez da palavra avessa a jogos retóricos ou meros exercícios vocabulares, que grassa em tanta da dita poesia que teima em fazer-se em Língua Portuguesa.

«Dificilmente alguém poderá rematar a leitura de um poema de Manuel de Freitas com aquele “não percebi nada” que, se o snobismo não fosse endémico no meio intelectual, dedicaríamos a muita da poesia que passa por “grande”, escreve José Miguel Silva no posfácio do A Última Porta, colectânea de poemas de Manuel de Freitas, acabada de editar pela Assírio&Alvim. Na belíssima capa, um desenho de Adriana Molder com a sua inconfundível técnica dos retratos a tinta-da-china sobre papel esquisso e a procura do branco com uso de água com lixívia.
.
A obra de Manuel de Freitas é composta por poemas que fogem de lugares ledos, apesar do «estupor bucólico de certos dias». Trata-se de uma poesia que se detém em lugares onde se reúnem pessoas com «a sincera mentira dos seus gestos», com a «ilusão de se estar vivo», para colher e abrigar «numa espécie de voz /esses estilhaços» de existências caídas, excluídas, que erram nas ruas de várias cidades, que se vazam em copos nas tabernas, ou nos bares nocturnos onde se vive a «mentira de se estar vivo». No centro dos escombros, parte integrante deles, lúcido, atestando que a angústia é um dano colateral de quem vive, está o sujeito poético que, também ele, se confunde com o autor: «Dois homens, numa taberna, /enquanto chovia. O terceiro /era eu: aquele que escreve /e não escreve este poema.».
.
A voz de Manuel de Freitas «não desemboca numa depreciação da vida mas numa espécie de amor rancoroso pela mesma, um amor desesperado e sem saída», resultado de um «sentimento de quem sabe que ama apenas uma sombra, e que apenas sombras podemos amar», diz José Miguel Silva. Contaminada pela morte, a vida – a que o sujeito poético não «apetece chamar-lhe “vida”» – é «o nada»: «A vida, devo-o ter dito já, também pode /ser isto – a violenta dor de alma, /a dor simples e gasta de ser isto apenas: //a alma nenhuma.». Quanto ao amor, «não sei o que é o amor», diz o sujeito poético que sabe que «nada ficará», pois «a morte escreve demasiado bem». A literatura, essa, será uma voz para futura memória da existência que tem a gritar unicamente o nada: «O mais estranho não é a literatura, / o solene esgar da poesia. / Mais estranho, sempre, é sobreviver /a isto, fingir que não, sorrir. // Enquanto o olhar negro negro /de um gato testemunha a tua morte /e se despede melhor do que tu/ da música e dos dias e da música. // Qualquer coisa assim.».

Transcrevo na íntegra o poema Errata, e um extracto do poema BWV 988
.
Onde se lê Deus deve ler-se morte.
Onde se lê poesia deve ler-se nada.
Onde se lê literatura deve ler-se o quê?
Onde se lê eu deve ler-se morte.
.

Onde se lê amor deve ler-se Inês.
Onde se lê gato deve ler-se Barnabé.
Onde se lê amizade deve ler-se amizade.
.

Onde se lê taberna deve ler-se salvação.
Onde se lê taberna deve ler-se perdição.
Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.
.

Onde se lê Manuel de Freitas de ser
Com certeza um sítio muito triste.

(poema Errata, p.131)

***
Talvez tudo fosse diferente
se o mundo tivesse começado tão bem
como as variações Goldberg.
Não sei, não quero saber, não faço ideia.
[…]
O amor? Talvez, quando um cadáver
se recria e afaga penosamente
a morte de que de uma maneira ou
de outra se morre. Quem me dera ser
menos realista, menos real,
menos permeável ao desgosto.
Mas a verdade é esta: partiste
a meio da noite, fodemos pouco e mal
e quando a janela me guilhotinou
já um táxi te levava
para longes terras da cidade em pânico..
É tudo – sabes? _ tão dolorosamente simples.
A mão que não quer esperar-me,
o rumor sórdido dos bares,
a certeza de que a vida, a vida,
não deveria ser exactamente assim.
.
Reúno, numa espécie de voz,
esses estilhaços. Sei que não vale
a pena, sempre o soube.
Há os que se despedem e os que não.
E, indiferentemente, progridem
as diferentes coisas. Carteiros
matinais, aviões, poetas que dão
corda à musa e escolhem
devagar o timbre da gravata.
Estão no seu direito, partilham
o bem comum, a cidadania do terror.
..
E eu, infelizmente, existo. Abro
outra lata de cerveja, sob
o olhar reprovador do gato. Sim,
gostava de ser felino – uma coisa
mansa, dolorosa, ao abrigo da tormenta.
[…]
(poema BWV 988, p.p73,74)
.

Nota (1):  É conhecida a posição de José Miguel Silva sobre o que deve ser a Poesia; desafio à leitura de um seu texto e respectiva discussão, AQUI.

sábado, 10 de julho de 2010

A Chave premiada de Rui Herbon

(versão do texto da Apresentação Pública, a 25 de Maio último, editada no sítio da Orgia Literária em 09 de Julho)

Prémio Branquinho da Fonseca de Conto Fantástico, 2009, A Chave é o novíssimo título de Rui Herbon. Em epígrafe, versos do poema Xadrez de Jorge Luis Borges – Deus move o jogador que move a peça. / Que deus atrás de Deus o ardil começa / de pó e tempo e sonho e agonias? – fazem-nos prever a influência borgiana e lobrigar a urdidura do conto com as declinações do jogo que é a vida onde todos somos jogadores e jogados, peões no imenso acaso que nos governa.
.
No centro da narrativa está um jogador e um jogo: Michel Lemercier, um xadrezista francês de renome, com livro publicado sobre o métier, enredado numa só partida de xadrez que lhe ocupa dezassete anos de vida (de 1958 a 1975). O mistério chega-lhe de forma «enviesada, oblíqua» sob o aspecto duma bela e enigmática mulher, alta, esbelta, longos cabelos pretos, olhos grandes, com voz «grave e obscura» a evocar o «rumor do fogo», de nome Lucrezia, e pela qual se sente imediatamente enfeitiçado. Não é a Dama Pé de Cabra da narrativa de Alexandre Herculano, tampouco as fatais Cleópatra e Medusa ou a estonteante Lucrécia Bórgia, mas o leitor é, logo na primeira página, catapultado para todas elas; trata-se do início da negociação do fantástico com o leitor, lançada a ambiguidade essencial nesse tipo de narrativa, mantida durante todo o conto a construir e fortificar a dúvida entre o real e o irreal.
.
Tratando-se de uma narrativa breve, célere e concentrada, o texto lança mão a diversos recursos industriosos como o de um narrador que sabe tudo e mostra-o pelo que cala no momento certo, em cortes cirúrgicos que nutrem a atmosfera do enigma; ainda no jogo com o leitor, porque na inversão do esperado, a relação do jogo de xadrez com o jogo da vida não é feita alegoricamente, mas evidenciada directamente no texto: «o xadrez é a vida», «Dois princípios opostos debatendo-se sobre um tabuleiro cósmico: branco contra preto»:
apenas um lance, pelo que aquela jogada adquire uma relevância absoluta. A vida inteira gira em torno desse lance, e a sua execução converte-se no objectivo básico, na razão final de cada jogador. A vida, portanto, transforma-se numa partida de xadrez, e o xadrez deixa de ser uma abstracção para se converter em vida. (p. 53)

Sempre na construção da ambiguidade, o texto vai alternando, numa espécie de camadas, elementos realistas com situações do dia-a-dia, a conferir verosimilhança à narrativa, e fraturas da racionalidade com elementos do Fantástico a tecerem a magia (um peão de prata, que Michel recebe de Lucrézia, e um minúsculo estojo de xadrez composto por peças feitas por um ourives florentino, no séc. XVI, que a mulher transporta na sua mala). Assim, A Chave radica-se num jogo dual com que se pretende explicar o mundo e o indivíduo, um jogo entre enigmas que procuram ser racionais e aquela «espécie de escândalo da razão» – referida por Borges no conto “O Aleph” – a registar «um processo não acessível aos homens».

Construindo-se a acção central, a mulher, amadora do xadrez, propõe ao jogador uma nova concepção do jogo, e, não obstante o desdém manifesto num encolher de ombros, o xadrezista aceita o jogo do acaso que a mulher lhe propõe: executar um lance duma partida de xadrez iniciada no séc. XIV, entre duas famílias poderosos e rivais, os Bianco e os Zwart (branco e preto como as pedras do xadrez), que depois de 200 anos a digladiarem-se em lutas e vinganças fratricidas decidiam que o xadrez fosse o campo de batalha, que fosse a mente e a inteligência a combater e não o músculo e o aço; jogariam apenas uma partida, cuja duração se mediria em termos geracionais, um lance em cada meio século, estando, pois, naquela altura, cumpridas catorze jornadas. É o jogo do tempo desatado pela mulher que, depois deste primeiro encontro, desaparece para reaparecer dezassete anos depois, com a beleza intacta, como se o tempo não tivesse passado por ela, a dizer ao jogador que ele já tinha feito o seu lance e a fazê-lo «compreender a ordem oculta que regia a sua própria vida».
.
Para o tempo do jogo, o texto constrói a psicologia do jogador em princípios aproximados dos expostos por Dostoievsky, exactamente em O Jogador: «a alma do jogador exige sensações até à fadiga definitiva», escreveu o romancista russo, e o jogador do conto de Rui Herbon parece movido por um estranho capricho, pela sede de risco e pela obsessão: durante três anos isola-se do mundo, afasta-se da alta competição para preparar a partida; obcecado com o mistério para o qual não divisava sentido, investiga, muda progressivamente o seu carácter, torna-se taciturno, «enche a casa de tabuleiros de xadrez, desenvolvendo em cada um deles dezenas de posições alternativas, e os seus dias convertem-se numa irracional partida múltipla, numa confrontação desmedida entre ele e o infinito»; imagina o prémio prometido e os objectivos daquela estranha partida de xadrez, especula possibilidades esotéricas daquele prémio, procura explicações mais racionais, desenvolve desde teorias fantasiosas às mais prosaicas, tudo formas da narrativa introduzir rupturas, desvios, jogos mentais da personagem que lhe dão frustração perante a impossibilidade de conhecer a verdade.
.
Ainda no poema Xadrez, Jorge Luis Borges escreveu: «E quando os jogadores tiverem ido, / Depois do tempo os ter já consumido, / Decerto não terá cessado o rito.». Trata-se do tempo da longa memória, esse mesmo que desfila neste A Chave, o do labirinto paciente desse novelo secreto que molda o universo. É feita de Tempo, a chave desta narrativa. Como é a escrita; e nesta, Rui Herbon tem-nos dado grandes jogadas.

Rui Herbon, A Chave, Parceria A. M. Pereira, 2010
.
Nota: versão do texto que serviu de base à Apresentação Pública

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Nova edição de Gineceu

Cristina Nobre Soares lança hoje a segunda edição de Gineceu, uma casa de silêncios de 17 mulheres abrigadas no mesmo número de curtas narrativas, mais duas do que na edição anterior. Nesta dilatação se vai cumprindo o enunciado pela personagem Laura: Eu só quero que alguém escute o meu choro, a minha existência. A presente edição, ainda com a chancela da Papiro, tem na capa a fotografia da escultura de “Isabel”, do conjunto das esculturas de Bolota, nome artístico da ceramista Isabel Maria de Azevedo Claro, sobre estas mulheres da escrita de Cristina (ver vídeo, no final deste texto). Não obstante tratarem-se de pequenas narrativas, as personagens femininas demoram-se no espaço que as portas da escrita abrem. Com efeito, se se trata de mulheres retidas numa baixa condição social e radicados em lugares portugueses (com referenciais da emigração lusa, da Guerra do Ultramar e da Revolução de Abril), o seu universo psíquico atinge qualquer mulher de qualquer lugar.


São mulheres que se exaurem na banalidade rotineira dos gestos, por isso gestos secos continuamente a fechar cortinas, que choram por dentro, que olham para “as costas da felicidade” e para o chão, sem capacidade de joeirar sonhos. Por isso, Helena fica a “quatro passos da janela” e Rosário cruza o xaile de renda, envolvendo-se na teia ímpia, e urdida com esmero, do destino, e todas afogadas na solidão, cumprindo o seu “papel de espectro patético”.
.
No seu claustro de silêncio, fechadas no lamento do fado, algumas das mulheres estioladas no abafar da frustração, aninhadas no luto da saudade, têm na maternidade o único sentido das suas vidas, dito assim sobre Irene:
outra agulha. Outra barriga cheia. Outra vez que não conseguira fugir ao corpo que a puxava a meio da noite. Mas dessa vez, escondera os vómitos no abafar da água da torneira aberta e a barriga que logo se fez saliente, na cinta apertada. Até ser tarde demais para que fosse de novo. E a mesma parteira que lhe desmanchou os filhos, agarrou-lhe as pernas para que ela parisse aquele. Que lhe saiu num grito imenso, prenhe de culpa, parido de alívio. (p.39, da primeira edição).
.
Simples e despretensiosa, com vocabulário, concomitantemente, doce e cru, a expressão escrita veicula eficazmente a voz interior das mulheres, íntima e confessional, seguramente capaz de estabelecer diálogos de cumplicidades com leitores homens e mulheres.
. 
© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Margarida com Mulher Ao Mar

Mulher Ao Mar é um título de que se tem falado muito, e justamente falado bem. É o livro de estreia de Margarida Vale de Gato, ela que nos tem brindado com traduções de excelência – é dela a tradução de Edgar Allan Poe no Obra Poética Completa, livro de beleza magistral editado no ano passado pelas edições Tinta da China.

Mulher Ao Mar reúne poemas narrativos lúcidos, limpos de artifícios, intimistas, dialogantes, interventivos, irónicos, de escrita lesta, rítmica, rigorosa, depurada e plástica.
.
A abrir, uma Glosa, à maneira da poesia do Cancioneiro, a evidenciar as temáticas e os caminhos do olhar poético, assumidamente feminino, que encontramos ao longo dos restantes poemas; Mais enxergo três meninas/debaixo de um laranjal, /uma na roca a fiar, /outra sentada a coser, /a mais fermosa de todas /está no meio a chorar, lê-se no mote da «Glosa  da Nau Catrineta», cujas glosas explanam «três irmãs mouras» a fiar, costurar e carpir a alma e os dias, enxergadas por um olhar feminino que lhes desvela a condição.
Mulher no mar da melhor escrita, para descobrir em 44 poemas. Transcrevo, na íntegra, o poema Intercidades:

galopamos pelas costas dos montes no interior
da terra a comer eucaliptos a comer os entulhos de feno
a cuspir o vento a cuspir o tempo a cuspir
o tempo
o tempo que os comboios do sentido contrário engolem
do sentido contrário roubam-nos o tempo meu amor
.
preciso de ti que vens voando
até mim
mas voas à vela sobre o mar
e tens espaço asas por isso vogas à deriva enquanto eu
vou rastejando ao teu encontro sobre carris faiscando

ocasionalmente e escrevo para ti meu amor
a enganar a tua ausência a claustrofobia de cortinas
cor de mostarda tu caminhas sobre a água e agora
eu sei
as palavras valem menos do que os barcos
.
preciso de ti meu amor nesta solidão neste desamparo
de cortinas espessas que impedem o sol que me impedem
de voar e ainda assim do outro lado
o céu exibe nuvens pequeninas carneirinhos a trotar
a trotar sobre searas de aveia e trigais aqui não há
comemos eucaliptos eucaliptos e igrejas caiadas
debruçadas sobre os apeadeiros igrejas caiadas
meu amor
eu fumo um cigarro entre duas paragens leio
o Lobo Antunes e penso as pessoas são tristes as
as pessoas são tão tristes as pessoas são patéticas meu
amor ainda bem que tu me escondes do mundo me escondes
dos sorrisos condescendentes do mundo da comiseração
do mundo
à noite no teu corpo meu amor eu
também sou um barco sentada sobre o teu ventre
sou um mastro
.
preciso de ti meu amor estou cansada dói-me
em volta dos olhos tenho vontade de chorar mesmo assim
desejo-te mas antes antes de me tocares de dizeres quero-te
meu amor hás-de deixar-me dormir cem anos
depois de cem anos voltaremos a ser barcos
eu estou só
Portugal nunca mais acaba comemos eucaliptos
eucaliptos intermináveis longos e verdes
comemos eucaliptos entremeados de arbustos
comemos eucaliptos a dor da tua ausência meu amor
comemos este calor e os caminhos de ferro e a angústia
a deflagrar combustão no livro do Lobo Antunes
comemos eucaliptos e Portugal nunca mais acaba Portugal
é enorme eu preciso de ti e em sentido contrário roubam-nos
o tempo roubam-nos o tempo meu amor tempo
o tempo para sermos barcos e atravessar paredes dentro dos quartos
.
meu amor para sermos barcos à noite
à noite a soprar docemente sobre velas acesas
.
barcos.


Margarida Vale de Gato in Mulher Ao Mar, p.13, Mariposa Azual, 2010

domingo, 20 de junho de 2010

Baltasar e Blimunda: a mais bela história de amor

Em Memorial do Convento, José Saramago criou o par que protagoniza a mais bela história de amor de sempre da Literatura Portuguesa: Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas.
.
Sem mais, que mais não é preciso, transcrevo:

«(…) Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires,
Por que queres tu que eu fique,
Porque é preciso,
Não é razão que me convença,
Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar,
Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto,
Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei,
Olhaste-me por dentro,
Juro que nunca te olharei por dentro,
Juras que não o farás e já o fizeste,
Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro,
Se eu ficar, onde durmo,
Comigo. (...)»

.
José Saramago in Memorial do Convento, p.56; Editorial Caminho, 15ª edição, Lisboa 1985

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O adeus a José Saramago

José Saramago faleceu hoje, aos 87 anos, vítima de doença prolongada. Em homenagem à derradeira viagem do escritor, recupero o texto que elaborei sobre o A Viagem do Elefante editado no sítio da Orgia Literária em 05 de Dezembro de 2008.


«Com as boas ideias, e às vezes também com as más, passa-se o mesmo que se passava com os átomos de demócrito ou com as cerejas da cesta, vêm enganchadas umas nas outras». É desta forma que José Saramago nos explica a torrente luminosa de A Viagem do Elefante, o seu recentíssimo relato – romance ou conto.

Clara é, também, a metáfora executada nas 258 páginas de escrita precisa e depurada: «A Viagem do Elefante», por planícies abrasadoras, serras geladas, chuva e nevoeiro, é a longa marcha dos homens, a Viagem de qualquer um de nós para o sítio que sempre nos espera: a morte. «Custa é saber / como se emenda a morte», escreveu Luiza Neto Jorge, e esta narrativa de José Saramago parece responder-lhe, ao emendar a morte com o gesto da escrita que, concretizada em extrema debilidade física do Nobel português, espanta pela alegria, pelo humor transbordante, pelas lições de amizade, pelo vigor saramaguiano da crítica social, política e religiosa, temperadas com ironia imbatível.

A ideia para narrativa surgiu de um acaso, que o autor explana, numa breve nota, na primeira página. Num restaurante em Salzburgo, chamado «O Elefante», repara numa pequena escultura em madeira da Torre de Belém e é informado que tal se deve ao registo de um itinerário feito por um elefante, que em 1551 foi de Lisboa a Viena. Restava enfrentar a poalha do tempo, «levantar as pedras do passado para perceber o que há por baixo delas», recorrer à «inesgotável generosidade da imaginação», «abrir portas órfãs de fechadura ou que nunca a tiveram», «preenchendo as lacunas o melhor que se pode», gizar tudo na escrita que não conhece vedação, imprimir-lhe o registo contínuo e sem paragens, obtido pelas supressões de marcas gráficas nos diálogos, «em suspensões quase de alma», como referiu Luís M. O. Cardoso sobre a subversão da escrita de José Saramago.

Estava encontrado o herói da épica caminhada, o espelho onde nos revemos, o paquiderme Salomão que, não obstante ter nome de rei mítico, é súbdito dos homens e joguete dos seus caprichos – viera da Índia por vaidade da coroa portuguesa, seguira para a Áustria onde, pouco depois, morreria, e as patas que fizeram a hercúlea caminhada acabariam em bengaleiros decorativos. Com Salomão, surgem na narrativa o indiano Subhro, seu inseparável cornaca e amigo, o comandante de cavalaria português, e amigo de ambos, e a reflexão sobre o curso da existência humana, com os seus desejos, sentimentos, intenções, e desvios, pois, diz-nos o texto, «a representação mais exacta da alma humana é o labirinto. Com ela tudo é possível.». Com a alma e com as nações, porque estas são o retrato das almas que as dirigem, caminho para a crítica a Portugal.

Presente de casamento de D. João III e da rainha Catarina de Áustria ao primo Maximiliano, arquiduque de Áustria, que está em Espanha no Palácio do imperador Carlos V, seu sogro, Salomão prepara-se para «ir à pata» de Lisboa a Valladolid, não sem um banho com escova de piaçaba, que lhe retira o sarro acumulado de dois anos num país que o trouxera da Índia, mas que não sabia o que fazer com ele, enquanto a rainha inveja a sorte do animal por ir gozar a vida na cidade mais bela do mundo, enquanto ela ficava «aqui, entalada entre hoje e o futuro, e sem esperança em nenhum dos dois».

Habilidosa, a crítica à Pátria desenrola-se em inúmeros apontamentos, como este, retirado dum diálogo no Portugal profundo: «Nunca a viste, perguntou o comandante lançando-se num rapto lírico, vês aquelas nuvens que não sabem aonde vão, elas são a pátria, vês o sol que umas vezes está, outras não, ele é a pátria, vês aquele renque de árvores donde, com as calças na mão, avistei a aldeia nesta madrugada, elas são a pátria» (p.61)

O Teatro da vida

Para o mesmo caminho a caminhada é desigual, «também o frio, quando nasce, é para todos, diz-se, mas nem todos apanham nos lombos com a mesma porção dele. A diferença está em viajar num coche forrado de peliças e mantas com termóstato e ter de caminhar sob açoite da neve por seu pé ou com ele enfiado num estribo gelado que oprime como um torniquete» (p.222). Na desigualdade da caminhada e nas curvas do caminho, faz-se a coreografia humana de contraste entre os poderosos e os humildes: «a colorida cauda de pavão dos parasitas da corte do arquiduque» e o paraíso da gente simples que pode estar «num telhado que defenda da chuva e do sereno»; a constatação de que se «está por estudar a importância dos intendentes, mas também dos varredores de ruas, no regular funcionamento das nações»; o descobrimento de Subhro sobre a natureza e os suportes do poder, quando, do alto de Salomão, contempla a multidão com desprezo e conclui que «um arquiduque, um rei, um imperador não são mais do que cornacas montados num elefante».

Ainda, e como há muito nos habituou o autor de Memorial do Convento, a crítica à igreja é profusa e contundente, agora no desvario de um catolicismo que, no combate ao protestantismo de Lutero, não olha a meios para agrilhoar os crentes, desde o fabrico de milagres, ao negócio da fé e «cinismo» católico, todos parodiados pela narrativa que lhes dedica quadros hilariantes. Numa síntese do posicionamento saramaguiano, temos o quadro da partida de Salomão de Valladolid, decorado com uma enorme «gualdrapa» de opulentíssimos veludos, profusamente bordada, com pedras reluzentes e fio de ouro, dinheiro que se «malgastou» com o bicho, rosnou o arcebispo, pois daria um «palio magnífico para a catedral» da cidade. O «paramento» revela-se inútil na viagem, e o «ridículo e grotesco» acaba por ser enviado ao bispo e ao lugar a que pertence.

Mestre na harmónica do tempo, o autor cria um narrador que acompanha a acção, comenta e critica, sempre numa dialéctica activa entre passado, presente e futuro, enredando o leitor no criticismo de quem olha de frente o mundo para o conhecer. Nesta contaminação dos tempos, surge, por exemplo, a acção dos estrangeiros que gostam de se sentir em casa, projectando-se que, um dia, no Algarve, «toda a praia que se preze, não é praia mas é beach, qualquer pescador fisherman, tanto faz prezar-se como não, e se de aldeamentos turísticos, em vez de aldeias, se trata, fiquemos sabendo que é mais aceite dizer-se holiday’s village, ou village de vacances, ou ferienorte.» (p. 233).

Feita na primeira pessoa do plural, a narração é uma homenagem aos companheiros de viagem, a epígrafe da gratidão, com destaque individual de José Saramago à sua mulher, na Dedicatória: «A Pilar, que não deixou que eu morresse».

«A meta é o esquecimento. / Eu cheguei antes», escreveu Jorge Luís Borges em Rosa Profunda. Também a José Saramago se aplica a mesma certeza, por inscrever a perenidade numa pujante obra literária, reiterando-a neste livro que, ao falar sobre a morte, nos provoca um misterioso sentimento de felicidade.
.
© Teresa Sá Couto