terça-feira, 17 de maio de 2011

«O Trompete de Miles Davis», Francisco Duarte Azevedo

(Texto publicado no sítio da Orgia Literária, dia 16.05.2011)

«O fado também pode ser tocado num saxofone»: esta é a chave de O Trompete de Miles Davis, romance de estreia de Francisco Duarte Azevedo, que desenha o policial, mas é a observação social que o enche gizada num roteiro da emigração portuguesa na América. Dúctil, a escrita mostra que é voo de memórias, voz de sonhos traídos e depoimento do virtuosismo com que se improvisam os dias.

A narrativa é controlada pela voz de um narrador participante, um detective privado em Newark, o «Sherlock do bairro» que «encaixava perfeitinho naquelas rotinas», rotinas que são abaladas pelo desaparecimento do trompete verde de Miles Davis da vitrina da Dana Library, durante uma palestra de um escritor português. A estratégia narrativa da primeira pessoa possibilita exploraram-se eficazmente mundos interiores anquilosados, estabelecer cumplicidade com o leitor devido à característica de depoimento e demonstrar uma consciência actuante, o que dá carácter intervencionista à obra, que pretende problematizar a condição dos emigrantes. Tudo tarefas que o autor cumpre com apuro.

Conta-se a história dum «tipo banal», um emigrante português – e, por ele, do grupo social onde se insere –, que seguiu o sonho de ser actor em Hollywood, mas lavou pratos, foi professor de português num colégio e acabou a sufocar num escritório de vidraças fechadas, com o sonho emparedado no subúrbio que partilha com grupos étnicos, sem conviver, «muros invisíveis» entre raças, culturas e tradições, «movendo-se como as lamas de um vulcão».

Delineada a personagem e estabelecida a intenção, a narrativa, inteligente, lança mão à ironia, ao humor e tece uma teia subtil – que, por isto, não se compadece com leituras descuidadas – com elementos narrativos de transgressão a uma vida escandida na luta pela sobrevivência, que configuram o desejo de liberdade ou representam as asas de sonhos sublimados. Assim surgem, ao longo das 301 páginas, referências a pássaros que cruzam os céus, pássaros que se metamorfoseiam «em harmonias e desarmonias de sons de um trompete», numa clara contaminação das técnicas do jazz na narrativa, a metamorfose da improvisação que servia a necessidade humana, básica, de exteriorização de emoções contidas; o detective cria «hologramas de Miles Davis por toda a parte», sons que o fazem recordar a «batida tranquila de vagas na vazante, a maré rodopiando, retrocedendo e voltando a rodopiar» e onde vê uma «imperturbável e explosiva mistura de cores»; o protagonista olha todos os dias para um quadro de Nova Iorque, de um pintor de rua, onde «podia inventar e desejar fosse o que fosse naquela cidade», «compensar a ausência» e a nostalgia que ela lhe «causava ali tão perto»; finalmente, a poltrona do escritório, onde o detective se refugia, desempenha um papel essencial no desenho psicológico do protagonista e na configuração do desejo, secreto, de liberdade: «deixar apenas que a memória aflorasse sem se intrometer demasiado no âmago das coisas. Queria tornar-me leve» (p. 297).

Tudo na escrita é preciso, como a precisão do relógio de pulso – «um velho Baumatic» – que o detective usa, também símbolo da memória, gesto assumido directamente no texto por Francisco Azevedo, diplomata de carreira: «Há sempre uns tipos que teimam em escrever as suas memórias como se o mundo não passasse sem eles: os detectives, os políticos e os diplomatas.» (p. 296)

Teixeira de Pascoaes escreveu que «a saudade retoca certas imagens da memória e acende uma auréola divina em volta delas». Enformando este projecto, a narrativa divaga por espaços feitos itinerários da memória, ilumina-os com sinestesias, descreve-os com perfeição cinematográfica. Assim surgem: o «bate papo adocicado» na claridade e penumbra do Meal’s Place, com as suas janelas de cortinas vermelhas, ruído de talheres e tilintar de copos; um café expresso duplo no Starbucks, «ténue compensação» com saudades do café da Brasileira do Chiado ou do Nicola; a doçaria portuguesa do café La Provence, para onde caminhava nos fins de tarde «com a veneração de um crente», onde se sentia «barco em porto seguro» e «aos sábados fazia o gosto ao dedo com galão escuro e torradas com manteiga desfazendo-se salgadas sobre as papilas da língua», trazendo-lhe «na trinca o aroma de Lisboa»; o percurso entre La Provence e a Penn Station, «esse caminho mágico» que é a Ferry Street ou a Avenida de Portugal», de negócios dos portugueses, onde abundavam «criaturas mitológicas, descidas das serras do Marão ou da Estrela, de suas faldas, vales e encostas, largadas de povoas e gândaras costeiras ao mar oceano como Aveiro, Ílhavo, Murtosa e outras baixadas em torno da ria.» (p.91)

Francisco Azevedo mostra-nos que a escrita é uma casa: «até um pássaro busca o seu ninho», lê-se neste romance que convida o leitor a ser detective nas páginas para prazer da sua leitura. Esperemos que a casa se amplie, pois este foi um início de gigante.

O Trompete de Miles Davis, Francisco Duarte Azevedo; Planeta, 2011

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Manuel António Pina

Manuel António Pina é o Prémio Camões 2011, e eis uma alegria que nos espevita em tempos de cansaço e abulia.
«Um escritor altamente qualificado nos diversos campos em que actua, em especial em suas poesias, para adultos e crianças, que possuem alto grau de inventividade e originalidade», justificou o Júri do Prémio, o que há muito sabemos.

Estão de parabéns, o autor, a Assírio&Alvim,a Literatura Portuguesa e, por isso, nós todos. Mas há mais: a editora anunciou que vai lançar na Feira do Livro do Porto a antologia poética POESIA, SAUDADE DA PROSA - UMA ANTOLOGIA PESSOAL (imagem à esquerda), com selecção de poemas feita pelo próprio autor, e, daqui a alguns meses, um novo livro de poesia, o primeiro nos últimos oito anos, refere a editora. E nós esperamos.






Um poema:

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
Poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
– como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –

Poesia Reunida, p.38, Assírio&Alvim, 2011

segunda-feira, 25 de abril de 2011

"K3", Nuno Dempster

(Texto editado no sítio da Orgia Literária, hoje, 25.04.2011)


A escrita sutura feridas, e K3, de Nuno Dempster, comprova-o. Nome do temível aquartelamento na Guiné, K3 reergue-se, mais de quarenta anos depois, num objecto artístico admirável: um poema longo que solta o grito amordaçado e denuncia a solidão larga, ultrapassando a memória do seu autor ao plasmar a nossa memória colectiva, silenciada, inquietante e incómoda da Guerra Colonial.

O poema desenvolve-se em torno de dois centros de interioridade tão fundos quanto os subterrâneos do aquartelamento homónimo: o passado, que contém o futuro do presente, e o presente, «a altura do exorcismo». Se o nervo central se constrói cronologicamente – desde a partida do Cais de Alcântara do «alto navio negro e a sua carga» de força juvenil amansada pelos «velhos facínoras», até ao regresso –, a memória, assente nos anos que Nuno Dempster esteve como mobilizado no K3, esculpe as linhas da névoa, desnuda a ideia, «pensa o sentimento, sente o pensamento», como o enunciado no poema «Credo Poético» de Unamuno.

«As recordações serão coágulos de sombra / calcados quais velhas brasas / na chaminé. A recordação será a chama / que ainda ontem picava nos olhos apagados», escreveu Pavese em versos talvez lidos no K3 por Nuno Dempster que refere no poema ter levado consigo livros do poeta italiano. Consciente de que trazer o passado para o presente é enfrentar o tecido esburacado da memória, Nuno Dempster surpreende-nos quer pelas relações estabelecidas, quer pela argumentação aduzida para as sustentar, compondo a teia temporal com fios que se ligam às naus da glória da Expansão, para mostrar como se pagaram as «dívidas antigas do passado», para cantar, agora, a «gesta lusitana, / escrita desta vez / ao contrário, mesquinha e pobre / por sob os decassílabos heróicos, / em um coral de vozes atonais.». As vozes que se ouvem são de anti-heróis encharcados do «napalm» lançado dos T-6, atravessados pelas rajadas das brownings e pelo «assobio das granadas / que rebentam depois no cérebro, / no coração, nos ossos trémulos», e que, sem terem entendido a guerra, avançam «de bruços no poema» que os agasalha, num notável processo artístico de reconfiguração do velho no novo, muitas vezes ao ponto de duvidarmos qual é qual, com o autor a levar-nos, inclusive, ao laboratório do poema:

«Por vezes regresso a este tempo verbal, / nada disto morreu. // A lancha tinha parado na memória, / e foi necessário um tempo novo / para ela prosseguir Cacheu acima, / connosco e com os mesmos fuzileiros, / todos já com cabelos brancos, // pois vi Gilmour cantar Comfortably Numb / do topo dos seus sessenta anos / […] / E eu, que não fui ungido / por nenhum deus, / tenho todos os tempos / na sua divisão inevitável, / até o futuro, / que era então esta estrofe, / escrita lentamente sobre / o desembarque em terra alheia» (p. 27).

Rastreados ao longo das 63 páginas, o desamparo de uma geração de jovens e o sentido de orfandade encontram na escrita processos cénicos de grande força dramática, formas de se interrogar a estranheza do sujeito perante a representação de um papel que não é o seu ou perante uma realidade que o envolve e esmaga: a despedida no cais de Alcântara, onde o sujeito lírico assiste à sua própria passagem como se se visse num filme, orientado por vozes de «altifalantes anacrónicos», enquanto, confuso, «sentia o sangue de a vida não ter prazo / e, em queda, a eternidade de ser jovem / com a morte adiante, / que um grito colectivo rasurara»; «eu a ver-me num barco»; «E eis-me a representar com estes negros / o papel dos antigos marinheiros»; a analogia do palco da guerra com jogos de vídeo de «assassinos digitais que matam por matar».

Contra a rasura, o poema ergue-se com os «Mais de três mil homens / metidos / em camuflados, / alguns choram e tentam esconder-se», pouco lhes valendo o ópio das quimeras das raparigas que «nuas esvoaçam / de sonho em sonho», quimeras que perderiam na escuridão inextinguível do mato, porquanto lhes ficaria gravada no ADN com promessa de «nova solidão» para o resto das suas vidas; ergue os que regressariam em «caixões selados, secretos», porque «“os filhos mortos deitam um cheiro insuportável”, / diziam os paisanos», os mortos pela pátria que voltariam a morrer nela em «funerais anónimos»; ergue-se contra o mesmo esquecimento votado ao paquete que os levou e que se finaria «de ferrugem e artrite» no Mar da Palha.

Neste projecto de escrita em que o pensado é o sentido, o poema de Nuno Dempster activa, também, um sentimento de pertença aos lugares da memória de África, num pacto secreto e veemente com o passado: «as minhas botas eram / surdina em movimento, / seguiam outras botas / por trilhos proibidos, / no odor enjoativo das acácias, // não mais o consegui tirar da pele, / senão esta manhã, / em que pensei deixá-lo no poema, // até ao ponto / de a sua evocação me recordar / a saudade imprecisa de África» (p. 28); «eu era aqueles putos negros / de olhar astuto / no k3 e agora em Colibuia.» (p. 48); «E chega-me esta gente como um peso, / não me sai da lembrança, / não me sai do poema, / acompanhou-me oculta até hoje, / um crime por julgar / que eu deveria ter testemunhado / num tribunal que sei não existir / para pobreza tão funda. // Oh, terreiro nu de Colibuia, // onde nem flor se vê, / nem erva cresce, / as cabanas em volta, / pó não sei de que vidas miseráveis, / levantado por botas militares // e pés negros que nunca vi dançar, / batendo de alegria, ritmados.» (p. 49).

K3 sucede ao poema Londres, ambos títulos incontornáveis que fazem de Nuno Dempster um dos mais notáveis escultores da memória da actual poesia portuguesa. «É da torre mais alta do meu pranto / que eu canto este meu sangue este meu povo», escreveu o poeta José Carlos Ary dos Santos; em K3, Nuno Dempster diz-nos de forma clara, inviabilizando toda a ambiguidade, qual a missão do seu poema que é, afinal, a missão da sua escrita: «não sei de ninguém / que cale esta viagem / nas cabeças dementes e na minha, / e possa devolver os pássaros / aos choupos; / e o vagaroso ritmo, às colheitas; / e a inteireza do lódão, / aos homens, // de modo a que o navio não navegue / no fluxo da memória / e as palavras não contem, / quietas sob os mortos, / no seu inviolável cofre de silêncio.» (p. 15).


K3, Nuno Dempster; &etc, 2011


* ler aqui texto sobre Londres, de Nuno Dempster


© Teresa Sá Couto

Página de Amadeu Baptista

O poeta Amadeu Baptista, uma das vozes incontornáveis da Literatura Portuguesa, já tem página na rede. Finalmente. Aqui: Amadeu Baptista. O seu lugar passa a estar também neste espaço, com link na coluna à esquerda, em Lugares de Autores.
Com vasta obra publicada, Amadeu Baptista acaba de editar Estrela de Bizâncio, edição Livro do dia, Prémio de Poesia e Ficção de Almada 2005. Na imagem, o autor com o seu novo livro e outros dois títulos: Antecedentes Criminais - Antologia Pessoal 1982-2007, de 2007, editado pelas extintas Edições Quasi; O Ano da Morte de José Saramago, &etc, 2010.

(clicar na imagem para aumentar)

Extracto de Estrela de Bizâncio:

«Que escrevo eu? A respiração do feno, os lancinantes pedidos de socorro? Escrevo o que passa, a pressa, o adiamento? o que é precário?

Um lugar é mais lugar quando dele se quer partir, o pão frutifica, o espírito cresce, salvos pela música talvez tenhamos paz.

Acredito no lugar transitório, junto ao lago, de onde possa ver as aves em trânsito quando se erguem os mortos, e meu pai. O seu compasso aberto mede, milímetro a milímetro, o diâmetro do desfiladeiro e quantifica o número dos vivos no presente. O passado não é certo quando tomado pelo futuro. Os homens viajam, apenas, com uma cobra no coração, mais ou menos profetas, mais ou menos poetas, com um corpo excelso e angular. Pela palavra fixam a pulsação, o silêncio, rebentam a pedra, procuram a origem do lençol freático onde possa ser possível unir a cepa: encharca-se a terra e aguarda-se, procura-se um lugar enxuto, todas as coisas invisíveis ficam no olhar e podem explicar-se, a carpa e o salmão são o peixe esperado, deitam-se as redes, aguarda-se de novo e fala-se, diz-se o que se tem a dizer, sem tempo, sem âncora.».  (p.32)

sábado, 9 de abril de 2011

"Rosa do Mundo"

Faz 10 anos neste mês de Abril, e é obrigatório mencioná-lo sempre que se fala de poesia: Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro, com a chancela da Assírio&Alvim, foi um projecto ambicioso da Porto 2001, Capital Europeia da Cultura, e hoje é-nos indispensável.

Reúne poesia de todo o mundo, desde o ano 1000 até ao século XX, com apenas um poema por autor, textos facilmente localizáveis devido aos cinco úteis índices: de Autores; Culturas/Países/Povos; Traduções/Versões; Recolhas/Selecções e Índice Geral. 

O grandioso empreendimento resulta de um trabalho colectivo dos organizadores, tradutores, especialistas dos locais donde provêem os poemas, coroado com o esmero de quem gosta de fazer livros. O resultado é um objecto vivo onde se ouvem as vozes das civilizações, que desperta paixão, belo, de capa dura forrada a tafetá azul-escuro, protegida com sobrecapa, resguardos das 1919 páginas de conteúdo sagrado impresso em folhas de papel fino, como o das edições da Bíblia.


Cinco textos:

Nessa noite, uma casa, de repente, ergueu-se do chão e partiu flutuando.
Estava escuro e diz-se que um sibilo violento se ouviu, enquanto voava.
A casa ainda não chegara ao destino, quando as pessoas que nela moravam
lhe pediram que parasse. A casa parou.
Não havia óleo de baleia, quando pararam. Então, apanharam neve fresca,
acabada de cair e puseram-na nas lâmpadas e ela ardeu.
Tinham chegado a uma aldeia. Um homem veio até à casa e disse:
Vejam, estão a queimar neve nas lâmpadas. A neve pode arder.
Mas logo que pronunciou estas palavras, as lâmpadas apagaram-se.

Árctico, Esquimós, trad. José Alberto Oliveira, p.p. 147, 148

***
Na gota de orvalho o sol brilha:
a gota de orvalho seca.
Nos teus olhos, o teu brilho:
e eu tão vivo.

América, Aztecas; versão de Herberto Helder p.159

***
Eu não sei se estiveste ausente.
Eu deito-me contigo, e levanto-me contigo.
Nos meus sonhos tu estás junto a mim.
Se estremecem os brincos das minhas orelhas
eu sei que és tu que te moves no meu coração.

México, Nahuas, trad. José Agostinho Baptista, p.210

***
Nigrim escreveu um livro que não tem qualquer jeito;
Comprei, mesmo sabendo que a obra era mazinha.
Nigrin, desta maneira, tirou duplo proveito:
Da parvoíce dele, e bem assim da minha!

Roménia, Cincinat Pavelescu (1872-1934), trad. Doina Zugravescu, p.1183

***
Tudo o que vês chega de longe: apenas um contorno
ou uma sombra que se desloca devagar. Há gestos
semelhantes a folhas que não caem. Principia agora
a luz a espalhar-se à nossa volta e a verdade torna-se
mais simples. É como um rosto que reconhece a sua idade.

Portugal, Fernando Guimarães, p.1675

quinta-feira, 31 de março de 2011

Celulose, poesia premiada de Paulo Assim

Celulose, primeiro livro de poesia de Paulo Assim, e Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres 2010, reúne 53 poemas curtos de respiração ampla, batidos por ventos vários e inconstantes, tecidos de vozes e ecos, a mostrarem que, pela mão hábil da metamorfose, o alfabeto do barro é inexaurível.

Paulo Assim, pseudónimo de Paulo Carreira, nasceu em 1965. Em poesia, além deste Celulose, tem participações nas I, II e III Antologia de Poetas Lusófonos, das Edições Folheto, de Leiria; em prosa, tem publicado o romance A Quinta-feira dos Pássaros, prémios Paul Harris 2005 e Gaspar Fructuoso 2009.

«Busco a flor das palavras raras, a medicina do seu silêncio. /Busco a flor das palavras simples, o silêncio da sua pureza. /Busco as palavras que não te consigo dizer em voz alta», lê-se em «Este poema é uma montanha», poema que nomeia características da poesia de Paulo Assim e indicia o método do fazer poético. Feita de palavras claras, puras e imagens universais, esta poesia é, todavia, de uma simplicidade ilusória, porquanto a combinação das palavras, a sua urdidura, obscurece-lhe o sentido, tornando-a secreta. Na mesa do poema, a palavra, essa «centopeia» de corpo interminável, é metamorfoseada em frutos que esperam pela faca para serem cortados ao meio, e assim se perpetuarem, uma dissecação secreta, silenciosa e voluptuosa que anima todos os poemas. Ainda, e porque as palavras são sangue e «o sangue é a roupa que nos veste», há que colocá-las no «Estendal», porquanto estas querem-se «ao sol. /A poesia quer-se ao vento». Se a limpidez vocabular possibilita imediata adesão do leitor, o carácter secreto lança o diálogo. É neste dialogismo talentoso e iluminado que surgem poemas como este:


Dizias que eras capaz de imitar uma árvore de fruto.
E como eu não acreditava, um dia fizeste isso: nua,
fincaste-te ao chão e criaste uma cabeleira de raízes, depois
ergueste os braços, abriste os dedos em forma de ramos
e deixaste que as folhas te pintassem de verde.
Absorveste todo o sol no ventre, floriste.
Por fim frutificaste o corpo:
agora és um voluptuoso dióspiro
no frio de Janeiro. (p.18)

No seu exercício de liberdade, a poesia agarra-se com força ao instante, apanha frases no ar que o poeta modela como o oleiro faz à argila vermelha, com todos os dedos «até a lama escorrer como sangue».

Mas «de quantas mãos se faz um pão de argila?», escreveu o poeta Ruy Duarte de Carvalho; Paulo Assim mostra-nos que o alfabeto do barro se faz de ecos e bramidos, e procura desvendar as suas anatomias, dito assim: «Há vozes que se desdobram em línguas de fogo e queimam a garganta /quando se soltam entre quatro paredes: e morrem de claustrofobia/ […] ouvimos sons subterrâneos que vagueiam pelas brechas da pedra/ […] Somos ocos por dentro, somos feitos de ecos, ecos, ecos…». É esta condição de eco que enforma o Eu polifónico, no qual a maioria dos poemas se centra; um Eu que ouve a «música submersa» que embala as «águas dos rios sem pontes» e «as faz enovelar os corpos frementes», os ecos das crianças na aldeia da infância, as vozes dos mortos que lhe falam pelo «murmúrio do vento», as vozes dos antepassados que o «ensinaram a caminhar» em trilhos que vêm dar ao poema: a Avó, «velha andorinha»; a Mãe, com a sabedoria das esperas; o Pai, «árvore e pássaro» e o legado do «relógio de silêncio».

Dissecando os ecos para os alojar na palavra certa, o poema vai-se construindo «mais a sul», onde a memória escava até se reinventar nos cinco sentidos:

Tiveste o canto das cotovias na mão
e os cachos de uvas maduras de fim do Verão,
ceifaste os campos de espigas promissoras
e ouviste o êxtase das velas dos antigos moinhos.
Sabes que o silêncio das vinhas é feito de sol
e sabes que as mãos que colhem os cachos
têm na pele os estigmas de Agosto. Sabes ainda
que os pés que andam e dançam no largo do coreto, os pés
que pisam o barro, o chão, são a primeira língua dos homens:
degustam o vinho antes de o ser […] (p.44)

Se o poema germina do barro e fermenta nas mãos, a noite surge a encaminhar os olhos do poeta que furta o azul nocturno, «cor efémera com o preço dos diamantes /incrustados na cauda rebelde dos cometas /e à qual só os vagabundos dão valor. / (E os poetas)», e acentua o drama da criação manifesto na mão que tacteia a luz arisca das palavras, no som do “poema arrancado a ferros” e no espelho que, ímpio, testemunha tudo: «Olho o espelho e não me vejo. /Vejo a mão vazia avançando pela noite dentro.».

Rica nos processos com que se problematiza, a poesia de Paulo Assim é também habilíssima em enredar o leitor na construção do objecto artístico – «me disfarço de oleiro para me libertar, ou antes /para libertar as peças de cerâmica que se materializam na argila que somos. /Quero pensar que te libertas quando te disfarças perante mim; /por isso disseste: o disfarce é… e partiste como uma bela ave /deixando-me só – à luta com o barro, com a frase» – ao mesmo tempo que lhe mostra o desassossego fecundo do poema ter «vista para um castelo de areia», o que nos remete para estes versos de Manoel de Barros: «Todos os caminhos - nenhum caminho /Muitos caminhos - nenhum caminho /Nenhum caminho - a maldição dos poetas.».

«A força mais guardada que há na luz /só se consente em superfícies raras», escreveu, ainda, Ruy Duarte de Carvalho. As 63 páginas deste Celulose têm o apanágio daquelas superfícies raras, locais dos encontros inefáveis: da palavra com a poesia e do leitor com o poema.


Paulo Assim, Celulose; Lugar da Palavra,  2010
 
© Teresa Sá Couto

domingo, 27 de março de 2011

Resumo da poesia de 2010

No ensejo do dia Mundial da Poesia, chegou ao mercado o Resumo – a poesia em 2010, uma edição da Assírio&Alvim e Fnac, ao preço de 4€ que revertem na totalidade para a AMI. À semelhança do livro editado no ano passado, este Resumo pretende coligir os «melhores poemas publicados» durante o ano que findou; a escolha dos poemas é de José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas.

Entre os 44 nomes de poetas, encontramos Adília Lopes, António Barahona, José António Almeida, Renata Correia Botelho, Vitor Nogueira (que já estavam no compêndio de 2009), Armando da Silva Carvalho, Gastão Cruz, Helder Moura Pereira, Margarida Vale de Gato, Pedro Tamen e Teresa Jardim. Não estão contemplados os poetas Nuno Dempster (que publicou Londres) nem Amadeu Baptista (que publicou O Ano da Morte de José Saramago), o que só se pode aceitar por serem ambos títulos de poema longo.

Em Nota Editorial, assinada pelos quatro autores que seleccionaram os textos, apresentam-se razões para esta «colheita do ano» bem como o desejo da continuidade deste trabalho de divulgação nos próximos anos. Uma ideia, convenhamos, muito interessante, pelo gesto de solidariedade, pelo conteúdo poético, pela beleza do livro e pelo preço que possibilita o acesso à poesia mais representativa que actualmente se produz.

Dois textos:

Enquanto ponto a ponto coso
uma coisa a outra coisa
tornando um o que era dois ou mais
morreram tantas tantas pessoas

e eu também morri
deixando as minhas mãos
e as partes que cosi.
.
Pedro Tamen, p.140

**
O acto de ler reabre feridas. Nos livros
em que isso acontece, com frequência,
poderia ao menos haver um aviso na capa;
assim como se faz com as carteiras de tabaco,
embora se saiba que poucos deixam
de fumar
por isso.

Teresa Jardim, p.156

domingo, 13 de março de 2011

literaturas ibéricas na Suroeste

A dualidade Portugal e Espanha é afinal o segredo da vitalidade da península ibérica e da sua civilização.
Portugal e Espanha são dois opostos e não dois rivais. Os opostos são complementos iguais de um todo. Este todo está representado geograficamente pela península ibérica e em espírito pela civilização ibérica. Estas são palavras de Almada Negreiros, e é com elas, impressas na contracapa, que nos surge a Suroeste, revista de literaturas ibéricas.
.
Feita em Mérida, e distribuída entre  nós  pela Assírio & Alvim, a revista, dirigida por Antonio Sáez Delgado, é uma edição notável, pelo grafismo, materiais utilizados, textos, fotografias, ilustrações.

Em poesia encontramos textos de Antonio Gamoneda, Fernando Pinto do Amaral, César Antonio Molina, Xosé María Álvarez Cáccamo, Antón Castro, Francisco Ferrer Lerín, Francisco Javier Irazoki, Manuela Parreira da Silva, Jaume Subirana, Ruy Ventura, Juan Antonio González Iglesias e Almada Negreiros com o poema Litoral acompanhado de pintura de Luís Manuel Gaspar.
Em narrativa surgem textos de Mário de Carvalho, Fernando Aramburu, Xuan Bello, Teolinda Gersão, Gonçalo M. Tavares, Possidónio Cachapa, Rita Taborda Duarte, João de Melo e Félix Romero.
Há ainda uma secção de Ensayo – onde, além do texto “Ojeadas al porno”, de Javier Codesal, se abordam Miguel de Unamuno e Antero de Quental, por Steffen Dix, Fernando Pessoa e Iván de Nogales, por Pablo López, David Mourão-Ferreira, por Joana Varela – e um escaparate de libros com críticas a alguns títulos editados cá e lá, durante 2010.

A Suroeste nº1 encontra-se nas melhores livrarias e custa 12 €.
Na fotografia, imagem da capa, contracapa e interior.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

"Nome de Guerra", uma ração de combate

Sempre no destaque dos dias está Nome de Guerra de mestre Almada Negreiros. Mais uma prova da sua natureza inesgotável está o gesto da Fundação José Saramago que tem a decorrer o Prémio de Fotografia “Retratar um Livro” (ver no link), uma iniciativa apoiada pela Assírio&Alvim, editora deste e doutros títulos de Almada.

Nas suas páginas encontramos uma ração de combate ao marasmo, à vida insonsa à apatia que nos engole. O seu estandarte é a rebeldia, a arma é a acutilância vocabular, a originalidade e um humor delicioso compõem a estratégia. Haja um Nome assim que nos coaja a gritar «Basta, pum basta!».

A efervescência narrativa expande-se por sessenta e quadro capítulos curtos, que variam entre meia e quatro páginas, num total de 156 páginas. Nome de Guerra foi escrito em 1925, e os seus capítulos foram editados separadamente em várias publicações. Em 1938 é feita a primeira edição do romance, na Colecção de Autores Modernos Portugueses, pelas Edições Europa. João Gaspar Simões, que organizou e dirigiu a edição, escrevia no prefácio que o livro mantinha a actualidade do tempo em que foi escrito. Dizemos o mesmo, hoje. Em 1956, a Ática lança a 2ª edição com o subtítulo Judite.

O campo onde se trava este combate é a vida, ou o seu jogo de verdade e mentira, realidade e ilusão. Antunes é o protagonista «com um desequilíbrio entre a imaginação e a realidade», que «tentava agarrar a vida com as mãos, mas ou não tinha mãos para isso ou havia outras mãos metidas no assunto». Por ele somos levados para o palco da existência individual e comunicação com os outros: «a comunicação entre os humanos faz-se pela admiração(…) não há melhor compensação para a nossa vida do que a admiração dos outros(…) mas também não há pior momento humano do que aquele em que nos admiram sem acertar no nosso exacto valor(…); a pessoa verdadeira prefere inimigos autênticos a admiradores sem pontaria».

A Antunes aparece «uma Judite que não se chama assim» com um passado de equívocos e um presente sombrio. Ela desafia-nos à reflexão sobre «ser anónimo e proceder como anónimo» e se «há necessidade da mentira para defender a verdade». Judite e Antunes entram na intimidade um do outro «como ladrões que não sabem exactamente o que vão roubar», e as «suas intimidades são devassadas um pelo outro». Vão-se movendo no jogo inusitado e perverso da vida, de encontros e separações, pois «É sempre assim, temos sempre de perder o nosso tempo em desfazer o bem que os outros fizeram por nós.». Vale que «Os olhos da nossa memória vêem melhor que os nossos» e os defeitos da Judite começam a ser notados por Antunes que assim constata estar a "paixão" «a passar-lhe ou então era ele que estava já a ajudar-se para lhe passar a Judite».

A coloquialidade da escrita é tal, que as palavras tornam-se-nos audíveis, com as inflexões da ironia, do burlesco, da consideração obviamente óbvia. E não é raro respondermos a esta conversa bem montada, e rirmo-nos com ela. As questões levantadas, directa ou indirectamente, pelos títulos dos capítulos, e a cada passo da leitura, são um desafio sobremaneira apelativo:

«Cada um vai atrás da sua ideia, ou é a ideia que vai atrás de cada um?»; «Os lugares fazem mudar as pessoas ou o ar é o mesmo por toda a parte?»; «Quanto mais se sabe mais vai ficando por saber»; «quando se passa de um lugar para outro, levamos em geral o primeiro lugar connosco»; «os palermas que não percebem nada da vida são piores que os malandros»…

O pensamento humano quer exemplos pessoais de pensamento, «o trampolim do salto mortal» pois só ele tem o «poder de restituir a alma aos apavorados». Este livro, como um solavanco, acorda-nos para verdades que somos. São páginas adestradas contra a pequenez do quotidiano, contra a cobardia de não nos vermos, que terminam com uma moralidade: «Não te metas na vida alheia se não queres ficar lá». Indispensável ler ou reler.

José de Almada Negreiros, Nome De Guerra, Assirio & Alvim, 2001

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Ultramar no poema de Nuno Dempster



Quando se assinalam 50 anos do início da guerra do Ultramar, Nuno Dempster lança o poema longo K3, título que é o nome do aquartelamento na Guiné, onde o autor esteve como mobilizado entre 1968 e 1970 (ver na página de Nuno Dempster, AQUI).

Para já, garanto: são 63 páginas com a marca da escrita inconfundível do autor, que se lêem  de um fôlego a pedir a releitura para o prazer demorado no texto. K3 sucede ao também poema longo Londres, editado no ano passado e, novamente, com a chancela das edições &etc. (Ver Aqui texto meu sobre o Londres)



Extracto do K3:

.
.
«[...]
O Sol clareia a falta de sentido
do rumo que levamos,
daí que eu não chegasse a ver no mar
sinal de deuses,
dos deuses que se lê terem andado ali,
.
só peixes-voadores,
alheios ao clamor dos afogados,
.
os deuses, se existissem, lembrariam
não haver quem alcance
quantos náufragos jazem sob as águas,
.
e nós
não queremos contá-los,
medir a maldição em estatísticas
do pensamento.
.
Que não venham à tona,
que se deixem estar no fundo do oceano,
os ossos branqueados pelo sal:
.
os esqueletos tendem
a ser esquecidos,
a ser uma abstracção marítima,
.
a vida bastaria para os ignorar,
se o estrondo, uma nuvem, a vista cega,
trinta serpentes de aço a cuspir veneno
em sucessivas lâminas de fogo
não fossem evidências de naufrágio. [...]  p.p.12,13

"Verso e Prosa", Mário de Sá-Carneiro

(texto editado no sítio da Orgia Literária em 31.01.2011)

«Sá-Carneiro não teve biografia: teve só génio. O que disse foi o que viveu», escreveu Fernando Pessoa, em 1930, numa carta a Gaspar Simões. Fundador, com Pessoa, do Modernismo português, Mário de Sá-Carneiro escava-se em ânsia em busca do Eu, o Outro, contracena com a própria sombra que o revela, autoflagela-se, autocontempla-se e afunda-se no abismo que perscruta, celebra as vanguardas e respectivos niilismos, cria um edifício de identidade entre a vida e a obra literária ímpar na Literatura Portuguesa.

Mário de Sá-Carneiro - Verso e Prosa chega-nos agora pela mão da Assírio & Alvim. É uma bela edição de capa dura e 669 páginas com «um conjunto coerente de textos que integra o que de mais marcante» o autor escreveu, lê-se na apresentação de Fernando Cabral Martins, responsável pela Edição. Na escolha de textos exclui-se a juvenília poética, as peças de teatro e cartas, cuja importância se integrará noutras ordens de razões, refere-se. Além de «poemas e textos soltos, publicados dispersamente ou enviados em cartas a Fernando Pessoa», em Poesia encontramos os livros Dispersão e Indícios de Oiro, e, em Narrativa, as novelas Princípio, A Confissão de Lúcio e Céu de Fogo.

Influenciado pelas temáticas de Baudelaire, pela investigação psicológica de Edgar Allan Poe, pela embriaguez da palavra nova de Mallarmé e pelo símbolo de Pessanha, entre outros, Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) de todos se impregna, molda e lapida com os ismos das vanguardas, como quem busca o diálogo certo e urgente com a sua alma, revelando, outrossim, a inquietação de uma geração perdida no labirinto do tempo vário, acelerado, ruidoso e ruinoso. Debatendo-se na estranheza de um mundo onde sente não pertencer, o sujeito poético de Sá-Carneiro procura-se no seu interior, revolve, minucioso, a alma – esse «tumor triste» e «gato estranho e seráfico», nas assunções de Baudelaire, esse empecilho e fardo «Que não pesa mas que maça: / O zumbido dum moscardo, / Ou comichão que não passa», segundo o próprio Sá-Carneiro –, «brade a espada» e, narcísico, nimba-se de encanto e cria: «O meu destino é outro – é alto e é raro»; «sou luz harmoniosa / E chama genial que tudo ousa».
.
A procura do Outro, o seu duplo, nos subterrâneos da alma fá-lo pressentir «um grande intervalo»: «Eu não sou eu nem sou o outro», diz e lança-se, delirante, num «inter-sonho» onde tacteia e resvala: «Quero reunir-me, e todo me dissipo – / Luto, estrebucho… Em vão! Silvo para além…». Estava encontrada a bússola desta poesia: o desdobramento do sujeito na demanda incessante do sentimento e das sensações. Se para Pessanha a dor, «esta falta d’harmonia», é luz sem a qual «o coração é quase nada», porquanto a ausência da dor é a morte, também Mário de Sá-Carneiro arranca a sua obra à dor num processo de desvendamento interior que lhe desintegra progressivamente a personalidade: «Que droga foi a que me inoculei? / Ópio d’inferno em vez de paraíso?... / Que sortilégio a mim próprio lancei? / Como é que em dor genial eu me eterizo?» (p. 20). Embora não conseguindo atingir a despersonalização de Pessoa – o distanciar-se do Outro –, Sá-Carneiro foi um sensacionista de excelência, essa arte que, pela ampliação, procura buscar no objecto uma «qualquer espécie de além-ele», segundo Pessoa, e a sua visão interseccionista concorreu para a teatralidade que imprimiu nas suas personagens: «Tudo me é conduzido no espaço / Por inúmeras intersecções de planos / Múltiplos, livres, resvalantes. // E lá, no grande Espelho de fantasmas / Que ondula e se entregolfa todo o meu passado, / Se desmorona o meu presente, / E o meu futuro é já poeira..» (p. 42).

O desdobramento e o desmoronamento do Eu revelam, ainda, a astenia – «falta-me egoísmo para ascender ao céu, / falta-me unção p’ra me afundar no lodo» – que é também a da sua geração, o que o faz metaforizar a vida – «E ei-la, a mona, lá está, / Estendida, a perna traçada» – e a alma – «o raio já bebe vinho, / Coisa que nunca fazia». Sem saber fixar-se, e «castrado d’alma», afunda-se na dor: «Serei um emigrado doutro mundo / Que nem na minha dor posso encontrar-me?...». O templo que criou revelava um deserto, um grito surdo como o pintado por Munch, um sudário espesso do qual não se consegue desprender, tecido com a inconstância da alma e a consciência disso. Atente-se no excerto e nas maiúsculas enfáticas «Arco» – a curva obsessiva – e «Ânsia», motores da tragédia pessoal:

Esta inconstância de mim próprio em vibração
É que há-de transpor às zonas intermédias,
E seguirei entre cristais de inquietação,
A retinir, a ondular…
Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos…
A cada passo a minha alma é outra cruz,
E o meu coração gira: é uma roda de cores…
Não sei aonde vou, nem vejo o que persigo…
Já não é o meu rastro o rastro d’oiro que ainda sigo…
Resvalo pontes de gelatina e bolores…
– Hoje a luz para mim é sempre meia-luz…
….. (Subo por mim acima como por uma escada de corda,
E a minha Ânsia é um trapézio escangalhado…) (pp. 64-65)


Numa atmosfera de ressonância simbolista (o “mistério”, o “sonho”, o “vago”), levada à desmesura, o sujeito poético percorre-se «em salões sem janelas nem portas, / Longas salas de trono a espessas densidades», «grandes escadarias», destroços, corrimãos partidos, lustres de cristal, velas de ouro, cetins rasgados, tectos e frescos enegrecidos, num cenário de degradação sucessiva, amplificado pelos espelhos deformantes em que se vê e desfruta a imagem grotesca e trágica do seu Outro, que ridiculariza com ironia angustiada, como se constata no poema intitulado exactamente «Aquele outro» (p. 121), onde se autocaracteriza como «o dúbio mascarado – o mentiroso», «O sem nervos nem Ânsia – o papa-açorda», «O raimoso, o corrido, o desleal – / O balofo arrotando Império astral: / O mago sem condão – o Esfinge gorda…». A obsessão do sujeito destruir o corpo que lhe polui a alma é recorrente na escrita de Sá-Carneiro; é o poder da «Grande Sombra», o espectro da dor, a loucura e a morte que percorrem toda a obra de Sá-Carneiro, num misto de angústia e curiosidade da morte, numa sondagem que se espraia à recolha que faz de textos de suicidas seus contemporâneos, amigos e conhecidos, como é o caso do texto «A profecia», sobre o suicídio de António Maldonado, poeta do Crepúsculo, com excertos do seu diário que indiciam as razões do suicídio, e onde se lê: «Suicidou-se ontem o meu alfaiate. Esse não teve medo. Ele próprio foi ao seu encontro.» (p. 214). «Não me pude vencer, mas posso-me esmagar», «Ai que saudades da morte…», «Quero dormir… ancorar…», escreve Mário de Sá-Carneiro como quem sente o mal a fitá-lo com o seu olhar de corvo, e que o faz ficcionar epílogos como este:

Do alto da sua torre, do alto da cúpula de aço refulgente, debruçava-se para ver o seu triunfo. E via a Glória. Mas de súbito houvera um bater de asas negras. Ao mesmo tempo, as nuvens áureas, turbilhonando, cegaram-lhe a vista: se olhava para a terra, o solitário do azul não via a terra; se olhava para o céu, não via o céu… Debruçou-se mais. Batiam sempre as grandes asas negras. Louco de pavor, quis fugir… Precipitou-se… foi-se abismando no espaço… Em vez da luz, as trevas impenetráveis; em vez das alturas, a profundidade. Mas a profundidade e as trevas aliviam os corpos fatigados. O artista sublime descansava. (p. 292)

Edgar Allan Poe escreveu, no «Soneto-Silêncio», que o silêncio tem corpo, que «por si só não pode fazer mal», porém se lançado «o Fado inexorável, / De encontro à sua sombra (elfo inefável / Que assola os ermos onde outrem jamais / Pisou)», que Deus guarde «então a alma!»*. Fingindo a dor que deveras sentia, Mário de Sá-Carneiro revelou a sua Clepsidra, o relógio que marcava, a sua proximidade da morte.

«uma poção de estricnina / deu-lhe a moleza e foi dormir // preferiu umas dores no lado esquerdo da alma / uns disparates com as pernas na hora apaziguadora / herói à sua maneira recusou-se / a beber o pátrio mijo / deu a mão ao Antero, foi-se, e pronto, / desembarcou como tinha embarcado // sem Jeito Para o Negócio», escreveu Mário Cesariny num poema sobre Mário de Sá-Carneiro**.

«A vida é um lugar comum. Eu soube evitar esse lugar comum. Eis tudo», escreve Mário de Sá-Carneiro através de uma personagem de «O Homem dos Sonhos» e nela reconhecemo-lo, «o príncipe sonâmbulo do sul», «o mítico rajá de Índias de tule», o «Rei exilado, Vagabundo dum sonho de sereia», a vertigem plasmada em Língua Portuguesa.

Notas:

*
Edgar Allan Poe, Obra Poética Completa, p.143, tradução de Margarida Vale de Gato, Tinta-da-China, 2009
** Cesariny Uma Grande Razão – os poemas maiores, p.34, Assírio & Alvim, 2007
.
© Teresa Sá Couto

domingo, 16 de janeiro de 2011

Um corpo visível


Está nas livrarias a edição fac-similada de Corpo Visível, o primeiro poema de Mário Cesariny, com a chancela da Assírio & Alvim e promoção da Fundação Cupertino Miranda. A publicação surge no ensejo de Mário Cesariny – Encontros IV, evento realizado de 25 a 27 de Novembro de 2010 em Famalicão e promovido por aquela Fundação.

É um belíssimo livro de capa nívea a envolver as 16 páginas que o tempo tornou sépia. Publicado em 1950, nele irrompe a descoberta e a aventura da linguagem que Cesariny manteria em toda a sua obra de metamorfose, transgressão, caracterizada pela felina indisciplina de quem viveu a vida em todos os excessos e nos exortou: Ama como a estrada começa.
Garanto que este Corpo Visível provoca paixão imediata.

Extracto:
[…]
Começa a ouvir-se o canto da cigarra
sinal de que foi pisado o botão entre os limos
estão presentes ao acto todos os seres vivos e entre esses
aqueles que nos foram queridos
na maré límpida que nos impele sabe o polvo dos mares
até onde e se haverá regresso
em qualquer lado a última janela fotográfica
as mãos do faroleiro
como a locomotiva no seu túnel
mas não há senão o teu rosto o teu rosto o teu rosto ainda
e sempre o teu rosto
como é fácil como é belo
A Vida Inteira Meu Amor
SOMOS NÓS
[…] (p.p.9,10)

sábado, 1 de janeiro de 2011

30 anos de Gato Maltês

A soberba colecção Gato Maltês, da Assírio&Alvim, está a fazer 30 anos. Pelo zelo, argúcia e pertinência das escolhas destas três décadas, há que ter as orelhas espevitadas para não se perder nenhum título. Comprove-se com a excelsa "colheita" de 2010: Herberto Helder, Ruy Belo, Fialho de Almeida, Panaït Istrati, Eihei Dogen, Herman Melville e Jean Cocteau.


Ver mais sobre a colecção, no blogue da editora, Aqui.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Novo livro da poeta Ana Paula Tavares


A poeta angolana Ana Paula Tavares tem novo livro: Como veias finas na terra, com a chancela, uma vez mais, da Caminho, colige, em 51 páginas, poemas curtos tecidos com palavras de brilho, sílabas claras, sinais perdidos nas dunas, areias, fontes, manhãs, noites de lua.

Com escrita ritualística, marca da autora, celebram-se vozes antigas da mulher africana no chão que se confunde com o seu próprio corpo, para desse chão atingir a universalidade do ser. «Aqui as pedras já não são pedras. O /sopro de vida que as /habita é um resto da fala antiga /de que são feitos os versos.», «Aqui a música pode ouvir-se na mão /curvada /búzio /sobe /o ouvido», lê-se nesta poesia que assim nomeia as suas próprias características.

São, pois, sons, sabores, texturas, desejos, cicios de perdas, de ganhos, de quimeras, que impulsionam as palavras, veias desta poesia. Para ler e sentir demoradamente. (texto meu sobre a poesia da autora, AQUI)

Poemas:

Quantas coisas do amor
P’ra ti guardei
Coisas simples como estar à espera
Manter o pão quente
Deixar o vinho abrir-se
Em mil sabores
Guardei-me das tentações
das sombras do desejo
das vozes
dos segredos

seria muito pedir-te
que me veles o sono
só mais uma vez.

***
Toda a noite chorei na casa velha
Provei, da terra, as veias finas.
Um nome um nome a causa das coisas
Eu terra eu árvore eu sinto
todas as veias da terra
em mim e
o doce silêncio da noite.

***
Detenho-me no cais
Ainda não é a hora
Eu sei
Há barcos de um lado
E comboios antigos de toda a parte
Ainda não é a hora
Eu sei
Detenho-me no cais
Eu sei não é ainda a hora
As pessoas deslizam
Acertam as suas vidas
Pelos relógios

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Citações e Pensamentos na busca do saber

É fácil encontrarmos nas nossas livrarias livros que coligem citações, aforismos e toda a sorte de textos breves dos mais diversos autores. Na internet, o fenómeno atinge o foro do bizarro, descredibilizando-se, com variantes quase intermináveis dum mesmo texto e muitas vezes atribuídos a autores diferentes. Todavia, e como em todas as coisas, há que distinguir o trigo do joio, o que é feito de forma séria e exigente, do que não o é. Procurando o trigo, encontramos os livros de citações e pensamentos, organizados por Paulo Neves da Silva que é, também, o timoneiro do Citador, lugar da internet que, julgo, dispensa apresentações.
.
Acabado de chegar às livrarias, o Citações e Pensamentos de Padre António Vieira junta-se a outros quatro tomos de trabalho árduo, dedicado e metódico, de anos, cuja edição se iniciou, finalmente, no ano passado, pela Casa das Letras que abraçou o projecto de Paulo Neves da Silva: os Citações e Pensamentos de Fernando Pessoa, em Abril de 2009, já na 5ª edição, Citações e Pensamentos de Friedrich Nietzsche, Agosto de 2009, Citações e Pensamentos de Agostinho da Silva, Novembro de 2009, e Citações e Pensamentos de Eça de Queirós, Abril de 2010 (capas na imagem; clicar para aumentar).

.Segundo Paulo Neves da Silva, a quem agradeço a disponibilidade para me contar o percurso desta sua missão maior de serviço público - dito assim porquanto é legitimado pela pertinência e qualidade das recolhas -, que começou a dar frutos em 2005 com a publicação, também pela Casa das Letras, de O Livro das Citações, uma compilação de citações por temas - com cada citação acompanhada doutra que a contradiz -, os Sabedoria Irreverente, em 2006, O Livro das Reflexões e Pensamentos, em 2007, duas edições de autor, e o Dicionário de Citações, de 2009, editado pela Âncora.

Sobre o recentíssimo Citações e Pensamentos de Padre António Vieira, acrescente-se que compreende 650 citações e 170 textos temáticos, sendo referenciados 147 sermões, resultado da pesquisa por 30 volumes da obra do genial orador seiscentista. De fácil consulta, e com uma piscadela de olho à ludicidade da leitura, os cinco títulos disponíveis são susceptíveis de guiar o leitor menos familiarizado com os autores e incentivá-lo a procurar os textos integrais; um movimento para a procura do saber que se aconselha, ainda, para as estantes das bibliotecas das nossas escolas.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Electri-cidade, Vitor Oliveira Jorge

(texto editado no sítio da Orgia Literária em 29.11.2010)

Procurar «o movimento da curva», posicionar-se no «entre», no «estar imediatamente antes / Do que vem imediatamente depois», deixar o corpo, que está no turbilhão da curva, deflagrar e tecer o próprio sudário: assim nos chega Electri-cidade, o último trabalho poético de Vítor Oliveira Jorge, que reúne, em 260 páginas, textos longos em verso e prosa poética.

Assumidamente metapoética, esta poesia busca a elasticidade do pensamento, a soberania da imagem, sendo a acção mobilizadora enunciada claramente no texto: «Criar uma espécie de tensão; partir de terra em terra; montar a tenda, repetir a cena, variar as luzes», «representar que nem um louco», «com os dentes todos pretos de tinta. Dando mordidelas textuais no ar». O resultado é a «hemorragia de versos, / Como longas escadarias, / Cada degrau pedindo outro, / Cada sala desembocando / Numa próxima, de outra cor. / Cada imagem apresentando outra imagem» (p. 97), em estilo vertiginoso, esfuziante e torrencial, patente também no desenho estrófico, com versos de tamanho muito desigual. «Por que nervo passa este movimento? / Por onde se pode começar a esquadrinhar / Esta geografia?» (p. 162). E começa-se pelo corpo, onde se ancora, fortíssima, esta poesia: o corpo antigo que é noite e quer ser iluminado, a «escaldar / de luzes e reflexos e notas e sons, que gargantas / Espalharam no ar denso ao longo dos séculos», esquadrinhado em círculos e espirais, poema após poema, muitos deles afigurando-se-nos como paráfrases de outros – e estará aqui um aspecto negativo deste compêndio, pela ideia que se nos agarra de poemas que seriam projecto ou estudo doutros, e que uma revisão e selecção cuidadas seguramente eliminariam para conferir homogeneidade à colectânea.

A explosão do corpo espraia-se por «arquitecturas» que o envolvem e que configuram o seu drama: o quarto, a cama, paredes, tectos, praças, «o enxadrezado do chão», recantos das esquinas, drama bem patente neste «A força das horas»:
[…]
as manhãs às vezes começam ao contrário, como se fossem noites atrasadas.
a cama é então um lugar de conforto e de martírio, confundidos no mesmo corpo,
na mesma penumbra.
há um desalinho no passado e no futuro.
e no presente as pernas cruzam-se sem se encontrarem.
os lençóis suam.
um peso cai das roupas estendidas,
dos dias anteriores,
da opacidade das janelas,
onde
não se roçam pombas, Nem se abrem candeeiros.
apenas fragmentos se erguem acima do colchão,
à procura […] (p. 11)
.
Passento, o corpo é enredado no frenesim da criação poética: «odor que excita as narinas», tensão de ossos, músculos, tendões, uma «máquina tremenda, uma vontade / Do corpo vivo, esticado, com luzes / Nas extremidades: / Com luzes nos pés, nas mãos, // Um corpo todo aberto, / Todo erguido no vento» (p. 137), com que se procura, afinal, uma respiração, dito assim em belíssimos versos:
.
O corpo odeia as superfícies, o corpo
Foi feito para voar. Mas o maldito peso
Prendeu-o ao solo, e o maldito tempo
Colou os dias uns aos outros. (p. 77)
.
Do corpo, em cruzamentos, entre «Trapézios», destacam-se as mãos, os pés e o centro. Das mãos saem «estradas», «escadas», «veias», «velas / que os pássaros cruzam / furando os panos», e o texto «acaba sentando-se / no fundo de si mesmo», no chão enigmático que é a folha branca do poema: «passaram-se de facto / aqui / já muitas, talvez demasiadas, coisas! // e um emaranhado de linhas / pousa no chão» (p. 85). Ostentando a sua «nudez total», está a planta do pé, o «pé terrivelmente nu sobre as superfícies». O centro é emanação, cópula, luxúria, «esperma», «vulva», a «intumescência» dos lábios, com a palavra a almejar o poder ilimitado, como uma «cerejeira coberta de frutos brilhantes e carnudos, vermelhos na sua totalidade prestes a rebentar de dentro de si mesma» (p. 133). Também assim se edificam os três elementos – cântico, culto e altar – do Grande Segredo da palavra, da «Flor» que, alucinada, «cresce sobre a coluna» para Dizer, ao mesmo tempo que foge «para dentro / de um cabelo enorme», intacta, «porque todo o seu íntimo / Está na reserva inviolável», numa conclusão a ressumar o esforço de Orfeu na sua descida ao inferno para reunir, no canto, a sua dispersão: «Subimos todos conduzidos / Pelo baixo profundo / Do Segredo»; trata-se do «Grande Desejo» – e «desejos e apetites são asas», na formulação de Novalis – de «estoirar com os balões solitários», todavia com a consciência de que se «caminha para o desconhecido», dito assim, num texto em prosa:

(...) as noites adensam-se para dentro de si mesmas mais que os dias, porque está escrito: não olharás para dentro das janelas. Podes interrogar-te sobre quem estará por detrás, por dentro, de cada janela apagada, ou acesa. Mas jamais saberás quem é. (p. 130)
Finalmente, no corpo, e por via dele, veicula-se a noção da escrita como sacrifício: «sempre com o mesmo fervor do centro» a mesma ânsia de janelas acesas em pleno dia, subir o turbilhão para se ir ter a um lugar que não se conhece, ou encontrar o objecto da demanda «como vestígio, um olhar entre dois pontos de interrogação»; é o corpo entre corpos na pista dos sacrificados; é o desejo de dispersão e aniquilamento do corpo que «assoma às varandas, para se evaporar», se diluir com a atmosfera, se volatilizar: «É o momento das janelas, do trespasse do corpo através dos espelhos. // Por que não tínhamos inventado isto antes, afinal, por que percorre-/ mos tão longo caminho sobre gumes de obsidiana, quando os pés se / podiam desmaterializar!» (p. 256).
São focagens e desfocagens de uma deambulação consciente de ter de arrostar com a solidão, e se apazigua encontrando o «Ouro» na simplicidade do seu lar, a sua toca no fundo duma rua sem saída, lugar de «paz infinita», referido num texto de carácter biográfico titulado, precisamente, «Ouro» (p.169). Na assunção da nudez absoluta, surgem textos como este:
[…]
trago-te o meu coração
Arrancado ao peito, com veemência,
Com violência
E estendo-o à tua surpresa
Como um seixo do rio, macio, suave,
Limpo. Tão limpo, tão nu.
Eis o meu Sagrado Coração
Desprevenido. (p. 70)


«As curvas são feitas para isso / Para nos colar ao momento seguinte / E como gatos espetarmos o focinho / Nessa procura obsessiva», lê-se neste Electri-cidade. «O poder de tornar as obsessões, que são experiências enérgicas do mundo exterior e interior, em formas tendentes a dispor-se numa forma fundamental, isso é o acto por excelência poético», diz Herberto Helder. Vítor Oliveira Jorge procura que a palavra – esse gesto «com que se atam sentimentos» e se desnuda a alma – seja a voz fundamental, e esculpe um canto lírico com lugar próprio na actual poesia portuguesa.


Electri-cidade, Vítor Oliveira Jorge; Edições Colibri, 2009


© Teresa Sá Couto

domingo, 28 de novembro de 2010

Novo livro de poesia de Ondjaki

Dois livros num só: Acto Sanguíneo e Dentro de mim faz Sul: o iniciático – escritas do fim da adolescência, editado há dez anos – e o mais recente livro de poesia de Ondjaki. É uma «celebração», diz-nos o escritor angolano em nota introdutória, desse «mistério chamado poesia». São pedaços da existência, fragmentos de interioridade desenhados em palavras: o «ritmo do sangue», o afecto do chão, o canto das estrelas da infância, rituais de encantamento, cicios de perdas, saudades, ecos longínquos que a memória foi transfigurando também ao longo de dez anos.

«dez anos antes ou depois, há frases que nos vão resumindo – cicatrizam-se em nós (porque o mundo /assim como sou /não me basta). Pensei também em dizer que, algures, entre estes dois livros, seguem longas linhas de uma sincera confissão. Mas depois vi que isso seria uma redundância humana.», diz Ondjaki, no presente livro.
Com várias obras para crianças, contos, romances e um texto dramático, as razões da poesia (recordo que Ondjaki  publicou também há prendisajens com o xão, em  2002, e, no ano passado,  Materiais Para Confecção De Um Espanador De Tristezaver texto meu sobre este último título) poderão encontrar-se logo em Acto Sanguíneo : «regresso  porque me dói /a parte escondida da perna  //e peço, com a mão mais direita /para escrever em ti .//regresso  porque /acima de tudo /me quero experimentar.//a mim: sanguíneo. //o actor sanguíneo.» (p.125).

Poemas:
(dentro de mim faz sul)

que língua falam os pássaros

de madrugada
que não a do amor?

escuto a madrugada
- lento manancial de céus.

os pássaros
São mais sabedores. (p.17)

***
chove.
o mundo húmido, poético
ganha outra densidade
- longe do medo.

gosto de observar a chuva

a paz
nas suas vestes

a chuva é plena de instantes intocáveis

nós somos
simplesmente humanos. (p.49)
***
(acto sanguíneo)

há uma valsa lenta neste
baixinho barulhar.
um vermelho odor, qualquer coisa de baço
no olhar.
seios brancos, um soutien escondido
um par de óculos
uma doce morosidade.

há algo de erótico na casa da idade

um suspiro estalando no ar
ou uma valsa quente
no repouso de um lar. (p.104)


ver AQUI textos meus sobre obras de Ondjaki

domingo, 14 de novembro de 2010

Blade Runner, a obra de Ridley Scott

É uma experiência e peras viver com medo, não é? É o que significa ser escravo. - Blade Runner

Esta semana, no ciclo de Film noir. Como sempre, a ficha elaborada por José Xavier Ezequiel.



sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A épica de Gonçalo M. Tavares

Está nas livrarias Uma Viagem à India, o novíssimo romance de Gonçalo M. Tavares, com promessa de futuros brados.
É uma edição esmerada, de capa dura, branca, com sobrecapa encarnada destacando-se um símbolo gráfico: uma linha recta, vertical, que parte de um ponto, um centro, ou se dirige para ele, como a linha da vida humana do nascimento para a tomada do mundo ou do nascimento em direcção à morte. No interior, a viagem em 10 cantos, eco de Os Lusíadas, cada canto com pequenos textos numerados e dispostos nas páginas como se fossem estâncias; nas últimas páginas, Melancolia contemporânea (um itinerário) dá-nos, graficamente, caminhos daquela linha recta numa espécie de cartografia da existência. «O dispositivo é o de um poema provocantemente épico e anti-épico», escreve Eduardo Lourenço, no Prefácio.
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Bloom é o herói e anti-herói desta singularidade literária, marca iniludível do autor, e é o espelho onde, como é apanágio da escrita de Gonçalo M. Tavares, inquietantemente nos revemos. A ler, de um fôlego. Transcrevo uns extractos com a formatação que se encontra nas páginas:
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77
.Há uma fenda entre o mais alto
da cabeça do homem e o céu; e nas minas
onde se exploram as riquezas que caíram
é evidente um outro embaraço antigo: a desligação
entre os pés do homem
e o que existe lá em baixo: o centro da terra.
Mesquinha coisa que existe entre o céu e o centro,
eis o homem. (Canto III, p.144)

38
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O mundo é redondo, mas todos os lados são iguais.
Os homens têm fome e adversários,
e outros têm prestígio e amigos e, nesta divisão rude,
encontrarás semelhanças evidentes
com a velha Europa, a Ásia, as Américas,
África, e com todos os continentes onde existem
seres vivos. A vida é invenção de demónios:
deram-ta: deves defender-te, deves atacar
(percebes, Bloom?). Percebo, responde Bloom com a cabeça. (Canto VII, p.304)

41
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Ninguém se encosta a si próprio tão
intensamente como quando sofre ou como
quando entra num mercado de uma
das nossas grandes cidades. O comércio
é feito de uma linguagem inesgotável:
sobra de um lado, falta de outro. O consumo,
por mais que o repitam, não é invenção do capitalismo:
os deuses formaram homens incompletos,
com estômago, frio, vaidade, como queriam outro resultado? (Canto VII, p.305)
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Ver AQUI textos meus sobre obras do autor.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

relâmpago dedicado a Cesariny

Já está disponível o número 26 da revista de poesia relâmpago, que é, nesta edição, dedicado a Mário Cesariny. O número chega no mês em que passam quatro anos da morte de Cesariny - a 26 de Novembro, com 83 anos. «Se se pudesse falar, nem que apenas simbolicamente, de revolução em poesia, Mário Cesariny seria, sem dúvida, um desses símbolos maiores de mudança, à semelhança de Cesário e de Pessoa, dois poetas aos quais, não sem motivo, a sua obra está ligada», escreve Gastão Cruz na nota editorial.

A belíssima edição contém fotografias a preto e branco e a cores de Cesariny, de trabalhos seus e de trabalhos inspirados na sua obra, em imagens que documentam uma época tingida pelo carisma do homem irreverente e polémico, fundador do surrealismo português, poeta considerado e pintor elogiado. «Para mim tudo é pintura», e é a pintura que melhor faz a «denúncia do desespero», disse o poeta-pintor sobre a sua forma de estar no mundo, forma essa que a relâmpago agora recupera e analisa com ensaios realizados por António Carlos Cortez, Fernando Azevedo, Fernando J. B. Martinho e Fernando Cabral Martins. Como Cesariny é, ainda e sempre, surpresa, a relâmpago dá-nos, em imagens, o original Pastor - Evangelho em 1 Prólogo e 3 Quadros.
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Cesariny tem a sua obra editada pela Assírio&Alvim, e dos inúmeros títulos destaco Uma Grande Razão - os poemas maiores, com 56 poemas, um artigo de José Manuel dos Santos, publicado no jornal O Público, aquando da morte do poeta, e uma entrevista de Maria Bochicchio a Cesariny, publicada no jornal Expresso. É deste livro que transcrevo o poema uma certa quantidade:

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade
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Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião
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Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá
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E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar
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Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro (p.p. 64,65)




domingo, 31 de outubro de 2010

"O Acossado", de Jean-Luc Godard

À Bout de Souffle, de Jean-Luc Godard, abre o mês de Novembro no Film Noir. Eis a ficha do filme elaborada por José Xavier Ezequiel. E let´s look at the film!