segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

"En la vía del Maestro – Un viaje con Laozi", Casimiro de Brito

(Texto editado dia 01 de Fevereiro no sítio da Orgia Literária)

Pagar a portagem «para o outro lado» com um poema: assim nos chega o poeta Casimiro de Brito no recente En la vía del maestro – Un viaje con Laozi (Na via do mestre – Uma viagem com Laozi), uma via de «escalada interior, / alpinismo puro», vertida no mais puro e depurado silêncio vocabular. É um caminho de despojamento e incerteza, pois só este é válido; são respostas aos 81 versículos do Tao te-King de Lao Zi que o poeta fez ao longo de vinte anos.

Edição bilingue, a presente obra tem tradução espanhola de Montserrat Gibert, chancela da editora espanhola Olifante e patrocínio do Instituto Camões, Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e do Ministério da Cultura. Com 72 anos cumpridos no passado dia 14 de Janeiro, e mais de meia centena de títulos publicados e espalhados pelo mundo, o poeta fala-nos da «água transitória» que somos, de envelhecimento, de experiência de vida, de morte e negação da morte pela palavra, já que a morte não existe no silêncio da poesia.

A partir da nascente antiquíssima do Taoísmo, Casimiro de Brito desenvolve um programa de identificação cósmica do poeta com a natureza para cantar a «baga frágil que vai de viagem», a «árvore ardida», faz o balanço de todo o caminho passado, desvenda «a cal intensa de que é feito um homem», prepara-se para o fim do caminho com o espírito do vale, como Tao o enuncia: recebe todas as águas que nele afluem.

Água, ar, terra e fogo são os quatro elementos genesíacos que consubstanciam um vastíssimo, plástico e rítmico sistema de metáforas da caminhada humana, concomitantemente metáforas da criação artística, a teia do «doloroso prazer da escrita». E se, também na sua teia, «a morte que se aproxima devagar / e não sabe fazer outra coisa», o mesmo faz a palavra contra a morte, transubstanciação da aranha a segregar o seu fio e a tecer a sua teia:

Flexíveis são as aranhas
Que tecem a partitura
Do enigma inicial. Arte
Antiquíssima – tal a do vento
Esculpindo a pedra; arte efémera
Como os terraços da espuma;
Tão próximos do nada. (p. 98)

Ciente de que o caminho acaba, pois é «frágil a madeira / que nos ossos do homem apodrece», o sujeito poético caminheiro desta via reconhece que o «sal do desejo» o cegou e só o «branco mais vazio», o branco da luz do «não-desejo» lhe anunciará o segredo. Cabe-lhe decifrar o enigma, buscar o princípio desconhecido cujo «segredo está na combinação / do barro e do ar»; o objectivo é a harmonia que só começa quando cessar o medo e o desejo, «quando o sangue reconhece a paz das árvores»; o método é a destruição de todo o conhecimento adquirido, o retorno à «mãe das coisas», devolver-se às «águas que passam», render-se «à doce / vigília da chuva»: «a pouco e pouco aprendo a desprender-me / do corpo e da sua ilusão», diz, para atingir o «Doce desconhecimento da grandeza de quem nada recebe / nem conserva», ou, ainda:

(…) assim fossem vazios os meus dias –
vazios e sem retorno como as sandálias
que vagueiam no verão sem saber
se caminham para o norte ou para o sul. (p. 92)

Na conjugação com o Todo para alcançar o Absoluto, o «pescador de palavras», o coleccionador do «rumor da cal», o que ouve a «flauta rouca», funde-se no feminino vocabular de «águas», «loucura», «mãe», «matéria», «seda», «morte», «terra», «dor», «carne», «flores», «bocas», «gota», «maré», dando sentido aos masculinos «o fruto», «o sábio», «o mar», «o corpo», para concluir: «nesse dia deixei de ser osso / separado das dez mil coisas».

Aprender com a Natureza é a divisa: o homem é um rio, e na natureza os rios continuam o caminho indiferente aos homens que «deslizam insaciáveis com o desejo / virado para o céu» e «a boca na terra / de quem vive apenas / este momento»; as águas «ignoram / a dialéctica do caminho: bebem o chão / e basta»; há que louvar as águas que não fazem ruído, e imitar o Mestre que se recolhe «nas folhas discretas / do seu palácio», no silêncio da sua mente, e o poeta no silêncio da sua escrita. Aprender com a Natureza é libertar-se da casca, cantar «o pó», «a semente mínima / do animal humilde que lentamente / envelhece tão lentamente como a sua / escrita esta breve passagem / pelo vasto vazio do ar azul / em volta». Esta será a Lei do Mestre e a lei do poeta: «quanto mais leve / mais densa a sua lei». Uma lei que gera poemas belíssimos, como este:

(…) Invocado o espírito do solo
e dos cereais regresso como parti, sem
bagagem. A árvore dos meus ossos
Inclina-se vagarosa sobre a terra
onde sempre mantive o pé jamais o reino;
onde fui um filho pródigo, um braço
nómada. Alimento-me dos últimos figos,
das emoções derradeiras. Em breve o pó
será pão bastante – uma folha de água
se tiver sorte. A mais não aspiro.
Deito-me em repouso como se fosse enfim
o chão trémulo que nunca deixei de ser. (p. 170)

Na «cerimónia vagarosa do pó», com a aproximação da boca do silêncio, a morte, há que beber na boca secreta doutro silêncio, esse sim imperecível: a palavra. Parece clara a perspectiva heideggeriana da palavra enquanto morada do Ser: ao longo de toda a obra, ela surge como essencial à travessia, o «ovo perfeito», a urgência de «loucas abelhas laboriosas», como no poema a seguir transcrito, pois «Não há outro fogo outra via / nas hastes cansadas do entardecer»:

A teia essencial não é um mapa,
um cenário de luz onde eu possa
desenhar-me como se o pó da viagem
em ouro se pudesse converter; essencial
é ver o que vai nascendo, o rumor do chão
como se ele fosse uma nuvem fugidia
que se ajoelha dentro de mim; ou a sombra
dela, a doce respiração que ilumina
as loucas abelhas laboriosas
que são as coisas e os seus nomes. (p. 54)

Casimiro de Brito que escreve – em A Arte de Bem Morrer (Roma Editora, 2007) – que «Quando a natureza do homem se dilui na morte / há um saber mais vasto, uma matéria que aspira / à dispersão dos seus componentes», que a «obra permanece, jamais a alma», e que pede ajuda ao poema para «encontrar um sentido neste segredo / que todos bebemos / e não se esgota», continua a libertar, em direcção aos seus leitores, a concha da palavra perpétua: «Uma concha que me preserve», para «morrer-me», «uma nave / onde eu possa viajar / todos os dias em distante embriaguez».

Casimiro de Brito, En la vía del Maestro – Un viaje con Laozi, Olifante, 2009

© Teresa Sá Couto

5 comentários:

contador antropomórfico disse...

Magnífica resenha do que me parece ser um magnífico livro. Mais um...
Abraço

Luís Sampaio disse...

Muito subtil e clara esta sua apresentação. Casimiro de Brito é isto, noutros títulos e, assim parece, também neste. Finalmente alguém pôs as mãos na massa e tinha de ser você, como sempre.

Os leitores desta terra têm muito que lhe agradecer!

LS

contador antropomórfico disse...

Subscrevo as palavras do Luís Sampaio. E não estou a querer ser simpático. É tal e qual como ele escreveu...

Teresa disse...

Boa noite, meus senhores.

Obrigada pelas vossas palavras, que são sempre um incentivo. Vou fazendo o que posso, e aqui a atenção vai para os autores que trago, sendo sabido que me ocupo quase totalmente apenas em obras que me agradaram, já que não tenho tempo para ler obras que me desagradam (nem tenho tempo para ler todos os queria).

Abraço

Teresa

Luís Sampaio disse...

Teresa, registe então mais isto, para o caso de não saber: basta você colocar uma fotografia de um livro e esse acto é já um guia para nós, e olhe que o "nós" é concreto, pois falo por mim e por outros casos que conheço. No meio desta selva de edições, cada vez é mais necessário termos um farol. Você é-o.

Muitas vezes os livros que traz aqui são difíceis de encontrar. Mas a procura é sempre compensadora.

outro abraço

LS