terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Cristais da Tarde - fotografias de João Paulo Sotto Mayor





Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.

António Ramos Rosa,
poema Nascimento Último (1)



   Na câmara escura de João Paulo Sotto Mayor habitam brilhos e rumores de uma cidade, reúne-se o espaço e, assim, antologia-se o tempo. Refiro-me a Cristais da Tarde, o mais recente livro de fotografias do autor que agora nos dá um miradouro sobre as tardes que enredam a cidade do Porto: o rio e o mar, as nuvens e o vento, as pontes e o casario, a calma e o bulício, as pessoas e as aves, a luz dramática de poentes e o brilho baço da neblina que veste o horizonte e a alma, a lembrar a segunda estrofe do poema Miradouro de Santa Catarina, de Jorge Velhote: “Uma ave devora-me a alma e / a melancolia, confesso, suja-me / um pouco os dedos.”.(2) 


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  Fundador, em 1976, do grupo IF, Ideia&Forma, com António Drumond , entre outros, Joao  Paulo Sotto Mayor, na centena de fotografias a cores e preto e branco que unem a sua respiração a textos de autores da literatura universal e do próprio fotógrafo, mantém o compromisso inicial do olhar solto e perscrutador do tempo, e para quem a fotografia parece ser uma expressão vital que ele transformou em expressão artística.

(na imagem, gentilmente cedida pelo autor, João Paulo Sotto Mayor com o seu Cristais da Tarde)

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Livro que não obedece a nenhuma ordem, nas palavras do autor, Cristais da Tarde tem a abrir uma imagem com o rasto triangular de um barco no vértice veloz do percurso a aspirar o espaço infinito; “o tempo esqueceu-se de mim”, diz o fotógrafo  flâneur que não se esqueceu do tempo e que, como o barco da fotografia, percorre o espaço para o integrar no tempo, com a missão clara de registar as experiências do seu olhar livre e vigilante. Maria do Carmo Serén, num dos textos introdutórios, refere João Paulo Sotto Mayor como “fotógrafo experiente e poeta” que “surpreende a cidade”, Jorge Velhote diz que “o autor acolhe o sussurro que se hospeda no seu olhar” e que “instala na carne a pele do mundo”, Gil Maia alude aconstruções visionárias” e Fernando  Maia Pinto aponta a “inteligência” do fotógrafo;  João Paulo Sotto Mayor junta àquelas observações um elemento transgressor: “para mim, mais do que a imagem é o som que me alimenta”, diz numa assunção sinestésica da sua expressão artística, aqui entendendo-se arte por “intenção profunda e jogo, imitação aparente e transfiguração real”, nas palavras de José Régio, “jogo de movimentos, de sons, de volumes, de linhas, de cores, e jogo que nos agrade” (3) , que nos lisonje os sentidos e nos acorde o espírito. 
Com a intenção de comunicar as suas experiências, o autor instiga o espectador a ancorar-se num lugar imaginário nteira, marca de quem viveafias: experriencias em dies, e jogo que nos agrade"para daí experienciar as sonoridades visuais que se passeiam nas fotografias: os ventos que inquietam o mar do Gilreu, que fazem explodir a água no farol de Felgueiras, os que na pérgola das nuvens sobre as águas se dedicam a jogos malabares esculpindo estátuas a que a luz dá leveza e dinamismo, os que rasgam nuvens espessas e concebem abismos cintilantes que recebem os gritos das gaivotas comovidas com o destino dramático da luz, o rumor da gente que passa e que a luz transfigura em hologramas, o apelo errático de um detalhe que se insurge na bruma convulsa, o resmalhar alvoroçado das penas, o sopro de um instrumentista de saxofone com a luz crepuscular timbrada no rosto, o silêncio de um homem andrajoso de costas voltadas ao poente,  o marulho das narrativas enigmáticas esculpidas pelo sal na areia, na orla onde o morre o mar, o silêncio da maré vaza.

 É fortíssimo o sentimento telúrico nestas fotografias e não o é só por causa da terra  geográfica. É-o pelo diálogo cúmplice e afectuoso que o fotógrafo enceta com a cidade. Seja qual for a diversidade dos planos, o fotógrafo procura sempre a imagem inteira, marca de quem vive na cidade integrado nela. Como o Anteu do mito que se regenera ao tocar o solo, João Paulo Sotto Mayor une a pele do olhar à pele da cidade para receber dela a pulsão criadora; à cidade, ele oferece como préstimo quadros de tempo para além do tempo. Muitas vezes afigura-se-nos uma inversão de papéis, pois parece que é a paisagem que vigia o fotógrafo e a nós através dele. E lá estão o casario no regaço vítreo das poças de água, o ouro engalanado a escorrer nos vidros das janelas,  o reflexo tremente do casario no espelho pardo do rio, o rio que se finge manso e tateia sedoso as margens, os botes com os bicos das proas a beber o rio em lenta direcção à eternidade, os rabelos de cores garridas no secular rio de mosto. 

 “O desejo do início e do silêncio / para que o instante seja a fábula do instante.”, escreveu, ainda, António Ramos Rosa (4). “Gostarei de ser sentido como quero”, anota João Paulo Sotto Mayor sobre a sua representação do mundo, num manifesto desejo de partilha de instantes, emoções e sentimentos, que sabe que comunicar é emergir da ocultação e espacializar o tempo é um gesto contra a morte.

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Notas:
(1) António Ramos Rosa, Antologia Poética, Dom Quixote, Lisboa, 2001, p.246
(2) Narrativa da Foz do Douro, poemas de Jorge Velhote e fotografias de Tiago Reis, Edição Projecto, Porto, 2013
(3) José Régio, Três Ensaios Sobre Arte, Portugália Editora, Lisboa, 1967, p.61
(4) António Ramos Rosa, Antologia Poética, Dom Quixote, Lisboa, 2001,p. 225


© Teresa Sá Couto


sábado, 17 de agosto de 2019

Aurora, de Renato Roque

Partindo de Antígona, de Sófocles, Renato Roque constrói Aurora, libreto em verso, dramático e crítico, com direito a habitar a história dramatúrgica de intervenção, a que denuncia a tirania e a soberba dos poderes que desprezam a cooperação e confraternização humanas; a escolha do título Aurora, sinónimo dos nomes alvorada, madrugada ou despertar, evidencia o propósito de alguém comprometido com o seu tempo. Aliando-se às máscaras diabólicas de Vitor Sá Machado, Aurora revisita a nossa cultura e arqueologia mental: o Diabo, figura mais grotesca que terrível, intrépido e vulcânico, é o subversivo estandarte dos humilhados, o que está onde está a humanidade para que esta crie o espírito humano e este concretize a Ideia: resgatar o mundo para a verdade.

Numa altura em que o mundo vive a tragédia dos migrantes, em que se assiste à eclosão da extrema direita em lugares de poder e decisão, em que pululam tentativas ditatoriais que abocanham as liberdades,  Aurora surge  pleno de sentido. Escrito à maneira clássica, o texto propõe-nos um jogo de símbolos cuja animação fica a nosso cargo: os factos narrados implicam experiências, percepções e reacções do leitor incitando-o a avaliar o lugar humano no mundo:  “O que vos vai ser narrado /é o que está a acontecer. /E se repete o passado, /anuncia o que há-de ser”, avisa o texto.

Feito de ardis, o texto dispensa as personagens e usa dois coros para apresentar a narrativa e conduzir a eloquente, desditosa e atual história de Aurora. O Coro dos anjos, na advertência para a contenção dos gestos humanos, mostra a solidão que Aurora negou, a desobediência  à doutrina da frustração como meta do destino de todos os homens, a recusa da condição de nada pedir e do juízo final exercido por um homem sobre outro. Diz o coro: Sabias bem, muito bem, /devias obediência /aos Crónidas e a quem/devias a existência. Ao invés, O Coro dos diabos apresenta-se conluiado com Aurora e com todos os que se opõem aos ditames de Creonte, como Filomena, irmã de Aurora, Hémon, noivo de Aurora e filho de Creonte, e os estrangeiros ajudados por Aurora. Assim se dá ao séquito diabólico o papel que tradicionalmente lhe pertence: o de viver na terra para cumprir a necessidade de enfrentar o mundo,  ao lado do povo para apostrofar os poderosos, arauto dos direitos cívicos à existência,  fundamental na empresa de nos relacionarmos com o outro:  
Seguiste o teu coração, queriam que olvidasses, /que não falasses (...)/ que teus ouvidos cerrasses;
 Quem como tu quer viver,/crueldade não suporta;
 É melhor viver a morte /do que morrer a vida;
a morte para todos chegará, / porque ao Hades não se escapa.

A estrutura externa do texto composto por quadras de rimas cruzadas, simples, melódicas, ao jeito popular, fortalece esta teia  de laços mágicos onde se bordam lendas seculares e também agora Aurora. Embora com posicionamento ideológico distinto, os anjos e os diabos de Aurora trabalham em conjunto para a Ideia: os primeiros, lamentando as decisões de Aurora, engrandecem-nas; os segundos, rejubilando-se, legitimam-nas. E é este outro ardil de um texto que propõe a confraternização humana e que também sabe que o embate entre forças antagónicas pode resultar no aniquilamento de ambas. O Creonte de ontem e o de hoje só consegue ver um adversário como inumano, como o “outro”; Antígona e Aurora reconhecem a mesma humanidade em todos, pois todas as pessoas partilham um destino comum. A humanidade de Antígona é a humanidade de Aurora. Ambas saem da sua menoridade, entendendo-se esta como a falta de coragem para se usar o próprio entendimento, como a define Kant ao abordar o uso autónomo da razão: “A preguiça e a cobardia são as causas que explicam que um tão grande número de homens, depois da Natureza os ter há tanto tempo libertado duma direcção estranha, permaneçam, de bom grado, não obstante e durante toda a sua vida como menores, sendo tão fácil a outros constituírem-se como seus tutores. É tão fácil ser-se menor!”, refere Kant. Tal como Antígona, Aurora desobedece aos Creontes do mundo, ergue o peito, repele a cobardia, ajuda os estrangeiros, age à luz do dia.  É esta a denúncia, a crítica e a nova escala de sentido que Renato Roque imprime no texto bebido do tragediógrafo grego. Lê-se em Aurora: Perante os deuses e os reis /há que baixar o olhar, /cada um com seus papéis, /cada um em seu lugar - coro dos Anjos;
Não te queriam é livre,/pois temem a liberdade. /Temem quem a vida vive /e olha para além da grade. – coro dos Diabos.

Também comprometido com os direitos humanos, com as questões da hybris e do poder, o poeta, dramaturgo e activista Harold Pint escreveu, no poema Morte, sete séculos depois de Antígona em palavras reminiscentes: “Estava morto o corpo quando foi abandonado /O corpo foi abandonado? / Por quem foi o corpo abandonado?//Estava o corpo morto nu ou vestido para a viagem?”.  Tal como Antígona, Aurora é executada pela sua desobediência, mas o seu “emparedamento”  destrói o mito do poder: no Êxodo de Aurora imprimem-se as lições a tirar da história: a liberdade enfeitiça, os fracos podem ser fortes e os que se pensavam fortes podem revelar-se fracos, a eternidade só é alcançada por poucos.

O poder deste Aurora é o reinado do silêncio, onde se acha a personalidade e a vigília humana. As perguntas que encontramos no texto estão ao serviço da persuasão, do despertar das consciências: “Porque desobedecer /quando o coração nos impele, /e se pode obedecer /vestindo uma outra pele?” , diz o Diabo-Mor no Prólogo; “Queriam que fosses cega, /que não visses o que se via. /Mas como é que se nega /a ajuda a quem agonia?”; “Recolheste no teu lar /estrangeiros proibidos. /Poderias não olhar, /deixá-los desprotegidos?”, lê-se no Coro dos diabos. Ter a coragem de se usar o próprio entendimento, Sapere aude! é, pois, a divisa de Aurora, o grito que ecoa do texto para nos implicar:

Os anjos e os chifrudos
   tudo aqui vos vão contar.
      E não vos queremos mudos,
mas sim no fim a pensar.


Aurora, Renato Roque, edições Lema d’Origem, Julho de 2019

© Teresa Sá Couto

nota: O libreto Aurora foi lançado em Morille, Salamanca durante o PAN , no passado mês de Julho, bem como a Curta Metragem do mesmo nome, com as máscaras de Vítor Sá Machado, realizada por Renato Roque e Tiago A. Fonseca.

sábado, 11 de maio de 2019

"Os Animais Perdidos Na Floresta" de Francisco Duarte de Azevedo





 Com o Os Animais Perdidos Na Floresta, Francisco Duarte de Azevedo conclui a trilogia poética proposta há vários anos ; à semelhança dos outros títulos, As Habitações Interrompidas e Livro de Inverno e Transições, também este tem prefácio meu; é esse texto que aqui publico. 



Cântico de solidão 





                                         Enquanto eu bebo a respiração dum fruto / o tempo chama-me, pelo rio.
  
                                                                                                                                     M.S.Lourenço 

                                                     Os rios, obstinados, / abrem sulcos profundos / nos nossos braços.
                                                                                                                    Francisco Duarte Azevedo

  A solidão é um rio, às vezes negro, outras vezes azul intenso, outras, ainda, verde gramíneo, amarelo crepuscular, branco das manhãs ou das areias, mas, indubitavelmente, o rio da solidão escreve-se a vermelho. É um rio revoltoso o que encontramos neste terceiro tomo da trilogia proposta há já alguns anos por Francisco Duarte Azevedo. No seu tutano, uma explosão, o centro das incertezas, a habitação; nas suas artérias, o latejo da demanda, o uivo do tempo, a pulsação do instinto da escrita ininterrupta.

 À semelhança dos dois primeiros títulos da trilogia – As Habitações Interrompidas e Livro de Inverno e Transições -, Os Animais Perdidos na Floresta reverbera os temas da memória, da natureza e da solidão mas este atinge agora um cântico lapidado onde a palavra toca “a polpa das pedras” e, em golpe de asa, liberta-se do “jugo terreno”, a sua condição, acede “a um céu/ delicado sobre a falésia” para se lançar no infinito ao encontro da sua plenitude ou dito, ainda, assim: “Ao acaso./ No centro
 da floresta/ entre a montanha/ e o infinito/ assistiremos/
 ao voo metálico/ de um pássaro/ de fogo contornando/ as asas da imaginação.”.
  Jorge Luís Borges, no Prólogo de A Rosa Profunda, de 1975, escreveu: “A palavra teria no princípio um símbolo mágico, que a usura do tempo desgastaria. A missão do poeta seria restituir à palavra, mesmo parcialmente, a sua primitiva e agora oculta virtualidade. Dois deveres teria qualquer verso: comunicar um facto preciso e tocar-nos fisicamente, como a vizinhança do mar.”(2). Em Os Animais Perdidos Na Floresta, a água é o discurso sobre a génese, sobre os sacrifícios da viagem, a luz é o discurso sobre o efémero, o transitório, o vento é inquietação, o sopro criador que dissemina, avança e inventa o canto dos “pássaros que já não falam”, que produz um eco sonoro que nos envolve, despe e impele para novas significações da palavra. Água, luz e vento são, assim, princípios fundadores, artérias deste cântico poético sobre a solidão. Diz-nos o texto: “Navegamos no âmago/ de substâncias etéreas./ Para tocar a polpa
das pedras,/ o coração necessita de água/ e da tua voz. Para isso me iniciei.”.
  Com efeito, há uma solidão lacustre nesta poesia que procura as ruínas no fundo das águas doces: “Na macieza do éter/ são frustrantes/ todas as tentativas/ para alterar o rumo/ da navegação./ O que é isso/ dos navios sorvendo/o lodo dos rios? “, sendo o “isso”  o enigma dos caminhos que se desdobram em múltiplas sendas criando labirintos que são o desígnio da própria  poesia.
   Na viagem que nos é proposta, há uma emergência de quietude que confere à caminhada um principio de onirismo, “Há uma insistência/ para amaciar os gestos/ num campo de girassóis adormecidos.”, há a confiança:  “Como o aprendiz/ montado/ na sua cegueira ansiosa,/ amestrarei
 o corcel /e um cravo
 florescerá/ entre os dentes”; e há também a tensão entre dois polos extremos, a energia e a lassidão, a esperança e o niilismo: “E no desespero/ assimétrico
 do confronto/ entre massa e energia,/ os elementos celestes/ derramam-se 
sobre a terra./ Uma chávena
de café/ amargo e quente 
emerge/ das entranhas do fogo.”.  Por vezes, uma refracção violenta desvela um movimento auto-reflexivo, uma demanda intelectual impregnada de memória de paraísos perdidos e de desejos suspendidos:

Se o pudesse abraçar

abraçava mas não posso.

Os meus braços
são pequenos
para tamanha imensidão.
Precisaria da tua ajuda

e perdi-a. E os braços 
de 
mais duas, três ou quatro

pessoas não bastariam

para abraçar o mundo

da árvore de memórias 
e lendas tão antigas
como
 a criação dos séculos.

Precisaria apenas
do teu abraço 
para abraçar 
o baobá por inteiro. 
  Na viagem, as mãos têm um papel essencial, porquanto são a “bagagem do criador”, o seu “elemento original”: “O silêncio não digerido,/ as mãos aquietadas/ 
sob a sombra das águas
/ e o corcel mansamente
/ estacado à porta dos desejos/ contemplam de soslaio o aprendiz.“; embebida numa luz “crepuscular”,  a palavra é projectada pela mão que percorre a tela “como um caminho cego”, desenha o silêncio que “uiva no vento”, certa de que “Uma árvore estremecerá./ Apenas uma.
 Aquela/ onde depositas
 o reencontro/ dos elementos/ e acolhe as nossas habitações.”, lê-se.
  “Que pássaro/ é este que na ponta / dos dedos/ faz o ninho?”, escreveu o nosso saudoso poeta Albano Martins no poema Para a Flautista de “O Pássaro de Fogo”, de Stravinsky (3), onde se evidencia que a Arte é o lugar onde habita a voz ;  “digerido” o silêncio, é preciso dar-lhe voz, e cabe às mãos instaurar o silêncio no silêncio da tela – e recordo que as capas que envolvem os três títulos da trilogia são reproduções de quadros de Francisco Duarte Azevedo – ou, no caso, no silêncio estridente das palavras que são jogo, manha, o lugar  onde a incerteza se torna um viático porquanto a dúvida atinge a dimensão reflexiva, a dúvida pela qual o sujeito se interroga sobre as condições do seu próprio pensamento: “E as águas do rio / seguem o seu caminho./ Já não sei onde estancam.
/ Se no deserto imenso /ou nesse outro mar azul / tão distante e incerto.”.
  Disse, ainda, Jorge Luís Borges que a solidão é a sina do transviado mas também do pioneiro. Outrossim do poeta, acrescente-se, e Francisco Duarte Azevedo evidencia-o uma vez mais neste Os Animais Perdidos na Floresta.  Nas “cúpulas dos bosques” cantam os pássaros o cântico febril na vigilância dos dias, sendo a vigília o instinto do poeta: “Sonha-se de olhos abertos
/ no centro da solidão./ Como um dicionário fechado/ no sacrário das palavras.”. Ligada à vigilância, a ansiedade estimula a pesquisa errante, e não  parará de trabalhar subterraneamente na procura das soluções que as suas angústias exigem. Neste tomo, a errância está patente na forma de poemas ora curtos, ora mais longos, em prosa, atrelados ao real ou saltando dele com metáforas frenéticas e enigmáticas, onde as palavras que são a “lucidez da insónia”, as palavras  “importadas de memórias/ derramadas e imprecisas” edificam “Imagens/ passageiras girando na espuma / da madrugada”,  ”cansam-se, irritam-se”, “Explodem
 como um vulcão /outrora indeciso entre água, ar e fogo”. As palavras arriscam, afrontam, mergulham no delírio e na loucura criativa que culmina e desfralda quando há simultaneamente ausência: 

As acácias as casuarinas
regurgitam 
no delírio
dos rios e nas areias
da praia.
Os seres perdidos 
na floresta
rasgam as veias
 sob a pele
a camada do fogo
 e o crepitar 
vermelho 
de bocas exauridas.
Do mar, 
sorvem o sal
o plâncton 
para temperar
o aço dos seus braços.

  São as palavras que se iluminam contra a banalidade, que arrostam o caminho, que procuram  “a migalha/ de podermos /antever/ quão irreais/ os rios/ em busca do mar”, que escutam “o grande rio que habita/ o coração dos animais /perdidos na floresta”, que mergulham “na densidade dos lobos reaprendendo a caminhar” ou dito , ainda, assim:

Caminhamos no coração
das trevas modernas de betão.
O peso da solidão
é tão grande como o arco
planetário de Deus;
a aliança entre os mitos e os rios
bíblicos permanece
na densidade da memória.
A solidão esgueira-se
na silhueta das trovoadas,
cíclicas, da floresta.
A chuva asperge-nos
de frescura, eis o maná
da fertilidade.
  A assunção da escrita como poalha, o carácter efémero da palavra - a “varanda provisória”-,  e o elogio da imperfeição são senhas para a escrita ininterrupta.. A palavra é frágil, é um ser sensível “perdido na floresta”,  é imperfeita, de uma imperfeição absoluta a exigir constantes reparações:

Súbito, um estremecimento
reacende as vozes a galope
do corcel das trevas.
A insónia, essa coisa
brumosa de dormir
acordado, apodera-se
de reflexos, 
denuncia o corpo
entre sono e morte,
vampiriza o vocabulário
torna-o redondo
 e repetitivo.

 Pensar, analisar, reinventar a voz da solidão serão etapas do método do Eu monologante em demanda intelectual, do Eu dialogante com o Tu da poesia e com o Nós de um leitor implicado no peso das fadigas humanas, atento aos movimentos do mundo,  impelido, também ele, para a caminhada de pensar, analisar e reinventar a sua própria solidão.
 “Não fosse tão intenso/ e tão azul/ este voo iniciático / contemplaria os seres/ que pululam/ fora das nossas vidas,/ pulsando, pulsando, pulsando/ como as veias/ nos pulsos dos nossos braços.”, lê-se neste último título da trilogia. Crê-se que o laboratório poético de diálogos interrompidos,  que assume  “amaciar o corpo” da palavra nas noites de chuva, não se ficará por este tomo. Deseje-se, pois, chuva à palavra policromada de Francisco Duarte Azevedo.


Teresa Sá Couto
Lisboa, Novembro de 2018

Notas:
(1). M.S.Lourenço, O Caminho dos Pisões, Assírio & Alvim, Lisboa 2009, p.13
(2). Jorge Luís Borges, Obras Completas 1975-1985, Editorial Teorema, Lisboa, 1998, p.79
(3) Albano Martins, Livro de Viagens, Edições Afrontamento, Porto, Março de 2015, p.47