domingo, 24 de julho de 2016

Aos 86 anos de Albano Martins


Evoco os 86 anos de Albano Martins, cumpridos neste dia 24 de Julho, com a chamada de atenção para  Desta varanda, o mar, Livro de Viagens e O Caroço, os livros mais recentes do autor que cumpre o seu destino «como qualquer fonte». 

O Desta varanda, o mar é uma edição bilingue - português e castelhano -, com Alfredo Pérez Alencart a assinar a tradução castelhana. É um belíssimo livro de haikus, género que Albano há muito pratica com reconhecida mestria e que enforma na perfeição a limpidez desconcertante da voz do poeta. Transcrevo um dos poemas nas duas edições:

 O luar montou na crista
 duma onda; chegou à praia 
 e quebrou-se. 

*
 Una luz de luna subió en la cresta
 de una ola; llegó a la playa 
 y se despedazó. 

Em Livro de Viagens, faz-se um percurso por lugares e sentimentos, que, no caso de Albano, é a mesma coisa. E lá estão a demanda do sentido da vida, os afectos, a melodia, a luminosidade, a concisão. O poema Terras de Xisto:

Aqui, o sol
vem beber
às nossas mãos, dorme
connosco, na nossa
cama, sob 
o mesmo tecto. Aqui, 
o xisto é pedra
de sangue, lágrima 
solteira, lâmina 
e pálpebra 
do silêncio. (p.55)

Finalmente, O Caroço é um curto conto juvenil fundeado no ninho da memória do autor, mais uma luminosa fábula construída com fios secretos que tecem o futuro. É a história de um caroço de cereja desprezado que haveria de se tornar cerejeira. Extracto do lamento pelo desprezo:

Se alguém – pensou – se condoesse de mim, me levantasse deste chão estéril em que jazo e me lançasse à terra de semeadura, talvez eu voltasse, por metamorfose, a ser o que já fui: uma casa para as aves, que ali tantas vezes tiveram morada e sustento, alimento para os homens e sedução para os olhos ávidos dos transeuntes. (p.9)


 © Teresa Sá Couto

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Vila Algarve, de Francisco Duarte Azevedo

A História acaba quando a literatura toma o seu lugar, sabemo-lo, e Vila Algarve, de Francisco Duarte Azevedo, demonstra-o. O romance vai buscar o título à casa construída em 1934, que foi quartel general da PIDE em Maputo, lugar temeroso onde estiveram presos Malangatana, José Craveirinha, Rui Nogar, entre outros, uma herança do fascismo português que tem instigado um caudal de estórias de que nela vivem os espectros inquietos dos mortos. A objectividade do título e a fotografia do pórtico de entrada da casa, hoje em ruínas, que faz a capa do romance de Francisco Duarte Azevedo, tirada pelo próprio, envolvem uma narrativa que encena o passado consciente de que a História é um jogo.

 No compromisso do autor com a literatura, a narrativa perscruta todas as potencialidades inerentes ao jogo entre passado e presente, reconstrói novo enredo ancorado numa “Peregrinação interior de memórias” de cicatrizes do colonialismo ou, como nos diz o texto, junta “as pedras soltas da memória para recompor o tempo”, desenha personagens, ambientes, atmosferas, sentimentos, enche as páginas de cores, silêncios, brados e ecos, e o texto vai fornecendo e traduzindo dados, não quando o leitor quer, mas quando o narrador decide.

Vila Algarve é o segundo romance de Francisco Duarte Azevedo e, como o anterior, O Trompete de Miles Davis, também editado pela Planeta, comprova um estilo pessoal do autor. O presente romance tem uma estrutura narrativa coerente e bem montada. A acção passa-se em Maputo, neste século XXI, com a chegada de Dória, 40 anos depois de ter partido de Moçambique. Representante de uma geração, Dória regressa ao centro do redemoinho do vento, símbolo de litígio e demanda, com a missão de “fechar a circularidade da memória”. Nesse centro de “vento e de milando”, encontra o amigo, o narrador participante, professor e poeta, mas também encontra a obstinação de Esperança que mantém no seu bar uma fotografia da casa maldita com o dístico Presos na Vila Algarve, a militância de Atanásio que intenta elaborar a lista das vítimas da Vila Algarve, a vigilância do inspector Mavuze. Ainda, o azul intenso e profundo – das águas e do céu –, as árvores ancestrais, o amarelo caril, a turba ruidosa das ruas, o silêncio e a força das mulheres, os miúdos, os moluenes que atravessavam a rua "esmolando", a violência, a morte, conferem à narrativa o grande poder de se aglutinar: todas as personagens, ambientes, lugares, todas as coisas se ligam de uma ou outra forma na absoluta solidão, característica de um texto interessado em contar uma história e tratar uma problemática. O Incipit dá-nos logo conta daquele programa: Dória chega, numa manhã de “vento insistente”, o vento que é, notoriamente aqui, o palco do abismo, “para cumprir um ciclo de memórias que lhe tombavam nas entranhas”. Dória, o errante, um “sonâmbulo”, um “morto-vivo”, carrega na mochila, e no mais esconso de si, uma “tragédia sufocante”: ter perdido a capacidade de esquecer.

 O homem por dentro “é ele e todos os mortos. É uma sombra desmedida. Encerra em si a vastidão do universo. Agora somos fantasmas, o que construímos não cabe entre as quatro paredes da matéria”, escreveu Raul Brandão; os fantasmas de Dória exigem a expiação; os fantasmas da Vila Algarve gritam contra o esquecimento; os fantasmas são agitação, desespero e impulso das personagens e, por elas, da narrativa. Mavuze foi torturado na Vila Algarve. “Nunca traiu os amigos. Nunca denunciou”. Acreditava que os seus fantasmas o auxiliavam na demanda. Os bons, porque lhe mostravam o caminho, os maus, porque não o deixavam dormir. A vigília do inspector é a vigília humana que é, também, a vigília da escrita, papel que a presente narrativa desempenha com distinção. Relembre-se que já o poeta moçambicano José Craveirinha, que o texto de Francisco Duarte Azevedo não esquece, havia nomeado a casa ardente, no poema titulado, exactamente, Vila Algarve:

Privilégio de alvenaria/adaptado aos menos/loquazes/era ali. //Ou se dizia sim/ou éramos boatados/por uma fuga inexistente//No entanto um típico tremor/quando olho os clássicos azulejos/são os meus joelhos a recordar. //Ainda são vinte e quatro séculos morridos/em duas dezenas de horas de pé:/Graças à tua heroica humildade/não tive de ser boatado/que o Zé Craveirinha/escapuliu.//Devo-te, Maria/no tremor do pânico/manter-me eu mesmo/sem me sentir/um verme.//Só eu/e o portão da nossa vigília/ainda somos relembrados/na memória dos filhos.. (José Craveirinha, in Maria, Caminho, 1998, p..p.159,160)

 Com efeito, o fantasma maior é o que não tem nome, é “pedra e desespero, noite e desespero, que se imobiliza na inutilidade de todos os esforços”, refere o autor de Húmus. Contra a imobilidade, contra o esquecimento, há o esforço das palavras. Por isto, os mortos erguem-se como o vento ergue a poeira, até aos confins da vida. Diz-nos o texto de Francisco Duarte Azevedo:

 - Há gente a viver lá dentro há muitos anos. Não é fácil remover quem lá vive. Não têm para onde ir. [...] Haverá fantasmas. Podes não acreditar, mas eles estão lá: os espíritos das pessoas torturadas que ali morreram. E há quem fale dos corpos que foram enterrados no chão mais profundo da Vila. Vi um tipo dormitando sobre uma laje de cimento encolhida no chão da cave. A mulher disse, é a cova dele. Escuta a voz dos fantasmas que borbulham debaixo da terra. Vi palavras nas paredes e um chão tão belo como um fresco levantino. E a mulher disse, cuidado não passa, pode matar o espírito. E os miúdos assustaram-se. E a mulher disse: não tem medo. (p.p.102, 103)

 Vila Algarve, de Francisco Duarte Azevedo, transporta uma utopia: até Dória que carrega a ternura, a dor, a desgraça e o desespero, tem o sonho estreme da liberdade, e a sua liberdade é encontrar-se. É neste sentido que se pode configurar a asserção de Nietzsche em Epígrafe desta obra: “O perigo de todos os perigos: nada mais ter sentido.”.


 © Teresa Sá Couto

domingo, 23 de novembro de 2014

O Aleph de Mário Sequeira Santos



AREIAS DE LAÍR é o título do primeiro romance de Mário Sequeira Santos, obra lançada neste Novembro com a chancela da Edições Esgotadas. Em dia de aniversário do autor, publico aqui o Prefácio do livro, que tive a honra de escrever. 


O Aleph de Mário

Se todos os lugares da Terra estão no Aleph, ali estarão todas as luminárias, todas as lâmpadas, todas as fontes de luz.

                                                                                                                    Jorge Luís Borges



Há uns anos, navegando erraticamente na web, estanquei num ponto luminoso: um texto raro, de palavras marulhadas em pedras, pedras boleadas pela memória depois poalha no dorso do vento. Aquela luminescência levar-me-ia ao presente cais de assombro, o romance Areias de Laír, primeira obra de Mário Sequeira Santos. A obra «instala um mundo», diz Heidegger, e «ao abrir-se um mundo, todas as coisas adquirem a sua demora e pressa, a sua distância e proximidade, a sua amplidão e estreiteza», acrescenta. Instituindo um mundo, a presente narrativa prolonga o braço e introduz forças sobrenaturais, telúricas, lança mão ao realismo mágico para ocupar vazios, acrescentar universos paralelos, criar infinitos, mostrar que obscuridade e transparência, segredo e revelação são, afinal, faces da mesma moeda, que em tudo há um lado visível e invisível, dando amplitude ao próprio conceito de imaginário.

Na narrativa de Mário, o lugar de Santa Eménia, com o rio Uádi que lhe nutre os campos e se reúne no espelho circular de uma lagoa, é a lente donde se vê o universo amplificado, o ponto onde confluem os tempos, os lugares, as pessoas, a história das demandas; é o Aleph, na inconfundível acepção de Jorge Luís Borges, no conto do mesmo nome, Aleph elevado a Aleph repetindo-se até ao infinito.

O som de uma campainha que estremece o silêncio anuncia ao leitor a entrada na história que, prestes, lhe dá a saber que «Há três dias, São Domingos era, como há cem anos, uma memória parada». Com um presente a remeter para uma memória passada que, por sua vez, remete para outra ainda mais longínqua, evidencia-se a intenção narrativa de levar o leitor numa expedição ao interior do tempo. E o texto sabe que para construir a memória tem de ser errante, saber que executa na perfeição: imbricando as duas grandes sequências narrativas em que assenta; construindo espaços e tempos múltiplos, para uma peregrinação que só se cumpre no infinito; estruturando-se em sucessivas escarpas e nexos que se ocultam por detrás dum enredo fragmentário e aparentemente desconexo, efectivamente desconcertante; desenhando personagens intimamente ligadas, nos desejos, nos gestos, nas vozes, não obstante o tempo que as separa, e cujos nomes vamos sabendo por acaso, no meio dum diálogo, nomeadas por outras personagens, pois o que interessa a este texto é a voz da memória ou, como diz o narrador participante, um marinheiro que vem do mar para subir o rio, em afirmações dirigidas a outra personagem, mas que contêm o desígnio da obra e da sua leitura: «O passado, na minha vida, sempre fora uma espécie de intermitência no presente. Era assim que te seguia, servil, arrastando as patas do cavalo pelo rasto que ias deixando em trilhas que só os teus olhos descobriam parecendo ter a capacidade de desvendar, onde os outros não viam, vestígios antigos de vida ou a dimensão habitada por espíritos de sentimentos passados.».

Texto que não admite fronteiras, Areias de Laír acha no realismo mágico a enunciação certa para derramar a sua luz, criar enigmas, exibir prazeres da imaginação e da leitura.  «As memórias precisam de estímulos e cores para despertarem», diz-nos o texto que vê, ouve e serve de morada a vozes perdidas, sente e idealiza sentires, e propaga. No desempenho deste programa, contempla-se o diálogo de intimidade, secreto, entre as coisas e os seres, em palavras puras, quase sagradas, a interligação entre o mundo dos vivos e dos mortos, que talvez não sejam dois, mas apenas um, com facetas diferentes, personagens espectrais, assombrações, a história enigmática de Fusun, um Turco «que habitara no extremo junto às margens do Uádi», que enfeitiça a terra – prova-a para saber o sabor que lhe falta, tempera-a para ter dela várias colheitas num ano –, peixes maiores que pessoas que habitam o rio tornando-o inavegável, a passagem por baixo do rio, um caminho subterrâneo de simbologia múltipla: o enigma do poço, o abismo de trevas que está em nós, a voragem do Tempo, o território ambíguo dos desejos, o caminho para o desconhecido de uma vida nova. No final da narrativa, liberta-se já não o som de uma campainha, mas do silvo de um comboio onde embarcarão duas personagens. Quiçá, rumarão ao mar… Quanto ao leitor, certamente rumará ao início da narrativa, chamado pela voluptuosidade da escrita, pela ânsia de descobrir outros trilhos da memória, experimentando o sentido da demanda de Ulisses, do poema Ítaca, de Caváfis: o mais importante não é chegar, mas sim a inquietude, o desejo de partir e a experiência da travessia.

«Como as frases, as imagens podem ser histórias do que vemos, ditadas pelos olhos da nossa alma», diz-nos o texto. Pelos olhos da alma, vi, neste aleph de Mário Sequeira Santos, o mastro alto e sábio da Rúbia-no-mar, no cais contíguo de um estaleiro que servia de cemitério de navios. Vi uma garrafa contendo um pergaminho com um mapa e uma morada, vi o amarelo do whisky desmaiar no gelo. Vi pessoas e sombras no tabuleiro de xadrez da vida, vi um planalto de campas, com «pedras dispersas, de diversos tamanhos, geometrias e tonalidades». Vi uma casa em ruínas com frinchas nas paredes donde escorriam segredos, o cinzento desbotado de fotografias antigas, o verde do prado junto à margem do Uádi, o branco das margaridas, o verde da íris de Esmeralda fixar-me, e estremeci. Vi o caranguejo-real atraiçoado pelas correntes «a carregar com a desproporcionalidade das patas uma carapaça sem ideias e, conforme me aproximava, quase lhe pude distinguir os olhos suspensos a fitarem-me, numa partilha de compaixão, antes de se resignarem ao bico das gaivotas». Senti a água «gelada por um quilómetro de trevas», vi a chuva de meteoros, os clarões dos relâmpagos, ouvi o rugido do céu, o ruído das portas, vozes perdidas, o restolho de almas finadas, o canto das cigarras, as patas dos cavalos no empedrado, personagens em cochichos com os bichos, o pio dum casal de corujas, o som pungente de um cravo em diálogo com os gemidos do vento e o chicotear da chuva, o «gotejar ritmado de água na água» e o eco da saudade. Vi a escuridão povoada. Ouvi o gemido das algas. Vi arder a água fria e escura da memória. Vi homens e mulheres tentando equilibrar-se na linha recta das suas solidões, vi-os recolherem-se no ventre acolhedor do tronco largo de uma velha oliveira, «espécie de barco velho ancorado por raízes fossilizadas», e senti-lhes a vontade de se evadirem da sua condição. Vi o espelho assustador das águas do Uádi, porque são assustadores os trilhos que levam o ser humano ao encontro de si mesmo. E vi todos os seres da Terra em areias brilhantes de Laír que a mão do escriba acendeu.


Teresa Sá Couto
Lisboa, Maio de 2014

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Biblioteca Itinerante José Marmelo e Silva



Já aqui falei de José Marmelo e Silva (1911-1991) e da Casa da Cultura José Marmelo e Silva, na freguesia do Paul, local de nascimento do autor. Menciono agora a Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva, em Espinho, onde o autor fixou a sua residência, e a iniciativa de serviço público que nos orgulha. As fotos e o texto que se seguem são da Biblioteca. O agradecimento é todo nosso.



"Com o início do novo ano letivo, a Carrinha Itinerante da Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva faz as delícias de crianças e idosos, percorrendo quilómetros para levar os livros a mais de 7000 pessoas por ano.
A Biblioteca sobre rodas, do concelho de Espinho, atende uma diversidade de público que vive na periferia da cidade, inclusive as escolas que não possuem biblioteca escolar, infantários, lares e centros de dia. Da carrinha saem cerca de 13 189 documentos por empréstimo anual, permitindo, desta forma, fazer o leitor viajar através do contacto com os livros e material multimédia. Este projeto também pretende ser útil para utilizadores com mobilidade reduzida, fazendo chegar os documentos ao domicílio.
Assim, os interessados neste serviço poderão contactar a Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva para mais esclarecimentos, através do telefone 227335869 ou pelo email: bme@cm-espinho.pt.
A partir do dia 7 de outubro, de 2ª a 6ª feira, das 9h00 às 17h00, poderá encontrar a Carrinha Itinerante a circular pelas estradas do concelho de Espinho.".


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Novo livro de poesia de Francisco Duarte Azevedo





Livro de Inverno e Transições é o novo livro de poesia de Francisco Duarte Azevedo, que o próprio apresentou, no passado dia 15 de Janeiro, em Viseu. Como no livro anterior, As Habitações Interrompidas, publicado em 2012, o prefácio é meu. É esse texto que aqui deixo. 








A partitura do tempo no silêncio da palavra

 Já sabíamos
 que na poesia cabem
 todas as cores e todos
 os disfarces. Ou não fosse ela
 feminina. Mas lá 
 também cabem, como agora
 sabemos, todos
 os timbres do solfejo. No corpo
 da poesia há sempre 
 uma partitura. […]

 Albano Martins in A Voz do Olhar


Livro de Inverno e Transições é o segundo andamento de uma trilogia poética que Francisco Duarte Azevedo iniciou em As Habitações Interrompidas, este publicado em 2012, também pela Edições Esgotadas. Produzido em 2005 entre Summit, Newark, New York, Lisboa e Springfield, o presente livro transporta um silêncio ramificado por aqueles espaços, outrossim por caminhos interiores do ser humano. Propõe-se uma «sinfonia escrita na partitura do tempo» regida por um sujeito poético que cumpre uma viagem de auto-conhecimento, reconhecimento e de construção da identidade. 

O tema do Inverno emoldura na perfeição o tempo de recolhimento, de intimismo, aquele em que «Os seres hibernam nas profundezas da terra». Em Livro de Inverno e Transições, o vento gélido empurra o barco pelo rio branco da memória, o sujeito poético aconchega-se na brancura da neve, ata-se «à cadência do tempo embranquecido», deixa-se hipnotizar pelos «movimentos simétricos e gelados» dos átomos níveos, leveda-se na «aragem fria e cortante», procura que o céu de bruma lhe devolva a razão de Ser, lança-se numa viagem iniciática ampliada, modificada e resgatada pelo olhar metafórico e sensitivo. Se Francisco Duarte Azevedo já nos atestava, em As Habitações Interrompidas, a sua competência plástica, que erigiu em imagens inundadas de cor e luz, o poeta/pintor junta-lhe, agora, os timbres do solfejo com que se compõe a sinfonia da vida: unidas, paisagem visual e sonora anunciam a liberdade do sujeito na viagem ao conhecimento da própria vida. Assim, enquanto a palavra asperge luz sobre os dias pardos, o corpo do texto deixa-se invadir pela música fazendo nela mais uma sua casa. Instado a participar na recordação de um trajecto, o sujeito poético revive as experiências pela memória, atrai o leitor para a pauta da viagem onde regista o zunido do vento, o chiar dos ramos plátanos ao sacudirem «a neve dos braços», o estalido das farpas do gelo, «vozes», «gargalhadas», aquela «voz/que nos reconhece /como nós a reconhecemos», o pressentimento dos «passos/passos e mais passos/ensimesmados, meio acordados,/o toque-toque dos tacões», «tábuas rangentes», o «silêncio dos mochos», «o assobio/dos mantos leitosos/esvoaçando/como lençóis à luz», «os cânticos /e as cores dos colibris/ desatados num voo desenfreado», «telefones celulares/e aparelhos ultrassónicos» em busca de «diálogos íntimos/convencionais», o tilintar da porta do Barber Shop que se abre «para uma intimidade/soturna e melancólica», e tudo o que possa ser abarcado no jogo do olhar em volta, olhar com que o sujeito poético interpela a natureza e o ritmo dos corpos rumorejantes que com ele se cruzam e passam a ser parte da sua experiência. 

A «neve» marca o ritmo e a intenção que tecem este livro. Ela representa o tempo branco da memória e a página branca onde os seres deixam as suas pegadas. Ela é «um manto /habitável e delicado» onde «até Deus cabe». Ela é o frio que emite calor. Ela repercute o silêncio, é a fala essencial, pois tudo vem do silêncio e para ele converge. Ela confere energia musical à paisagem, marca a cadência da repetição do tempo e, nessa cadência, ela representa o movimento libertador da viagem a que se propôs o sujeito poético. A repetição cadenciada das anáforas é, ainda, a responsável pela tonalidade profética do futuro, patenteia eternos recomeços, e é uma interpretação do mundo: «Neve. O silêncio repete-se /Há paisagens eternas /onde o vento se acolhe /num silvo agudo e persistente /e a neve adormece./Neve. Repete-se o voo /das mãos vorazes sedutoras /evoluindo sobre a nudez./Neve. Repete-se /a magia da luz /que um silêncio/antigo não nega./Neve. /Repete-se o mundo.». 

Tratando-se de uma poesia que não posterga as outras artes, mas onde todas as artes interagem, onde tudo o que pode ser matéria humana convive, esta lírica ampara-se na estruturação rítmica para conjugar pulsões contrárias, pelo que encontramos, alternados, tons de resignação crepuscular e energia musical no renascimento da voz, esta inscrita a sangue fumegante no gelo branco: «O fôlego momentâneo/ oriundo da miragem/ de fim de inverno prende-se/ aos tons vermelhos/ das nossas lutas militantes/ e à memória das mãos firmes /empunhando as bandeiras /da liberdade e dos nossos /amores re-inventados.». Estamos perante as consequências do «drama do olhar/ que habita no espelho» de duas faces, a que recebe o olhar com amabilidade, e aqueloutra que lhe devolve a inquietação. Jorge Luís Borges disse que há espelhos hospitaleiros e há o pesadelo do espelho, e que «bastam dois espelhos opostos para construir um labirinto»; o silêncio deste Livro de Inverno e Transições posiciona-se no infinito que está no centro do labirinto; é desse centro infinito que nos chegam os acordes de um cravo e de um piano antigos de Scarlatti e Pachelbel, e é dele que emergem os violinos de Debussy; é a imagem desse labirinto a querer mostrar o seu infinito no branco das páginas que nos é sugestionado pela belíssima imagem da capa, uma pintura também de Francisco Duarte Azevedo

No centro do labirinto, «a ansiedade saltita /como os esquilos/frenéticos», o texto poético institui-se como participante de revelações e descobertas, marca o compasso da sua condição: «A noite azul /cobalto sobrevém no céu/e anuncia dias doirados./Entre sono e sonho / permanecemos ansiosos.». É no sonho que a ansiedade procura libertar as suas palavras que se amotinam, encostadas umas às outras, carregadas de memória, ousadas e indagadoras: «buscar uma prova,/um indício teu/no centro da floresta onde paira um sentimento, o murmúrio da água/a harmonia surpreendente/e uma nota musical que/as tuas mãos entrelaçam/entre partituras que esvoaçam/ ao acaso, eis o pedido que faço/ às aves que por aqui passam.». A presença do Tu, um sujeito feminino, sedutor e ambíguo, que carrega a ambiguidade inerente à poesia, surge no movimento de união com o Eu, num pacto de duas vozes viajantes e marca da viagem partilhada: «a pele das árvores/ está cheia de nervuras/ e os ramos frondosos/ amareleceram./ O meu corpo prende-se/ ao teu em busca/de um trilho./ Onde vais tu vou eu,/ simples e claro/ como a ondulação do mar.». 

Somos o obscuro, somos feitos da fugacidade da água, como já o disse Heraclito. Cabe ao poeta encontrar a palavras certas, esses «objectos ocultos/que desvendam os segredos,/ os códigos e os medos» da «mutação do tempo»; cabe à poesia imaginar; pela poesia, os poetas aninham-se e afiam «as palavras/na bigorna dos ferreiros./Elas são as espadas/e os cutelos que tecem/no campo de batalha/as cores da liberdade.». «E dá gozo imaginar», lê-se. E fica o leitor a imaginar o trajecto deste arroio que traz no seu caudal o percurso desde a nascente e que, em transições, se precipita para a foz anunciada do último tomo da trilogia. 


 Teresa Sá Couto
 Lisboa, Novembro de 2013

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Poesia de José Emílio-Nelson

É um pequeno grande livro, anda nas livrarias, contém uma poesia musculada, avassaladora, a poesia de que se precisa. Titula-se Pesa Um Boi Na Minha Língua e é assinado por José Emílio-Nelson, uma das vozes mais originais da poesia portuguesa desde há mais de três décadas. Deixo aqui o texto que elaborei, há largos meses, com a minha leitura do poeta.

(José Emílio-Nelson entre o seu novo título e as duas antologias poéticas que reúnem a sua poesia. Clicar na imagem para aumentar.)


«Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. – E vi que era amarga. – E injuriei-a.», escreveu Arthur Rimbaud (1), nome da vertigem, do desregramento dos sentidos, da transgressão, da procura de um verbo novo que as enfornasse, de uma estética que lhes servisse. Procurar a transgressão na poesia portuguesa contemporânea é encontrar, obrigatoriamente, o nome de José Emílio-Nelson para quem o verbo maldito vê na estética do feio o veículo da libertação. PESA UM BOI NA MINHA LÍNGUA(2) é o título do seu mais recente livro de poesia e mais um andamento dum projecto estético muito próprio, de uma invejável coerência, que desenvolve há 34 anos. Com o título colhido numa expressão do Agamémnon, de Ésquilo, o poeta, todavia, evidenciando o símbolo do boi enquanto animal terreno e sacrificado, imprime-lhe um deslocamento de sentido.

No Agamémnon, o Vigia espera o momento de apertar na sua mão a mão do seu senhor herói regressado de Troia, mas encobre o horror da traição da esposa durante a sua ausência, cala-se, porque «pesa-lhe um boi» na sua língua, i.é., inibe-se, recalca o fardo pesado que não o deixa dormir. O título, Pesa Um Boi Na Minha Língua, é uma engenhosa subversão da expressão de Ésquilo, porquanto solta um boi negro que não é manso nem amansado, que exulta a sua verdadeira natureza intensa e plena para depositar o fardo da sua existência no branco luzente das páginas.

«Porque me amarga a verdade, /quero lançá-la da boca», escreveu Quevedo anunciando os excessos que carregou de sátira e burlesco. José Emílio-Nelson liberta a poesia dos compromissos morais e do estético asséptico para escavar a imperfeição, o inferno humano e a divina comédia da vida, dando-nos a ideia de que os bons sentimentos inviabilizam a inquietação imprescindível ao acto de criar. Já Gomes Leal, em Fim de um Mundo, se arrogava «um cirurgião» que havia de retalhar a escalpelo a «carcaça linda e podre do mundo». A poesia de José Emílio Nelson «ocupa o território tenebroso do feio expressivo, princípio estético da intensidade realista que organiza a experiência existencial», escreve Luís Adriano Carlos na majestosa introdução à antologia A Alegria do Mal – Obra Poética I, 1979-2004, editada em 2004, pela Quasi Edições.

«Esta é uma poesia que assume a agressão ao velho e conformado bom gosto do leitor, levanta os véus, e o que se observa sob os véus são as fibras moles e corrompidas da carne, sem disfarces ou unguentos que mascarem a humana, demasiado humana condição do que decai, se degrada, se corrompe, se extingue», escreve Fernando de Castro Branco, no ensejo da publicação do segundo volume da obra reunida de José Emílio-Nelson, a antologia Ameaçado Vivendo – Obra Poética II, 2005-2009, editada em 2010 pela Edições Afrontamento. Consciente de que a fealdade é o que sobra quando o belo se ausenta, a poesia de José Emílio-Nelson adorna a beleza de sarro, «cospe mísero canto», faz do feio o espaço de exploração e, consequentemente, de conhecimento. No laboratório poético, onde o gesto selvagem e grotesco esgrime liberdade artística, dialoga-se com autores – quer explícita quer implicitamente – da literatura universal de todos os tempos, e dialoga-se com outras artes, como a pintura, escultura, música e fotografia, artes que emprestam o seu gesto à iluminação dos corredores escuros do ser humano.

Na Conversão à luz, as palavras de José Emílio-Nelson surgem como aves «derramadas no seu voo sobre a bruma inquinada», voam em «águas ermas», retêm-se no fundo das águas, e desafiam o leitor com perguntas obscuras, carácter, ainda, de uma poesia de questionamento de si mesma: porquê?, o «Que as retém lá fundo?» (p.10), «que mão desaparece e aparece por dentro de nós? /É mão ainda a que desce sobre os versos? Mão agónica? /Qual mão? /A que mortifica muda e confusa e nos consome? / Ou a que evola Deus?» (p.9); ou, ainda, intercetemos o desígnio desta poesia detendo as chaves do poema Lux Aeterna: «A mão que faz de si um sopro enlaça os dedos e canta. /É a voz de quantos gestos? /Sobre ela se enxerta uma e outra voz que escurece. /Num sítio ermo, bem fundo, /A sua magnificência na vacuidade do Mundo. /E apodera-se dum silêncio que depois clamoroso se repete /E repete belamente a sua escuridão. /Perde-se e relampeja em orlas escuras, /Sulca e assenta, acalmada.» (p. 22). A mão de uma poesia que liberta objectos e seres da aparência comum, que é a artífice da denúncia da desventura terrena, e que enxertando-se de vozes evoca a procura da condição humana, só pode imprimir o Deus humílimo que se liberta da sua condição inumana para habitar o corpo desgraçado do Cristo agonizante da crucificação, o Deus escuro que ressuma nestoutro poema de O Livro de Horas, de Rainer Maria Rilke: «o meu Deus é escuro e como que um tecido /de cem raízes que bebem silenciosas. /Só sei que me levanto assim do seu calor, /e mais não sei, pois todos os meus ramos /repousam lá no fundo e acenam só ao vento» (3), escreveu o poeta alemão aludindo a um Deus que é a «Coisa das coisas», e o poeta a sua «ânfora», o seu «hábito», o seu «ofício»; posto isto, em Pesa Um Boi Na Minha Língua, não será Cristo a resina que se queima nas brasas?, ou dito assim no texto Naveta e Colher: «Do meu escuro Deus cai a luz que O deixa morrer /E que O depõe e O apodrece com roupa purpura, incensado. // Cristo é a naveta? Deus é colher?» (p.11). 

Iluminar o feio é pôr a nu a decadência e a miséria humanas. Sem nos falhar, o texto faz a pergunta e dá a resposta clara: «Como aparece Deus velado ao que perde a nudez esbelta? /Maravilhado.» (p.12). É por esta razão que a nudez de San Sebastián, de El Greco, é profanadora, e é também por isso, e porque aquela dor nos identifica, nos é familiar, que a sua beleza convulsiva nos maravilha e nos fascina: «A devoção encandeia, afadiga-se, alastra até ao amortalhamento./ As flechas mortíferas escoram o corpo vazado. /Detenhamo-nos, sem mais detalhes. /Escorre o óleo santo na nudez profanadora.» (p.54). O Homem é carne, mas também é espírito, e só a sabedoria artística do espírito pode harmonizar a fealdade do mundo em destroços. Acha-se o belo removendo escombros, escreveu o poeta Antonio Porchia, cita-o José Emílio-Nelson

Cumprindo a ideia de que a obra de arte deve devolver o homem a si mesmo, na inteireza vital, espiritual, material e física, a sua poesia adopta um processo análogo ao da fotografia que adquire a sua força deslocando o objecto do seu contexto para o imprimir num outro e novo contexto. O resultado são imagens de espanto e inquietante estranheza. Para José Emílio-Nelson, o ar é uma zona corporal do homem, o que vem ao encontro do defendido por Novalis, de que «O ar é tanto órgão do Homem como o sangue», que «o exterior não é mais do que um interior distribuído» (3). O ar é a casa da voz, onde se dá a luta teimosa entre a efemeridade do ser humano e a infinitude do cosmos; veja-se o poema Cosmic Pulses: «Poisado cone num sopro aspergido /Espirais que derramam /Luminosos teclados turbulentos,/Eixos suspensos num horizonte de obscuridade profunda./Erguem em roldanas o Cosmos.» (p.21), estoutro: «Carrilhões riscam de sinos os mortos./A teimosia dos 6 percussionists de Strasbourg alumia com luz fraca //O caminho que estreita./Acedemos à infinitude a cada momento/ (p. 20), e ainda o poema, Circles Movements: «A Voz soletra o ar de pompa da percussion. A um ermo /Abre e distorce. Cada som ‘perscruta os planaltos’ /Ao excedê-los. Vislumbramos o exumar do Céu.» (pág. 17). O ar do corpo interno também se liberta em burlesco sonoro, como no exemplo do texto Dama Canhão: «A dama move-se, /Nada mal, as nádegas em tacão /Deixam rasto de lagartas /Castrenses, só que a mulher usa pestana escarlate. /O cinto seca-lhe a cintura farta, é seca, /A dama para quem em redor a faz de louca. /(Detona pó sem dó que nem canhão. /Ou serão gases?)» (p.77). 

Por outro lado, «Em divergência com as mitologias literárias, a cosmogonia de Emílio-Nelson começa na urina, a água da vida segundo a tradição medicinal», diz Luís Adriano Carlos. Com efeito, se o «verdete agonizante do metal da alma» se estende às reveladoras «alvíssimas lágrimas», a (outra) água da vida irrompe purgadora no texto Cães: «Vou ser asceta, piedade pela cadela./O chumaço das tetas, vou ser vulgar, lágrimas rosas,/ A arrastar a matilha estouvada que a morde à vez, de joelhos./Cadela em fuga, prostrada nas urinas,/A rezar, julgo eu, a rezar.» (p.51), ou em purificação apolínea, numa viagem a Delfos: «Nas poucas horas que passei em Delfos, /Miniatura do folclore grego, uma mulher rendada /Oferecia os seus olhos cegos poisados na mão com que me tocava. / (A excursão inteira continua atenta ao guia que mal fala.) / Iludindo a mais amada, urinei para os olhos da cega, / Que por isso implorava.» (p.72). Falar do feio é falar do Tempo – tempus edax omnium rerum –, o feroz devorador de todas as coisas até as tragar totalmente; o tempo é «Impiedade» apresentada, por exemplo neste texto: «Com sapatinha de espalhar trampa, chagado. De capuz, carapinhoso. /Agitava-se empoleirado no vinho drogado./ Desfalecido, as pestanas escurecem./ Repousará, tão atroz, outra vez dentro de sua mãe. / Ah, que importa. Jaz Morto.». (p.59). O regresso ao útero materno indicia que, se «O decorrer do tempo ofende a Beleza», o texto também lhe reconhece a capacidade de recomeço, ideia plasmada na Fénix que se regenera: «a fénix aflitíssima mede o tempo justo para repetir as cinzas» (p.49). Nas Metamorfoses, Ovídio apresenta a Fénix rediviva e também a Fénix do poeta latino «Não é de grãos ou de ervas/que vive, mas de lágrimas de incenso e da seiva de amomo.» (4). 
Símbolo da morte e renascimento, também a cobra é chamada ao texto; nela se conjugam metamorfose e erotismo patentes na mulher que se contorce voluptuosamente, confundindo-se com a serpente, metamorfoseando-se na própria serpente, do poema Cobra, a Morbideza: «A mulher que trabalha na morgue vai vomitando. / Enrosca-se cerosa nas gavetas como se fosse dormir /Demasiadas vezes na morte. / (Muda, a cobra escuta-a, /Suspira noutra muda repentina.)» (p.70).

Com admirável rigor, o vasto bestiário está ao serviço do reconhecimento da dimensão infernal da dita vida interior e de um programa poético que nomeia a penitência da lesma, a pomba que martiriza o espírito, o pelicano que «obedece a Deus ao aspergir o seu sangue redentor sobre as crias que mata», o asno com desejos de autoflagelação, a gralha cuja crista é o «abanico de certas almas» ou o cisne, «a soberba que alegra os órgãos genitais de suspiros». As pulsões sexuais, o sadismo e o masoquismo têm terreno fértil na palavra que exprime o subterrâneo, a perversão, o licencioso, pelo que esta poesia não se coíbe na utilização de vocabulário erótico e pornográfico, provocatório e agressor para o qual concorre a atenção sobre os detalhes físicos da violência sexual que compõe a coreografia dramática do discurso corrosivo e satírico; vejamos dois clips: «Assisti a um clip [bondage] em que eram penetrados / Uns tantos pelo corpanzil dum latino que os cobria empenhado /Untando com vaselina nas pálpebras doutro mais alheado. /Consumido nisso, pondo-se a jeito, implora, e é enfiado. / (E sem óleo santo que o salvasse.)»; «O cão cobria-a como pele de raposa, empertigara-se, /A pata rosa abusava, deixava mossa. . / O focinho mordia, ia avançando, encostou-se, / E ao bambolear ela gemia, devia ser mau, /Mais do que no vídeo se ouvia.» (p.74). 

Se na origem da beleza está unicamente a ferida, há pois que isolar as feridas para lhes descobrir o significado, iluminá-las, pelo que cada texto é um espaço infinito e de luz imensa. Neste sentido, a poesia de José Emílio-Nelson é um humanismo, e em muitos dos seus textos ecoa o grito das figuras cruas, delicadas e terríveis, e por isso, de beleza avassaladora, de Alberto Giacometti. Confira-se no texto Mina San José: «Rezo pelos mineiros chilenos. /As almas soltando labaredas de El Greco./Ciclopes à espera de subirem ao céu azul pelos tubos dum órgão de luzes que os ressuscita no sepulcro. //Estes mineiros extraem Deus.» (p. 60). Ainda, o jogo de acasos, imagens e metáforas e hipálages com que se liga o mundo interior ao mundo exterior fazem lembrar a prática surrealista do cadavre-exquis. Veja-se o poema Moeda com que esta poesia paga a experiência da realidade esmagadora: «Numa viela, em cima de cartão prensado, /Senta-se mais engelhada que os trapos. /Raspa com as unhas a cabeça do cão atormentado. /O fundo da garrafa serve de caçarola /E atira para aí as moedas. / (Ferrugentas são peças de coleccionadores.)» (p.84).

A poesia de José Emílio-Nelson não é de fácil leitura. Independentemente de questões de gosto, ela não é acessível ao leitor pouco experimentado. A sua «escrita em mosaico», assim caracterizada por Luís Adriano Carlos, prenhe de deslocamentos de sentido, associações insólitas, movimentos espiralados, vocabulário onde dialogam o erudito e o brejeiro, a dor e a mofa, a inevitabilidade e o recomeço, fazem sacudir um outro novo nervo, outro latejar se impõe, outra releitura se inicia, e a sua poesia nunca está lida. Mas não será este o privilégio da melhor literatura?




notas:

(1) Arthur Rimbaud, Iluminações / Uma Cerveja no Inferno, Assírio&Alvim, 2007, p.117.
(2) José Emílio-Nelson, Pesa um boi na minha língua, Edições Afrontamento,2013.
(3) Rainer Maria Rilke in Poemas, ed.Asa, Lisboa, 2001, tradução de Paulo Quintela, p.84.
(4) Fragmentos de Novalis, Assírio&Alvim, tradução de Rui Chafes, 2000, p.95.
(5) Ovídio, Metamorfoses, Livros Cotovia, tradução de Paulo Farmhouse Alberto, 2007, p.375.

© Teresa Sá Couto

domingo, 22 de dezembro de 2013

As Duas Faces do Dia, de Dora Nunes Gago

Dora Nunes Gago vai lançar novo livro. Trata-se de uma novela que homenageia a malograda Florbela Espanca. Respondendo ao convite da autora, que muito me honrou, escrevi o brevíssimo prefácio. É esse texto que aqui publico, juntamente com o Convite oficial do lançamento da obra.


A voz na dobra do tempo


 Em vão corri mundos, não vos encontrei
 Por vales que fora, por eles voltei.

 António Nobre


Há seis anos, chegava-me por correio um pequeno livro de contos de um autor que desconhecia: Dora Nunes Gago. O título A Sul da Escrita e um golpe de olho ao interior das páginas prometiam histórias de referências históricas e pendor memoralista. A escrita delicada, despretensiosa e envolvente impôs a leitura de um fôlego, para uma experiência que perduraria até hoje, altura em que esta novela a restaura e enriquece. 
No «panteão espiritual» do sul vive agora a voluptuosa princesa desalento, mas Florbela Espanca não vem só: Dora Nunes Gago dá-lhe a opção do passo que ela não deu, do recomeço que ela não ousou, da liberdade que ela sempre quis.

Num puzzle de sintéticas analepses, apresenta-se a vida de duas mulheres, separadas 82 anos, Florbela e Brígida, enjauladas na existência: a uma pesam-lhe memórias de perdas, a outra procura memórias que perdeu, ambas ouvem os relógios ímpios, vigilantes e decisórios, ambas se debatem com o eco das suas identidades, porém enquanto Florbela fixa os olhos na tumular parede branca do quarto, Brígida fixa os olhos nos cortinados brancos, indiciador de destinos distintos. Para conseguir a admirável dramatização, Dora Nunes Gago faz com as suas personagens o que faz o actor: veste-lhes a pele, experiencia-lhes o bater de coração, as alegrias, os arrepios, as quimeras, os cansaços, os espantos, as dores, para que o leitor cheire o que elas cheiram, ouça o que elas ouvem, sinta o que elas sentem, veja o que elas vêem. Este fazer de laboratório é, pois, o responsável pelo intimismo com o leitor, e, consequentemente, pela adesão à leitura. Ainda neste laboratório da escrita, Dora Nunes Gago usa a linguagem de roteiro que dissemina pelo texto como um mapa, com linhas, superfícies, volumes, e a palavra desdobra-se enchendo os espaços com a brisa, o resmalhar do vento, os «rugidos do mar», o chicotear da chuva, o estrondear proceloso, a névoa que se solta dos cigarros, sombras, espectros, personagens bem definidas, e o leitor que, enredado nisto tudo, com o tudo se tatua, de uma tatuagem resistente e colorida. 


 Teresa Sá Couto
 Lisboa, 23 de Agosto de 2013



Texto meu sobre o livro A Sul da Escrita

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

FLY: O enigma da voz

Há muito fora do mercado, porque esgotada, a obra Fly, de Joaquim Pessoa, está finalmente reeditada, altura em que se celebram 30 anos da sua publicação. Com a chancela da Edições Esgotadas, a presente edição, de luxo, com capa dura e sobrecapa, contém cinco trabalhos de ilustração de João Concha e Introdução Crítica minha.  É este texto que aqui disponibilizo.


(Fly, 2013, sobre a edição de 1983; seguem-se as três ilustrações do interior e a ilustração da contracapa)


Apresentação do FLY, de Joaquim Pessoa, no Barreiro. Na imagem, da esquerda para a direita, eu, Joaquim Pessoa, a vice-presidente da Câmara do Barreiro, Teresa Adão (directora da Edições Esgotadas) e Carlos Mendes.


O enigma da voz

É esbelta a sombra, belo o abismo:
Tem cuidado, meu filho, com certas asas
 que roçam O teu coração.

Antonio Gamoneda (1)


Há trinta anos, «Rã Evinha vinha de parir» o filho morto, e trazia a sua casa azul que se movia: evidenciava-se que a mãe inspiração dava à luz a memória com que se edifica a casa da poesia. Hoje, futuro daquele passado e presente do futuro, intersectamo-la no seu contínuo movimento para respirarmos e sentirmos com ela a dor de um dos partos mais belos da literatura portuguesa.

«Estranho Fly», «óptima definição metapoética da poesia, como discurso que parece querer dizer algo e afinal não diz mais do que a necessidade imperiosa de dizer», escreveu Roxana Eminescu, em 1986 (2), em recensão crítica. Editado em 1983, e com a 2.ª edição em 1985, pela Litexa Editora, Fly tem, todavia, a nascente do seu inquietante caudal simbólico em O Livro da Noite (Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores e da Secretaria de Estado da Cultura), editado pela Moraes Editores, em 1981.

O texto de Fly é percorrido por fios, linhas de água, braços de vento, rastos cósmicos num movimento incessante a dar unidade às suas três partes: o reconhecimento do rumor da voz, o trabalho da inspiração – «fêmea tecedeira, branca» – sobre a memória, e a passagem de testemunho. Fly é uma asa afiada que, como lâmina, corta o ar, submerge, transforma, reformula, muda, recupera o tempo da memória, «poro a poro» num «trabalho forçado do pensamento». Por isto, Fly é um «Lume escuro, corvo a corvo, esse livro terrível», é o lume de uma alegria escura, é um lugar íntimo do barro onde o «Boi-sol», «animal da ansiedade», rompe como uma centopeia e agoniza no «vespeiro de palavras», é a «Luz, luz e lâmina, a crina da névoa desce /aos ossos como o futuro, leitura vagarosa, /embrião de próximas estrelas. /Num cálice de nuvens a tempestade estala e atemoriza o coração. //É o touro, a máscara, a lentidão, o peso», assim referido em O Livro da Noite (3). Na prodigiosa capa de João Concha, autor de todas as ilustrações desta edição, e com as chaves do texto, é possível divisarmos o esplêndido Touro símbolo de Zeus, o ajuntador de nuvens essenciais da criação, ou surpreendermos a imponente constelação de Taurus com as suas híades e plêiades urdidoras das chuvas que tombam de nuvens onde adejam pássaros, e que a policromia do preto e branco nos sugestiona serem azuis.
Enquanto no espaço cósmico, Orion, o ufano caçador, desafia Taurus, no texto, a imaginação luta com a poalha branca da memória, «as palavras inúteis são a caça», e o «fogo» sobe cego para a «cara das estrelas».

No «objecto longo da memória», que é Fly, há um homem no umbral lutando com o «vazio atordoado» das mãos, portanto, um homem que transforma as mãos: o umbral a transpor simboliza a saída para a realização poética, para a luz; por sua vez, o vazio é um espaço de liberdade. Estão reunidas, pois, as condições para a fabricação do fogo, da palavra sanguínea «como escuro animal, das últimas sombras de um jardim interior.». Para nascer, o homem tem de romper o invólucro escuro, o «ovo de cansaço» onde se encontra, dobrado sobre si mesmo, ideia plasmada na primeira ilustração do interior, de arte maior. Diz María Zambrano que «nascer, no sentido primário e em todos os outros possíveis sentidos, é constituir-se na autonomia do próprio ser. Portanto, afrontar a luz e o que nela acontece: ver e ser visto para começar. A luz é o lugar da suprema exposição para o homem» (4). Porém, a claridade é uma «flor carnívora», e por isso a verdade virá encoberta por uma névoa espessa que envolve tudo, símbolo da espessura do silêncio poético, que puxa o leitor para o abismo do texto e da sua própria intranquilidade. Desta forma se veicula o enigma da palavra que tem de nascer, porquanto se esconde no mesmo instante que se revela; acresce, como referiu George Bataille, que «não poderíamos imaginar contradição mais obscura, com melhores características para assegurar a desordem dos pensamentos.» (5). A ideia de obscuridade relaciona-se também com a de impossibilidade de realização, e ambas estão patentes no enigma do poço de Bernardo Soares: «Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos – um poço fitando o céu» (6). Contudo, a imaginação é um caminho da água, consequentemente, uma rebeldia, um instinto contra a morte; William Blake escreveu que a Imaginação «é a própria Existência Humana» (7) e, em Fly, o «sangue todo» empenha-se no nascimento da voz, nascimento que exige desnudamento e dor:

Saborear-te os nervos, poço a poço,
ó pedra das moléculas perfeitas; comer
os versos e os ossos, pouco a pouco, Fly, e ler
a carne tenra da flor da amendoeira; in-
comodar-te; e renascer de ti – das
cinzas que deixou a tempestade – , ó luz
que dói de espasmos de ar, por sermos pobres
os dois, ó mãe, ó Fly, e um de nós
ter de parir, nu, no interior da voz.

Sendo a imaginação uma casa – a memória usa a imaginação para lembrar o que não sabe, para despir a dor e o delírio, para recompor o tempo e a distância – há que compreender a casa, os seus corredores fundos, escusos e escuros, há que enfrentar o medo: «para romper a solidão, atrever-se-iam os cardos» em «metros de penetração na morte», «profundidade (da ferida) que nada esclarece mas tudo pressagia», diz-nos texto em busca da fundura insondável, «do fundo ilimitado que antecede a visão e a projecta», segundo Ramos Rosa (8).

Tratando do que se perdeu, a memória intensifica a noção de morte. Daí a centralidade da noite na revelação do ser e das suas impossibilidades: «O calor da noite desenterrava moedas, causava febre, quase fazia espuma na pele martirizada»; a noite desvenda o que a manhã oculta: «a noite moveu raízes de choro que a manhã escondeu» e «uma raiz é também um barco navegando em profundidade até tocar outros dias, outros deuses, outros nadas.»; a noite arrima «a palavra calada de um enforcado até acima, onde o sol não entende»; é na noite que «a água cantara, com voz de mulher» – que podemos ter como a imaginação, a inspiração, a poesia; é na solidão da noite que o vento, esse «aluvião turvo», volta para parir um filho morto. Também a associação «cinza fresca» é um princípio da memória em transformação: «Só o teu corpo me interroga /como cinza fresca». Em Fly diz-se claramente que o que exulta é o que fere, o que desafia, e não o que fascina, o que obedece.

De onde nos vem «este dom de morrer, esta potência /degoladora da dor»?, perguntou Gamoneda (9); «O medo solta /os cavalos do amor e as últimas pombas. /O azul é, decerto, a memória de outro céu profundo // Antes, muito antes do fogo, como arderam as lágrimas?», lê-se em O livro da Noite para em Fly se confirmar a transmutação da dor em prazer estético: «em todos os medos e em todos os tempos, Fly, atingiremos a luz, o orgasmo dos sinos.». Assim, em Fly «o tempo é herói» que enforma o informe acoitando-o no poema, o tempo é «mendigo, pó amarelo, depois chuva ou alecrim, mais tarde um fogo liso como um peixe», e o poema será um «pássaro verde» que poisa na folha branca e assobia «para dentro» ou será «água verde» de um pássaro azul que não sabe fugir do seu voo; uma necessidade também dita assim:

 […] e defendo-me
  da fome que em teu útero me aquece:
a memória dos ossos de onde venho
e que nas feridas do corpo se abastece.

Produto humano, a palavra surge como espelho onde se interroga o mistério de se Ser: «a tua nudez me desabrigou e me fez tiritar diante do meu corpo, como num espelho de água. Ouve-me agora quando ao falar de ti me reconheço». É este «vento de espelhos» que encontramos na segunda ilustração onde pulsa um coração negro e rutilante, embutido numa falésia, com amplas janelas espelhadas, coração que serve de miradouro ao homem.

Se a imaginação é uma casa, a pele da imaginação é o mapa da criação da palavra, um mapa prenhe de caminhos que se percorrem incessantemente, «uma carta na água», um «horóscopo do orvalho», rotas de uma peregrinação e, sobretudo, um mapa com o regresso do outro de nós: «[…] de qualquer modo irei/onde sei que não vou porque estou lá; /cansado de cansar-me ramo a ramo/ (na carne contrafeito, no tempo contradito), /[…] Gostando destes ninhos/onde as palavras pedem alimento».

Atentando no carácter labiríntico e disfuncional do texto, Roxana Eminescu escreveu, na recensão já aqui indicada, que «as palavras parecem soltas, as frases desligadas umas das outras, como um discurso psicopata, um discurso partido por dentro, que parece tornar-se poesia por acaso». Também a euforia e a disforia que presidem ao nascimento da voz dão ao texto o tom de loucura, como se a voz fosse originária de um sujeito demente ou possuído. Será o caso de privilégio divino dos poetas, como o enunciado por Platão: os poetas «não passam de intérpretes dos deuses, sendo possuídos pela divindade, de quem recebem a inspiração», pois o poeta é uma «coisa leve, alada, sagrada, e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão» (9) ; estar possuído e em delírio, «in louco, embriagado, allegro andante /cheio de sangue e chuva, neste quarto /que me azulou os olhos de castanho», palavras com que o sujeito poético se autocaracteriza.

Fly parte de substantivos genesíacos, como água e luz, adeja em sombra e vento, rodopia num jogo inventivo de contradições formantes do enigma, contradições que reflectem a errância humana e criadora e que consubstanciam a própria poesia. Em Fly, a imaginação tortura a água da memória e é dessa água torturada que nasce o grito silencioso do poema. É este grito essencial que nos é exposto, também, na terceira ilustração. Ainda, na ilustração da contracapa, a escada a ligar águas, as do esquecimento – onde estão as recordações –, e as da memória recuperada, as da morte e as da vida, com os degraus à espera que outros os subam em busca da sua própria interioridade, os degraus erguidos pelo texto: «na interpelação de nós outros saberão recomeçar».


Teresa Sá Couto
Lisboa, Outubro de 2013


Notas:
(1) Antonio Gamoneda, Oração Fria, Assírio&Alvim, p.145
(2) Roxana Eminescu, Colóquio Letras número 91, Maio 1986, p.93
(3) Joaquim Pessoa, O Livro da Noite, Moraes Editores, p.16
(4) María Zambrano, O Sonho Criador, Assírio&Alvim, p.p.110-111
(5) George Bataille, As Lágrimas de Eros, Sistema Solar, p.50
(6) Bernardo Soares, O Livro do Desassossego, Assírio&Alvim,p.48
(7) William Blake, Milton, Antígona, p.179
(8) António Ramos Rosa, A Impossibilidade da Construção, JL, 7 de Maio de 1991
(9) Antonio Gamoneda, ob.cit., p.31
(10) Platão, Íon, Inquérito, p.51

terça-feira, 18 de junho de 2013

"O Silêncio" de Maria Quintans

Maria Quintans tem novo livro: O Silêncio será lançado no dia 21 de Junho, às 20.30h, na Pensão Amor, Rua do Alecrim, 19, 1200-292 Lisboa. A apresentação é de Inês Fonseca Santos e Ana Zanatti fará leituras de poemas.



(os cinco livros da hariemuj - clicar para aumentar a imagem)


O Silêncio é o quinto título da pequena editora hariemuj, cinco dedos que mostram o poder de uma mão de quem gosta e sabe fazer livros. Com efeito, o zelo impresso no mais ínfimo pormenor e a força estética do grafismo assumido, desde os últimos 3 títulos, por João Concha, são uma marca inconfundível do carisma da hariemuj. Na escolha dos textos está, também, uma postura própria: escolhe-se a palavra desassombrada, harmoniosa, rebelde, intimista e arejada.

«o silêncio demora muito tempo», lê-se na contracapa de O Silêncio de Maria Quintans, livro com 52 páginas e 33 poemas. O silêncio é um lugar largo, acrescento eu, esperando que este livro encontre o lugar grande do fascínio da leitura.


Nota:
Os livros da editora hariemuj podem ser encontrados nestes locais:
Livraria Barata, Lisboa;  Livraria Ler Devagar, Lx Factory - Lisboa;  Livraria Letra Livre - Lisboa Livraria Pó dos Livros - Lisboa;  Livraria Poetria - Porto;  Miguel de Carvalho, Livreiro Antiquário - Coimbra;  Feira do Livro de Poesia e Banda Desenhada, Soc. Guilherme Cossoul - Lisboa


Ainda sobre Maria Quintans, João Concha e hariemuj, AQUI 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Antonio Gamoneda em Antologia

Titula-se Oração Fria e é a primeira antologia traduzida em língua portuguesa do poeta castelhano Antonio Gamoneda. Acompanhada pelo próprio poeta, a edição, bilingue, tem introdução, tradução e posfácio de João Moita. Um livro indispensável para quem não vive sem poesia.




Depois de Livro Do Frio, considerado por muitos a melhor obra de Gamoneda,  também editado pela Assírio&Alvim, em 1998, com tradução e Nota de José Bento, o novíssimo Oração Fria possibita-nos uma panorâmica da obra de António Gamoneda; «segue a ordenação e a fixação dos textos de Esta Luz – Poesía Reunida (1947-2004), livro publicado em Espanha em 2004 pela Galaxia Gutenberg, com organização do próprio poeta. Foram ainda incluídos cinco poemas do seu último livro, Canción Errónea, publicado em 2012 pela editora Tusquets.»,  esclarece João Moita.

Nascido em Oviedo a 30 de Maio de 1931, Antonio Gamoneda é uma das vozes mais ilustres  da poesia contemporânea. Uma voz artisticamente poderosa, num mesmo hausto, atormentada e crua, canto de errância e cansaço, denunciadora desta "idade do ferro na garganta", idade de perdas de identidade, de desvanecimento de causas e sonhos; uma voz que ouve o "cego rouxinol" e que, como ele, cria  no seu cantar "luz entre a ramagem obscura": "Justifico-me na dor. Não há nada; / não encontro nos meus ossos a cobardia. /Em meu canto inverte-se a agonia; / é um caso de luz incorporada.".  

dois textos:

É um homem. Vai pelo campo.
Escuta o seu coração, como bate,
e, de repente, o homem detém-se
e põe-se a chorar sobre a terra.

Juventude da dor. Cresce a seiva
verde e amarga da primavera.

Para o ocaso vai. Um pássaro
triste canta entre os ramos negros.

Já o homem apenas chora. Intriga-se
com o sabor a morto da sua língua. (p.27)

***

Calo-me, espero
até que a minha paixão
e a minha poesia e a minha esperança
sejam como aquela que anda pela rua;
até que possa ver com os olhos fechados
a dor que já vejo com os olhos abertos. (p.59)







terça-feira, 4 de junho de 2013

Lançamento do novo livro de Joaquim Pessoa

Guardar o Fogo é o novo livro do poeta Joaquim Pessoa. Com a chancela da Edições Esgotadas, o livro será lançado dia 8 de Junho, sábado, às 17h00, na livraria Bulhosa do Campo Grande, em Lisboa. A Apresentação será feita por Maria da Conceição Andrade e Maria Fernanda Navarro, autoras do texto introdutório.


Como o título indica, Guardar o Fogo reúne poemas sobre a natureza da palavra e o laboratório poético de Joaquim Pessoa, e vem responder a um projecto do autor de concentrar num livro a relação do poeta com o ofício enigmático da palavra, a busca do tutano e da textura, os «ossos de uma paciência que persegue o mundo». Neste sentido, o fogo guardado nas 388 páginas é uma libertação de ar para os leitores e estudiosos da poesia, em geral, e da poesia de Joaquim Pessoa, em particular. 
 
Como poeta é sinónimo de desassossego, o autor junta 104 textos inéditos à Antologia que contempla textos desde O Pássaro no Espelho, editado pela Moraes Editores em 1975 até Ano Comum, editado pela Litexa em 2011. Guardar o Fogo é, afinal, «Um mundo de palavras. Língua/que lambe o universo para espanto/da imobilidade das estrelas.», como se lê no texto inédito da página 73.

Transcrevo, ainda, dois textos inéditos:


Poema quadragésimo terceiro

Falo-te do limite do mundo: para lá
das palavras, para lá da fala. Um oceano vazio
é a nossa boca, território atormentado por
uma água seca antes das cerejas e depois do
parto. Cordão que liga o teu tempo
a um tempo universal: da tua voz,
ao canto tremendo das estrelas, fogo
cantando luz.

Luz, e ouro altíssimo: sangue, ideia, ventre, vida. (p.75)


Poema quinquagésimo primeiro

A escrita
foi a terra prometida 

Por ela
as águas se abriram
para que o poeta guiasse
o seu povo de sílabas. (p.83)