
quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
A perdição e a Assírio & Alvim

terça-feira, 10 de Novembro de 2009
Novo livro de Casimiro de Brito

Como o título desvela, e Casimiro de Brito aclara no primeiro belíssimo texto de abertura, esta é a foz poética de um rio que teve a sua nascente nas gotas cristalinas do mestre Lao Zi. Uma viagem longínqua, feita de arrebatamentos e transmutações, como o é a de toda a criação artística. Todavia, o que desagua neste En la vía del maestro é a pureza vocabular a dar conta da torrente subterrânea do ser humano, na sua secreta solidão, do carácter inexorável do tempo, da vida matizada de ganhos e perdas, sonhos e desesperanças, da sábia rendição à Natureza, da voz do amor, motor e legitimação da travessia existencial.
Com agradecimentos a Casimiro de Brito que me facultou o acesso a esta novíssima obra, e à qual regressarei com o olhar que merece, transcrevo dois poemas:
O segredo está na combinação
Do barro e do ar; o segredo,
Nos dedos que envolvem a taça a
Casca do ovo o rio onde se acolhe
A penumbra que deixei pelo caminho.
Assim eu possa buscar o monge mudo,
O princípio desconhecido. (p. 34)
***
Adormeço na praia escura
Ar poluído
Nuvens secas: envelheço. Refreia os desejos,
Diz o mestre. Poucos tenho. A laranja
De som dos meus filhos
Amadurece noutras casas, longe da sabedoria
Que não alcancei. A bondade o conhecimento
Perdem-se na bruma das manhãs no pirilampo
Das noites. Devolvo ao mundo
O barro que me sobra
De tanta escultura falhada. O mestre
Não sabe nada. (p.50)
notas: página de Casimiro de Brito ;
o pnt Literatura tem vindo a editar o Livro de Eros de Casimiro de Brito
© Teresa Sá Couto
sábado, 7 de Novembro de 2009
A inventiva de Patrícia Portela, em exibição
Há mais de uma década que a encenadora Patrícia Portela nos brinda em palco com explosões multidisciplinares, inventivas, irreverentes, inteligentes e singulares. odília ou a história das musas confusas do cérebro é a primeira peça de teatro infanto-juvenil da autora, estreada no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, em Outubro 2006, no Festival Temps d´Images, com visitas a outros pontos do país. O espectáculo volta a palco, no Teatro Aveirense, a 10 e 11 de Novembro, às 10h30 e às 14h30, inserido no Ciclo Arte e Novas Tecnologias. Ver mais, aqui.E «esperar não é nada fácil, é como passar, como se não se passasse nada, é como uma pausa numa música, um intervalo quando tudo o resto continua, como se nos atrasássemos e acontecêssemos sem nós, como se nos desligássemos. É como dormir. Umas vezes espera-se porque se quer, outras é sem querer, mas mesmo que ninguém fale ou lembre disso, mesmo quando se fazem outras coisas, muitas vezes espera-se.
Odília, a musa confusa do cérebro, e Penélope esperam, «as duas, frente ao mar». Odília espera ser inspirada (odília, com minúscula, denomina as musas que «em vez de andarem a inspirar procuram constantemente alguém que as inspire» e «quando se cansam de esperar que a inspiração lhes apareça, partem à procura»), e Penélope espera Ulisses.
Repleto de ilustrações da própria autora, o texto corre vertiginoso, parando a brevíssimos espaços e acontecimentos do quotidiano, em soluços de tempo, onde o cérebro Espera antes de Acontecer, já acontecendo. Um texto para se ler, primeiro, de um fôlego, e reler, depois, escutando os momentos da Espera onde se formam as ideias que desenham as acções que temos.
Odília ou a história das musas confusas do cérebro, Patrícia Portela; Editorial Caminho; Lisboa, 2007
© Teresa Sá Couto
quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Quem é Peter Maynard?
Quem é Peter Maynard, essa personagem que, segundo Matt West, «desfaz mitos com o mesmo escrúpulo com que dispara»? Que personagem é esta, «figura indefinida e fugidia», segundo Dinis Machado, que sabe tudo acerca do leitor, que joga com ele, que o manipula, o agrilhoa num inaudito fascínio, que se dá à perversidade de ajeitar a gravata ao espelho, falar para a cara que vê ao espelho e não revelar essa cara ao leitor, que cata, em vão, qualquer indício da sua aparência física? Peter Maynard é voz, postura, atenção, método, intuição, acção, rigor, ética, sedução, humor, crítica, solidão, sonho e consciência.
(Continuar a ler n' A Phala)
terça-feira, 3 de Novembro de 2009
À espera de Blackpot
Prestes a chegar às livrarias, Blackpot é o original de Dennis McShade (Dinis Machado) que todos esperam. Em pré-publicação, a Orgia Literária editou o capítulo 19, no passado dia 30 de Outubro, um exclusivo que agradeço à Assírio & Alvim e ao José Xavier Ezequiel, grande mentor da edição deste inédito, mas também da reedição da trilogia maynardiana.Capítulo 19
Ornatto massajou a perna durante alguns minutos e depois foi sentar-se no sofá, em frente da televisão. Ficou a olhar para o ecrã do aparelho desligado.
Subitamente, lembrou-se que ainda não tinha almoçado. Levantou-se, dirigiu-se à cozinha e fritou ovos com bacon. A ideia de Victor andava-lhe na cabeça. Matar Armador. Franziu a testa, pensando em como as coisas se complicavam.
Comeu os ovos com bacon com um certo apetite. Quando acabou, foi aquecer o café do balão e bebeu três chávenas. Deitou-se no sofá e esticou a perna. Ainda acabaria por ser amputado. Fechou os olhos e esfregou as pálpebras.
Seria bom que Gulliver telefonasse. Queria falar com Gulliver por causa da ideia de Victor. Lembrou-se de Armador. De como era um excelente jogador de xadrez. Sabia que ele jogava xadrez muitas vezes com Gulliver. Gulliver também era um bom jogador de xadrez. Ornatto nunca percebera como funcionava o xadrez. Preferia ler Samuel Beckett e revistas de banda desenhada. Mas ultimamente procurava apenas o silêncio. Era assim que passava o tempo.
Levantou-se a coxear um pouco e foi limpar a arma. Deixou-a impecável. Tomou comprimidos para a dor na perna. Sentou-se ao pé da mesa do telefone, à espera da chamada de Gulliver. Não sabia o que pensar da ideia de Victor: matar Armador.
Ficou à espera, olhando fixamente o ecrã do televisor desligado.
quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
Zeca Afonso por Viriato Teles

Saudosa tertúlia
Imagine-se o leitor no centro de uma tertúlia onde estão Amália Rodrigues, Baden Powell, Chico Buarque, Atahualpa Yupanqui, Peter Seeger, Sting, Léo Ferre, Juliette Greco, Marcel Marceau e Mário Viegas. Deixe-se o mero exercício de imaginação, porque pode o leitor experimentá-la, bastando tão só aceitar o convite do estratega do encontro: o jornalista Viriato Teles. E o encontro está marcado para Bocas de Cena, local de achamento também do prazer incomensurável da leitura.Se aquela entrevista é a última do livro, a abrir está a do outro nome português: a imperecível Amália Rodrigues. «Quando você quiser conversar e não tiver com quem, venha até cá. Já viu que eu falo muito», disse a diva do nosso Fado a Viriato Teles, na despedida da entrevista feita em 1983, por ocasião do lançamento do disco «Lágrima». Com o título «Humana forma de vida», lá está a Amália que conhecemos e a dar-se a conhecer aos que a desconheciam, porquanto o jornalista regista a forma de estar, os gestos, os esgares, a timidez, as hesitações e a comoção.
M.S.Lourenço e "O Caminho dos Pisões"
É hoje o lançamento do O Caminho dos Pisões, obra reunida de M.S.Lourenço. E que fulgurante está a Assírio &Alvim na abertura do ano editorial.Gostaria de ir ao teu encontro,
Procurar-te na vila, entre as pessoas,
Ou debaixo da magnólia do jardim.
A cascata corre & tu sentas-te a ouvir
Ao acaso as folhas que o vento espalha.
No teu rosto já só vejo ar frio da serra,
As sombras dos que te abrem o caminho
Para que a cor do dia entre no jardim.
Faz com que a angústia nas palavras que usamos
Seja um bom presságio à nossa volta.
Tudo o que é divino é transitório,
Mas não o é em vão.
Nada Brahma, p.48 (livro incluído no O Caminho dos Pisões)
terça-feira, 27 de Outubro de 2009
Poesia reunida de António Osório
Já está nas livrarias o majestoso A Luz Fraterna, que reúne a poesia de António Osório dos últimos 44 anos. São 653 páginas imperdíveis, num belo livro de capa dura, que a Assírio & Alvim dá agora à estampa. Ver aqui. .
Deixo 4 textos:
DESPOJOS
Amarras que se lançam ao fluxo das águas,
despojos, limos espraiados,
cabedelos que chegam e partem com o mar,
surgem os versos.
E tudo de roldão, angústia,
vida e morte, oculto movimento de plantas,
o equinócio do amor, que torna a noite igual ao dia,
a confiança, a luta, a respiração dos homens. (p.23)
***
ENTRAR contigo
dentro das searas
e depois
trigo
sairmos da terra. (p.139)
***
VEJO teus olhos,
queria me convertesses
nesta perseverança de cego
esmoler, à porta do Metro,
dedilhando o seu livro
de bilros, e que não explica
nem vislumbra
a pertinácia irredutível da vida. (p. 143)
***
As Lavadoras
Quase todas são negras, fugidas de Angola. Mulheres novas e raparigas, com fatos de oleado e botas de borracha. De dia e de noite, por turnos, lavam os carros na garagem. Contemplo-as: na sua cor e no seu exílio. Entregam-se àquele duro trabalho, e eu admiro o contacto feminino com a água, o apuro, um rigor efectivo – os carros ficam luminosos como crianças saídas do banho. Ou como versos perfeitamente limpos de toda a dor. (p. 420)
Dom Quixote na aventura do futuro
El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, escrito por Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), está disponível em Portugal numa versão para crianças. Um álbum espantoso, ilustrado com aguarelas expressivas, numa edição de luxo da editora Campo das Letras que reitera a sua aposta no público do futuro.
(a um jovem avô)
quinta-feira, 15 de Outubro de 2009
Myra: o encontro com a inquietação
Este mundo é íngreme. Como tal está cheio de criaturas íngremes. Nosso mister é achatá-lo. É com estas palavras de Luís de Sousa Costa que abre o novo romance Myra de Maria Velho da Costa, e são elas que incitam esta minha leitura.Construído em torno da noção de voz, este romance da autora de Missa In Albis evidencia, também, o carácter dialogal de todo o discurso humano. Myra fala para o cão e pensa para o cão , o cão responde-lhe e aquiesce aos seus pensamentos. Ela não quer ouvir vozes, porque quer seguir em frente, mas não pára de as ouvir. São as vozes das raízes, vindas de longe, murmúrios do mundo que o homem escuta dentro de si e que nunca consegue calar. Myra ouve a voz da família, e benze-se “à russa” no encalço de uma força metafísica, que lhe dá, não conforto, mas ansiedade. Myra é, pois, o lugar onde repercutem as várias vozes do mundo e são elas que dão ao romance uma rima interna fortíssima.
quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
Prémio Leya para João Paulo Borges Coelho
Cega-nos a rotina a tal ponto que só quando agitamos freneticamente os braços como duas ventoinhas na esperança vã de recuperar o equilíbrio perdido à beira do precipício nos apercebemos de que o caminho por onde seguíamos não vai dar a parte alguma. - será a vida um permanente campo de trânsito onde gastamos o tempo a desenvolver estratégias de sobrevivência com que iludimos o quotidiano? É esse um lugar que escolhemos ou é ele que nos escolhe, títeres existenciais? Como se sai de uma «interminável e pestilenta espiral»? O que somos além de cansaço depois de tanto caminho percorrido em vão?
Nascido no Porto, mas naturalizado moçambicano, João Paulo Borges Coelho é um dos grandes nomes da Literatura de Expressão Portuguesa. Depois de «Crónica da Rua 513.2 », título anterior e também editado pela Editorial Caminho, o historiador e escritor traz-nos em «Campo de Trânsito» uma alegoria da condição existencial através da personagem J. Mungau - que pode ser qualquer um de nós -, no chão de Moçambique - como pode ser em qualquer chão onde se deixa o sangue, sendo o chão uma metáfora da caminhada.
Nessa teia de tempos, sem se encaixar em nenhum, Mungau aprende o poder de alguns objectos – nomeadamente da faca que passa a deter e que vai ser um instrumento do destino –, perscruta as relações que o cercam, observa as diversas estratégias de sobrevivência. Para isso, o texto dá-nos uma galeria portentosa de personagens em interacção, com que se constrói o caos existencial: o Professor do Campo e a estranha Mulher do Professor – uma hortelã que vive no seu retalho de horta fustigando o chão com uma mão de dois dedos, uma tenaz, enquanto o marido divulga o conhecimento entre os prisioneiros –, os prisioneiros, os guardas, os feirantes que vão ao Campo uma vez por mês, o Chefe da Aldeia e a filha casadoira - a Desengonçada Garça -, o misterioso Vendedor de Chá.
segunda-feira, 12 de Outubro de 2009
Entrevista a Albano Martins
domingo, 11 de Outubro de 2009
A Lusofonia no desafio da globalização
Língua materna em Portugal e no Brasil, língua oficial em Angola, Cabo verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Moçambique – os PALOP – e Timor-Leste, língua de uso em Macau, Goa, Damão, Diu e Malaca, a Língua Portuguesa é ainda falada nos quatro cantos do mundo onde chega a diáspora lusa. Ainda, e acatando o que defende Eduardo Lourenço, a lusofonia deve incluir a Galiza: «como imaginar o espaço lusófono, e na medida em que ele é o horizonte onde inscrevemos a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, sem incluir nele a Galiza?»Na mesma linha de argumentação, António Guimarães Rodrigues, Reitor da Universidade do Minho, cita Confúcio: «“Se trocar uma laranja com outra pessoa que também possui uma laranja, cada uma fica com uma laranja. Mas, se trocar uma ideia com alguém que também tem uma ideia, então cada um fica com duas ideias”. Trocar opiniões, ideias e interpretações é mais do que trocar informação. E as ideias são diversas. Não se somam de forma conservativa. Constroem e criam novas ideias. A globalização que todos ajudámos e ajudamos a construir não significa o imperativo de nos despojarmos do que nos dá identidade. Antes pelo contrário, no conjunto dos valores e das promessas que nos atraem para a construção de um Mundo global, a diversidade das diferentes identidades funciona como elemento de ligação e garante a sua sustentabilidade.». Assim, sintetiza, «num tempo de globalização, em que o mote é a constituição de redes de conhecimento e cultura, os países lusófonos possuem-na, dela têm consciência, e querem promovê-la e atribuir-lhe um papel efectivo ao serviço do desenvolvimento».
Maria Manuel Baptista, docente na Universidade de Aveiro, lembra que o espaço da lusofonia é um «apetecível mercado de milhões de consumidores», além de que «o Brasil e os outros países lusófonos têm-nos como necessária porta de entrada noutros mercados e culturas ocidentais.». Assim, defende, cabe a Portugal defender o seu património secular, histórico, linguístico e cultural no mundo (…) pretende-se conferir à lusofonia (tal como outrora ao Império) uma lógica predominantemente afectiva e moral: cada parte não pode dar largas ao seu “egoísmo” e deve concorrer para o todo, para o bem comum.».
Se não podemos fugir à globalização, podemos defender-nos da invasão da língua da globalização, antecipando-nos aos seus efeitos, como defende Eduardo Namburete, docente universitário em Moçambique: «levar a cultura lusófona para o Reino Unido, Estados Unidos da América, Nigéria, Burundi, Singapura e outros cantos do mundo, a aposta na difusão internacional da cultura lusófona, através da massificação da produção cultural no nosso espaço de referência, ensino e formação do português deve ser uma estratégia prioritária da lusofonia.».
Comunicação e lusofonia – Para uma abordagem crítica da cultura e dos media; Editorial Campo das Letras, Porto, Dezembro 2006
quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
Sérgio Luís de Carvalho lança novo romance
segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
Os males humanos e a verdade de Brecht
Aqui jaz B.B., limpo, objectivo, mau. Esta era a missiva tumular que Bertolt Brecht confessou gostar de ter na sua sepultura. Mas é também a marca da reflexão dialéctica entre o Bem e o Mal do ser humano, indagado com «verdade concreta» impulsionada por um ideal: desalojar a maldade apesar do apelo – ou devido exactamente a ele – de que só sendo-se mau se domina o mundo; e lutar nessa missão, estreme e intrépido, apesar das desilusões, mesmo que o Epitáfio venha a ser este:Escapei aos tigres /Nutri os percevejos /Fui devorado /Pela mediocridade.As ruas do meu tempo conduziam ao pântano. A linguagem denunciou-me ao carrasco. Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
O que tem fome e te rouba /o último pedaço de pão chama-lo teu inimigo. /Mas não saltas ao pescoço /do teu ladrão que nunca teve fome.
Assim, a ordem é abrir os olhos e agir para haver equilíbrio na luta contra a injustiça que age de olhos bem abertos:
A injustiça avança hoje a passo firme. /Os tiranos fazem planos para dez mil anos. /O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são. /Nenhuma voz além da dos que mandam. /E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo. /Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem: /Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos. /Quem ainda está vivo nunca diga: nunca. /O que é seguro não é seguro. /As coisas não continuarão a ser como são. /Depois de falarem os dominantes /Falarão os dominados. /Quem pois ousa dizer: nunca?
Também a sátira brechtiana é desenrolada até ao cinismo, apesar do exílio do autor, quiçá por isso mesmo, e assume-se sem esconderijos para servir a pedagogia. Próprio de um homem de Teatro, a verosimilhança da mensagem - os comportamentos, situações, pessoas concretas - atinge certeira o leitor ou o espectador, no caso da dramaturgia, porque é a eles que se dirige e é deles que se fala. E os poemas ora olham acutilantes o poder político, ora detêm-se denunciadores na insanidade da guerra:
Todos os dias os ministros dizem ao povo /Como é difícil governar. Sem os ministros /O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima. / Nem um pedaço de carvão sairia das minas /Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda /Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra /Nunca mais haveria guerra. E atrever-se-ia a nascer o sol /Sem a autorização do Führer? /Não é nada provável e se o fosse /Ele nasceria por certo fora do lugar(…)
**
(…)De pé à sua volta à hora de morrer / – Nós todos. /E /Lá estava também a mulher que o dera à luz /E que não disse uma palavra quando o levámos. /Que essa mulher seja estripada! /Amem. /Mas quando o matámos tratámos /De transformar o seu rosto /com as marcas dos nossos punhos. /Assim o tornámos irreconhecível /para não o darem como filho de algum homem. /Fizemo-lo sair do aço. /Trouxemo-lo para a cidade. /Enterrámo-lo sob uma pedra e sob um arco chamado /Arco do Triunfo /que pesa 1.000 quintais para que /O soldado Desconhecido /Não se levante no dia do Juízo Final /E irreconhecível /Mas de novo e para sempre na luz /Não vá diante de Deus /Apontar-nos a nós, os reconhecíveis, /À Justiça.
© Teresa Sá Couto
quinta-feira, 1 de Outubro de 2009
«A Morte de Portugal»
Reflexão sobre nós, num Ensaio de Miguel Real«em nome de um orçamento metafísico e de uma canina imitação do pior da Europa, terão sido eliminados por este os curtos direitos ganhos pelas populações desde o 25 de Abril de 1974 (ter escola na sua terra, ter maternidade na sua terra, ter assistência hospitalar na sua terra, ter dinheiro suficiente para ir ao dentista, ter reforma garantida). É um Portugal solto, desregrado, cheirando alarvemente a dinheiro, os ricos por o terem, os pobres por o desejarem, todos por nas “Índias” o espreitarem, isto é, na mirífica Europa.».
Este é um «ensaiozinho despretensioso e reflexivo de horas nocturnas», no dizer do próprio ensaísta, texto ágil, acutilante, intervencionista, predicados para um prazer incomensurável de leitura, dizemos nós. Em 123 páginas, com Introdução, três capítulos e um Índice Onomástico, Miguel Real consulta 800 anos de política, mentalidades, História da Cultura e História das Ideias para desembocar nas actuais páginas de jornais onde corre a narrativa sobre quem somos e em quem nos estamos a transformar. Sobre o resultado do comando do Estado por «títeres janotas que transfiguram a nobre arte da política numa cinzenta cadeia técnica de raciocínios casuais», «uma nova geração de engenheiros e economistas totalmente desprovida de espírito histórico», escreve o ensaísta:
«Portugal permanecerá, na sua posição relativa face aos países mais ricos da Europa, como se encontra desde o reinado de D. João III, na base da tabela», com um «povo pobre, analfabeto e supersticioso. (…) É o Portugal de D. João III (menos de 30 anos depois de D. João III tínhamos sido condenados à inexistência por Castela), o Portugal do “Nada para que caminhamos” de Marquesa de Alorna, um Portugal merecedor de um Gil Vicente, que infelizmente não o há. É a orgia báquica dos técnicos cinzentos e dos políticos janotas antes da grande derrocada, como aconteceu na segunda metade do século XVI e na passagem entre os séculos XVIII e XIX.». Invocando o nome grande das letras portuguesas que também designa o Dia de Portugal, escreve o ensaísta:
«Camões, de facto, merece ser o símbolo do povo português – homem azarado, poeta pobre, brigão, mulherengo, condenado pelo Estado, perseguido pela igreja, nunca terá frequentado a Universidade (“saber de experiência feito”), migrante do Império, ora aqui, ora acolá, a sua vida, como a de Fernão Mendes Pinto, reproduz a vida dos portugueses que nunca beijaram a sombra do Estado, adversa às elites reitoras do Poder.».
Desenhando os quatros pontos cardiais por que Portugal se tem movimentado na sua História, Miguel Real apresenta quatro complexos culturais. O primeiro, da ORIGEM EXEMPLAR, é o complexo viriatino, que «emerge na segunda metade do século XVI», radicado na imagem de Viriato, «herói impoluto, puro, virtuoso, soldado modelo, chefe guerreiro íntegro, homem simples, pastor humilde que se revolta contra a prepotência do ocupante estrangeiro» que só pela traição é derrotado.
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O segundo, o da NAÇÃO SUPERIOR, o complexo vieirinho, que irrompe depois de D. João III, Alcácer Quibir e a decadência do Império, com o Padre António Vieira a semear a esperança, anunciando-nos o Quinto Império «dourando-nos o futuro com o regresso anunciado às glórias do passado», e que «nos determina a desejarmos mais do que nos pedem as forças e nos exigem as circunstancias, pulsao social que orientou as caravelas portuguesas;»
O terceiro, da NAÇÃO INFERIOR, o complexo pombalino, radicado no ímpeto de Pombal, o da nação humilhada pelo seu atraso e sequiosa das luzes europeias, «hoje acefalamente política dominante do Estado português, que a segue como “bom aluno”.
Por fim, o do CANIBALISMO CULTURAL, o complexo canibalista, «que alimenta o desejo de cada pai de família portuguesa de se tornar súbdito do chefe ou do patrão, “familiar” do Tribunal da Inquisição, sicofanta da Intendência-Geral de Pina Manique, “informador” de qualquer uma das várias polícias políticas, carreirista do Estado, devoto acrítico da Igreja, histrião da claque de um clube de futebol, bisbilhoteiro do interior da casa dos vizinhos, denunciador ao supremo hierárquico», aludindo-se, na actualidade, à «perseguição a funcionários públicos rebeldes pelos poderes partidários instituídos pelo governo de José Sócrates/Cavaco Silva.».
«Se a vitória europeia de Portugal se consumar, terá sido a geração nascida entre 1940 e 1960 a matar D. Sebastião pela segunda vez», diz, sem que, no entanto, antes desafie:
«Resta aos homens de bem virarem as costas a esta nova elite tecnocrática que assaltou e se apoderou do Estado português (..) e, se puderem, emigrarem, clamando que aos homens-técnicos leva-os o Tejo e o Douro nas enxurradas de Inverno, os homens-cultos, esses, permanecem, recriando a nova imagem literária, estética e cultural por que Portugal posteriormente se reverá no espelho da História.».
A Morte de Portugal, Miguel Real; Editorial Campo das Letras, Porto, 2007
© Teresa Sá Couto
sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
David Mourão-Ferreira ou a inscrição da memória
(texto publicado hoje no site Orgia Literária)O tempo é reversível. Pela memória exuma-se um passado tido como perdido. Se a memória é acção, a palavra é a criação que lhe confere sentido: juntas executam o eterno retorno, transfiguram, legitimam o tempo branco, perpetuam-se e perpetuam o seu criador.
Espaço Web de Camilo Pessanha
A Biblioteca Nacional (BN) fez ontem a apresentação pública do sítio Web de Camilo Pessanha. Representante do simbolismo português, o autor deu-nos, num só livro, Clepsidra, uma poética de símbolo, sugestão e música, construídas com ânsia, abulia e sentido de diluição, de inutilidade da vida.Que este novo sítio na Web seja, pois, um incentivo para se revisitar Camilo Pessanha, o «exilado da beleza».
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Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
– Bom dia, companheiro – te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.
É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei…
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.
É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia! … Foi no entanto
Que chorámos a dor de cada um…
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.
in Clepsidra, p.38, Biblioteca Ulisseia, 1987
terça-feira, 22 de Setembro de 2009
A Televisão do share e das elites
Publico este texto em resposta a inúmeros pedidos de sugestões de títulos que analisam o jornalismo em Portugal, e na sequência doutros que tenho aqui trazido.A análise clara, objectiva, contextualizada, bem documentada e bem organizada por capítulos e alíneas norteadoras, são um apelo para a leitura não só por jornalistas, políticos ou investigadores, mas também por «todos os interessados na res pública, incluindo particularmente aqueles que frequentam as escolas secundárias e o ensino superior», como refere, no prefácio, Manuel Pinto, coordenador do projecto Mediascópio e director do CECS – Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho.
Concomitantemente, o espaço televisivo vai sendo tomado por elites, evidenciando-se, também a preferência que os jornalistas lhes dão. Como consequência, refere-se, em 2002 tinha-se um «espaço público pouco diversificado do ponto de vista temático» e com representatividade limitada, que nós reconhecemos por serem “sempre os mesmos a falar das mesmas coisas”. Defende-se que quem é desconhecido da opinião pública, ou não pertence a «instituições centrais onde se exerce o poder político» tem poucas possibilidades de aparecer no ecrã. «Consequentemente, construiu-se no espaço televisivo uma enorme espiral de silêncio que se foi avolumando ao longo dos anos.».
A par da explanação apurada, a autora apresenta quadros sintéticos da programação semanal nos diversos anos, perfil dos convidados, evolução das audiências, quadros comparativos de audiências, oferta e consumo de informação semanal de prime time (por meses, dias e horas), temas de maior sucesso, percentagens de políticos presentes nos programas de informação, entre outras vertentes em análise.
Advoga-se que, nos doze anos, deparamo-nos com o crescimento de programas ditos informativos, um «terreno ambíguo entre informação (que não prestavam) e o entretenimento (que não era explícito, por se tratar de histórias reais e sofridas de pessoas concretas). (…) Os temas, embora pudessem ser integrados no espaço público, eram atravessados por vivências privadas apresentadas por um discurso emotivo ao serviço do espectáculo da palavra através do qual se exibia o ser humano degradante: crimes, escândalos sexuais, negócios de pornografia, etc. ser célebre, neste contexto, significava não ter direito a uma vida privada.». Por outro lado, defende-se, esta «espectacularização do discurso» é uma «forma ilusória de transformar a televisão num meio reparador de injustiças sociais», porquanto representam uma parte ínfima da população.
Refere a autora que este Estudo sobre a TV que temos não permite grandes optimismos. Todavia, apelando à intervenção de todos, lança-se um desafio, que fazemos também nosso: «não nos dêem a televisão que queremos, nós merecemos muito mais».

