quarta-feira, 20 de maio de 2020

Amadeu Baptista: a rebelião da água extrema


Meu rosto nasce desta condição horizontal
de quem tem a cobri-lo todo o seu cansaço (1)
                                                                            Ruy Belo

Corre implacável o curso da impaciência
sob a ofendida
serenidade do poema (2)
                                                              Amadeu Baptista

 

  Nome incontornável da actual poesia portuguesa, Amadeu Baptista celebra em Caudal de Relâmpagos 35 anos de energia artística irascível, torrencial, pulsional, mordaz, desassombrada e apaixonada, testemunhal e secreta, plenamente comprometida com o seu tempo.  Editado pela Edições Esgotadas, em 2017, Caudal de Relâmpagos colige poemas selecionados pelo autor, originários de livros seus ou publicações avulsas, dispostos cronologicamente, de 1982 a 2017, para 476 páginas de “sombras calcinadas”, vibração intensiva, “ventanias densas” e fulgor incomensurável gerado na atração entre cargas positivas e negativas, como as que consubstanciam os relâmpagos, e cuja radicalidade discursiva poder-se-á medir pelas cicatrizes, cinzas e precipícios que os poemas exibem: “és assim a maldição e a bênção, o encanto e o desencanto, /a luz que avança e não avança no meu quarto /e me enche o espírito de negrume, /incita a soltar as cinzas, montar acampamento, velar por ti.”


Logo em 1982, em As Passagens Secretas, depara-se o leitor com a imensidão das praias para a infinitude do verbo, o fazer poético como concha que é preciso descascar, a brandura que é preciso revolver, a memória que é preciso perseguir e, na ruptura  súbita do último verso do poema que aqui se transcreve , o presente que é preciso questionar. Confira-se:

"Escrevo algumas vezes pelas praias. // Recolho seixos, pequenas coisas, algas /que me fazem lembrar uma outra infância / que respirei algures num outro mar. // Palavras lisas, vocábulos minúsculos, bruma, /são búzios que manejo nos poemas, /descasco, abro / como súbita concha, / ou súbita mulher de seios brandos. // Duas ou três gaivotas, um navio lá longe, / o mar que enrola na areia / – canções que cantei quando menino –, // escrevo mansa, torrencial, apaziguadamente, / desperto pela brisa, / a espuma branca, / os lábios que há nas ondas. // Às vezes / pelas praias / reconheço // que pago muito pouco pela água. “. 


Evidenciava-se a rebelião do mar poético, o troado emitido pelo búzio, o voo pelos precipícios, anunciava-se a instabilidade, o relâmpago, o fogo a rasgar a água genesíaca, pleno nas suas energias contrárias, o caminho pelas trevas à procura do núcleo do turbilhão onde a desordem se organiza, adivinhava-se o torvelinho nos seus múltiplos rostos, marca iniludível da poética de Amadeu Baptista expresso assim, no poema Metamorfose e Massacre, do livro O Sossego da Luz, de 1989:

“[...] A sombra revela o significado oculto desse ritual /que o fogo / acumula no obscuro sinal de uma ruína sem nome. // Chamam-lhe escrita, outros preferem nomeá-la /como infinito / exercício de adivinhação, dizem-na outros arte, / enigma redentor a que se entregam os que crescem / para o abismo e perturbam as trevas. // Recompensa  ou castigo, eis o que obstina. [...]”. 


Escreveu Walt Whitman :“Ostensivo sol , não preciso do teu calor – afasta-te! /Tu iluminas só as superfícies , eu penetro as superfícies e as profundidades.”(3). Em Amadeu Baptista, “o destino aniquila” e propaga-se no poema “como um grito”,  procura o sobressalto de um nome, da palavra indecifrável, obsessiva, que é “rumor”, “tumulto”, “rebelião”, “animal rastejante” metamorfoseado em ave, em “pássaros negros”; a palavra espera colher “a luz do apaziguamento”, mas “nenhum resgate”, “nenhuma árvore” no deserto, somente “sílabas frágeis” resistem “no campo solitário, guerreiro, cego aguardando o sinal / para abater ou ser abatido, em nome da maldição e do esquecimento”. O método desta busca poética é claro: há que encher os pulmões e aspirar a dor “para que a sarça amplie sobre a noite” a luz dos elementos que se respiram: “o ar, o fogo, a terra, a água, a água exausta”. Sim, é de “água exausta” que aqui se fala, mas não água derrotada, tampouco resignada, antes água amotinada, inconformista e revoltada que busca uma língua nova para reivindicar o seu  lugar no mundo, ainda no sentido do que nos diz Walt Whitman: “Sou o poeta do Corpo e sou o poeta da Alma, / As aventuras do Céu estão em mim e as penas do Inferno estão em mim, / As primeiras enxerto e reforço em mim mesmo, as últimas traduzo para uma nova língua.”(4). Atente-se a todas estas pegadas, por exemplo, no poema Kefiah, de 1988:


“[...] Procuras um nome, procuras a solidão de um rosto, uma árvore, procuras o arquipélago alucinado / de uma palavra inscrita no lume das tuas mãos; / procuras a tenacidade do sangue, o amor fortalecido / pela proximidade do perigo, o preço da verdade / que germina no vaso sagrado dos que viajam /com a bagagem restrita dos que procuram, mas a quem ninguém responde. // O solitário não renuncia à solidão quando procura, o solitário / conhece a respiração do chacal no refúgio da noite, acende contra os lobos / o fogo da salvação, pela solidariedade do silêncio; /o solitário é o que contempla a renúncia de uma palavra na limpidez /da página e ama a solidão com a imparcialidade / de quem acusa os que se imobilizam na cisão dos enigmas – / a dor comprometeu definitivamente a vida, não há salvação possível, o resplendor estaca / no bloco calcinado dessa água que arde; a rede /de dúvidas que poderia estancar o caudal de protestos que nos corre nas veias , a grade de frio que ocupa os pensamentos, o ardor / visível nos nossos olhos, não responde às nossas perguntas antiquíssimas, a herança de choro / que nos foi legada pelo desejo e pela ansiedade: / o conflito está aberto, ó desalento, o abandono é a ave de incredulidade que nos esmaga os crânios, o açor /que nos eleva do abismo e nos larga do cume da montanha para que voltemos ao pó, ao pânico da queda, à força de impacto no solo, / como se transportássemos nos ombros todo o peso do mundo, a realidade, / aterradora que inebria e ilude. [...]”.


Na segunda estrofe do poema Uma imagem divina, de Gastão Cruz, lê-se que “a roupa do homem é em ferro forjada, /a forma do homem é uma forja acesa, / a face do homem um forno selado, / o coração a fornalha a arder”(5), numa alusão à jornada penosa do fazer poético, que Amadeu Baptista cumpre com frémito inigualável – não raras vezes, a palavra parece libertar-se do seu arquitecto para se assumir como um ser autónomo, de respiração livre e imprevisível, o que lhe confere um sentido de estranheza na mesma medida de magia.  No poema “Carta de Atenas”, do livro Arte do Regresso, de 1997, lê-se: “O eco subverte o clarão no horizonte / quando a pira está pronta para o sacrifício. A inquietação é agora a minha alma.”. Acrescente-se: “Pelo meu nome a cinza é um ser vivente” e invoque-se a propósito a conhecida formulação Novalis de que “toda a cinza  é pólen”, porquanto as cinzas desta poética espargem-se sobre todas as coisas onde o olhar se detém, e delas renascem as coisas transformadas. 


Na fornalha, o coração  “Sonda o terrível. No reverso de um verso /encontra o Fluxo e refluxo da fogueira”; na forja,  “com as mãos carregadas de veneno” e “rancor aberto”, soldam-se os ferros como se fossem ossos ou dito assim no poema que se solta a partir de Francis Bacon: Study For  Crouching Nude, do livro Doze Cantos do Mundo, de 2009: “No osso inciso, / na grande obra incompleta, / sou uma válvula de vácuo /e um transístor, / a desfragmentação / e o cromatismo / que resiste à vileza / e vê no crime / o imparável modo de estar vivo, / a aprofundar a refrega dos subúrbios, /como arte, /dissipação, /incandescência. // E os ferros progridem /sobre a minha cabeça, / e não creio //  – quem sou já pouco importa /porque os cães estão em todo o lado, / e devoram as casas, / e sobem aos telhados para devorar / os livros, / e, nas jaulas, /amontoam cadáveres, / instantes peregrinos / com cabeça de rádio / e desorbitados olhos / pelo terror do urânio, / as múltiplas engrenagens.[ ...]”.


 Tratando-se de uma poesia de “múltiplas engrenagens”, e cuja rebelião não deixa nada intacto, não hesita no  diálogo com outras artes, como o encetado com a pintura e a música: Van Gogh, Gauguin , Piero Della Francesca, Caravagio, Mark Rothko, entre outros,  outrossim Handel, Brahms, Camille Saint-Seans, Beethoven, Mendelssohn, Mozart, Strauss, Massenet, Verdi, Schumann, Franz Von Suppe, Bach, Tchaikovsky, Billie Holiday ou Leonard Cohen são chamados para a bigorna verbal, num impulso de écfrase que se insere na procura da representação do irrepresentável; em ambas as linguagens, o poeta vai ao centro negro, gritante, do remoinho, escava-o com a sua solidão e “olhos amargos” para, na página, dar a ver ao seu leitor como ele viu, ouviu e sentiu. A transfiguração do objecto visual ou auditivo surge assim No poema Caravaggio, Um Esboço, de Desenho de Luzes, 1997:

“[...] Neste lado do mundo pouco espero /ou só aguardo um tempo em que o génio /possa subtrair outra palavra para poder ampliar /a noite com uma outra emboscada, um outro golpe / sobre o que advém da eternidade e se consuma enfim / na prega de um vestido, uma janela aberta, o intenso vigor / de um homem que passa carregado de pão e de tristeza. [...]” ou no poema “Mozart: Intróito, do Requiem”, de O Bosque Cintilante, 2007: “É uma das consequências de ser forasteiro / e deixarmos para trás quem não nos pode perdoar. / Fechamo-nos em casa e acendemos o fogão / sem que mais nada passe de uma emoção, uma dor  / ilegítima. Adeus, então. Confinamos todas as coisas / ao enfraquecimento do abandono, à janela / que desce à desolação de um caixilho / onde nenhuma paisagem se fixa, nenhuma luz. / E aí permanecemos, sozinhos, com a morte / subir-nos pelo braço direito e a paralisar-nos / o dedo indicador. [...]”. 


O real como testemunho e compromisso 


O programa poético de Amadeu Baptista encontra no real uma outra forma de presença. Poesia onde não há absolvição, o verbo deambula pelos lugares  e encontra motivos que soltem o poema em todo o lado, cria “as condições para que o abismo funcione”, dito assim em Sal Negro, de 2003: “escrevo o que me ditas, /a errância, / a visão, /e o livro vai-se enchendo // de frases inauditas, / por isso me sorris / sabendo que o mistério / é uma transgressão // que não sabemos como / às vezes aqui vem / estremecer-nos, // escrevo / o que vacila / e sem hesitação // há-de matar-nos.”. No real, que o poeta apreende, desfoca, e recria com  estranhamento discursivo, prefigura-se a revolta, o que vai ao encontro da asserção de Novalis:  “O mundo é o resultado de um acordo infinito e a nossa própria pluralidade interior é o fundamento da nossa concepção do mundo” (6). Trata-se, pois, de estar no mundo e actuar sobre ele na busca essencial do ser pleno, enquanto indivíduo e na relação com o outro; o conceito de testemunho incorpora a problemática de que o eu faz parte do centro de outras vidas de cujas circunstâncias partilha e é nesta reciprocidade  que o eu se legitima. Enquanto expressão de sondagem interior que se abre pela metamorfose do eu em outros, o eu está junto dos pobres da sua cidade, com simpatia pelos humilhados e ofendidos de quem se sente irmão, anota-lhes a desgraça e a miséria, está junto dos exilados, dos marginalizados, dos incompreendidos, dos desterrados que foram em busca de pão, dos oprimidos que são capacho de poderes políticos, está no centro do torvelinho, na Síria, em testemunho e compromisso de falar aos e pelos que fogem da ignomínia das balas, despersonalizando-se, sendo eles e as vozes deles sendo a sua. Vejam-se exemplos do poema longo, enformado em 42 andamentos , O Arco Sírio, 2016:


“[...] A ruína rodeia-nos, sitia-nos. / Não há o que beber, a tiracolo / levamos um cantil cheio de sede / que não há como encher, / nestes caminhos de terra e de poeira. /Aos milhares, partimos de Damasco, / num êxodo infinito e sem escolha. / No céu não há estrelas, nenhum brilho. / Sob os pés há só escorpiões, o pesadelo / de uma lenta agonia a apavorar-nos. // [...] Há um poeta que nos acompanha. / Veio dizer-nos que só conhecemos a tristeza /e que nos acossa o apocalipse, / esta  desolação do mar em que morremos. / As balas são só o silêncio ao largo /da Turquia, um vendaval de justos /que morrem afogados, com os olhos / abertos e as mãos fechadas /sobre a terrífica dimensão do sacrifício. // [...] Diz o poeta, ´Chegou a hora de praguejar em vez /de permanecer em silêncio. Chegou a hora /de perguntar para que serve cantar, / o que é esse júbilo para os que o martírio encontra. /Chegou a hora de invectivar as palavras, /de questionar as sílabas amadas, de inquirir o lodo /em que os nossos mortos se afundam.[...]”. 


Se a incorporação da realidade mostra a experiência do mundo, o discurso de revolta edifica-se em vertigem avassaladora que faz o poema exprimir-se em extremos. Notem-se as 14 partes do poema Negrume, e as 8 partes do poema de As Recriminações, de 2006, onde encontramos reminiscências do canto febril, exaltado,  eufórico e delirante  de Álvaro de Campos, o indisciplinado da sensação, heterónimo de Fernando Pessoa, no qual se detecta uma força centrífuga, que leva o sujeito poético a desejar materializar-se nas máquinas, e uma força centrípeta,  que leva as máquinas a serem humanizadas; também em Amadeu Baptista, o delírio é lúcido, a atitude transbordante evidencia a manifestação de uma crise civilizacional, o excesso violento das sensações são gritos de denúncia,  a vibração intensiva dos poemas faz desta máquina poética  a propulsora de conteúdos novos e sempre livres. Confira-se, da parte 6 de Negrume:

 “[...] vem alguém e entorna leite no chão da cozinha, /um homem vocifera e ergue-se com uma corda ao pescoço / e uma faca na mão, volto a repetir: caralho, caralho, caralho, / passa um carro na rua a buzinar estridentemente e acordo, num sobressalto terrível. // depois, tudo é silencio avassalador. há passos surdos no corredor / contíguo ao meu quarto, oiço um alfinete cair, a mãe gemer. /a cama range, o pai volta-se nos lençóis, para outro lado, / outra direcção atroz. // a casa está submersa num silêncio sólido, irreparável. / estou muito só e tenho frio, embora esteja um calor abrasador. /ouve-se um cântico ao longe. o som de asas a roçar nas paredes. /digo: caralho, caralho, caralho, num sussurro infinito, até perder o fôlego.”. 


Se a busca de um olhar capaz de transfigurar a realidade dá espessura ao poema, ao mesmo tempo procura-se a cumplicidade com o leitor que poderá identificar as questões como suas. Para tal concorre a formulação mais narrativa, o verso em contaminação com a prosa. E o poema escorre no desejo de um mundo habitável com dignidade, mas só encontra o presente errado e um futuro ausente:

 “[...]Vamos pela cidade e todos estão mortos, / morreram uns por inanidade, / outros por decepção, / outros por fantasia, / outros porque preferiram suicidar-se a suportar isto / - só a menina nua da avenida dos Aliados / sorri com os braços apoiados num plinto / de cujas faces quatro mascarões lançam água para um tanque, / vejo-a há cinquenta e sete anos como se visse um sonho, / estarei morto e será ela, ainda, o meu fascínio [...], lê-se em O Ano da Morte de José Saramago, 2010.


“Ah ninguém sabe / como ainda és possível poesia / neste país onde nunca ninguém viu / aquele grande dia diferente”, escreveu Ruy Belo no poema “Desencanto dos Dias” (7) ;  este é um país “de luto fundo, intenso, cerrado / como o de todos os órfãos  e de todas as viúvas, / como o de todos os poetas e de todos os poemas”, diz-nos Amadeu Baptista, num dizer fremente, que é também o grito de uma geração como o que se encontra no poema titulado, precisamente, “Última Geração”, de 1987: 

“[...] Dai-nos o vómito, Senhor, o vómito / carregado de fel da nossa vida violenta, do nosso amor violento, / da nossa esperança violenta e violentada /pelo preço de um pão e o suor agónico da nossa face. // Recorremos a Ti, Senhor, neste páramo de ódios, / para que nos dês o alívio do vómito letal do nosso desespero / esta amargura carregada de amargura / que nos lançaram sobre os ombros e tem o peso do mundo. [...] // Dai-nos o nojo, Senhor, essa flor infecta, sanguinolenta e suja/ que há-de desabrochar das nossas dores // em tua glória // e em nome do asco a que fomos submetidos.”.


A vivência criadora da realidade resgata e integra a adolescência “anfíbia” do poeta. Tudo volteia, ilumina-se o despenhadeiro dos possíveis sonhos interrompidos e a busca transforma-se em jogo: “Procuro um texto impossível, / um outro caminho para a salvação.” diz-nos o poeta em  Arte do Regresso, 1997. Há que descobrir a unidade da infância, a madre intelectual da gestação, desvendar a raiz, a que despontou para encarnar uma aspiração: “Aprendo a ler e a escrever, /quer dizer, /aprendo a sentir com mais força /a desobediência.”, lê-se; há que ir ao tempo original  para lhe restituir a sua verdadeira identidade mesmo que a viagem seja por uma torrente de angústia que soltará uma enérgica gargalhada: lê-se em Açougue, 2012:  

“Logo no primeiro ano /estou  só / e não me consigo manter de pé. // Se suspeitasse sequer / que iria ser assim para toda a vida / não me riria // com estas gargalhadas / cristalinas. “. 


“Vejo-me um homem calado, vejo assim os poetas, / vemo-nos como homens calados que não podem estar calados, / ou que estão cegos e não podem estar cegos, / ou que não podem deixar de deambular na cidade, / porque há uma pedra a levantar do chão, / um povo a levantar, / uma infância a levantar”, escreveu Amadeu Baptista, em O Ano da Morte de José Saramago, 2010, enunciando alguns dos fios robustos com que se tece a sua obra e assumindo um compromisso com o seu leitor.  E ficamos, nós, os seus leitores,  a pensar que das  “cinco pedrinhas” com que Ruy Belo fazia o poema – “desalento”, “prostração”, “desolação”, “desânimo” e “desistência” – apenas a última não é admitida ao autor de Caudal de Relâmpagos ou, se porventura o nome desistência passar a habitar o poema, que o seja com o estrondo cósmico e a luz indomável a que ele já nos habituou.



© Teresa Sá Cout


Notas:

(1) Ruy Belo, Todos os Poemas, V.I, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, p.165

(2) Amadeu Baptista, Caudal de Relâmpagos, Edições Esgotadas, 2017, p. 31

(3) Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo, tradução de José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011, p. 111

(4) Walt Whitman, ob. cit., p.91

(5) Gastão Cruz, Poemas Reunidos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999, p.238

(6) Fragmentos de Novalis, selecção, tradução e desenhos de Rui Chafes, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000, p.133

(7) Ruy Belo, ob. cit., p.272

 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Jorge Velhote: O olhar desagregador








Assim respira /a mão /enquanto escreve: mancha //
                                                              ensaiando /o espasmo, aguda //nota, ponto / desfeito.


José Carlos Soares (1)



                                                        É inesgotável o ar que as palavras essenciais produzem

Jorge Velhote (2)



Em Coisas Mínimas & Outras Coisas, título de 2017, Jorge Velhote reúne poemas e fotografias da sua autoria em diálogo raro, enigmático e cúmplice.  Se “luz” e “sangue” são substantivos genesíacos que deflagram a “voz” desta poética e da poética deste “olhar”, o verbo revela a capacidade desagregadora da linguagem, o  que se insere num percurso de busca de um dizer sempre novo e de um olhar inusual a urdir um mapa de possibilidades inesgotáveis. Acresce que, enquanto objecto, Coisas Mínimas & Outras Coisas é um altar do Belo: páginas longas, rectangulares, papel de alta gramagem sensível ao tacto, fotografias a toda a página, capa dura forrada a tecido cru com o título e o nome do autor gravado singelamente a negro; é a face de quem gosta de fazer livros infelizmente arredados do grande público porque fora dos circuitos comerciais. 

Nada aqui é de entendimento imediato; o verbo dentro do sangue desta poesia de palavras e fotografias é o verbo indagar. Nada aqui está ao acaso. A abrir, depara-se o leitor com o fundo negro e uma fractura no negro:  nervuras de luz assomam, insones, por uma portada a dizer-nos que é no escuro queo sangue embrulha a densidade da alma”, é na correnteza de águas profundas que se encontra a luz da palavra oculta, pronunciado já assim por Jorge Velhote no seu livro Os Mapas sem fronteiras sufocam os lugares: “Leio o que os meus olhos vêem, o laço de sangue que os dedos suportam, a sua voz é um grito /no rumor da minha respiração”. O olhar nas fotografias persegue o mesmo escopo. “Entras na sombra como mensagem”,  diz o texto a apresentar a chave da sua laboração e a assumir a virtualidade do sentido, a desafiar o leitor para múltiplas interpretações: na imagem do Cristo Crucificado,  “um homem antigo como um clarão”, iluminado na sua dimensão humana, dividido pela luz e sombra, com o rosto pendente mergulhado na zona escura, pois “aquilo que ilumina fica sempre na sombra” (3), numa formulação de Edgar Morin, como que  “rasurando o sangue” para escutar “pequenas coisas impronunciadas” ou, noutra fotografia,  a silhueta de uma gaivota que debate o voo na zona escurecida paralela à estrada que a luz desenha sobre o mar; o texto confirmá-lo-á num desenho assim:

Há um excesso de luz zunindo húmida, indagando sob as ruínas

do céu o seu esplendor atónito. É como um eco

entreabrindo a pele com que cobrimos

os mortos de passagem.

Ou devolvemos à chuva a sua geometria ácida.[...]



Já o referi, a propósito de Âmago, livro publicado em 2019, que a máquina poética de Jorge Velhote inscreve-se na linha da auscultação da palavra, no caminho da busca do silêncio intacto.  A voz da linguagem procura a palavra para habitar, um espelho onde se plasmar, mas só encontra a palavra inominável, o eco da origem e “um silêncio de espelhos carbonizados”;  a voz que surge em presença a desvelar uma ausência é uma “chaga”, “frenesim”, uma “canção”, um “sudário”, “quase sopro em declínio”. E o poema questiona: “será isso a luz?”, questiona porque interpela os seus limites, e só pode questionar, porquanto sabe que a sua missão é essa. Confira-se com as palavras todas no lugar certo:

Um silêncio de espelhos carbonizados

Uma chaga propagando a fértil irrisão da morte.

Um frenesim de formigas e cotovias tristes

convocando a cegueira sobre as margens –

canção que humedece nos teus lábios como urtigas – ,


sudário de agulhas ávidas

cravando as unhas

nos teus bolsos –


O que se extingue no rumor das moradas

em uníssono – quase sopro em declínio?


na deriva ou infinitude anunciada?


decompondo apenas o negrume

nos seus orifícios e raízes


– será isso a luz?

A voz da origem é movimento e a voz poética sabe que para a capturar tem de se mover com ela: "Vou com as sementes pelo interior da luz. Vou com as folhas, /com o vento", já escrevia o poeta em 1983, no livro Os Sinais Próximos da Certeza, com a certeza de que o caminho que então iniciava jamais terminaria. Na persecução da tarefa inesgotável, Jorge Velhote imprime à sua voz deslocações constantes: na forja poética a carne da palavra é inquirida, sujeita à desagregação, liquefeita até ao osso; na bigorna, a palavra é amansada e libertada, metaforizada, metamorfoseada com Labor limae verso a verso, poema a poema, livro a livro; por isto a palavra poética é constante e inevitavelmente o “ponto desfeito” aludido por José Carlos Soares, na citação em epígrafe; noutro poema, José Carlos Soares diz que a linguagem poética  “Não é segredo, é / interpretação, voo / e casa, //provação”: é a provação, a ausência, o sentido de falta que impele a busca. A espessura discursiva e a aparente opacidade da poesia de Jorge Velhote advém da condição de um texto que obriga o leitor a estar atento e a tornar-se sensível à linguagem poética que tem perante si, um texto que obriga o leitor ao diálogo. Na tarefa inesgotável de actualização da palavra,  o poeta segue com as "mãos cheias da terra" e com tudo o que tem – e quer isto dizer que esta poesia é também o registo de uma experiência de vida, a meditação de quem habita e como habita o mundo  : o sangue, o corpo, a memória , os encontros e desencontros, as conquistas e as perdas, a dor, a solidão, a agonia, o sacrifício da jornada; também aqui é inevitável o diálogo com a fotografia que mostra parte da estrutura em madeira de uma janela que o tempo puiu – uma janela dá para o infinito, como referiria Baudelaire no poema Le Gouffre , janela que Jorge Velhote fotografa do lado de dentro, onde está a intimidade, onde está o turbilhão e o abismo, imagem interrompida por um ferro – dito assim porque o objecto grita a sua memória da forja – de ponta enrolada a lembrar um ceptro, como que a aludir que o ceptro desta poesia é de agonia enrolada sobre si mesma, que escava a memória, incansável e infinitamente, para se libertar na voz que a reverbere, para habitar na cal, mesmo que transitoriamente, ou dito assim:

O que se observa na brisa ou na espuma simples de um desenho

que se perde na combustão do olhar começa contido nas arestas

que florescem nos dedos que limitam o corpo, nessa deslocação

suspendes a intimidade como se atravessasses um jardim.

Definisses qual o ângulo puro da ausência. Uma medida trazida

pelo alento de uma voz inacabada. Um murmúrio entoando

secreto a simetria de uma sombra perfeita como os lábios de

um coral. Nessa haste ambígua em que a metamorfose decifra

um pressentimento há um labirinto imprevisível onde dissolves

a pele e fechas os olhos. Então o que escutas como se viesse

de algum lado pulsa nessa mão que levas à boca carregada de

vento como hóspede esquecido. Enquanto ao teu lado o vestígio

de um esforço ou anel de grafite se inscreve lentamente na cal.





Se o texto se oferece ao leitor como espaço indefinidamente aberto à interpretação, o mesmo acontece com as fotografias do autor. Entre o sujeito e o objecto há uma fractura onde se sobrepõem o imaginário e o real e é no intervalo que a criação acontece. Apresentado em certos ângulos, o real fotografado ganha vida, força, movimento, torna-se mistério. É disso exemplo a fotografia com o pormenor de uma estrutura em madeira que parece sair do olhar de quem a olha, para entrar na página e apontar a um horizonte branco e infinito ou aqueloutra onde figura um tronco decepado, porém reanimado por ramagens que o vento escolheu. Estamos perante o olhar do poeta  “vidente”, como se assumia Rimbaud (4) , o “ladrão do fogo”, o que encontra uma linguagem capaz de revelar a magia das coisas que não sabemos ver, capaz de libertar o real para atingir a verdade, i. é., a sua “essência”, a qual, porém, será de imediato questionada uma vez que esta poesia, que diz que  “todos os jardins são invisíveis / mesmo que os observes com os verbos /roubados às cicatrizes”, situa a sua intimidade na indefinível essência, nos vestígios, nos ecos, nos rumores, nos murmúrios, em infinitos movimentos de avanços e recuos que o poema averba assim:

É um desenho nos seus vestígios o que se afasta em presença

luminosa. Uma substância íngreme que toca as narinas com

cheiros que fulgem e suspendem os passos. Como se num

espelho a imagem devolvida abandonasse a simetria

ou despedisse a humidade do olhar.

Então a noite virá com as suas escamas escorrendo de lentidão

pelas paredes em rumor cúmplice dos bichos até que na terra

se elevem as sementes trazidas pelo vento.



Coisas Mínimas & Outras Coisas  é um livro sobre coisas mínimas donde nascem todas as coisas. É respiração. É um livro sobre os labirintos do sangue em busca da luz, sobre o pensamento e a criação artística,  sobre dar voz à voz líquida que nos habita. Jorge Velhote é um observador, um intérprete, um lapidário, um filigranista da voz que se oculta e que procura uma linguagem que a possa nomear. Por isto a sua poesia é necessária e cada livro seu é entusiasticamente acolhido.





(1)    José Carlos Soares, Sottovoce, edições Debout Sur L'Oeuf, 2019, p.11
(2)    in Os Mapas sem fronteiras sufocam os lugares, poema 6,  livro de textos de Jorge Velhote e fotografias de João Paulo Sotto Mayor
(3)    Edgar Morin, O Paradigma Perdido – a natureza humana, Publicações Europa-América, tradução de Hermano Neves, 5.ª edição, p.131
(4)    Jean-Arthur Rimbaud, Iluminações, Uma Cerveja No Inferno, tradução de Mário Cesariny, Assírio&Alvim, p.192



 © Teresa Sá Couto

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Cristais da Tarde - fotografias de João Paulo Sotto Mayor





Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.

António Ramos Rosa,
poema Nascimento Último (1)



   Na câmara escura de João Paulo Sotto Mayor habitam brilhos e rumores de uma cidade, reúne-se o espaço e, assim, antologia-se o tempo. Refiro-me a Cristais da Tarde, o mais recente livro de fotografias do autor que agora nos dá um miradouro sobre as tardes que enredam a cidade do Porto: o rio e o mar, as nuvens e o vento, as pontes e o casario, a calma e o bulício, as pessoas e as aves, a luz dramática de poentes e o brilho baço da neblina que veste o horizonte e a alma, a lembrar a segunda estrofe do poema Miradouro de Santa Catarina, de Jorge Velhote: “Uma ave devora-me a alma e / a melancolia, confesso, suja-me / um pouco os dedos.”.(2) 


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  Fundador, em 1976, do grupo IF, Ideia&Forma, com António Drumond , entre outros, Joao  Paulo Sotto Mayor, na centena de fotografias a cores e preto e branco que unem a sua respiração a textos de autores da literatura universal e do próprio fotógrafo, mantém o compromisso inicial do olhar solto e perscrutador do tempo, e para quem a fotografia parece ser uma expressão vital que ele transformou em expressão artística.

(na imagem, gentilmente cedida pelo autor, João Paulo Sotto Mayor com o seu Cristais da Tarde)

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Livro que não obedece a nenhuma ordem, nas palavras do autor, Cristais da Tarde tem a abrir uma imagem com o rasto triangular de um barco no vértice veloz do percurso a aspirar o espaço infinito; “o tempo esqueceu-se de mim”, diz o fotógrafo  flâneur que não se esqueceu do tempo e que, como o barco da fotografia, percorre o espaço para o integrar no tempo, com a missão clara de registar as experiências do seu olhar livre e vigilante. Maria do Carmo Serén, num dos textos introdutórios, refere João Paulo Sotto Mayor como “fotógrafo experiente e poeta” que “surpreende a cidade”, Jorge Velhote diz que “o autor acolhe o sussurro que se hospeda no seu olhar” e que “instala na carne a pele do mundo”, Gil Maia alude aconstruções visionárias” e Fernando  Maia Pinto aponta a “inteligência” do fotógrafo;  João Paulo Sotto Mayor junta àquelas observações um elemento transgressor: “para mim, mais do que a imagem é o som que me alimenta”, diz numa assunção sinestésica da sua expressão artística, aqui entendendo-se arte por “intenção profunda e jogo, imitação aparente e transfiguração real”, nas palavras de José Régio, “jogo de movimentos, de sons, de volumes, de linhas, de cores, e jogo que nos agrade” (3) , que nos lisonje os sentidos e nos acorde o espírito. 
Com a intenção de comunicar as suas experiências, o autor instiga o espectador a ancorar-se num lugar imaginário nteira, marca de quem viveafias: experriencias em dies, e jogo que nos agrade"para daí experienciar as sonoridades visuais que se passeiam nas fotografias: os ventos que inquietam o mar do Gilreu, que fazem explodir a água no farol de Felgueiras, os que na pérgola das nuvens sobre as águas se dedicam a jogos malabares esculpindo estátuas a que a luz dá leveza e dinamismo, os que rasgam nuvens espessas e concebem abismos cintilantes que recebem os gritos das gaivotas comovidas com o destino dramático da luz, o rumor da gente que passa e que a luz transfigura em hologramas, o apelo errático de um detalhe que se insurge na bruma convulsa, o resmalhar alvoroçado das penas, o sopro de um instrumentista de saxofone com a luz crepuscular timbrada no rosto, o silêncio de um homem andrajoso de costas voltadas ao poente,  o marulho das narrativas enigmáticas esculpidas pelo sal na areia, na orla onde o morre o mar, o silêncio da maré vaza.

 É fortíssimo o sentimento telúrico nestas fotografias e não o é só por causa da terra  geográfica. É-o pelo diálogo cúmplice e afectuoso que o fotógrafo enceta com a cidade. Seja qual for a diversidade dos planos, o fotógrafo procura sempre a imagem inteira, marca de quem vive na cidade integrado nela. Como o Anteu do mito que se regenera ao tocar o solo, João Paulo Sotto Mayor une a pele do olhar à pele da cidade para receber dela a pulsão criadora; à cidade, ele oferece como préstimo quadros de tempo para além do tempo. Muitas vezes afigura-se-nos uma inversão de papéis, pois parece que é a paisagem que vigia o fotógrafo e a nós através dele. E lá estão o casario no regaço vítreo das poças de água, o ouro engalanado a escorrer nos vidros das janelas,  o reflexo tremente do casario no espelho pardo do rio, o rio que se finge manso e tateia sedoso as margens, os botes com os bicos das proas a beber o rio em lenta direcção à eternidade, os rabelos de cores garridas no secular rio de mosto. 

 “O desejo do início e do silêncio / para que o instante seja a fábula do instante.”, escreveu, ainda, António Ramos Rosa (4). “Gostarei de ser sentido como quero”, anota João Paulo Sotto Mayor sobre a sua representação do mundo, num manifesto desejo de partilha de instantes, emoções e sentimentos, que sabe que comunicar é emergir da ocultação e espacializar o tempo é um gesto contra a morte.

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Notas:
(1) António Ramos Rosa, Antologia Poética, Dom Quixote, Lisboa, 2001, p.246
(2) Narrativa da Foz do Douro, poemas de Jorge Velhote e fotografias de Tiago Reis, Edição Projecto, Porto, 2013
(3) José Régio, Três Ensaios Sobre Arte, Portugália Editora, Lisboa, 1967, p.61
(4) António Ramos Rosa, Antologia Poética, Dom Quixote, Lisboa, 2001,p. 225


© Teresa Sá Couto