Dez anos depois da sua morte, a completarem-se no dia 26 de Outubro, José Cardoso Pires regressou às livrarias para nos mostrar o quanto nos faz falta. Lavagante - encontro desabitado é um texto inédito do nosso escritor de sempre e é com ele que Nelson de Matos, que foi editor de Cardoso Pires durante quase 30 anos, iniciou a actividade da sua nova editora. Uma homenagem ao amigo, disse o editor; uma homenagem à saudade dos leitores, acrescento eu.A surpresa deste texto póstumo, lançado no início do ano, valeu-lhe esgotar, num ápice, a sua primeira edição de 3000 exemplares. A surpresa continua no interior, pois foi a ela que Cardoso Pires nos habituou: o ardil narrativo, o desenho das personagens, o carácter impressivo dos ambientes e a prosa de pura filigrana avassalam o leitor enredando-o nas breves, mas imortais páginas desta preciosa fábula que retrata o Portugal medroso, censurado e asfixiado dos anos sessenta. Sem dúvida, o acontecimento editorial do ano.
José Augusto Neves Cardoso Pires nasceu no dia 2 de Outubro de 1925 em São João do Peso, Vila de Rei, Castelo Branco. No dia 26 de Outubro de 1998, em Lisboa, o escritor de O Delfim e de De Profundis, Valsa Lenta, não conseguiu vencer a senhora da gadanha e, após um acidente vascular cerebral era-lhe decretada a morte cerebral. Considerado um dos maiores escritores portugueses do século XX, Cardoso Pires deixou-nos uma obra extraordinária em romances, contos e dramaturgia.
Segundo as Edições Nélson de Matos, o texto foi editado, numa versão reduzida, em 1963 na revista O Tempo e o Modo com o título "Um lavagante e outros exemplares", com a menção de que se tratava de um capítulo do próximo romance de Cardoso Pires, e terá sido concluído antes da edição de O Delfim (1968). O texto agora publicado será a mais completa das três versões dactilografadas.
Lavagante, Safio e «outros bichos»
A acção inicia-se no Lanterna, «o melhor bar de praia» onde estão o narrador, um barman e um jornalista «em destroços agarrado ao balcão do bar, da geração reformada que não conheceu a paz nem a guerra», a geração 44-45, «atormentado» e de «sonhos frustrados», sentindo a culpa da mão viciada que «escreve com medo»:
«Viciámo-nos. Agora temos a Censura a escrever por nós. E amanhã? Quem sabe escrever amanhã, quando a Censura acabar?».
A chegada de um casal, saído de um Mercedes 190 – a «mulher cabra» e um fascista, o «engenheiro-sapo» – introduz a história de Daniel – jovem médico oposicionista do regime – e Cecília – jovem estudante de Arquitectura que o traiu entregando-o à PIDE, o que valeu ao jovem 52 dias de prisão no Aljube, sem perguntas, simplesmente para «dar-lhe um golpe no orgulho». É também este o ensejo para a metáfora do Lavagante, que desata a reflexão sobre a autofagia:
«o lavagante é principalmente um animal de tenebrosa memória, paciente e obstinado, e terrível nos seus desígnios. Contei-lhe como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. “‘Nesse momento, fica sabendo, o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.”».
Extraordinariamente construída, Cecília é o lavagante, calculista, «fria e soberana», de «corpo vivaz», «cabra mil vezes cabra», diz o jornalista «em desespero», amigo de Daniel.Mas se o lavagante é Cecília, também Daniel «executara as diversas fases dum jogo perigoso»: «o teu amigo quis catequizar a rapariga e o tiro saiu-lhe pela culatra. No fim de contas, é a velha costela de Pigmaleao que todos nós temos… (…) Talvez fosse uma espécie superior de lavagante…Quem sabe?Se formos a ver bem, talvez o Pigmaleão tenha qualquer coisa de lavagante. Ele também aperfeiçoava a presa, não é verdade? Também a acomodava aos seus desejos. ».
Por outro lado, a Cecília arrependida origina uma troca de papéis: o mesmo Sapo que o terá prendido, pela mão de Galos Velhos, operacionais da PIDE, o terá libertado por interferência de Cecília: «”O Safio”, digo de mim para mim. “Neste caso foi o safio que se libertou pela mão do lavagante. Questão de táctica, pura questão de táctica. Para ganhar uma presa é necessário às vezes soltar outra. Todos os bichos sabem isso, e o lavagante também. Se sabe!”».
Nota:
O CCB assinala, no dia 26 de Outubro, os dez anos da morte do escritor, com o programa titulado José Cardoso Pires, de Mão Pensada, com entrada livre. Nas actividades contam-se leituras de excertos da sua obra, entre as 14:30 e as 16:15, na sala Almada Negreiros, com abertura de António Mega Ferreira, presidente do conselho de administração do CCB, e as participações de Inês Pedrosa, José Eduardo Agualusa, Mário de Carvalho e Lídia Jorge; uma conferência intitulada Memória e Auto-Ficção, às 17:15, proferida por João Lobo Antunes, e às 18:30 a projecção do filme "O Delfim", realizado por Fernando Lopes em 2002, com argumento de Vasco Pulido Valente e interpretação de Rogério Samora e Alexandra Lencastre.
No átrio da sala Almada Negreiros, estará ainda patente uma exposição com as ilustrações que João Abel Manta fez para a sátira de José Cardoso Pires "O Dinossauro Excelentíssimo" (1972).
© Teresa Sá Couto
© Teresa Sá Couto