domingo, 18 de dezembro de 2011

Três novidades da Assírio

Feitos com a sobriedade, a beleza, o esmero e a qualidade que a Assírio&Alvim há muito nos habituou, estão no mercado três novidades imprescindíveis, em poesia de língua portuguesa: Caminharei Pelo Vale Da Sombra, de José Agostinho Baptista, Tentativa e Erro - poemas escolhidos e inéditos, de José Alberto Oliveira e Como Se Desenha Uma Casa, de Manuel António Pina.

Com palavra mágica e intimista, como é seu apanágio, José Agostinho Baptista apresenta-nos, neste seu poema longo, mais um «mergulho nessa miragem de abismos» que é a alma humana, com um sujeito poético viajante por brumas, segredos de mar e alarmes de memórias.
Por sua vez, a saudada antologia Tentativa E Erro é um torvelinho poético, de palavra desassombrada, robusta, crua, inquiridora, que reúne poemas de cinco dos seis livros de José Alberto Oliveira, e alguns poemas inéditos.
Por fim, Como se Desenha uma Casa, de Manuel António Pina, é mais um fulgor poético do Prémio Camões 2011, com a palavra em busca de ruínas para, com a luz mais-que-perfeita das recordações, as reerguer.
Deixo três breves textos:


este não é o lugar onde pairam as aves, este lugar
mata.
E tu,
que te deitas junto ao regato onde vêm beber os lobos
que amas,
e entre eles pareces cantar,
humildemente,
tépida como junho numa tarde de asas,
depõe à altura da fronte um círio e uma grinalda,
e murmura:
eu sou aquela que não tem endereço.
Só me há-de encontrar quem eu queira.
Moro no interior de um grito.
O meu quarto é branco.
Lá fora,
os meus passos não se ouvem.
Só eles, os que vagueiam, me conhecem.

José Agostinho Baptista, Caminharei Pelo Vale Da Sombra, Assírio&Alvim, p.106

***
Plágio

Deixa-me descansar
a cabeça
no teu peito
que conforta;
passa a tua mão fria
pela minha cara,
alivia a febre
que foi a minha vida:

que nos teus olhos
reconheça
a amante prometida,
desde o primeiro desgosto.

José Alberto Oliveira, Tentativa e Erro, Assírio&Alvim, p.163

***
Não abras a porta,
se for o sublime diz que não estou,
já temos palavras de mais, sentimentos de mais.

A glicínia não floriu este ano,
antes floria à volta de tudo
o que resta de azul à nossa volta,
envelheceu, anima-a só o desejo de voltar a casa, de ser uma casa.

Manuel António Pina, Como Se Desenha Uma Casa, Assírio&Alvim, p.30

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O amor é para os parvos , de Manuel Jorge Marmelo

Confessar ao amor tudo o que o amor tem direito depois dele ter partido é ter uma experiência pungente. Porém, só quando o amor alui é possível enfrentá-lo, dissecá-lo, estudá-lo, ajustar contas com ele; depois do amor, sabe-se que «O amor é aquilo: caminhar às cegas no arame estendido sobre o precipício».

Estancado o amor, o tempo é de aridez, mas também de conhecimento. Manuel Jorge Marmelo apresenta-nos essa reflexão num livro de coragem e mestria narrativa. Uma ficção que mostra a verdade daquele laço complexo que ata o ser humano à loucura, ao vazio da alma. Um livro com o leitor dentro dele, a reflectir em uníssono com o narrador e a dar aquiescência à conclusão – menos prosaica do que parece –, que lhe cede o título: O Amor é para os parvos. E todos o somos, pois é consequência de vivermos e amarmos.

O Amor é para os parvos foi editado no ano de 2000, pela extinta Campo das Letras, e é agora reeditado pela Quetzal, numa altura em que o autor lança, também, pela mesma editora, o novíssimo e arrebatador Uma Mentira Mil Vezes Repetida.

Em O amor é para os parvos, Manuel Jorge Marmelo confirmando-nos os seus dotes de ficcionista, e de pintor de almas, com palavras. Depois do amor perdido, em solidão, o narrador enceta uma viagem ao passado através de um longo monólogo ou um falso diálogo (e falso monólogo) dirigido à amada que partiu deixando-lhe uma fotografia desbotada em cima do seu lugar vazio na almofada da cama de ambos. Falso diálogo, porque o Tu, elemento central da acção, dela se encontra ausente; falso monólogo, porque a expressão escrita adquire tom narrativo e descritivo, criando a vivacidade do diálogo, mais propícia à expressão de sentimentos que se pretendem descritos em cima da hora e em presença da amada. Partindo da questão que dá forma a toda a narrativa  - Lembras? -, entrelaçam-se-lhe muitas outras questões num apelo constante à amada e ao entendimento de um amor perdido: Porquê?, Para quê?, Não percebes?, Entendes?, E tu?..., enformando o estilo coloquial que confere vibração à leitura, e para a qual concorrem outras técnicas, como a do narrador recuperar com as palavras os momentos da paixão que as dispensou, por bastar-lhe o «idioma topográfico da epiderme transpirada»:
«Dois corpos. Dois corpos não carecem de mais do que da fugidia linguagem dos sussurros, dos beijos que eriçam a pele, dos arquejos que preparam a doce deflagração de um amplexo», lê-se. Porém,o sujeito só sabe que o preço da entrega foi elevado, quando se despenha. Na solidão fria surgem as perguntas, as dúvidas, as contradições do amor: «mas o amor limita-se à conjugação de dois substantivos?».

A reflexão espraia-se pelas etapas e formas da consciência do amor que parece não se bastar à carne evanescente e, depois de duas bocas «estarem demasiado próximas para que qualquer vocábulo possa ser dito», importará mais: «não era já esse o amor que eu queria para nós. Havia de ser um amor pleno, de corpo presente, e, para tal, era preciso que visses tudo o que era essencial ver, que soubesses realmente quem eu sou e o que fica nos bastidores do meu recolhimento. Mostrei-te, por isso um poema. O poema que não achaste lindo e que te pôs no rosto um par de olhos escancarados.». O poema mostrava pedaços de alma, segredos. Falava, não sobre a ilusão do amor, mas sobre a vida real, sobre a morte: o apaziguamento do Eu que escolheu um local para se um dia se quisesse suicidar, um local bonito, onde a cidade desagua, onde a vida se liberta. Um segredo mal compreendido que lhe terá custado o amor? Também por esta vertente, o autor lança a reflexão que contrapõe o sublime do amor partilhado ao esvaziamento da vida corrente, e de que forma amor e vivência quotidiana podem coexistir.

As razões da memória

O timbre e o ritmo do destino seguem o tombo de todos os laços desfeitos; de trambolhão em trambolhão, vai-se desvelando a vida do narrador. A escrita resgata a memória da meninice, busca a identidade do sujeito  que é «todo coração.». Todavia, a memória da meninice é lisa, branca, um «mundo de leite, mas seco», um «absoluto nada» e reconstrói-se apenas pelo que o Eu ouviu contar. A repetição cadenciada dá o tom lancinante da frustração: «Apagou-se tudo. Tudo. Tenho tentado tanta vez recordar alguma coisa, mas não me lembro de nada. Nada.». A avalancha da memória deixa «sedimentos mais no sangue que na razão» e, às vezes, acorda de noite, «encharcado em suor, com um grito estrangulado na garganta, apavorado por um sonho que não sonhei, sem imagens, sem sons…um sonho vazio de tudo, excepto de pânico».
Filho de Alberto, pai que o abandonou em pequeno e mais tarde se suicidaria, e de Augusta, mulher demente que o tentou matar várias vezes – também ela crescera, como ele, «amputada desse membro invisível que é o amor de mãe» –, o narrador abre as janelas da sua «vida empoeirada», recupera os espectros do passado, e mostra-se à amada, incluindo-a, assim, na sua história de equívocos:
«Dou à memória uma razão para que exerça a sua condição de arquivo de existências, reconstituindo-te, recompondo-nos, voltando a colocar a cabeça em cima do teu corpo nu.».

A técnica de apelo a uma entidade ausente está também na convocação do leitor chamado a testemunhar o processo da escrita: «Está aí alguém? Nenhuma resposta. Silêncio, apenas. Não te vejo e, contudo, pressinto que estás aí….por isso escrevo. Escrevo e apago. Escrevo e apago. Escrevo e apago.». O leitor está presente e, atento, reflecte sobre se «O Amor é Para os Parvos»: basta imitar o narrador e questionar a própria memória: «Lembras?». As recordações virão em estrépito e as respostas serão, quiçá, demolidoras.

O Amor é para os Parvos, Manuel Jorge Marmelo, Quetzal, 2011


*outros textos meus sobre obras de Manuel Jorge Marmelo AQUI

© Teresa Sá Couto

sábado, 12 de novembro de 2011

Lançamento de O Espião Alemão em Goa

O Espião Alemão em Goa, de José António Barreiros, com a chancela da Oficina do Livro, é lançado no próximo dia 21 de Novembro, pelas 18h30, na Livraria Barata (Avenida de Roma, 11-A), em Lisboa. O General Ramalho Eanes fará a Apresentação.

Sobre a obra, que se trata de uma segunda edição, deixo extracto do texto introdutório escrito por José António Barreiros, a quem agradeço a pronta gentileza com que mo  disponibilizou:

«O que sucedeu após a escrita do primitivo manuscrito reforçou, entretanto, o meu lado supersticioso, ou melhor, aquela parte de mim que acredita nos sinais que a vida nos envia e nos símbolos que esses sinais consubstanciam.
Aconteceu que os factos que relato foram presenciados por um jovem indiano, que acabaria por vir estudar Direito para a então Metrópole e abriria escritório de Advogado na Rua Anchieta.
Já homem maduro bater-lhe-ia à porta, para que aceitasse ser o seu patrono, um jovem jurista que gostaria de ter sido juiz mas que a polícia política do anterior regime atirou para os braços da advocacia.
Esse jovem acabaria por passar os cinquenta anos de idade e escreveria este livro. Quando pensou em alguém que lhe desse a honra de apresentar a obra, numa singela cerimónia no Palácio Galveias, recordou-se daquele a quem devia o pedido de estágio como Advogado apenas porque o sabia oriundo da Índia.
Qual não foi a supresa quando, ao falar-lhe, soube por ele que lhe levava agora o relato escrito do que os seus olhos de menino haviam observado sem compreenderem.
Devo, pois, ao Dr. Xencora Babussó Camotim o privilégio desse encontro entre o que eu observei através da História e ele sentiu através da existência. O momento mágico desse cruzar de vivências fez vida naquela tarde soalheira e amigável».



*Ver dois textos meus sobre duas obras de José António Barreiros, AQUI

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Casa da Cultura José Marmelo e Silva

Há já meia dúzia de anos, num artigo sobre José Marmelo e Silva, rejubilava-me com a notícia do projecto de construção da Casa da Cultura José Marmelo e Silva, na freguesia do Paul, local de nascimento do enorme, inquieto, carismático, polémico, fundamental  e saudoso autor. Hoje, o projecto está finalmente concretizado e a inauguração marcada para o próximo dia 22 de Outubro. A nova casa, com mais de 200m2 e dois andares, compreende a biblioteca com zona de acesso à internet, sala de exposições, gabinete de reuniões e um espaço temático que recria o ambiente de trabalho do escritor que foi também professor e jornalista. É tempo de orgulho, de felicidade e de celebração das letras portuguesas.

(clicar na imagem para aumentar)

O evento insere-se nas celebrações do centenário de nascimento de José Marmelo e Silva 1911-1991), que se comemora este ano. No mesmo ensejo, foi publicado recentemente o livro O mágico pressentir do artista – entrevistas com José Marmelo e Silva, uma edição de Ernesto Rodrigues, com a chancela do CEJMS (Centro de Estudos José Marmelo e Silva).

O livro, cujo título resgata palavras do próprio José Marmelo e Silva, colige, em 144 páginas, as 21 entrevistas concedidas pelo autor a jornais e revistas entre 1943 e 1987. Trata-se de uma pequena pérola onde se esculpe a  «palavra do autor», «construtivo e desassombradamente moralista, enleado em aperfeiçoar o pormenor», como refere Ernesto Rodrigues, na Introdução; é, sobretudo, um livro imprescindível para a compreensão do homem  cuja obra se antecipou ao seu tempo, que em 1943, disse:

A Vida apresenta-se-me demasiado preciosa (ou demasiado exigente), para que eu possa consumi-la em proveito de certas camadas que pagam as coisas de Arte a um preço inferior ao das bebidas, e somente para excitarem os seus prazeres ou ostentarem as suas vaidades.  (p.p.15-16);

e que, defensor de uma educação humanista, declarou:

Instruir, formar operários, formar técnicos, não basta. Não basta produzir. Os objectivos da educação serão sempre, e acima de tudo, objectivos humanos em todas as dimensões. (p.59)

*Nota: agradeço o livro, aqui referenciado, à generosidade do poeta José Emílio-Nelson, filho de José Marmelo e Silva e seu incansável divulgador.

*página de José Marmelo e Silva, AQUI.

*textos meus sobre o autor, AQUI.

domingo, 9 de outubro de 2011

Joaquim Pessoa: um lugar no Mundo

Foi no dia 07 de Outubro, na repleta Biblioteca Municipal do Barreiro, o Colóquio sobre a obra de Joaquim Pessoa e a Apresentação do livro Ano Comum, com a chancela da Litexa. Na mesa, eu, Joaquim Pessoa, José Jorge Letria, Cristina Paixão e Carlos Mendes (na imagem, da esquerda para a direita). A surpresa abriu os trabalhos: na qualidade de Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, José Jorge Letria entregou uma placa de prata, galardão de homenagem às mais de três décadas de poesia de Joaquim Pessoa.
Ano Comum tem prefácio de Robert Simon e posfácio meu. É o posfácio que aqui edito. Futuramente, se o considerar pertinente, editarei aqui outros textos sobre a obra de Joaquim Pessoa, que têm vindo a ser (e outros ainda serão) pronunciados em diversas ocasiões, e todos eles complementares.

(fotografia de Dina Barco - clicar na imagem para aumentar)

Joaquim Pessoa: um lugar no Mundo

Perguntaste-me o que é que o crustáceo fia
entre as suas patas de ouro
e eu respondo-vos: O mar é que o sabe.

Pablo Neruda, Canto Geral (1)

Determo-nos em Ano Comum é irmos ao encontro dum projecto de modelação do humano em comprometimento com o mundo, projecto que Joaquim Pessoa urde há quase quarenta anos.
Tendo a escrita como forma de experiência do mundo e atrevimento sobre o mundo, a palavra de Joaquim Pessoa revela a consciência e a necessidade de atentar no real, motivando uma poesia de engendramento antropológico, social e político, num pacto solar e apolíneo com a vida, solidário e fraterno: «convoco a vida para a tua vida. Convoco a tua vida para a minha vida. E convoco as nossas vidas para todas as vidas que soubermos convocar.». É a palavra em busca de uma pátria que contrarie o «quintal cheio de melancolia e solidão» e as ruas da desesperança, sendo o coração a chave – «a grande pátria colectiva» –, pois «só o coração possui uma estratégia do impossível e a memória agradecida de um mendigo».

Marcadamente metapoética, a poesia do autor de O Pássaro no Espelho (livro de 1975) – o pássaro em situação especular, que se observa a si mesmo, a poesia que fala de si mesma e que a imagem invertida no espelho simboliza – acusa ter, em Ano Comum, a técnica e a razão dos pássaros: «o silêncio é para o pássaro como a jangada para o náufrago. Quer dizer sobrevivência. É também por isso que digo ter desenvolvido a técnica dos pássaros.».

No «coração vagabundo do livro» da vida, há que roer um substantivo, mastigá-lo devagar, «como o início de uma estrela» e levá-lo ao encontro do adjectivo para que juntos exprimam as tensões do voo. «Escrevo luz e escrevo limbo e escrevo lâmina», diz o sujeito poético do poema que pode ser «fósforo», «gato», «pedra», «enxame de sílabas», «céu de milénios», «sedução de pétalas», «dor das colinas», «medo do abismo», «faena», «alma do toiro», «sangue», «respiração», «braço», «ombro», «sexo», «dique», «barragem, «igreja», «voo», «instinto», «instante», «tempestade», «flauta», «nave», «cave», «cão, «pão», «chave», «solidão», «liberdade». O poema é, pois, a pulsão que liga o poeta ao mundo.

Também o drama da criação surge prodigamente, como os exemplos da metáfora da lampreia que dá o sangue em sacrifício ou o «osso, essa figura exemplar», assim referido em Peixe Náufrago (livro de 1985); um osso de cuco, fora do cuco, pode «redimensionar o universo», lê-se em Ano Comum; a palavra é o osso que o escritor arranca de si; o cuco marca o tempo; na literatura, essa marca é a memória. Na temporalidade constitutiva que é a memória encastoam-se a nostalgia e o pessimismo originando textos como este:

Havia um sonho. Havia uma
Esperança. Havia. Havia.
Mas o sonho também cansa
E a esperança está vazia.

Havia um sonho e uma esperança.
Pois havia.

Note-se que o pretérito imperfeito do verbo «Havia», no seu aspecto de duração, constata a desilusão, mas nega o fim da acção de sonhar. São perspicácias de uma poesia que denuncia, mas que se recusa a cantar a desistência humana, uma poesia com a consciência de que a dor mundializa o homem, que sabe que «Todos os invernos são um investimento no futuro», que celebra o contrato com a vida e tem na transformação e na mudança a «pequena glória» do poema: «Revogo o arrependimento e as lágrimas, estabeleço uma labareda no seu lugar».

Na transfiguração da ferida irrompe, muitas vezes, a ironia redentora, característica de sempre da escrita de Joaquim Pessoa: «Procurar uma nova terra no oceano, só mesmo em busca de um resort para descanso dos novos heróis do mar desta nação valente, deste nobre povo.».

Morada e mapa de um sentimento, a palavra encontra na temática do corpo um grito libertário. Diz Novalis que «O nosso corpo é uma parte do Mundo – um membro exprime já a autonomia, a analogia com o Todo – o conceito de microcosmo. Com o corpo modifico para mim o meu Mundo» (2). Em Ano Comum, surge-nos o cotovelo como uma jóia, porquanto é «um pé das ideias»: «nele me apoio para olhar dentro de mim»; os dedos são «cegos que procuram o amor, tacteando. Dez pretextos para procurar o sentido de todos os sentidos, rigorosamente, como a geometria do bailarino»; as mãos confundem-se com as palavras – «dou-te as palavras como dou as mãos» – na operacionalização do amor e da fraternidade, no desempenho do sangue com a objectividade «quase insolente» da sua cor a movimentar-se «para dentro da realidade». Declarando-se pertencer ao «signo do afecto» e «enamorado sempre da realidade», na aproximação ao «estar enlevado é uma forma de realidade», de Paul Eluard (3), o sujeito poético tem na sua cidade de sempre a sua cosmologia: «Em Lisboa estão os teus olhos e as minhas mãos. E abraçam-se»; «Falo desta cidade e uma gaivota abre em mim as suas asas, com vontade de partir e de ficar. É a saudade, dizem.». Será uma saudade em busca de uma cumplicidade logo encontrada em Cesário Verde, o cartógrafo solitário, com quem o sujeito poético partilha o amor pelos «ácidos, os gumes e os ângulos agudos.»; será a fome da vida e a necessidade de mapear essa sua condição.


«Viver é ter fome! A vida é fome: fome de alma e de pão! Fome negra!», escreveu Teixeira de Pascoaes (4). Num gesto de reinvenção desta herança, Joaquim Pessoa escreve, em Ano Comum, que a «fome é doce, límpida, comovida, como a cor da água-marinha». Em Poemas de Perfil (livro de 1975), em versos dedicados à classe operária, lê-se que «A fome é uma arma», sintetizada assim em Ano Comum: «Daremos luta.». Viver é, pois, ter «Fome de tudo», sendo este um tudo secreto, como «É secreta a conversa entre o fogo e a lenha», «a voz dos búzios, a saudade das andorinhas», a beleza, o espírito, o medo, a morte, a loucura, o acto de criar.

                                                     
Em Joaquim Pessoa, «tudo é matéria da poesia», porque as palavras dos poetas juntam-se a outras palavras para procurarem um caminho, e porque «o azul tem sempre a cor que nós quisermos.». Todavia, na obra do autor, há aqueloutro Tudo unificador, onde se reúnem todas as outras coisas: o Amor, «sempre o amor, sempre o soluçante líquido da vida», na formulação de Walt Whitman (5), o amor cujo mel «tem o esforço da abelha», e que, ávido, pede para ser construído todos os dias ou dito assim em Ano Comum: «Tenho sede quando te beijo. Quando não te beijo tenho sede.».

No processo de construção do humano há que contar com incursões biográficas nem sempre fáceis de destrinçar do fingimento poético, que revelam a busca e configuração de uma identidade – busca que acarreta necessariamente uma dimensão temporal que acciona os mecanismos da memória – e conferem pendor auto-reflexivo à poesia de Joaquim Pessoa. Se nos deparamos com a questionação da condição do homem em determinadas circunstâncias de tempo e lugar, é, sobretudo, de biografia interior que se trata, aquela que revela sentimentos de conquista, perda e a teimosia dos sonhos.

«Sou apenas um escritor. Um cultivador. Um jardineiro. Um florista. A minha felicidade flutua entre o estrume que deponho na raiz das palavras e o aroma que me excita quando acabo de as colher», diz-nos o eu numa sábia relação com o mundo empírico que o suporta para definir o seu lugar no Mundo, ao mesmo tempo que, aludindo à imortalidade dos escritores, se projecta na eternidade: a sua idade «é a mesma do lobo, do alce, da andorinha», que não conhecem o tempo, não conhecem a morte e por isso são imortais: «E não sei que idade tenho. Talvez sessenta anos. Talvez o tempo do amor. Ou o tempo que falta para salvar o amor.».


(1) Pablo Neruda, Canto Geral, tradução de Albano Martins, Porto, Campo das Letras, 1998, p.530
(2) Fragmentos de Novalis, selecção, tradução e desenhos de Rui Chafes, Lisboa, Assírio&Alvim, 2000, p.67
(3) Paul Éluard, Últimos Poemas de Amor, tradução de Maria Gabriela Llansol, Lisboa, Relógio D’Água, 2002, p.221
(4) Poesia de Teixeira de Pascoaes, Lisboa, Assírio&Alvim, p.347
(5) Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo, selecção e tradução de José Agostinho Baptista, Assírio&Alvim, Lisboa, 2011, p.119


© Teresa Sá Couto

domingo, 28 de agosto de 2011

Hariemuj


                               
É sempre o fascínio dos livros e da sua edição. Enquanto uns deixam cair as suas editoras, outros enchem-se de coragem e iniciam a teia. Hariemuj é uma pequena e novíssima editora dirigida pela escritora Maria Quintans e pelo advogado Vítor Marques da Cruz. Na direcção de arte, a dupla conta com o paginador, designer e Arte-Finalista João Mota. Ver a página Aqui.

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O trabalho de equipa em prol da cultura não é novidade para Maria Quintans, que há muito nos habituou ao empenho e mérito dos seus gestos. Recordo que ela dirige, com João Concha e Ana Lacerda, a revista Inútil, projecto  experimental que une literatura, fotografia e ilustração. De periodicidade quadrimestral, e com três números temáticos  publicados até ao momento, a revista é um encontro de gerações de artistas, de estilos e sensibilidades diversas,  e tem dado visibilidade a novos autores, argumentos que lhe conferem um papel importante no débil e desapoiado panorama cultural português.


Em 2008, Maria Quintans publicou, pela Papiro, o pequeno grande livro de poesia Apoplexia da Ideia, que une as talentosas ilustrações de João Concha à sua escrita original, a um mesmo tempo delicada e enérgica, lúcida e encantatória, secreta e reveladora, características que se reconhecem no livro de prosa poética Chama-me Constança, publicado no final de 2010 pela editora Salamandra. Ambos os livros estão disponíveis no mercado.

A editora Hariemuj vai constar, a partir de agora nesta página, na coluna das editoras, à esquerda, onde estão também editoras já desaparecidas e que tiveram grande importância na divulgação do livro em Portugal; afinal, a história do livro faz-se de perdas e alentos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

25 anos sem O'Neill


Alexandre O'Neill foi um dos grandes poetas portugueses. Lê-lo é também entender a falta que ele nos faz.
Em sua homenagem, e em homenagem à poesia portuguesa, que é dizer a mesma coisa, deixo três textos e a referência ao imprescindível Alexandre O'Neill - Poesias Completas, editado pela Assírio&Alvim, em 2000 (as páginas aqui referidas são as da 5.ª edição, de Maio de 2007).


Resume todas estas sentenças delirantes numa única sentença:
Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa. (p.370)

***

Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção.
O mesmo deves fazer com os açaimos.

E com os botões.
(p. 368)


***

Bicicleta

O meu marido saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.
(p.417)


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

José Rodrigues, o feitiço da luz (fotografia)


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Fotógrafo amador, que ocupa as horas vagas com a arte do olhar, José Rodrigues surge-nos finalmente em livro e exposição: .a des.crever esta língua que me é mar: , com chancela da Câmara Municipal de Cascais, será apresentado no dia 30 de Agosto, às 18 horas, no Centro de Interpretação Ambiental, situado no majestoso lugar da Ponta do Sal, em São Pedro do Estoril; as 53 fotografias são acompanhadas por textos de Isabel Mendes Ferreira e prefácio de José Pires F.
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No ensejo do lançamento, outro aplauso: é inaugurada a exposição Marés, organizada pela Agência Cascais Atlântico. A exposição ficará patente até ao dia 22 de Setembro, com fotos em loop contínuo, em painéis electrostáticos, e outras reproduzidas em painéis suspensos (conforme maquete da exposição, em baixo, imagem gentilmente cedida por José Rodrigues).
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São deste esmalte /os olhos de Afrodite. É deste /mar e deste céu /a carne palpitante/ da beleza, escreveu o poeta Albano Martins no poema Golfo Sarónico. É a carne palpitante da beleza que José Rodrigues fabrica na sua câmara escura, uma carne poética, depurada, de beleza avassaladora.

No impulso criador, está a luz. É pela luz que o fotógrafo calcorreia a orla marítima, e é com ela que decanta a realidade. Perseguindo-a, o fotógrafo posiciona-se muitas vezes rente aos elementos procurando-lhes a essência que a luz lhes dá, as formas que ele há-de perscrutar, interpretar e registar com o olho da objectiva prenhe de subjectividade: os labores de água, luz e vento, linhas sinuosas, símbolos quase hieroglíficos, figuras de uma mágica encenação, tudo enigmas escritos a sal no silêncio da areia.

É uma luz transgressora que confere tridimensionalidade à superfície plana dos fotogramas, tira densidade ao real, dissolve-o numa aproximação ao surreal, em aventura pelo domínio do maravilhoso e do sonho. E a dureza da pedra surge-nos com a leveza do ar, a luz abre fendas nas rochas à procura de sentidos, o mar prateado extasia-se na areia ou, exausto, entrega-se-lhe como sangue de sacrifício.

É a luz que esculpe planos gerais e grandes planos ora com dinamismo abrupto e inesperado, ora com placidez e quietude místicas, mas sempre em discursos sobre o efémero e o transitório. É, ainda, o discurso da espera de José Rodrigues na sua paciente missão de topógrafo dos diálogos íntimos e secretos.

Enquanto se espera pelo livro e pela exposição, temos ao nosso dispor as duas páginas de José Rodrigues, onde corre o deslumbramento:

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Tagore e Whitman

Poesia, de Rabindranath Tagore e Canto de Mim Mesmo, de Walt Whitman são duas novidades imperdíveis da Assírio&Alvim. Na tradução de ambos os títulos está a mestria do poeta José Agostinho Baptista.

Tagore (1861-1941) desenvolveu uma lírica de contemplação, misticismo e questionamento do Homem. Se é atribuída ao escritor indiano a reformulação da literatura bengali e, através dela, uma ponte entre a cultura oriental e ocidental, o que certamente concorreu para a atribuição do Nobel da Literatura em 1913, Walt Whitman (1819-1892) é tido como o bardo americano; amplo, intenso, eufórico, esperançoso, provocatório e agente de modernidade, o autor de Leaves of Grass foi a senha do heterónimo pessoano Álvaro de Campos, que o reinventou e a quem dedicou a Saudação a Walt Whitman. Canto de mim mesmo é, assim, um texto fundamental para se definir o autor e se entender porque Fernando Pessoa o teve como modelo teórico e crítico, numa época sociopolítica ruidosa e ruinosa.
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Textos:

Convalescença – 14


Todos os dias de manhã cedo este cão fiel
Senta-se silenciosamente ao lado da minha cadeira
Até eu reparar na sua presença
Ao tocá-lo com a minha mão.
No momento em que recebe este pequeno reconhecimento,
Ondas de felicidade percorrem o seu corpo.
No inarticulado mundo animal
Apenas esta criatura
Compreendeu o bem e o mal e viu
O homem completo,
Aquele a quem
Talvez a vida deu alegremente
Esse objecto de um amor livre
Cuja consciência assinala o caminho
Para o coração da consciência infinita.
Quando vejo esse coração emudecido
Que revela a sua própria humildade
Através de uma total auto-rendição,
Sinto-me incapaz de descobrir o valor
Que a sua simples percepção encontrou na natureza do homem.
A profunda ansiedade do seu olhar mudo
Apercebe-se de algo que ele não pode explicar:
Ele remete-me para o verdadeiro significado do homem no universo.

(Rabindranath Tagore, p.124)

****

XII

O jovem carniceiro despe as roupas de trabalho, ou afia a faca na banca do mercado,
Demoro-me a desfrutar as suas réplicas, os passos, as pausas.

Com o peito tisnado e peludo os ferreiros rodeiam a bigorna,
Cada um segurando o malho, todos exaustos, o calor é tanto por ali.

Do umbral cheio de cinza sigo os seus movimentos,
A pequena torção das cinturas acompanha os braços musculosos,
Por cima do ombro brandem os martelos, por cima do ombro tão lentos, por cima do ombro tão seguros,
Não têm pressa, golpeiam no seu lugar.


(Walt Whitman, p.33)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama

Recentemente, pedi atenção para o nome de Paulo Assim. Não por causa dos prémios que o autor tem vindo a receber, mas pela natureza da sua poesia limpa, com depuração e segurança raras, impressa no pequeno grande livro Celulose,  livro que deu ao autor o Prémio Nacional de Poesia de Vila de Fânzeres 2010.
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Agora, Paulo Assim recebe o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2011, com o livro Retrato a Sépia, sobre o qual diz Pedro Tamen:
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«Li-o com toda a atenção e constituiu para mim uma grata surpresa. O autor demonstra um à-vontade no tratamento das palavras e um amor por elas que para mim são indiscutíveis marcas de um poeta a sério. Por outro lado, o livro revela uma unidade temática sem falhas que o torna particularmente aliciante. E acresce (excelente coincidência) que o espírito deste "Retrato a Sépia" não anda longe da natural simplicidade da obra do Poeta a que o prémio presta homenagem.».

Esperando que Retrato a Sépia chegue rapidamente ao mercado, deixo duas estrofes que lhe desvendam o interior, gentilmente cedidas por Paulo Assim:

O ar quente e quieto da tarde
era uma porta.
Vindo de além, o cuco
batia com as nozes dos dedos
nessa invisibilidade que não abria nem fechava
para nos anunciar a dureza do estio.
Trazia-nos as más notícias de África
ou, como nós, roubaria algures mais um ninho,
o cuco, invisível pássaro.

E as amoras tinham
o sabor da aventura.
A língua roxa soletrava
outras palavras, talvez paixão ou mesmo já amor,
e as mãos com riscos de sangue
pedindo que incendiássemos
a tarde das cigarras.



*Ver AQUI texto meu sobre o Celulose

domingo, 19 de junho de 2011

Novo "Segredo" de Sérgio Luís de Carvalho

São segredos do tempo, desvendados no silêncio da escrita, que Sérgio Luís de Carvalho há anos que nos traz. Eis, pois, mais  uma excelente notícia em vésperas de férias: O Segredo de Barcarrota, o mais recente romance histórico do autor, está a chegar às livrarias e será apresentado no próximo dia 02 de Julho, às 18.30, na Fnac do Chiado. Uma vez mais, a apresentação será feita por Miguel Real.

Ver AQUI textos meus sobre obras de Sérgio Luís de Carvalho.

Extracto deste O Segredo de Barcarrota:

«Nessa noite, Frei Miguel de Santa Cruz viu o diabo surgir-lhe junto ao altar da igreja de Nuestra Señora do Soterraño fora das normais aparições de domingo e vestido como se fosse um frade com um hábito castanho e branco. O diabo, como sucede com as coisas do outro mundo, tem sempre vários rostos e alguns até que são familiares a quem o consegue ver. Podia surgir-lhe como rústico, meretriz, tecelão, perneta, fidalgo, viúva, alcoviteira, narigudo ou menestrel. Podia aparecer-lhe como camaleão, gato branco ou burro manco, como vagabundo ou cardeal. O que o demo não perdia nunca, fosse como fosse que surgisse, era um adocicado odor a ervinhas fumegantes, um leve linguajar ciciado, uns belos e profundos olhos negros capazes de enfeitiçar qualquer mortal e a mão direita deformada, resultado, segundo parece, de uma antiga peleja com S. Jorge durante a qual o santo o ferira com a lança.
Frei Miguel estava junto ao altar-mor limpando o pó a um livro de cantochão grosso, respeitoso e calhamaçudo...
(como convém a livro sacro)
... e apanhou um susto tão grande com essa sua visão extra-dominical que até deu um pequeno grito e quase deixou tombar o dito livro no chão da estreita ábside.
"Eu sei, velho, eu sei, não é costume veres-me em dia de semana, não é? Eu prefiro azucrinar-te o juízo depois da missinha de domingo, é bem verdade, que nessa altura ainda a igreja cheira a incensório e a turíbulo e não ao fedorento suor dos teus paroquianos. Mas que queres? Nem eu posso escolher tudo como desejo. É um abuso..."».  (p.p. 97, 98)

sábado, 18 de junho de 2011

Novos poemas de Casimiro de Brito

Titula-se Amar a Vida Inteira e é o novo livro de poemas de Casimiro de Brito a ser lançado no dia 21 de Junho, às 18h30, na Casa Fernando Pessoa. A apresentação está a cargo de João Barrento e a leitura de poemas será feita por Casimiro de Brito e pela actriz Sílvia Brito.

Segundo o autor, Amar a vida inteira é, embora autónomo, o terceiro volume do Livro das Quedas, poema no qual trabalhará até ao resto dos seus dias, e vem sendo escrito desde 11 de Maio de 1996, altura do nascimento de Diana, a sua filha mais nova.
 
São “quedas” de amor que este livro contém, o amor físico (entre homem e mulher) com a palavra ora a sugerir, ora a explicitar os rituais sexuais, as sensações e os instintos, na linha, aliás, de outros textos recentes do autor sobre o tema e que já são uma sua marca inconfundível; é, ainda, um exercício de indagação de um destino entregue à “grande arte” do “mel raro” da mulher.


(ver AQUI  textos meus sobre outras obras de Casimiro de Brito)




Dois poemas:

26

Murmuro dia e noite as leis
do amor, a ruga do desejo que no teu corpo
se converte em luz; um corpo que não se afasta
do meu olhar, estejas perto
ou longe. Em ti deitado
regresso às terras do pai
de onde nunca parti. Património
do meu canto errante, jamais
decantado. De que outras acções de guerra
me ausento bebendo e tecendo
o álcool do tempo? Murmuro
dia e noite
as leis incertas do amor. (p.39)

59

Quero apenas ser chão, dizes,
entrando para dentro dos meus olhos
como se eu fosse uma casa
desarrumada. Essa casa sou eu.
As tuas mãos amaciam as arestas
que me doíam, a tua boca, ainda luminosa,
descobre uns veios
desamparados. Subitamente
há uma fonte que começa a
brotar. Alguma coisa arde.
Um pequeno animal obscuro
sangrento e feliz
que não conhecíamos. (p.78)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Parabéns a Rui Zink

Uma festa que vale por duas: o aniversário de Rui Zink e o do seu Hotel Lusitano acabado de reeditar pela Planeta. Com vitalidade incólume, Hotel Lusitano – ou Portugal visto por dois estrangeiros – surge, tal como há 25 anos, na hora certa: comprovam-no a escrita célere, o olhar rebelde e limpo sobre quem somos e a ironia fina remexida com humor inteligente e contagiante. Imperdível.

(clicar na imagem para aumentar)

Extracto:


«Mas uma coisa pela qual não se é preso em Portugal é por urinar na rua. Toda gente urina em todo o lado, como os Índios. Congratulei-me com a descoberta, pois sabia do episódio de um amigo meu que, em Cleveland, certa noite regressava a casa aos esses e, precisando de evacuar águas numa esquina, fora apanhado pela lei em flagrante delito, levado a tribunal e por pouco não era acusado de exibicionismo na via pública e condenado, sabe-se lá, a um ano de prisão ou mais. Também os Estados Unidos são chatos, de vez em quando. Neste plano, prefiro Portugal: ao menos mija-se à vontade. E o cheiro também não parece incomodar ninguém. Uma pessoa habitua-se a tudo, veja-se o caso daqueles guerreiros espartanos que comiam fezes para endurecer o corpo e o espírito. Talvez até que a merda não sirva só de fertilizante para a terra, mas também para o corpo e o espírito. Quem sabe?
.
Estudante aplicado, tomei nota: os portugueses são um povo de jardineiros. Fazem chichi contra as paredes para Lisboa germinar. ».


(p.p. 79, 80, da edição de há 25 anos)

domingo, 29 de maio de 2011

Albano Martins em italiano


Textos meus sobre Albano Martins, aqui.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Diálogo Ibérico de José Bento

«É um trabalho de artífice, o meu. Sou tecelão /de sons que elaboro e harmonizo, entalhador /a quem a matéria agride até ser afeiçoada./ Para quem trabalho? Quem me escuta como sorvo /o que me é dado para eu criar e transmitir?», escreve José Bento no seu novo livro Sítios, em versos que ressumam o labor de uma vida no laboratório da poesia.
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Quase a completar 80 anos, o poeta e tradutor de poetas volta ao destaque nas livrarias com três títulos de uma assentada: além de Sítios, da sua poesia, é o responsável pela selecção, tradução, prólogo crítico e notas das antologias poéticas de Luis de Góngora (1561-1627) e Lope de Vega (1562-1635), todos com a chancela da Assírio&Alvim. Se estes dois poetas do Siglo de Oro já constavam, com alguns poemas, na Antologia da Poesia Espanhola, segundo volume, também com selecção e tradução de José Bento, editada pela Assírio&Alvim, em 1996, as presentes Antologias individuais são as primeiras em Portugal.  

Reconhecido pela exigência, rigor e erudição, José Bento tem dedicado a vida à tradução para língua portuguesa de poetas de língua castelhana (entre outros, Cervantes, Quevedo, García Lorca, Neruda, Unamuno, Juan Ramón Jiménez, Jorge Luís Borges, maria Zambrano, Octávio Paz), contribuindo para o inestimável diálogo entre as literaturas ibéricas, que, assim, sai do reduto da Academia e abre-se ao público.

Entre várias distinções, José Bento recebeu em 2006 o 1º Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura.

Extracto:
[…]

Para ser voz
tinha que assim moldar-se tal silêncio?,
ter o fogo expectante no sílex,
o rigor do metal
que nem perante o sangue se retrai e vacila
até desvendar a última verdade,
a que se toque talvez ao quebrar ou exumar
a constância dos ossos?

Quando me será dado responder?
Distante desse curso obscuro,
mal vislumbro o que para mim foi nele escrito.

Desde então persigo o seu sentido.
Hoje prossigo, eis-me a prosseguir.

Aqui, errante, ­ – escrevo, erro.
Leio a noite: identifico ainda aquela noite.
Adianto uma palavra, mais um passo:
uma sílaba, uma pulsação
queimam ao vibrar e entregar-se.

Procuro a clave da ferida em mim acesa
naquele instante que dividiu meu tempo.
No relâmpago que esse instante é para sempre,
descerrou-se para eu o conhecer
o rosto fascinado
da morte já erguida. (Sítios, p.p. 181,182)

terça-feira, 17 de maio de 2011

«O Trompete de Miles Davis», Francisco Duarte Azevedo

(Texto publicado no sítio da Orgia Literária, dia 16.05.2011)

«O fado também pode ser tocado num saxofone»: esta é a chave de O Trompete de Miles Davis, romance de estreia de Francisco Duarte Azevedo, que desenha o policial, mas é a observação social que o enche gizada num roteiro da emigração portuguesa na América. Dúctil, a escrita mostra que é voo de memórias, voz de sonhos traídos e depoimento do virtuosismo com que se improvisam os dias.

A narrativa é controlada pela voz de um narrador participante, um detective privado em Newark, o «Sherlock do bairro» que «encaixava perfeitinho naquelas rotinas», rotinas que são abaladas pelo desaparecimento do trompete verde de Miles Davis da vitrina da Dana Library, durante uma palestra de um escritor português. A estratégia narrativa da primeira pessoa possibilita exploraram-se eficazmente mundos interiores anquilosados, estabelecer cumplicidade com o leitor devido à característica de depoimento e demonstrar uma consciência actuante, o que dá carácter intervencionista à obra, que pretende problematizar a condição dos emigrantes. Tudo tarefas que o autor cumpre com apuro.

Conta-se a história dum «tipo banal», um emigrante português – e, por ele, do grupo social onde se insere –, que seguiu o sonho de ser actor em Hollywood, mas lavou pratos, foi professor de português num colégio e acabou a sufocar num escritório de vidraças fechadas, com o sonho emparedado no subúrbio que partilha com grupos étnicos, sem conviver, «muros invisíveis» entre raças, culturas e tradições, «movendo-se como as lamas de um vulcão».

Delineada a personagem e estabelecida a intenção, a narrativa, inteligente, lança mão à ironia, ao humor e tece uma teia subtil – que, por isto, não se compadece com leituras descuidadas – com elementos narrativos de transgressão a uma vida escandida na luta pela sobrevivência, que configuram o desejo de liberdade ou representam as asas de sonhos sublimados. Assim surgem, ao longo das 301 páginas, referências a pássaros que cruzam os céus, pássaros que se metamorfoseiam «em harmonias e desarmonias de sons de um trompete», numa clara contaminação das técnicas do jazz na narrativa, a metamorfose da improvisação que servia a necessidade humana, básica, de exteriorização de emoções contidas; o detective cria «hologramas de Miles Davis por toda a parte», sons que o fazem recordar a «batida tranquila de vagas na vazante, a maré rodopiando, retrocedendo e voltando a rodopiar» e onde vê uma «imperturbável e explosiva mistura de cores»; o protagonista olha todos os dias para um quadro de Nova Iorque, de um pintor de rua, onde «podia inventar e desejar fosse o que fosse naquela cidade», «compensar a ausência» e a nostalgia que ela lhe «causava ali tão perto»; finalmente, a poltrona do escritório, onde o detective se refugia, desempenha um papel essencial no desenho psicológico do protagonista e na configuração do desejo, secreto, de liberdade: «deixar apenas que a memória aflorasse sem se intrometer demasiado no âmago das coisas. Queria tornar-me leve» (p. 297).

Tudo na escrita é preciso, como a precisão do relógio de pulso – «um velho Baumatic» – que o detective usa, também símbolo da memória, gesto assumido directamente no texto por Francisco Azevedo, diplomata de carreira: «Há sempre uns tipos que teimam em escrever as suas memórias como se o mundo não passasse sem eles: os detectives, os políticos e os diplomatas.» (p. 296)

Teixeira de Pascoaes escreveu que «a saudade retoca certas imagens da memória e acende uma auréola divina em volta delas». Enformando este projecto, a narrativa divaga por espaços feitos itinerários da memória, ilumina-os com sinestesias, descreve-os com perfeição cinematográfica. Assim surgem: o «bate papo adocicado» na claridade e penumbra do Meal’s Place, com as suas janelas de cortinas vermelhas, ruído de talheres e tilintar de copos; um café expresso duplo no Starbucks, «ténue compensação» com saudades do café da Brasileira do Chiado ou do Nicola; a doçaria portuguesa do café La Provence, para onde caminhava nos fins de tarde «com a veneração de um crente», onde se sentia «barco em porto seguro» e «aos sábados fazia o gosto ao dedo com galão escuro e torradas com manteiga desfazendo-se salgadas sobre as papilas da língua», trazendo-lhe «na trinca o aroma de Lisboa»; o percurso entre La Provence e a Penn Station, «esse caminho mágico» que é a Ferry Street ou a Avenida de Portugal», de negócios dos portugueses, onde abundavam «criaturas mitológicas, descidas das serras do Marão ou da Estrela, de suas faldas, vales e encostas, largadas de povoas e gândaras costeiras ao mar oceano como Aveiro, Ílhavo, Murtosa e outras baixadas em torno da ria.» (p.91)

Francisco Azevedo mostra-nos que a escrita é uma casa: «até um pássaro busca o seu ninho», lê-se neste romance que convida o leitor a ser detective nas páginas para prazer da sua leitura. Esperemos que a casa se amplie, pois este foi um início de gigante.

O Trompete de Miles Davis, Francisco Duarte Azevedo; Planeta, 2011

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Manuel António Pina

Manuel António Pina é o Prémio Camões 2011, e eis uma alegria que nos espevita em tempos de cansaço e abulia.
«Um escritor altamente qualificado nos diversos campos em que actua, em especial em suas poesias, para adultos e crianças, que possuem alto grau de inventividade e originalidade», justificou o Júri do Prémio, o que há muito sabemos.

Estão de parabéns, o autor, a Assírio&Alvim,a Literatura Portuguesa e, por isso, nós todos. Mas há mais: a editora anunciou que vai lançar na Feira do Livro do Porto a antologia poética POESIA, SAUDADE DA PROSA - UMA ANTOLOGIA PESSOAL (imagem à esquerda), com selecção de poemas feita pelo próprio autor, e, daqui a alguns meses, um novo livro de poesia, o primeiro nos últimos oito anos, refere a editora. E nós esperamos.






Um poema:

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
Poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
– como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –

Poesia Reunida, p.38, Assírio&Alvim, 2011

segunda-feira, 25 de abril de 2011

"K3", Nuno Dempster

(Texto editado no sítio da Orgia Literária, hoje, 25.04.2011)


A escrita sutura feridas, e K3, de Nuno Dempster, comprova-o. Nome do temível aquartelamento na Guiné, K3 reergue-se, mais de quarenta anos depois, num objecto artístico admirável: um poema longo que solta o grito amordaçado e denuncia a solidão larga, ultrapassando a memória do seu autor ao plasmar a nossa memória colectiva, silenciada, inquietante e incómoda da Guerra Colonial.

O poema desenvolve-se em torno de dois centros de interioridade tão fundos quanto os subterrâneos do aquartelamento homónimo: o passado, que contém o futuro do presente, e o presente, «a altura do exorcismo». Se o nervo central se constrói cronologicamente – desde a partida do Cais de Alcântara do «alto navio negro e a sua carga» de força juvenil amansada pelos «velhos facínoras», até ao regresso –, a memória, assente nos anos que Nuno Dempster esteve como mobilizado no K3, esculpe as linhas da névoa, desnuda a ideia, «pensa o sentimento, sente o pensamento», como o enunciado no poema «Credo Poético» de Unamuno.

«As recordações serão coágulos de sombra / calcados quais velhas brasas / na chaminé. A recordação será a chama / que ainda ontem picava nos olhos apagados», escreveu Pavese em versos talvez lidos no K3 por Nuno Dempster que refere no poema ter levado consigo livros do poeta italiano. Consciente de que trazer o passado para o presente é enfrentar o tecido esburacado da memória, Nuno Dempster surpreende-nos quer pelas relações estabelecidas, quer pela argumentação aduzida para as sustentar, compondo a teia temporal com fios que se ligam às naus da glória da Expansão, para mostrar como se pagaram as «dívidas antigas do passado», para cantar, agora, a «gesta lusitana, / escrita desta vez / ao contrário, mesquinha e pobre / por sob os decassílabos heróicos, / em um coral de vozes atonais.». As vozes que se ouvem são de anti-heróis encharcados do «napalm» lançado dos T-6, atravessados pelas rajadas das brownings e pelo «assobio das granadas / que rebentam depois no cérebro, / no coração, nos ossos trémulos», e que, sem terem entendido a guerra, avançam «de bruços no poema» que os agasalha, num notável processo artístico de reconfiguração do velho no novo, muitas vezes ao ponto de duvidarmos qual é qual, com o autor a levar-nos, inclusive, ao laboratório do poema:

«Por vezes regresso a este tempo verbal, / nada disto morreu. // A lancha tinha parado na memória, / e foi necessário um tempo novo / para ela prosseguir Cacheu acima, / connosco e com os mesmos fuzileiros, / todos já com cabelos brancos, // pois vi Gilmour cantar Comfortably Numb / do topo dos seus sessenta anos / […] / E eu, que não fui ungido / por nenhum deus, / tenho todos os tempos / na sua divisão inevitável, / até o futuro, / que era então esta estrofe, / escrita lentamente sobre / o desembarque em terra alheia» (p. 27).

Rastreados ao longo das 63 páginas, o desamparo de uma geração de jovens e o sentido de orfandade encontram na escrita processos cénicos de grande força dramática, formas de se interrogar a estranheza do sujeito perante a representação de um papel que não é o seu ou perante uma realidade que o envolve e esmaga: a despedida no cais de Alcântara, onde o sujeito lírico assiste à sua própria passagem como se se visse num filme, orientado por vozes de «altifalantes anacrónicos», enquanto, confuso, «sentia o sangue de a vida não ter prazo / e, em queda, a eternidade de ser jovem / com a morte adiante, / que um grito colectivo rasurara»; «eu a ver-me num barco»; «E eis-me a representar com estes negros / o papel dos antigos marinheiros»; a analogia do palco da guerra com jogos de vídeo de «assassinos digitais que matam por matar».

Contra a rasura, o poema ergue-se com os «Mais de três mil homens / metidos / em camuflados, / alguns choram e tentam esconder-se», pouco lhes valendo o ópio das quimeras das raparigas que «nuas esvoaçam / de sonho em sonho», quimeras que perderiam na escuridão inextinguível do mato, porquanto lhes ficaria gravada no ADN com promessa de «nova solidão» para o resto das suas vidas; ergue os que regressariam em «caixões selados, secretos», porque «“os filhos mortos deitam um cheiro insuportável”, / diziam os paisanos», os mortos pela pátria que voltariam a morrer nela em «funerais anónimos»; ergue-se contra o mesmo esquecimento votado ao paquete que os levou e que se finaria «de ferrugem e artrite» no Mar da Palha.

Neste projecto de escrita em que o pensado é o sentido, o poema de Nuno Dempster activa, também, um sentimento de pertença aos lugares da memória de África, num pacto secreto e veemente com o passado: «as minhas botas eram / surdina em movimento, / seguiam outras botas / por trilhos proibidos, / no odor enjoativo das acácias, // não mais o consegui tirar da pele, / senão esta manhã, / em que pensei deixá-lo no poema, // até ao ponto / de a sua evocação me recordar / a saudade imprecisa de África» (p. 28); «eu era aqueles putos negros / de olhar astuto / no k3 e agora em Colibuia.» (p. 48); «E chega-me esta gente como um peso, / não me sai da lembrança, / não me sai do poema, / acompanhou-me oculta até hoje, / um crime por julgar / que eu deveria ter testemunhado / num tribunal que sei não existir / para pobreza tão funda. // Oh, terreiro nu de Colibuia, // onde nem flor se vê, / nem erva cresce, / as cabanas em volta, / pó não sei de que vidas miseráveis, / levantado por botas militares // e pés negros que nunca vi dançar, / batendo de alegria, ritmados.» (p. 49).

K3 sucede ao poema Londres, ambos títulos incontornáveis que fazem de Nuno Dempster um dos mais notáveis escultores da memória da actual poesia portuguesa. «É da torre mais alta do meu pranto / que eu canto este meu sangue este meu povo», escreveu o poeta José Carlos Ary dos Santos; em K3, Nuno Dempster diz-nos de forma clara, inviabilizando toda a ambiguidade, qual a missão do seu poema que é, afinal, a missão da sua escrita: «não sei de ninguém / que cale esta viagem / nas cabeças dementes e na minha, / e possa devolver os pássaros / aos choupos; / e o vagaroso ritmo, às colheitas; / e a inteireza do lódão, / aos homens, // de modo a que o navio não navegue / no fluxo da memória / e as palavras não contem, / quietas sob os mortos, / no seu inviolável cofre de silêncio.» (p. 15).


K3, Nuno Dempster; &etc, 2011


* ler aqui texto sobre Londres, de Nuno Dempster


© Teresa Sá Couto