domingo, 23 de novembro de 2014

O Aleph de Mário Sequeira Santos



AREIAS DE LAÍR é o título do primeiro romance de Mário Sequeira Santos, obra lançada neste Novembro com a chancela da Edições Esgotadas. Em dia de aniversário do autor, publico aqui o Prefácio do livro, que tive a honra de escrever. 


O Aleph de Mário

Se todos os lugares da Terra estão no Aleph, ali estarão todas as luminárias, todas as lâmpadas, todas as fontes de luz.

                                                                                                                    Jorge Luís Borges



Há uns anos, navegando erraticamente na web, estanquei num ponto luminoso: um texto raro, de palavras marulhadas em pedras, pedras boleadas pela memória depois poalha no dorso do vento. Aquela luminescência levar-me-ia ao presente cais de assombro, o romance Areias de Laír, primeira obra de Mário Sequeira Santos. A obra «instala um mundo», diz Heidegger, e «ao abrir-se um mundo, todas as coisas adquirem a sua demora e pressa, a sua distância e proximidade, a sua amplidão e estreiteza», acrescenta. Instituindo um mundo, a presente narrativa prolonga o braço e introduz forças sobrenaturais, telúricas, lança mão ao realismo mágico para ocupar vazios, acrescentar universos paralelos, criar infinitos, mostrar que obscuridade e transparência, segredo e revelação são, afinal, faces da mesma moeda, que em tudo há um lado visível e invisível, dando amplitude ao próprio conceito de imaginário.

Na narrativa de Mário, o lugar de Santa Eménia, com o rio Uádi que lhe nutre os campos e se reúne no espelho circular de uma lagoa, é a lente donde se vê o universo amplificado, o ponto onde confluem os tempos, os lugares, as pessoas, a história das demandas; é o Aleph, na inconfundível acepção de Jorge Luís Borges, no conto do mesmo nome, Aleph elevado a Aleph repetindo-se até ao infinito.

O som de uma campainha que estremece o silêncio anuncia ao leitor a entrada na história que, prestes, lhe dá a saber que «Há três dias, São Domingos era, como há cem anos, uma memória parada». Com um presente a remeter para uma memória passada que, por sua vez, remete para outra ainda mais longínqua, evidencia-se a intenção narrativa de levar o leitor numa expedição ao interior do tempo. E o texto sabe que para construir a memória tem de ser errante, saber que executa na perfeição: imbricando as duas grandes sequências narrativas em que assenta; construindo espaços e tempos múltiplos, para uma peregrinação que só se cumpre no infinito; estruturando-se em sucessivas escarpas e nexos que se ocultam por detrás dum enredo fragmentário e aparentemente desconexo, efectivamente desconcertante; desenhando personagens intimamente ligadas, nos desejos, nos gestos, nas vozes, não obstante o tempo que as separa, e cujos nomes vamos sabendo por acaso, no meio dum diálogo, nomeadas por outras personagens, pois o que interessa a este texto é a voz da memória ou, como diz o narrador participante, um marinheiro que vem do mar para subir o rio, em afirmações dirigidas a outra personagem, mas que contêm o desígnio da obra e da sua leitura: «O passado, na minha vida, sempre fora uma espécie de intermitência no presente. Era assim que te seguia, servil, arrastando as patas do cavalo pelo rasto que ias deixando em trilhas que só os teus olhos descobriam parecendo ter a capacidade de desvendar, onde os outros não viam, vestígios antigos de vida ou a dimensão habitada por espíritos de sentimentos passados.».

Texto que não admite fronteiras, Areias de Laír acha no realismo mágico a enunciação certa para derramar a sua luz, criar enigmas, exibir prazeres da imaginação e da leitura.  «As memórias precisam de estímulos e cores para despertarem», diz-nos o texto que vê, ouve e serve de morada a vozes perdidas, sente e idealiza sentires, e propaga. No desempenho deste programa, contempla-se o diálogo de intimidade, secreto, entre as coisas e os seres, em palavras puras, quase sagradas, a interligação entre o mundo dos vivos e dos mortos, que talvez não sejam dois, mas apenas um, com facetas diferentes, personagens espectrais, assombrações, a história enigmática de Fusun, um Turco «que habitara no extremo junto às margens do Uádi», que enfeitiça a terra – prova-a para saber o sabor que lhe falta, tempera-a para ter dela várias colheitas num ano –, peixes maiores que pessoas que habitam o rio tornando-o inavegável, a passagem por baixo do rio, um caminho subterrâneo de simbologia múltipla: o enigma do poço, o abismo de trevas que está em nós, a voragem do Tempo, o território ambíguo dos desejos, o caminho para o desconhecido de uma vida nova. No final da narrativa, liberta-se já não o som de uma campainha, mas do silvo de um comboio onde embarcarão duas personagens. Quiçá, rumarão ao mar… Quanto ao leitor, certamente rumará ao início da narrativa, chamado pela voluptuosidade da escrita, pela ânsia de descobrir outros trilhos da memória, experimentando o sentido da demanda de Ulisses, do poema Ítaca, de Caváfis: o mais importante não é chegar, mas sim a inquietude, o desejo de partir e a experiência da travessia.

«Como as frases, as imagens podem ser histórias do que vemos, ditadas pelos olhos da nossa alma», diz-nos o texto. Pelos olhos da alma, vi, neste aleph de Mário Sequeira Santos, o mastro alto e sábio da Rúbia-no-mar, no cais contíguo de um estaleiro que servia de cemitério de navios. Vi uma garrafa contendo um pergaminho com um mapa e uma morada, vi o amarelo do whisky desmaiar no gelo. Vi pessoas e sombras no tabuleiro de xadrez da vida, vi um planalto de campas, com «pedras dispersas, de diversos tamanhos, geometrias e tonalidades». Vi uma casa em ruínas com frinchas nas paredes donde escorriam segredos, o cinzento desbotado de fotografias antigas, o verde do prado junto à margem do Uádi, o branco das margaridas, o verde da íris de Esmeralda fixar-me, e estremeci. Vi o caranguejo-real atraiçoado pelas correntes «a carregar com a desproporcionalidade das patas uma carapaça sem ideias e, conforme me aproximava, quase lhe pude distinguir os olhos suspensos a fitarem-me, numa partilha de compaixão, antes de se resignarem ao bico das gaivotas». Senti a água «gelada por um quilómetro de trevas», vi a chuva de meteoros, os clarões dos relâmpagos, ouvi o rugido do céu, o ruído das portas, vozes perdidas, o restolho de almas finadas, o canto das cigarras, as patas dos cavalos no empedrado, personagens em cochichos com os bichos, o pio dum casal de corujas, o som pungente de um cravo em diálogo com os gemidos do vento e o chicotear da chuva, o «gotejar ritmado de água na água» e o eco da saudade. Vi a escuridão povoada. Ouvi o gemido das algas. Vi arder a água fria e escura da memória. Vi homens e mulheres tentando equilibrar-se na linha recta das suas solidões, vi-os recolherem-se no ventre acolhedor do tronco largo de uma velha oliveira, «espécie de barco velho ancorado por raízes fossilizadas», e senti-lhes a vontade de se evadirem da sua condição. Vi o espelho assustador das águas do Uádi, porque são assustadores os trilhos que levam o ser humano ao encontro de si mesmo. E vi todos os seres da Terra em areias brilhantes de Laír que a mão do escriba acendeu.


Teresa Sá Couto
Lisboa, Maio de 2014

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Biblioteca Itinerante José Marmelo e Silva



Já aqui falei de José Marmelo e Silva (1911-1991) e da Casa da Cultura José Marmelo e Silva, na freguesia do Paul, local de nascimento do autor. Menciono agora a Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva, em Espinho, onde o autor fixou a sua residência, e a iniciativa de serviço público que nos orgulha. As fotos e o texto que se seguem são da Biblioteca. O agradecimento é todo nosso.



"Com o início do novo ano letivo, a Carrinha Itinerante da Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva faz as delícias de crianças e idosos, percorrendo quilómetros para levar os livros a mais de 7000 pessoas por ano.
A Biblioteca sobre rodas, do concelho de Espinho, atende uma diversidade de público que vive na periferia da cidade, inclusive as escolas que não possuem biblioteca escolar, infantários, lares e centros de dia. Da carrinha saem cerca de 13 189 documentos por empréstimo anual, permitindo, desta forma, fazer o leitor viajar através do contacto com os livros e material multimédia. Este projeto também pretende ser útil para utilizadores com mobilidade reduzida, fazendo chegar os documentos ao domicílio.
Assim, os interessados neste serviço poderão contactar a Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva para mais esclarecimentos, através do telefone 227335869 ou pelo email: bme@cm-espinho.pt.
A partir do dia 7 de outubro, de 2ª a 6ª feira, das 9h00 às 17h00, poderá encontrar a Carrinha Itinerante a circular pelas estradas do concelho de Espinho.".


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Novo livro de poesia de Francisco Duarte Azevedo





Livro de Inverno e Transições é o novo livro de poesia de Francisco Duarte Azevedo, que o próprio apresentou, no passado dia 15 de Janeiro, em Viseu. Como no livro anterior, As Habitações Interrompidas, publicado em 2012, o prefácio é meu. É esse texto que aqui deixo. 








A partitura do tempo no silêncio da palavra

 Já sabíamos
 que na poesia cabem
 todas as cores e todos
 os disfarces. Ou não fosse ela
 feminina. Mas lá 
 também cabem, como agora
 sabemos, todos
 os timbres do solfejo. No corpo
 da poesia há sempre 
 uma partitura. […]

 Albano Martins in A Voz do Olhar


Livro de Inverno e Transições é o segundo andamento de uma trilogia poética que Francisco Duarte Azevedo iniciou em As Habitações Interrompidas, este publicado em 2012, também pela Edições Esgotadas. Produzido em 2005 entre Summit, Newark, New York, Lisboa e Springfield, o presente livro transporta um silêncio ramificado por aqueles espaços, outrossim por caminhos interiores do ser humano. Propõe-se uma «sinfonia escrita na partitura do tempo» regida por um sujeito poético que cumpre uma viagem de auto-conhecimento, reconhecimento e de construção da identidade. 

O tema do Inverno emoldura na perfeição o tempo de recolhimento, de intimismo, aquele em que «Os seres hibernam nas profundezas da terra». Em Livro de Inverno e Transições, o vento gélido empurra o barco pelo rio branco da memória, o sujeito poético aconchega-se na brancura da neve, ata-se «à cadência do tempo embranquecido», deixa-se hipnotizar pelos «movimentos simétricos e gelados» dos átomos níveos, leveda-se na «aragem fria e cortante», procura que o céu de bruma lhe devolva a razão de Ser, lança-se numa viagem iniciática ampliada, modificada e resgatada pelo olhar metafórico e sensitivo. Se Francisco Duarte Azevedo já nos atestava, em As Habitações Interrompidas, a sua competência plástica, que erigiu em imagens inundadas de cor e luz, o poeta/pintor junta-lhe, agora, os timbres do solfejo com que se compõe a sinfonia da vida: unidas, paisagem visual e sonora anunciam a liberdade do sujeito na viagem ao conhecimento da própria vida. Assim, enquanto a palavra asperge luz sobre os dias pardos, o corpo do texto deixa-se invadir pela música fazendo nela mais uma sua casa. Instado a participar na recordação de um trajecto, o sujeito poético revive as experiências pela memória, atrai o leitor para a pauta da viagem onde regista o zunido do vento, o chiar dos ramos plátanos ao sacudirem «a neve dos braços», o estalido das farpas do gelo, «vozes», «gargalhadas», aquela «voz/que nos reconhece /como nós a reconhecemos», o pressentimento dos «passos/passos e mais passos/ensimesmados, meio acordados,/o toque-toque dos tacões», «tábuas rangentes», o «silêncio dos mochos», «o assobio/dos mantos leitosos/esvoaçando/como lençóis à luz», «os cânticos /e as cores dos colibris/ desatados num voo desenfreado», «telefones celulares/e aparelhos ultrassónicos» em busca de «diálogos íntimos/convencionais», o tilintar da porta do Barber Shop que se abre «para uma intimidade/soturna e melancólica», e tudo o que possa ser abarcado no jogo do olhar em volta, olhar com que o sujeito poético interpela a natureza e o ritmo dos corpos rumorejantes que com ele se cruzam e passam a ser parte da sua experiência. 

A «neve» marca o ritmo e a intenção que tecem este livro. Ela representa o tempo branco da memória e a página branca onde os seres deixam as suas pegadas. Ela é «um manto /habitável e delicado» onde «até Deus cabe». Ela é o frio que emite calor. Ela repercute o silêncio, é a fala essencial, pois tudo vem do silêncio e para ele converge. Ela confere energia musical à paisagem, marca a cadência da repetição do tempo e, nessa cadência, ela representa o movimento libertador da viagem a que se propôs o sujeito poético. A repetição cadenciada das anáforas é, ainda, a responsável pela tonalidade profética do futuro, patenteia eternos recomeços, e é uma interpretação do mundo: «Neve. O silêncio repete-se /Há paisagens eternas /onde o vento se acolhe /num silvo agudo e persistente /e a neve adormece./Neve. Repete-se o voo /das mãos vorazes sedutoras /evoluindo sobre a nudez./Neve. Repete-se /a magia da luz /que um silêncio/antigo não nega./Neve. /Repete-se o mundo.». 

Tratando-se de uma poesia que não posterga as outras artes, mas onde todas as artes interagem, onde tudo o que pode ser matéria humana convive, esta lírica ampara-se na estruturação rítmica para conjugar pulsões contrárias, pelo que encontramos, alternados, tons de resignação crepuscular e energia musical no renascimento da voz, esta inscrita a sangue fumegante no gelo branco: «O fôlego momentâneo/ oriundo da miragem/ de fim de inverno prende-se/ aos tons vermelhos/ das nossas lutas militantes/ e à memória das mãos firmes /empunhando as bandeiras /da liberdade e dos nossos /amores re-inventados.». Estamos perante as consequências do «drama do olhar/ que habita no espelho» de duas faces, a que recebe o olhar com amabilidade, e aqueloutra que lhe devolve a inquietação. Jorge Luís Borges disse que há espelhos hospitaleiros e há o pesadelo do espelho, e que «bastam dois espelhos opostos para construir um labirinto»; o silêncio deste Livro de Inverno e Transições posiciona-se no infinito que está no centro do labirinto; é desse centro infinito que nos chegam os acordes de um cravo e de um piano antigos de Scarlatti e Pachelbel, e é dele que emergem os violinos de Debussy; é a imagem desse labirinto a querer mostrar o seu infinito no branco das páginas que nos é sugestionado pela belíssima imagem da capa, uma pintura também de Francisco Duarte Azevedo

No centro do labirinto, «a ansiedade saltita /como os esquilos/frenéticos», o texto poético institui-se como participante de revelações e descobertas, marca o compasso da sua condição: «A noite azul /cobalto sobrevém no céu/e anuncia dias doirados./Entre sono e sonho / permanecemos ansiosos.». É no sonho que a ansiedade procura libertar as suas palavras que se amotinam, encostadas umas às outras, carregadas de memória, ousadas e indagadoras: «buscar uma prova,/um indício teu/no centro da floresta onde paira um sentimento, o murmúrio da água/a harmonia surpreendente/e uma nota musical que/as tuas mãos entrelaçam/entre partituras que esvoaçam/ ao acaso, eis o pedido que faço/ às aves que por aqui passam.». A presença do Tu, um sujeito feminino, sedutor e ambíguo, que carrega a ambiguidade inerente à poesia, surge no movimento de união com o Eu, num pacto de duas vozes viajantes e marca da viagem partilhada: «a pele das árvores/ está cheia de nervuras/ e os ramos frondosos/ amareleceram./ O meu corpo prende-se/ ao teu em busca/de um trilho./ Onde vais tu vou eu,/ simples e claro/ como a ondulação do mar.». 

Somos o obscuro, somos feitos da fugacidade da água, como já o disse Heraclito. Cabe ao poeta encontrar a palavras certas, esses «objectos ocultos/que desvendam os segredos,/ os códigos e os medos» da «mutação do tempo»; cabe à poesia imaginar; pela poesia, os poetas aninham-se e afiam «as palavras/na bigorna dos ferreiros./Elas são as espadas/e os cutelos que tecem/no campo de batalha/as cores da liberdade.». «E dá gozo imaginar», lê-se. E fica o leitor a imaginar o trajecto deste arroio que traz no seu caudal o percurso desde a nascente e que, em transições, se precipita para a foz anunciada do último tomo da trilogia. 


 Teresa Sá Couto
 Lisboa, Novembro de 2013

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Poesia de José Emílio-Nelson

É um pequeno grande livro, anda nas livrarias, contém uma poesia musculada, avassaladora, a poesia de que se precisa. Titula-se Pesa Um Boi Na Minha Língua e é assinado por José Emílio-Nelson, uma das vozes mais originais da poesia portuguesa desde há mais de três décadas. Deixo aqui o texto que elaborei, há largos meses, com a minha leitura do poeta.

(José Emílio-Nelson entre o seu novo título e as duas antologias poéticas que reúnem a sua poesia. Clicar na imagem para aumentar.)


«Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. – E vi que era amarga. – E injuriei-a.», escreveu Arthur Rimbaud (1), nome da vertigem, do desregramento dos sentidos, da transgressão, da procura de um verbo novo que as enfornasse, de uma estética que lhes servisse. Procurar a transgressão na poesia portuguesa contemporânea é encontrar, obrigatoriamente, o nome de José Emílio-Nelson para quem o verbo maldito vê na estética do feio o veículo da libertação. PESA UM BOI NA MINHA LÍNGUA(2) é o título do seu mais recente livro de poesia e mais um andamento dum projecto estético muito próprio, de uma invejável coerência, que desenvolve há 34 anos. Com o título colhido numa expressão do Agamémnon, de Ésquilo, o poeta, todavia, evidenciando o símbolo do boi enquanto animal terreno e sacrificado, imprime-lhe um deslocamento de sentido.

No Agamémnon, o Vigia espera o momento de apertar na sua mão a mão do seu senhor herói regressado de Troia, mas encobre o horror da traição da esposa durante a sua ausência, cala-se, porque «pesa-lhe um boi» na sua língua, i.é., inibe-se, recalca o fardo pesado que não o deixa dormir. O título, Pesa Um Boi Na Minha Língua, é uma engenhosa subversão da expressão de Ésquilo, porquanto solta um boi negro que não é manso nem amansado, que exulta a sua verdadeira natureza intensa e plena para depositar o fardo da sua existência no branco luzente das páginas.

«Porque me amarga a verdade, /quero lançá-la da boca», escreveu Quevedo anunciando os excessos que carregou de sátira e burlesco. José Emílio-Nelson liberta a poesia dos compromissos morais e do estético asséptico para escavar a imperfeição, o inferno humano e a divina comédia da vida, dando-nos a ideia de que os bons sentimentos inviabilizam a inquietação imprescindível ao acto de criar. Já Gomes Leal, em Fim de um Mundo, se arrogava «um cirurgião» que havia de retalhar a escalpelo a «carcaça linda e podre do mundo». A poesia de José Emílio Nelson «ocupa o território tenebroso do feio expressivo, princípio estético da intensidade realista que organiza a experiência existencial», escreve Luís Adriano Carlos na majestosa introdução à antologia A Alegria do Mal – Obra Poética I, 1979-2004, editada em 2004, pela Quasi Edições.

«Esta é uma poesia que assume a agressão ao velho e conformado bom gosto do leitor, levanta os véus, e o que se observa sob os véus são as fibras moles e corrompidas da carne, sem disfarces ou unguentos que mascarem a humana, demasiado humana condição do que decai, se degrada, se corrompe, se extingue», escreve Fernando de Castro Branco, no ensejo da publicação do segundo volume da obra reunida de José Emílio-Nelson, a antologia Ameaçado Vivendo – Obra Poética II, 2005-2009, editada em 2010 pela Edições Afrontamento. Consciente de que a fealdade é o que sobra quando o belo se ausenta, a poesia de José Emílio-Nelson adorna a beleza de sarro, «cospe mísero canto», faz do feio o espaço de exploração e, consequentemente, de conhecimento. No laboratório poético, onde o gesto selvagem e grotesco esgrime liberdade artística, dialoga-se com autores – quer explícita quer implicitamente – da literatura universal de todos os tempos, e dialoga-se com outras artes, como a pintura, escultura, música e fotografia, artes que emprestam o seu gesto à iluminação dos corredores escuros do ser humano.

Na Conversão à luz, as palavras de José Emílio-Nelson surgem como aves «derramadas no seu voo sobre a bruma inquinada», voam em «águas ermas», retêm-se no fundo das águas, e desafiam o leitor com perguntas obscuras, carácter, ainda, de uma poesia de questionamento de si mesma: porquê?, o «Que as retém lá fundo?» (p.10), «que mão desaparece e aparece por dentro de nós? /É mão ainda a que desce sobre os versos? Mão agónica? /Qual mão? /A que mortifica muda e confusa e nos consome? / Ou a que evola Deus?» (p.9); ou, ainda, intercetemos o desígnio desta poesia detendo as chaves do poema Lux Aeterna: «A mão que faz de si um sopro enlaça os dedos e canta. /É a voz de quantos gestos? /Sobre ela se enxerta uma e outra voz que escurece. /Num sítio ermo, bem fundo, /A sua magnificência na vacuidade do Mundo. /E apodera-se dum silêncio que depois clamoroso se repete /E repete belamente a sua escuridão. /Perde-se e relampeja em orlas escuras, /Sulca e assenta, acalmada.» (p. 22). A mão de uma poesia que liberta objectos e seres da aparência comum, que é a artífice da denúncia da desventura terrena, e que enxertando-se de vozes evoca a procura da condição humana, só pode imprimir o Deus humílimo que se liberta da sua condição inumana para habitar o corpo desgraçado do Cristo agonizante da crucificação, o Deus escuro que ressuma nestoutro poema de O Livro de Horas, de Rainer Maria Rilke: «o meu Deus é escuro e como que um tecido /de cem raízes que bebem silenciosas. /Só sei que me levanto assim do seu calor, /e mais não sei, pois todos os meus ramos /repousam lá no fundo e acenam só ao vento» (3), escreveu o poeta alemão aludindo a um Deus que é a «Coisa das coisas», e o poeta a sua «ânfora», o seu «hábito», o seu «ofício»; posto isto, em Pesa Um Boi Na Minha Língua, não será Cristo a resina que se queima nas brasas?, ou dito assim no texto Naveta e Colher: «Do meu escuro Deus cai a luz que O deixa morrer /E que O depõe e O apodrece com roupa purpura, incensado. // Cristo é a naveta? Deus é colher?» (p.11). 

Iluminar o feio é pôr a nu a decadência e a miséria humanas. Sem nos falhar, o texto faz a pergunta e dá a resposta clara: «Como aparece Deus velado ao que perde a nudez esbelta? /Maravilhado.» (p.12). É por esta razão que a nudez de San Sebastián, de El Greco, é profanadora, e é também por isso, e porque aquela dor nos identifica, nos é familiar, que a sua beleza convulsiva nos maravilha e nos fascina: «A devoção encandeia, afadiga-se, alastra até ao amortalhamento./ As flechas mortíferas escoram o corpo vazado. /Detenhamo-nos, sem mais detalhes. /Escorre o óleo santo na nudez profanadora.» (p.54). O Homem é carne, mas também é espírito, e só a sabedoria artística do espírito pode harmonizar a fealdade do mundo em destroços. Acha-se o belo removendo escombros, escreveu o poeta Antonio Porchia, cita-o José Emílio-Nelson

Cumprindo a ideia de que a obra de arte deve devolver o homem a si mesmo, na inteireza vital, espiritual, material e física, a sua poesia adopta um processo análogo ao da fotografia que adquire a sua força deslocando o objecto do seu contexto para o imprimir num outro e novo contexto. O resultado são imagens de espanto e inquietante estranheza. Para José Emílio-Nelson, o ar é uma zona corporal do homem, o que vem ao encontro do defendido por Novalis, de que «O ar é tanto órgão do Homem como o sangue», que «o exterior não é mais do que um interior distribuído» (3). O ar é a casa da voz, onde se dá a luta teimosa entre a efemeridade do ser humano e a infinitude do cosmos; veja-se o poema Cosmic Pulses: «Poisado cone num sopro aspergido /Espirais que derramam /Luminosos teclados turbulentos,/Eixos suspensos num horizonte de obscuridade profunda./Erguem em roldanas o Cosmos.» (p.21), estoutro: «Carrilhões riscam de sinos os mortos./A teimosia dos 6 percussionists de Strasbourg alumia com luz fraca //O caminho que estreita./Acedemos à infinitude a cada momento/ (p. 20), e ainda o poema, Circles Movements: «A Voz soletra o ar de pompa da percussion. A um ermo /Abre e distorce. Cada som ‘perscruta os planaltos’ /Ao excedê-los. Vislumbramos o exumar do Céu.» (pág. 17). O ar do corpo interno também se liberta em burlesco sonoro, como no exemplo do texto Dama Canhão: «A dama move-se, /Nada mal, as nádegas em tacão /Deixam rasto de lagartas /Castrenses, só que a mulher usa pestana escarlate. /O cinto seca-lhe a cintura farta, é seca, /A dama para quem em redor a faz de louca. /(Detona pó sem dó que nem canhão. /Ou serão gases?)» (p.77). 

Por outro lado, «Em divergência com as mitologias literárias, a cosmogonia de Emílio-Nelson começa na urina, a água da vida segundo a tradição medicinal», diz Luís Adriano Carlos. Com efeito, se o «verdete agonizante do metal da alma» se estende às reveladoras «alvíssimas lágrimas», a (outra) água da vida irrompe purgadora no texto Cães: «Vou ser asceta, piedade pela cadela./O chumaço das tetas, vou ser vulgar, lágrimas rosas,/ A arrastar a matilha estouvada que a morde à vez, de joelhos./Cadela em fuga, prostrada nas urinas,/A rezar, julgo eu, a rezar.» (p.51), ou em purificação apolínea, numa viagem a Delfos: «Nas poucas horas que passei em Delfos, /Miniatura do folclore grego, uma mulher rendada /Oferecia os seus olhos cegos poisados na mão com que me tocava. / (A excursão inteira continua atenta ao guia que mal fala.) / Iludindo a mais amada, urinei para os olhos da cega, / Que por isso implorava.» (p.72). Falar do feio é falar do Tempo – tempus edax omnium rerum –, o feroz devorador de todas as coisas até as tragar totalmente; o tempo é «Impiedade» apresentada, por exemplo neste texto: «Com sapatinha de espalhar trampa, chagado. De capuz, carapinhoso. /Agitava-se empoleirado no vinho drogado./ Desfalecido, as pestanas escurecem./ Repousará, tão atroz, outra vez dentro de sua mãe. / Ah, que importa. Jaz Morto.». (p.59). O regresso ao útero materno indicia que, se «O decorrer do tempo ofende a Beleza», o texto também lhe reconhece a capacidade de recomeço, ideia plasmada na Fénix que se regenera: «a fénix aflitíssima mede o tempo justo para repetir as cinzas» (p.49). Nas Metamorfoses, Ovídio apresenta a Fénix rediviva e também a Fénix do poeta latino «Não é de grãos ou de ervas/que vive, mas de lágrimas de incenso e da seiva de amomo.» (4). 
Símbolo da morte e renascimento, também a cobra é chamada ao texto; nela se conjugam metamorfose e erotismo patentes na mulher que se contorce voluptuosamente, confundindo-se com a serpente, metamorfoseando-se na própria serpente, do poema Cobra, a Morbideza: «A mulher que trabalha na morgue vai vomitando. / Enrosca-se cerosa nas gavetas como se fosse dormir /Demasiadas vezes na morte. / (Muda, a cobra escuta-a, /Suspira noutra muda repentina.)» (p.70).

Com admirável rigor, o vasto bestiário está ao serviço do reconhecimento da dimensão infernal da dita vida interior e de um programa poético que nomeia a penitência da lesma, a pomba que martiriza o espírito, o pelicano que «obedece a Deus ao aspergir o seu sangue redentor sobre as crias que mata», o asno com desejos de autoflagelação, a gralha cuja crista é o «abanico de certas almas» ou o cisne, «a soberba que alegra os órgãos genitais de suspiros». As pulsões sexuais, o sadismo e o masoquismo têm terreno fértil na palavra que exprime o subterrâneo, a perversão, o licencioso, pelo que esta poesia não se coíbe na utilização de vocabulário erótico e pornográfico, provocatório e agressor para o qual concorre a atenção sobre os detalhes físicos da violência sexual que compõe a coreografia dramática do discurso corrosivo e satírico; vejamos dois clips: «Assisti a um clip [bondage] em que eram penetrados / Uns tantos pelo corpanzil dum latino que os cobria empenhado /Untando com vaselina nas pálpebras doutro mais alheado. /Consumido nisso, pondo-se a jeito, implora, e é enfiado. / (E sem óleo santo que o salvasse.)»; «O cão cobria-a como pele de raposa, empertigara-se, /A pata rosa abusava, deixava mossa. . / O focinho mordia, ia avançando, encostou-se, / E ao bambolear ela gemia, devia ser mau, /Mais do que no vídeo se ouvia.» (p.74). 

Se na origem da beleza está unicamente a ferida, há pois que isolar as feridas para lhes descobrir o significado, iluminá-las, pelo que cada texto é um espaço infinito e de luz imensa. Neste sentido, a poesia de José Emílio-Nelson é um humanismo, e em muitos dos seus textos ecoa o grito das figuras cruas, delicadas e terríveis, e por isso, de beleza avassaladora, de Alberto Giacometti. Confira-se no texto Mina San José: «Rezo pelos mineiros chilenos. /As almas soltando labaredas de El Greco./Ciclopes à espera de subirem ao céu azul pelos tubos dum órgão de luzes que os ressuscita no sepulcro. //Estes mineiros extraem Deus.» (p. 60). Ainda, o jogo de acasos, imagens e metáforas e hipálages com que se liga o mundo interior ao mundo exterior fazem lembrar a prática surrealista do cadavre-exquis. Veja-se o poema Moeda com que esta poesia paga a experiência da realidade esmagadora: «Numa viela, em cima de cartão prensado, /Senta-se mais engelhada que os trapos. /Raspa com as unhas a cabeça do cão atormentado. /O fundo da garrafa serve de caçarola /E atira para aí as moedas. / (Ferrugentas são peças de coleccionadores.)» (p.84).

A poesia de José Emílio-Nelson não é de fácil leitura. Independentemente de questões de gosto, ela não é acessível ao leitor pouco experimentado. A sua «escrita em mosaico», assim caracterizada por Luís Adriano Carlos, prenhe de deslocamentos de sentido, associações insólitas, movimentos espiralados, vocabulário onde dialogam o erudito e o brejeiro, a dor e a mofa, a inevitabilidade e o recomeço, fazem sacudir um outro novo nervo, outro latejar se impõe, outra releitura se inicia, e a sua poesia nunca está lida. Mas não será este o privilégio da melhor literatura?




notas:

(1) Arthur Rimbaud, Iluminações / Uma Cerveja no Inferno, Assírio&Alvim, 2007, p.117.
(2) José Emílio-Nelson, Pesa um boi na minha língua, Edições Afrontamento,2013.
(3) Rainer Maria Rilke in Poemas, ed.Asa, Lisboa, 2001, tradução de Paulo Quintela, p.84.
(4) Fragmentos de Novalis, Assírio&Alvim, tradução de Rui Chafes, 2000, p.95.
(5) Ovídio, Metamorfoses, Livros Cotovia, tradução de Paulo Farmhouse Alberto, 2007, p.375.

© Teresa Sá Couto