terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Os Olhos do Homem que Chorava no Rio


Há um tipógrafo que chora palavras, algures nas margens do rio Douro. Chora-as para o rio, e apazigua-se.
Há uma rapariga que, sentada na beira do rio, colhe, com «a concha das mãos dos olhos» sôfregos, palavras choradas pelo tipógrafo. Lê-as, e aprende a chorá-las, engrossando-se o caudal. E há o leitor, adicto, puxado para essa correnteza donde jamais quererá sair. Assim se cumpre o mistério: «Ler é tudo isso, afinal, e ainda gostar e continuar lendo, mesmo depois das lágrimas e dos sustos, das angústias e dos medos».

O livro Os Olhos do Homem que Chorava no Rio é um romance escrito a quatro mãos exímias: Manuel Jorge Marmelo e Ana Paula Tavares. É um livro de mistérios sobre o mistério das palavras. É impossível entrarmos nele sem que façamos, de imediato, parte dele. Ele aloja-nos na sua parte maior, a construção da nossa própria história. Um portento de originalidade. Um adejar de alma.

A escrita, como sacrifício e penitência é explanada no e pelo tipógrafo. Ele sabe todas as palavras, e todos os livros. É no rio da língua, onde empresta o coração, que as chora, «devagarinho entre soluços e pausas para respirar», lava-as, simplifica-as, liberta-as para leitores ávidos. As palavras, de todos os livros, são sempre as mesmas, remisturadas e recombinadas. Algumas são talhadas para a perfídia, outras para o colo e o mimo. É o escritor, o responsável pelos humores do rio, pela trama narrativa, por acender o lume das emoções. A rapariga que lê é o motivo último do tipógrafo. Sem ela, ele não existiria, pois «nenhuma das suas lágrimas seria lida».

A leitura como recriação é apresentada na rapariga que lê com sobressalto «as sílabas que se destacam da água, aumentando o ritmo ao fio das palavras, repete-as baixinho como se tivesse medo de as perder lê os fragmentos de histórias que completa todas as tardes». Ás vezes, «Num dia de mais palavras, um pequeno coração pode não caber no peito.». Outras vezes, «transita o corpóreo para um limbo qualquer, para um recanto inabitado onde se guardam as coisas que detêm os segredos do mundo.». São as vivências com as palavras que nos ensinam a chorá-las, a clarificá-las. Não será assim com todos os afectos?
Acompanhando quem escreve e quem lê, existe, ainda, uma «legião de Vultos», mais solares, ou mais sombrios. É por isso, que no meio das palavras, se ouvem «ecos de vozes, por vezes sombras de vozes, frases como bolhas de ar». Há que esperar pela música, o som perfeito do Adufe. Este som “mais-que-perfeito” acompanha toda a prosa poética desta história surpreendente, interlocutora com o mais fundo de nós.Resta-nos dizer que este livro imaginado só adquire a sua consistência no exterior, em nós seus leitores que lhe definimos o enredo:

Donde vêm as palavras? Que fundos têm? Que correnteza é essa onde elas se juntam e em vertigem estremecem-nos na fímbria dos nervos? Que legião de vultos é essa que vigia as águas e nos faz deitar ao rio de palavras, mais água de palavras, num caudal sempre insatisfeito?

Se sabemos que as palavras vêm do assombro, respondemos ao mistério com um círculo vicioso de mistérios. Um desafio para bravas emoções.
Este é, indubitavelmente, um livro para se ler de um fôlego. Teremos, depois, a certeza que o lemos mal, e necessitaremos de recomeçar. Há que lê-lo devagar e chorar cada palavra. Ao som da música que dele escorre, subiremos o rio, da foz até à fonte. Quantas vezes forem precisas. Quantas vezes quisermos construir a nossa história.

Os Olhos do Homem que Chorava no Rio; Ana Paula Tavares / Manuel Jorge Marmelo; Editorial Caminho, Lisboa, Janeiro de 2005

*elaborei este texto em 2005, na altura do lançamento do livro.

© Teresa Sá Couto

8 comentários:

contador antropomórfico disse...

E que «teaser»! ... :-)
Abraço

Manuela Araújo disse...

Olá Teresa
Passei por aqui para desejar um feliz Natal, sobretudo com a companhia daqueles que são mais queridos, com muita alegria e amizade, e sem esquecer a solidariedade para com os que mais precisam.
Um abraço

Claudia Sousa Dias disse...

adequadíssimo para o Natal!

parabéns mais uma vez e votos de boas festas!


beijinhos


csd

Maria Josefa Paias disse...

Se se lê de um só fôlego, Teresa, tenho que aguardar alguns dias porque o meu fôlego anda pelas ruas da amargura:))
Mas, com esta apresentação, é difícil resistir.
Um abraço e Boas Festas.

contador antropomórfico disse...

É precisamente isso, Maria Josefa. As apresentações da Teresa são, de facto, irresistíveis. Fica-se sempre com vontade de ler.

Passei, também, para deixar os meus votos de Boas Festas e Óptimo Ano, com muitos livros! :-)

cão sem raiva disse...

Um bom Natal cheio de livros!
(e não só, claro)

Teresa disse...

Obrigada a todos pelos votos, que retribuo com sentido carinho.

Sobre livros, cá estarei para vos dar conta dos meus olhares.

Abraços
TSC

.Leonardo B. disse...

Não resisto a partilhar, Amiga Teresa, uma mensagem “urgente” que a Amiga Rejane me enviou; partilhá-la é o mínimo que posso fazer, possa ou não ser “prematura”, tamanha declaração:

“Depois de uma séria e cautelosa consideração, gostaria de notificar a renovação do nosso CONTRATO DE AMIZADE, para o ano de 2010 e seguintes…

“Nunca desvalorize ninguém…
Coloque cada pessoa perto do seu coração
Porque um dia você pode acordar
E perceber que perdeu um diamante
Enquanto estava muito ocupado a coleccionar pedras”

[Mande este abraço para todos os que você não quer perder em 2010, adverte-me a Amiga Rejane: é meu dever, minha tão grande obrigação…]

Um imenso abraço

Leonardo B.

Um imenso carinho, com tudo o que a vida conte, incondicionalmente