terça-feira, 24 de agosto de 2010

Quatro estações de vida

Anda muito esquecido, mas é um título que encerra quatro pérolas literárias. O As Quatro Estações, de David Mourão-Ferreira, contém quatro contos para quatro figuras de mulher narradas em labirintos, escadas em espiral, espelhos, mágoas, perdas e cicatrizes, a incitar a reflexão sobre a vida subjugada ao curso implacável do tempo linear e irreversível, em oposição ao Tempo circular da natureza regenerada a cada ano.
Já Camões, no soneto Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, certificava a oposição do ciclo do homem/ciclo da natureza com desalento e amargura pela condição humana: «O tempo cobre o chão de verde manto, /Que já coberto foi de neve fria, /E em mim converte em choro o doce canto.».
Mestre da surpresa e da metamorfose, David Mourão-Ferreira vai, todavia, mais longe, reescrevendo com rebeldia os mitos das Estações: se no Inverno ressuma o mito correspondente - «a fase das ilusões perdidas» -, é nele que surge a sabedoria e «o anúncio da madrugada». E comprova-se que a arte da palavra reergue o que o tempo dissolveu e eterniza o nome de quem, com empenho, a esculpiu.

Vera, Wanda, Beatriz e Erika constituem a tetralogia, dispostas pela ordem das Estações do ano, Primavera, Verão, Outono, Inverno. No «belo» posfácio – assim caracterizado pelo próprio Mourão-Ferreira em Nota do Autor à 2ª edição, também incluída no livro –, com o título «Mutação, Anamorfose», José Martins Garcia apresenta uma leitura dos contos e diz que Mourão-Ferreira é um desmistificador de mitos, havendo a necessidade de se «descobrir que espécie de mutação sofrera toda essa provável mitologia»: nem Vera e o Acidente se apresenta como «narrativa primaveril»; nem Wanda e o Espelho representa a «exaltação de um qualquer mito solar»; nem Beatriz e o cãozinho de trela se «compraz com os crepúculos outonais»; nem Erika e a madrugada evidencia o «azedume do Inverno».

Degrau a degrau a aprender a vida

Sobre o tempo que passa e não volta, diria, ainda, Camões: Que me quereis, perpétuas saudades? /Com que esperança ainda me enganais? /Que o tempo que se vai não torna mais /E, se torna, não tornam as idades. Retornar às idades para as esclarecer é o compromisso narrativo de David Mourão-Ferreira. Longe do berço – pátria e infância –, em Nova Iorque, um homem de meia idade percorre um estranho museu «destinado a exposições temporárias», com «heteróclitos objectos pendurados nas paredes, suspensos no tecto, amontoados no pavimento», malas esventradas, peças de roupa em farrapos, sapatos, livros, espólio de existências que se observa num percurso descendente, por uma «rampa espiralada». Envolvido por estes restos de vidas, o seu olhar detém-se numa visitante, uma rapariga de face redonda,  loira como o sol, vestida com o vermelho da fatalidade que lhe faz lembrar a Vera dos seus 14 anos, de há 40 anos atrás, falecida então num acidente de automóvel, que sempre o desprezou, mas que ele, sabe-o agora, nunca esqueceu. Atordoado pela a imagem que guardou de Vera, e intrigado pela razão da memória em recordar «determinados incidentes» deixando outros conservados na «densa neblina», segue a rapariga por outros espaços, escravo do «caprichoso mecanismo» da memória em reconstituir ao pormenor, a imagem do passado da sua infância.

E a memória ensina; o sentimento de perda, agora clarificado, possibilita ao sujeito a «descoberta radical» de que a dor fica para sempre tatuada no corpo: «nada pode algum dia eliminar o género de infelicidade em que vai pensando. E é como se dentro de si também tivesse deixado de chover; ou como se, entre os esboços de todos os arranha-céus que dentro de si transporta, também se fossem abrindo clareiras de um azul igualmente inútil, igualmente precário e para sempre silencioso.».

No segundo conto, Wanda é a corista que fascina Jonas, o rapaz vindo do Seminário dos «confins da Beira Baixa», no Verão dos seus 17 anos. Por uma «escada de ferro em caracol», o rapaz entra nos bastidores de um teatro cheio de espelhos redondos que reflectem o mise-en-scéne da existência humana, expõem a verdade e registam as metamorfoses do corpo, num diálogo entre personagens e leitores, todos «parceiros num jogo estranho». É lá que Jonas, como as escadas indiciavam, num labirinto de frieza, conhece um pai misterioso, machista e fútil e o seu mundo decadente com as coristas. O Verão de todas as aventuras, o Verão de Wanda, é o da impossibilidade de aventura.

Na senda da "desmistificação",  surge a lição do Inverno com o autor a dar a «Erika e a madrugada» do seu Inverno, suprema dignidade. É clara a mensagem: o que importa é enfrentar o (s) tempo (s) e fazer dos degraus da vida um caminho para a luz para e não para as trevas, sendo o percuso, ou devendo ser, ascendente e não descendente. Antes reticente, Erika decide ir ao casamento do homem que amou, e o texto, com uma narrativa em jeito de carta que arruma o passado, corre assim:
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mudaste de ideias e fizeste bem: tinhas de mostrar a ti própria que eras capaz de aparecer; tinhas de novamente pôr à prova o teu fair-play, a fim de conjurares, com a tua presença, a permanência ou o retorno de alguns fantasmas. Não estás muito segura de o ter conseguido. Mas talvez nem seja isso que importa.

Também Erika abre a janela sobre o passado de perdas, mas para o resolver, e nessa janela alvorece o futuro. O texto, brilhantemente, explana-o assim:
(…) e já tornaste a pôr sobre os ombros o casaco de peles, de novo pensando na ternura e na violência daquelas duas mãos que tanto gostavam de encontrar-te, aqui mesmo, geralmente durante a noite ou já de madrugada, apenas com este ou com outro casaco em cima do corpo, e que tanto gostavam, depois disso, de com ternura e violência avidamente to despirem.

© Teresa Sá Couto

domingo, 22 de agosto de 2010

Memórias de "Um Amor Feliz"

É considerado um dos melhores romances portugueses do séc. XX. Editado em 1986, Um Amor Feliz de David Mourão-Ferreira  narra um caso amoroso, adúltero e escaldante de um artista plástico com a senhora Y, sigla de sugestão erótica com que David inicia o romance.
História de um amor que se perdeu, o título de felicidade reporta-se, ainda, inevitavelmente, ao amor pela escrita, acto erótico e sexual de fecundação: «a feminina multidão das palavras: as que se entregam, as que se esquivam; as que é preciso perseguir, seduzir, ludibriar; as que por fim se deixam capturar, palpar, despir, penetrar e sorver, assim proporcionando, antes de se evaporarem, as horas supremas de um amor feliz. Não há matéria mais carnalmente incorpórea; nem mais disposta a por amor ser fecundada.».

Com recurso à Memória, e sempre ela como força da criação davidiana, reconstroem-se os meses de encontros arrebatadores e luxuriantes do narrador com senhora Y. O espelho está lá – o grande espelho no atelier onde se dão os encontros amorosos –, metáfora da memória, superfície da revelação, numa escrita magnificente pejada de símbolos:
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Estamos ambos de pé, estamos ambos nus, diante do enorme espelho aí à largura dessa parede: e todo eu me escondo atrás do seu corpo, assim lhe mostrando como só o seu corpo ali merece reflectir-se. Acaricio-lhe e sopeso-lhe os seios, ora um ora outro, na palma da minha mão direita, enquanto com os dedos da mão esquerda lhe modelo o pescoço, o ombro, o flanco, o ventre, o deslumbrante nascimento das coxas (…). Mas os seus olhos apenas espiam, na superfície do espelho, o reflexo do meu rosto semioculto.
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A premência de se recuperarem fidedignamente todas as sensações daquele amor proibido faz com que o narrador opte pelo longo diálogo que estabelece com a amada doutros tempos, recuperando ao ínfimo pormenor os momentos a dois, método de construção da história que terá magnetizado os leitores. Para essa cumplicidade com o texto concorre, também, a mestria das descrições sinestésicas, onde confluem o cheiro dos corpos em cópula, o sabor da pele em êxtase, o cetim da pele em torrente de arrepio, gemidos de vocábulos na cadência do tropel de cavalos, os olhos hipnotizados no outro, cada um dos sentidos sugestionando, motivando e enformando um outro sentido, num festim de imaginação: «raízes, ramos, folhas, frutos. E a gruta; e o grito. (…) Encontramo-nos, no entanto, muito mais despertos do que supúnhamos: sentimo-nos leves, límpidos, alados, lúcidos, como depois de uma trovoada».
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Metáfora doutro amor, esse sim imorredouro, está o laço a outro elemento feminino: a palavra - a escrita, a página, a Terra -, dito assim pelo autor:

(...) como se pode interpretar de outro modo esse velho lugar-comum de ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro? Só se em todos os casos se tratar de grandes e inevitáveis actos de amor. Com a Mulher, com a Terra, com a Língua. Mas de plantar árvores e ter filhos haverá sempre muita gente que se encarregue. De destruir árvores também; de estragar filhos igualmente. Em compensação, um livro, um livro que viva, multiplicado, durante alguns anos ou alguns séculos, e que depois vá morrendo, sem ninguém dar por isso, mas nunca de uma só vez, até ser enterrado na maior discrição ou até se ver de súbito renascido, inesperadamente ressuscitado, um livro com semelhante destino – luminoso por mais obscuro, obscuro por mais luminoso –, isso é que foi sempre o que me empolgou.

e ainda:

a maravilha que deve ser escrever um livro: a invenção dentro da memória; a memória dentro da invenção; e toda essa cavalgada de uma grande fuga, todo esse prodígio de umas poligâmicas núpcias, secretas e arrebatadas, com a feminina multidão das palavras: as que se entregam, as que se esquivam; as que é preciso perseguir, seduzir, ludibriar; as que por fim se deixam capturar, palpar, despir, penetrar e sorver, assim proporcionando, antes de se evaporarem, as horas supremas de um amor feliz. Não há matéria mais carnalmente incorpórea; nem mais disposta a por amor ser fecundada.

notas:
- Um Amor Feliz foi Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, Prémio de Ficção Município de Lisboa e Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores.
- a Editorial Presença tem uma edição mais recente do título, com capa diferente.


© Teresa Sá Couto