sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Novo livro de poesia de Francisco Duarte Azevedo





Livro de Inverno e Transições é o novo livro de poesia de Francisco Duarte Azevedo, que o próprio apresentou, no passado dia 15 de Janeiro, em Viseu. Como no livro anterior, As Habitações Interrompidas, publicado em 2012, o prefácio é meu. É esse texto que aqui deixo. 








A partitura do tempo no silêncio da palavra

 Já sabíamos
 que na poesia cabem
 todas as cores e todos
 os disfarces. Ou não fosse ela
 feminina. Mas lá 
 também cabem, como agora
 sabemos, todos
 os timbres do solfejo. No corpo
 da poesia há sempre 
 uma partitura. […]

 Albano Martins in A Voz do Olhar


Livro de Inverno e Transições é o segundo andamento de uma trilogia poética que Francisco Duarte Azevedo iniciou em As Habitações Interrompidas, este publicado em 2012, também pela Edições Esgotadas. Produzido em 2005 entre Summit, Newark, New York, Lisboa e Springfield, o presente livro transporta um silêncio ramificado por aqueles espaços, outrossim por caminhos interiores do ser humano. Propõe-se uma «sinfonia escrita na partitura do tempo» regida por um sujeito poético que cumpre uma viagem de auto-conhecimento, reconhecimento e de construção da identidade. 

O tema do Inverno emoldura na perfeição o tempo de recolhimento, de intimismo, aquele em que «Os seres hibernam nas profundezas da terra». Em Livro de Inverno e Transições, o vento gélido empurra o barco pelo rio branco da memória, o sujeito poético aconchega-se na brancura da neve, ata-se «à cadência do tempo embranquecido», deixa-se hipnotizar pelos «movimentos simétricos e gelados» dos átomos níveos, leveda-se na «aragem fria e cortante», procura que o céu de bruma lhe devolva a razão de Ser, lança-se numa viagem iniciática ampliada, modificada e resgatada pelo olhar metafórico e sensitivo. Se Francisco Duarte Azevedo já nos atestava, em As Habitações Interrompidas, a sua competência plástica, que erigiu em imagens inundadas de cor e luz, o poeta/pintor junta-lhe, agora, os timbres do solfejo com que se compõe a sinfonia da vida: unidas, paisagem visual e sonora anunciam a liberdade do sujeito na viagem ao conhecimento da própria vida. Assim, enquanto a palavra asperge luz sobre os dias pardos, o corpo do texto deixa-se invadir pela música fazendo nela mais uma sua casa. Instado a participar na recordação de um trajecto, o sujeito poético revive as experiências pela memória, atrai o leitor para a pauta da viagem onde regista o zunido do vento, o chiar dos ramos plátanos ao sacudirem «a neve dos braços», o estalido das farpas do gelo, «vozes», «gargalhadas», aquela «voz/que nos reconhece /como nós a reconhecemos», o pressentimento dos «passos/passos e mais passos/ensimesmados, meio acordados,/o toque-toque dos tacões», «tábuas rangentes», o «silêncio dos mochos», «o assobio/dos mantos leitosos/esvoaçando/como lençóis à luz», «os cânticos /e as cores dos colibris/ desatados num voo desenfreado», «telefones celulares/e aparelhos ultrassónicos» em busca de «diálogos íntimos/convencionais», o tilintar da porta do Barber Shop que se abre «para uma intimidade/soturna e melancólica», e tudo o que possa ser abarcado no jogo do olhar em volta, olhar com que o sujeito poético interpela a natureza e o ritmo dos corpos rumorejantes que com ele se cruzam e passam a ser parte da sua experiência. 

A «neve» marca o ritmo e a intenção que tecem este livro. Ela representa o tempo branco da memória e a página branca onde os seres deixam as suas pegadas. Ela é «um manto /habitável e delicado» onde «até Deus cabe». Ela é o frio que emite calor. Ela repercute o silêncio, é a fala essencial, pois tudo vem do silêncio e para ele converge. Ela confere energia musical à paisagem, marca a cadência da repetição do tempo e, nessa cadência, ela representa o movimento libertador da viagem a que se propôs o sujeito poético. A repetição cadenciada das anáforas é, ainda, a responsável pela tonalidade profética do futuro, patenteia eternos recomeços, e é uma interpretação do mundo: «Neve. O silêncio repete-se /Há paisagens eternas /onde o vento se acolhe /num silvo agudo e persistente /e a neve adormece./Neve. Repete-se o voo /das mãos vorazes sedutoras /evoluindo sobre a nudez./Neve. Repete-se /a magia da luz /que um silêncio/antigo não nega./Neve. /Repete-se o mundo.». 

Tratando-se de uma poesia que não posterga as outras artes, mas onde todas as artes interagem, onde tudo o que pode ser matéria humana convive, esta lírica ampara-se na estruturação rítmica para conjugar pulsões contrárias, pelo que encontramos, alternados, tons de resignação crepuscular e energia musical no renascimento da voz, esta inscrita a sangue fumegante no gelo branco: «O fôlego momentâneo/ oriundo da miragem/ de fim de inverno prende-se/ aos tons vermelhos/ das nossas lutas militantes/ e à memória das mãos firmes /empunhando as bandeiras /da liberdade e dos nossos /amores re-inventados.». Estamos perante as consequências do «drama do olhar/ que habita no espelho» de duas faces, a que recebe o olhar com amabilidade, e aqueloutra que lhe devolve a inquietação. Jorge Luís Borges disse que há espelhos hospitaleiros e há o pesadelo do espelho, e que «bastam dois espelhos opostos para construir um labirinto»; o silêncio deste Livro de Inverno e Transições posiciona-se no infinito que está no centro do labirinto; é desse centro infinito que nos chegam os acordes de um cravo e de um piano antigos de Scarlatti e Pachelbel, e é dele que emergem os violinos de Debussy; é a imagem desse labirinto a querer mostrar o seu infinito no branco das páginas que nos é sugestionado pela belíssima imagem da capa, uma pintura também de Francisco Duarte Azevedo

No centro do labirinto, «a ansiedade saltita /como os esquilos/frenéticos», o texto poético institui-se como participante de revelações e descobertas, marca o compasso da sua condição: «A noite azul /cobalto sobrevém no céu/e anuncia dias doirados./Entre sono e sonho / permanecemos ansiosos.». É no sonho que a ansiedade procura libertar as suas palavras que se amotinam, encostadas umas às outras, carregadas de memória, ousadas e indagadoras: «buscar uma prova,/um indício teu/no centro da floresta onde paira um sentimento, o murmúrio da água/a harmonia surpreendente/e uma nota musical que/as tuas mãos entrelaçam/entre partituras que esvoaçam/ ao acaso, eis o pedido que faço/ às aves que por aqui passam.». A presença do Tu, um sujeito feminino, sedutor e ambíguo, que carrega a ambiguidade inerente à poesia, surge no movimento de união com o Eu, num pacto de duas vozes viajantes e marca da viagem partilhada: «a pele das árvores/ está cheia de nervuras/ e os ramos frondosos/ amareleceram./ O meu corpo prende-se/ ao teu em busca/de um trilho./ Onde vais tu vou eu,/ simples e claro/ como a ondulação do mar.». 

Somos o obscuro, somos feitos da fugacidade da água, como já o disse Heraclito. Cabe ao poeta encontrar a palavras certas, esses «objectos ocultos/que desvendam os segredos,/ os códigos e os medos» da «mutação do tempo»; cabe à poesia imaginar; pela poesia, os poetas aninham-se e afiam «as palavras/na bigorna dos ferreiros./Elas são as espadas/e os cutelos que tecem/no campo de batalha/as cores da liberdade.». «E dá gozo imaginar», lê-se. E fica o leitor a imaginar o trajecto deste arroio que traz no seu caudal o percurso desde a nascente e que, em transições, se precipita para a foz anunciada do último tomo da trilogia. 


 Teresa Sá Couto
 Lisboa, Novembro de 2013

2 comentários:

António Casais disse...

Parabéns ao Francisco Duarte Azevedo por mais uma bela obra!
Parabéns Teresa pela excelência do teu prefácio.

Claudia Sousa Dias disse...

«A «neve» marca o ritmo e a intenção que tecem este livro. Ela representa o tempo branco da memória e a página branca onde os seres deixam as suas pegadas. Ela é «um manto /habitável e delicado» onde «até Deus cabe». Ela é o frio que emite calor. Ela repercute o silêncio, é a fala essencial, pois tudo vem do silêncio e para ele converge. Ela confere energia musical à paisagem, marca a cadência da repetição do tempo e, nessa cadência, ela representa o movimento libertador da viagem a que se propôs o sujeito poético. A repetição cadenciada das anáforas é, ainda, a responsável pela tonalidade profética do futuro, patenteia eternos recomeços, e é uma interpretação do mundo: «Neve. O silêncio repete-se /Há paisagens eternas /onde o vento se acolhe /num silvo agudo e persistente /e a neve adormece./Neve. Repete-se o voo /das mãos vorazes sedutoras /evoluindo sobre a nudez./Neve. Repete-se /a magia da luz /que um silêncio/antigo não nega./Neve. /Repete-se o mundo.».

Herta Müller iria adorar ler este ensaio e, se calhar, o próprio livro de Francisco Duarte Azevedo. A "Neve" é um tema que a fascina e inspira, também.