segunda-feira, 16 de junho de 2008

Vinte e duas imagens da infância

Grande Prémio Camilo Castelo Branco para Ondjaki

Ondjaki, pseudónimo literário de Ndalu de Almeida, autor de uma vasta obra que se desdobra em contos, romances e poesia, autor da magnífica história infantil «Ynari – a menina das cinco tranças», acaba de ser galardoado com o Grande Prémio de Conto "Camilo Castelo Branco" 2007 da Associação Portuguesa de Escritores (APE), pelo livro "Os da Minha Rua", já editado no Brasil (segunda capa na fotomontagem).

Se é certo que as crianças crescem em segredo, como diz Ana Paula Tavares, de vez em quando comprova-se que esse segredo espera uns anos para se desvendar amadurecido em literatura. Assim é o livro de estórias do jovem poeta e ficcionista angolano Ondjaki. Em Os da minha rua o autor reedifica os da sua casa: da memória, do afecto, da identidade.

Ondjaki regressa às pequenas estórias com Angola no batimento narrativo, agora ainda mais mágica, pois olhada pelos olhos da idade da inocência. «Escrevo para compreender. Compreender o quê? Tudo», disse José Saramago. Respondendo ao grito das raízes e desafiando o pó do tempo, o jovem poeta de Há Prendisajens com o Xão recria os ramos e os laços da infância para os fixar e compreender ou, segundo Manoel Barros, «um livro o ensinou a não saber nada – agora já sabe».

Se Ondjaki tatua a sua biografia nas 22 pequenas histórias, também homenageia a infância de cada um de nós projectando-nos nesse pedaço longínquo de um tempo que não conhecia os dias: «A vida às vezes é como um jogo brincando na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um familiar a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente (…) nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade.».

Cinco miúdos, Ndalu, o narrador, Tibas, o mais velho, Bruno Ferraz e Jika, o mais novo, constituem a equipa do tang que sonhava com coca-cola a ponto de dos seus olhos sair um brilho «tipo fósforo quase a acender a escuridão da varanda e a assustar os mosquitos». Com eles constroem-se quadros narrativos belíssimos, emotivos, sinestésicos, mas também críticos sociológica e politicamente: deles emerge Angola com os resquícios da guerra e a psicologia da esperança, uma jovem nação que está a aprender a viver como as crianças que a contam. Neste sentido, esta estratégia narrativa é uma originalidade literária que Ondjaki desenvolve soberanamente.

A nova nação pelos olhos das crianças

Com escrita depurada casada com a oralidade, reconstrói-se o universo da infância e o correr da vida em Luanda: a escola e os professores cubanos, brincadeiras e descobertas, festas em casa dos amigos e dos amigos dos familiares, atesta-se o convívio social de uma terra que se queria unida. Sobressai a ternura familiar, a da tia Rosa, mulher do tio Chico que tinha na sua casa «talvez a cerveja mais deliciosa de Luanda», que adivinhava os convivas pelo toque da campainha e logo a mesa se enchia «de copos de cerveja, aperitivos e sobras, quitetas, kitaba, camarões, chouriço, a televisão sempre ligada e pessoas de todas as cores que vinham beber dos barris de cerveja do tio Chico.».

Este princípio subtil de construção social e psicológica da cidade é uma constante nas estórias como a que narra a primeira vez que Ndalu viu televisão a cores, e o primeiro cinema, «A Grande Desforra» na tela e na descoberta:

«Chamava-se "Cine Atlântico" e era a maior sala com a maior quantidade de cadeiras e uma tanta gente a fazer barulho que nunca mais o filme começava. Eu olhava aquele mundo todo novo: o cinema sem paredes de lado, as árvores e as andorinhas, umas poucas nuvens no céu bem escuro de quase-noite, e a tela toda branca se acendeu de luz brilhante antes mesmo de as luzes se apagarem e aquela toda gente fazer um silêncio de espera e logo depois assobiar forte para a fuga geral dos passarinhos quando todos começarem a gritar "Jerri Quan!, Jerri Quan!". Bateram palmas e eu também..».

Também o olhar político surge puro, e, talvez por isso mesmo, assertivo, ao narrar-se o dia do comício do 1º de Maio e o discurso do chefe da nova pátria dirigido aos «Pioneiros de Agostinho Neto, na construção do socialismo»: «Na tribuna, bem lá em cima, estava o camarada presidente, duma camisa azul-clara e um lenço branco a fazer adeus aos pioneiros que passavam. Às vezes penso que o camarada presidente, lá em cima e tão longe, não devia ver o povo muito bem.».

A par desses olhares ao largo surge, encantatória, a descoberta do amor num tempo em que «o vento voava devagar» e «as folhas da figueira faziam um ruído que era mais um segredo que barulho»:

«um dia, ao fim da tarde, o sol estava muito bonito assim todo amarelo quase bem torrado. O meu pai tinha ido à caça com o primo Beto e o primo Zequinha também. A mana Tchi estava a descansar e a minha mãe a ler. Eu perguntei à Micaela se ela queria dar uma volta comigo ali pela quinta. Ela disse que sim. Mas a volta foi muito rápida, e eu perguntei se ela queria dar outra volta. Ela riu e disse que sim. Como não queríamos dar outra volta, sentámo-nos numas pedras mais distantes da casa e eu tinha muita vergonha mas também, muita vontade de lhe perguntar se ela queria namorar comigo. E ela disse que sim. Então, talvez para comemorar, demos mais duas voltas à casa, mas já de mãos dadas.».

A perda e a luz

Diz-nos o texto:
(…)o abacateiro estremeceu como se fosse a última vez que eu ia olhar para ele e pensar que ele se mexia para me dizer certos segredos, não sei o que o abacateiro me disse, não soube mais entender e pode ter sido nesse momento que no corpo de criança um adulto começou a querer aparecer, não sei, há coisas que é preciso ir perguntar aos galhos de um abacateiro velho(…);

(…)na minha cabeça eu sempre escondia este pensamento: as despedidas têm cheiro. E não é cheiro bom tipo chá-de-caxinde, ou as plantas a darem ares duma primeira respiração na frescura da manhã, entre silêncios e cacimbos molhados. Não. Despedida tem cheiro de amizade cinzenta. Nem sei bem o que isso é, nem quero saber, não gosto mesmo de despedidas.

Com este livro, Ondjaki, com os seus 31 anos de idade, prova-nos que a infância nem sempre se perde, que é «um ponto cardeal eternamente possível», e que a escrita é um mapa da luz.


Os da Minha Rua, Ondjaki; Editorial Caminho, Lisboa, Março 2007
© Teresa Sá Couto

4 comentários:

Claudia Sousa Dias disse...

Terei de comprar sem dúvida!

Beijo e obrigada por este bocadinho!


CSD

Teresa disse...

Um extracto deste texto está na orelha da edição brasileira. Comecei a ler o novo do Ondjaki: «AvóDezanove e o Segredo do Soviético»; de novo, a infância repleta de pássaros azuis e o voo por Luanda. sabe bem, uma leitura, assim,tão terna....
Na minha inquietude, estou também a ler o MAGNÍFICO Edgar Allan Poe, na colecção «a Biblioteca de Babel»...enquanto espero a tarefa decorrecção dos exames nacionais.... ;-((((

Beijinhos, Cláudia

TSC

viriato disse...

Viva a Língua Portuguesa de todos os matizes!
Parabéns ao Ondjaki. E à Teresa, sempre, porque não se cansa de abrir horizontes de leitura.
Beijinhos
VT

Teresa disse...

Olá Viriato. Já dei os parabéns ao Ondjaki, que está no Brasil, e reencaminharei os seus! O Ondjaki, generoso como é, disse-me que estamos todos de parabéns; entendo por «todos» os da imensa e policroma casa da lusofonia. E não é que, com estas cores todas, estamos mesmo??!!

Beijinhos
TSC