domingo, 5 de abril de 2009

Albano Martins – A Sinfonia Poética

Há muito que o constamos, ainda que o facto se nos afigure um mistério quase insondável: o poeta português Albano Martins é mais reconhecido no grande Brasil do que nesta pequena aldeia, a sua pátria Lusa, que se agrega em torno das suas sempiternas elites. A provar que a Academia do outro lado do Atlântico é incansável na divulgação e partilha do fascínio pelo nosso autor, contamos com o Ensaio A Quintessência Musical da Poesia: Rodomel Rododendro, um poema sinfónico de Albano Martins do carioca Jorge Valentim, editado em 2007 pela atenta editora portuense, a Campo das Letras.

Poema em prosa escrito em 1989, Rodomel Rododendro é a «melodia do aconchego e do espanto», a solenidade do silêncio da «percussão sanguínea», do «esvaído rumor» das águas antigas da humanidade. Detendo-se nos prodígios desta sinfonia discursiva, e munido de conhecimentos de Música, Jorge Valentim decanta o texto do poeta beirão numa pauta ousada, minudente e original. Um subsídio valioso para a compreensão do poema e da obra de Albano Martins.

«Uma escrita sob o signo de Orfeu»

Para lá do diálogo com as artes plásticas – característica da obra do poeta beirão, abordada no magnífico ensaio de Luís Adriano Carlos «Ekphrasis em Albano Martins», que referenciei noutras ocasiões –, Rodomel Rododendro pode e deve ser lido também do ponto de vista musical, defende Jorge Valentim, porquanto Música e Literatura «bailam no palco do texto, como uma espécie de “pas de deux”, dividindo por igual a sua importância na dança do diálogo intertextual». «Como boa metáfora», refere o ensaísta, Albano Martins traz a Música «para dentro da linguagem literária tanto no plano horizontal (com citações e referências a obras musicais e compositores) quanto no vertical (com a apropriação de recursos musicais na composição do texto poético)», instaurando-a como «uma realidade outra» que dá aos textos um carácter sedutor, que tão bem reconhecemos.

Abordando o poema «sob o signo de Orfeu», Jorge Valentim estrutura-o em cinco partes, cinco movimentos, à semelhança da estrutura da Sinfonia Fantástica de Berlioz, analisa-os, encontra-lhes ecos de Wagner e Beethoven, busca a «circularidade fluida do Rodomel» e o «movimento cíclico dinâmico e contínuo de Rododendro» que além de evocarem a música também evocam o silêncio, para o qual convergem, o silêncio que está disseminado por todo o texto, a marcar intervalos, «significante e fundador» a abrir nossas possibilidades para significar. Em jeito de conclusão, refere o ensaísta:

«Cíclico, circular e intermédio é o seu texto, como também é ekphrásico, intertextual e inter-semiótico, na medida em que vai buscar de empréstimo não só os sons metafóricos de Wagner e Beethoven, mas também as cores musicais de Cruzeiro Seixas, que, com os sons de seus metafóricos violinos, contribuem para a orquestração de Rodomel Rododendro»

Rodomel Rododendro, poema feito de memória orquestrada pela música do tempo, de «voz emudecida» e mel abundante, está incluído na Antologia poética Assim são as Algas. Deixem-se dois excertos, e o leitor que apreenda os timbres deste solfejo:

«Trazíamos ainda nos ouvidos o canto acre e fausto das cigarras. Vinham com ele, amarrados, os bois, as noras, os carvalhos, e a voz rouca do cuco e da poupa, o aroma poroso dos rododendros. Porque é deles que falas onde quer que te dispas, te desnudes, desprevenido e inteiro. Da moldura partida e do retrato caído no degrau mais fundo das escadas. Sim, por mais que digas, falas sempre das abelhas, do mel adolescente escorrendo dos favos loucos da alegria. Da alegria perdida, reencontrada, perdida entre os escombros e as abjecções do real, mais falso e verdadeiro que todas as verdades aprendidas, que todos os dogmas e doutrinas acumuladas nos compêndios por onde te ensinaram a vida

***
«Campo das urtigas. O voo raso dos melros ao fundo do quintal. Ali experimentaste as tuas asas, ali aprendeste a voar sem elas e sem medo, na reclusão dos dias altos, sem medida. E, se aprendeste, esqueceste-o depressa, ou não mediste a distância rigorosa, a rigorosa altura, no cálculo da vertigem. Não sabias ainda que, como o arado, nasceste para lavrar a terra, o chão que pisas, na irreparável certeza de que só provisoriamente te pertence. Como o ar que bebes, a água que respiras, o fogo que te alimenta e te devora.».


© Teresa Sá Couto

2 comentários:

Rui Herbon disse...

Conheço pouquíssimo do Albano Martins. Vou ter que cumprir penitência.

Teresa disse...

Ler Albano não é penitência, mas sim felicidade. Logo me dizes ;)))))

Bjos
T.