sábado, 4 de abril de 2009

A singularidade poética de Albano Martins

Na sequência do meu texto Palavras escritas e ditas a vermelho, que desencadeou “pedidos de esclarecimento” sobre a obra do poeta Albano Martins, edito aqui alguns artigos que fui elaborando ao longo dos anos, esperando assim contribuir para um melhor entendimento de uma poética singular.

Albano Martins nasceu em 1930, na Aldeia do Telhado, Fundão. A sua actividade de professor universitário na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, fê-lo radicar-se naquela cidade. Foi agraciado pelo Governo da República do Chile com a Ordem de Mérito Docente e Cultural Gabriela Mistral no Grau de Grande Oficial, pela sua obra poética e pelo seu trabalho de tradução de Pablo Neruda. Foi distinguido com a Medalha de Ouro da Cidade do Fundão, em 2006. No ano passado, no 10 de Junho, foi condecorado Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente da República. Uma condecoração do Dia de Portugal que nos enche de orgulho: pelo poeta e pelo país o reconhecer! Também no ano passado lançou o livro infantil «Uma Casa à Beira da Floresta». (na imagem à esquerda, retrato de Albano Martins pelo pintor Jorge Pinheiro, incluído no pequeno livro «Frágeis são as palavras – Antologia pessoal» editado pela Asa.).
Sobre a sua poesia, deixo um olhar pela Antologia poética Assim são as Algas, editada pela Campo das Letras que reúne 50 anos de vida literária (de 1950 a 2000). Uma edição de capa dura feita com detalhe e esmero, guardiã de um conteúdo raro. Por 552 páginas, corre o inefável compromisso do poeta com a poesia: «Cumpro o meu destino como qualquer fonte». Um Destino tecido com a palavra exacta, policroma, polifónica, odorífica, tudo envolto na solidão e no silêncio donde brota toda a criação: «Im /puro sou. Escavo /com minhas mãos a lama /do silêncio. Não /conheço outro oficio.».

No seu ofício, o poeta talha o centro do amor – «Centro do próprio centro» –, que está no corpo da mulher amada, o mesmo é dizer, na poesia: «Dei-te o nome da abelha, /mas tu és favo e mel, /substância vermelha /feita de sangue e pele». Uma poesia que declara a partilha e, sobretudo, o acto de amor para com a Literatura Portuguesa.

A natureza, a senha para a felicidade

Albano Martins encontra na natureza a chave da harmonia existencial. Associando a natureza à natureza da palavra, diz o poeta que «A verdadeira beleza /está no que o homem tem de semelhante /com a natureza.». Mais, aconselha o homem a aproximar-se dela para lhe apreender a perfeição: «Para saberes, ergue /um monumento, deixa /que as rolas façam /seu ninho no topo».

Aos 20 anos de idade, em Secura verde (1950), Albano detinha-se na observação da natureza para interpretar a sua condição de poeta iniciático: «Sou um mundo fechado /ainda por abrir, /uma flor imperfeita /que não sabe florir»; «Meus versos, gritos do vento das ramagens, /são a minha própria alma angustiada /a reflectir imagens /duma lenda em mim iniciada». Decretava o seu voo feito de «Pássaros que abandonam /o calor e o âmbito do ninho», multiplicava-lhes auras e arco-íris em versos que eram «encontros da sombra com a luz». Debatia-se com o drama da criação – «Posso ter o corpo aberto /e não mostrar o que sou». Definia o seu método e escolhia o seu destino – seguir sozinho um caminho achado «nas palavras dos que vinham»; «Construo e destruo /meu destino é esse».

Em Rodomel Rododendro (1989), um belíssimo conjunto de textos em Prosa poética, pode ler-se o que seria, recorrentemente, a sua bússola humanista: «Repara. Há um rio correndo entre as falanges dos dedos. Navegá-lo-ás solitário, porque solitárias são as navegações humanas, todas, como inavegáveis são os rios, todos os rios da terra, anteriores ao mar. Onde tu vês a foz é a nascente que vês. Que os rios, como tudo o que é fluido e movente, nascem ao contrário». Assim são as Algas, substância genesíaca que circula na epiderme; assim é o sangue que o poeta deixa correr para que o leitor o persiga.

Amor e erotismo no mapa do corpo

Paul Éluard escreveu: «combatíamos juntos o sono. /Dois sóis em nós se erguiam». A reciprocidade amorosa sobressai na temática do Amor em Albano Martins, com intimismo avassalador. A mulher amada surge como complemento de lugar onde o sujeito encontra a sua plenitude, carne e espírito: «Assim me deito /sobre a ternura /Este é o meu leito /e a minha lura». O pronome pessoal “Eu” dá lugar ao “Nós”, e o possessivo “Nosso” atesta a conjura amorosa: «Nenhum excesso /nos contém. Nenhuma /onda nos devolve.»; «O que em nós sobra /à maré pertence.»; «Basta uma flor, /basta uma asa /para saber que a primavera /entrou em nossa casa.». Juntos partilham uma margem – «Esta é a margem /do azul. Nenhum /outro limite / reconheço ao sangue» –, repleta de luz, emaranhados no erotismo.

Em A margem do azul (1982), o poeta desata a pulsão do amor e do desejo em palavras como espécies de mãos que bebem, sôfregas, a pele: «De ti fiz a harpa e a lira, /a guitarra. /Outra música não sei.». Em Vertical o Desejo (1985), os interditos abrem-se à luz, num mapa erótico que se desnuda pela vibração vocabular: «Entras / em mim descalça, vulnerável /como um alvo próximo, ferida /nos joelhos e nas coxas. Pelo tacto /nos conhecemos, é essa luz /oblíqua que nos cega. E te pertenço /e me pertences como /a lâmina /à bainha, a chama /ao pavio.».

Com Uma Colina para os Lábios (1993), o desejo edifica-se no altar do corpo amado, no processo que reitera o destino do poeta que constrói e destrói, dando forma à avidez da descoberta: «Não sei medir-te de outro modo: /te dispo e visto o tempo todo.». A exclusividade do amor conjuga com a paixão o verbo ser e este com a vontade de ser homem: «Apenas um dos dedos /conhece a luva. Só uma pétala /convém à rosa.». Trata-se de um amor extasiado, porém real ou, como diria Éluard, «Estar enlevado é uma forma de realidade».

No entanto, a melopeia amorosa não se faz apenas de luz e orvalho, mas também de sombras e lodo: «Cubro-te a face /de sombras. Sou /o teu e meu eclipse.». Sendo esta uma poesia que afirma que «A vida / – essa invenção magnífica /da morte.», faz da vida um hino à felicidade: «Quando escurece, é preciso acender rapidamente todas as luzes da casa. Nunca se sabe quando o eclipse do sol é total. E a morte precisa de luz para ver na escuridão.». A harmonia de contrários geradores de equivalências é uma constante na poesia de Albano, e apanágio da grande poesia.

O ninho da memória

Porque o homem faz-se também de memória, em Em tempo de memória (1974), o poeta enceta a «viagem das flores sem moldura», recupera o tempo branco, «sem cor e sem regresso». Não se julgue, porém, que este retorno ao passado é feito de passividade: não há imobilismo nesta poesia, mas reminiscências, cintilações, inclinações do corpo, uma oração até às mãos doridas e requiem aos «gestos perdidos /no espaço da memória».

Em Paralelo ao vento, (1979), caracterizam-se e questionam-se os «Anos plácidos, /fulvos, /que luz ainda perdura? /Que piano guarda /ainda uma nota /grave, /cintilante /e pura?». A demanda seguiria em Os Remos escaldantes (1983) onde «Há um melro que faz /o ninho» na memória: «Ouço-o /agora. Canta /a flor das giestas /e da cerejeira». Esses «dias enxutos» instigam, em O mesmo nome (1996), a «Rosa-dos-ventos» da infância, onde cabiam todos os lugares e todas as direcções. Reiterava-se, na poesia de excelência, o mel das «Lendárias e luminosas abelhas», a «Magnólia dos símbolos», a florida e «incandescente metáfora», o «Aveludado perfume», recorrências que palmilham e dinamizam todo o trabalho poético de Albano.

© Teresa Sá Couto

4 comentários:

Serrano disse...

MAGNÌFICO...como de costume!

Luis

Teresa disse...

Obrigada pela sua atenção e generosidade... do costume :D

Um abraço
TSC

jorge disse...

Não posso deixar de elogiar as belas e seguras referências aqui apresentadas a um poeta tantas vezes esquecido e que muito mais mereceria!

Teresa disse...

Obrigada, Jorge. E tem razão sobre o "esquecimento" a que está votado o Albano Martins, mas talvez não misterioso já que o Albano nunca se moveu no mediatismo dos elitismos culturais...e mais não digo, que para bom entendedor...
Caricato é, também, que seja mais conhecido no Brasil, cuja Academia o acarinha.

Eu... vou deixando aqui nesta minha página alguns textos sobre a sua obra, com esperança de acordar sempre mais alguém.