segunda-feira, 6 de abril de 2009

A magnífica Rota da Pimenta

O prometido é devido e reedito aqui o texto sobre o extraordinário Na Rota da Pimenta de Theresa M. Schedel de Castello Branco, do qual se falou menos do que merecia e que me trouxe o feliz contacto com a autora a quem envio um grande beijinho e os votos de rápidas edições de novas obras.

Volver à Índia dos gloriosos anos de quinhentos, por uma escrita límpida, com rigor histórico e pitoresco, é o que nos oferece o soberbo livro Na Rota da Pimenta, de Theresa M. Schedel de Castello Branco. Em 326 páginas reedifica-se o culto do Oriente e da benfazeja árvore da pimenta que nos tornou condimentados: ilustres, orgulhosos, mas também vaidosos e cobiçosos.

Com objectivos bem definidos e um método seguido à risca, a autora aniquila a «tirania do politicamente correcto», a «encapotada inquisição dos nossos dias» que «dificulta o papel do historiador tanto ou mais do que as exigências do “patrioticamente correcto” de tempos passados», refere, acrescentando que «ao historiador cabe o relato, a análise e a interpretação dos factos e acontecimentos do passado»; Já Marc Bloch escrevia que os documentos históricos «só falam quando se sabe interrogá-los». A autora executa esta tarefa com distinção, ressuscita o caminho da mundividência e traça as rotas do contentamento dos leitores.

A narração cobre o período de 1497 a 1515, e é dividida em quatro grandes partes: «A caminho da Índia»; «Grande lago de mercadoria é a Índia»; «É negócio da Índia»; «Governador e capitão-geral» – Afonso de Albuquerque. Conclui-se com a Bibliografia e um Índice onomástico.

Traça-se a grande viagem para a Índia desde o seu estado embrionário. Refere-se o grande livro de viagens do séc. XIII, O livro de Marco Pólo por «influenciar poderosamente» o movimento dos descobrimentos, e que fez parte da bagagem de Colombo e dos portugueses. Os seus relatos minuciosos, numa prosa acessível a todos, traziam da Índia distante as actividades, as mercadorias, os cheiros, paladares e sonhos de outras possessões acordadas por um local «onde as patacas cresciam nas árvores, e nos rios corria leite e mel», habitado «por gente fraca, pouco guerreira», característica que agradava, sobremaneira, ao rei português.
Os protagonistas são os Capitães-mores e governadores da Índia, primeiro Vasco da Gama, depois Pedro Álvares Cabral – com a incumbência diplomática e comercial que passava pela instalação de feitorias –, D. Francisco de Almeida e, finalmente, Afonso de Albuquerque, “o terrível”, mas assim citado com orgulho.

Se estes são os heróis da Grande história, Theresa Schedel convoca todos os outros cujas vidas se entrelaçam com as daqueles ilustres e que lhes vão dão cor, sentido de existência, e plenitude. Assim, irrompem na escrita pequenos episódios, muitos prosaicos, mas que revelam o lado mais comezinho do ser humano, não se «escondendo as terríveis violências, ódios e traições que constituem o lado mais sombrio deste empreendimento». E todos os outros são os que nas praias preparam a Grande Viagem, actores das azáfamas, onde não cabia o titubeio, ainda que os preparativos primassem muito pelo improviso, fruto de quem era pioneiro nas longas estradas líquidas rumo à Ásia.

Capitães, pilotos, nautas de vária sorte, com ou sem experiência de mar, fidalgos e cavaleiros – com os respectivos criados –, condestáveis de artilharia, bombardeiros, e «a gente» de que pouco se fala, que vinha de vilas e lugares de todo o país, e de diversos pontos da Europa: aventureiros e mercadores alemães, galegos, flamengos, gregos, italianos entre muitos outros. E tudo saltita na narrativa viva e célere que, assim, enreda o leitor convocando-o para os actos com que se aparelhavam as naus e as almas para a Grande Viagem em direcção ao cabo de todas as tormentas, mas também do sonho da Boa Esperança, aportando em terras de gente estranha e locais de riquezas inebriantes.

Elabora-se o retrato de D. Manuel, o rei venturoso responsável pelos inúmeros documentos que imortalizaram o pulsar da época, porquanto, refere a autora, «D. Manuel, além dos relatos oficiais dos seus capitães e governadores, queria cartas de todos aqueles, pequenos ou grandes, que tivessem qualquer coisa sobre os acontecimentos. Ordenava que lhe escrevessem, muito, e foi obedecido. Capitães, navegadores, mercadores, dirigiam cartas ao rei.». Dá-se o exemplo, bem vivo das intenções de el-rei, de «um certo Álvaro Vaz» que, em Dezembro de 1504. escrevia ao rei: «mandou-nos ora vossa senhoria que mui miudamente lhe escrevêssemos todas as ilhas e lugares que, neste mar da Índia, e pela costa daqui até Malaca, jazem: e assim as mercadorias que há em cada uma, e, das nossas, quais são para lá melhores, e os preços dumas e das outras».

É desta aluvião de documentos, como diria ainda Marc Bloch, «deste carácter maravilhosamente desarmónico dos materiais» preservados com rigor, agora enriquecidos pela leitura original da autora, que se constrói a excelsa narrativa, colorida e, em muitíssimos passos, pintalgada de ironia, como aquele em se refere o propósito religioso do empreendimento indiano: «religião, comércio e descobrimentos encontravam-se intimamente ligados, mas a religião não esteve em primeiro lugar nem para o rei nem para os homens que o serviam. D. Manuel preocupava-se muito mais com os problemas do comércio português na Índia do que com a cristianização dos hindus.».

Nota: Theresa Shedel é conhecida do público português por diversas obras de cariz histórico. Refiram-se: Os Painéis de São Vicente de Fora – As Chaves do Mistério; Os Painéis de São Vicente de Fora – Investigação ou Adivinhação?; Os Primeiros Tempos dos Portugueses na Índia.


Na Rota da Pimenta, Theresa M. Schedel de Castello Branco; Editorial Presença; Lisboa 2006

© Teresa Sá Couto

14 comentários:

Rui disse...

Abriu-me o apetite para uma leitura condimentada.

Theresa Castello Branco disse...

Em primeiro lugar está o “muito obrigada” por ter reeditado o seu post sobre o meu livro, que foi a melhor crítica que o livro teve. Não só a melhor como empatia, como o único como crítica histórica. E sabe o que de tudo quanto escreveu, melhor mostrou a sua compreensão? Foi quando cita Marc Bloch sobre o valor do uso dos documentos originais, e me aribue indirectamente a qualidade requerida.. A leitura dos documentos originais é a base indispensável sem a qual não se pode escrever História, mas, como disse Bloch, temos de os “perceber”. Temos de entrar neles, a sua leitura tem de nos dar prazer, e disso posso-me gabar. No caso do Na Rota da Pimenta tive a grande ajuda de os principais documentos estarem publicados, mas para os meus outros livros, em especial as Monjas Medievais, para esses li e copiei centenas de documentos originais e não me arrependo desse trabalho. É uma leitura que dá uma curiosa sensação de proximidade. Quantas vezes me sucedeu pensar: -- ah, então elas (eles) afinal pensavam assim? – ah, isto explica que eles (elas) tivessem agido desta maneira e não de outra. Já planeava fazer um post sobre o que seja “ler as fontes”. A Teresa deu-me agora ocasião de falar nisso, mais um obrigada. Sabe que isto de escrever para um blog me está divertindo no melhor sentido? Tem-me obrigado a um exercício de reflexão sobre pequenos temas literários, sobre coisas que aceitamos como óbvias e naturais e afinal não o são tanto como isso. Que bom rencontro que foi este destas duas Teresas!.Um grande grande abraço. Theresa

Luis Bento disse...

Palavras alinhadas com esmero, recensões críticas sóbrias e incisivas, linguagem clara e simples. Que bem que se está aqui..

Teresa disse...

Olá Rui.
Pois olhe que fiquei espantada com o lote de especiarias do seu espaço. Gostei!!

Um abraço
Teresa Sá Couto

Teresa disse...

Estou divertidíssima, Theresa, com a sua crítica à minha crítica. Sabe, a vida tem-me mostrado, nos últimos anos, que os "bons espíritos” acabam por se encontrar, pois tem mesmo de ser. Na explicação desses inevitáveis bons encontros estará seguramente a maturidade que traz a argúcia para se interceptarem cumplicidades e não nos deixar perder tempo nem energias com “espíritos” que no-las tiram.
E sim, a escrita, ao instigar-nos à reflexão e obrigar-nos a organizar as ideias, torna-se num vício insaciável: é a porta do conhecimento com cada porta a abrir para outra…
E sim, de novo: este reencontro destas “Teresas” tinha de se dar! ;)) E sou “freguesa assídua” dessa sua novíssima casa, ainda que, na azáfama dos dias, não deixe o meu sinal.
Agora, a Teresa daqui espera o próximo livro para ter o júbilo de poder voltar a escrever sobre livros da Theresa daí, para assim dar de beber ao vício.

Beijo grande
Teresa Sá Couto

Teresa disse...

Obrigada, Luís Bento.
Uma espreitadela ao seu espaço e eis a surpresa do aconchego. Por isso, é para lá que vou de imediato

Um abraço
Teresa Sá Couto

Serrano disse...

Fantático, claro está. Que vício magnífico é este seu espaço :-))))

Luís

Theresa Castello Branco disse...

“A Teresa daqui espera o próximo livro para ter o júbilo de poder voltar a escrever sobre livros da Theresa daí”
Pego nesta sua frase porque toca naquilo que me parece ser um dos grandes problemas do crítico literário, que é a sua posição face ao livro de uma autora por quem o crítico sente simpatia. Veja o nosso caso. A Teresa nem sabia da minha existência quando leu Na Rota da Pimenta. A sua critica podia ser completamente livre de “cerimónia”, Gostou, e a sua critica foi muito elogiativa, mas se não tivesse gostado, tinha-o dito, e sem peias, como é muito capaz de fazer. Mostrou-o na sua magnífica crítica ao livro de Rosa Lobato Faria (que me deliciou) que li em Orgia Literária. Agora já me conhece, tem por esta autora uma simpatia cúmplice, chega-lhe às mãos um novo livro dessa autora, e a Teresa não gosta. Que faz a crítica Teresa Sá Couto? Se, pelo contrário gosta (como eu espero) não se dirá que é indulgência da sua parte?
Eu tenho dois livros prontos a serem publicados, um sobre as monjas portuguesas na Idade Média, que ainda não tem editor. Creio que seria da sua parte um livro fácil de criticar. É histórico, baseado em documentos coevos e escrito no estilo que a Teresa aprecia. Faria decerto algumas observações, mas com calma. Não vejo nele nada que possa suscitar cntroversia. O mesmo já não posso dizer do meu outro livro, que será editado pela Presença. Aí toco num problema histórico que tem partidários, que é a condenação do duque de Bragança por D.João II. Tratei o caso em forma de romance, com o título “Júnia ou A Justiça de Hadriano”, e gosto do livro. Mas se o livro for lido por um publico conhecedor, haverá decerto discordância. E no crítico fatalmente, também. Que problema, Teresa. Um beijo desta Theresa

Teresa disse...

Tema interessante, esse, Theresa. Eu sou autónoma e pugno por um trabalho sério. Jamais faria “críticas encomendadas”; porque é que acha que não estou a escrever em jornais?!? É o preço da autonomia, que faço questão de pagar ;)).

Quando tenho uma crítica negativa a fazer tenho cuidado redobrado para demonstrar todos os meus argumentos. E se há matérias nos livros que sinto que não domino, investigo antes de tecer alguma consideração. Cada livro não é para mim um trabalho, mas um caminho que me é dado trilhar. É essa a minha paixão pela leitura que quero sempre manter. Doutra forma, não faz sentido.

Essa sobre o livro da Rosa Lobato de Faria foi, de facto, memorável… (http://orgialiteraria.com/2008/09/as-esquinas-do-tempo-rosa-lobato-de.html)... Nem imagina….

Se é certo que temos tendência para “falar bem” dum autor que gostamos, é igualmente certo que essa simpatia não me coarcta a análise de uma sua obra. A diferença estará no aviso prévio de que “a obra ficou aquém das minhas expectativas porque…”, considerando que a minha crítica construtiva até poderá ajudar o autor. Afinal, quem publica tem de estar preparado para opiniões divergentes e, se achar que for o caso, evoluir com elas. Aliás, registo-lhe até um fenómeno interessante: criei muitos e grandes amigos escritores nesta caminhada da escrita e reparo que eles parecem mais preocupados com o eu gostar dos livros deles do que o inverso. As letras criam estas cumplicidades magníficas que nos aquecem a existência!

Beijo
Teresa

Serrano disse...

A Teresa reflecte sobre as mais diversas e díspares matérias. Mostra-se em todos os seus textos de linguaguagem superior, o seu intelecto, a sua visão do mundo, o seu forte sentido ético e coerência imbatível. Por isso todos a conhecem e só a podem admirar e segui-la de forma incondicional.

Tem-me ajudado a ler e a ver o mundo. E a quantos mais??????

Joni disse...

Gosto quando as letras carregadas de história entram nas especiairias.

Teresa disse...

Que animação vai por aqui rsssss
Ó "Rota" condimentada!!!

Theresa Castello Branco disse...

Teresa
Ainda não consegui chegar ao endereço indicado. Reservo-o para amanhã. Como quem se oferece amendoas! Que bom seria que a Teresa pudesse pôr brevemente à prova a sua critica a um livro meu, mas a Presença só editará este meu novo romance para o ano. Como sabe, os meus livros não têm sido inundados com críticas boas ou más, em geral têm sido ignorados. Este próximo talvez venha a ser mais notado, não pela sua eventual qualidade ou falta dela, mas porque trato de matéria que tem partidários antagónicos e porque reservei para ele duas revelações históricas, que, por sua vez, estão feitas para irritar. E sabe que mais? Eu escrevi o livro com essa intenção. Porque se eu publicasse em jornal ou revista qualquer das revelações, elas passavam em claro, e em romance ‘irritante’ talvez não passem.
Tenho falado das suas críticas à minha filha, que vive em Itália, e ela tem-nas apreciado devidamente. Bom Domingo de Páscoa para si. Theresa

Ontem mandei-lhe este comentário, que não seguiu, e por isso vai de novo. Já me regalei com a sua crítica ao livro de Rosa Lobato Faria. Não pelo gosto de ouvir criticar duramente alguém, mas por aquilo que pela sua análise me parece tão justo que tinha que ser dito. Já o primeiro parágrafo, e nele esta frase: “Quase sempre, o leitor experiente, que procura paixão na leitura, desiste nas primeiras páginas de um livro que lhe devolve lugares comuns e frases feitas” vieram ao encontro daquilo que sinto. Há um mínimo de qualidade que exigimos, e em geral sente-se logo nas primeiras páginas se ela ali está ou não. No meu caso, e creio que no seu, há aínda um verdadeiro horror à pretenciosidade. E no livro de que trata, há um querer parecer uma coisa – uma escritora bem moderna - e um “dar a entender” que as suas raízes são bem antigas, e que ela só pela sua discrição não as revela. É evidente que aquilo foi puxado à matraca para insinuar a sua fidalguíssima ascendência. Se a tem, que o diga, não é vergonha nenhuma.
Uma autora escreve porque tem alguma coisa a dizer, uma história a contar, uma experiência vivida ou ouvida, que a move a escrever sobre, ou em torno dela. Mas não inventa uma história para provar que é o que não é. E até essa passaria, se fosse bem escrita. De outra maneira, para um leitor exigente, o livro não passa. Um romance ligeiro pode ser uma delicia de leitura, enquanto que um que pretende não ser ligeiro, e é cor de rosa, é ilegível.
Copiei o texto da sua critica para a reler e mandar à minha filha, mas não encontrei os comentários. Repito, magnífico. Um abraço Theresa

Teresa disse...

Eu partilho da opinião que só se devia escrever um livro se ele trouxesse algo de novo. Opinião que a ser posta em prática retiraria das livrarias mais de metade das edições :( ....

Muitos beijinhos, Theresa

TSC