quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Blackpot, Dennis McShade

texto editado no site Orgia Literária em 17.11.09

Blackpot é a criação literária de um pesadelo, a invenção de uma chave, uma libertação. É uma trama na prosa certeira e desconcertantemente eficaz de Dennis McShade, que convoca a morte, conversa com ela, verte o encontro em palavras como dentes a morderem a precariedade da existência, a estreiteza do mundo. Falo de transgressão: a transgressão dos limites que é imanente à arte, e da qual a obra de Dinis Machado é digníssima representante.

É implacável, negro e assombrosamente iluminado, este Blackpot. Carrega um enleado e terrível pacto com a morte, enfrenta-lhe o carácter inexorável para a corrigir e dar voz à vida. É uma novela sobre a noite que implora, sobre a morte que se vê ao espelho à procura de outra forma que o povoe, à procura de outro sonho, à procura de outra voz. Por isso, o espelho onde a personagem Gulliver se mira é a vigília que procura decifrar o labirinto; por isto, entrarmos em Blackpot é entrarmos no «pesadelo», como o descrito por Jorge Luís Borges, uma «sala circular cujas paredes e portas eram de espelho, de modo que quem entrasse nessa sala ficava no centro de um labirinto realmente infinito». E o labirinto espraia-se por 31 capítulos curtos, vertiginosos e cinematográficos, onde as personagens se matam umas às outras e disparar é o verbo auditivo que a prosa silencia de forma terrível: sob o fumo do tabaco (da narrativa) e o assombro inaudito (do leitor), cumprem-se as balas surdas disparadas das armas com silenciador ou da metralhadora assim emudecida: «as balas da metralhadora estilhaçaram objectos e enfiaram-se, surdamente, nas paredes».
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Não há uma personagem central neste Blackpot. Ela será a morte ou a vida, porquanto nomear uma é evidenciar a outra. Há uma dezena de homens, membros do crime organizado, emboscados na sua própria rede, assassinos precisos no disparo, especialistas em ruínas, solitários, expostos ao critério misterioso de «reorganização cíclica» da Organização. Se há conflito no interior do próprio jogo com regras que obscuramente mudam de direcções, o conflito está também nos próprios jogadores enquanto lugares-limite com que se faz a questionação do homem na sua humanidade: no jogo da vida há que matar primeiro, pois «os acontecimentos, às vezes, vão à nossa frente». Também a questão da negação da identidade tem em Blackpot uma forma indeclinável: o nome dos homens é tão-só o posto que têm na engrenagem da Organização, pelo que, depois de mortos, o seus nomes passam a outros.

Mostrando-nos o trabalho dos relógios na sombra, a narrativa mostra-nos que viver é envelhecer, o acumular de males, a doença. Também neste sentido, Blackpot impõe o silêncio da meditação: a vida é dano, o homem joguete, pelo que há que encontrar o life force (de Bernard Shaw), a força vital para se recriar a existência, força que está no exercício da escrita com que se esconjura o desamparo. Na narrativa, desfilam homens marcados, desenganados, de meia-idade, homens que são o que é ninguém e uma campainha sinistra diz-nos que ninguém é o que todos somos.
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Gulliver, que não prescinde de esfregar o corpo e as mãos com álcool, olha para o espelho, sente náuseas, procura a sanita, vomita alguma bílis e sente-se aliviado. Falar para o retrato do pai morto, como fazia há 30 anos, também o alivia; Armador mata há 40 anos. Ajuda a filha a estudar Matemática, tosse e cospe sangue para um lenço, tem dores de cabeça e febre. Leva a filha à escola, beija-a, vê-a desaparecer no fundo do átrio. E sabe que vai morrer, de doença ou com uma bala; Lorenzo só vê sombras, «ardiam-lhe os olhos e chorava devagar», nada que os médicos pudessem fazer. Com os óculos, olha para o calendário da parede, desiste ao tentar ler os títulos dos jornais, lava os olhos e espera; Ornatto tem uma perna a apodrecer, sem cura, só lhe restando os comprimidos para as dores; Condor sabe que o querem matar, passa a mão pelo peito flácido e preocupa-se com o peso excessivo; Legos discorre sobre os seus problemas enquanto pesca, espera que o peixe morda a isca e gosta daquela «mistura de placidez e impaciência». No final, Victor discursa à amizade e «Os candelabros e as jóias cintilaram.». Até quando é Victor o vencedor, inquire-se em cima dum texto que recorda o carácter precário da existência e que a vida sem nós é pensável.

Contra a morte, toda a morte, há ainda e sempre a voz, mostra-nos Dennis McShade neste Blackpot, onde recebemos, também, fortíssimo, o eco da voz de Herberto Helder: «Olha: eu queria saber em que parte / se morre, para ter uma flor e com ela / atravessar vozes leves e ardentes e crimes / sem roupa. Existe nas ilhas um silêncio para / a poeira tremer, e o teu rosto se voltar lentamente cheio / de febre para o lado de uma canção /terrível e fria.» (1)

(1) Herberto Helder, Ofício Cantante, p.247, Assírio & Alvim

Dennis McShade, Blackpot, Assírio e Alvim, 2009
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© Teresa Sá Couto

10 comentários:

contador antropomórfico disse...

Incrível! Esta noite passei pela Almedina, no Saldanha, li-o na diagonal (os 3 primeiros capítulos) e só não o comprei porque tenciono ir à Assírio. [Estas coincidências entre nós «matam-me»... :-) ]
Abraço

Rui Herbon disse...

Excelente. É impossível não querer ler o livro, depois de uma recensão destas.

Honra ao grande DM (in memoriam) e à grande TSC (felizmente ainda com memória).

Beijinhos
RH

Manuela Freitas disse...

Olá,
Nunca li nada de Dennis McShade, porque não tenho grande apetência pelo policial, mas suscitou-me interesse...
Do Dinis Machado, li só «O que Diz Molero», já não sei quantas vezes, livro fora de série!
Bjs,
Manuela

Teresa disse...

pois, C., lemos os mesmos livros, os nossos trajectos mentais acabam por se cruzar.. :)
Abraço
TSC

Teresa disse...

muito obrigada, Rui!
Beijinhos
T.

Teresa disse...

manuela: estes pociais McShade são muito especiais :), tal como o "Molero", que nunca largamos.

Beijos
TSC

Hugo Besteiro disse...

Olá Teresa,

Por falta de tempo não tenho cá passado muitas vezes e das vezes que passo não deixo comentários.

Só para saberes que na última feira do livro cá de Coimbra comprei o Escrito a Vermelho e como é óbvio lembrei-me de ti. Como já te disse, do Albano Martins nada mais conhecia que as suas traduções d'O Poeta! Foi uma agradável surpresa lê-lo e conhecê-lo no teu blog.

Só para saberes. :)

bjs
hb

Teresa disse...

eu sei, Hugo: é que também passo, em silêncio, pelo teu blogue, para saber de ti :)

No próximo ano, Albano Martins faz 80 anos e 60 de vida literária; vai haver uma surpresa por aqui ;)))

Beijos
T.

Farpa disse...

Na cusquice das hormonas femininas encontrei o seu blog . Gostei muito ...e o adágio então , Adorei . Vou segui-la . um beijo cheio de continuidade :P , se quiser visite o meu .

Diana

Teresa disse...

Olá, Diana.
Grata pela sua afectuosidade.
Já passo pelo seu "tem dias" :)))))

TSC