sábado, 14 de novembro de 2009

Vitor Oliveira Jorge com Electri-cidade em Lisboa

Depois da invicta, no passado dia 5 de Novembro, o arqueólogo, professor catedrático, ensaísta e poeta Vitor Oliveira Jorge vem a Lisboa lançar o seu mais recente livro de poesia: Electri-cidade tem a chancela das edições Colibri e será apresentado pelo poeta Casimiro de Brito, no próximo dia 17 de Novembro, pelas 19 horas, na Casa Fernando Pessoa.

Vitor Oliveira Jorge, nascido em Lisboa em 1948, mas radicado na cidade do Porto desde 1975, tem uma vasta obra publicada, tanto no domínio da Arqueologia como no da Poesia; trata-se de um olhar imenso pelos vestígios e enigmas do tempo e interpelação dos mistérios do canto lírico, em deflagração neste novo compêndio poético de 260 páginas.

Electri-cidade será, pois, um título para desvendar com o máximo interesse, porquanto talhado por um autor de diálogo interdisciplinar, que em 2001 foi distinguido com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito pelo conjunto do seu trabalho, outrossim pela sua actividade cívica em prol da defesa do património arqueológico português.


Ler o poema Falas, na página de Vitor Oliveira Jorge

Outro poema, agora do livro Casa das Máquinas:

Àqueles a quem foi cometida a tarefa
De decifrar o enigma do centro das casas,
A aparição no centro, o corpo pleno,
E o olhar:

Parai nesta suspensão, nesta descida do tecto,
Nesta subida do chão: ruído de tábuas no tempo,
Longe: um comboio deve ter atravessado a noite,
Ou o crepúsculo, ou a manhã: tanto faz, foi longe.

Parai neste corpo. Neste centro com lábios, e ombros,
E mãos dispostas de ambos os lados, enquanto
As madeiras estalam, os bichos invisíveis das madeiras
Se alimentam. Mas os lábios, mas o rosto, mas a presença
Impõe-se, como uma imperatriz: no centro, na casa,
Estirada de alto a baixo do texto. E eu aguardo.

Prolongo o enigma das alças, da roupa interior,
Do frémito que a presença enuncia, e no entanto
Não diz. Apenas vem ao centro, desce e sobe, entre
As paredes perenes do cubo, este enigma cinzento
E melancólico. Um comboio atravessa-se ao longe,
Cinde a consciência como um fluxo de sangue,
Como uma linha recta. Mas o corpo nada diz, apresenta-se.

E todo o enigma, a sua extraordinária presença,
Se vai esgueirando de verso para verso, entre os versos,
Entre as sílabas, até se prender na língua e a língua
Correr ao longe para o comboio, à procura de uns lábios,
De alguém que já aqui esteve no passado, e agora se renova

Entre estas quatro paredes, assim de chofre no algodão
Das saias, na cintura das alças, no silêncio da roupa
Interior. Foi há muitos anos, incontáveis anos, tantos
Quantas as pessoas que circularam no comboio, e partiram
Para sempre na calada da noite, ou do crepúsculo, ou da manhã,

E agora aqui regressam, na presença do corpo, na sacralidade
Do centro, na perfeição da simetria, na apresentação obstinada
Do enigma, do supremo enigma de um tu em saias e ligas,
Em mãos depostas, em braços totalmente nus,

Reflectindo o eco longínquo do oferecimento, no modo como
Os ombros se ajustam à aproximação das mãos do verso,
Nessa insuspeita, assustadora harmonia. Cheira este odor
De hortelã-pimenta: são todos os fantasmas da casa que voltam,
Que me rodeiam, amáveis, na tua figura, pedindo tudo e nada.

Bebo um chá quente e contemplo-te, oh aparição perfeita,
Completa, disponível, formidável obra de amor fotográfico.

Um comboio atravessa ao longe o sulco do sangue. Lembras-te?
Fazia uma cruz, uma cruz sobre o território, e essa cruz
Reproduzia-se aqui dentro, do lado de cá da cal, nas paredes
E nos nossos corpos, marcava indelevelmente o centro.

Isso. Exactamente aí.
Quando a mão do poema te atravessava por debaixo nas saias,
E saía pela cabeça, esplendorosa, digna da soberania dos lábios:

Era (é) uma paragem:
Nunca daí saímos.

5 comentários:

contador antropomórfico disse...

Que fotografia mais extraordinária! Esta é daquelas que dá vontade de ler o livro.
Abraço

Teresa disse...

a estupenda fotografia é de Leonor de Sousa Pereira e foi tirada em Freixo de Numão, Vila Nova de Foz Côa (segundo informação na contracapa)

Logo darei conta deste "Electri-cidade" :)

contador antropomórfico disse...

E tem de ler o «Caroço de Azeitona», do Erri de Luca... Terminei-o ontem. Não qualifico, para não influenciar, só peço para ler :-)

Teresa disse...

Tenho-o aqui em casa. Já espreitei,fascinou-me, mas resisti, que o trabalho por aqui está intenso, e quero cumprir com o meu plano. Escreverei também sobre ele, isso é garantido. Não sei ainda é quando... :)

Jorge Mesquita disse...

ÂNGULOS DE VIDA

Tenho estas muitas horas
Que são as mantas revoltas
Que me cobrem o corpo gelado
Nas camas largas da idade.
Persigo o tempo das noras
E sinto nas notas das águas soltas
O compasso imperfeito do passado
Educando as nascentes da verdade.
Durmo sobre a vida estranha
Que me devora o chão seguro
E acordo sem me acordar
Nos estábulos da indiferença.
Relincho à luz da lenha
Que arde em ideias que procuro
Sem que seja a Arte de encantar
Ou a vela da fonte que se incensa.
Sou sóbrio na fome da vida
E nos actos da coragem que a cobrem
Porque nos apetites do sonho mudo
Há os lábios rosados dos amantes.
E mesmo que feche a ferida
Que se abriu sem que as palavras se dobrem
Há os olhos cansados que limpam tudo
Menos as viagens às dores distantes.
Sei que soo a raivas mal contidas
Quando sinto vidas que são intervalos
Na decadência do verbo que se inspira
Para se escapar ao tédio da impotência.
Solto a guerra dos tambores escondidos
E gero os sons vivos que vão animá-los
Quando se recua perante o que se admira
E se descobre a beleza da cadência.
Sou um desporto que se ignora
Nas avenidas cruas da velhice
Mas nasci torto onde a terra me devora
E só morrerei nas ruas quando a sandice
For o funeral de quem nos implora
Pela urna que se rouba à imundice.

Oeiras, 30/07/2009 - Jorge Brasil Mesquita
www.comboiodotempo.blogspot.com