terça-feira, 27 de outubro de 2009

Dom Quixote na aventura do futuro

El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, escrito por Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), está disponível em Portugal numa versão para crianças. Um álbum espantoso, ilustrado com aguarelas expressivas, numa edição de luxo da editora Campo das Letras que reitera a sua aposta no público do futuro.

No II Capítulo do texto original, pode ler-se: Dichosa edad y siglo dichoso aquel adonde saldrán a luz las famosas hazañas mías, dignas de entallarse en bronces, esculpirse en mármoles y pintarse en tablas, para memoria en lo futuro.!. (Feliz idade e feliz século aquele onde sairão à luz as minhas famosas façanhas, dignas de se entalharem em bronzes, esculpidas em mármores e pintadas em telas para a memória do futuro). Estamos certos que cabe às crianças, agentes do futuro, arrolar as aventuras peregrinas desse cavaleiro louco, porém douto, que ainda encanta leitores de todas as idades.

O livro é da autoria de Rosa Navarro Durán e traduzido para Língua portuguesa por António Rebordão Navarro. Adaptar um clássico para crianças é, seguramente, um desafio metodológico e uma missão maior. Há que depurar o texto base, encontrar-lhe a simetria e a forma para enlear na trama o jovem leitor. Há que adequar o assunto, forma e estilo fazendo com que o universo proposto e os problemas identificados surjam com fácil apreensão. O livro passa com distinção todos os requisitos. O narrador afasta-se do adulto para se aproximar do mundo infantil. O tipo de letra “gorda” desenha a narrativa que vibra nos momentos de avanço – com poucas descrições, os chamados momentos de pausa – da narração. As frases são curtas e simples. Assim se cria a vertigem pelas aventuras fantásticas, de trapalhadas e desditas das famosas personagens, e se enfeitiçam os novos leitores para a literatura que também deleita os adultos.

As Ilustração coloridas e expressivas, repletas de movimento e sentimentos, delicadeza e divertimento, de Francesc Rovira, acompanham e dão forma ao texto e ao encantamento do leitor, ajudam a compreender o conflito e a configurar as personagens, física e psicologicamente. São legendadas com uma frase que compreende uma ideia forte do texto, e actuam como fonte de imaginação para a criança que, a partir do visual, cria o sentido sobre o que é contado, para depois o reestruturar à luz do seu mundo interior. Este é o processo da criação e do crescimento intelectual.

Os ensinamentos da loucura

As aventuras do maluco cavaleiro andante Dom Quixote, que enlouqueceu por ter lido demasiados romances de cavalaria, chegam às crianças indeléveis nos seus valores morais. Figura que reverbera a grandeza humana pela assunção das suas fragilidades – um ser defeituoso pela loucura, e de frágil compleição física – o cavaleiro da triste figura propícia aos miúdos grandes ensinamentos morais. O humanista Erasmo escreveu em «O Elogio da Loucura» que a melhor idade do ser humano é quando se é criança pois tem-se o «encanto da loucura», e questiona: «o que seria dos homens sem o impulso da estultícia?». Também, António lobo Antunes, ao reflectir sobre a loucura do homem, disse: «no fundo o que é enlouquecer? é sair de uma determinada norma, não é? É preciso ter muita coragem para se ser realmente louco.» Desprovidas da razão tantas vezes castradora, e íntimas da loucura, as crianças facilmente se reconhecem nos ideais do anti-herói, pois para elas, as atitudes tidas por absurdas e irreais, não o são. Mais: usam-nas para crescer saudavelmente.

A loucura de Dom Quixote é um ímpeto vital que o atira para a aventura que lhe dá sentido à existência. A aventura do protagonista com condutas fora do seu tempo é uma manifesta fuga a esse tempo e, por isso, encerra a crítica de Cervantes a uma época insonsa e sem encanto. No contraponto, que fortalece o sentido da crítica, está Sancho Pança “alheado” das utopias, com os pés assentes na realidade, mas, talvez por isso, toldado pelo medo: «O medo que tens, Sancho, não te deixa ver nem ouvir nada – disse dom Quixote. E depois de explicar ao seu escudeiro como o medo faz ver as coisas que não existem, disse-lhe que o esperasse, pois ia entrar na batalha. Esporeando o rocinante, desceu como um raio a encosta e lançou-se contra os exército» (p.63).

Aprende-se que a vitalidade da loucura contamina até os “incontamináveis” –chegam a dizer que Sancho parece estar tão louco quanto Dom Quixote. Sancho aprende o benefício da loucura: «Sancho seguia-o, embora o pavor aumentasse á medida que se aproximavam do estrondo. Iam avançando passo a passo e, de repente, viram o que causava o espantoso barulho: eram seis maços, com que se comprimem os linhos, aproveitando a força da água! O riso de Sancho foi tão grande que se esqueceu de todas as suas penas.» (p. 73).

A loucura de Dom Quixote ensina que deve lutar-se pelos ideais sendo claro, também, que a ilusão permite a voluptuosidade da alma: todas as desditas eram interpretadas como novas formas de encantamento, embora Sancho lhe tentasse mostrar que ele não estava encantado, ele estava convencido que sim, «e isso bastava». «Aceitava todas as calamidades como acontecimentos da vida de cavaleiro andante». Consolou Sancho dizendo que «todas essas borrascas anunciavam que depressa sairia o sol e que estavam já prestes a chegar o bom tempo, os reinos e as riquezas.»(p.67)

A loucura permite, ainda, criarem-se laços de amizade: entre Quixote e Sancho desponta uma amizade enternecedora testemunhada ao longo da narrativa, como por exemplo quando Sancho pediu a Dom Quixote um ordenado e foi servido pela resposta veemente do amo: «que se não queria ir com ele, encontraria outro escudeiro mais obediente e decidido. Quando Sancho ouviu a firme determinação do seu senhor prescindir dos seus serviços, caíram-lhe as asas do coração. Então, submisso e enternecido, disse-lhe: - de novo, senhor, eu me ofereço a servi-lo tão fiel e legalmente, tão bem e melhor que quantos escudeiros serviram cavaleiros andantes nos passados e presentes tempos. Senhor e escudeiro abraçaram-se afectuosamente.».

Erasmo, na obra já citada, defendeu que «há tanta variedade e tanta obscuridade nas coisas humanas que nada se pode elucidar» e que «toda a vida dos mortais não passa de uma comédia, na qual todos procedem conforme a máscara que usam, todos representam o seu papel, até que o contra-regra os mande sair de cena».
Dentro de cena, e a adquirir instrumentos de robustez psíquica, estarão os jovens leitores deste novo livro de 202 páginas e quase um quilo, feito para eles, num acto mágico dos autores. Cremos que o «sabio encantador» do futuro que se deixará tocar pelas aventuras peregrinas de D.Quijote – de que falou Cervantes – respeita aos jovens leitores que zelarão pela imortalidade desta narrativa considerada a obra mais significativa da cultura espanhola e um clássico da literatura universal.


Dom Quixote Contado às Crianças, Rosa Navarro Durán e Francesc Rovira; Editora Campo das Letras, Porto, Dezembro de 2005

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© Teresa Sá Cou
to

(a um jovem avô)

3 comentários:

contador antropomórfico disse...

Até eu fiquei com vontade de reler! :-)

«Rêver un impossible rêve...»
http://www.youtube.com/watch?v=U2kn0Q3UHOc

Abraço
C.

Teresa disse...

"Descobri" a literatura infantil apenas há cerca de uma década, quando também estes livros me começaram a chegar a casa. É um admirável mundo :)

magnifique Brel...

Abraço
T.

A. Costa disse...

Ainda não li mas vou ler esta adaptação de D. Quixote para os leitores mais pequenos.

È sempre bom que os mais novos tomem contacto com a grande literatura e quanto mais cedo melhor.