segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Os males humanos e a verdade de Brecht

Aqui jaz B.B., limpo, objectivo, mau. Esta era a missiva tumular que Bertolt Brecht confessou gostar de ter na sua sepultura. Mas é também a marca da reflexão dialéctica entre o Bem e o Mal do ser humano, indagado com «verdade concreta» impulsionada por um ideal: desalojar a maldade apesar do apelo – ou devido exactamente a ele – de que só sendo-se mau se domina o mundo; e lutar nessa missão, estreme e intrépido, apesar das desilusões, mesmo que o Epitáfio venha a ser este:Escapei aos tigres /Nutri os percevejos /Fui devorado /Pela mediocridade.

Como sempre com autores estrangeiros, há que ter atenção às traduções. Sugiro as Peças de Teatro, que têm vindo a ser coligidas em vários volumes pelas Edições Cotovia; na poesia, destaco a pequena Antologia Poemas, com tradução, selecção, estudos e notas de Arnaldo Saraiva, com a chancela da Campo das Letras e, para uma leitura mais integral da obra do alemão, a grande Antologia Poemas, da Asa, com versão portuguesa de Paulo Quintela, organização e prefácio de António Sousa Ribeiro.

Várias obras de Brecht têm subido aos palcos portugueses. Destaque-se Um homem é um homem, escrito pelo dramaturgo alemão em1953, encenado pelo magistral Luís Miguel Cintra para o Teatro da Cornucópia, espectáculo que foi galardoado com o Prémio da Crítica 2005.

Arauto das injustiças sociais, Brecht fez da palavra a arma contra a indiferença, promoveu a interrogação e a reflexão sobre a identidade individual, a alienação, a violência da guerra, a desumanização. Presenciou as duas Grandes Guerras, a Revolução na Alemanha com o massacre dos seus líderes e milhares de operários, a fome dos anos 20, a ascensão do nazismo e, com ele, Hitler. Anteviu perseguições políticas, soube-se alvo delas e escreveu-o:

As ruas do meu tempo conduziam ao pântano. A linguagem denunciou-me ao carrasco. Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima estariam melhor sem mim, disso tive esperança.

Mais do que sentimentos, Brecht pede actuações. Quem é teu inimigo? pergunta, para logo responder, num jogo subtil e didáctico com o leitor:

O que tem fome e te rouba /o último pedaço de pão chama-lo teu inimigo. /Mas não saltas ao pescoço /do teu ladrão que nunca teve fome.

Assim, a ordem é abrir os olhos e agir para haver equilíbrio na luta contra a injustiça que age de olhos bem abertos:

A injustiça avança hoje a passo firme. /Os tiranos fazem planos para dez mil anos. /O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são. /Nenhuma voz além da dos que mandam. /E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo. /Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem: /Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos. /Quem ainda está vivo nunca diga: nunca. /O que é seguro não é seguro. /As coisas não continuarão a ser como são. /Depois de falarem os dominantes /Falarão os dominados. /Quem pois ousa dizer: nunca?

Também a sátira brechtiana é desenrolada até ao cinismo, apesar do exílio do autor, quiçá por isso mesmo, e assume-se sem esconderijos para servir a pedagogia. Próprio de um homem de Teatro, a verosimilhança da mensagem - os comportamentos, situações, pessoas concretas - atinge certeira o leitor ou o espectador, no caso da dramaturgia, porque é a eles que se dirige e é deles que se fala. E os poemas ora olham acutilantes o poder político, ora detêm-se denunciadores na insanidade da guerra:

Todos os dias os ministros dizem ao povo /Como é difícil governar. Sem os ministros /O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima. / Nem um pedaço de carvão sairia das minas /Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda /Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra /Nunca mais haveria guerra. E atrever-se-ia a nascer o sol /Sem a autorização do Führer? /Não é nada provável e se o fosse /Ele nasceria por certo fora do lugar(…)

**
(…)De pé à sua volta à hora de morrer / – Nós todos. /E /Lá estava também a mulher que o dera à luz /E que não disse uma palavra quando o levámos. /Que essa mulher seja estripada! /Amem. /Mas quando o matámos tratámos /De transformar o seu rosto /com as marcas dos nossos punhos. /Assim o tornámos irreconhecível /para não o darem como filho de algum homem. /Fizemo-lo sair do aço. /Trouxemo-lo para a cidade. /Enterrámo-lo sob uma pedra e sob um arco chamado /Arco do Triunfo /que pesa 1.000 quintais para que /O soldado Desconhecido /Não se levante no dia do Juízo Final /E irreconhecível /Mas de novo e para sempre na luz /Não vá diante de Deus /Apontar-nos a nós, os reconhecíveis, /À Justiça.

© Teresa Sá Couto

2 comentários:

contador antropomórfico disse...

Era, de facto, um limpo e objectivo observador de uma realidade nem sempre boa, provavelmente quase sempre má. A escolha do epitáfio revela a sua natureza: no fundo era um provocador. O objectivo era fazer-nos olhar para o que preferimos não ver. Gosto muito de Brecht. É impossível não o associar à música de Weil. Excelente e oportuna lembrança, T.
Abraço

via disse...

Arrepia-me essa do mau, porque o bem é suave e o mau violento, não se livra Brecht de ser bom escritor, ainda que a bondade não tenha de ser virtude do escritor.