domingo, 23 de agosto de 2009

A política e o mando - no século XVII como no século XXI

Nestes longos dias de campanha eleitoral, a nossa atenção vira-se para o discurso de todos os arremessos e estratégias: o discurso político. As reflexões e as lições tiradas podem e devem ser muitas, tanto sobre a política que se faz por cá, desde a retórica à prática, mas sobretudo sobre o que somos, veiculado por esse vaivém frenético de mandos e desmandos, quezílias e quejandos que nos inviabilizam a crença e, assim, a obediência.

Por isso, exultantes, descobrimo-nos numa prédica política do século XVII. Manuel Fernandes de Vila Real é o autor dos “Discursos Políticos” que desafiam este nosso tempo, dizendo-nos sobre o ofício de mandar: «num ministro o defeito não é só um crime mas uma regra, porque os súbditos aprendem mais com o exemplo que com os preceitos.». Quatrocentos anos depois, o espelho devolve-nos a imagem. Sendo o espelho uma superfície de revelação, que se tirem ilações e que se aprenda com elas.

Actuação política, Verdade e Eloquência

O autor diz que um governante tem de ser sábio e estar bem preparado; «a ignorância é mãe do mau sucesso e quanto maior é seu poder, maior é seu dano». E, depois, «se a sabedoria não reina, quem governará a ignorância?». Então, como escolhê-lo? «Grande infelicidade entregar-se o governo ao que ignora o governo da sua casa. Para se conhecer um ministro, é necessário ver o seu talento, não sua pessoa.» A erudição e as letras são condição essencial ao bom governante; «se não constrói um edifício aquele que não é arquitecto; por que se admitirá no Conselho o que carece de estudo?»; Ele necessita dominar as letras, pois «As palavras bem ordenadas são mais poderosas que as armas; umas aproveitam-se do poder, outras do discurso; se aquelas submetem o corpo com a violência, estas, o entendimento com a razão».

Porém, defende o autor, todo o político deve estar atento ao Dizer e Fazer: «É mui necessário num ministro o dizer e o fazer. A ciência que não se reduz a acto, que não se manifesta, é vã; e ser só para si é não querer ser para ninguém. (…) E num ministro o defeito não é só um crime mas uma regra, porque os súbditos aprendem mais com o exemplo que com os preceitos.».

Advertências ao apetite desordenado dos políticos

O autor discorre sobre a ambição desmedida dos políticos, e adverte-os para a prudência e a reputação, lamentando que poucos tenham estes atributos: «O empreender coisas grandes é de ânimo grande; e efectuá-las é de uma capacidade superior e de uma mão não medíocre fortuna. Às vezes procede quer do valor quer da desesperação; a umas acaba a sorte, outras acabam com o que as empreende. São poucas as que a prudência consegue, porque são raros os sujeitos que a gozam eminentemente. Quem estima a sua reputação considere primeiro se é poderoso para efectuar o que intenta, porque é danosa a experiência se não se executa, que o não aspirar ao que não poderia conseguir.».

Assim, à laia de conselho, «Que se sofra o que se não pode emendar, que não se provoque os que podem ofender»; há que contar, também, com o ressentimento daqueles que se vêem fora do governo e reparam que não é necessária a sua assistência para se governar. Adverte que a sede de poder pode levar um político a sucumbir à teia dos favorecimentos, desaconselhando-os.
Pronunciando-se sobre Validos e Valimento, o autor reflecte no preço perverso e de efeitos ilusórios que têm os favorecimentos: A privança, o favor, «é mais um cuidado grave que uma posse deleitosa. Não a procura o sábio, porque a tranquilidade do ânimo, que apetece, não se acha na confusão dos palácios.».

A Queda: quanto «Maior Altura Mais Fundo o Precipício»

É certo que todo o fruto sem dentro está condenado ao desprezo. Neste sentido, o autor defende que o amor pela causa pública tem de ter assento na alma, ou não passa de aparência, e esta tem um fim anunciado. Por outro lado, mesmo com boa actuação, todo o político deve ter em conta a sua queda. Esta postura dar-lhe-á lucidez e torna-o zeloso no cumprimento do seu ministério. Assim, se pronuncia: «Não há coisa que possa durar estável em sua perfeição»; «O ministro que tenha servido bem, tema sempre a sua queda, porque quando não a ocasionem seus erros, a executará a inveja ou a fortuna.».

E, sabemos – e sabe-o o político – que «o declive não tem escalões senão a queda.» Refere-se que o que cegou com a vaidade e ambição levará outros consigo na queda fatal: «É efeito próprio da soberba levantar o corpo segundo o edifício, não fabricá-lo segundo seu corpo. Julgam as suas forças pela sua ambição, e enganam-se, porque lhes faltou o conhecimento em seus juízos. Promete-se vitórias onde não podem esperar senão ruínas, loucura que tem o castigo na experiência. Enganar-se com a esperança, à custa de sua perda, é efeito de um apetite desordenado e induzirá outros a que sigam os seus passos; é pretender companheiros na miséria e conduzir muitos ao precipício.».

O autor alerta para as sedições, as sublevações populares, que são «como as ribeiras que quanto mais correm mais crescem, e se não acham resistência, não cessam até chegar ao oceano do diadema. (…) O seu ímpeto é desenfreado, uma fraqueza do entendimento que o amor da liberdade cega; ou da vontade que induz a paixão da inveja; ou do apetite que o gosto de mandar levanta.». Diz que a «Verdade é que o povo, como discorre sem prudência, sente mais o presente que teme o futuro; queixa-se mais do que insensivelmente se lhe tira do que pode perder ficando arruinado».


O autor: Manuel Fernandes de Vila Real nasceu na pululante e mercantil Lisboa, em 1608 – o mesmo ano em que nascia o autor do “Sermão de santo António aos Peixes”, o padre António Vieira – e, pela definição de hoje, foi «um dos primeiros jornalistas portugueses». Foi confidente (e/ou espião?) do cardeal Richelieu que lhe perguntava pelo «reino de Portugal e estado de suas coisas.».
Exerceu intensa actividade política e diplomática. Os seus discursos recentemente lançados no livro «Epítome Genealógico do Eminentíssimo Cardeal Duque de Richelieu e Discursos Políticos sobre algumas acções da sua vida», na Colecção «Obras Clássicas da Literatura Portuguesa – Século XVII», são arautos do direito à liberdade de consciência, antecedendo Bento Espinosa, autor do «Tratado Teológico-Político.». A expressão da liberdade de consciência do século XVII tinha direito à incineração e este português “maldito” acabou queimado no fogo da inquisição.


nota: edição deste documento com contributo inestimável para a cultura portuguesa é assinada pelo notável António Borges Coelho e tem a chancela da Editorial Caminho.

© Teresa Sá Couto

2 comentários:

contador antropomórfico disse...

Tem razão, não há nada mais imutável que a natureza humana e são livros como este que nos fazem perceber isto.
Como sempre, boa [e oportuna :-)] sugestão
Abraço

Teresa disse...

É interessante recordarmo-nos de que tudo já foi escrito (e neste sentido, é triste verificar a nossa incapacidade para o novo). E vem isto também a propósito da actualíssima reedição de uma Antologia da poesia Grega Clássica...

Pois, é...

um abraço
TSC