quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Quetzal no reencontro com Vergílio Ferreira

Aos mais distraídos, alerto para a reedição da obra completa de Vergílio Ferreira, em tomos individuais com esmero inaudito da Quetzal, para um reencontro de sempre.

Escritor de excelência, Vergílio Ferreira (1926/1996) é o ilustre representante do Existencialismo em Portugal; o “Eu” e o mistério da morte ocuparam grande parte da sua reflexão literária e a sua obra «Aparição» foi, ao longo de gerações, leitura obrigatória nos currículos escolares dos alunos do 12º ano.

Vergílio Ferreira procura nas coisas o seu «mistério e o seu alarme» que «são o tecido de tudo». Cônscio, defende que o homem é o que faz, responsável por todos os seus actos, e faz da palavra o meio para essa investigação humana. Sobre a razão da sua escrita, responde-nos assim:

«Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem e a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo.».

Sobre essa necessidade de escrita que nos despoleta a necessidade de o ler, transcrevo dois extractos do espantoso romance «Em Nome da Terra», escrito em 1989 e editado no ano seguinte. Outros extractos podem ser lidos na Casa Improvável.

Extractos:

«Um corpo apenas, material, verificável. Mortal. Mas o que sobrepus nele não se trespassa assim. É preciso atravessar o medo o deslumbramento o impossível. É preciso vencer o mistério – um corpo amado é tão misterioso. Meu corpo de ternura. Havemos de conquistá-lo até um dia. Até quando ele for insuportável de doçura. Devagar. Mas há a tua inquietação. A tua pressa ardência, deixa-me ter tempo de te criar. De te trazer toda às minhas mãos. De trazer até mim o teu olhar esquivo, os teus desencontros furtivos. A tua agilidade, o oculto de ti. O teu riso, a tua franja irrequieta. A rapidez de seres, a vitalidade desassossegada, a tua alegria agressiva. A intensidade de existires – devagar. Atravessar tudo até ao teu mito que está todo no teu corpo nu. Fica longe. Tanto. E então amámo-nos e tudo estava aí. Estava lá tudo ao mesmo tempo e eu estalava de agonia. E Deus olhava-nos e dizia está bem. Realizar Deus todo inteiro é difícil. Está bem. Tínhamos as galáxias do universo e havia ainda espaço. E isso era de endoidecer. Tínhamos em nós a sua expansão até ao rebentamento de nós. O desmesurado e incrível. Deus olhava o nosso esforço enorme e sorria por cumprirmos o seu poder. Gostava bem de ser calmo ao dizer-te. Um corpo cerrado num punho sangrento de homem. Ter-te toda de uma vez. As pernas os seios a boca. Apunhar-te toda na minha avidez. Mastigar-te integrar-te no meu sangue. E tu enovelada em mim, na angústia exaltação de uma morte que viesse. Desaparecermos no não-ser, na perfeição. E olhar por fim o teu corpo morto, reconhecermo-nos na materialidade expulsa do paraíso.».p. 102
.
«E vão sendo horas enfim de descermos ao rio. Amanhã talvez? Hoje. Um dia. Estará uma noite quente, caminharemos de mãos dadas. O anjo não virá, que teria lá que fazer? Vamos sós. Não terei medo da tua presença com toda a sua força de me ajoelhar. Olharei o teu corpo na sua transparência incorruptível. Sofrerei em mim a descarga do universo e não gritarei o teu nome. Porque estará em mim e eu hei-de sabê-lo. A areia brilhará de uma luz pálida, pisá-la-emos devagar a um impulso fortíssimo e lento. Estaremos nus desde o início, sem vergonha anterior. Nudez primitiva, não a saberemos. Porque será uma nudez para antes de os deuses nascerem. Então mergulharemos nas águas do rio e deitar-nos-emos na areia. E olharemos o céu limpo e sem estrelas. E acharemos perfeitamente natural, porque a iluminação estará em nós. Erguer-nos-emos por fim e eu baixar-me-ei ao rio e trarei água na concha das mãos. E derramá-la-ei imensamente devagar sobre a tua cabeça. E direi para toda a história futura, na eternidade de nós
- Eu te baptizo em nome da Terra, dos astros e da perfeição.
E tu dirás está bem. » p. p. 270, 271


Em Nome da Terra, Vergílio Ferreira; Quetzal, 10ª edição, 2009


6 comentários:

contador antropomórfico disse...

Já coloquei «etiquetas» nos extractos, para ser mais fácil encontrar as pérolas entre os calhaus... :-)

Concordo consigo, o «Em nome da Terra» é uma obra extraordinária, esta edição primorosa, o livro é um daqueles que levaria comigo se fosse desterrado para uma ilha deserta.

Reparei que escolheu citar o início. Assim, quem começar aqui e depois for ler os outros extractos tem uma ideia do crescendo, que a meu ver é um dos aspectos mais extraordinários da obra. Boa escolha :-)

Uma vez mais obrigado e boa noite.

Rui Herbon disse...

Este é dos poucos romances dele que não li. Vai para a lista.

Teresa disse...

Olá Rui.
Regressado da Dinamarca?

Fazes muito bem juntar este livro na tua lista :)

Beijinhos
T.

Rui Herbon disse...

Já cá estou. Mas com saudades da vida comunitária e dos amigos que deixei por lá. Beijinhos, RH

my blue world disse...

são todos bons, mas confesso que existe um que é como uma bíblia para mim - pensar.
gosto muito do seu blog! parabéns!

Teresa disse...

Obrigada pela visita e pelas palavras gentis :)