sábado, 19 de setembro de 2009

Sessenta anos de corrupção na ONU

Um livro demolidor de Eric Frattini

Digo-vos, infelizes, lixados pela vida, vencidos desolados, sempre empapados em suor, advirto-vos: quando os grandes deste mundo começam a amar-vos é porque vão converter-vos em carne para canhão. O aviso é de Louis-Ferdinand Céline, restaurado pelo polémico, inquiridor, denunciador e demolidor Eric Frattini. Autor de «A Santa Aliança – Cinco Séculos de Espionagem do Vaticano», o jornalista, investigador e escritor nascido em Lima, em 1963, assina mais este título abrasivo: ONU – História da Corrupção, onde descreve e documenta, sem constrangimentos, 60 anos de fraude, «corrupção, favores, assédio e abusos sexuais, pederastia, nepotismo, clientelismo, esbanjamento, burlas, torturas, subornos, má gestão e uma catastrófica administração» da Organização das Nações Unidas, tida como um «monstro que continua a engordar» exaurindo os ideais que lhe serviram e legitimaram a criação.

Em nota introdutória, datada de 2005, o autor diz que o livro não é um texto histórico sobre as Nações Unidas, mas um capítulo dentro da longa história daquela organização, feito com informação verídica, muita com recurso a documentos "classificados", fornecidos «por funcionários da ONU muito interessados em que se tornassem públicos». A exposição de Eric Frattini é acompanhada de fotografias, reprodução de documentos oficiais, uma extensa bibliografia, e listagem de Organismos e Meios de Comunicação consultados. O resultado é um ensaio que vai desde a raiz da ONU até aos ramos da actualidade.

Ao longo de doze capítulos, feitos degraus de descida aos subterrâneos iníquos do poder, o autor acompanha os mandatos dos sete Secretários-Gerais da organização para relatar como Trygve Lie, primeiro secretário-geral da ONU, cooperou abertamente com o Comité de Actividades Antiamericanas de McCarthy na sua "caça às bruxas" dentro da ONU; como Dag Hammarskjöld permitiu a entrada de agentes da CIA na sede da ONU e como ajudou essa entidade a manipular a política do Congo; como U Thant protegeu seis diplomatas árabes suspeitos de assassinar uma norte-americana numa orgia de sangue e sexo em troca de uma importante doação; como Kurt Waldheim ocultou o seu passado nazi e os seus anos de serviço no exército de Hitler; como Javier Pérez de Cuéllar protegeu e promoveu as influências pessoais e o esbanjamento entre altos funcionários da ONU; como Butros Butros-Gali protegeu altos funcionários da ONU – seus amigos pessoais – de graves acusações de assédio sexual sobre funcionárias da organização; ou como Kofi Annan fechou os olhos em relação aos maiores casos de genocídio no Ruanda e em Srebrenica e, por "omissão", face ao maior caso de corrupção de toda a história da ONU no programa "Petróleo por Alimentos", em que esteve envolvido o seu próprio filho, Kojo Annan».

Capacetes Azuis: abusos e impunidades

Partindo da asserção de um ex-funcionário da Onu – «Se um capacete azul chega à tua cidade ou aldeia e se oferece para te proteger, foge. Agarra numa arma. A tua vida vale muito menos do que a dele» –, Eric Frattini relembra múltiplos escândalos enredando os “capacetes azuis”. Diz-se que, se em 1988 estas forças da paz das Nações Unidas receberam o Prémio Nobel da Paz, a sua actuação posterior deixou para trás a imagem romântica dos soldados que alimentavam e protegiam as mulheres, os velhos e as crianças.

Referem-se abusos e exploração sexual de mulheres e raparigas no Camboja (1992-1993) ou na Libéria (1993-1997); torturas a prisioneiros na Somália (1992-1995) – «o jornal flamengo Het Laastse Nieuws publicou mesmo fotografias que mostravam um soldado da ONU a urinar sobre o cadáver de um somali»; violações de crianças no Congo (presença desde 1999) e em Moçambique (1992-1994); casos de pederastia na Serra Leoa (presença desde 1998) e no Kosovo (desde 1999); escândalos na Bósnia-Herzegovina (1995-2005) com a prática do mercado negro – tido como «fonte de rendimentos ilícitos para os soldados da ONU» com o qual «estavam a ficar bem ricos e a tornar ricas as máfias locais» –, também da prostituição juntando-se-lhe um rol de insanidades: «pelo menos trinta e dois “capacetes azuis” do Canadá feriram, torturaram e violaram doentes e enfermeiras de um hospital psiquiátrico na Bósnia»; abordam-se «casos de escravatura de mulheres somalis ou bósnias e abandono de civis desarmados às mãos dos seus agressores no Ruanda e Sbrenica», numa lista demasido vasta de condutas atrozes para que possamos ficar indiferentes.

Perante a bizarria e o anómalo, o texto refere que foi pedido por mais de 100 Estados-membros dos 191 que compõem a assembleia-geral da ONU que se rejeitasse a Resolução 1487 do Conselho de Segurança que impedia o Tribunal Internacional de julgar os “capacetes azuis”. Todavia, pode ler-se, «apesar das suas bem intencionadas palavras em que Annan afirmava que a resolução contrariava o espírito da Carta das Nações Unidas, o Conselho de Segurança renovou a 1422 e adoptou a Resolução 1487, como ampliação da anterior e com ela a “autorização de pirataria” para os milhares de “capacetes azuis” espalhados por todo o Mundo».

Um provérbio chinês aconselha: «Antes de iniciar a tarefa de mudar o Mundo, dá três voltas pela tua própria casa». Sendo o Mundo a casa larga de todos, é o dever de cada um participar na arrumação. Não o fazer é deixar a tarefa concentrada só nalguns e legitimar-lhe o poder sobre esse bem que deve ser comum. Este livro mostra-nos o preço e o perigo do comodismo de uma metade da humanidade perante a outra metade.

ONU – História da Corrupção, Eric Frattini, Editorial Campo das Letras, Porto, Setembro de 2006


© Teresa Sá Couto

12 comentários:

Claudia Sousa Dias disse...

muito bem. só espero que não seja brevemente obrigado a ser retirado das livrarias como o livro de Gonçalo sobre o caso Maddie.

o mais provável é que o seja.


infelizmente.


csd

Teresa disse...

se fosse português e sobre um tema desta aldeia, era certinho!

Este livro vendeu bastante. Até tive mails do Brasil a pedirem informações para aquisição do livro cá (é que este texto foi editado na altura em que o livro foi lançado, e agora reeditado aqui :))

Beijinhos
T.

contador antropomórfico disse...

O «caso Maddie» corresponde, na realidade, a dois casos: o judicial e o mediático. Encontrar a verdade talvez seja matéria para um terceiro caso...
Abraço

Pedro Lopes disse...

a ler, a ler
vou ler

Teresa disse...

Olá Pedro,
obrigada pela visita
um abraço
TSC

Teresa disse...

Obrigada, C.a, pela adenda :)
Um abraço
TSC

Fada do bosque disse...

Olá Teresa,
Este livro interesa-me muito, um amigo perguntou também o nome em inglês, pode dizer-me por acaso?! Obrigada e Parabéns pelo seu magnífico trabalho! :)

Teresa disse...

Olá.
o título original: "ONU, Historia de la corrupción", 2005

Em inglês, é traduzido à letra. Tem aqui a página do autor: http://www.ericfrattini.com/

Obrigada pela visita e pelas suas palavras :)
TSC

Fada do bosque disse...

Teresa olá :)
Quem tem de agradecer sou eu, pela bondade de me prestar a informação.
Tem mesmo um talento excepcional.
Há poucas pessoas, com tanta dose de talento!

Beijinhos

Helena Araújo

Teresa disse...

Não me estrague com mimos, Fada Helena :))))))

Beijinhos
T.

vargas disse...

Gostaria de ter tido a oportunidade de ter lido um livro em que o autor escrever a respeito da corrupção no governo do Ex-presidente Luiz Inacio Lula da Silva o LULA, intitulado "O Chefe", que por motivos de forças ocultas esse livro nem chegou a ser publicado, e espero, como o colega cometou espero que o referido livro sobre a corrupção na ONU, "Sessenta anos de corrupção na ONU"
,não seja retido das livrarias.

Teresa disse...

Vargas,
este livro foi editado pela Campo das Letras, editora que já não existe. Assim, creio, encontrá-lo será um golpe de sorte.
Obrigada pela visita.
TSC