sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Como se produz uma notícia?

As relações entre o jornalista e a fonte

«Que narrativas e histórias interessam aos jornalistas? Como trabalham os jornalistas os seus recursos e que rotinas? Que representação do poder e da sociedade em geral deixam ficar nas notícias? Que fontes de informação falam das notícias? Que fontes de informação são seleccionadas pelos jornalistas?»

Responder a estas e muitas outras questões é o objectivo do livro A Fonte não quis revelar, de Rogério Santos, doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e docente de Comunicação na Universidade Católica Portuguesa. Por 242 páginas o leitor é convidado a seguir o percurso da construção da notícia, a apreender as relações entre jornalistas e fontes de informação. Na vertigem das sociedades da comunicação, com a notícia procurada e metamorfoseada a cada instante, o livro vem lançar alguma luz sobre o «jogo informativo» de que todos fazemos parte.

Na introdução, o autor adverte que grande parte da pesquisa compreendida no texto foi base para a sua tese de doutoramento sobre como o HIV-AIDS foi abordado pelos media portugueses. A investigação apoiou-se, ainda na Sociologia do jornalismo, com recurso a vários autores, pelo que no final é apresentada uma extensa lista de Bibliografia consultada.
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A «dança guerreira» no acesso à informação
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Diz-nos o autor que lendo-se conveniente e atentamente uma notícia, ela revela uma «dança de lances de jogo e negociação» entre o jornalista que a produziu e a fonte de informação que a promoveu. Comparando-se a um jogo de xadrez onde existem regras definidoras e regras estratégicas, é-nos explicado que a complexidade aumenta conforme o número de «entrantes» no jogo e há que contar com «fontes políticas, judiciais, científicas e outras, jornalistas, e os vários meios noticiosos em concorrência, e a opinião pública», que o texto explica desta forma:

«A relação entre jornalista e fonte de informação, para além de usar regras definidoras – rigor na informação, rapidez na prestação da informação, enquadramentos adequados dos acontecimentos, colaboração ou desconfiança mútua –, emprega as regras estratégicas do jogo – necessidades concorrentes de publicitar o acontecimento de uma fonte de informação e do jornalista obter uma informação nova ou exclusivo. Mas não existe uma determinação prévia onde está o poder, ou quem controla o conhecimento num dado momento. O jogo é, em simultâneo, desempenhado por vários intervenientes, que escrutinam o poder, as forças e a influencia dos adversários, para fazerem os seus lances.

A disputa de recursos disponíveis implica a luta e negociação sobre os acontecimentos importantes ou relevantes. Assim, a luta ou troca de informação regista-se não entre um jornalista e uma fonte de informação, mas numa multiplicidade de agentes sociais, que incluem jornalistas, meios noticiosos, fontes de informação e a sociedade no seu todo.».

Mais: diz-nos o autor que neste jogo de influência e conflito entre jornalistas e fontes, «cada uma das partes cria uma agenda de temas e tenta influenciá-la». Assim, refere-se, «jornalistas e fontes de informação procuram protagonizar o jogo, mas sabem que são usados pelos outros agentes sociais. Trata-se de uma dança ou simbiose guerreira entre o que se sabe e o que não se sabe, entre o que se disponibiliza e se esconde».

Neste jogo ou dança ou arena de luta, onde coabitam o segredo, a confidência, a censura e a publicidade, o autor adverte para o carácter pernicioso de fontes e jornalistas que põe em relevo uma multiplicidade de interesses: «as fontes de menores recursos apostam na intriga, desvendam as rivalidades de organizações maiores»; «fontes rivais através de fugas de informação ou balões de ensaio, boicotam os projectos das organizações a que pertencem» e, «graças a redes de contactos informais com jornalistas», veiculam os seus interesses que servem também os objectivos dos jornalistas sedentos de novas notícias.

A fonte não quis revelar, Rogério Santos, Editorial Campo das Letras, Porto, Junho de 2006

© Teresa Sá Couto

13 comentários:

Luís Sampaio disse...

Sempre subtilmente em cima do acontecimento... É inacreditável!
Um abraço
LS

contador antropomórfico disse...

Muito oportuna sugestão! :-)

E, como sempre, arguta escolha das citações. Só é pena que a maioria das pessoas continuem distraídas. Às vezes pergunto-me que mais podemos fazer para que vejam o que está debaixo do nariz...
Abraço

Teresa disse...

é a minha forma "enviesada" de compromisso com a actualidade, Luís :)))

Um abraço
TSC

Teresa disse...

pois, C.a.; o pior é que não é só o que nos "está debaixo do nariz": somos nós que originamos e alimentamos isto das formas mais perversas!

Um abraço
TSC

contador antropomórfico disse...

Sim, sem dúvida, isso também. E a «contaminação» está a chegar aos blogs, como ultimamente se tem visto, pelo que até esse «filtro» das notícias está a desaparecer. A continuar assim corremos o risco de, em breve, termos uma Imprensa reduzida a uma gigantesca e ininterrupta «Noite da má-língua».
Outro abraço

Teresa disse...

só podia; afinal é a sociedade que temos

Outro Abraço
TSC

Rui Herbon disse...

Cheguei a este post por recomendação de uma carta anónima :)

Teresa disse...

é uma rede bem montada, pá :)))

bjinhos
T.

Benjamina disse...

Pois é Teresa, eles todos entretém-nos e nós andamos entretidos.

Rogério Santos disse...

Obrigado pela referência ao meu livro.
Rogério Santos

Teresa disse...

Obrigada, eu, Rogério, pelo seu estupendo trabalho.
Um abraço
Teresa Sá Couto

Anokas disse...

(...)"dança de lances de jogo e negociação"(...)jornalista e fonte de informação, uma imagem poética, em minha opinião,mas muito real... ao que se vê, lê e escreve no mundo das notícias.

A Sociedade, o Homem e a Intriga no três em um: a notícia.

Perdoem-me a "intromissão"!

Uma admiradora dos seus texto e opções literárias,
abraço,
Ana Lopes

Teresa disse...

Não é intromissão, Ana, ora essa :)
É um gosto ter vindo aqui.
Abraço
TSC