domingo, 23 de novembro de 2008

«Encornados, encornadores e pássaros avisadores»

Na aldeia de Campoamor, os habitantes vivem ao ritmo das pulsões do corpo e voos de espírito. Como em qualquer outra aldeia. A diferença entre esta e as outras é que Campoamor tem um escriba com marcas de jornalista, cronista, romancista e poeta, que se move entre todos e regista não o que se ouviu, mas o que se ouviu contar, mais exactamente, não o que se ouvia «mas o que se julgava ter ouvido»; e remexe tudo ou são as palavras que remexem, porque elas também têm asas.

Assim surge «Campoamor – Uma história de encornados, encornadores e pássaros avisadores» pela pena de um ilusionista: Hugo Santos, alentejano, nado em Campo Maior e mestre na arte das «palavras que se apegam ao tutano dos sentires e que os chupam de tal modo que apenas quedam os ossos». Este é um «Romance mágico, na concepção e na escrita», escreve Urbano Tavares Rodrigues, no Prefácio. Necessária, luminosa e inolvidável, esta narrativa vem resgatar a tradição literária de quadros rurais tradicionais onde ressumam Aquilino, Fernando Namora e o ardiloso, subtil e satírico humor vicentino tão arredado da moderna Literatura Portuguesa, tudo impresso com elegância e harmonia artística incomensuráveis.

Amassar o barro do mundo

«Cada um sabe de si e Deus de todos»; Deus e o escriba que o vai registando ao longo das 153 páginas intensas e alígeras, com muitos enredos, muitas vozes, muitos espantos e estremecimentos soltos pela pureza e pitoresco com que se descreve o barro humano. Narrativa de observação que assenta o seu método na deambulação, cria-se um puzzle, que vai para diante e para trás, ao ritmo das histórias alheias que cada um diz saber – criando-se, assim, um prodigioso laboratório de observação social – e dos ajustamentos que vai fazendo o narrador, que colige todas, fazendo da própria escrita um festim deambulatório. A acção centra-se na fronteira espanhola, numa vila enquadrada por dois rios, alegoria do processo que subjaz à feitura duma narrativa, a realidade e a ficção, mas também das dualidades com se cose e descose a vida.

Na trama estão bandos de pássaros que assaltam o coração da vila, questionando-se «se os mais esvoaçantes são os de cima ou os de baixo, os pássaros ou os homens.». Centrando-se no voejar dos terrenos, apresenta-se uma prodigiosa galeria de personagens, homens e mulheres em cenas eróticas, em «Cavalgamentos e descavalgamentos clandestinos», «afogueamentos e desafogueamentos» no «sobe-e-desce que nos varia o sentido e nos faz crer que o infinito é já ali», mostrando, afinal, que «o concavo e o convexo eram coisas para se ajustarem, sempre que fosse preciso»; mostra-se, sobretudo, a exortação à Primavera ou a necessidade dela, naquele mês de Abril em que «o número de encornados e encornadores sobe a olhos vistos», não interessa de que ano, pois em todos os tempos e para lá de qualquer geografia é sempre tempo e lugar para o encontro de duas solidões. Nesta tese da sobrevivência humana, a narrativa entra no fantástico: um morto que escrevia cartas de amor à sua viúva e um morto-vivo que visita a sua viúva dia-sim dia-não para lhe mostrar o prodígio dos dotes que não mostrou em vida. É o mundo do avesso, entenda-se, da insurreição perante as limitações da existência, onde há ainda cegos que vêem, surdos ouvidores, um vedor falhado cuja vara de vime anuncia os mortos, uma mulher nua que enlouquecida vagueia pelas ruas com uma luz a acompanhá-la.

E percebe-se o que foram os pássaros fazer à vila: «as esperanças de muitos sempre se assemelharam a asas de pássaros, um dia confronta-se cada um com os sentires que tem e começa a voar com eles, os pensamentos têm destas coisas, juntam as pedrinhas do passado, do presente e do futuro e misturam-nas de tal modo que, a dada altura, o acontecido está para acontecer e o que se considerou feito está por fazer».

O escritor e a liberdade da escrita

«Oficiante da pena e de penas e por elas oficiado», ao escriba cabe o papel de «desatar os nós górdios dos escrevinhados e pôr pássaros onde deviam estar bichos doutro rastejo», como já anteriormente se viu. E Hugo Santos, tal como o narrador da história que «se habituou a manusear as pedras-pomes das palavras e a afiar com elas as utopias» mostra-nos de forma cristalina a relação fascinante do escritor com o processo de escrita: escrever «é um pouco como caçar mosquitos com uma espingarda de calibre 12, socorre-se o pensamento do narrador com as letrinhas necessárias ao seu enforcamento e, a dada altura, disparam umas para um lado e outras para o outro, quer expressar-se um “sim” de assentimento e sai-lhe o “não” da catequista Fernandinha Raposo quando posta sob as investidas do prior Alcino do Rosário, quando se chega ao fim da história até parece que foi outro que por nós a debitou».

Outrossim, discorre-se sobre a relação entre a realidade e a ficção, a verdade e a mentira enquanto construtoras do processo de escrita. A realidade «é mais susceptível de dúvidas que o contrabando da ficção», refere-se, e «a verdade e a mentira andam por linhas paralelas como os carris de dois comboios que vindo um do norte para sul e outro tomando trilho contrário, se encontram no mesmo apeadeiro e parecem traçados ambos pelo mesmo destino». São dois rios que se juntam em águas que galgam as margens. É como os fenómenos que ocorrem em Campoamor: «no fundo, isto é como tudo; quem acredita, vê mesmo com os olhos fechados, e quem descrê não o aceitará nunca nem com eles todos abertos».

© Teresa Sá Couto

2 comentários:

Serrano disse...

Que leitura interessante deve ser esse livro. vou procurá-lo.Você leva-me à falência :D

Teresa disse...

É de tirar o fôlego, este pequeno e precioso livro. Vai gostar. Quanto à "falência", já que estamos na onda delas, ao menos assim é uma falência com um sorriso de orelha a orelha...;))
Obrigada pelas visitas

Um abraço
TSC