
A vileza, o parasitismo, a impostura, outrossim o vazio existencial, o défice de utopias e a falência humana compõem o olhar crítico, que disseca o absurdo, desenganado e dramático deste «Platonov», texto de juventude, extenso, caótico, vibrante, magnético e de uma modernidade avassaladora, que Anton Tchékhov (1860-1904), apesar das inúmeras tentativas, nunca conseguiu levar à cena. A sua edição só aconteceria em 1923 com o título «Peça Inédita de A.P. Tchékhov», já que ao original faltava a página do título, não obstante referências a «Безоцовщина» ("Bezotsóvschina", que quer dizer, "Órfão de Pai"). A orfandade do título seria resolvida com o nome da sua personagem central, um herói mutilado, «fora do tempo e do espaço, dos costumes e da lei», «o melhor exemplo da moderna indefinição» do que é um herói.
«O que é a vida?(..) Quando uma pessoa nasce, segue por um de três caminhos, para além dos quais não há outros: viras à direita, e és comido pelos lobos, viras à esquerda e comes os lobos; segues em frente e comeste-te a ti mesmo», diz-nos o texto, anunciando o percurso de Platónov, ele que acaba por morrer vítima dos seus actos. Mas os quatro Actos da peça apresentam outros tipos de morte, não menos dramáticos que morte física: é explanado um sistema de destruição moral, com personagens a contaminarem-se umas às outras num percurso de inferno existencial; assim se apresenta uma sociedade doente que, pungentemente, se aniquila.
A partir de um certo ponto, serão os nossos actos irresolúveis? Serão os homens que fazem os tempos ou os tempos que fazem os homens? A questão é complexa e circular; a circularidade viciosa que produz gritos exasperados, sendo este «Platonóv» um dos seus grandes testemunhos.
Um aplauso, pois, para esta edição, que vem ao encontro dos leitores de dramaturgia e de todos os que procuram o estilete crítico e o carácter inquiridor que este género literário tão bem cultiva.
A partir de um certo ponto, serão os nossos actos irresolúveis? Serão os homens que fazem os tempos ou os tempos que fazem os homens? A questão é complexa e circular; a circularidade viciosa que produz gritos exasperados, sendo este «Platonóv» um dos seus grandes testemunhos.
Um aplauso, pois, para esta edição, que vem ao encontro dos leitores de dramaturgia e de todos os que procuram o estilete crítico e o carácter inquiridor que este género literário tão bem cultiva.
Os outros textos da Colecção TNSJ

Peça em 3 Actos, com a trama a desenrolar-se num Café de uma rua de Veneza, junto a um Casino, a uma Barbearia e a uma Hospedaria, este é um teatro de exteriores também na construção das personagens, como refere Fernando Mora Ramos no magnífico Posfácio titulado «O Café sem Bodega»: «O Café é meio fora, posto de observação de toda a vida que ali se cruza, e tudo o que é interior se adivinha numa tensão que explora esse desejo de saber o que se passa na invisibilidade».
Com efeito, todos parecem saber tudo uns dos outros e querem saber ainda mais, e todos, de alguma forma, se comprometem com as outras existências, tomando partido, colocando pontos de vista, confrontando posições. Os dois «desajustados» da trama principal são Eugénio e D. Marcio. Eugénio é um jovem burgês, improdutivo, boémio, endividado pelo jogo e dependente daquele vício e do de mulheres : «dinheiro na mão significa jogo, burra de saias, assédio de amor charmoso»; é recém casado com Vitória, o seu contraponto nas virtudes e que faz tudo para o salvar; D. Márcio é o viciado na soberba da sua condição de aristocrata, «mentiroso compulsivo», «predador», o «que se alimenta rapinando a vida de terceiros». Como refere Fernando Mora Ramos, são estas duas personagens que «dão espessura psíquica a um teatro de caracteres que tudo e todos torna vizinhos», as outras personagens e o espectador que facilmente reconhece no seu quotidiano, apesar do texto ter mais de duzentos anos.
Neste Café desfila, imparável, uma «fenomenologia humana desabrida, como se de repente esta praça/café fosse também uma ágora, um parlamento, um lugar de polémica público», refere Fernando Mora Ramos, acrescentando mais uma nota sobre a avassaladora actualidade do texto: «É também um teatro que funda a democracia e continua a fazê-lo, agora que é claro que ela foge por caminhos que não são apenas os do regresso da velha senhora, mas outros, os da chegada de um totalitarismo insinuante de expressão mediática.».
«O Cerejal» de Tchékhov

No ensejo de caracterizar a decadência da aristocracia do séc. XIX, o texto apresenta-nos, através da alegoria de um antigo cerejal que vai ser destruído, os corredores humanos dos medos e inquietações, das incertezas e das contradições, da sobrevivência depois das perdas, do orgulho que não tem sustentação, da adaptação à mudança, conferindo-lhe uma notável actualidade.
O texto conta a história de uma família latifundiária que, apesar de endividada e com a propriedade hipotecada, parece recusar-se a aceitar a sua realidade, tal como o Cerejal extenso e frondoso da propriedade que se apresenta florido apesar dos três graus abaixo de zero. «O nosso clima não favorece as coisas como deve ser», diz, a propósito, uma das personagens numa denúncia subtil e irónica dos novos tempos sociais e económicos. O Cerejal é, aliás, o grande protagonista, omnipresente nos quatro actos, sendo que cada um representa um degrau em direccção à sua queda, bem como a evidência da queda da família que o possui há gerações.
Uma nota para o quarto Acto com o fecho do inevitável círculo: retoma-se o espaço do início, mas agora com a casa aristocrata vazia e as janelas sem cortinas o que faz com que o pomar pareça estar no interior da habitação onde a morte ressoa forte. Esta ideia da inevitabilidade de um fim e a assunção de não haver esperança estende-se ao velho criado de 87 anos, que fica esquecido na casa e nela resolve ficar, solitário, triste, exangue, até morrer, também numa união à morte do Cerejal que chega pelo som do «machado a golpear contra uma árvore»... Ou aqui também ressuma a despedida de Anton Tchékhov encarando a realidade da doença, da decadência física e da aproximação inevitável da sua morte.
© Teresa Sá Couto
1 comentário:
Foi a Teresa que me levou a interessar-me por este tipo de textos. Concordo quando diz «estilete crítico e o carácter inquiridor que este género literário tão bem cultiva». Também por isso despertei para o Teatro. Você tem muitas magias mas devem estar sempre a dizer-lhe isso.
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