domingo, 16 de novembro de 2008

A «Erótica do Vinho»

No antigo Egipto, o deus Osíris usou-o para apaziguar os homens. Os antigos gregos puseram Dionísio a tutelá-lo. Os romanos reuniram-no sob o poder de Baco. Néctar de origem divina, com que se tenta explicar o inexplicável prazer que provoca no ser humano, o vinho é tema de fascinação, documentado desde a escrita mais antiga. É precisamente a viagem pela palavra que se deteve no vinho para lhe denunciar os seus efeitos, que encontramos no revigorante e singularíssimo «Erótica do Vinho» de Jean-Luc Hennig, chegado recentemente às livrarias portuguesas pela mão da Campo das Letras.

O livro é Composto por 30 curtas partes espargidas por 134 páginas, todas com títulos sugestivos que não logram a jornada. Também a classificação de Ensaio, que acompanha este «Erótica do Vinho», não é logro, porquanto é-nos apresentado um zeloso trabalho de pesquisa, inquirem-se os textos originais, constrói-se uma argumentação libertina e bem humorada, colocam-se questões ao leitor que as acompanha com sorrisos rasgados.

Logo a abrir, uma provocação: «Abstémio». Depois da definição do «puritano do vinho», esclarece-se que a abstinência só entrou em uso corrente no século XVIII, sendo Rousseau – que, ao que parece, gostava de copos – um dos seus defensores. Segundo aquele filósofo francês, «todos seríamos abstémios se não nos tivessem dado vinho na mais tenra idade», pois «a primeira vez que um selvagem bebe vinho, faz uma careta e regeita-o». Mas o que receava o virtuoso Rousseau? A fazer-nos lembrar o in vino veritas de «O Banquete» de Kierkegaard, onde se verificava que só os ébrios diziam a verdade, explica o texto: «o vinho liberta verdades escondidas, imprecisas, por vezes terríveis. Ele diz sempre mais do que se queria saber. Por isso alguns preferem não dar azo a dúvidas, acautelar a sua retaguarda custe o que custar, renunciar a si mesmo, enclausurar-se. A abstinência é uma religião, à qual alguém se entrega sempre de coração mais ou menos contrito.».

Portanto, continua o ensaísta, sobre a tagarelice do vinho, «basta um copo ou dois para soltar a língua», dando-se razão a Montaigne quando dizia que o vinho «desvela os segredos mais íntimos». Junte-se a isto a opinião de Saint-Preux: «Sempre notei que as pessoas falsas são sóbrias». Ora, argumenta-se, «o vinho não humidifica os corações secos. Apenas os corpos desamparados. Mas é uma opinião que do principio do mundo. Os maus são bebedores de água. Esquines disso acusará Demóstenes num célebre discurso que Baudelaire repetirá: Não é razoável pensar que as pessoas que nunca bebem vinho, naturalmente ou por sistema, não passam de imbecis ou de hipócritas?. Ava Gardner, a serpente sedutora de Mogambo, que assobia aos homens e bebe o uísque às goladas, resumiu perfeitamente as coisas: Pouco importa o ano, pouco importa a origem, todos os vinhos revelam o melhor de mim própria.».

«O vinho é uma alma plena de galanteria», segue Jean-Luc Hennig, claramente apologista da entrega ao néctar e contra toda a abstinência que considera «mortificação de alma». Detém-se na morfologia, odores e ardis, não esquecendo o «vinho de duas orelhas», expressão oriunda do recuado século XVII para classificar o vinho imprestável, o que faz abanar as orelhas de desagrado, em oposição à expressão «vinho de uma orelha», oriunda do século XVI, que desembocou na actual «detrás da orelha».

Sobre a «barafunda da alma humana quando convenientemente regada», o autor cita o matemático e geógrafo grego Eratóstenes: «O vinho tem uma força semelhante ao fogo, quando toma conta dos homens». Todavia, se «Quem bom vinho bebe, a Deus acede», como diz um adágio gaulês, «a embriaguês é um cataclismo», refere o autor na parte titulada «Diagonais»: «É verdade, a embriaguês é um desvio, um relâmpago, um zigzag. O seu trajecto é uma linha quebrada. “Não há nenhum homem sensível que não pare e não trema ao ve-los descrever uma linha circunflexa recurvada à roda”, escreve Louis Sébastien Mercier acerca dos bêbados. Pois, na bebedeira, as verticais irritam, e rodopia-se, volteia-se, dá-se com o nariz no chão e vê-se pular no ar triste/ as figuras mais profundas (Valéry)». E, definitivamente, argumenta-se, «a rua acaba por estar bêbada», como referiu Zola.

De autor em autor, e de história em história, num resgate à História dos homens, explanam-se práticas ligadas ao vinho. Delas, regista-se a prática, no século XVI – nomeadamente pelo Papa Paulo III, o instigador do Concílio de Trento, o Papa que confiou a Miguel Ângelo os frescos da Capela Sistina – de se banhar a genitalia com vinho, questionando-se: «Seria para os refrescar ou para os incendiar?».

Aliás, vinho e concupiscência perpassam todas as partes deste «Erótica do Vinho» com apontamentos deliciosos. «O vinho emite carnalidade», diz o autor reportando-se a asserções da Idade Média. E a argumentação, com base em Aristóteles, segue, engenhosamente:

Tudo vem «da espuma, do creme, do aphros, que se forma na superfície do vinho quando se verte, embora se encontre mais no vinho tinto do que no branco, pois é mais quente e encorpado. E se o vinho é espuma, é porque ele contém vento, um pneuma dotado de força, um principio de calor, de movimento, de dilatação que faz borbulhar também a atrabílis da melancolia. É por isso que os bêbados se tornam tão lascivos e luxuriosos como os melancólicos. O amor tem, ele próprio, a natureza de vento. A prova é que o membro viril entumece e engrossa inchando-se de vento. (…) Este aphros borbulhante, esta generosa espuma do vinho é pois a mesma de Afrodite, nascida do esperma do mar e figura espumosa do prazer.».

© Teresa Sá Couto

2 comentários:

Bruna disse...

Olá,
Sou Bruna Pallini, trabalho na Edelman, agência de comunicação da Jorge Zahar Editor.
O vinho é uma das bebidas que mais desperta paixão nas pessoas, a cada taça e a cada momento. Mas é preciso conhecê-lo bem para não ser enganado. Você já leu a história "O vinho mais caro da história"? Acho que você vai gostar! http://www.zahar.com.br/catalogo_detalhe.asp?id=1190&CLIP=1
Parabéns pelo seu blog! Visitarei mais vezes.
Abraços!

Teresa disse...

Olá Bruna. Não, não conheço o título que aqui referencia.
Obrigada pela visita. Volte sempre.
Um abraço
TSC