sábado, 20 de junho de 2009

O desaforo da escrita de José António Barreiros

Há um homem por detrás de um fragmento de vidro. Olha fixamente a realidade e, cansado de a ver, congemina o que fazer com ela. Pela acção do olhar fixo, o fragmento de vidro estilhaça-se em dezasseis fulgurantes luminescências de um caleidoscópio chamado Contos do Desaforo. O homem da singular urdidura é José António Barreiros e o livro que aqui referencio é de 2007 e é a sua estreia nas paisagens que «a imaginação escreve e a fantasia ilustra».

«Só escreve quem vê. Só vê quem afasta (e se afasta)», diz Gonçalo M. Tavares no prefácio, referindo-se ao método utilizado por José António Barreiros. E é esse jogo de movimentos de proximidade e afastamento da realidade que encontramos nas curtas narrativas que ousam xeque-mates de desaforo contra o lugar comum e a apatia. São dezasseis olhares insubmissos pintalgados de humor insuperável, para uma leitura imperdível.

«A única coisa de que preciso para ser feliz é de tempo. Muito tempo», lê-se no primeiro texto, distinto dos que se lhe seguem, pois é esculpido em jeito de justificação ao leitor sobre «a necessidade de contar». E são de tempo as narrativas, de tempo e dos arranques sem razão de que é feita a vida que é feita de tempo. Mas o que tem para nos contar o autor? Conta-nos que todos somos, num qualquer momento, intrusos no nosso lugar, que todos temos um armário, com mais ou menos gavetas, «imóvel e disponível» e uma vontade desmedida de desarrumar o mundo para, à nossa maneira, o podermos arrumar nas gavetas do nosso armário, assim aprisionando a realidade, fugaz e passageira, ou a ilusão dela.

«Um dia, o céu e a terra unir-se-ão numa cratera fatal. Até lá, eu escrevo isto, pensando na eternidade, como se nisso acreditasse», diz o autor e explica a «escrita obsessiva e simultaneamente necessária e inútil»: «Sem ela eu não teria um mundo que vivesse, devorado pela monotonia do óbvio, pela materialidade do evidente. E, no entanto, descontado um ou outro encantamento que isso provoque, nada mais volátil do que as palavras que aqui ficam, como um perfume que um momento de rua faz evanescer. No fundo, é uma escrita de nada, manuscrita em folhas de coisa nenhuma. Mas haverá mais substância no real do que esta, que não existe?»

Afastando-se da realidade para a apreender - «estar longe é isso mesmo, é verem-se apenas as grandes coisas» - José António Barreiros edifica o «sonho de uma casa de papel» e o leitor constrói a ilusão de nela se encontrar. É a luta com o tempo e a necessidade de se ser algo nele.

A semelhança com o real é mera ilusão

«Cruzo-me comigo em cada página, às vezes fingindo não me ver», diz o autor em nota introdutória, esclarecendo que escondeu «muito quotidiano, ficcionando-o, para parecer plausível». Munido de uma escrita elástica, capta acontecimentos correntes, personagens em trânsito, entre o ser alguma coisa e coisa nenhuma, aprisiona a fugacidade: «há, nos encontros fugazes, a força do desejo: neles se concentra a vontade de encontrar».

Também o leitor se cruza consigo ao encontrar-se com as personagens e com a ironia do olhar que capta a comédia humana:
«Fazem assim as famílias. Atestam os carros de malas e de miúdos, guardam zangas para a viagem e coisas fundamentais de que se esquecerão. Entre o parar para vomitar, que eles são pequenos, e para urinar, porque ela é velha, lá vão galgando quilómetros, para voltarem estafados de terem ido».

E lá está o encontro com a mulher que não consegue entender porque não pode deixar em testamento a parca reforma às suas galinhas, minudências afectivas incomportáveis num documento do Direito; com o professor de liceu que vem numa camioneta para Lisboa e regista a azáfama galhofeira de duas viajantes com o seu pacote de bolachas; com o réu silencioso que só nas alegações finais resolve discursar para mostrar que ao ouvir a convicção de quem o acusa convence-se do seu crime: «Se um homem se condena por não saber resistir à veemência dos que o acusam, se a verdade é a força da convicção com que é dita e proclamada, condenara-se.».

Reputado advogado criminalista, José António Barreiros saltou para o mediatismo da nossa aldeia por defender Vale e Azevedo, Pimenta Machado ou José Castelo Branco. Sobre a sua intervenção pela escrita de ficção, o autor diz num dos seus blogues que «se o editor o consentir e tiver leitores, comecei já um segundo volume». Aguarda-se. «Na representação cómica que é a vida», todos somos «arrumadores de almas», e esta escrita desafia-nos a arrumar as nossas gavetas ou a termos a ilusão disso, o que é a mesma coisa.


Outros blogues de José António Barreiros, aqui e aqui

Contos do desaforo, José antónio Barreiros; Editorial Presença, Lisboa 2007


© Teresa Sá Couto

4 comentários:

JAB disse...

Bom dia. O Google avisou-me, amigável, deste seu texto crítico. Muito obrigado por me ter lido. As referências aos blogs são agora a planetas mortos a vogarem no ciber-espaço, pois cessei essa escrita. Vejo através do que viu que tinha prometido um segundo volume. Será que o farei? O editor preveniu-me na ocasião: não escreva contos, ninguém os lê. A Teresa leu. Fico feliz.

Teresa disse...

Olá, JAB.
Pois. Recuperei este texto porque acho os seus contos magníficos, além de que me lembrei dessa promessa de novo tomo...
E andei eu aqui à procura do seu endereço, para o avisar (não sei onde o guardei)! O Google foi bem mais eficiente!!

Um abraço
Teresa Sá Couto

Artur Duarte disse...

E eu atrevo-me a dizer que a TSC leu e faz uma critica que é mais um apelo e uma motivação imediata à leitura "O desaforo da escrita" de JAB, parabéns aos dois.

Teresa disse...

No que me toca, obrigada, Artur Duarte!
É fácil escrever sobre leituras que nos rejubilam.

Um abraço
TSC