quinta-feira, 25 de junho de 2009

«Mulher e arma com Guitarra Espanhola»


Texto pronunciado na sessão do lançamento, a 18 de Junho de 2009, na livraria da Assírio & Alvim  da Passos Manuel.


Dez mil dólares. É esta a munição e o disparo de Mulher e Arma Com Guitarra Espanhola, o último livro da trilogia Dennis McShade, pseudónimo de Dinis Machado, escrita entre 1967 e 1968, agora reeditada pela Assírio & Alvim. À maneira do humor “machadino”, são dez mil dólares para o fim de uma saga escrita num ano por vinte contos de réis.

E se o leitor, que leu os anteriores Mão Direita do Diabo e Requiem para Dom Quixote, se prepara para mais um tomo irrepetível, não divisa, todavia, a surpresa da nova leitura, nem que acatará com um sorriso a sentença maynardiana: «o homem que se surpreende não é adulto». Tanto mais que o espanto terá novo episódio no perturbador Blackpot, um inédito a editar no fim do ano.

Por causa de dez mil dólares, o escrupuloso assassino profissional Peter Maynard embaraça-se numa organização nazi americana; para os descobrir, recebe o Contrato; devido a eles, desenvolve novas estratégias de sobrevivência; na peugada deles, confronta-se com a sua consciência; motivada por eles, a palavra detém-se na realidade, num engajamento social, filosófico, político e até lírico: «as palavras servem para muita coisa. Com elas, podem encher-se sacos de silêncio.».
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Tudo isto é muito estranho para um policial? É. Mas é precisamente devido a esta genial estranheza que estes livros de bolso, a disfarçar a fina literatura, não envelhecem.
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Dinis Machado apostou transformar o policial negro e «a transformação operou-se», como o próprio escrevia na Nota do Editor: «o género policial, que se bastava com uma só face da realidade, quantas vezes apenas aparente, tende a desdobrar-se em vários planos, procurando pistas de vida em todas as direcções que a vida tem».

Se toda a realidade está na mente do observador, em Peter Maynard, o intelecto é a vigília. De forma assombrosamente natural, surge uma estética literária a evidenciar a autonomia de Dinis Machado face às regras dos policiais que, aliada à autenticidade – na sua visão da natureza humana e das mutações do mundo – legitimam o valor artístico da obra e conferem-lhe o carácter vanguardista, que se mantém, quarenta anos depois.

Como o título deixa lobrigar, neste Mulher e Arma Com Guitarra Espanhola impera o feminino: Peter Maynard, o «mão direita do diabo» que usa pistola e silenciador, que tem um negócio privado e a vaidade de escolher os contratos que faz, recebe o contrato «Nora», mulher de um malandro, «homem de uma baixeza quase integral» e um fatalismo “dostoiewskeano”, que contrata um assassino profissional para a eliminar, o qual desaparece com o adiantamento de dez mil dólares sem executar o trabalho.

Um «problema de alcova», marca pusilânime do homem, o que agasta Maynard, que defende que «Para andar direito na vida, qualquer homem precisa da sua costela espartana»; feminina é, também, a arma espanhola que o ataca, uma navalha de ponta e mola com uma longa tradição em questões passionais e vinganças; a comandar as operações está, desta vez, uma mulher, e até Sinatra no gira-discos é destronado pelas guitarras de Segóvia e de Yepes. E, claro, há sempre a presença de Olga, a única mulher do mundo com a qual Peter Maynard tem «questões de pele eternamente por resolver», nos braços da qual se sente mar. Indubitavelmente, Maynard encerra uma tese, agora engenhosamente robustecida, sobre o feminino, nos seus múltiplos e insondáveis enigmas: mulher, o céu e o inferno, o alento e a debilidade, o afago e a traição, Penélope e Circe.
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O conflito de uma consciência

Paradoxais e inéditos são, ainda, os monólogos maynardianos, desta vez difundidos por sonhos. Maynard, «um assassino profissional específico. Um assassino profissional com consciência. Um conflito vivo» que, por isso, tem uma úlcera que «vai e vem. Como os barcos», é levado «pela outra úlcera, a que não pára e vive nos miolos. Uma merda chamada cosa mentale pelos intelectuais sofisticados.».

O drama interior da consciência em monólogo consigo irrompe em fragmentos dispersos e desfigurados do real, ordenados caoticamente, prenhes de sentidos “sem-sentido”, à maneira de Kafka. E porque a consciência de Maynard tem um compromisso activo com o mundo, os monólogos fluem no questionamento da existência humana, dão eco à consciência funda de alienação e angústia, juntam, no teatro do absurdo, pantomina em palco, as nostalgias, a futilidade, o erotismo, o irracional, a dor, o riso, o grotesco e tudo o que em nós acorda o número do palhaço.

Em jogos cénicos, onde convivem o drama humano e o humor irónico e satírico, surge-nos Maynard, no bar vermelho de bebidas vermelhas chamado «As vinhas da Ira», onde os convivas têm nomes de escritores como Zola, Baudelaire, Marx, Neruda, onde até Aristóteles é amigo de Picasso, onde Maynard escolhe ser Confúcio ou Branca de Neve, revê a infância, a morte do pai, e confronta-se com os seus fantasmas; ou Maynard no fundo do poço, no eterno combate contra a parede que o quer esmagar, que é, afinal, o combate contra a escuridão da existência, como o é, ainda, o veiculado por esta literatura iluminada.


* Nota: Disponível há cerca de dois meses, este Mulher e Arma Com Guitarra Espanhola é o ensejo para um conjunto de actividades de homenagem a Dinis Machado, falecido em Outubro último: o livro foi oficialmente apresentado dia 18 de Junho, na livraria da Assírio & Alvim e, no final do mês, as honras mudam-se para o Bairro de Dinis Machado, com tertúlia na Fnac do Chiado. O texto que aqui se edita foi o pronunciado na sessão do lançamento.

Nota: Este texto está editado, desde dia 22 de Junho no renovadíssimo site Orgia Literária.
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© Teresa Sá Couto

6 comentários:

Rui Herbon disse...

Teresa, não era para fazer propaganda. Imagina que alguém leva isso a sério e ainda nos envia um cartapácio para ler nas férias? :)
Beijinhos,
Rh+

hb disse...

Pedimos a todos os blogues que se unam à solidariedade com o povo hondurenho e que ajudem a romper o bloqueio informativo sobre o que se passa naquele país. Publiquemos este comunicado e divulguemo-lo entre os blogues amigos. Alerta que caminha a espada de Bolívar pela América Latina!

Este blogue condena o golpe de Estado nas Honduras e solidariza-se com o povo hondurenho e com o legitimo presidente Manuel Zelaya. Nesta madrugada, um grupo de militares golpistas invadiu a Casa Presidencial e sequestraram o presidente daquele país. A ministra hondurenha dos Negócios Estrangeiros e os embaixadores de Cuba, da Venezuela e da Nicarágua foram sequestrados à margem da convenção internacional que protege e dá imunidade aos diplomatas. Os militares ocuparam as ruas e avenidas das Honduras. Ocuparam os meios de comunicação social e cortaram a distribuição de electricidade.

Esta foi a resposta da oligarquia à vontade do governo de convocar uma consulta popular para abrir uma Assembleia Constituinte que tomasse o povo hondurenho como protagonista da sua própria história. Manuel Zelaya pagou o preço de ter decidido seguir o caminho de uma verdadeira democracia. O golpe de Estado é tão ilegítimo que a Organização dos Estados Americanos e a União Europeia já condenaram aquela acção. Manuel Zelaya foi eleito pelo povo hondurenho em 2005 e o seu mandato termina no próximo ano.

Todos recordamos o golpe de Estado contra Salvador Allende e o povo chileno. Os militares liderados por Pinochet e pela CIA afogaram o Chile em sangue. Todos recordamos o golpe de Estado executado pela oligarquia venezuelana com o apoio do imperialismo contra Hugo Chávez e o processo bolivariano. Foi derrotado pela acção do povo venezuelano. E esse exemplo ecoou por todos os países da América Latina que nestes últimos dez anos decidiram seguir esse exemplo.

Portanto:

1. Exigimos o respeito pelo mandato do presidente Manuel Zelaya
2. Respeito pela vida e liberdade do governo, de todos os seus apoiantes e dos diplomatas
3. Respeito pela decisão de abrir um processo de consulta popular para constituir um referendo para constituir uma Assembleia Constituinte
4. Um apelo a que os militares estejam do lado do povo, do governo por ele eleito e não do lado da oligarquia e do imperialismo
5. Um apelo à unidade latino-americana em torno de processos democráticas que tenham os povos no centro do poder
6. Que o governo português condene de forma clara o golpe de Estado
7. Que a comunicação social portuguesa apresente as informações sobre os acontecimentos nas Honduras de uma forma objectiva

Rui Herbon disse...

Teresa, achas que isto nas Honduras foi o Maynard? rsrsrs

Teresa disse...

Bom, Rui, tendo em conta os valores éticos de Maynard, nesta altura estará a trabalhar para o povo e sem cobrar nada!
Se assim for, podemos contar com «obra limpa, completa, em profundidade e extensão»...eheheh

que jeito nos dava uns Maynard!

Bjinhos
Teresa

Laura disse...

Já não sei como vim aqui dar mas a blogosfera é assim mesmo.
Voltarei; gostei do seu espaço.
Laura

Teresa disse...

Obrigada, Laura :)

Teresa Sá Couto